quinta-feira, agosto 02, 2007

EPITÁFIO-TRAVELLING, M.A. (1912-2007):




Comparativamente a Bergman, a minha relação com o cinema de Antonioni era menos forte. Ou, pelo menos, é essa a minha convicção, facilmente abalável quando me recordo de obras tão poderosas como "La Notte", "Il Deserto Rosso", "Blow up", "L'avventura" e "Zabriskie Point" (estes últimos os meus três favoritos). Antonioni é um caso invulgar na história do cinema por se tratar de um realizador que, apesar de uma vida e uma carreira muito longas (passaram-se 61 anos entre "Gente del Po" e o episódio de "Eros"), tem as suas principais obras-primas concentradas numa só década, os anos 60. É claro que entra aqui uma importante dose de opinião pessoal: considero os seus filmes a partir de "Professione: Reporter" (inclusive) inferiores aos que acima citei.


Foi gratificante ler que Augusto M. Seabra considera "Zabriskie Point" uma das obras mais subestimadas da história do cinema. Vi este filme na adolescência, na RTP, e na altura marcou-me com intensidade. Faz parte daquele conjunto de filmes em relação aos quais, por uma questão de curiosidade algo mórbida, me pergunto se resistiriam a um segundo visionamento tanto tempo depois do primeiro. (Curiosamente, revi recentemente a cena da explosão no deserto que faz parte deste filme, numa conferência de Delfim Sardo.)


Um dos comentários mais oportunos que li sobre os desaparecimentos de Bergman e Antonioni foi da autoria de Fernando Lopes, que afirmou (cito de memória) tratar-se do fim de uma certa ideia de cinema. De facto, juntamente com Resnais (felizmente ainda vivo, mas para quando seu último filme em salas portuguesas?), Fellini, e mais um punhado de realizadores, Bergman e Antonioni personificavam um cinema de autor com impacto e significado ao nível do grande público, caixa de ressonância do mundo contemporâneo e das suas contradições. Aos seus sucessores (penso em Moretti, Wenders, von Trier, Almodóvar, entre outros cujo programa passa pela coexistência entre a exigência artística e a vontade de alcançar uma audiência significiativa) não falta necessariamente talento; falta, isso sim, o prestígio e a relevância que outras gerações atribuíram ao cinema. Não têm culpa da trivialização a que o cinema tem vindo a ser condenado, da sua subalternização relativamente a formas massificadas de distribuição de imagem em movimento.


Uma das razões pela qual o falecimento, no mesmo dia, destes dois cineastas foi uma amarga ironia do destino foi a maneira exemplar como cada um deles ilustra duas das principais correntes do cinema mundial das últimas décadas. Bergman pertence à linhagem daqueles, como Buñuel, Fellini, Lynch e (até certo ponto) Tarkovsky, que privilegiavam a transposição de fantasmas e obsessões pessoais para a tela, e a tradução pictórica do seu universo pessoal. Quanto a Antonioni, a sua abordagem analítica e impessoal aparenta-o a Godard, Resnais, Greenaway e Bresson. (Claro está que esta classificação se afigura problemática em muitos casos: de que lado da trincheira se poderiam colocar Pasolini, Fassbinder...?)


(Na imagem, David Hemmings em "Blow up".)

segunda-feira, julho 30, 2007

EPITÁFIO COM LANTERNA MÁGICA (1918-2007):


Quando se trata de um grande homem, a morte é sempre inesperada e ultrajante, quer ocorra aos 89 anos ou aos 49 anos. Nem a idade, nem a ordem natural das coisas, nem a inevitabilidade, nem a doença são capazes de mitigar o desgosto.


A importância da obra de Bergman é imensa. Não vou ofender as dezenas de obras-primas que ele realizou com uma pobre tentativa de exprimir essa importância em quatro ou cinco linhas.


Na nossa televisão, alguém teve a infeliz ideia de chamar a Bergman "o poeta do cinema", e dedicaram-lhe hoje pouco mais tempo do que a uma sucata clandestina que foi descoberta em Sobral de Monte Agraço.


(Na imagem, Ingrid Thulin e Max von Sydow no meu filme preferido de Bergman, "O Rosto". Retirada daqui.)

domingo, julho 29, 2007

REPUTAÇÃO: José Manuel Fernandes remata a sua crónica do "Público" de sábado passado do seguinte modo: «Mesmo sem apreciar literatura mágica, mas curioso por perceber o que cativou milhões de adolescentes e jovens, não sei se, depois de um ano muito cansativo, não levarei para férias os sete volumes de Harry Potter adiando, mais uma vez, a entrada noutros sete volumes: os de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Mesmo que à custa da minha reputação intelectual na implacável blogosfera.» Em primeiro lugar, não se me afigura que a reputação intelectual de José Manuel Fernandes seja um dos tópicos de predilecção dos bloggers nacionais ou estrangeiros. Verdade seja dita, porém, que sou um leitor de blogs superficial, e não posso excluir a existência de numerosos recantos do ciberespaço (incluindo, quiçá, fóruns, comunidades no MySpace e províncias inteiras do Second Life) onde a envergadura intelectual de José Manuel Fernandes é objecto de debates electrizantes. Em segundo lugar, não me parece que José Manuel Fernandes deva temer repercussões negativas deste seu ousado desabafo. Neste país que é o nosso, onde um termo como "bem-pensante" ganhou aura pejorativa, privilegiar a cultura popular sobre a dita "alta cultura" muito dificilmente será visto como uma confissão de frivolidade; muito pelo contrário, esse tipo de confissão mais depressa será encarado como um suculento desafio ao politicamente correcto, e o seu autor como um iconoclasta dotado da virtude de não se levar a sério. Em terceiro lugar, julgo que estas inocentes negaças ao gosto dominante põem a reputação intelectual de José Manuel Fernandes menos em risco do que dislates como este (do editorial do "Público" de 24/7, a propósito das eleições legislativas na Turquia, negritos meus): «Os eleitores deram mais atenção a estes argumentos do que aos dos seus adversários, pelo que o voto de domingo foi um duro golpe para os militares, que, ao longo de décadas, garantiram o legado laico do Estado que Ataturk fundou sobre o modelo francês. Ou seja, sobre um modelo em que o Estado não é apenas independente da religião ou religiões, mas em que limita o espaço das religiões. Mesmo assim o voto de domingo não acaba com a polarização da sociedade turca, que se agravou nos últimos meses, pelo que o primeiro desafio do reeleito Erdogan passará por apaziguar as tensões entre secularistas e crentes, de forma a permitir que, do modelo francês, a Turquia possa evoluir para o anglo-saxónico, onde o Estado é laico mas não anti-religioso.» Lê-se e não se sabe o que mais admirar: se a mirabolante ideia de um modelo francês de Estado anti-religioso (própria de quem aprendeu a história da França por meio de fascículos piedosos com estampas coloridas) se a sugestão, não isenta de uma certa comicidade, de que a Inglaterra possa ser vista como um exemplo a seguir em termos de laicidade. É este apetite pela distorção dos factos que preocupa, da parte do director de um dos diários portugueses de maior tiragem, e não a inócua veleidade de passar as férias mergulhado nas aventuras de um jovem feiticeiro de óculos de aros redondos.
A PACIÊNCIA, MAIOR VIRTUDE DO CINÉFILO: Decididamente, escasseia-me a paciência para tentar penetrar os desígnios das distribuidoras de cinema. No site da Atalanta, eis que vários filmes deveras prometedores passaram da secção "Próximas Estreias" para "Brevemente", o que é tanto mais inquietante quanto o historial recente desta distribuidora já demonstrou quão elásticos podem ser os limites temporais deste termo. Falo, mais concretamente, dos filmes de Hou Hsiao-Hsien e de Kaurismäki, falo de "Peindre ou Faire l'Amour", dos irmãos Larrieu. É certo que alguns dos filmes que, vindos do nada, ocupam agora a secção "Próximas Estreias" são também de molde a despertar abundantes salivações cinéfilas: Tsai-Ming Liang, Emmanuelle Cuau (com a soberba Sandrine Kiberlain; vi um interessante filme desta realizadora em Paris, "Circuit Carole", com a rivetteana Laurence Côte), Iosseliani (se bem que este "Jardins en Automne", que já vi na Cinemateca, me pareça pouco acrescentar à obra do autor georgiano). Mas a questão não é essa. O que está em jogo aqui é a recorrente falibilidade das previsões da Atalanta sobre as datas de estreia dos próprios filmes. É uma questão de respeito pelo espectador, que assim se vê na contingência de implorar ao façanhudo deus das salas de cinema a dádiva de poder ver o filme há muito antecipado a partir da data que foi anunciada. Terá de passar muito tempo até que eu me esqueça de "Manderlay", anunciado durante meses e que acabou saindo directamente em DVD. São amargos de boca como este que me tornam céptico quanto à sobrevivência do cinema em salas, excepção feita à Cinemateca, por um lado, e aos blockbusters, por outro. Receio que o futuro da relação entre o consumidor e o cinema com um mínimo de pretensão artística passe essencialmente pelo DVD e por canais de televisão especializados (já é isso que sucede fora dos grandes centros urbanos) e pelo aluguer directo via Internet. (Ontem tentei ir ver "Juventude em Marcha" no Nimas, mas as sessões tinham sido canceladas, ao que parece por falta de autorização para a exibição do filme. Talvez isto tenha contribuído para este meu desencanto.) Naturalmente que concentro estes meus reparos na Atalanta porque seria ocioso estar a dirigi-los aos seus concorrentes. O "Die Hard 4" não é para aqui chamado.
MENTE FELINA: A gatinha Goneril e o gatinho Jasmim têm, cada um, as suas obsessões muito pessoais e intransmissíveis. Uma das poucas obsessões que partilham é pelas pratinhas de bombom. Podem ser bombons Garoto. Eles não discriminam marcas.


segunda-feira, julho 23, 2007

FALSA MEMÓRIA?: Recordo-me de ter ouvido dizer que uma das razões que Sartre alegou para recusar o Nobel foi o facto de este nunca ter sido atribuído a Pablo Neruda (que viria a ganhá-lo em 1971). Nunca mais voltei a ouvir esta história. Terei inventado isto? Terei feito confusão?
DISSE ELE: Há lá maior desafio do que viver uma vida decente?

domingo, julho 22, 2007

A RONDA DA NOITE(1):









Diz-se que gostos e cores não se discutem... Por norma, discordo: não só os gostos se discutem, como discutir cores pode ser um dos passatempos mais indispensáveis a uma vida sã e preenchida. Casos há , porém, em que discussões desta índole me parecem enfadonhas de tão dispensáveis. Por exemplo, as argumentações relativas ao primeiro lugar do pódio da ficção portuguesa actual, por norma açambarcadas por antuninos e saramaguianos pletóricos, perdem razão de ser a cada novo livro de Agustina Bessa-Luís que sai para o mundo. Agustina é o maior talento da prosa narrativa portuguesa dos últimos 100 anos, e não vejo quem, além de Vergílio Ferreira, lhe poderá ser comparável em profundidade e ambição artística, argúcia, manejo da língua e versatilidade (para não falar da produtividade). É forte a tentação que sinto de mandar às malvas qualquer objecção quanto à subjectividade de um julgamento deste tipo. Romances magníficos de inteligência e liberdade como "A Ronda da Noite" tornam esta evidência demasiado límpida para que se perca mais tempo com a questão.
PLANO NACIONAL DE RELEITURA: Recebam a minha gratidão, autores do Cine-Australopitecus e do Design do Dasein, por se terem lembrado de mim. Como não vejo qual o interesse que poderia ter a lista dos últimos 5 livros que passaram pelas minhas mãos, prefiro elencar 5 dos livros que ambiciono reler num futuro não demasido remoto. (Não que esta lista possa, mais do que a outra, ser de molde a despertar paixões, mas pelo menos compromete-me perante o mundo.) "Margarita e o Mestre", de Mikhail Bulgakov. O título deveria ser "O Mestre e Margarita"; nunca saberei por que motivo o tradutor português inverteu a ordem dos termos. (A propósito, Rogério, afinal as notas de rodapé com explicações sobre trocadilhos no original russo são escassíssimas, ao contrário do que a minha claudicante memória me sugeria.) Para além de ser uma das histórias de amor mais improváveis e exaltantes da história da literatura, passar muitos anos sem recordar a passagem do diabo por Moscovo é nocivo a tudo o que seja órgão, sistema e víscera. "The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman", de Laurence Sterne. Li-o demasiado jovem; impõe-se uma segunda dose. A ousadia não deve, só por si, ser uma virtude nas artes, mas pode ser um dos principais auxiliares do génio. Dá ainda que pensar o facto de este prodígio de invenção e humor, repleto de convoluções narrativas e retóricas, ter sido redigido no século XVIII e ter tornado o seu autor famoso. Bela negaça ao lugar-comum do autor incompreendido no seu tempo e exaltado pelos seus vindouros. "Ulysses", de James Joyce. Passou, julgo, suficiente tempo desde a última leitura para que a próxima se assemelhe à primeira, o que acarreta um deleite ímpar que me entretenho (perversamente?) a antecipar. Talvez desta vez seja de evitar a controversa edição revista por Hans Walter Gabler. "La Vie Mode d'Emploi", de Georges Perec. Se alguém, alguma vez, me pedisse (isto nunca aconteceu) para me definir em X palavras, ofereceria a essa pessoa um exemplar de "La Vie Mode d'Emploi". Não só seria a atitude mais correcta e menos morosa, como seriam elevadas as probabilidades de fazer um novo amigo. "Ficções", de Jorge Luis Borges. Antes de ter nas mãos pela primeira vez este livro, as referências que dele me chegavam faziam-me supor um calhamaço com centenas de páginas. Lendo-o, maravilhou-me esse talento quase sobrenatural de Borges para sugerir os abismos do infinito por meio da brevidade, da alusão, da elipse e de um comedimento vagamente cabotino. Será essa a sensação que esperarei reencontrar quando encetar a releitura. O facto de "Pierre Menard, autor do Quixote" ser um dos textos mais subtis e empolgantes que conheço não é detalhe de importância menor. (Ah, e não passo a ninguém este desafio, nem o original que declinei. Talvez seja caturrice minha, mas acho que a blogosfera estaria mais fresca e airosa sem estes memes, versão mais sofisticada e tongue-in-cheek das cartas em cadeia exortando à oração a São Judas Tadeu.)
EU CÁ APOIO LUÍS FILIPE MENEZES: Um homem que foi capaz de afirmar, no rescaldo do referendo sobre a legalização da interrupção voluntária da gravidez, ter-se tratado de uma grande derrota para Jósé Sócrates, e isto sem ceder a uma gargalhada, merece maior protagonismo na política portuguesa. Amiúde, é nesta zona cinzenta que faz fronteira com a estultice e com o desplante que se encontram os líderes de excepção, capazes de conduzir uma nação à glória, ou pelo menos a um descalabro glorioso.
OUT, DAMNED SPOT!: "Macbeth" revisitado numa máquina de lavar Siemens. Acto 5, cena I.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem lia Cesário Verde na linha amarela do metropolitano. Seria esta uma ocasião de ouro para um daqueles trocadilhos de bazar que abundam em certas paragens, e que os leitores habituais deste espaço já sabem não ser o tipo de coisa que esperam poder encontrar aqui.

quarta-feira, julho 18, 2007

ENLACE-SE: Tem nome de filme e abundância de versos. Gosto mais de "Paris" do que de "Texas", mas quando os dois se juntam coisas simpáticas costumam acontecer.

segunda-feira, julho 16, 2007

FAIRE SIGNE:



Este é um dos "quadros negros" de Goya, um dos catorze que ele pintou nos seus últimos anos, nas paredes da "Quinta del Sordo". Muito menos conhecido do que "Saturno devorando o seu filho", é, para mim, muito mais poderoso e impressionante. Tal como aos restantes "quadros negros", Goya não lhe atribuiu um título. Chamaram-lhe "Um cão lutando contra a corrente"; mais tarde, simplesmente, "Um cão". Encontra-se hoje no museu do Prado.

Daniel Arasse, no seu livro "Le Détail", defende que, neste quadro, Goya fez da virtualidade o próprio sentido da obra. E mais afirma:

«Ainsi conçu, le symbole énonce le sens comme une virtualité de l'image, force et puissance active dans cette image, qui échappe cependant à toute explicitation où s'abollirait la présence de l'image et où triompherait un discours dont l'image ne serait que l'équivalent visuel. Le sens intime d'Un chien pourrait bien être ainsi inhérent à l'œuvre elle-même, en être une «inhérence indéchirable» (...). Le sens de l'œuvre pourrait être l'œuvre elle-même, présence d'un objet signifiant, rendu énigmatique par l'opacité même de la peinture qui y fait signe.»

Olhando para este quadro, fico com a impressão de que quase tudo o que importa na história da pintura passa por aqui. (E talvez não só da pintura, e talvez à mistura com algo da ordem da paixão.)
ESTREITEZA DE VISTAS 1 BOM SENSO 0: Por vezes, sentimo-nos tentados a nutrir a ilusão de que a responsabilidade e a coragem política vão falar mais alto do que a tibieza e a pusilânime tentação do compromisso. O inevitável amargo de boca que se segue tem o travo detestável do hábito e da fatalidade. A versão mais rigorosa (mais "hitleriana", ou mais "fundamentalista", dirão os histéricos do costume) da lei de interdição do tabaco em espaços públicos tinha tudo a seu favor: o bom senso, a opinião pública, dados recentes que indicam valores impressionantes para o número de mortes anuais devidas ao fumo passivo. Tudo a seu favor? Erro! Tudo, menos a proverbial tacanhez de espírito dos legisladores portugueses e o seu apetite atávico pela acomodação, pelo arranjismo e pela cedência ao compromisso. O resultado líquido das derradeiras manobras nos bastidores de São Bento foi uma lei mais complicada, que vai claramente ao arrepio da tendência geral na Europa Ocidental, e que se arrisca a, depois de tanto alarido e ranger de dentes, deixar quase tudo na mesma, no que toca ao consumo de tabaco em bares e restaurantes: com efeito, ninguém ignora que os estabelecimentos com menos de 100 metros quadrados, onde continuará a ser permitido fumar excepto se os proprietários decidirem em contrário, estão em larguíssima maioria. A partir de 1 de Janeiro, cá estaremos para ver quantos destes passam a interditar o tabaco. Palpita-me (fica prometido o devido acto de contrição caso me engane) que serão poucos, para gáudio dos arautos da pseudo-liberdade de escolha, que nunca hesitaram em recorrer aos argumentos mais escabrosamente ridículos para vociferar contra qualquer lei que os privasse do direito de poluir o ar alheio com o agente que é a maior causa de morte evitável no mundo ocidental. Os vindouros hão-de ver nesta lei pouco mais do que uma supérflua etapa intermédia rumo a regulamentações mais restritivas, que não tardarão a surgir à medida que os contornos reais deste problema de saúde pública se forem tornando cada vez mais nítidos. Entretanto, as mortes e horas de trabalho perdido por via da exposição ao fumo alheio continuam dentro de momentos. Com a cumplicidade daqueles que malbarataram esta oportunidade.

domingo, julho 08, 2007

ANÚNCIO DE ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADO PERDIDOS:
Paredes, muros, cercas,
na vossa singeleza plana e monócroma,
não lamentais a singular falta
de anúncios,
especialmente
anúncios de gato perdido inventados?
Eles costumavam ser tantos e
tão repletos
de brincalhões cambiantes verbais.
A paixão pelos bichanitos
engolidos pela ingrata paisagem urbana
de Lisboa
emanava deles
como luz de um candeeiro a gás,
quer dizer suave mas perene.
O seu fluxo de dizeres
angustiados e esperançosos
e de focinhos atrevidos
fotocopiados a preto e branco
era parte dos meus dias.
(Talvez a melhor parte deles.)
Fui todos esses donos
e todos esses felinos
que estranhavam o asfalto
húmido de chuva e óleo.
Decorei números de telemóvel,
algarismos resplandecentes
de significados,
de promessas de reencontro
num qualquer canto macio de lar aquecido.
Em todos esses reencontros estive presente
mesmo naqueles que nunca aconteceram.
Nada
do que as paredes dizem
agora me desperta.
Talvez todos os gatos perdidos da cidade
tenham sido encontrados.
Talvez haja gatos, mas não
as palavras destinadas
a evocá-los,
nesta cidade demasiado mesquinha
para ser fatal.
BERLIN, CHAMISSOPLATZ: Sim, Chamissoplatz diz-me muita coisa, por acaso. Lembra-me um trecho do filme de Thome que ficou gravado numa cassete VHS, entre outros dois programas. Hanns Zischler cantava, acompanhando-se ao piano, uma canção longa e bela, para uma personagem feminina. Ou seria ela que cantava para ele? Recordo-me (mas a memória é um processo que nem precisa de malícia para ser traiçoeiro) de um travelling longo e circular no interior de um apartamento berlinense. E é tudo.

Tenho saudades dos filmes de Rudolf Thome. Houve tempos em que chegaram a ser mostrados assiduamente nas salas de Lisboa ("O Filósofo", "Amor à Primeira Vista") e na RTP. Agora, tornou-se quase impossível vê-los. Tive ainda a sorte de ver e gravar algumas das suas obras enquanto estive em França ("The Sun Goddess", "Tigerstreifenbaby Wartet Auf Tarzan"), e de ver, em estreia, "Paradiso" (que, por sinal, me desiludiu). Tenho profunda admiração pela maneira aparentemente simples e plácida como desconstrói as relações humanas, pela sensualidade quase pueril com que este cineasta de actores filma os seus actores. Em Thome, o acto de filmar tem tudo de subversivo e nada de provocatório ou agressivo.

O meu filme preferido deste realizador trata (um pouco atipicamente) da irrupção do sagrado entre os fluxos amorosos superficiais de um grupo de personagens. Ou talvez não passe de um esvaziamento encenado da própria noção de sagrado. Tanto que eu gostaria de rever "O Segredo".




(A companhia de produção de Thome, a Moanafilm, tem um site que não está nada mal feito.)
PARA QUÊ GASTAR DINHEIRO COM ADVOGADOS QUANDO SE TEM UM AMIGO NA CASA BRANCA INCLINADO PARA A COMPAIXÃO?: Durante o seu mandato e meio como Governador do Texas, George W. Bush apenas concedeu clemência num dos 153 casos de condenação à morte que passaram pela sua secretária, e o número de execuções nesse estado foi maior do que com qualquer um dos seus antecessores no cargo. Há poucos dias, o mesmo Bush comutou a pena de prisão de Lewis Libby, antigo assistente do vice-presidente Cheney acusado por um júri federal na sequência do escândalo da revelação da identidade da agente da CIA Valerie Plame. Libby fora condenado a 30 meses de prisão, uma multa de 250 000 dólares e 400 horas de serviço comunitário, por perjúrio, obstrução da justiça e por prestar declarações falsas a investigadores federais. Bush, fazendo uso de uma prerrogativa constitucional, anulou a pena de prisão, alegando que a sentença era "excessiva". Nos últimos tempos, tem crescido o consenso em torno da convicção de que Bush é o pior presidente dos E.U.A. das últimas gerações. Em final de mandato, "W." parece apostado em acrescentar à simples (mas colossal) incompetência uma sólida camada de ignomínia. Seria em alturas como estas que eu mais gostaria de auscultar a opinião desses que desfraldam com ingenuidade juvenil a bandeira da americanofilia. Falo dos Luíses Delgados e Joões Carlos Espadas que ufanamente confundem os Estados Unidos com um incorruptível farol de moral e virtudes, e que teimosamente se recusam a admitir o óbvio: que nenhum país está imune a abusos dos seus dirigentes, e que as beliscadelas na separação de poderes são um passatempo que não conhece fronteiras.

terça-feira, julho 03, 2007

O QUE HÁ NUM NOME? (E NUMA ALCUNHA?): Num episódio da série "Dharma & Greg", Dharma aconselhava a sua sogra a nunca jogar bilhar a dinheiro com um homem que se chamasse "Sweet Lou". Tenho pautado a minha vida, desde então, por esta sábia advertência. E não me arrependo.
CHECK YOUR FACTS!: Mesmo para um jornal gratuito, o desleixo que parece presidir à redacção de algumas notícias do "Meia Hora" causa calafrios. Na edição de ontem, a propósito do concerto de homenagem à "Princesa do Povo" (que o nosso serviço público de televisão fez o inestimável obséquio de trazer até nós), este diário afirmava que "Os príncipes levaram a concerto artistas de que Diana gostava, como Joss Stone". Atendendo a que, à data do fatídico acidente do túnel da ponte de Alma, a futura intérprete de "Right To Be Wrong" tinha 10 anos, e ainda nem sequer protagonizara a sua primeira actuação em público. na escola secundária de Uffculme, no Devon, isto abona muito em favor da presciência da princesa Diana e da sua capacidade para descobrir novos talentos.

quinta-feira, junho 28, 2007

IDEIA PARA UMA PEÇA: Na primeira cena, duas personagens discorrem longamente sobre a vantagem e legitimidade, por parte de uma autarquia, de delegar em empresas municipais certas atribuições que lhe são próprias. Uma das personagens está disfarçada de mosqueteiro, a outra de chefe índio. Segue-se um baile de máscaras, no qual uma intriga de enorme complexidade e envergadura soçobra devido à intervenção do factor humano. Para finalizar, algumas lamechices.
AZEITE VIRGEM DE CALTANISSETTA: Queria destacar duas das compras que fiz na Feira do Livro deste ano.

A mais estimulante: "Dream of Fair to Middling Women" (Arcade Publishing), de Samuel Beckett.





Sou admirador profundo, convicto, apaixonado e feroz da prosa de Beckett, mais ainda do que da sua escrita para o teatro. Da, chamemos-lhe assim, proto-história desta prosa faz parte "More Pricks than Kicks", esse prodígio de erudição e sarcasmo que já se atravessou no meu caminho. Tal como esta última obra, "Dream of Fair..." ficou por publicar na altura da sua concepção; ambas seriam alvo, mais tarde, por parte do próprio autor, de um cepticismo coriáceo quanto aos seus reais méritos. Felizmente que, contra todas estas adversidades, ambas acabaram por ver a luz do dia sob forma impressa. Beckett escreveu "Dream of Fair..." no verão de 1932, na Rue de Vaugirard, que nenhum aficionado de estatísticas ociosas ignora tratar-se da mais longa artéria parisiense.

Lendo a contracapa, ficamos a saber que este livro é "Indispensable to anyone interested in the pulse of twentieth-century art" (St. Petersburg Times). Não me reconhecendo nesta descrição (será a arte do século XX um doente com achaques que recomende a monitorização dos seus sinais vitais?), não deixo de me sentir perfeitamente à vontade para subscrever, com gestos enfáticos e impacientes, a parte do "indispensável".


A mais impulsiva: "A Mafia Senta-se à Mesa - histórias e receitas da onorata societá [sic]", de Jacques Kermoal e Martine Bartolomei (Teorema).





(Na figura, a capa da edição francesa.) Onde se fica a saber como confeccionar salmonetes com sementes de funcho, borrego assado com azeite virgem de Caltanissetta, espargos quentes com natas de ovelha, e Flan de castanhas, e em que ocasião tais iguarias acompanharam momentos marcantes da história da cosa nostra.

Para quando uma história gastronónica de Portugal, com coordenação de José Mattoso e receitas ilustradas do Chefe Silva?

sábado, junho 23, 2007

E, POR FALAR EM NOMES DE REALIZADORES...: Na Fnac do Chiado, sector dos DVDs, alguém, suponho que um funcionário zeloso, rasurou com caneta azul o "R" que corrompia a correcta grafia do nome do realizador de "La Dolce Vita" ("Frederico Fellini"). Ainda não perdi a esperança de que alguém acabe por reparar no "S" traiçoeiro que se insinuou no nome de "Tarkosvsky", mesmo ao lado.
PARA DESCOMPLICAR: Não terá escapado a nenhum cinéfilo digno dos seus galões que "Uzo", lido ao contrário, fica "Ozu". Espera-se ardentemente que surjam em breve novos tarifários com nomes como "Awasoruk", "Esuran", "Namgreb" ou "Dradog".
ALCARAVIA: O livro "Ervas Aromáticas e Especiarias" (Jill Norman, Dorling Kindersley/Civilização) descreve o aroma da alcaravia (Carum carvi) como sendo pungente, ardente e agridoce, bastante picante, com uma nota de casca seca de laranja e um travo leve mas demorado de anis.



Esta especiaria será fácil de encontrar em Lisboa?


Qualquer sugestão representaria uma ajuda supremamente bem-vinda.

quarta-feira, junho 20, 2007

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS (*): Num dos episódios de "Yes, Minister", a mulher do ministro Jim Hacker está a ler, na cama, o romance "Rites of Passage", de William Golding, por sinal um grande livro. A fotografia do autor na contracapa dissipa quaisquer eventuais dúvidas. (*) Neste caso, em lugares privados e fictícios.
BARBAS E RELÂMPAGOS: Segundo Vasari, o pintor Raffaello Sanzio comparou os músculos dos estudos de anatomia com os músculos de seres humanos vivos, e observou a trama dos ossos, nervos e artérias até atingir o grau de maestria na reprodução do detalhe que se exige a um pintor de excelência. Porém, ao dar-se conta de que nunca seria capaz de atingir a perfeição de Michelangelo, Raffaello optou por trabalhar mais aprofundadamente a disposição dos elementos no quadro, e esforçou-se por estudar tudo o que é necessário à arte da pintura: tecidos, sapatos, capacetes, armaduras, penteados femininos, cabelos e barbas, vasos, árvores, grutas, rochedos, fogos, céus tempestuosos ou limpos, nuvens, chuvas, relâmpagos, o bom tempo, a noite, o luar, os efeitos do sol, etc.





(Santa Cecília com santos, c. 1514-1516.)

sábado, junho 16, 2007

FRACOS EM HISTÓRIA E EM DOUTRINA?: Quando ocorre um feriado de cariz patriótico, é comum as nossas televisões passarem reportagens de rua daquelas em que se questiona o transeunte incauto sobre o significado da efeméride. Infalivelmente, basta uma meia dúzia de balbuceios hesitantes («Restauração da independência... Foi quando D. Afonso expulsou os mouros, não foi?») para conduzir o repórter, alegre e fatidicamente, até à conclusão de que os portugueses ignoram a história do seu próprio país. Tudo isto sobre fundo de imagens de arquivo da multidão na Rua Augusta, com um ar adequadamente ocioso e alheado. Estranhamente, é bastante mais raro que semelhante zelo seja aplicado aquando dos feriados religiosos. Neste país em que os índices de catolicismo atingem, alegadamente, os noventa e tantos por cento, quantos cidadão seriam capazes de explicar o que se celebra no dia do Corpo de Deus, da Assunção de Nossa Senhora, ou da Imaculada Concepção (o mais ardiloso "falso amigo" de todos os dogmas)?
GREGOS E TROIANOS: Nem Ota, nem Alcochete, nem Poceirão. Construam o novo aeroporto no Second Life!

quinta-feira, junho 07, 2007

UM EXEMPLO PARA TODOS: «Desde João Soares que Lisboa está financeiramente ingovernável. Os presidentes podem fazer um ou outro arranjo, centrar as atenções numa ponte ou num viaduto ou num grande plano de reconversão da Baixa, que a distracção pode ter sucesso, mas as dívidas e os juros crescem exponencialmente. Sem resolver esta questão, tudo o resto é fazer uns arranjos florais nos jardins. O único exemplo a seguir é o de Rui Rio. Apareça alguém a dizer que vai seguir o exemplo do Porto, ouça-se o espernear dos animadores culturais a dizer de que o “contabilista” está a “matar” a cidade, e Lisboa pode vir a ser finalmente governável.» (Pacheco Pereira, no Abrupto, A.D. 14/5/2007. Negritos meus, e ai de quem mos tentar tirar.) Não sei o que é mais deplorável nesta citação, mas talvez seja isto: a convicção implícita de que não existe um meio termo entre a prodigalidade desvairada e uma parcimónia em guerra aberta contra a alegada subsidiodependência dos agentes culturais. Ou, por outras palavras: a alegação de que a luta contra o despesismo não admite outra postura que não seja a de Rio. Para além das boas práticas contabilísticas, urge reconhecer aquilo que a atitude do edil portuense encerra de populismo duro e puro. Sonegar alguns milhares de euros a companhias de teatro pouco peso terá nas contas municipais, mas inscreve na coluna do activo uma quantia choruda em divisa das mais fortes: inimigos impopulares. Refiro-me aos tais animadores culturais, a quem o continuado hábito de exercer uma actividade artística à custa de dinheiros públicos faz merecer o estigmatizante estatuto de parasita. Quem será o autarca que não singra com o ressentimento desses saltimbancos ociosos, detestáveis aos olhos do bom povo que trabalha para ganhar a sua tosta mista e o seu panaché? O meu populista é menos populista do que o vosso populista. Desgraçadamente, muita da argumentação sociopolítica que por aí se ouve e lê não passa de uma glosa preguiçosa desta frase.

quarta-feira, maio 30, 2007

ENTRE OS JACARANDÁS E AS FILAS PARA OS CHURROS: Em tempos, por via do trop-plein de energia anímica típico de um recém-chegado à blogosfera, deu-me para recensear títulos bizarros de obras avistadas na Feira do Livro de Lisboa. Sem o furor quase sistemático dessa era gloriosa, as modestas incursões deste ano permitiram-me acrescentar alguns espécimes de bom calibre à minha colecção. Das heróicas Edições Mortas, destacam-se, entre muitos outros, "Malgas de Peçonha", de Virgílio Liquito (a capa não desmerece do título) e "Punhetas de Wagner", de A. da Silva O. Porém, há que reconhecer que até estes portentos empalidecem perante o arrojo de "Morri! E Agora?", uma obra que põe o dedo na ferida com a veemência dos predestinados. Assinale-se ainda a presença na Feira de dois ministros do actual governo, de um popular blogger e de muitos anónimos.

terça-feira, maio 29, 2007

XADREZ: Segundo o livro "Life of Paul Morphy in the Vieux Carré of New-Orleans and Abroad", de Regina Morphy-Voitier, o lendário xadrezista Paul Morphy tinha por hábito andar de um lado para o outro na varanda da sua casa, murmurando as palavras «Il plantera la bannière de Castille sur les murs de Madrid au cri de Ville gagnée, et le petit Roi s’en ira tout penaud». Até hoje, ninguém foi capaz de determinar a origem desta citação, de acordo com o historiador de xadrez Edward Winter. (Contextualização nº 1: Paul Morphy (1837-1884) foi um dos jogadores mais notáveis da segunda metade do século XIX. Os Estados Unidos da América produzem campeões de xadrez de classe mundial com exasperante infrequência. Quando o fazem, porém, nunca se trata de um mangas-de-alpaca banalmente genial: a aura de mistério e um carisma mais ou menos delirante estão garantidos.) (Contextualização nº 2: Edward Winter é conhecido por levar a atenção pelo detalhe irrelevante a níveis que poucos se atrevem a tentar superar. Pode-se contar com ele para devotar dezenas de linhas à ortografia do nome de um amador que empatou com Capablanca numa simultânea, ou aos licores servidos num banquete onde participou Lasker. As suas "Chess Notes" são um manancial de esdrúxula erudição.)

sexta-feira, maio 25, 2007

PANOS: «Realiza-se pela segunda vez o festival de encerramento dos PANOS, um projecto que alia o teatro escolar/juvenil à nova dramaturgia. Inspirando-se no NT Connections do National Theatre de Londres, todos os anos há peças novas encomendadas a escritores reconhecidos, com apenas duas condições: escreverem para actores entre os 12 e os 18 anos; preverem um tempo de espectáculo não superior a uma hora.» Escritores reconhecidos? Só se for na acepção de "reconhecido aos jovens actores que, durante estes meses, se debateram com a transposição para a cena do meu indigesto entremez". Neste fim-de-semana, na Culturgest. Há ainda peças de Ali Smith e de Armando Silva Carvalho para ver. Horários e mais informações aqui.

quinta-feira, maio 17, 2007

AMEIXAS MADURAS E BARATAS! PRIMEIRA QUALIDADE! VENHAM COMPRAR!: No filme "O Comerciante das Quatro Estações", de Fassbinder, recentemente exibido pela Cinemateca com legendas em francês e português, o responsável pela versão portuguesa traduziu por "gira" uma palavra alemã (que não identifiquei) que o tradutor francês converteu em "bandante". Reticências repletas de pudor do tradutor português? Ou lúbrica malícia do tradutor francês? Este filme está longe de ser um dos meus Fassbinders preferidos, mas a margem deste post é demasiado pequena para eu explicar porquê.

terça-feira, maio 15, 2007


Segundo a embaixadora do Brasil no Vaticano, Lula afirmou ao papa que vai "preservar e consolidar o país como estado laico".






Luiz Inácio Lula da Silva, presidente democraticamente eleito de uma nação soberana e livre, sem qualquer obrigação de prestar vassalagem ao Vaticano, esse estado de duvidosa legitimidade cujas principais exportações são o desplante, o dogma, a arrogância e a intromissão nos assuntos alheios.

terça-feira, maio 08, 2007


O grupo Teatroàparte levará à cena, nos próximos dias 11, 12, 18 e 19, no auditório da Biblioteca Orlando Ribeiro (Telheiras, Lisboa) a peça "A Casa de Lorca", baseada em "A Casa de Bernarda Alba", de Federico García Lorca. A encenação é de Jorge Parente. Mais pormenores aqui.



Estão assim explicados os sorrisos cúmplices que os telheirenses trocam na rua, para estupefacção dos forasteiros.




VÍCIOS PÚBLICOS 1 - VÍCIOS PRIVADOS 0: No seu estudo biográfico "A Private Life of Henry James", Lyndall Gordon sustenta que "o Mestre" se comportou de forma abominável e negligente com duas mulheres que influenciaram grandemente a sua vida e a sua obra: a sua prima Minny Temple e a romancista Constance Fenimore Woolson. Muito mais do que as asserções pouco abonatórias sobre o carácter e a atitude de Henry James, chocou-me até às mais recônditas concavidades do meu ser a revelação de que ele preparou uma versão para teatro de "Daisy Miller" em que a heroína, em vez de morrer tragicamente na sequência da visita nocturna ao Coliseu, casa com o canastrão Winterbourne. Atentar contra a própria integridade artística para atingir a glória e a popularidade fica tão mal numa biografia como uma nódoa de coulis de framboesa numa toalha de linho branco.
O MÉRITO PREMEIA-SE: De acordo com o documentário incluído no DVD de "Caravaggio", as últimas palavras do realizador Derek Jarman terão sido: "Espero que o mundo se encha de patos amarelos e fofinhos". Qualquer que seja o futuro que a posteridade reserve ao seu legado artístico, ninguém com um pingo de vergonha na cara lhe negará o galardão de "mais original e divertido derradeiro fôlego de sempre". Outros prémios aparentados: Melhor ideia para epitáfio: "I told you I was sick!" (Spike Milligan). Melhor resposta à pergunta "O que é que ainda lhe falta fazer na sua longa carreira?": "Tocar com o calcanhar na parte de trás da cabeça" (George Burns). Melhor título de sempre: é minha firme convicção de que esta distinção perdeu razão de ser desde que, em 1986, o alemão Wolf Wondratschek lançou o seu "Carmen oder Bin ich das Arschloch der achtziger Jahre" ("Carmen ou serei eu o cara de cu dos anos 80"), dessa forma aniquilando a concorrência com efeitos perpétuos.

sábado, maio 05, 2007

O AR DO TEMPO: Muito em breve, aqui no Umblogsobrekleist, procederemos à separação das nossas redes de cabo e cobre. Não perca este momento histórico! (Nós não queríamos separá-las, mas obrigaram-nos.) A propósito, alguém tem um canivete suíço que nos possa emprestar?

sexta-feira, abril 27, 2007

JÁ PARA NÃO FALAR DO COLEÓPTERO NA VARANDA DO SÃO JORGE: Local: Lisboa. Ocasião: filme de Hal Hartley no IndieLisboa, com presença do próprio, que é como quem diz do mesmo. Hartley, altíssimo, desengonçado, com cara de eterno adolescente, revela à audiência aquilo que as pessoas dizem do seu filme: que é "funny and sad", e que as pessoas falam muito depressa. Toca o telemóvel do apresentador português. Hartley: "Your cell phone is ringing. It's someone to tell you that: the film is funny and sad". Antes do filme propriamente dito, o público é entretido com sugestões publicitárias. Luís Represas canta e interrompe-se no anúncio da cerveja Bohemia. Há quem se dê ao trabalho de bater palmas trocistas, para gáudio de muitos. Hal Hartley deve ter ficado com a impressão de que Luís Represas é um ídolo de portentosa envergadura, e que os portugueses são um povo que ama os seus trovadores com paixão. O filme é bom, talvez demasiado na linha de "Henry Fool", de que é uma sequela explícita. Parker Posey é uma actriz que dá gosto ver. Constrói uma personagem perante os nossos olhos, mas dando a impressão de a habitar desde sempre. Corresponde na perfeição ao ideal hartleyano de lisura expressiva e bizarria isenta de cabotinismo. Os meus filmes preferidos de Hartley são "Simple Men" e "Flirt".
E POR FALAR EM TEATRO: Vem estrondosamente a propósito mencionar este blog, de um veterano nestas andanças, onde é divulgado teatro intra e extra-Porto.
TUDO É SUSCEPTÍVEL DE TEATRO: E, com Rivette como patrono, tudo fica mais suculento e resplandecente.
MAS SÃO TRÊS DESEJOS, NÃO É POSSÍVEL: Ribeiro e Castro selou o seu destino quando comparou Paulo Portas a um ovo Kinder. Fosse eu militante de um partido político, perante a contingência de escolher um novo líder, não hesitaria entre um ser de carne, osso e tendão e um ovo de chocolate com surpresa no interior. Não há indeciso que resista a estes tristes golpes de retórica.

domingo, abril 22, 2007

UM CIDADÃO REIVINDICA: Eu não quero ser tratado pelos poderes públicos como uma pessoa. Exijo ser tratado como um número.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma jovem lia "O Vermelho e o Negro", de Stendhal, na linha vermelha do metro. Estava vestida de negro. Não existe nenhuma linha negra no metro. O livro era uma edição antiga da Portugália.

segunda-feira, abril 16, 2007

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No comboio Porto-Braga, um jovem lia Brecht em francês: "L'Opéra de Quat' Sous".
PARA SEMPRE: «(...)Perguntas-me se estarás para sempre ali, e eu digo: não estarei para sempre.» (Fiama Hasse Pais Brandão, in "Epístolas e Memorandos", Relógio d'Água, 1996.) 1 - Rasurar a palavra "não". 2 - Reler os versos.
RAZÕES PARA O SILÊNCIO: Este blog é, sempre foi, um trabalho de ódio. E o ódio, mesmo sem nunca esmorecer, manifesta-se por intermitências.

domingo, abril 01, 2007

MANET NUM DOMINGO EM TELHEIRAS COM MUITO VENTO:




Nunca tinha prestado atenção a este quadro ("Le Christ Aux Anges", de Manet) até o ver mencionado e comentado por Delfim Sardo, durante o ciclo de conferências sobre arte contemporânea que decorreu recentemente na Culturgest.

Citando de memória, e confundindo, provavelmente, as ideias de Sardo com as do crítico Thierry de Duve (que ele mencionou), a singularidade deste quadro assombroso reside, antes de mais, na posição do Cristo: sentado, numa postura que possui o abandono do cadáver, mas à qual não falta uma certa majestade. O tema da ressurreição iminente (ou já a decorrer) encontra um equivalente pictórico na ambiguidade da postura. Afastando-se das representações consagradas pela pintura ocidental, nomeadamente as "pietà", Manet denota a mortalidade do filho do Homem através da lassidão muscular que desmente aquela que poderá ser a primeira impressão de um espectador que descubra o quadro: a impressão de estar perante um rei sentado no seu trono.

A esta ambiguidade latente, Manet acrescenta um nível suplementar, de natureza cronológica: o corpo do Cristo sofre um processo que se prolonga no tempo. Ao passo que o corpo é o de um homem morto, as feições evidenciam já o regresso à vida. A presença dos dois anjos (o da esquerda ainda atormentado pelo desgosto, o da direita ciente do que está a ocorrer) reforça a existência de dois momentos, um antes e um depois que enquadram o processo contínuo da ressurreição.

Assim, à execução deste quadro terá presidido a ambição de representar um processo dinâmico, o movimento de um estado de coisas para um novo estado. Tendo em conta aquilo que a evolução da Arte trouxe nos cento e tal anos que se seguiram a este quadro (que data de 1864), não será exagerado atribuir a este propósito de Manet um potencial revolucionário.

(A ferida no flanco de Jesus aparece, no quadro, do lado esquerdo. Tratou-se de um erro factual perfeitamente deliberado da parte do artista, talvez no intuito de traduzir por meio de uma inverosimilhança histórica o carácter conceptualmente invulgar do quadro.)
NOSTALGIA AO RITMO DE SIMON E GARFUNKEL: Where have you gone, Tarcísio Meira, a nation turns its lonely eyes to you.
COMPATIBILIDADE: Serão Bertrand Russell e o tiramisù duas realidades mutuamente compatíveis? São. Acredita que o são, caro leitor, e nunca deixes que alguém te tente convencer do contrário.

quarta-feira, março 28, 2007

A DOIS MINUTOS DOS GELADOS BEN & JERRY'S: No próximo sábado, dia 31, a partir das 18h30, estarei presente na sessão "Instantâneos da Nova Ficção Portuguesa", no Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa. Estarei na boa companhia de Cláudia Clemente, José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares, a quem caberá dizer coisas interessantes sobre a ficção portuguesa, ao passo que eu trarei CDs de música dos anos 80 para animar a malta, como por exemplo Human League, ABC, Frankie Goes to Hollywood, Propaganda e Housemartins.

terça-feira, março 27, 2007

CINEMA: «Falling in love with style is a temptation a critic learns to be wary of: it's easy to be bedazzled by a film's rhetoric before you even think of asking whether it has anything to say. But why shouldn't a film's content primarily, or totally, consist of the way it writes itself on to the screen? Curiously, while it is generally seen as legitimate in critical circles to esteem certain examples of genre cinema precisely because they foreground style (John Woo, Michael Mann, Park Chan-wook...), self-consciously extravagant style is often frowned on when a film is perceived as sailing under an arthouse flag.» (Jonathan Romney, "Sight & Sound", Abril 2007, a propósito de um filme de Paolo Sorrentino que eu não vi.) Poderia ser um manifesto, que eu subscreveria sem hesitar, palavra por palavra, com a possível excepção de "extravagant".

segunda-feira, março 26, 2007

A NÃO PERDER: Os textos de João Lopes sobre o último Moretti. (Ainda não vi, mas tenho quase a certeza de que vou gostar.) Dos 5 prometidos, já tivemos direito ao primeiro e ao segundo. Esperamos o terceiro, o quarto e o quinto.
BRANDA SEVERIDADE: Em mais uma das suas imperdíveis crónicas da 2ª feira, João César das Neves, num esmerado exercício de auto-vitimização em que é useiro e vezeiro, fala-nos de um "racismo", dirigido à crença, que grassa na sociedade de hoje; fala-nos de uma Igreja contra a qual existe "desconfiança latente" e "severidade". Provavelmente por habitar em paragens muito longínquas, ou numa cave insonorizada com água potável e conservas para uma vida inteira, JCN ignora que vive numa sociedade que não só não discrimina os crentes, não só não dá mostras de severidade para com a Igreja, mas que, pelo contrário, a trata com uma benevolência que roça, por vezes, a subserviência. Pode até dar-se o caso de JCN ter ouvido falar de um país, chamado "Portugal", no qual a perseguição aos crentes não prima pela ferocidade: a Igreja tem direito a transmissão televisiva das eucaristias, a mensagem de Natal do patriarca, a emissões especiais por ocasião do aniversário da cidadã Lúcia de Jesus dos Santos, a uma Universidade, e, até há bem pouco tempo, a presença no protocolo do Estado. Isto, claro, para não falar de absoluta liberdade de culto. (Estranho racismo este. Ou melhor: estranho emprego da palavra "racismo", que me parece profundamente ofensivo para com aqueles que, ao longo dos séculos, e neste preciso momento, sofreram e sofrem na carne e no ânimo os golpes do verdadeiro racismo.) Portanto, JCN tem razões para se regozijar: nem tudo é tão negro como a sua lúgubre pena o pinta. Quando JCN afirma que «O mundo continua embaraçado perante o dinamismo dos Apóstolos», apetece-me rebater: o mundo continua embaraçado, sem dúvida, mas menos com o dinamismo do que com a desfaçatez de que dão mostras, sem se aperceberem da irrelevância para onde velozmente deslizam, as altas hierarquias da Igreja, quando continuam a tentar influenciar um mundo que lhes escapa, nem que seja por meio da chantagem e da coacção. Entre os exemplos mais recentes: as palavras do papa, admoestando com arrogância os dirigentes da União Europeia por mais uma omissão de referência a "raízes cristãs", ou qualquer outra metáfora botânica que caísse no goto do Vaticano; ou os patéticos apelos à desobediência que se seguem à aprovação de leis fracturantes, como a descriminalização da interrupção voluntária da gravidez ou o casamento de pessoas do mesmo sexo. «Importa mais obedecer a Deus que aos homens» (Act 5, 29), cita JCN. Seria arrepiante, se não fosse tão anacrónico. Isto sim, é embaraçoso.
UMA CERTA TENDÊNCIA...: Ainda a propósito de filmes menores que dão origem a debates maiores, ou vice-versa: há um bom bocado que acalentava a ideia de, com base em dois filmes, ilustrar uma das (lamentáveis) tendências da crítica portuguesa. Os filmes são "Gabrielle", de Patrice Chéreau (que adorei) e "Million Dollar Baby", de Clint Eastwood (de que não gostei mesmo nada). De uma forma geral, a crítica torceu energicamente o nariz ao primeiro e elogiou profusamente o segundo. Até aqui, tudo bem. Deprimente foi constatar que a rejeição do primeiro se deveu, maioritariamente, ao seu suposto "maneirismo" e excesso de ademanes estilísticos, ao passo que, sobre o segundo, choveram encómios por via da sua limpidez formal, só ao alcance do "último dos clássicos". É claro que qualquer crítico é livre de achar que "Gabrielle" peca por exagero no estilo. O problema é ser esta apenas uma instância de uma propensão para castigar tudo o que cheire, ainda que debilmente e à distância, a excesso de zelo formalista. Problema ainda maior é ser essa propensão uma desculpa para não aprofundar a análise de um filme, não averiguar até que ponto as opções formais do realizador são ou não justificadas, não pensar o filme, em suma. Regra geral, um investimento explícito e profundo ao nível da forma é visto como gratuito, e perde na comparação com o apagamento e a neutralidade, sobretudo se nostalgicamente encarados como atributos de um suposto "classicismo" caucionador. Sem dúvida que, para exprimir as minhas ideias sobre o cinema, me agrada mais partir de filmes de que gostei do que daqueles que me foram indiferentes ou (caso de "Babel") que apreciei moderadamente. Este post reflecte mais a minha admiração por "Gabrielle" e por Chéreau (nunca saí desiludido de um filme dele) do que animosidade contra Eastwood, de quem vi pelo menos um filme que me agradou muito ("Midnight in the Garden of Good and Evil"), mas que me parece beneficiar de um estado de graça permanente e difícil de justificar.
EFEITOS BENÉFICOS DA MUDANÇA DE HORA: Por exemplo, este: de manhã, os gatinhos Goneril e Jasmim, que se guiam pelo sol e ignoram o que seja um fuso horário, começam a arranhar a porta e a miar uma hora mais tarde. Pensam que é cedo quando afinal já é tarde, he he he.
UM APELO À CALMA: Senhores da comunicação social, por favor, tenham mais tento quando se trata de noticiar controversas trocas de declarações entre elementos de duas selecções contendoras num importante desafio de futebol internacional. Ânimos mais exaltados podem interpretar as manchetes garrafais como apelos ao desacato e à zaragata. E quem sofre no meio disto? Pois bem, quem sofre é o comércio local das zonas limítrofes dos recintos desportivos onde se desenrola o desafio em questão (no caso vertente o Estádio Alvalade XXI), que corre sérios riscos de vandalização. Estou a pensar, para citar alguns nomes ao acaso, na Telepizza, no Ovo de Colombo (frangos de churrasco para fora), na frutaria Aquário, na padaria Espigasol, na mercearia do Sr. António e noutros pacatos estabelecimentos do sempre formoso bairro de Telheiras.

quinta-feira, março 22, 2007

PRA QUE CONSTE: Sábado, 24 de Março, às 16h30. Nos Espaços JUP, Rua Miguel Bombarda, 187, Porto. APRESENTAÇÃO DA AGUASFURTADAS 10. 10 CONVIDADOS ESCOLHEM 10 OBRAS PUBLICADAS NOS 10 NÚMEROS DA REVISTAAGUASFURTADAS. Com a participação de Carlos Guedes, Daniel Pedrosa, Jorge Palinhos, Luís Trigo, Nelson d'Aires, Nelson Quinhones, Nuno F. Santos, Pedro Carreira de Jesus, Rui Dias, Rui Lage, Rui Penha, Samuel Silva, Sérgio Couto e Virgínia Pinho. (Eu não posso ir, mas aqui fica o meu apelo àqueles que podem ir: vão!)

sexta-feira, março 16, 2007

TELHEIRAS BEAUTY: Através da janela da cozinha, o gato Jasmim seguia com o olhar, tenso e fascinado, um saco de plástico do Aki esvoaçando ao sabor do vento. A ninguém que o observasse poderia escapar a alusão cinéfila ao filme "American Beauty". (A avaliar pelo seu comportamento habitual, porém, a grande referência do Jasmim em matéria de sétima arte é "Sleep", de Andy Warhol.)

sexta-feira, março 09, 2007

AGRADECIMENTO E MUDANÇA DE LEMA, POR ESTA ORDEM: Obrigado a todos aqueles que, com despropositada generosidade, acharam por bem assinalar os 4 anos deste espaço. Os brindes prometidos já seguiram pelo correio, em envelope discreto. O lema deste blog passa a ser: "Aquilo que os outros não dizem, nós sussurramos."
NÃO À DISCRIMINAÇÃO: Quase no fim do seu pletórico número semanal, Marcelo Rebelo de Sousa anuncia o Dia do Rim. Acto contínuo, ao meu lado, Q. formula o desejo de ver celebrado o Dia da Vesícula Biliar.
CINEMA: E ainda uma outra coisa: falar de um filme implica, no todo ou em parte, falar da sua, chamemos-lhe assim, "representação do mundo", o que poderá implicar ou convocar aspectos mais ou menos incipientemente relacionados com a sociologia, mas não muda o essencial e o essencial é que, até prova em contrário, a "representação do mundo" é um problema eminentemente cinematográfico. (Luís Miguel Oliveira) Cem por cento de acordo. Iria até mais longe. Todo o filme pode ser visto sob um ângulo sociológico, assim como todo o filme pode ser visto sob um ângulo político (ainda que não necessariamente num sentido estrito, digamos "costa-gavrasiano" ou "loachiano" do termo). Ao concretizar uma visão do mundo, um filme implica uma atitude perante o meio humano e as suas componentes (pessoas, afectos, tempo, matéria, valores) que é da ordem do político. O que me exaspera não é que se façam leituras políticas a partir de um qualquer filme, mas sim o grau de indigência e de comodismo de que essas leituras, na grande maioria dos casos, se revestem. Nestes casos, com excessiva frequência, o crítico, com mais ou menos divagações e cambalhotas estilísticas pelo meio, pouco mais faz do que pronunciar-se sobre a eficácia e boa fé com que o realizador logrou transmitir a sua mensagem. Infelizmente, a eficácia e a boa fé são questionadas de forma alheia a qualquer critério do foro cinematográfico. Ou seja, o filme é avaliado segundo as suas vertentes de excelência artística e de validade ética, mas raramente enquanto filme. Se exceptuarmos a referência às interpretações e a aspectos técnicos avulsos (música, fotografia), grande parte daquilo que se escreve sobre cinema nos jornais portugueses poderia ser escrito acerca de um livro ou de uma peça. Não faço ideia se isto contribui para esclarecer alguma coisa ou não, mas gostava de fechar a loja de Babel e das suas discussões colaterais. Ninguém me obrigou e se me queixo de alguém é de mim, mas acho que nunca perdi tanto tempo com um filme que, para o dizer curto e grosso, não me interessa em nada e por nada. (Luís Miguel Oliveira) "Babel" não merece que sobre ele se funde um debate destes? Provavelmente, não. Estas questões são infinitamente mais importantes do que este filme. Ultrapassam-no e sobreviver-lhe-ão. Porém, com certeza não preciso recordar que, na história do cinema, não escasseiam exemplos de querelas e intervenções críticas influentes desencadeadas por filmes menores. De entre esses exemplos, destaco obviamente o artigo "De l'Abjection", de Jacques Rivette ("Cahiers du Cinéma", Junho de 1961), a propósito de "Kapo", de Gillo Pontecorvo. Para finalizar: não o disse na altura por relutância em personalizar, e por achar desnecessário, mas Luís Miguel Oliveira, assim como Mário Jorge Torres, Vasco Câmara e João Lopes são, de entre os críticos de cinema que escrevem regularmente na imprensa portuguesa, aqueles que mais admiro. Fosse esta a bitola média da crítica portuguesa e o meu agastamento não se faria ouvir com tanta regularidade.

terça-feira, março 06, 2007

DO CONTEÚDO LÍRICO DO MOMENTO MAGNÉTICO NUCLEAR: Por razões profissionais, dedico um interesse muito grande à Ressonância Magnética Funcional, e é sempre com curiosidade que avalio a maneira como estudos sobre a função cerebral com esta técnica são relatados ou mencionados na imprensa generalista, ou até nos blogs... Em muitos casos, a falta de enquadramento contextual destas imagens de cérebros com lindas manchas coloridas assinalando as regiões activadas deixa-me desconsolado.








Porém, devo reconhecer que a concisão e nível de linguagem exigíveis numa secção de divulgação científica para o grande público não se compadecem com aprofundamentos excessivos.

O que eu nunca teria esperado era ler uma menção a esta técnica na obra de um poeta português contemporâneo:


Ele e ela são corpos músicos
e segundo o olhar dela é ele quem escreve. Ambos
sabem que estão num filme; que são uma imagem
de cinema. Uma imagem inexplicável guardada no cérebro
de alguém: uma ressonância magnética alucinou-a lá.


(Manuel Gusmão, in "Migrações do Fogo", Caminho.)
RECORRENTE FRUSTRAÇÃO CINÉFILA:

"Il Caimano", de Nanni Moretti...





...e "Manderlay", de Lars von Trier.






Dois filmes cujas estreias aguardo há meses, sucessivamente adiadas em nome de critérios que nem me apetece tentar desvendar. Será o Natal, serão os óscares, serão considerações de ordem astrológica, estratégias impenetráveis sustentadas pela aplicação de algoritmos de transcendente complexidade, envolvendo redes neuronais, lógica de Bayes e teoria do caos?

A distribuição de cinema em Portugal parece desligada daquela que se esperaria ser a sua função primordial: antecipar e servir os interesses da sua clientela, ou seja os espectadores de cinema. Em vez disso, deixa-se reger por duvidosas lógicas de mercado, preterindo produtos com impacto potencial elevado (Von Trier e Moretti são dois realizadores de enorme prestígio, com numerosas obras estreadas e apreciadas entre nós) em favor de títulos obscuros, cuja fugaz e pálida passagem pelas salas não deixa o menor rasto.

A contragosto, sou forçado a resignar-me: o futuro da distribuição de cinema deverá passar cada vez mais pelo DVD e pela Internet, e apenas secundariamente pelas salas, dominadas pela hegemonia previsível dos blockbusters. A excepção poderão ser os festivais e cinematecas, cuja adesão me parece em crescendo (ainda ontem, sala cheia na Barata Salgueiro para ver "Stromboli", de Rossellini).

domingo, março 04, 2007

UM REGRESSO DE SAUDAR: Em tempos, fiz constar neste espaço a expressão da minha lástima pelo fim do diário "A Capital". O meu desgosto prendia-se, essencialmente, com o fim da página semanal de xadrez mantida por Luís Santos. Não posso, pois, deixar de manifestar profundo agrado pelo regresso de Luís Santos à imprensa nacional, nas páginas do diário gratuito "Diário Desportivo". Às terças, como nos bons velhos tempos (mas nos restantes dias da semana há estudos e problemas para entreter o aficionado). O figurino mantém-se: actualidade nacional e internacional, e partidas comentadas. Só é de lamentar a pouco eficiente distribuição deste jornal gratuito. Passo todos os dias pela estação de metro do Campo Grande, provavelmente um dos pontos mais concorridos de toda a cidade de Lisboa, e é raro conseguir deitar a mão a um "Diário Desportivo". A minha frustração atingiria níveis incompatíveis com a minha condição de pessoa moderada e afável, se não se desse o caso de Luís Santos publicar regularmente os conteúdos das suas rubricas na sua página. Numa das últimas terças-feiras, o xadrez teve, inclusivamente, direito a chamada de primeira página, com fotografia do grande-mestre arménio Vladimir Akopian, vencedor isolado do forte open de Gibraltar (onde também se destacou a portuguesa Margarida Coimbra, com norma de mestre internacional feminina). Pergunto-me se alguma vez Akopian chegou a saber ter sido assunto de capa num jornal português de grande tiragem. Não seria algo de facilmente prognosticável, mas é também para isto que serve a lei das probabilidades: namoriscar com o inverosímil, e injectar um pouco de alegria neste mundo previsível e grisalho.
JÁ CÁ CANTA:




"Close-Up", de Abbas Kiarostami. Um dos filmes da minha vida. Disponível na excelente colecção de DVDs da Midas Filmes.

quinta-feira, março 01, 2007

OS ANOS: Este blog faz hoje 4 anos. Não existe nisso especial mérito. A translação terrestre e a seta do tempo são os únicos que merecem felicitações, pela sua esplêndida e infalível constância. Ao longo deste último ano, reforçou-se a minha convicção de que o 1bsk não possui nenhuma "razão de ser" que lhe servisse de alicerce ou de impulso dinâmico, e que está condenado a ser aquilo que é: não mais do que a soma das palavras que acolhe. Insistindo nas definições pela negativa, este blog não é, certamente, um "projecto". Assisti já a numerosos blogs que se extinguiram quando o projecto que os sustentava se esvaziou. Trata-se de um conceito que me causa estranheza. Não existe nenhum princípio ou intenção situados num qualquer plano superior ao blog, que lhe confiram sentido ou propósito, e do qual dependa a sua sobrevivência. O 1bsk perdurará, não contra ventos e marés, mas como banal consequência do simples facto de existir. Para além da cor verde, o outro aspecto que me parece indissociável deste blog é a sua condição de objecto gratuito e afuncional. Com efeito, para além de ter mudado a minha vida, ele nunca fez nada por mim.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

CINEMA: O filme "Babel" deu origem a mais um daqueles pitorescos debates sobre o papel da crítica que, de quando em vez, titilam agradavelmente o pequenino meio cinéfilo português. Desta feita, até teve direito a dossier especial no "Público". Pessoalmente, aquilo que achei mais descoroçoante na reacção crítica a esta obra de Alejandro González Iñárritu não foi o quase unâmime tom de reprovação, mas sim o facto de quase todos os pareceres negativos se basearem em critérios extra-cinematográficos. "Babel" foi acusado de quase tudo: de anti-americanismo (primário, como é óbvio), de simplismo, de não ser mais do que um panfleto anti-globalização, de humanismo serôdio. Infelizmente, escassos foram os críticos que não se ficaram por uma empobrecedora leitura sociológica. Quase nenhuma das apreciações que li continha sequer um esboço de uma explicação cabal sobre eventuais insuficiências que o condicionassem enquanto obra de cinema. Na minha opinião, as acusações formuladas contra "Babel", em particular as de anti-americanismo, revelam mais sobre fantasmas da sociedade contemporânea, e sobre o absurdo grau de hiper-sensibilidade dessa mesma sociedade a certas questões, do que sobre o filme em si. Além disso, parece-me que, sem ser um grande filme, "Babel" possui argumentos mais do que suficientes para o resgatar à condição de nulidade irrisória a que grande parte da crítica achou por bem remetê-lo. Gostei, em particular, da forma como o realizador geriu os pontos de fricção entre os episódios mexicano e marroquino, e da maneira como soube colocar no mesmo plano o acaso e a intenção das personagens, ambos reduzidos à mera condição de servidores do enredo todo-poderoso. Houve coisas de que gostei e outras de que não gostei. Em todo o caso, entre as minhas principais preocupações, durante e após o visionamento do filme, nunca esteve a de averiguar se "Babel" pretendia "representar" ou "denunciar" isto ou aquilo, nem se o fazia mais ou menos canhestramente. Este caso teve, à falta de outros, o mérito de pôr o dedo na ferida: uma das principais limitações da crítica de cinema portuguesa é tratar um filme como se fosse tudo menos um filme, ignorar as especificidades do cinema, entregar-se com demasiada prontidão a exercícios superficiais de análise política e sociológica. Isto sucede por diversas razões. Por desleixo, certamente; por incapacidade de ver para lá de agendazinhas pessoais míopes e confinadas, sem dúvida; acima de tudo, como reflexo puro e simples da falta de enraizamento, entre nós, de uma cultura de análise do objecto cinematográfico. (Provocação final: se "Babel" tivesse ganho o óscar de melhor filme, seria muito mais merecido do que o atribuído, há dois anos, a "Million Dollar Baby", esse melodramático deserto de ideias assinado por aquele a quem o dúbio título de "o último dos clássicos" tem vindo a conferir um inusitado estado de graça.)

terça-feira, fevereiro 27, 2007


CONSPIRAÇÃO COM TEJO AO FUNDO:


(Texto publicado no suplemento "Ípsilon" do jornal "Público" do passado dia 16/2. Com alguns quadros para ficar mais alegre.)


Há dias, assisti a uma sessão onde o crítico e historiador de arte Delfim Sardo abordou a possibilidade de emissão de juízos de valor perante uma obra de arte. Embora este assunto esteja longe de me deixar indiferente, torna-se para mim mais sedutor e urgente especular sobre algo que precede a questão da valoração qualitativa: refiro-me à simples presença da obra, à evidência crua e incontornável que a acompanha. A despudorada diferença entre a sua existência e o nada confere-lhe um estatuto que implica ascendente e poder sobre as coisas do mundo. Manejar placidamente a obra de arte como uma descartável ferramenta de entretenimento pode, na aparência, mitigar esse poder, mas não é disso que eu falo: falo de olhar com lisura e disponibilidade, falo de ouvir e entender.




(Luc Tuymans, "Slide #2", 2002)



A obra de arte existe na sociedade contemporânea essencialmente como mercadoria (estatuto a que, só por si, não associo carga pejorativa). Oferece-se à atenção do público mediada pelo jornalismo de cariz mais ou menos marcadamente crítico, e sempre associada a uma ocasião (lançamento de livro, inauguração de exposição, estreia de cinema). Tal acarreta o risco de nos desabituarmos de pensar na obra de arte desligada da sua relevância mediática, armada apenas daquilo que tem de perene. E, contudo, um quadro existe sem intermitências; a sua temível capacidade de transformar vidas pode desencadear-se a qualquer instante. Que fazer, perante esse resquício material de um trabalho subtraído à relevância banal do quotidiano? Pode-se passar adiante. É forçoso passar adiante. Mas a obra de arte dá-se esplendidamente bem com a efemeridade da atenção alheia. Tem tudo a seu favor, porque, como num escrínio, guarda dentro de si uma porção daquilo que, mais tarde ou mais cedo, alguém (com raiva e humildade) se forçará a vir buscar para se completar como ser humano. Tudo a seu favor: até mesmo a possibilidade de, à revelia de todos os circuitos de legitimação imagináveis, de todos os discursos teóricos, se auto-proclamar como arte, adquirindo, desde logo, esse poder que possui algo de tenebroso.


(Francis Bacon, "Head VI", 1949)


Perante uma obra de arte, somos todos cúmplices e companheiros de malogro. Unidos no pavor e no assombro, na certeza de ter todos os deveres e nenhum direito. (Sobretudo, nunca o direito de passar “um momento agradável” ou de “esquecer os seus problemas”.) O próprio direito a julgar valorativamente não passa de uma concessão, confinada ao estreitíssimo âmbito dos padrões estéticos que a sociedade fugazmente sanciona. À parte isso, o único julgamento possível, de natureza estritamente individual, consistiria em aferir da adequação da obra de arte como instrumento de salvação.

Um filme de Bresson presenciado, um poema de Yeats murmurado, um quadro de Cézanne examinado, são momentos desta conspiração sem fim último, sem intenção oculta a não ser a de perdurar, iludir a sua fragilidade.

Irmandade discreta e anónima, sem objectivos de tomada de poder nem de edificação da sociedade. Não trocam olhares dissimulados nos lugares públicos. Não se reconhecem graças a um qualquer aperto de mão maçónico. Cruzam-se, sem erguer a cabeça, nas ruas íngremes da cidade de Lisboa.

(Salpicam o rosto com água do bebedouro público do Jardim da Estrela, o rosto onde bate o sol feroz do fim da primavera.)

(Vilhelm Hammershøi, "Weisse Türen/Offene Türen", 1905)

terça-feira, fevereiro 20, 2007

QUEM PERDE GANHA: Na sua última crónica de segunda-feira, João César das Neves começa por admitir que o resultado do referendo sobre a despenalização da IVG foi uma enorme derrota para a Igreja católica. Como seria de esperar, porém, essa constatação não é senão um ponto de partida para mais um dos canhestros números de prestidigitação retórica com que este distinto economista nos costuma brindar: «A Igreja está habituada a perder. Aliás a vitória de há oito anos é que foi uma extraordinária excepção numa longa sequência de importantes baixas. São tantas as derrotas históricas que surpreende até como a Igreja consegue sobreviver e manter tanta influência. Mas não é apenas desse modo que a derrota é normal. Trata-se de um elemento básico e inato. O cristianismo é a religião da cruz e dos mártires. O seu Deus foi flagelado, coroado de espinhos, pendurado num madeiro até morrer. A fé cristã é o reino dos pobres e dos humildes.» Não me parece que, na história recente (digamos, para simplificar, no último século) as vitórias da Igreja, intra e extra-muros, tenham sido tão raras como isso. Lembro-me, por exemplo, do tratado de Latrão, da Concordata de 1940 com o Estado Novo, ou, mais próximo de nós, e muito a propósito, da decisão de submeter a despenalização da IVG a referendo, em vez de, como se impunha, resolver a questão por via parlamentar. Mas deixemos a contabilidade para os contabilistas. Uma coisa que JCN omite é que essa "longa sequência de importantes baixas" é uma consequência, fatal, deste facto muito simples: durante séculos, a Igreja gozou, em Portugal como em muitos outros países, de uma situação de privilégio e de hegemonia que hoje nos custa a conceber. Quando essa preponderância, e sobretudo a promiscuidade com o poder secular a ela associada, atingiram um zénite insustentável, teve início um declínio que se prolonga até hoje, e que está para durar. Para aqueles que têm tudo ou quase tudo, as probabilidades de perda, de derrota, de regressão, são forçosamente maiores do que as de conquista, vitória e progresso. Onde estamos definitivamente em desacordo é no seguinte: «O pior é que, quando a Igreja perde, quase ninguém ganha. A Igreja está preparada para perder, mas Portugal perde mais quando ela perde.» Basta pensar que a Igreja esteve, de forma sistemática e encarniçada, em Portugal e algures, contra o livre pensamento, contra a democracia, contra os direitos das mulheres, contra o divórcio, contra o acesso à contracepção e à educação sexual, para pôr em causa esta ousada hipótese de JCN. Eu atrever-me-ia até a aventar que a história recente está repleta de derrotas da Igreja que foram também excelentes notícias para a sociedade portuguesa. Como os primeiros parágrafos da sua crónica poderiam ter deixado no ar um vago aroma de razoabilidade e moderação, JCN apressa-se a dissipar essa desafortunada impressão, com pepitas como: «O aborto a pedido e pago pelo Sistema Nacional de Saúde assolará sobretudo as classes mais pobres, onde a tentação será mais forte. Paradoxalmente, como noutros países, isso minará a base eleitoral dos partidos de Esquerda. Haverá menos crianças a correr nos bairros de lata; menos crianças a correr nos infantários. Haverá menos crianças em todo o lado. Haverá menos portugueses.» Para quê tentar contrariar isto com estatísticas e argumentos? A vida é breve. Fiquemo-nos, sem mais comentários, com esta perturbante imagem de um bairro de lata deserto, sem vida, sem correrias de crianças, espelho fiel de um país em pleno descalabro moral.
UM CASO SÉRIO: Os cinemas Millenium Alvaláxia são um caso sério de incompetência e falta de respeito pelo cliente. Sucedeu-me hoje, pela segunda vez em poucos dias, ver-me impossibilitado de assistir ao filme que pretendia ("Scoop", de Woody Allen), devido a um erro na informação do horário da sessão, quer no jornal quer nos ecrãs junto das bilheteiras. Estas salas são as que se encontram mais próximas da minha casa, mas sinto-me cada vez mais relutante em visitá-las: planear uma tarde ou noite de cinema no Alvaláxia tem-se revelado um exercício com elevada componente de aleatoriedade, e não me apetece ver mais uma vez os meus planos arruinados devido a negligência grosseira por parte do prestador de serviços. Nem tudo foram agruras: tive assim, pela primeira vez na minha vida, oportunidade de rabiscar as páginas de um livro de reclamações. Foi um dia mau para cinefilia, mas bom para a cidadania. Acrescente-se a isto as bilheteiras onde também se vendem "consumíveis" (leia-se pipocas, coca-cola e outros inimigos da sétima arte), e funcionários que entram na sala a meio da sessão e ficam cinco minutos a contemplar a plateia, de braços cruzados (aconteceu-me no filme "Little Children"), e começamos a ter um caso a favor do boicote. Só as salas e o som, de muito boa qualidade, fazem pender a balança para o lado contrário.
BEGIN BEGAN BEGUN: Acabo de assistir, na RTP1, a um documentário sobre José Mourinho. Constatei uma verdade melancólica, mas que estava na altura de o nosso país enfrentar, fazendo das tripas coração: mesmo depois de mais de dois anos em Londres, Mourinho não fala tão bem inglês como Vale e Azevedo.

domingo, fevereiro 18, 2007

KUNDMANNGASSE:




Eu estive ...






A casa que Wittgenstein projectou aloja agora a embaixada da Bulgária.


À ATENÇÃO DAS COMPANHIAS FARMACÊUTICAS: Sabem o que seria realmente formidável? Que certos medicamentos fossem comercializados com sabor a sardinha, peru e borrego. Por exemplo, o Clavamox.







A gratidão de milhões de donos de gatos derramar-se-ia sobre quem tomasse tão feliz medida.
K AO KUADRADO: Num registo diarístico em que discorre sobre o processo de composição de uma novela, Kafka afirma que «...a novela, no caso de ser válida, contém em si própria a sua organização completa, mesmo quando ainda não se desenvolveu totalmente...», afirmação que poderá entender-se como sendo a própria história começada que, levando consigo o seu autor, continuasse a escrever-se a si mesma. (Maria Marques Chaves de Almeida, in "Perspectivas e Leituras do Universo Kafkiano", organização e introdução de Gonçalo Vilas-Boas e Zaida Rocha Ferreira, Apáginastantas, 1984.) A respeito desta citação, a autora insere a seguinte nota de rodapé: Esta afirmação de Kafka não pode deixar de comparar-se com as conhecidas palavras de Heinrich von Kleist: «die allmähliche Verfertigung der Geschichte beim Schreiben» (a progressiva construção da narrativa durante o acto da escrita). Desconheço a origem destas palavras, quase idênticas ao título de um ensaio do próprio Kleist: «Über die allmähliche Verfertigung der Gedanken beim Reden» (1807-1808). Ou seja, a progressiva construção das ideias pela palavra. Por sinal, este ensaio tem vindo a ser publicado na íntegra, e em fascículos, no blog Cartas do Meu Moinho. Era este um dos sonhos primordiais do 1bsk: que a sua razão de ser surgisse de forma síncrona com a sua própria elaboração. Formosos sonhos. Grandiosos desígnios. Em vez disso, temos tido bolos de arroz, Morangos com Açúcar e gatas pianistas.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

JUNK JUNK SCIENCE: O jcd descobriu que o top 10 de 2006 elaborado por um site que se auto-propõe denunciar, com todo o brio, abusos e falácias pseudo-científicas era encimado pelo documentário "An Inconvenient Truth", de Al Gore. Naturalmente, apressou-se a partilhar com os seus leitores tão delicioso veredicto. Um exame, ainda que superficial, teria permitido constatar que o site em questão, junkscience.com, longe de ser um imparcial paladino da ética científica, visa exclusivamente, de forma sistemática e tendenciosa, denegrir tudo o que cheire a agenda liberal: aquecimento global, protocolo de Kyoto, pesquisa em células estaminais, restrições contra o tabagismo, nada escapa ao seu fogo cruzado. Para além disso, uns escassos minutos de pesquisa em sites bem conhecidos como o Skeptic's Dictionary, a Wikipedia e o Sourcewatch teriam sido suficientes para perceber que o junkscience.com é essencialmente obra de um certo Steven J. Milloy, colunista da FoxNews associado a think tanks conservadores, e a quem está associado um já longo historial de violações éticas, facciosismo e ocultação de conflitos de interesse. A Internet é uma grande câmara de ecos, onde ressoam os rumores de batalhas longínquas. Inspirar-se em guerras alheias para alimentar guerrilhas locais revela, no mínimo, provincianismo. E são muitas as maneiras frutuosas e gratificantes de ocupar o tempo do dia e que não implicam reproduzir factóides colhidos aqui e ali, sem um q.b. de espírito crítico, e com o inevitável sorriso ufano estampado no rosto. (Atenção: o autor do post é o jcd, e não o João Miranda, como eu tinha escrito inicialmente. As minhas desculpas a ambos.)
FOREVER CHANGES (*): Mudei o meu blog para a conta Google, e eis que os posts foram invadidos por caracteres disparatados, pondo em causa (e com que dramatismo!) a sua legibilidade. Um simples ajuste nas opções do meu browser pôs cobro ao problema, mas angustia-me a possibilidade de outros leitores virem a sofrer da mesma vicissitude. Digam de vossa justiça, vilipendiem, vociferem. Todos os cidadãos têm direito inalienável à sua dose diária de 1bsk. (*) Singela homenagem a um álbum fabuloso dos Love de Arthur Lee.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

GEMINAÇÃO:



O Umblogsobrekleist partilha o seu aniversário com o do realizador Jacques Rivette. Rivette nasceu a 1 de Março de 1928. O 1bsk nasceu 75 anos mais tarde, a 1 de Março de 2003. Não se tratou de premeditação, mas poderia muito bem tê-lo sido. Jacques Rivette é um dos quatro ou cinco criadores, de todos os campos artísticos, que mais me influenciou e que mais admiro. Mal posso esperar pelo seu novo filme. Gostaria de estar no festival de Berlim, na fila para a sessão, com um copo grande de café a escaldar entre os dedos gelados. Adoro fotografias de rodagens. Esta é do filme "Out One". Rivette é o homem mascarado que olha para a sua imagem reflectida num espelho.
RIDENDO CASTIGAT: Os "Guignols de l'Info" (equivalente francês da "Contra-Informação") foram, em tempos, acusados de terem pesado decisivamente na eleição de Jacques Chirac nas presidenciais de 1995 (ver, por exemplo, aqui e aqui). Parece-me pouco crível que a (muito merecidamente) já mítica imitação que Ricardo Araújo Pereira fez de Marcelo Rebelo de Sousa tenha tido influência palpável no resultado do referendo do domingo passado. Porém, não me admiraria que esse devastador momento de humor tenha ajudado a mudar o sentido de voto de, pelo menos, umas quantas dezenas de almas, por esse Portugal fora. E não vejo nisso nenhum crime de lesa-democracia: uma sátira inteligente e certeira pode ser tão iluminadora como o mais lúcido comentário político.
OS ÚLTIMOS CARTUCHOS: De acordo com um horroroso folheto de propaganda ao "Não" que veio parar à minha caixa do correio, sexta-feira passada, podem-se detectar ondas cerebrais num feto de 6 semanas, por meio de electroencefalografia. Devemos congratular-nos por tudo ter acabado. Com mais meia dúzia de dias de campanha, acabariam por nos tentar convencer de que um óvulo fecundado já está em condições de tirar a carta de pesados.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Sentada a uma mesa de café, na estação de metropolitano do Campo Grande, uma senhora lia "Pedro Páramo", de Juan Rulfo. Para quem conhece o lugar, era mesmo ao pé daquela loja de têxteis para o lar que pratica preços tão convidativos.
CIÊNCIA E MÁ FÉ: A acreditar na propaganda de alguns defensores do "Não", o feto, às dez semanas, já possui órgãos em pleno funcionamento, já diz "Papá" e "Mamã", já reage à música de Beethoven e já gatinha, sendo mesmo caso para nos perguntarmos se as restantes vinte e tal semanas de gestação não passam de um supérfluo capricho da Natureza. De entre tantas fantásticas alegações, uma que sempre me intrigou tem a ver com a existência de "actividade cerebral" (ou "ondas cerebrais"), registada por meio de electroencefalografia, às dez semanas ou até antes. Para melhor ilustrar a minha perplexidade, chamo a vossa atenção para esta figura: Isto é um dispositivo de aquisição de electroencefalografia (EEG). Uma rede de eléctrodos é colocada junto ao escalpe, e os potenciais eléctricos locais são registados para posterior processamento. Estes potenciais eléctricos reflectem a actividade dos neurónios corticais. Sucede que estes potenciais são de fraca intensidade (algumas dezenas de microvolt, em média), e que o registo é fortemente afectado pela dispersão eléctrica ocasionada pelas camadas de tecido que separam o cérebro do escalpe (meninges, osso, pele). Por maioria de razão, estas dificuldades acentuar-se-iam caso a intenção fosse registar o electroencefalograma do feto dentro do útero, devido à presença de camadas adicionais de tecido com diferentes condutividades eléctricas, para além da interferência provocada pelos potenciais cardíacos da mãe. Uma pesquisa simples permitiu-me esclarecer, pelo menos em parte, esta questão. Todas as referências a "EEG fetal" que encontrei referem-se: ou a registos obtidos em prematuros, ou a registos obtidos na sequência de abortos por cesariana. Como este último método caiu em desuso, e como os registos de prematuros dizem normalmente respeito a períodos de gestação superiores às 20 semanas, as referências bibliográficas citadas em apoio da ocorrência de ondas cerebrais antes das 10 semanas remetem para estudos realizados há várias décadas. Isso mesmo explica este notável artigo, que desmonta, de forma sistemática, a teia de citações científicas que têm servido de muleta aos adeptos da actividade cerebral prematura. Citar é fácil; citar bem e com honestidade é tarefa mais delicada. Este artigo relembra-nos que um nome e uma publicação não conferem, por artes mágicas, veracidade e consistência a uma afirmação. Infelizmente, poucas coisas no mundo são mais obstinadas do que os factóides: até há algumas horas atrás, no artigo "fetus" da Wikipedia lia-se: «Brain activity can be detected at around 54 days (eight weeks), and development of integrated brain functioning at 70 days (ten weeks).» Algumas revisões depois, esta frase foi substituída por uma versão mais conservadora: «Brain-stem activity has been detected 54 days after conception.» Na versão da página que está activa enquanto escrevo estas linhas, vai-se ainda menos longe: «While there has been some contention brain activity begins at ten weeks, researchers have yet to make a determination.» É ainda instrutivo dar uma olhadela no intrincado historial desta página, assim como nas inflamadas (e, obviamente, percorridas por linhas argumentação "pró-vida" e "pró-escolha") discussões que têm acompanhado estes recentes e vertiginosos esforços de edição. Claro está que este pomo da discórdia, não sendo académico, está longe de merecer uma atenção obsessiva: definir o início da vida por meio de algo de tão vago como "actividade cerebral" é, no mínimo, controverso. Os neurónios são, por natureza, células excitáveis, cujas flutuações de polaridade, ao nível das membranas podem ser detectados do exterior, sob a forma de potenciais eléctricos. Porém, a mera existência de um registo electroencefalográfico não é sinónimo de vida. As funções cerebrais superiores, e mesmo um "simples" estado de sono ou vigília, são caracterizados por padrões e ondas muito específicos e bem conhecidos. Mas claro que estas considerações são demasiado complexas para caberem num folheto de propaganda. De simples, a questão não tem nada. Para mal dos nossos pecados, simplificar de forma grosseira aquilo que é complexo é estratégia comum daqueles a quem a argumentação racional faz alergia. Por isso, da próxima vez que algum peremptório representante do movimento "Algarve pela Vida" ou "Caldas da Rainha Ocidental pela Vida" se pronunciar sobre o momento em que começa a vida humana, pergunte-lhe de onde provém a sua inabalável certeza. Mesmo num tempo em que a discussão serena e ponderada parece fora da ordem do dia, insistir na necessidade de sustentar afirmações levianas com factos concretos é um favor que se faz à comunidade.