COMO FALAR DE UM AUTOR QUE NUNCA SE LEU: O excessivo peso que se atribui ao Nobel da literatura (como se a Academia fosse dotada de uma presciência sobre-humana que a distinguisse dos demais júris de milhares de prémios literários) mede-se não tanto em minutos de cobertura mediática (a rotineira nota de rodapé em noticiários televisivos e jornais) como na intensidade e verbosidade das reacções que se continuam a fazer ouvir, dias e semanas após a atribuição, à maneira de ecos tornados mais incómodos pela exiguidade da caixa de ressonância.
Neste ano, atingiram-se zénites de idiotice e leviandade para os quais, admita-se, contribuíram muitas das opiniões de peritos que foram convidados a emitir juízo. De Hélder Macedo a Maria Teresa Horta, passando por Saramago e (pasme-se) Lídia Jorge, muito se falou em feminismo e experiência feminista, em sensibilidade social e em consciência cívica, em experiência e em valores. Falou-se de tudo um pouco, excepto de talento e mérito literário, coisa de que Doris Lessing é superiormente dotada, e da grandeza da sua obra multifacetada.
Não teria sido necessário nada disto (mas deu uma ajudinha) para que surgissem os cínicos do costume, com a aljava repleta de argumentos contra a credibilidade do Nobel, conhecida arma de arremesso politicamente correcta esvaziada de conteúdo, titilados pelo sumário
thumbs down de Harold Bloom (dá sempre jeito a um magala ter um fazedor de cânones como primeiro sargento).
A culpa de tudo isto, no fundo, é da própria Doris Lessing. Para além de imune ao vedetismo, de escrever ficção científica, e de ter opiniões sobre política e sociedade, não possui um cunho estilístico marcado. É muito mais fácil desvalorizar o talento de um escritor que não se individualiza pelo estilo brilhante e convoluído do que um qualquer acrobata do verbo. Doris Lessing oferece, assim, o flanco àqueles em cujo espírito, por pura ignorância ou estreiteza de vistas, ausência de estilo individual equivale a desleixo formal.
«Ou seja, para catalogar Doris Lessing não é preciso lê-la, basta incluí-la numa pretensa agenda política do Nobel da literatura» (Lido
aqui.)
Nunca ninguém leu aqui, neste blog tão verde, comentários sobre a obra e o mérito de Gao Xingjian, Imre Kertész ou Orhan Pamuk.