domingo, janeiro 06, 2008

FERNANDA BOTELHO: Fernanda Botelho faleceu e, como seria de esperar, não mereceu mais do que o destaque que a imprensa reserva (apetece-me dizer "concede, a contragosto") aos criadores e artistas que não tiveram a ventura de, em vida, aceder ao círculo de ícones da cultura oficial onde residem Saramago, Lobo Antunes, Paula Rego, Manoel de Oliveira, e poucos mais. Sou admirador dos romances de Fernanda Botelho. Se bem que a sua obra não possua a dimensão da de Agustina Bessa-Luís, têm em comum o facto de serem subvalorizadas, e de confirmarem uma minha convicção que vem de longe: a de que, em Portugal, se consome demasiada energia em picardias antunino-saramaguianas para reconhecer a excelência e a grandeza de certos autores que cuidam mais mediocremente das suas imagens. O que eu mais aprecio na maneira de escrever de Fernanda Botelho é o modo como explora a riqueza e complexidade humana das suas personagens nos seus romances, sem que isso a iniba de empreender um trabalho subtil e arrojado sobre a matéria ficcional. Por outras palavras, a profundidade das personagens nunca serve de álibi para descurar o aspecto formal. Os seus romances possuem estruturas complexas, por vezes desconcertantes, mas a sobriedade da autora nunca permite que se transformem em meros exercícios de estilo, da mesma forma que um sempre presente e saudável cepticismo a respeito da natureza humana impede que as personagens assumam preponderância sobre a ideia de ficção que funciona como fulcro do livro. Como seria de recear, muitos dos testemunhos recolhidos aquando da morte de Fernanda Botelho (não me lembro dos responsáveis, e pouco importa) pareceram mais apostados em salientar o facto de se tratar de uma mulher num mundo predominantemente masculino (com o que isso acarreta de loas à sua "visão" e "escrita feminina") do que em explicar a sua importância e valorizar o seu talento.
UM GRANDE POST: Um grande post para começar bem o ano de 2008. Temo apenas que os esforços e a clareza argumentativa do Ricardo se baldem, perante a proverbial má-fé dos potenciais destinatários. Esthers Mucznicks, Joões Césares das Neves, Antónios Marujos e outros que tais continuarão a defender que a laicidade não é mais do que uma forma de religião, que o ateísmo conduz inevitavelmente à amoralidade e é o mais eficaz cadinho para a ditadura, e que toda e qualquer medida que vá no sentido de concretizar a separação entre Igreja e Estado é um atentado contra as crenças profundas do bom povo português. Há pouco a fazer face àqueles que substituiram o bom senso e o exercício da racionalidade pela mera enunciação de dogmas.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

OS MEUS FILMES DAVAM UMA VIDA: Listas de filmes da vida são uma das coisas que tornam a existência mais doce, sobretudo quando a sua elaboração tem como efeito secundário, ou mesmo principal, um debate sobre o que vem a ser afinal um filme da vida. Com pouco tempo disponível entre mãos (em vésperas da partida para mais uma expedição de bird-watching, squirrel-frightening e kitten-fondling nos confins bravios de East Anglia), e sem desprimor para as bem fundamentadas opiniões alheias, atrevo-me a avançar três critérios necessários e suficientes para qualificar como "filme da vida" um filme que, de outro modo, não o seria.
  • Provoca forte e duradoura impressão no espectador.
  • Presta-se a que sobre ele se reflicta (o que exclui arrufos e meras reacções do foro visceral).
  • Essa impressão interage com os (mais ou menos voláteis) estados de espírito que marcaram uma determinada fase da vida do espectador.

Passando à prática, é com prazer que respondo ao desafio lançado pelo Sérgio do Auto-Retrato (há mais de 2 meses, é certo, um tempo de reacção que faz jus às tradições deste blog):

(5 de entre os 50 ou mais que poderia escolher. Demasiados filmes para tão pouca vida?)

LEIS DE KEPLER: O Umblogsobrekleist deseja a todos os seus leitores, clientes, visitantes, sócios, simpatizantes e credores um aprazível périplo da Terra em torno do Sol. Obrigado por passarem aqui. Tentarei ser mais assíduo em 2008, ano da entrada em vigor da lei 37/2007, das Olimpíadas em Dresden (sim, leram bem, Dresden), dos 80 anos de Jacques Rivette, e dos previsíveis revivalismos lacrimosos por ocasião do centenário do regicídio. Assunto não irá faltar.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

PASSEANDO POR CAMBRIDGE NUM DOMINGO COM O NATAL À PORTA:
  • Perto de Christ's Pieces, um pai de família que devora uma salsicha no pão vê-me a comer uma banana, e comenta «Taken the healthy choice?».
  • Um saxofonista interpreta um tema de Norah Jones, perto da entrada do Boots, ofuscando as mini-filarmónicas que povoam as ruas mais concorridas do centro da cidade.
  • Na livraria Borders, uma mulher, ao telefone, pergunta «How much into architecture is he?». A resposta parece ter sido categórica, e a pessoa em questão (que espero não seja leitor deste blog) pode contar com um livro sobre as "Houses of Parliament" no sapatinho.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No comboio Cambridge-Londres, uma jovem lia "The Crying of Lot 49", de Thomas Pynchon.


Pelo menos durante uma manhã, o sinistro segredo de Trystero pairou sobre as estações de Foxton, Shepreth, Meldreth, Royston, Ashwell & Morden, Baldock...


segunda-feira, dezembro 10, 2007

FINGERLESS, LAMBSKIN, LEATHER, STRIPED, FLEECE, AMBIDEXTROUS: Este site propõe-se reunir luvas perdidas na cidade de Pittsburgh, Pennsylvania, com os legítimos donos. Ou, mais exactamente, com as mãos geladas que tanto sentem a falta do artigo perdido. Há dias, encontrei um par de luvas num autocarro. Curiosamente, pareciam-se muito com estas. Não preciso de muito mais para acreditar num sinal do destino. Talvez a minha razão de ser e de estar no mundo tenha a ver com luvas. O meu destino não é loquaz. O meu destino é taciturno e lacónico, e esta seria uma preciosa ocasião para que o meu destino mudasse de atitude.

sábado, dezembro 08, 2007

LE POINT CENTRAL EST PRÉCISÉMENT LE SENTIMENT DE L'ÊTRE: «Au temps où j'écrivais la seconde et la troisième partie de ce livre, il m'est souvent arrivé de me répeter silencieusement ou à mi-voix à moi-même: «Zénon, Zénon, Zénon, Zénon, Zénon, Zénon...» Vingt fois, cent fois, davantage. Et sentir qu'à force de dire ce nom un peu plus de réalité se coagulait.» Isto escreve Marguerite Yourcenar no "Carnet de notes de L'Oeuvre au Noir". Como se fazer existir no mundo a sonoridade das sílabas do seu nome conferisse a uma personagem a sua legitimidade. Mais ainda: a sua inevitabilidade, um travo a facto consumado que consagra a responsabilidade do autor, para quem o retrocesso deixa de ser possível. Esta repetição é mais do que um mantra: é um salto no vazio, uma abdicação do direito a não criar. Mais do que criar um vínculo, o acto de nomear faz parte do vínculo.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No cinema Arts Picture House, de Cambridge, um jovem lia um livro de V.S. Naipaul. Sentou-se, tal como eu, na 3ª fila da plateia, não sei se por gostar de estar perto do ecrã, ou simplesmente por ser um lugar com iluminação suficiente para continuar a ler o seu livro antes do início do filme ("The Darjeeling Limited", Wes Anderson).

segunda-feira, dezembro 03, 2007

INITIATED INTO AN ORDER OF EXILES:



Os telhados de Paris, modo de usar; ou, Rivette em Cambridge; ou ainda, Trata Bem A Tua DVDteca E A Tua DVDteca Tratará Bem De Ti.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: (Neste caso, as minhas.) Lembro-me de ler que Marguerite Yourcenar declarou que preferiria uma morte lenta, para sentir o processo entranhar-se dentro de si. Foi impossível não recordar esta citação (talvez deturpada) ao ler o relato da morte auto-infligida da personagem Zénon, que encerra o romance "L'Oeuvre au Noir". Ainda estou na dúvida sobre se essas páginas tão singularmente lúcidas e serenas, mas também brutais, ganharam ou perderam intensidade ao serem lidas no piso superior de um autocarro da carreira "Citi 1", a caminho do centro de Cambridge, sacudido pelos solavancos do tráfego que faziam oscilar ruidosamente uma garrafa de "Dr. Pepper" abandonada no chão. Ao meu lado, esquecido sobre um banco, um par de luvas que entreguei ao condutor antes de sair. A vida, fazendo-se lembrada com bem-humorada prepotência?

quinta-feira, novembro 29, 2007

XADREZ: Para que um xadrezista português mereça algum destaque na imprensa generalista é necessário que o feito seja pouco menos que colossal. E foi o que aconteceu desta vez, com o desempenho notável de Ruben Pereira, que se sagrou vice-campeão mundial de sub-16 (com os mesmos pontos do vencedor), no recente campeonato disputado em Kemer-Antalya, na Turquia. Ruben Pereira é sem dúvida a maior esperança de um xadrez português que tarda em renovar-se, mau grado numerosas iniciativas de promoção e incentivo à modalidade, sobretudo ao nível das escolas. É difícil lutar contra a indiferença da comunicação social e contra a incipiente implantação do xadrez na sociedade portuguesa. Leitores habituais deste espaço estarão naturalmente desejosos por se inteirarem do resultado da goesa Ivana Maria Furtado, e é com indisfarçável gáudio que informo que ela triunfou, isolada, na categoria feminina de sub-8 anos. Em sub-18, a sua compatriota Mary Ann Gomes guindou-se a um honroso 6º lugar.
POST DE RODAPÉ: A propósito do Magdalen College, afiançaram-me um dia que a pronúncia correcta do seu nome é qualquer coisa como "Maudlin", ao passo que o nome da rua Magdalen Street, esse, deve ser pronunciado de forma mais ortodoxa ("Mag-da-len", como se escreve). Existe um parque de grande beleza, povoado por veados, adjacente ao Magdalen College.
QUIZ SHOW: Sou fã do concurso "University Challenge", uma instituição da televisão inglesa cuja primeira emissão remonta a 1962 (com um interregno de 7 anos pelo meio). Trata-se de um concurso de cultura geral, com a particularidade de ser disputado por equipas compostas por alunos de uma mesma universidade. São duas as características que fazem sobressair este concurso dos demais: a grande exigência das perguntas e o modo directo e pragmático como elas são colocadas, sem lugar para conversas de salão nem para dispensáveis minudências autobiográficas. Na última sessão a que assisti, uma das perguntas era qualquer coisa como: «Qual o nome do escritor francês experimentalista autor do maior palíndromo conhecido em língua francesa?». Após algumas hesitações, e de alguém ter murmurado "Queneau" em tom dubitativo, o jovem concorrente da Universidade de Birmingham (que, por sinal, foi derrotada ingloriamente pelo Magdalen College de Oxford) pronunciou, quase a medo, a resposta correcta: "Perec". Foi um momento de televisão muito bonito.

quarta-feira, novembro 28, 2007

PAINT IT BLACK:
NO BIKES
or we'll paint them black.
O facto deste anúncio estar afixado ao gradeamento do Departamento de História da Arte da Universidade de Cambridge empresta um certo peso à ameaça.

segunda-feira, novembro 26, 2007

PASSEANDO POR CAMBRIDGE: Passeando pelas ruas e lojas de Cambridge, o cidadão atento presencia cenas que merecem menção pela sua suculência inaudita. Por exemplo, num estabelecimento de restauração rápida de Regent Street uma jovem contava a uma amiga o enredo do romance "The Line of Beauty", de Alan Hollinghurst (ou talvez da série da BBC nele baseada). Por entre o ruído denso e tenaz que os convivas produziam, escutavam-se frases como "he was a Tory MP" e "what it was like being gay in the eighties". Na opulenta livraria Heffers, duas mulheres riam com juvenil franqueza diante de uma antologia do poeta John Betjeman, aberta sem dúvida num qualquer poema de elevado teor cómico. Nada disto se compara ao homem que, dentro de um caixote do lixo público, cantava "I'm Like a Bird", de Nelly Furtado, acompanhando-se à guitarra. Foi há cinco anos, nesta mesma cidade. Eram outros tempos, mais loucos, mais eufóricos.

terça-feira, novembro 20, 2007

A GUIDE BOOK OF EAST ANGLIA SMALL RODENTS: Algumas limitações no acesso à Internet, assim como o eclodir de um insuspeitado interesse pela observação de esquilos, poderão levar a que este blog continue a ser infrequentemente actualizado nos próximos tempos.
EVERYTHING IS MEANT: A melhor notícia para a blogosfera desde a blogosfera. Aqui.

quarta-feira, novembro 14, 2007

NECROLOGIA DOS PARASITAS:
FLEA
FUNERALS
DAILY
(Cartaz numa loja de animais ao pé de minha casa.)
POLICHINELO EM EAST ANGLIA: Estou a postar de uma cidade cujo nome começa por "Cam" e acaba em "ridge", e cuja universidade é uma das mais famosas do mundo. Precisam de mais alguma pista? Há corvos no cimo das árvores, cogumelos exuberantes e um restaurante vegetariano onde servem um tajine com batatas doces ao qual nenhum adjectivo mais brando do que "celestial" faz jus.