quinta-feira, outubro 18, 2007
COMO FALAR DE UM AUTOR QUE NUNCA SE LEU: O excessivo peso que se atribui ao Nobel da literatura (como se a Academia fosse dotada de uma presciência sobre-humana que a distinguisse dos demais júris de milhares de prémios literários) mede-se não tanto em minutos de cobertura mediática (a rotineira nota de rodapé em noticiários televisivos e jornais) como na intensidade e verbosidade das reacções que se continuam a fazer ouvir, dias e semanas após a atribuição, à maneira de ecos tornados mais incómodos pela exiguidade da caixa de ressonância.
Neste ano, atingiram-se zénites de idiotice e leviandade para os quais, admita-se, contribuíram muitas das opiniões de peritos que foram convidados a emitir juízo. De Hélder Macedo a Maria Teresa Horta, passando por Saramago e (pasme-se) Lídia Jorge, muito se falou em feminismo e experiência feminista, em sensibilidade social e em consciência cívica, em experiência e em valores. Falou-se de tudo um pouco, excepto de talento e mérito literário, coisa de que Doris Lessing é superiormente dotada, e da grandeza da sua obra multifacetada.
Não teria sido necessário nada disto (mas deu uma ajudinha) para que surgissem os cínicos do costume, com a aljava repleta de argumentos contra a credibilidade do Nobel, conhecida arma de arremesso politicamente correcta esvaziada de conteúdo, titilados pelo sumário thumbs down de Harold Bloom (dá sempre jeito a um magala ter um fazedor de cânones como primeiro sargento).
A culpa de tudo isto, no fundo, é da própria Doris Lessing. Para além de imune ao vedetismo, de escrever ficção científica, e de ter opiniões sobre política e sociedade, não possui um cunho estilístico marcado. É muito mais fácil desvalorizar o talento de um escritor que não se individualiza pelo estilo brilhante e convoluído do que um qualquer acrobata do verbo. Doris Lessing oferece, assim, o flanco àqueles em cujo espírito, por pura ignorância ou estreiteza de vistas, ausência de estilo individual equivale a desleixo formal.
«Ou seja, para catalogar Doris Lessing não é preciso lê-la, basta incluí-la numa pretensa agenda política do Nobel da literatura» (Lido aqui.)
Nunca ninguém leu aqui, neste blog tão verde, comentários sobre a obra e o mérito de Gao Xingjian, Imre Kertész ou Orhan Pamuk.
UM BLOG... : Para blogar enquanto se nica ou para nicar enquanto se bloga. E vice-versa. Está tudo explicado aqui.
quinta-feira, outubro 11, 2007
FESTA É FESTA (MAS MENOS DO QUE ANTIGAMENTE): Não pude deixar de reparar, logo a seguir ao tal post de 2003 onde falava de Doris Lessing, a uma referência à Festa do Cinema Francês desse ano. Téchiné, Ozon, Pascal Bonitzer, Chéreau, Brisseau, Jean-Claude Biette... Que contraste relativamente ao desenxabido programa deste ano de 2007.
Como não ceder ao saudosismo, perante este e outros indícios de que dantes era tudo melhor do que é hoje?
DO MÉRITO: A 2 de Outubro de 2003, eu escrevia:
«(...)não me importo de admitir que, a cada ano que passa, alimento uma secreta esperança de ver premiado, e com direito ao spot de 60 segundos nos telejornais nacionais (entre o desporto e a meteorologia), um dos meus autores preferidos ainda vivos: John Barth, John Ashbery, Jacques Roubaud, Pascal Quignard, Doris Lessing, Peter Handke...»
Acho absurdamente desproporcionado o alarido mediático que se cria em torno do prémio Nobel da literatura, mas não deixo de ficar satisfeito quando um escritor do meu panteão pessoal é distinguido.
Há muito tempo (talvez desde Seamus Heaney) que um Nobel não me suscitava um sorriso de orelha a orelha.
Doris Lessing é uma daquelas escritoras de quem se pode dizer ser desprovida de estilo (o que está longe de equivaler a desleixo formal). Tanto assim que um primeiro contacto com um fragmento da sua obra, um conto ou mesmo um romance inteiro pode decepcionar. Só muito de quando em quando emerge algo que se possa assemelhar a virtuosismo. Apesar da limpidez e do equilíbrio da sua prosa, não é o tipo de autor que fornece tiradas brilhantes e engenhosas aos coleccionadores de citações. A importância da sua obra deve ser apreciada, digamos assim, à distância, mediante uma visão de conjunto. Conheço poucos escritores que consigam conjugar de forma tão rica e exaltante a componente autobiográfica, a atenção aos problemas da sociedade e uma profunda dimensão humana.
Não me parece que o seu livro mais conhecido seja "The Fifth Child". Em todo o caso, os meus romances favoritos de Lessing são a pentalogia "Children of Violence" e essa obra extraordinária chamada "The Golden Notebook", sem a qual - sinto-me tentado a afirmar - o século XX seria um pouco mais difícil de entender.
(Nem me dou ao trabalho de percorrer os blogs para saber em que termos os escribas do costume põem a causa a justiça deste prémio. Tratando-se de uma mulher, ainda por cima de esquerda, ainda por cima meio africana, torna-se claro como água que se tratou de mais uma decisão política da Academia. Basta ter olhos na cara, pois então.)
terça-feira, outubro 09, 2007
ARTE SUBTERRÂNEA: Gosto muito das obras de Joana Rosa que integram a estação de metropolitano da Quinta das Conchas.
Joana Rosa baseia parte considerável do seu trabalho nos chamados "doodles": «(...) desenhos, garatujas e rabiscos feitos distraidamente enquanto se conversa ou se atenta noutras coisas. (...) À apropriação do objecto ou "doodle" feito pela própria, oferecido roubado ou colhido de outras pessoas, por vezes após longas horas de espera, a artista associa uma etiqueta em que explica quem o fez, onde, quando, em que contexto, e adiciona-lhe por isso uma densidade existencial: o "doodle" corresponde a uma personalidade e a um momento de criação, no qual tudo aparece em bruto e não filtrado pela consciência.» (Leonor Nazaré, Roteiro da colecção do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão).
Também me agradam fortemente os ícones de Eduardo Batarda que povoam as paredes da estação de Telheiras. Vejo-os todos os dias, assim como à máquina de venda de bebidas que tapa parcialmente um dos painéis de azulejos. Assim privam o passageiro (a quem já bastariam as ordinárias agruras e vicissitudes da vida) da fruição de algumas destas figuras, a meio caminho entre a abstracção e a funcionalidade.
Não será isto um caso de vandalismo institucional por parte do metropolitano de Lisboa?
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma senhora lia a epopeia de Gilgamesh, em alemão, na linha azul do metropolitano.
Há que reconhecer que tenho andado a negligenciar esta linha, cujos passageiros em breve disporão de mais duas estações para ler epopeias sumérias, ou outras obras literárias que encontrem graça a seus olhos.
UM BEIJO DADO MAIS TARDE: Uma mulher está a ser julgada por ter beijado um quadro de Cy Twombly, numa exposição em Avignon. O beijo deixou marcas de bâton, o que ajuda a configurar uma situação de vandalismo, embora certamente não das mais convencionais.
O advogado de defesa afirma ter-se tratado de um acto de amor. A advogada da acusação, pouco impressionada, afirma que «en amour, il faut être deux et consentants», assim desqualificando sumariamente toda uma tradição de fetichismos e parafilias que, queira-se ou não, é parte integrante da cultura ocidental.
No meu romance "Aqui Vem o Sol", um assaltante do Rijksmuseum roçava com os lábios um quadro de Odilon Redon, o "Retrato de Violette Heymann", e ficava sem a justa punição.

A arte e a vida imitam-se uma à outra com um desembaraço encantador.
O advogado de defesa afirma ter-se tratado de um acto de amor. A advogada da acusação, pouco impressionada, afirma que «en amour, il faut être deux et consentants», assim desqualificando sumariamente toda uma tradição de fetichismos e parafilias que, queira-se ou não, é parte integrante da cultura ocidental.
No meu romance "Aqui Vem o Sol", um assaltante do Rijksmuseum roçava com os lábios um quadro de Odilon Redon, o "Retrato de Violette Heymann", e ficava sem a justa punição.

A arte e a vida imitam-se uma à outra com um desembaraço encantador.
sexta-feira, outubro 05, 2007
quarta-feira, outubro 03, 2007
AN ALAN SMITHEE FILM FEATURING MARGARIDA VILA-NOVA: Consta que João Botelho e Leonor Pinhão se desentenderam com o produtor de "Corrupção", e poderão recusar-se a assinar a versão do filme a comercializar. Seria, ao que parece, a primeira vez que um filme português estrearia sem nome de realizador.
Tenho a propor uma solução que seria ao mesmo tempo simples, elegante, original e moderna: fazer de "Corrupção" o primeiro filme português assinado por Alan Smithee!
(Ou então um nome com consonâncias mais lusas, forjado para o efeito. "Alan Smithee" é anagrama de "The Alias Men". Alguma ideia, Rogério?)
terça-feira, setembro 25, 2007
E POR FALAR EM FRUTOS VERMELHOS: Também os "Morangos com Açúcar" se baseiam numa estrutura serial. Os anos passam, mas nunca falta um rebelde, um dono de bar, um professor mau, um professor bom, um deficiente, uma baby doll caprichosa, um delinquente, e uma estudante da Europa de Leste.
Grande parte do encanto desta novela está na maneira engenhosa como os criadores temperam esta lógica serialista, eminentemente conservadora, com a exploração de traços pessoais das personagens, e com a introdução sabiamente doseada de acidentes e contingências. Assim se transmite a ilusão de estarmos perante um programa que evolui no tempo, quando afinal não passa de uma colorida e agitada máquina de auto-preservação, cuja única razão de ser é a sustentação de um simulacro de coerência narrativa ao longo do tempo.
Posto isto, queria chamar a atenção para um dos novos actores, que fazia de criança índigo noutra novela da TVI. A personagem dele faz gazeta às aulas. A vida dá mais voltas do que o carrocel do "Strangers on a Train" do Hitchcock.
O SABOR DA CEREJA: No suplemento "Única" do "Expresso" de 15/9 ocorreu um lapso equiparável ao recente bonifáciogate (tentativa ardilosa de fazer passar John Updike por Thomas Pynchon, devidamente denunciada neste espaço). Numa reportagem intitulada "O Poder do Vermelho", da autoria de Nelson Marques, aparece uma magnífica cereja junto a uma legenda onde são enumeradas as virtudes das amoras pretas (redução do colesterol, inibição do cancro, conservação do equilíbrio, memória e coordenação motora).
Confundir um Grande Escritor Americano com outro Grande Escritor Americano é, indubitavelmente, uma coisa grave: a literatura é uma das mais gloriosas realizações do espírito humano. Querer fazer passar uma cereja por uma amora configura algo de muito mais perverso, ao nível dos fundamentos da semântica e da ontologia do acto de nomear, e promove uma subversão das evidências que mexe com alguns dos fantasmas mais profundos do nosso imaginário colectivo.
Isto para além de que um livro, por mais genial que seja, não possui propriedades antioxidantes nem pectina.
sábado, setembro 22, 2007
FESTA DO CINEMA FRANCÊS: Ora bem, falemos da 8ª Festa do Cinema Francês. Confesso que o programa não me entusiasmou, mas talvez isso seja, em parte, consequência de eu seguir menos de perto o novo cinema francês por comparação com o que fazia há alguns anos. Há nomes que eu desconheço e que, porventura, merecem atenção.
Entre os imperdíveis estão os dois Resnais mais recentes ("Pas sur la bouche" e "Cœurs"). Resnais é um dos génios do cinema mundial, ponto final. Um homem que realizou obras-primas fulgurantes como "Hiroshima Mon Amour", "L'Année Dernière à Marienbad", "Mélo" ou "Providence" já não precisa de mostrar nada para merecer o seu lugar (e que lugar!) na história. Todos os seus novos filmes são obrigatórios, quanto mais não seja porque, pela ordem natural (mas deplorável) das coisas, dentro de algum tempo a expressão "o novo filme de Alain Resnais" deixará de ter cabimento.
Outro filme que farei o possível por ver é "Les Chansons d'Amour", de Christophe Honoré. Vi recentemente "Dans Paris", que me deixou impressão positiva. Honoré parece ter o talento e a energia criativa para se afirmar como um dos autores mais consistentemente interessantes da sua geração. Deixa-me um pouco de pé atrás o facto de este filme ser um musical, mas há que admitir que muitos de entre os melhores passaram com distinção cum laude o seu exame de autor de musicais (Rivette com "Haut Bas Fragile", outra vez Resnais com "On Connaît la Chanson"...). Claro que há excepções (Von Trier com o execrável "Dancer in the Dark", Woody Allen com "Everybody Says I Love You", de que toda a gente gostou menos eu).
De entre as restantes propostas, destaco "Backstage", de Emmanuelle Bercot, pela simples razão de que já li boas referências a filmes anteriores desta realizadora, e "Gradiva", por ser de quem é. Admiro profundamente Alain Robbe-Grillet enquanto escritor, mas nunca contactei com a sua já considerável obra cinematográfica. A presença de Arielle Dombasle no elenco é um ponto contra, mas há que ter vistas largas.
Quanto aos demais, assinalo o elenco promissor de um dos Berri ("Anna M.", com Isabelle Carré e Gilbert Melki), e noto a já habitual tendência francesa para deixar escritores (Robbe-Grillet e Éric-Emmanuel Schmitt) e actores (Roschdy Zem e Laure Marsac) fazerem uma perninha atrás das câmaras. Laure Marsac, para quem não se recorda, era levada ao colo por Tom Cruise em "Entrevista com o Vampiro".
Visite o site oficial. Fiquei ainda a saber que a Festa do Cinema Francês é do sexo feminino e tem 27 anos de idade.
Impõe-se ainda um desabafo: E O RIVETTE?
O NOVO ANO SCOLARI: O "Sargentão" raramente desilude os seus fãs. Emitida a sentença (quatro jogos de suspensão), ei-lo a investir forte e feio no choradinho da injustiça. Punido por uma agressão a um adversário, presenciada ao vivo por dezenas de milhar e via televisão por milhões, o assalariado da Federação Portuguesa de Futebol puxa de uma argumentação que teria mais cabimento num recreio de escola do que numa sala de imprensa: ele é que começou. O seleccionador nacional de futebol deveria saber que lhe é exigido um sentido das responsabilidades superior ao de um qualquer Zezinho que acusa o Huguinho de lhe ter roubado um berlinde. Mas isso seria pedir demais a um treinador que entrou em puro denial sem bilhete de volta.
Quanto a ter reconhecido "frontalmente" o seu erro... Se reconhecer frontalmente um erro passa por negar, com agastamento e veemência, ter cometido qualquer erro, então estamos perante um admirável exemplo de frontalidade.
Uma pessoa que assistia comigo ao Portugal-Sérvia afirmou, após o já memorável semigancho de esquerda a Dragutinovic, que Scolari estava cada vez mais português. Concordo. Saber o hino e gostar de bacalhau à Gomes de Sá são critérios de fiabilidade reduzida. Armar peixeirada em pleno campo (ou, melhor ainda, no túnel de acesso aos vestiários - talvez ainda lá cheguemos) é, esse sim, um indicador sólido de que o processo de indigenização ultrapassou o ponto de não retorno.
domingo, setembro 16, 2007
INSUCESSO SCOLARI: É muito raro eu escrever sobre futebol. São tantos os que o fazem que eu hesito antes de acrescentar algum ruído ao ruído. Mas há ocasiões em que a minha renitência se tem de confessar vencida.
Luiz Felipe Scolari é pago principescamente para exercer uma profissão que implica representar Portugal, e que lhe confere uma visibilidade enorme. Esta posição acarreta deveres e responsabilidades extremos. Dificilmente se poderia imaginar uma situação em que alguém se mostrasse mais indigno desses deveres e responsabilidades do que a que ocorreu em Alvalade, na passada quarta-feira. Agredir um adversário é agredir um adversário, sejam quais forem as atenuantes. Aliás, as atenuantes que têm sido alegadas são do foro da provocação verbal ou física. Não se tratou de um gesto de legítima defesa. Ainda que fosse na sequência de intimidações, tratou-se de uma AGRESSÃO, de um comportamento de arruaceiro, em directo para milhões de espectadores.
Se isto, por si, já seria grave, mais grave e patético (para além, temo-o, de definidor de um carácter) foi a atitude de Scolari na conferência de imprensa: negação pura e simples, tentativa de convencer aqueles que legitimamente o questionavam de que se tratara de uma situação normal em futebol, e de que se limitara a "abrir os braços". Foi de meter dó. Com uma pessoa assim, que nega o óbvio com tão assombrosa desfaçatez, não se argumenta; mas numa pessoa assim não se confia para dirigir homens e uma equipa.
Mesmo o tardio acto de contrição, 24 horas depois, soube a pouco. "Todos erram", afirmou Scolari, como que alegando tratar-se de um gesto de suprema humanidade, de um simples efeito colateral da condição falível partilhada por tudo quanto é Homo sapiens. O que faltou a Scolari foi admitir que nem todos os erros se assemelham pela magnitude, e que a estrondosa gravidade do seu erro colocou seriamente em causa a sua competência para a profissão que exerce.
Salpicando a justa indignação suscitada pelo gesto de Scolari, lá surgem as inevitáveis vozes contemporizadoras, cujo apetite para tapar o sol com uma raquete de badminton só tem paralelo com a prontidão com que falam em "cruzada moralista" de cada vez que alguém se insurge contra uma situação que lhe parece errada. Num país brando nos costumes e flácido na ética, os medíocres e os sonsos safam-se invariavelmente melhor do que aqueles que procuram pôr o dedo na ferida, e cauterizá-la se necessário.
Durante muito tempo, achei descabidas as críticas que choviam sobre o desempenho de Scolari, e impacientei-me contra os remoques de treinador de pantufas dirigidos a um treinador que conduziu Portugal a um vice-campeonato da Europa e às meias-finais de um Mundial. Convenço-me agora de que Scolari está a mais na selecção portuguesa, de cujo destino me desinteresso em definitivo, e cuja ausência do próximo Europeu talvez não fosse tão má como isso para a sanidade do país.
TODA A GENTE CÁ NA CASA PÕE A MÃO NO AR: As séries dos "Morangos com Açúcar" passam, mas certos motivos permanecem invariantes, a ponto de já não se conceber sem eles esta série tão ao gosto do público infanto-juvenil. Pequena lista ao correr da pena:
- Donos de bar de compleição robusta e que nunca apertam os botões de cima da camisa (Fred, Xavier).
- Personagens que desaparecem para países longínquos (Eslováquia, Suécia, Austrália) quando expira o seu tempo de vida útil do ponto de vista da economia narrativa da série.
- Personagens sobre cujas cabeças pende ameaça de recambiamento para lugares inóspitos, longe dos amigos e dos Morang'Ices (Alentejo, e novamente a Eslováquia).
- Acções cometidas sob efeito de substâncias alienantes sub-repticiamente introduzidas num alimento de aspecto inocente (lembram-se das tostas de frango do bar do Fred?).
- Agentes da PSP que ajudam a salvar situações delicadas, mas que são sempre intepretados pelos piores actores.
- Casalinhos separados por um infeliz mal-entendido, que se esclarece poucos dias antes do lançamento da nova grelha da TVI.
Aproveito para sugerir que o Duarte poderia ter facilmente reconquistado a Laura se se prontificasse a cortar o cabelo e deixar de usar Crocs. É um erro crasso acreditar que o amor é cego, em vez de apenas um bocadinho hipermétrope.
segunda-feira, setembro 03, 2007
THE WRONG MAN: Num artigo incluído no último suplemento "Ípsilon", João Bonifácio coloca a diversas personalidades do mundo literário a questão incontornável: "Qual é, afinal, o grande escritor americano vivo?" (com maiúsculas ficava melhor). Entre as fotografias que complementam agradavelmente o artigo, uma não pode deixar de causar perplexidade. A legenda "Thomas Pynchon" fez-me inicialmente acreditar tratar-se de uma adição recente à escassíssima (para não dizer inexistente) iconografia do autor de "Gravity's Rainbow". Um exame mais atento (e a impecável memória visual de Q.) fizeram ruir essa doce ilusão. O indivíduo em questão é, afinal, John Updike.
A fotografia publicada não era esta, mas o aspecto de John Updike é este:

Os deslizes acontecem. E há que admitir que não me pareceria de todo inadmissível que a fisionomia do jovem marujo Pynchon tivesse, ao envelhecer, convergido para a imagem da fotografia anterior. Com um pouco de fantasia e de fé, a coisa passa.

Mas a minha representação preferida de Pynchon é, sem qualquer dúvida, esta:
A fotografia publicada não era esta, mas o aspecto de John Updike é este:

Os deslizes acontecem. E há que admitir que não me pareceria de todo inadmissível que a fisionomia do jovem marujo Pynchon tivesse, ao envelhecer, convergido para a imagem da fotografia anterior. Com um pouco de fantasia e de fé, a coisa passa.

Mas a minha representação preferida de Pynchon é, sem qualquer dúvida, esta:
domingo, agosto 12, 2007
PALCO, VIDA E LINHA DOS TRÊS PONTOS: No seu livro "True and False - Heresy and Common Sense for the Actor", David Mamet estabelece a seguinte analogia entre o teatro e o basquetebol:
«The Method school would teach the actor to prepare a moment, a memory, an emotion for each interchange in the play and to stick to that preparation. This is an error on the order of the basketball coach instructing his team to stick to the plays which they practiced irrespective of what their opponents are doing.»
Há um poema de António Franco Alexandre (de "Quatro Caprichos") que fala de um treinador de basquetebol que era também encenador de teatro, embora fosse demasiado jovem e incompetente para qualquer uma das atribuições.
Também explorei esta analogia numa peça minha.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na zona de restauração de um centro comercial do Saldanha, de cujo nome nunca me consigo recordar, um cavalheiro lia as "Metamorfoses" de Ovídio. Sem a atenção de Q., teria falhado este importante avistamento.
A propósito: no filme "Esther Kahn", uma das irmãs de Esther lê "Sesame and Lilies", de John Ruskin. Proust, que admirava Ruskin, traduziu para francês este livro, aparentemente com a colaboração da sua mãe e da prima do compositor Reynaldo Hahn.
OUTRA VEZ SARTRE: Lembro-me também (outra memória falsa?) de ler ou ouvir dizer que Sartre tinha recusado o Nobel por não querer receber dinheiro do inventor da dinamite.
No "Robert des grands écrivains de langue française" são mencionadas algumas motivações mais plausíveis:
- son refus constant des distinctions officielles
- sa conviction qu'«un écrivain qui prend des positions politiques, sociales ou littéraires ne doit agir qu'avec les moyens qui sont les siens, c'est-à-dire la parole écrite [et que] toutes les distinctions qu'il peut recevoir exposent ses lecteurs à une pression [qui n'est] pas souhaitable»
- le constat selon lequel «dans la situation d'aujourd'hui, le prix Nobel se présente objectivement comme une distinction réservée aux écrivains de l'Ouest ou aux rebelles de l'Est».
Aproveito para acrescentar que a "madame Z." a quem é dedicada a obra "Les Mots" era Lena Zonina, intérprete durante a visita de Sartre à URSS.
EMANAÇÃO: No "DN" do passado dia 7 surgiu uma notícia (creio que não disponível "online") com o título: "Dalai Lama proibido de voltar a reencarnar". No corpo da notícia, é-nos explicado que as autoridades chinesas proibiram novas reencarnações de Buda, naquilo que só pode ser entendido como uma inaudita deriva sobrenaturalista do poder judicial.
Ao carácter burlesco da notícia, o jornalista que a redigiu parece ter achado por bem acrescentar um suplemento de cómico involuntário: "O actual Dalai Lama, de 72 anos, vive no exílio desde a invasão chinesa(...). Quando morrer, a emanação de Buda vai reencarnar, passados 49 dias, num dos pequenos monges tibetanos.".
O que vem a ser a "emanação de Buda"??? E estará a realidade objectiva da reencarnação suficientemente demonstrada para que o fenómeno seja mencionado com este desprendimento? Não seria obrigação de um jornal sério introduzir este tipo de frase com um palavreado do tipo "Os seguidores da religião budista alegam que..."?
domingo, agosto 05, 2007
LA CARRIÈRE D'ÉRIC: Até ao recente segundo visionamento (primeiro em grande ecrã), na Cinemateca, tinha "La Carrière de Suzanne" como, de longe, o menos conseguido dos "Contos Morais" de Rohmer. Vi-me obrigado a reconsiderar esta opinião severa. Embora obviamente menos rico do que alguns dos títulos que se lhe seguiram ("Le Genou de Claire", "La Collectionneuse", "Ma Nuit Chez Maud" são exemplos óbvios), não faltam méritos a "La Carrière de Suzanne". Em retrospectiva, a personagem de Suzanne, cortejada sucessivamente pelo amigo do narrador e pelo próprio narrador, aparece como o primeiro grande exemplo de um tipo de personagem recorrente nos filmes de Rohmer: a manipuladora involuntária. Durante quase todo o filme, a evolução de Suzanne (a sua "carreira", no fundo) é, aparentemente, um fruto do acaso e do capricho, mais do que de qualquer premeditação. Ao envolver-se sucessivamente com os dois jovens que a assediam, nunca abdica da sua margem de manobra, nem do poder supremo de condicionar o enredo, acabando por se associar romanticamente a um terceiro homem. As palavras finais do narrador são estas:
Cette fille, pour qui je n'avais pu éprouver, au cours de l'année, qu'une espèce de pitié honteuse, nous réglait notre compte à tous sur la ligne d'arrivée, et nous réduisait au rang des gamins que nous étions. Coupable ou non, naïve ou rusée, après tout qu'importait? En me privant du droit de la plaindre, Suzanne s'assurait sa vraie revanche.

Se o narrador de "La Carrière de Suzanne" conhecesse a obra de Rohmer, saberia quão vã pode ser esta pergunta: "ingénua ou astuciosa"? Quase todos os filmes de Rohmer exploram situações em que a ambiguidade dos julgamentos morais é fruto de uma indefinição entre o acaso, a intenção e uma versão marcadamente laica e terrena da predestinação. Tal como o Gaspard de "Conte d'Été", como a Haydée de "La Collectionneuse", até como a Marquesa de O... na adaptação da obra de Kleist, Suzanne pode ser vista como uma estratega sagaz ou como uma personagem que se limita a viver os eventos que ocorrem, independentes da sua vontade. Culpada ou não? Responsável ou não? Este tipo de perguntas nunca perderão a sua pertinência na filmografia de Rohmer, embora raras vezes sejam colocadas de maneira tão explícita. Sobre toda a obra deste cineasta pairam as armadilhas conceptuais subjacentes à possibilidade de formular juízos de valor. Não há realizador que atribua tanta importância à moral, não há realizador menos prescriptivo.
Uma das minhas cenas favoritas deste filme é uma cena que me parece totalmente gratuita (algo de pouco comum em Rohmer), em que as três personagens principais se entregam a uma pouco séria sessão de espiritismo. Trata-se de uma cena longa, na qual, à medida que a mensagem do "espírito de D. Giovanni" vai sendo decifrada, Rohmer intercala curtas imagens fixas de objectos do apartamento onde se desenrola a acção. Essas curtíssimas inserções, à maneira de vinhetas desinseridas de qualquer lógica de "raccord", podem talvez não ter outra função que não seja a de representar a própria duração temporal da cena, e a de sublinhar visualmente, de forma bem-humorada, a nula relevância da cena para a história. (Claro que tudo isto pode ser mero resultado da minha falta de perspicácia para detectar a função dessa cena e dessa opção de montagem.) Mais tarde, a gratuidade nos filmes de Rohmer haveria de se exprimir preferencialmente sob a forma de apontamentos de cariz etnográfico/turístico (a geografia urbana de Nevers em "Conte d'Hiver", os relatos sobre a pesca de alto mar em "Conte d'Été"...), deliciosamente supérfluos.
Para finalizar: gosto muito de uma coisa que António Rodrigues diz, na folha da Cinemateca dedicada à dupla sessão "La Boulangère de Monceau"/"La Carrière de Suzanne": «(...)como todo [o] classicista Rohmer tem a noção exacta das proporções», isto a propósito de todos os seus filmes terem a duração "certa". Sem dúvida que Rohmer é um classicista, e a sua obra arrebatadora surge como demonstração eloquente de que classicismo e liberdade criativa estão longe de ser inconciliáveis.
(Um classicista, um moderno e um criador livre? Mas isso são três desejos, não é possível...)
Cette fille, pour qui je n'avais pu éprouver, au cours de l'année, qu'une espèce de pitié honteuse, nous réglait notre compte à tous sur la ligne d'arrivée, et nous réduisait au rang des gamins que nous étions. Coupable ou non, naïve ou rusée, après tout qu'importait? En me privant du droit de la plaindre, Suzanne s'assurait sa vraie revanche.

Se o narrador de "La Carrière de Suzanne" conhecesse a obra de Rohmer, saberia quão vã pode ser esta pergunta: "ingénua ou astuciosa"? Quase todos os filmes de Rohmer exploram situações em que a ambiguidade dos julgamentos morais é fruto de uma indefinição entre o acaso, a intenção e uma versão marcadamente laica e terrena da predestinação. Tal como o Gaspard de "Conte d'Été", como a Haydée de "La Collectionneuse", até como a Marquesa de O... na adaptação da obra de Kleist, Suzanne pode ser vista como uma estratega sagaz ou como uma personagem que se limita a viver os eventos que ocorrem, independentes da sua vontade. Culpada ou não? Responsável ou não? Este tipo de perguntas nunca perderão a sua pertinência na filmografia de Rohmer, embora raras vezes sejam colocadas de maneira tão explícita. Sobre toda a obra deste cineasta pairam as armadilhas conceptuais subjacentes à possibilidade de formular juízos de valor. Não há realizador que atribua tanta importância à moral, não há realizador menos prescriptivo.
Uma das minhas cenas favoritas deste filme é uma cena que me parece totalmente gratuita (algo de pouco comum em Rohmer), em que as três personagens principais se entregam a uma pouco séria sessão de espiritismo. Trata-se de uma cena longa, na qual, à medida que a mensagem do "espírito de D. Giovanni" vai sendo decifrada, Rohmer intercala curtas imagens fixas de objectos do apartamento onde se desenrola a acção. Essas curtíssimas inserções, à maneira de vinhetas desinseridas de qualquer lógica de "raccord", podem talvez não ter outra função que não seja a de representar a própria duração temporal da cena, e a de sublinhar visualmente, de forma bem-humorada, a nula relevância da cena para a história. (Claro que tudo isto pode ser mero resultado da minha falta de perspicácia para detectar a função dessa cena e dessa opção de montagem.) Mais tarde, a gratuidade nos filmes de Rohmer haveria de se exprimir preferencialmente sob a forma de apontamentos de cariz etnográfico/turístico (a geografia urbana de Nevers em "Conte d'Hiver", os relatos sobre a pesca de alto mar em "Conte d'Été"...), deliciosamente supérfluos.
Para finalizar: gosto muito de uma coisa que António Rodrigues diz, na folha da Cinemateca dedicada à dupla sessão "La Boulangère de Monceau"/"La Carrière de Suzanne": «(...)como todo [o] classicista Rohmer tem a noção exacta das proporções», isto a propósito de todos os seus filmes terem a duração "certa". Sem dúvida que Rohmer é um classicista, e a sua obra arrebatadora surge como demonstração eloquente de que classicismo e liberdade criativa estão longe de ser inconciliáveis.
(Um classicista, um moderno e um criador livre? Mas isso são três desejos, não é possível...)
quinta-feira, agosto 02, 2007
QUEBRO O MEU SILÊNCIO SOBRE OS MORANGOS COM AÇÚCAR: Parece-me, por esta altura, inegável que ao Bar do Xavier falta o carisma que fazia do Bar do Fred e do Bar Azul lugares tão especiais, lugares onde parecia natural esperar que alguma coisa de singular e tremendamente relevante acontecesse a qualquer momento; cenários do improvável, generosos catalisadores das intrigas cruzadas que caracterizam esta série tão do agrado do público juvenil. E há que tempos que não vejo um Morang'Ice ser servido!
EPITÁFIO-TRAVELLING, M.A. (1912-2007):

Comparativamente a Bergman, a minha relação com o cinema de Antonioni era menos forte. Ou, pelo menos, é essa a minha convicção, facilmente abalável quando me recordo de obras tão poderosas como "La Notte", "Il Deserto Rosso", "Blow up", "L'avventura" e "Zabriskie Point" (estes últimos os meus três favoritos). Antonioni é um caso invulgar na história do cinema por se tratar de um realizador que, apesar de uma vida e uma carreira muito longas (passaram-se 61 anos entre "Gente del Po" e o episódio de "Eros"), tem as suas principais obras-primas concentradas numa só década, os anos 60. É claro que entra aqui uma importante dose de opinião pessoal: considero os seus filmes a partir de "Professione: Reporter" (inclusive) inferiores aos que acima citei.
Foi gratificante ler que Augusto M. Seabra considera "Zabriskie Point" uma das obras mais subestimadas da história do cinema. Vi este filme na adolescência, na RTP, e na altura marcou-me com intensidade. Faz parte daquele conjunto de filmes em relação aos quais, por uma questão de curiosidade algo mórbida, me pergunto se resistiriam a um segundo visionamento tanto tempo depois do primeiro. (Curiosamente, revi recentemente a cena da explosão no deserto que faz parte deste filme, numa conferência de Delfim Sardo.)
Um dos comentários mais oportunos que li sobre os desaparecimentos de Bergman e Antonioni foi da autoria de Fernando Lopes, que afirmou (cito de memória) tratar-se do fim de uma certa ideia de cinema. De facto, juntamente com Resnais (felizmente ainda vivo, mas para quando seu último filme em salas portuguesas?), Fellini, e mais um punhado de realizadores, Bergman e Antonioni personificavam um cinema de autor com impacto e significado ao nível do grande público, caixa de ressonância do mundo contemporâneo e das suas contradições. Aos seus sucessores (penso em Moretti, Wenders, von Trier, Almodóvar, entre outros cujo programa passa pela coexistência entre a exigência artística e a vontade de alcançar uma audiência significiativa) não falta necessariamente talento; falta, isso sim, o prestígio e a relevância que outras gerações atribuíram ao cinema. Não têm culpa da trivialização a que o cinema tem vindo a ser condenado, da sua subalternização relativamente a formas massificadas de distribuição de imagem em movimento.
Uma das razões pela qual o falecimento, no mesmo dia, destes dois cineastas foi uma amarga ironia do destino foi a maneira exemplar como cada um deles ilustra duas das principais correntes do cinema mundial das últimas décadas. Bergman pertence à linhagem daqueles, como Buñuel, Fellini, Lynch e (até certo ponto) Tarkovsky, que privilegiavam a transposição de fantasmas e obsessões pessoais para a tela, e a tradução pictórica do seu universo pessoal. Quanto a Antonioni, a sua abordagem analítica e impessoal aparenta-o a Godard, Resnais, Greenaway e Bresson. (Claro está que esta classificação se afigura problemática em muitos casos: de que lado da trincheira se poderiam colocar Pasolini, Fassbinder...?)
(Na imagem, David Hemmings em "Blow up".)

Comparativamente a Bergman, a minha relação com o cinema de Antonioni era menos forte. Ou, pelo menos, é essa a minha convicção, facilmente abalável quando me recordo de obras tão poderosas como "La Notte", "Il Deserto Rosso", "Blow up", "L'avventura" e "Zabriskie Point" (estes últimos os meus três favoritos). Antonioni é um caso invulgar na história do cinema por se tratar de um realizador que, apesar de uma vida e uma carreira muito longas (passaram-se 61 anos entre "Gente del Po" e o episódio de "Eros"), tem as suas principais obras-primas concentradas numa só década, os anos 60. É claro que entra aqui uma importante dose de opinião pessoal: considero os seus filmes a partir de "Professione: Reporter" (inclusive) inferiores aos que acima citei.
Foi gratificante ler que Augusto M. Seabra considera "Zabriskie Point" uma das obras mais subestimadas da história do cinema. Vi este filme na adolescência, na RTP, e na altura marcou-me com intensidade. Faz parte daquele conjunto de filmes em relação aos quais, por uma questão de curiosidade algo mórbida, me pergunto se resistiriam a um segundo visionamento tanto tempo depois do primeiro. (Curiosamente, revi recentemente a cena da explosão no deserto que faz parte deste filme, numa conferência de Delfim Sardo.)
Um dos comentários mais oportunos que li sobre os desaparecimentos de Bergman e Antonioni foi da autoria de Fernando Lopes, que afirmou (cito de memória) tratar-se do fim de uma certa ideia de cinema. De facto, juntamente com Resnais (felizmente ainda vivo, mas para quando seu último filme em salas portuguesas?), Fellini, e mais um punhado de realizadores, Bergman e Antonioni personificavam um cinema de autor com impacto e significado ao nível do grande público, caixa de ressonância do mundo contemporâneo e das suas contradições. Aos seus sucessores (penso em Moretti, Wenders, von Trier, Almodóvar, entre outros cujo programa passa pela coexistência entre a exigência artística e a vontade de alcançar uma audiência significiativa) não falta necessariamente talento; falta, isso sim, o prestígio e a relevância que outras gerações atribuíram ao cinema. Não têm culpa da trivialização a que o cinema tem vindo a ser condenado, da sua subalternização relativamente a formas massificadas de distribuição de imagem em movimento.
Uma das razões pela qual o falecimento, no mesmo dia, destes dois cineastas foi uma amarga ironia do destino foi a maneira exemplar como cada um deles ilustra duas das principais correntes do cinema mundial das últimas décadas. Bergman pertence à linhagem daqueles, como Buñuel, Fellini, Lynch e (até certo ponto) Tarkovsky, que privilegiavam a transposição de fantasmas e obsessões pessoais para a tela, e a tradução pictórica do seu universo pessoal. Quanto a Antonioni, a sua abordagem analítica e impessoal aparenta-o a Godard, Resnais, Greenaway e Bresson. (Claro está que esta classificação se afigura problemática em muitos casos: de que lado da trincheira se poderiam colocar Pasolini, Fassbinder...?)
(Na imagem, David Hemmings em "Blow up".)
segunda-feira, julho 30, 2007
EPITÁFIO COM LANTERNA MÁGICA (1918-2007):


Quando se trata de um grande homem, a morte é sempre inesperada e ultrajante, quer ocorra aos 89 anos ou aos 49 anos. Nem a idade, nem a ordem natural das coisas, nem a inevitabilidade, nem a doença são capazes de mitigar o desgosto.
A importância da obra de Bergman é imensa. Não vou ofender as dezenas de obras-primas que ele realizou com uma pobre tentativa de exprimir essa importância em quatro ou cinco linhas.
Na nossa televisão, alguém teve a infeliz ideia de chamar a Bergman "o poeta do cinema", e dedicaram-lhe hoje pouco mais tempo do que a uma sucata clandestina que foi descoberta em Sobral de Monte Agraço.
(Na imagem, Ingrid Thulin e Max von Sydow no meu filme preferido de Bergman, "O Rosto". Retirada daqui.)
domingo, julho 29, 2007
REPUTAÇÃO: José Manuel Fernandes remata a sua crónica do "Público" de sábado passado do seguinte modo: «Mesmo sem apreciar literatura mágica, mas curioso por perceber o que cativou milhões de adolescentes e jovens, não sei se, depois de um ano muito cansativo, não levarei para férias os sete volumes de Harry Potter adiando, mais uma vez, a entrada noutros sete volumes: os de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Mesmo que à custa da minha reputação intelectual na implacável blogosfera.»
Em primeiro lugar, não se me afigura que a reputação intelectual de José Manuel Fernandes seja um dos tópicos de predilecção dos bloggers nacionais ou estrangeiros. Verdade seja dita, porém, que sou um leitor de blogs superficial, e não posso excluir a existência de numerosos recantos do ciberespaço (incluindo, quiçá, fóruns, comunidades no MySpace e províncias inteiras do Second Life) onde a envergadura intelectual de José Manuel Fernandes é objecto de debates electrizantes.
Em segundo lugar, não me parece que José Manuel Fernandes deva temer repercussões negativas deste seu ousado desabafo. Neste país que é o nosso, onde um termo como "bem-pensante" ganhou aura pejorativa, privilegiar a cultura popular sobre a dita "alta cultura" muito dificilmente será visto como uma confissão de frivolidade; muito pelo contrário, esse tipo de confissão mais depressa será encarado como um suculento desafio ao politicamente correcto, e o seu autor como um iconoclasta dotado da virtude de não se levar a sério.
Em terceiro lugar, julgo que estas inocentes negaças ao gosto dominante põem a reputação intelectual de José Manuel Fernandes menos em risco do que dislates como este (do editorial do "Público" de 24/7, a propósito das eleições legislativas na Turquia, negritos meus): «Os eleitores deram mais atenção a estes argumentos do que aos dos seus adversários, pelo que o voto de domingo foi um duro golpe para os militares, que, ao longo de décadas, garantiram o legado laico do Estado que Ataturk fundou sobre o modelo francês. Ou seja, sobre um modelo em que o Estado não é apenas independente da religião ou religiões, mas em que limita o espaço das religiões. Mesmo assim o voto de domingo não acaba com a polarização da sociedade turca, que se agravou nos últimos meses, pelo que o primeiro desafio do reeleito Erdogan passará por apaziguar as tensões entre secularistas e crentes, de forma a permitir que, do modelo francês, a Turquia possa evoluir para o anglo-saxónico, onde o Estado é laico mas não anti-religioso.» Lê-se e não se sabe o que mais admirar: se a mirabolante ideia de um modelo francês de Estado anti-religioso (própria de quem aprendeu a história da França por meio de fascículos piedosos com estampas coloridas) se a sugestão, não isenta de uma certa comicidade, de que a Inglaterra possa ser vista como um exemplo a seguir em termos de laicidade.
É este apetite pela distorção dos factos que preocupa, da parte do director de um dos diários portugueses de maior tiragem, e não a inócua veleidade de passar as férias mergulhado nas aventuras de um jovem feiticeiro de óculos de aros redondos.
A PACIÊNCIA, MAIOR VIRTUDE DO CINÉFILO: Decididamente, escasseia-me a paciência para tentar penetrar os desígnios das distribuidoras de cinema. No site da Atalanta, eis que vários filmes deveras prometedores passaram da secção "Próximas Estreias" para "Brevemente", o que é tanto mais inquietante quanto o historial recente desta distribuidora já demonstrou quão elásticos podem ser os limites temporais deste termo. Falo, mais concretamente, dos filmes de Hou Hsiao-Hsien e de Kaurismäki, falo de "Peindre ou Faire l'Amour", dos irmãos Larrieu. É certo que alguns dos filmes que, vindos do nada, ocupam agora a secção "Próximas Estreias" são também de molde a despertar abundantes salivações cinéfilas: Tsai-Ming Liang, Emmanuelle Cuau (com a soberba Sandrine Kiberlain; vi um interessante filme desta realizadora em Paris, "Circuit Carole", com a rivetteana Laurence Côte), Iosseliani (se bem que este "Jardins en Automne", que já vi na Cinemateca, me pareça pouco acrescentar à obra do autor georgiano). Mas a questão não é essa. O que está em jogo aqui é a recorrente falibilidade das previsões da Atalanta sobre as datas de estreia dos próprios filmes. É uma questão de respeito pelo espectador, que assim se vê na contingência de implorar ao façanhudo deus das salas de cinema a dádiva de poder ver o filme há muito antecipado a partir da data que foi anunciada.
Terá de passar muito tempo até que eu me esqueça de "Manderlay", anunciado durante meses e que acabou saindo directamente em DVD. São amargos de boca como este que me tornam céptico quanto à sobrevivência do cinema em salas, excepção feita à Cinemateca, por um lado, e aos blockbusters, por outro. Receio que o futuro da relação entre o consumidor e o cinema com um mínimo de pretensão artística passe essencialmente pelo DVD e por canais de televisão especializados (já é isso que sucede fora dos grandes centros urbanos) e pelo aluguer directo via Internet.
(Ontem tentei ir ver "Juventude em Marcha" no Nimas, mas as sessões tinham sido canceladas, ao que parece por falta de autorização para a exibição do filme. Talvez isto tenha contribuído para este meu desencanto.)
Naturalmente que concentro estes meus reparos na Atalanta porque seria ocioso estar a dirigi-los aos seus concorrentes. O "Die Hard 4" não é para aqui chamado.
segunda-feira, julho 23, 2007
domingo, julho 22, 2007
A RONDA DA NOITE(1):

Diz-se que gostos e cores não se discutem... Por norma, discordo: não só os gostos se discutem, como discutir cores pode ser um dos passatempos mais indispensáveis a uma vida sã e preenchida. Casos há , porém, em que discussões desta índole me parecem enfadonhas de tão dispensáveis. Por exemplo, as argumentações relativas ao primeiro lugar do pódio da ficção portuguesa actual, por norma açambarcadas por antuninos e saramaguianos pletóricos, perdem razão de ser a cada novo livro de Agustina Bessa-Luís que sai para o mundo. Agustina é o maior talento da prosa narrativa portuguesa dos últimos 100 anos, e não vejo quem, além de Vergílio Ferreira, lhe poderá ser comparável em profundidade e ambição artística, argúcia, manejo da língua e versatilidade (para não falar da produtividade). É forte a tentação que sinto de mandar às malvas qualquer objecção quanto à subjectividade de um julgamento deste tipo. Romances magníficos de inteligência e liberdade como "A Ronda da Noite" tornam esta evidência demasiado límpida para que se perca mais tempo com a questão.

Diz-se que gostos e cores não se discutem... Por norma, discordo: não só os gostos se discutem, como discutir cores pode ser um dos passatempos mais indispensáveis a uma vida sã e preenchida. Casos há , porém, em que discussões desta índole me parecem enfadonhas de tão dispensáveis. Por exemplo, as argumentações relativas ao primeiro lugar do pódio da ficção portuguesa actual, por norma açambarcadas por antuninos e saramaguianos pletóricos, perdem razão de ser a cada novo livro de Agustina Bessa-Luís que sai para o mundo. Agustina é o maior talento da prosa narrativa portuguesa dos últimos 100 anos, e não vejo quem, além de Vergílio Ferreira, lhe poderá ser comparável em profundidade e ambição artística, argúcia, manejo da língua e versatilidade (para não falar da produtividade). É forte a tentação que sinto de mandar às malvas qualquer objecção quanto à subjectividade de um julgamento deste tipo. Romances magníficos de inteligência e liberdade como "A Ronda da Noite" tornam esta evidência demasiado límpida para que se perca mais tempo com a questão.
PLANO NACIONAL DE RELEITURA: Recebam a minha gratidão, autores do Cine-Australopitecus e do Design do Dasein, por se terem lembrado de mim. Como não vejo qual o interesse que poderia ter a lista dos últimos 5 livros que passaram pelas minhas mãos, prefiro elencar 5 dos livros que ambiciono reler num futuro não demasido remoto. (Não que esta lista possa, mais do que a outra, ser de molde a despertar paixões, mas pelo menos compromete-me perante o mundo.)
"Margarita e o Mestre", de Mikhail Bulgakov. O título deveria ser "O Mestre e Margarita"; nunca saberei por que motivo o tradutor português inverteu a ordem dos termos. (A propósito, Rogério, afinal as notas de rodapé com explicações sobre trocadilhos no original russo são escassíssimas, ao contrário do que a minha claudicante memória me sugeria.) Para além de ser uma das histórias de amor mais improváveis e exaltantes da história da literatura, passar muitos anos sem recordar a passagem do diabo por Moscovo é nocivo a tudo o que seja órgão, sistema e víscera.
"The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman", de Laurence Sterne. Li-o demasiado jovem; impõe-se uma segunda dose. A ousadia não deve, só por si, ser uma virtude nas artes, mas pode ser um dos principais auxiliares do génio. Dá ainda que pensar o facto de este prodígio de invenção e humor, repleto de convoluções narrativas e retóricas, ter sido redigido no século XVIII e ter tornado o seu autor famoso. Bela negaça ao lugar-comum do autor incompreendido no seu tempo e exaltado pelos seus vindouros.
"Ulysses", de James Joyce. Passou, julgo, suficiente tempo desde a última leitura para que a próxima se assemelhe à primeira, o que acarreta um deleite ímpar que me entretenho (perversamente?) a antecipar. Talvez desta vez seja de evitar a controversa edição revista por Hans Walter Gabler.
"La Vie Mode d'Emploi", de Georges Perec. Se alguém, alguma vez, me pedisse (isto nunca aconteceu) para me definir em X palavras, ofereceria a essa pessoa um exemplar de "La Vie Mode d'Emploi". Não só seria a atitude mais correcta e menos morosa, como seriam elevadas as probabilidades de fazer um novo amigo.
"Ficções", de Jorge Luis Borges. Antes de ter nas mãos pela primeira vez este livro, as referências que dele me chegavam faziam-me supor um calhamaço com centenas de páginas. Lendo-o, maravilhou-me esse talento quase sobrenatural de Borges para sugerir os abismos do infinito por meio da brevidade, da alusão, da elipse e de um comedimento vagamente cabotino. Será essa a sensação que esperarei reencontrar quando encetar a releitura. O facto de "Pierre Menard, autor do Quixote" ser um dos textos mais subtis e empolgantes que conheço não é detalhe de importância menor.
(Ah, e não passo a ninguém este desafio, nem o original que declinei. Talvez seja caturrice minha, mas acho que a blogosfera estaria mais fresca e airosa sem estes memes, versão mais sofisticada e tongue-in-cheek das cartas em cadeia exortando à oração a São Judas Tadeu.)
EU CÁ APOIO LUÍS FILIPE MENEZES: Um homem que foi capaz de afirmar, no rescaldo do referendo sobre a legalização da interrupção voluntária da gravidez, ter-se tratado de uma grande derrota para Jósé Sócrates, e isto sem ceder a uma gargalhada, merece maior protagonismo na política portuguesa. Amiúde, é nesta zona cinzenta que faz fronteira com a estultice e com o desplante que se encontram os líderes de excepção, capazes de conduzir uma nação à glória, ou pelo menos a um descalabro glorioso.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem lia Cesário Verde na linha amarela do metropolitano. Seria esta uma ocasião de ouro para um daqueles trocadilhos de bazar que abundam em certas paragens, e que os leitores habituais deste espaço já sabem não ser o tipo de coisa que esperam poder encontrar aqui.
quarta-feira, julho 18, 2007
ENLACE-SE: Tem nome de filme e abundância de versos. Gosto mais de "Paris" do que de "Texas", mas quando os dois se juntam coisas simpáticas costumam acontecer.
segunda-feira, julho 16, 2007
FAIRE SIGNE:

Este é um dos "quadros negros" de Goya, um dos catorze que ele pintou nos seus últimos anos, nas paredes da "Quinta del Sordo". Muito menos conhecido do que "Saturno devorando o seu filho", é, para mim, muito mais poderoso e impressionante. Tal como aos restantes "quadros negros", Goya não lhe atribuiu um título. Chamaram-lhe "Um cão lutando contra a corrente"; mais tarde, simplesmente, "Um cão". Encontra-se hoje no museu do Prado.
Daniel Arasse, no seu livro "Le Détail", defende que, neste quadro, Goya fez da virtualidade o próprio sentido da obra. E mais afirma:
«Ainsi conçu, le symbole énonce le sens comme une virtualité de l'image, force et puissance active dans cette image, qui échappe cependant à toute explicitation où s'abollirait la présence de l'image et où triompherait un discours dont l'image ne serait que l'équivalent visuel. Le sens intime d'Un chien pourrait bien être ainsi inhérent à l'œuvre elle-même, en être une «inhérence indéchirable» (...). Le sens de l'œuvre pourrait être l'œuvre elle-même, présence d'un objet signifiant, rendu énigmatique par l'opacité même de la peinture qui y fait signe.»
Olhando para este quadro, fico com a impressão de que quase tudo o que importa na história da pintura passa por aqui. (E talvez não só da pintura, e talvez à mistura com algo da ordem da paixão.)
Este é um dos "quadros negros" de Goya, um dos catorze que ele pintou nos seus últimos anos, nas paredes da "Quinta del Sordo". Muito menos conhecido do que "Saturno devorando o seu filho", é, para mim, muito mais poderoso e impressionante. Tal como aos restantes "quadros negros", Goya não lhe atribuiu um título. Chamaram-lhe "Um cão lutando contra a corrente"; mais tarde, simplesmente, "Um cão". Encontra-se hoje no museu do Prado.
Daniel Arasse, no seu livro "Le Détail", defende que, neste quadro, Goya fez da virtualidade o próprio sentido da obra. E mais afirma:
«Ainsi conçu, le symbole énonce le sens comme une virtualité de l'image, force et puissance active dans cette image, qui échappe cependant à toute explicitation où s'abollirait la présence de l'image et où triompherait un discours dont l'image ne serait que l'équivalent visuel. Le sens intime d'Un chien pourrait bien être ainsi inhérent à l'œuvre elle-même, en être une «inhérence indéchirable» (...). Le sens de l'œuvre pourrait être l'œuvre elle-même, présence d'un objet signifiant, rendu énigmatique par l'opacité même de la peinture qui y fait signe.»
Olhando para este quadro, fico com a impressão de que quase tudo o que importa na história da pintura passa por aqui. (E talvez não só da pintura, e talvez à mistura com algo da ordem da paixão.)
ESTREITEZA DE VISTAS 1 BOM SENSO 0: Por vezes, sentimo-nos tentados a nutrir a ilusão de que a responsabilidade e a coragem política vão falar mais alto do que a tibieza e a pusilânime tentação do compromisso. O inevitável amargo de boca que se segue tem o travo detestável do hábito e da fatalidade.
A versão mais rigorosa (mais "hitleriana", ou mais "fundamentalista", dirão os histéricos do costume) da lei de interdição do tabaco em espaços públicos tinha tudo a seu favor: o bom senso, a opinião pública, dados recentes que indicam valores impressionantes para o número de mortes anuais devidas ao fumo passivo. Tudo a seu favor? Erro! Tudo, menos a proverbial tacanhez de espírito dos legisladores portugueses e o seu apetite atávico pela acomodação, pelo arranjismo e pela cedência ao compromisso. O resultado líquido das derradeiras manobras nos bastidores de São Bento foi uma lei mais complicada, que vai claramente ao arrepio da tendência geral na Europa Ocidental, e que se arrisca a, depois de tanto alarido e ranger de dentes, deixar quase tudo na mesma, no que toca ao consumo de tabaco em bares e restaurantes: com efeito, ninguém ignora que os estabelecimentos com menos de 100 metros quadrados, onde continuará a ser permitido fumar excepto se os proprietários decidirem em contrário, estão em larguíssima maioria. A partir de 1 de Janeiro, cá estaremos para ver quantos destes passam a interditar o tabaco. Palpita-me (fica prometido o devido acto de contrição caso me engane) que serão poucos, para gáudio dos arautos da pseudo-liberdade de escolha, que nunca hesitaram em recorrer aos argumentos mais escabrosamente ridículos para vociferar contra qualquer lei que os privasse do direito de poluir o ar alheio com o agente que é a maior causa de morte evitável no mundo ocidental.
Os vindouros hão-de ver nesta lei pouco mais do que uma supérflua etapa intermédia rumo a regulamentações mais restritivas, que não tardarão a surgir à medida que os contornos reais deste problema de saúde pública se forem tornando cada vez mais nítidos.
Entretanto, as mortes e horas de trabalho perdido por via da exposição ao fumo alheio continuam dentro de momentos. Com a cumplicidade daqueles que malbarataram esta oportunidade.
domingo, julho 08, 2007
ANÚNCIO DE ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADO PERDIDOS:
Paredes, muros, cercas,
na vossa singeleza plana e monócroma,
não lamentais a singular falta
de anúncios,
especialmente
anúncios de gato perdido inventados?
Eles costumavam ser tantos e
tão repletos
de brincalhões cambiantes verbais.
A paixão pelos bichanitos
engolidos pela ingrata paisagem urbana
de Lisboa
emanava deles
como luz de um candeeiro a gás,
quer dizer suave mas perene.
O seu fluxo de dizeres
angustiados e esperançosos
e de focinhos atrevidos
fotocopiados a preto e branco
era parte dos meus dias.
(Talvez a melhor parte deles.)
Fui todos esses donos
e todos esses felinos
que estranhavam o asfalto
húmido de chuva e óleo.
Decorei números de telemóvel,
algarismos resplandecentes
de significados,
de promessas de reencontro
num qualquer canto macio de lar aquecido.
Em todos esses reencontros estive presente
mesmo naqueles que nunca aconteceram.
Nada
do que as paredes dizem
agora me desperta.
Talvez todos os gatos perdidos da cidade
tenham sido encontrados.
Talvez haja gatos, mas não
as palavras destinadas
a evocá-los,
nesta cidade demasiado mesquinha
para ser fatal.
BERLIN, CHAMISSOPLATZ: Sim, Chamissoplatz diz-me muita coisa, por acaso. Lembra-me um trecho do filme de Thome que ficou gravado numa cassete VHS, entre outros dois programas. Hanns Zischler cantava, acompanhando-se ao piano, uma canção longa e bela, para uma personagem feminina. Ou seria ela que cantava para ele? Recordo-me (mas a memória é um processo que nem precisa de malícia para ser traiçoeiro) de um travelling longo e circular no interior de um apartamento berlinense. E é tudo.
Tenho saudades dos filmes de Rudolf Thome. Houve tempos em que chegaram a ser mostrados assiduamente nas salas de Lisboa ("O Filósofo", "Amor à Primeira Vista") e na RTP. Agora, tornou-se quase impossível vê-los. Tive ainda a sorte de ver e gravar algumas das suas obras enquanto estive em França ("The Sun Goddess", "Tigerstreifenbaby Wartet Auf Tarzan"), e de ver, em estreia, "Paradiso" (que, por sinal, me desiludiu). Tenho profunda admiração pela maneira aparentemente simples e plácida como desconstrói as relações humanas, pela sensualidade quase pueril com que este cineasta de actores filma os seus actores. Em Thome, o acto de filmar tem tudo de subversivo e nada de provocatório ou agressivo.
O meu filme preferido deste realizador trata (um pouco atipicamente) da irrupção do sagrado entre os fluxos amorosos superficiais de um grupo de personagens. Ou talvez não passe de um esvaziamento encenado da própria noção de sagrado. Tanto que eu gostaria de rever "O Segredo".

(A companhia de produção de Thome, a Moanafilm, tem um site que não está nada mal feito.)
Tenho saudades dos filmes de Rudolf Thome. Houve tempos em que chegaram a ser mostrados assiduamente nas salas de Lisboa ("O Filósofo", "Amor à Primeira Vista") e na RTP. Agora, tornou-se quase impossível vê-los. Tive ainda a sorte de ver e gravar algumas das suas obras enquanto estive em França ("The Sun Goddess", "Tigerstreifenbaby Wartet Auf Tarzan"), e de ver, em estreia, "Paradiso" (que, por sinal, me desiludiu). Tenho profunda admiração pela maneira aparentemente simples e plácida como desconstrói as relações humanas, pela sensualidade quase pueril com que este cineasta de actores filma os seus actores. Em Thome, o acto de filmar tem tudo de subversivo e nada de provocatório ou agressivo.
O meu filme preferido deste realizador trata (um pouco atipicamente) da irrupção do sagrado entre os fluxos amorosos superficiais de um grupo de personagens. Ou talvez não passe de um esvaziamento encenado da própria noção de sagrado. Tanto que eu gostaria de rever "O Segredo".

(A companhia de produção de Thome, a Moanafilm, tem um site que não está nada mal feito.)
PARA QUÊ GASTAR DINHEIRO COM ADVOGADOS QUANDO SE TEM UM AMIGO NA CASA BRANCA INCLINADO PARA A COMPAIXÃO?: Durante o seu mandato e meio como Governador do Texas, George W. Bush apenas concedeu clemência num dos 153 casos de condenação à morte que passaram pela sua secretária, e o número de execuções nesse estado foi maior do que com qualquer um dos seus antecessores no cargo.
Há poucos dias, o mesmo Bush comutou a pena de prisão de Lewis Libby, antigo assistente do vice-presidente Cheney acusado por um júri federal na sequência do escândalo da revelação da identidade da agente da CIA Valerie Plame. Libby fora condenado a 30 meses de prisão, uma multa de 250 000 dólares e 400 horas de serviço comunitário, por perjúrio, obstrução da justiça e por prestar declarações falsas a investigadores federais. Bush, fazendo uso de uma prerrogativa constitucional, anulou a pena de prisão, alegando que a sentença era "excessiva".
Nos últimos tempos, tem crescido o consenso em torno da convicção de que Bush é o pior presidente dos E.U.A. das últimas gerações. Em final de mandato, "W." parece apostado em acrescentar à simples (mas colossal) incompetência uma sólida camada de ignomínia.
Seria em alturas como estas que eu mais gostaria de auscultar a opinião desses que desfraldam com ingenuidade juvenil a bandeira da americanofilia. Falo dos Luíses Delgados e Joões Carlos Espadas que ufanamente confundem os Estados Unidos com um incorruptível farol de moral e virtudes, e que teimosamente se recusam a admitir o óbvio: que nenhum país está imune a abusos dos seus dirigentes, e que as beliscadelas na separação de poderes são um passatempo que não conhece fronteiras.
terça-feira, julho 03, 2007
CHECK YOUR FACTS!: Mesmo para um jornal gratuito, o desleixo que parece presidir à redacção de algumas notícias do "Meia Hora" causa calafrios. Na edição de ontem, a propósito do concerto de homenagem à "Princesa do Povo" (que o nosso serviço público de televisão fez o inestimável obséquio de trazer até nós), este diário afirmava que "Os príncipes levaram a concerto artistas de que Diana gostava, como Joss Stone".
Atendendo a que, à data do fatídico acidente do túnel da ponte de Alma, a futura intérprete de "Right To Be Wrong" tinha 10 anos, e ainda nem sequer protagonizara a sua primeira actuação em público. na escola secundária de Uffculme, no Devon, isto abona muito em favor da presciência da princesa Diana e da sua capacidade para descobrir novos talentos.
quinta-feira, junho 28, 2007
IDEIA PARA UMA PEÇA: Na primeira cena, duas personagens discorrem longamente sobre a vantagem e legitimidade, por parte de uma autarquia, de delegar em empresas municipais certas atribuições que lhe são próprias. Uma das personagens está disfarçada de mosqueteiro, a outra de chefe índio. Segue-se um baile de máscaras, no qual uma intriga de enorme complexidade e envergadura soçobra devido à intervenção do factor humano. Para finalizar, algumas lamechices.
AZEITE VIRGEM DE CALTANISSETTA: Queria destacar duas das compras que fiz na Feira do Livro deste ano.
A mais estimulante: "Dream of Fair to Middling Women" (Arcade Publishing), de Samuel Beckett.
A mais estimulante: "Dream of Fair to Middling Women" (Arcade Publishing), de Samuel Beckett.

Sou admirador profundo, convicto, apaixonado e feroz da prosa de Beckett, mais ainda do que da sua escrita para o teatro. Da, chamemos-lhe assim, proto-história desta prosa faz parte "More Pricks than Kicks", esse prodígio de erudição e sarcasmo que já se atravessou no meu caminho. Tal como esta última obra, "Dream of Fair..." ficou por publicar na altura da sua concepção; ambas seriam alvo, mais tarde, por parte do próprio autor, de um cepticismo coriáceo quanto aos seus reais méritos. Felizmente que, contra todas estas adversidades, ambas acabaram por ver a luz do dia sob forma impressa. Beckett escreveu "Dream of Fair..." no verão de 1932, na Rue de Vaugirard, que nenhum aficionado de estatísticas ociosas ignora tratar-se da mais longa artéria parisiense.
Lendo a contracapa, ficamos a saber que este livro é "Indispensable to anyone interested in the pulse of twentieth-century art" (St. Petersburg Times). Não me reconhecendo nesta descrição (será a arte do século XX um doente com achaques que recomende a monitorização dos seus sinais vitais?), não deixo de me sentir perfeitamente à vontade para subscrever, com gestos enfáticos e impacientes, a parte do "indispensável".
A mais impulsiva: "A Mafia Senta-se à Mesa - histórias e receitas da onorata societá [sic]", de Jacques Kermoal e Martine Bartolomei (Teorema).

(Na figura, a capa da edição francesa.) Onde se fica a saber como confeccionar salmonetes com sementes de funcho, borrego assado com azeite virgem de Caltanissetta, espargos quentes com natas de ovelha, e Flan de castanhas, e em que ocasião tais iguarias acompanharam momentos marcantes da história da cosa nostra.
Para quando uma história gastronónica de Portugal, com coordenação de José Mattoso e receitas ilustradas do Chefe Silva?
sábado, junho 23, 2007
E, POR FALAR EM NOMES DE REALIZADORES...: Na Fnac do Chiado, sector dos DVDs, alguém, suponho que um funcionário zeloso, rasurou com caneta azul o "R" que corrompia a correcta grafia do nome do realizador de "La Dolce Vita" ("Frederico Fellini").
Ainda não perdi a esperança de que alguém acabe por reparar no "S" traiçoeiro que se insinuou no nome de "Tarkosvsky", mesmo ao lado.
ALCARAVIA: O livro "Ervas Aromáticas e Especiarias" (Jill Norman, Dorling Kindersley/Civilização) descreve o aroma da alcaravia (Carum carvi) como sendo pungente, ardente e agridoce, bastante picante, com uma nota de casca seca de laranja e um travo leve mas demorado de anis.

Esta especiaria será fácil de encontrar em Lisboa?
Qualquer sugestão representaria uma ajuda supremamente bem-vinda.
quarta-feira, junho 20, 2007
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS (*): Num dos episódios de "Yes, Minister", a mulher do ministro Jim Hacker está a ler, na cama, o romance "Rites of Passage", de William Golding, por sinal um grande livro. A fotografia do autor na contracapa dissipa quaisquer eventuais dúvidas.
(*) Neste caso, em lugares privados e fictícios.
BARBAS E RELÂMPAGOS: Segundo Vasari, o pintor Raffaello Sanzio comparou os músculos dos estudos de anatomia com os músculos de seres humanos vivos, e observou a trama dos ossos, nervos e artérias até atingir o grau de maestria na reprodução do detalhe que se exige a um pintor de excelência. Porém, ao dar-se conta de que nunca seria capaz de atingir a perfeição de Michelangelo, Raffaello optou por trabalhar mais aprofundadamente a disposição dos elementos no quadro, e esforçou-se por estudar tudo o que é necessário à arte da pintura: tecidos, sapatos, capacetes, armaduras, penteados femininos, cabelos e barbas, vasos, árvores, grutas, rochedos, fogos, céus tempestuosos ou limpos, nuvens, chuvas, relâmpagos, o bom tempo, a noite, o luar, os efeitos do sol, etc.
(Santa Cecília com santos, c. 1514-1516.)
sábado, junho 16, 2007
FRACOS EM HISTÓRIA E EM DOUTRINA?: Quando ocorre um feriado de cariz patriótico, é comum as nossas televisões passarem reportagens de rua daquelas em que se questiona o transeunte incauto sobre o significado da efeméride. Infalivelmente, basta uma meia dúzia de balbuceios hesitantes («Restauração da independência... Foi quando D. Afonso expulsou os mouros, não foi?») para conduzir o repórter, alegre e fatidicamente, até à conclusão de que os portugueses ignoram a história do seu próprio país. Tudo isto sobre fundo de imagens de arquivo da multidão na Rua Augusta, com um ar adequadamente ocioso e alheado.
Estranhamente, é bastante mais raro que semelhante zelo seja aplicado aquando dos feriados religiosos. Neste país em que os índices de catolicismo atingem, alegadamente, os noventa e tantos por cento, quantos cidadão seriam capazes de explicar o que se celebra no dia do Corpo de Deus, da Assunção de Nossa Senhora, ou da Imaculada Concepção (o mais ardiloso "falso amigo" de todos os dogmas)?
quinta-feira, junho 07, 2007
UM EXEMPLO PARA TODOS:
«Desde João Soares que Lisboa está financeiramente ingovernável. Os presidentes podem fazer um ou outro arranjo, centrar as atenções numa ponte ou num viaduto ou num grande plano de reconversão da Baixa, que a distracção pode ter sucesso, mas as dívidas e os juros crescem exponencialmente. Sem resolver esta questão, tudo o resto é fazer uns arranjos florais nos jardins. O único exemplo a seguir é o de Rui Rio. Apareça alguém a dizer que vai seguir o exemplo do Porto, ouça-se o espernear dos animadores culturais a dizer de que o “contabilista” está a “matar” a cidade, e Lisboa pode vir a ser finalmente governável.»
(Pacheco Pereira, no Abrupto, A.D. 14/5/2007. Negritos meus, e ai de quem mos tentar tirar.)
Não sei o que é mais deplorável nesta citação, mas talvez seja isto: a convicção implícita de que não existe um meio termo entre a prodigalidade desvairada e uma parcimónia em guerra aberta contra a alegada subsidiodependência dos agentes culturais. Ou, por outras palavras: a alegação de que a luta contra o despesismo não admite outra postura que não seja a de Rio. Para além das boas práticas contabilísticas, urge reconhecer aquilo que a atitude do edil portuense encerra de populismo duro e puro. Sonegar alguns milhares de euros a companhias de teatro pouco peso terá nas contas municipais, mas inscreve na coluna do activo uma quantia choruda em divisa das mais fortes: inimigos impopulares. Refiro-me aos tais animadores culturais, a quem o continuado hábito de exercer uma actividade artística à custa de dinheiros públicos faz merecer o estigmatizante estatuto de parasita. Quem será o autarca que não singra com o ressentimento desses saltimbancos ociosos, detestáveis aos olhos do bom povo que trabalha para ganhar a sua tosta mista e o seu panaché?
O meu populista é menos populista do que o vosso populista. Desgraçadamente, muita da argumentação sociopolítica que por aí se ouve e lê não passa de uma glosa preguiçosa desta frase.
quarta-feira, maio 30, 2007
ENTRE OS JACARANDÁS E AS FILAS PARA OS CHURROS: Em tempos, por via do trop-plein de energia anímica típico de um recém-chegado à blogosfera, deu-me para recensear títulos bizarros de obras avistadas na Feira do Livro de Lisboa. Sem o furor quase sistemático dessa era gloriosa, as modestas incursões deste ano permitiram-me acrescentar alguns espécimes de bom calibre à minha colecção. Das heróicas Edições Mortas, destacam-se, entre muitos outros, "Malgas de Peçonha", de Virgílio Liquito (a capa não desmerece do título) e "Punhetas de Wagner", de A. da Silva O. Porém, há que reconhecer que até estes portentos empalidecem perante o arrojo de "Morri! E Agora?", uma obra que põe o dedo na ferida com a veemência dos predestinados.
Assinale-se ainda a presença na Feira de dois ministros do actual governo, de um popular blogger e de muitos anónimos.
terça-feira, maio 29, 2007
XADREZ: Segundo o livro "Life of Paul Morphy in the Vieux Carré of New-Orleans and Abroad", de Regina Morphy-Voitier, o lendário xadrezista Paul Morphy tinha por hábito andar de um lado para o outro na varanda da sua casa, murmurando as palavras «Il plantera la bannière de Castille sur les murs de Madrid au cri de Ville gagnée, et le petit Roi s’en ira tout penaud». Até hoje, ninguém foi capaz de determinar a origem desta citação, de acordo com o historiador de xadrez Edward Winter.
(Contextualização nº 1: Paul Morphy (1837-1884) foi um dos jogadores mais notáveis da segunda metade do século XIX. Os Estados Unidos da América produzem campeões de xadrez de classe mundial com exasperante infrequência. Quando o fazem, porém, nunca se trata de um mangas-de-alpaca banalmente genial: a aura de mistério e um carisma mais ou menos delirante estão garantidos.)
(Contextualização nº 2: Edward Winter é conhecido por levar a atenção pelo detalhe irrelevante a níveis que poucos se atrevem a tentar superar. Pode-se contar com ele para devotar dezenas de linhas à ortografia do nome de um amador que empatou com Capablanca numa simultânea, ou aos licores servidos num banquete onde participou Lasker. As suas "Chess Notes" são um manancial de esdrúxula erudição.)
sexta-feira, maio 25, 2007
PANOS: «Realiza-se pela segunda vez o festival de encerramento dos PANOS, um projecto que alia o teatro escolar/juvenil à nova dramaturgia. Inspirando-se no NT Connections do National Theatre de Londres, todos os anos há peças novas encomendadas a escritores reconhecidos, com apenas duas condições: escreverem para actores entre os 12 e os 18 anos; preverem um tempo de espectáculo não superior a uma hora.»
Escritores reconhecidos? Só se for na acepção de "reconhecido aos jovens actores que, durante estes meses, se debateram com a transposição para a cena do meu indigesto entremez".
Neste fim-de-semana, na Culturgest. Há ainda peças de Ali Smith e de Armando Silva Carvalho para ver. Horários e mais informações aqui.
quinta-feira, maio 17, 2007
AMEIXAS MADURAS E BARATAS! PRIMEIRA QUALIDADE! VENHAM COMPRAR!: No filme "O Comerciante das Quatro Estações", de Fassbinder, recentemente exibido pela Cinemateca com legendas em francês e português, o responsável pela versão portuguesa traduziu por "gira" uma palavra alemã (que não identifiquei) que o tradutor francês converteu em "bandante".
Reticências repletas de pudor do tradutor português? Ou lúbrica malícia do tradutor francês?
Este filme está longe de ser um dos meus Fassbinders preferidos, mas a margem deste post é demasiado pequena para eu explicar porquê.
terça-feira, maio 15, 2007
Segundo a embaixadora do Brasil no Vaticano, Lula afirmou ao papa que vai "preservar e consolidar o país como estado laico".

Luiz Inácio Lula da Silva, presidente democraticamente eleito de uma nação soberana e livre, sem qualquer obrigação de prestar vassalagem ao Vaticano, esse estado de duvidosa legitimidade cujas principais exportações são o desplante, o dogma, a arrogância e a intromissão nos assuntos alheios.
terça-feira, maio 08, 2007

O grupo Teatroàparte levará à cena, nos próximos dias 11, 12, 18 e 19, no auditório da Biblioteca Orlando Ribeiro (Telheiras, Lisboa) a peça "A Casa de Lorca", baseada em "A Casa de Bernarda Alba", de Federico García Lorca. A encenação é de Jorge Parente. Mais pormenores aqui.
Estão assim explicados os sorrisos cúmplices que os telheirenses trocam na rua, para estupefacção dos forasteiros.
VÍCIOS PÚBLICOS 1 - VÍCIOS PRIVADOS 0: No seu estudo biográfico "A Private Life of Henry James", Lyndall Gordon sustenta que "o Mestre" se comportou de forma abominável e negligente com duas mulheres que influenciaram grandemente a sua vida e a sua obra: a sua prima Minny Temple e a romancista Constance Fenimore Woolson.
Muito mais do que as asserções pouco abonatórias sobre o carácter e a atitude de Henry James, chocou-me até às mais recônditas concavidades do meu ser a revelação de que ele preparou uma versão para teatro de "Daisy Miller" em que a heroína, em vez de morrer tragicamente na sequência da visita nocturna ao Coliseu, casa com o canastrão Winterbourne.
Atentar contra a própria integridade artística para atingir a glória e a popularidade fica tão mal numa biografia como uma nódoa de coulis de framboesa numa toalha de linho branco.
O MÉRITO PREMEIA-SE: De acordo com o documentário incluído no DVD de "Caravaggio", as últimas palavras do realizador Derek Jarman terão sido: "Espero que o mundo se encha de patos amarelos e fofinhos".
Qualquer que seja o futuro que a posteridade reserve ao seu legado artístico, ninguém com um pingo de vergonha na cara lhe negará o galardão de "mais original e divertido derradeiro fôlego de sempre".
Outros prémios aparentados:
Melhor ideia para epitáfio: "I told you I was sick!" (Spike Milligan).
Melhor resposta à pergunta "O que é que ainda lhe falta fazer na sua longa carreira?": "Tocar com o calcanhar na parte de trás da cabeça" (George Burns).
Melhor título de sempre: é minha firme convicção de que esta distinção perdeu razão de ser desde que, em 1986, o alemão Wolf Wondratschek lançou o seu "Carmen oder Bin ich das Arschloch der achtziger Jahre" ("Carmen ou serei eu o cara de cu dos anos 80"), dessa forma aniquilando a concorrência com efeitos perpétuos.
sábado, maio 05, 2007
sexta-feira, abril 27, 2007
JÁ PARA NÃO FALAR DO COLEÓPTERO NA VARANDA DO SÃO JORGE: Local: Lisboa. Ocasião: filme de Hal Hartley no IndieLisboa, com presença do próprio, que é como quem diz do mesmo. Hartley, altíssimo, desengonçado, com cara de eterno adolescente, revela à audiência aquilo que as pessoas dizem do seu filme: que é "funny and sad", e que as pessoas falam muito depressa. Toca o telemóvel do apresentador português. Hartley: "Your cell phone is ringing. It's someone to tell you that: the film is funny and sad".
Antes do filme propriamente dito, o público é entretido com sugestões publicitárias. Luís Represas canta e interrompe-se no anúncio da cerveja Bohemia. Há quem se dê ao trabalho de bater palmas trocistas, para gáudio de muitos. Hal Hartley deve ter ficado com a impressão de que Luís Represas é um ídolo de portentosa envergadura, e que os portugueses são um povo que ama os seus trovadores com paixão.
O filme é bom, talvez demasiado na linha de "Henry Fool", de que é uma sequela explícita. Parker Posey é uma actriz que dá gosto ver. Constrói uma personagem perante os nossos olhos, mas dando a impressão de a habitar desde sempre. Corresponde na perfeição ao ideal hartleyano de lisura expressiva e bizarria isenta de cabotinismo.
Os meus filmes preferidos de Hartley são "Simple Men" e "Flirt".
E POR FALAR EM TEATRO: Vem estrondosamente a propósito mencionar este blog, de um veterano nestas andanças, onde é divulgado teatro intra e extra-Porto.
TUDO É SUSCEPTÍVEL DE TEATRO: E, com Rivette como patrono, tudo fica mais suculento e resplandecente.
MAS SÃO TRÊS DESEJOS, NÃO É POSSÍVEL: Ribeiro e Castro selou o seu destino quando comparou Paulo Portas a um ovo Kinder. Fosse eu militante de um partido político, perante a contingência de escolher um novo líder, não hesitaria entre um ser de carne, osso e tendão e um ovo de chocolate com surpresa no interior.
Não há indeciso que resista a estes tristes golpes de retórica.
domingo, abril 22, 2007
segunda-feira, abril 16, 2007
domingo, abril 01, 2007
MANET NUM DOMINGO EM TELHEIRAS COM MUITO VENTO:

Nunca tinha prestado atenção a este quadro ("Le Christ Aux Anges", de Manet) até o ver mencionado e comentado por Delfim Sardo, durante o ciclo de conferências sobre arte contemporânea que decorreu recentemente na Culturgest.

Nunca tinha prestado atenção a este quadro ("Le Christ Aux Anges", de Manet) até o ver mencionado e comentado por Delfim Sardo, durante o ciclo de conferências sobre arte contemporânea que decorreu recentemente na Culturgest.
Citando de memória, e confundindo, provavelmente, as ideias de Sardo com as do crítico Thierry de Duve (que ele mencionou), a singularidade deste quadro assombroso reside, antes de mais, na posição do Cristo: sentado, numa postura que possui o abandono do cadáver, mas à qual não falta uma certa majestade. O tema da ressurreição iminente (ou já a decorrer) encontra um equivalente pictórico na ambiguidade da postura. Afastando-se das representações consagradas pela pintura ocidental, nomeadamente as "pietà", Manet denota a mortalidade do filho do Homem através da lassidão muscular que desmente aquela que poderá ser a primeira impressão de um espectador que descubra o quadro: a impressão de estar perante um rei sentado no seu trono.
A esta ambiguidade latente, Manet acrescenta um nível suplementar, de natureza cronológica: o corpo do Cristo sofre um processo que se prolonga no tempo. Ao passo que o corpo é o de um homem morto, as feições evidenciam já o regresso à vida. A presença dos dois anjos (o da esquerda ainda atormentado pelo desgosto, o da direita ciente do que está a ocorrer) reforça a existência de dois momentos, um antes e um depois que enquadram o processo contínuo da ressurreição.
Assim, à execução deste quadro terá presidido a ambição de representar um processo dinâmico, o movimento de um estado de coisas para um novo estado. Tendo em conta aquilo que a evolução da Arte trouxe nos cento e tal anos que se seguiram a este quadro (que data de 1864), não será exagerado atribuir a este propósito de Manet um potencial revolucionário.
(A ferida no flanco de Jesus aparece, no quadro, do lado esquerdo. Tratou-se de um erro factual perfeitamente deliberado da parte do artista, talvez no intuito de traduzir por meio de uma inverosimilhança histórica o carácter conceptualmente invulgar do quadro.)
quarta-feira, março 28, 2007
A DOIS MINUTOS DOS GELADOS BEN & JERRY'S: No próximo sábado, dia 31, a partir das 18h30, estarei presente na sessão "Instantâneos da Nova Ficção Portuguesa", no Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa. Estarei na boa companhia de Cláudia Clemente, José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares, a quem caberá dizer coisas interessantes sobre a ficção portuguesa, ao passo que eu trarei CDs de música dos anos 80 para animar a malta, como por exemplo Human League, ABC, Frankie Goes to Hollywood, Propaganda e Housemartins.
terça-feira, março 27, 2007
CINEMA:
«Falling in love with style is a temptation a critic learns to be wary of: it's easy to be bedazzled by a film's rhetoric before you even think of asking whether it has anything to say. But why shouldn't a film's content primarily, or totally, consist of the way it writes itself on to the screen? Curiously, while it is generally seen as legitimate in critical circles to esteem certain examples of genre cinema precisely because they foreground style (John Woo, Michael Mann, Park Chan-wook...), self-consciously extravagant style is often frowned on when a film is perceived as sailing under an arthouse flag.»
(Jonathan Romney, "Sight & Sound", Abril 2007, a propósito de um filme de Paolo Sorrentino que eu não vi.)
Poderia ser um manifesto, que eu subscreveria sem hesitar, palavra por palavra, com a possível excepção de "extravagant".
segunda-feira, março 26, 2007
BRANDA SEVERIDADE: Em mais uma das suas imperdíveis crónicas da 2ª feira, João César das Neves, num esmerado exercício de auto-vitimização em que é useiro e vezeiro, fala-nos de um "racismo", dirigido à crença, que grassa na sociedade de hoje; fala-nos de uma Igreja contra a qual existe "desconfiança latente" e "severidade".
Provavelmente por habitar em paragens muito longínquas, ou numa cave insonorizada com água potável e conservas para uma vida inteira, JCN ignora que vive numa sociedade que não só não discrimina os crentes, não só não dá mostras de severidade para com a Igreja, mas que, pelo contrário, a trata com uma benevolência que roça, por vezes, a subserviência.
Pode até dar-se o caso de JCN ter ouvido falar de um país, chamado "Portugal", no qual a perseguição aos crentes não prima pela ferocidade: a Igreja tem direito a transmissão televisiva das eucaristias, a mensagem de Natal do patriarca, a emissões especiais por ocasião do aniversário da cidadã Lúcia de Jesus dos Santos, a uma Universidade, e, até há bem pouco tempo, a presença no protocolo do Estado. Isto, claro, para não falar de absoluta liberdade de culto.
(Estranho racismo este. Ou melhor: estranho emprego da palavra "racismo", que me parece profundamente ofensivo para com aqueles que, ao longo dos séculos, e neste preciso momento, sofreram e sofrem na carne e no ânimo os golpes do verdadeiro racismo.)
Portanto, JCN tem razões para se regozijar: nem tudo é tão negro como a sua lúgubre pena o pinta.
Quando JCN afirma que «O mundo continua embaraçado perante o dinamismo dos Apóstolos», apetece-me rebater: o mundo continua embaraçado, sem dúvida, mas menos com o dinamismo do que com a desfaçatez de que dão mostras, sem se aperceberem da irrelevância para onde velozmente deslizam, as altas hierarquias da Igreja, quando continuam a tentar influenciar um mundo que lhes escapa, nem que seja por meio da chantagem e da coacção. Entre os exemplos mais recentes: as palavras do papa, admoestando com arrogância os dirigentes da União Europeia por mais uma omissão de referência a "raízes cristãs", ou qualquer outra metáfora botânica que caísse no goto do Vaticano; ou os patéticos apelos à desobediência que se seguem à aprovação de leis fracturantes, como a descriminalização da interrupção voluntária da gravidez ou o casamento de pessoas do mesmo sexo.
«Importa mais obedecer a Deus que aos homens» (Act 5, 29), cita JCN. Seria arrepiante, se não fosse tão anacrónico. Isto sim, é embaraçoso.
UMA CERTA TENDÊNCIA...: Ainda a propósito de filmes menores que dão origem a debates maiores, ou vice-versa: há um bom bocado que acalentava a ideia de, com base em dois filmes, ilustrar uma das (lamentáveis) tendências da crítica portuguesa. Os filmes são "Gabrielle", de Patrice Chéreau (que adorei) e "Million Dollar Baby", de Clint Eastwood (de que não gostei mesmo nada). De uma forma geral, a crítica torceu energicamente o nariz ao primeiro e elogiou profusamente o segundo. Até aqui, tudo bem. Deprimente foi constatar que a rejeição do primeiro se deveu, maioritariamente, ao seu suposto "maneirismo" e excesso de ademanes estilísticos, ao passo que, sobre o segundo, choveram encómios por via da sua limpidez formal, só ao alcance do "último dos clássicos". É claro que qualquer crítico é livre de achar que "Gabrielle" peca por exagero no estilo. O problema é ser esta apenas uma instância de uma propensão para castigar tudo o que cheire, ainda que debilmente e à distância, a excesso de zelo formalista. Problema ainda maior é ser essa propensão uma desculpa para não aprofundar a análise de um filme, não averiguar até que ponto as opções formais do realizador são ou não justificadas, não pensar o filme, em suma. Regra geral, um investimento explícito e profundo ao nível da forma é visto como gratuito, e perde na comparação com o apagamento e a neutralidade, sobretudo se nostalgicamente encarados como atributos de um suposto "classicismo" caucionador.
Sem dúvida que, para exprimir as minhas ideias sobre o cinema, me agrada mais partir de filmes de que gostei do que daqueles que me foram indiferentes ou (caso de "Babel") que apreciei moderadamente. Este post reflecte mais a minha admiração por "Gabrielle" e por Chéreau (nunca saí desiludido de um filme dele) do que animosidade contra Eastwood, de quem vi pelo menos um filme que me agradou muito ("Midnight in the Garden of Good and Evil"), mas que me parece beneficiar de um estado de graça permanente e difícil de justificar.
UM APELO À CALMA: Senhores da comunicação social, por favor, tenham mais tento quando se trata de noticiar controversas trocas de declarações entre elementos de duas selecções contendoras num importante desafio de futebol internacional. Ânimos mais exaltados podem interpretar as manchetes garrafais como apelos ao desacato e à zaragata. E quem sofre no meio disto? Pois bem, quem sofre é o comércio local das zonas limítrofes dos recintos desportivos onde se desenrola o desafio em questão (no caso vertente o Estádio Alvalade XXI), que corre sérios riscos de vandalização. Estou a pensar, para citar alguns nomes ao acaso, na Telepizza, no Ovo de Colombo (frangos de churrasco para fora), na frutaria Aquário, na padaria Espigasol, na mercearia do Sr. António e noutros pacatos estabelecimentos do sempre formoso bairro de Telheiras.
quinta-feira, março 22, 2007
PRA QUE CONSTE:
Sábado, 24 de Março, às 16h30.
Nos Espaços JUP, Rua Miguel Bombarda, 187, Porto.
APRESENTAÇÃO DA AGUASFURTADAS 10.
10 CONVIDADOS ESCOLHEM 10 OBRAS PUBLICADAS NOS 10 NÚMEROS DA REVISTAAGUASFURTADAS. Com a participação de Carlos Guedes, Daniel Pedrosa, Jorge Palinhos, Luís Trigo, Nelson d'Aires, Nelson Quinhones, Nuno F. Santos, Pedro Carreira de Jesus, Rui Dias, Rui Lage, Rui Penha, Samuel Silva, Sérgio Couto e Virgínia Pinho.
(Eu não posso ir, mas aqui fica o meu apelo àqueles que podem ir: vão!)
sexta-feira, março 16, 2007
TELHEIRAS BEAUTY: Através da janela da cozinha, o gato Jasmim seguia com o olhar, tenso e fascinado, um saco de plástico do Aki esvoaçando ao sabor do vento.
A ninguém que o observasse poderia escapar a alusão cinéfila ao filme "American Beauty".
(A avaliar pelo seu comportamento habitual, porém, a grande referência do Jasmim em matéria de sétima arte é "Sleep", de Andy Warhol.)
sexta-feira, março 09, 2007
AGRADECIMENTO E MUDANÇA DE LEMA, POR ESTA ORDEM: Obrigado a todos aqueles que, com despropositada generosidade, acharam por bem assinalar os 4 anos deste espaço. Os brindes prometidos já seguiram pelo correio, em envelope discreto.
O lema deste blog passa a ser: "Aquilo que os outros não dizem, nós sussurramos."
CINEMA:
E ainda uma outra coisa: falar de um filme implica, no todo ou em parte, falar da sua, chamemos-lhe assim, "representação do mundo", o que poderá implicar ou convocar aspectos mais ou menos incipientemente relacionados com a sociologia, mas não muda o essencial e o essencial é que, até prova em contrário, a "representação do mundo" é um problema eminentemente cinematográfico. (Luís Miguel Oliveira)
Cem por cento de acordo. Iria até mais longe. Todo o filme pode ser visto sob um ângulo sociológico, assim como todo o filme pode ser visto sob um ângulo político (ainda que não necessariamente num sentido estrito, digamos "costa-gavrasiano" ou "loachiano" do termo). Ao concretizar uma visão do mundo, um filme implica uma atitude perante o meio humano e as suas componentes (pessoas, afectos, tempo, matéria, valores) que é da ordem do político. O que me exaspera não é que se façam leituras políticas a partir de um qualquer filme, mas sim o grau de indigência e de comodismo de que essas leituras, na grande maioria dos casos, se revestem. Nestes casos, com excessiva frequência, o crítico, com mais ou menos divagações e cambalhotas estilísticas pelo meio, pouco mais faz do que pronunciar-se sobre a eficácia e boa fé com que o realizador logrou transmitir a sua mensagem. Infelizmente, a eficácia e a boa fé são questionadas de forma alheia a qualquer critério do foro cinematográfico. Ou seja, o filme é avaliado segundo as suas vertentes de excelência artística e de validade ética, mas raramente enquanto filme. Se exceptuarmos a referência às interpretações e a aspectos técnicos avulsos (música, fotografia), grande parte daquilo que se escreve sobre cinema nos jornais portugueses poderia ser escrito acerca de um livro ou de uma peça.
Não faço ideia se isto contribui para esclarecer alguma coisa ou não, mas gostava de fechar a loja de Babel e das suas discussões colaterais. Ninguém me obrigou e se me queixo de alguém é de mim, mas acho que nunca perdi tanto tempo com um filme que, para o dizer curto e grosso, não me interessa em nada e por nada. (Luís Miguel Oliveira)
"Babel" não merece que sobre ele se funde um debate destes? Provavelmente, não. Estas questões são infinitamente mais importantes do que este filme. Ultrapassam-no e sobreviver-lhe-ão. Porém, com certeza não preciso recordar que, na história do cinema, não escasseiam exemplos de querelas e intervenções críticas influentes desencadeadas por filmes menores. De entre esses exemplos, destaco obviamente o artigo "De l'Abjection", de Jacques Rivette ("Cahiers du Cinéma", Junho de 1961), a propósito de "Kapo", de Gillo Pontecorvo.
Para finalizar: não o disse na altura por relutância em personalizar, e por achar desnecessário, mas Luís Miguel Oliveira, assim como Mário Jorge Torres, Vasco Câmara e João Lopes são, de entre os críticos de cinema que escrevem regularmente na imprensa portuguesa, aqueles que mais admiro. Fosse esta a bitola média da crítica portuguesa e o meu agastamento não se faria ouvir com tanta regularidade.
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