- Perto de Christ's Pieces, um pai de família que devora uma salsicha no pão vê-me a comer uma banana, e comenta «Taken the healthy choice?».
- Um saxofonista interpreta um tema de Norah Jones, perto da entrada do Boots, ofuscando as mini-filarmónicas que povoam as ruas mais concorridas do centro da cidade.
- Na livraria Borders, uma mulher, ao telefone, pergunta «How much into architecture is he?». A resposta parece ter sido categórica, e a pessoa em questão (que espero não seja leitor deste blog) pode contar com um livro sobre as "Houses of Parliament" no sapatinho.
quinta-feira, dezembro 20, 2007
PASSEANDO POR CAMBRIDGE NUM DOMINGO COM O NATAL À PORTA:
sexta-feira, dezembro 14, 2007
segunda-feira, dezembro 10, 2007
FINGERLESS, LAMBSKIN, LEATHER, STRIPED, FLEECE, AMBIDEXTROUS: Este site propõe-se reunir luvas perdidas na cidade de Pittsburgh, Pennsylvania, com os legítimos donos. Ou, mais exactamente, com as mãos geladas que tanto sentem a falta do artigo perdido.
Há dias, encontrei um par de luvas num autocarro. Curiosamente, pareciam-se muito com estas. Não preciso de muito mais para acreditar num sinal do destino. Talvez a minha razão de ser e de estar no mundo tenha a ver com luvas. O meu destino não é loquaz. O meu destino é taciturno e lacónico, e esta seria uma preciosa ocasião para que o meu destino mudasse de atitude.
sábado, dezembro 08, 2007
LE POINT CENTRAL EST PRÉCISÉMENT LE SENTIMENT DE L'ÊTRE: «Au temps où j'écrivais la seconde et la troisième partie de ce livre, il m'est souvent arrivé de me répeter silencieusement ou à mi-voix à moi-même: «Zénon, Zénon, Zénon, Zénon, Zénon, Zénon...» Vingt fois, cent fois, davantage. Et sentir qu'à force de dire ce nom un peu plus de réalité se coagulait.» Isto escreve Marguerite Yourcenar no "Carnet de notes de L'Oeuvre au Noir".
Como se fazer existir no mundo a sonoridade das sílabas do seu nome conferisse a uma personagem a sua legitimidade. Mais ainda: a sua inevitabilidade, um travo a facto consumado que consagra a responsabilidade do autor, para quem o retrocesso deixa de ser possível.
Esta repetição é mais do que um mantra: é um salto no vazio, uma abdicação do direito a não criar. Mais do que criar um vínculo, o acto de nomear faz parte do vínculo.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No cinema Arts Picture House, de Cambridge, um jovem lia um livro de V.S. Naipaul. Sentou-se, tal como eu, na 3ª fila da plateia, não sei se por gostar de estar perto do ecrã, ou simplesmente por ser um lugar com iluminação suficiente para continuar a ler o seu livro antes do início do filme ("The Darjeeling Limited", Wes Anderson).
segunda-feira, dezembro 03, 2007
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: (Neste caso, as minhas.) Lembro-me de ler que Marguerite Yourcenar declarou que preferiria uma morte lenta, para sentir o processo entranhar-se dentro de si. Foi impossível não recordar esta citação (talvez deturpada) ao ler o relato da morte auto-infligida da personagem Zénon, que encerra o romance "L'Oeuvre au Noir". Ainda estou na dúvida sobre se essas páginas tão singularmente lúcidas e serenas, mas também brutais, ganharam ou perderam intensidade ao serem lidas no piso superior de um autocarro da carreira "Citi 1", a caminho do centro de Cambridge, sacudido pelos solavancos do tráfego que faziam oscilar ruidosamente uma garrafa de "Dr. Pepper" abandonada no chão. Ao meu lado, esquecido sobre um banco, um par de luvas que entreguei ao condutor antes de sair. A vida, fazendo-se lembrada com bem-humorada prepotência?
quinta-feira, novembro 29, 2007
XADREZ: Para que um xadrezista português mereça algum destaque na imprensa generalista é necessário que o feito seja pouco menos que colossal. E foi o que aconteceu desta vez, com o desempenho notável de Ruben Pereira, que se sagrou vice-campeão mundial de sub-16 (com os mesmos pontos do vencedor), no recente campeonato disputado em Kemer-Antalya, na Turquia.
Ruben Pereira é sem dúvida a maior esperança de um xadrez português que tarda em renovar-se, mau grado numerosas iniciativas de promoção e incentivo à modalidade, sobretudo ao nível das escolas. É difícil lutar contra a indiferença da comunicação social e contra a incipiente implantação do xadrez na sociedade portuguesa.
Leitores habituais deste espaço estarão naturalmente desejosos por se inteirarem do resultado da goesa Ivana Maria Furtado, e é com indisfarçável gáudio que informo que ela triunfou, isolada, na categoria feminina de sub-8 anos. Em sub-18, a sua compatriota Mary Ann Gomes guindou-se a um honroso 6º lugar.
POST DE RODAPÉ: A propósito do Magdalen College, afiançaram-me um dia que a pronúncia correcta do seu nome é qualquer coisa como "Maudlin", ao passo que o nome da rua Magdalen Street, esse, deve ser pronunciado de forma mais ortodoxa ("Mag-da-len", como se escreve).
Existe um parque de grande beleza, povoado por veados, adjacente ao Magdalen College.
QUIZ SHOW: Sou fã do concurso "University Challenge", uma instituição da televisão inglesa cuja primeira emissão remonta a 1962 (com um interregno de 7 anos pelo meio). Trata-se de um concurso de cultura geral, com a particularidade de ser disputado por equipas compostas por alunos de uma mesma universidade. São duas as características que fazem sobressair este concurso dos demais: a grande exigência das perguntas e o modo directo e pragmático como elas são colocadas, sem lugar para conversas de salão nem para dispensáveis minudências autobiográficas.
Na última sessão a que assisti, uma das perguntas era qualquer coisa como: «Qual o nome do escritor francês experimentalista autor do maior palíndromo conhecido em língua francesa?». Após algumas hesitações, e de alguém ter murmurado "Queneau" em tom dubitativo, o jovem concorrente da Universidade de Birmingham (que, por sinal, foi derrotada ingloriamente pelo Magdalen College de Oxford) pronunciou, quase a medo, a resposta correcta: "Perec".
Foi um momento de televisão muito bonito.
quarta-feira, novembro 28, 2007
segunda-feira, novembro 26, 2007
PASSEANDO POR CAMBRIDGE: Passeando pelas ruas e lojas de Cambridge, o cidadão atento presencia cenas que merecem menção pela sua suculência inaudita.
Por exemplo, num estabelecimento de restauração rápida de Regent Street uma jovem contava a uma amiga o enredo do romance "The Line of Beauty", de Alan Hollinghurst (ou talvez da série da BBC nele baseada). Por entre o ruído denso e tenaz que os convivas produziam, escutavam-se frases como "he was a Tory MP" e "what it was like being gay in the eighties".
Na opulenta livraria Heffers, duas mulheres riam com juvenil franqueza diante de uma antologia do poeta John Betjeman, aberta sem dúvida num qualquer poema de elevado teor cómico.
Nada disto se compara ao homem que, dentro de um caixote do lixo público, cantava "I'm Like a Bird", de Nelly Furtado, acompanhando-se à guitarra. Foi há cinco anos, nesta mesma cidade. Eram outros tempos, mais loucos, mais eufóricos.
terça-feira, novembro 20, 2007
quarta-feira, novembro 14, 2007
POLICHINELO EM EAST ANGLIA: Estou a postar de uma cidade cujo nome começa por "Cam" e acaba em "ridge", e cuja universidade é uma das mais famosas do mundo. Precisam de mais alguma pista? Há corvos no cimo das árvores, cogumelos exuberantes e um restaurante vegetariano onde servem um tajine com batatas doces ao qual nenhum adjectivo mais brando do que "celestial" faz jus.
domingo, novembro 04, 2007
ESCOLA PÚBLICA (2): Por vezes, fico com a ideia de que certos cronistas da imprensa portuguesa se entregam a uma espécie de concurso, que consiste em escrever os mais inacreditáveis contra-sensos sem perder a compostura.
A não ser que, em vez de um concurso, se trate de um exercício espiritual, à maneira dos de Santo Inácio de Loiola, o que constituiria certamente uma atenuante, visto tratar-se de uma tentativa de auto-aperfeiçoamento.
No "DN" de ontem, por exemplo, João Miranda escreve:
«Um sistema público de educação acaba sempre por ficar refém de interesses particulares.»
Preto no branco, e logo a abrir a crónica. Pouco adiante, faz questão de especificar:
«Fica refém dos grupos com poder político (sindicatos dos professores, grupos religiosos, partidos políticos, burocratas) que conseguem colocar os recursos públicos ao serviço dos seus interesses.»
Sucede amiúde que uma crónica que abre com uma asserção aparentemente tão indefensável acabe por revelar uma lógica interna perfeitamente válida. No caso deste artigo, essa lógica é até das mais límpidas, embora não seja levada até às suas últimas consequências. Parece inegável que certos grupos têm o poder e a margem de manobra para co-optar o ensino público, e que nele encontram um caldo de cultura para as suas agendas e interesses. Não é por não reflectir a realidade que a primeira frase desta crónica é absurda e chocante. É por omitir que, num sistema de ensino dominado por instituições privadas, esses mesmos sectores, interesses e grupos já não precisariam sequer de tomar o ensino como refém: seriam livres para vicejar, para criar as suas esferas de influência, para competir pela oportunidade de influenciar mentalidades, para impor as suas mundividências na maior das legalidades e normalidades.
ESCOLA PÚBLICA (1): Pois é, uma das consequências de ler blogs é a segurança de, mais cedo ou mais tarde, encontrarmos alguém que exprimiu com rigor e fluência precisamente aquilo que pensamos sobre um determinado assunto. Assim se desencoraja um cidadão de perder tempo e energia a procurar exprimir-se pelas próprias palavras. Não está certo.
No caso mais recente, o alguém é Vital Moreira, o assunto é o (já irritante mas nem por isso menos crucial) debate escola pública/escola privada, e o aquilo é isto.
Transcrevo parte da última frase, que me parece merecer ênfase:
«(...) um Estado laico deve financiar um ensino público aberto e plural, como forma de inclusão social e de igualdade de oportunidades, e não um ensino segregado de acordo com orientações religiosas ou filosóficas particulares.»
Este aspecto tem vindo a ser deixado pudicamente de lado, mas nunca deixa de estar presente, ainda que de forma latente. Se se consumasse o desmantelamento da escola pública, ou uma sua menorização, que autoridade teria o Estado para impor programas e currícula uniformemente aplicáveis a todos os estabelecimentos de ensino? Que garantia teríamos de que facções comunitárias, religiosas ou ideológicas não passariam a moldar os programas leccionados, de acordo com as suas agendas particulares?
PARMI NOUS: Recente overdose de Godard, entre outros efeitos secundários menos verbalizáveis, permitiu-me constatar que a frase "Les Signes Parmi Nous" (utilizada como título de um capítulo das "Histoire(s) du Cinéma") é pronunciada também nos filmes "Deux ou Trois Choses que Je Sais d'Elle" e "JLG JLG Autoportrait de Décembre".
MAIS UMA QUE MORDE O PÓ: Agradeço aos blogs O Vermelho e o Negro, O Blogue Que Muda de Nome, e Errância terem-me passado o testemunho da original corrente "página 161", ignorando talvez a minha incurável propensão para cercear sem dó todos os memes em cadeia que me passam pelas mãos. É verdade, o 1bsk possui um historial de interromper correntes já crescidote. Somos a Pasionaria das correntes. No pasarán! Para além de as interromper, raramente hesito em subvertê-las. No caso desta, já de si tão arbitrária, não me ocorreu uma subversão com um mínimo de salero, pelo que me limito a cumprir as regras, com a brandura com que se fazem as últimas vontades a um moribundo.
Pego no livro que está mais próximo: é "Northwest Italy", de Dana Facaros e Michael Pauls, da série de guias turísticos Cadogan.
Abro-o na página 161: dito e feito.
Transcrevo a 5ª frase completa: «There's also plenty of less piquant seafood, too (L40-55 000, closed Mon).»
Introduzo uma breve contextualização, que não era pedida mas que me parece oportuna. A frase supra diz respeito ao restaurante "Gambero Rosso" (Piazza Marconi, 16), situado na cidade de Vernazza, na Ligúria. O prato em comparação com o qual a outra comida é menos picante é tegame di acciughe, à base de anchovas.
Por fim, chega a altura de não passar a corrente a outros 5 blogs. Em contrapartida, tenho entre mãos uma infalível oração a S. Judas Tadeu, que enviarei ainda hoje a 90 confrades, acompanhada por sinistras ameaças aos não cumpridores.
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