CONSPIRAÇÃO COM TEJO AO FUNDO:
(Texto publicado no suplemento "Ípsilon" do jornal "Público" do passado dia 16/2. Com alguns quadros para ficar mais alegre.)
Há dias, assisti a uma sessão onde o crítico e historiador de arte Delfim Sardo abordou a possibilidade de emissão de juízos de valor perante uma obra de arte. Embora este assunto esteja longe de me deixar indiferente, torna-se para mim mais sedutor e urgente especular sobre algo que precede a questão da valoração qualitativa: refiro-me à simples presença da obra, à evidência crua e incontornável que a acompanha. A despudorada diferença entre a sua existência e o nada confere-lhe um estatuto que implica ascendente e poder sobre as coisas do mundo. Manejar placidamente a obra de arte como uma descartável ferramenta de entretenimento pode, na aparência, mitigar esse poder, mas não é disso que eu falo: falo de olhar com lisura e disponibilidade, falo de ouvir e entender.
(Luc Tuymans, "Slide #2", 2002)
A obra de arte existe na sociedade contemporânea essencialmente como mercadoria (estatuto a que, só por si, não associo carga pejorativa). Oferece-se à atenção do público mediada pelo jornalismo de cariz mais ou menos marcadamente crítico, e sempre associada a uma ocasião (lançamento de livro, inauguração de exposição, estreia de cinema). Tal acarreta o risco de nos desabituarmos de pensar na obra de arte desligada da sua relevância mediática, armada apenas daquilo que tem de perene. E, contudo, um quadro existe sem intermitências; a sua temível capacidade de transformar vidas pode desencadear-se a qualquer instante. Que fazer, perante esse resquício material de um trabalho subtraído à relevância banal do quotidiano? Pode-se passar adiante. É forçoso passar adiante. Mas a obra de arte dá-se esplendidamente bem com a efemeridade da atenção alheia. Tem tudo a seu favor, porque, como num escrínio, guarda dentro de si uma porção daquilo que, mais tarde ou mais cedo, alguém (com raiva e humildade) se forçará a vir buscar para se completar como ser humano. Tudo a seu favor: até mesmo a possibilidade de, à revelia de todos os circuitos de legitimação imagináveis, de todos os discursos teóricos, se auto-proclamar como arte, adquirindo, desde logo, esse poder que possui algo de tenebroso.
(Francis Bacon, "Head VI", 1949)
Perante uma obra de arte, somos todos cúmplices e companheiros de malogro. Unidos no pavor e no assombro, na certeza de ter todos os deveres e nenhum direito. (Sobretudo, nunca o direito de passar “um momento agradável” ou de “esquecer os seus problemas”.) O próprio direito a julgar valorativamente não passa de uma concessão, confinada ao estreitíssimo âmbito dos padrões estéticos que a sociedade fugazmente sanciona. À parte isso, o único julgamento possível, de natureza estritamente individual, consistiria em aferir da adequação da obra de arte como instrumento de salvação.
Um filme de Bresson presenciado, um poema de Yeats murmurado, um quadro de Cézanne examinado, são momentos desta conspiração sem fim último, sem intenção oculta a não ser a de perdurar, iludir a sua fragilidade.
Irmandade discreta e anónima, sem objectivos de tomada de poder nem de edificação da sociedade. Não trocam olhares dissimulados nos lugares públicos. Não se reconhecem graças a um qualquer aperto de mão maçónico. Cruzam-se, sem erguer a cabeça, nas ruas íngremes da cidade de Lisboa.
(Salpicam o rosto com água do bebedouro público do Jardim da Estrela, o rosto onde bate o sol feroz do fim da primavera.)
(Vilhelm Hammershøi, "Weisse Türen/Offene Türen", 1905)