terça-feira, janeiro 08, 2008

MODERN TALKING: Num ensaio publicado em edição recente do "Times Literary Supplement", Gabriel Josipovici lamenta o facto de a esmagadora maioria dos escritores contemporâneos do Reino Unido escrever como se o modernismo não tivesse existido. Pior ainda, como se o modernismo tivesse sido um episódio embaraçoso, que se despacha com uma piada e um encolher de ombros. Achei particularmente conseguida a comparação entre Kingsley Amis e Philip Larkin (que, nas cartas que trocavam, se entretinham a apoucar Virginia Woolf, D.H. Lawrence e outros seus contemporâneos) e um par de crianças que, perdidos numa festa de adultos, onde ninguém lhes liga, se vêem reduzidos a sussurrar graçolas dirigidas aos convivas. Não pude deixar de associar estas reflexões ao falecimento de Fernanda Botelho, exemplo excelente de uma autora agudamente consciente das convulsões que o romance conheceu no século XX, e que soube, de forma magistral, integrar essa herança no processo de maturação da sua voz ficcional própria. Não são muitos os nomes da actual ficção portuguesa em relação aos quais se pode dizer o mesmo (Vergílio Ferreira era outro exemplo). Talvez porque o modernismo foi, entre nós, sobretudo obra de poetas, os autores de hoje, com demasiada frequência, preferem alojar-se nos seus pequenos nichos de pós-modernismo estéril do que dar continuidade ao trabalho de reflexão iniciado pelas gerações anteriores. Um aspecto que Josipovici deixou talvez sem a devida ênfase foi a reduzidíssima tendência dos ingleses para se deixarem contaminar por influências estrangeiras. Mais do que a uma antipatia pelo modernismo, parece-me ser a essa resistência aos ventos que sopram do continente que se deve atribuir o défice de consciência histórica dos ficcionistas britânicos.

domingo, janeiro 06, 2008

FERNANDA BOTELHO: Fernanda Botelho faleceu e, como seria de esperar, não mereceu mais do que o destaque que a imprensa reserva (apetece-me dizer "concede, a contragosto") aos criadores e artistas que não tiveram a ventura de, em vida, aceder ao círculo de ícones da cultura oficial onde residem Saramago, Lobo Antunes, Paula Rego, Manoel de Oliveira, e poucos mais. Sou admirador dos romances de Fernanda Botelho. Se bem que a sua obra não possua a dimensão da de Agustina Bessa-Luís, têm em comum o facto de serem subvalorizadas, e de confirmarem uma minha convicção que vem de longe: a de que, em Portugal, se consome demasiada energia em picardias antunino-saramaguianas para reconhecer a excelência e a grandeza de certos autores que cuidam mais mediocremente das suas imagens. O que eu mais aprecio na maneira de escrever de Fernanda Botelho é o modo como explora a riqueza e complexidade humana das suas personagens nos seus romances, sem que isso a iniba de empreender um trabalho subtil e arrojado sobre a matéria ficcional. Por outras palavras, a profundidade das personagens nunca serve de álibi para descurar o aspecto formal. Os seus romances possuem estruturas complexas, por vezes desconcertantes, mas a sobriedade da autora nunca permite que se transformem em meros exercícios de estilo, da mesma forma que um sempre presente e saudável cepticismo a respeito da natureza humana impede que as personagens assumam preponderância sobre a ideia de ficção que funciona como fulcro do livro. Como seria de recear, muitos dos testemunhos recolhidos aquando da morte de Fernanda Botelho (não me lembro dos responsáveis, e pouco importa) pareceram mais apostados em salientar o facto de se tratar de uma mulher num mundo predominantemente masculino (com o que isso acarreta de loas à sua "visão" e "escrita feminina") do que em explicar a sua importância e valorizar o seu talento.
UM GRANDE POST: Um grande post para começar bem o ano de 2008. Temo apenas que os esforços e a clareza argumentativa do Ricardo se baldem, perante a proverbial má-fé dos potenciais destinatários. Esthers Mucznicks, Joões Césares das Neves, Antónios Marujos e outros que tais continuarão a defender que a laicidade não é mais do que uma forma de religião, que o ateísmo conduz inevitavelmente à amoralidade e é o mais eficaz cadinho para a ditadura, e que toda e qualquer medida que vá no sentido de concretizar a separação entre Igreja e Estado é um atentado contra as crenças profundas do bom povo português. Há pouco a fazer face àqueles que substituiram o bom senso e o exercício da racionalidade pela mera enunciação de dogmas.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

OS MEUS FILMES DAVAM UMA VIDA: Listas de filmes da vida são uma das coisas que tornam a existência mais doce, sobretudo quando a sua elaboração tem como efeito secundário, ou mesmo principal, um debate sobre o que vem a ser afinal um filme da vida. Com pouco tempo disponível entre mãos (em vésperas da partida para mais uma expedição de bird-watching, squirrel-frightening e kitten-fondling nos confins bravios de East Anglia), e sem desprimor para as bem fundamentadas opiniões alheias, atrevo-me a avançar três critérios necessários e suficientes para qualificar como "filme da vida" um filme que, de outro modo, não o seria.
  • Provoca forte e duradoura impressão no espectador.
  • Presta-se a que sobre ele se reflicta (o que exclui arrufos e meras reacções do foro visceral).
  • Essa impressão interage com os (mais ou menos voláteis) estados de espírito que marcaram uma determinada fase da vida do espectador.

Passando à prática, é com prazer que respondo ao desafio lançado pelo Sérgio do Auto-Retrato (há mais de 2 meses, é certo, um tempo de reacção que faz jus às tradições deste blog):

(5 de entre os 50 ou mais que poderia escolher. Demasiados filmes para tão pouca vida?)

LEIS DE KEPLER: O Umblogsobrekleist deseja a todos os seus leitores, clientes, visitantes, sócios, simpatizantes e credores um aprazível périplo da Terra em torno do Sol. Obrigado por passarem aqui. Tentarei ser mais assíduo em 2008, ano da entrada em vigor da lei 37/2007, das Olimpíadas em Dresden (sim, leram bem, Dresden), dos 80 anos de Jacques Rivette, e dos previsíveis revivalismos lacrimosos por ocasião do centenário do regicídio. Assunto não irá faltar.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

PASSEANDO POR CAMBRIDGE NUM DOMINGO COM O NATAL À PORTA:
  • Perto de Christ's Pieces, um pai de família que devora uma salsicha no pão vê-me a comer uma banana, e comenta «Taken the healthy choice?».
  • Um saxofonista interpreta um tema de Norah Jones, perto da entrada do Boots, ofuscando as mini-filarmónicas que povoam as ruas mais concorridas do centro da cidade.
  • Na livraria Borders, uma mulher, ao telefone, pergunta «How much into architecture is he?». A resposta parece ter sido categórica, e a pessoa em questão (que espero não seja leitor deste blog) pode contar com um livro sobre as "Houses of Parliament" no sapatinho.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No comboio Cambridge-Londres, uma jovem lia "The Crying of Lot 49", de Thomas Pynchon.


Pelo menos durante uma manhã, o sinistro segredo de Trystero pairou sobre as estações de Foxton, Shepreth, Meldreth, Royston, Ashwell & Morden, Baldock...


segunda-feira, dezembro 10, 2007

FINGERLESS, LAMBSKIN, LEATHER, STRIPED, FLEECE, AMBIDEXTROUS: Este site propõe-se reunir luvas perdidas na cidade de Pittsburgh, Pennsylvania, com os legítimos donos. Ou, mais exactamente, com as mãos geladas que tanto sentem a falta do artigo perdido. Há dias, encontrei um par de luvas num autocarro. Curiosamente, pareciam-se muito com estas. Não preciso de muito mais para acreditar num sinal do destino. Talvez a minha razão de ser e de estar no mundo tenha a ver com luvas. O meu destino não é loquaz. O meu destino é taciturno e lacónico, e esta seria uma preciosa ocasião para que o meu destino mudasse de atitude.

sábado, dezembro 08, 2007

LE POINT CENTRAL EST PRÉCISÉMENT LE SENTIMENT DE L'ÊTRE: «Au temps où j'écrivais la seconde et la troisième partie de ce livre, il m'est souvent arrivé de me répeter silencieusement ou à mi-voix à moi-même: «Zénon, Zénon, Zénon, Zénon, Zénon, Zénon...» Vingt fois, cent fois, davantage. Et sentir qu'à force de dire ce nom un peu plus de réalité se coagulait.» Isto escreve Marguerite Yourcenar no "Carnet de notes de L'Oeuvre au Noir". Como se fazer existir no mundo a sonoridade das sílabas do seu nome conferisse a uma personagem a sua legitimidade. Mais ainda: a sua inevitabilidade, um travo a facto consumado que consagra a responsabilidade do autor, para quem o retrocesso deixa de ser possível. Esta repetição é mais do que um mantra: é um salto no vazio, uma abdicação do direito a não criar. Mais do que criar um vínculo, o acto de nomear faz parte do vínculo.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No cinema Arts Picture House, de Cambridge, um jovem lia um livro de V.S. Naipaul. Sentou-se, tal como eu, na 3ª fila da plateia, não sei se por gostar de estar perto do ecrã, ou simplesmente por ser um lugar com iluminação suficiente para continuar a ler o seu livro antes do início do filme ("The Darjeeling Limited", Wes Anderson).

segunda-feira, dezembro 03, 2007

INITIATED INTO AN ORDER OF EXILES:



Os telhados de Paris, modo de usar; ou, Rivette em Cambridge; ou ainda, Trata Bem A Tua DVDteca E A Tua DVDteca Tratará Bem De Ti.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: (Neste caso, as minhas.) Lembro-me de ler que Marguerite Yourcenar declarou que preferiria uma morte lenta, para sentir o processo entranhar-se dentro de si. Foi impossível não recordar esta citação (talvez deturpada) ao ler o relato da morte auto-infligida da personagem Zénon, que encerra o romance "L'Oeuvre au Noir". Ainda estou na dúvida sobre se essas páginas tão singularmente lúcidas e serenas, mas também brutais, ganharam ou perderam intensidade ao serem lidas no piso superior de um autocarro da carreira "Citi 1", a caminho do centro de Cambridge, sacudido pelos solavancos do tráfego que faziam oscilar ruidosamente uma garrafa de "Dr. Pepper" abandonada no chão. Ao meu lado, esquecido sobre um banco, um par de luvas que entreguei ao condutor antes de sair. A vida, fazendo-se lembrada com bem-humorada prepotência?

quinta-feira, novembro 29, 2007

XADREZ: Para que um xadrezista português mereça algum destaque na imprensa generalista é necessário que o feito seja pouco menos que colossal. E foi o que aconteceu desta vez, com o desempenho notável de Ruben Pereira, que se sagrou vice-campeão mundial de sub-16 (com os mesmos pontos do vencedor), no recente campeonato disputado em Kemer-Antalya, na Turquia. Ruben Pereira é sem dúvida a maior esperança de um xadrez português que tarda em renovar-se, mau grado numerosas iniciativas de promoção e incentivo à modalidade, sobretudo ao nível das escolas. É difícil lutar contra a indiferença da comunicação social e contra a incipiente implantação do xadrez na sociedade portuguesa. Leitores habituais deste espaço estarão naturalmente desejosos por se inteirarem do resultado da goesa Ivana Maria Furtado, e é com indisfarçável gáudio que informo que ela triunfou, isolada, na categoria feminina de sub-8 anos. Em sub-18, a sua compatriota Mary Ann Gomes guindou-se a um honroso 6º lugar.
POST DE RODAPÉ: A propósito do Magdalen College, afiançaram-me um dia que a pronúncia correcta do seu nome é qualquer coisa como "Maudlin", ao passo que o nome da rua Magdalen Street, esse, deve ser pronunciado de forma mais ortodoxa ("Mag-da-len", como se escreve). Existe um parque de grande beleza, povoado por veados, adjacente ao Magdalen College.
QUIZ SHOW: Sou fã do concurso "University Challenge", uma instituição da televisão inglesa cuja primeira emissão remonta a 1962 (com um interregno de 7 anos pelo meio). Trata-se de um concurso de cultura geral, com a particularidade de ser disputado por equipas compostas por alunos de uma mesma universidade. São duas as características que fazem sobressair este concurso dos demais: a grande exigência das perguntas e o modo directo e pragmático como elas são colocadas, sem lugar para conversas de salão nem para dispensáveis minudências autobiográficas. Na última sessão a que assisti, uma das perguntas era qualquer coisa como: «Qual o nome do escritor francês experimentalista autor do maior palíndromo conhecido em língua francesa?». Após algumas hesitações, e de alguém ter murmurado "Queneau" em tom dubitativo, o jovem concorrente da Universidade de Birmingham (que, por sinal, foi derrotada ingloriamente pelo Magdalen College de Oxford) pronunciou, quase a medo, a resposta correcta: "Perec". Foi um momento de televisão muito bonito.

quarta-feira, novembro 28, 2007

PAINT IT BLACK:
NO BIKES
or we'll paint them black.
O facto deste anúncio estar afixado ao gradeamento do Departamento de História da Arte da Universidade de Cambridge empresta um certo peso à ameaça.

segunda-feira, novembro 26, 2007

PASSEANDO POR CAMBRIDGE: Passeando pelas ruas e lojas de Cambridge, o cidadão atento presencia cenas que merecem menção pela sua suculência inaudita. Por exemplo, num estabelecimento de restauração rápida de Regent Street uma jovem contava a uma amiga o enredo do romance "The Line of Beauty", de Alan Hollinghurst (ou talvez da série da BBC nele baseada). Por entre o ruído denso e tenaz que os convivas produziam, escutavam-se frases como "he was a Tory MP" e "what it was like being gay in the eighties". Na opulenta livraria Heffers, duas mulheres riam com juvenil franqueza diante de uma antologia do poeta John Betjeman, aberta sem dúvida num qualquer poema de elevado teor cómico. Nada disto se compara ao homem que, dentro de um caixote do lixo público, cantava "I'm Like a Bird", de Nelly Furtado, acompanhando-se à guitarra. Foi há cinco anos, nesta mesma cidade. Eram outros tempos, mais loucos, mais eufóricos.

terça-feira, novembro 20, 2007

A GUIDE BOOK OF EAST ANGLIA SMALL RODENTS: Algumas limitações no acesso à Internet, assim como o eclodir de um insuspeitado interesse pela observação de esquilos, poderão levar a que este blog continue a ser infrequentemente actualizado nos próximos tempos.
EVERYTHING IS MEANT: A melhor notícia para a blogosfera desde a blogosfera. Aqui.

quarta-feira, novembro 14, 2007

NECROLOGIA DOS PARASITAS:
FLEA
FUNERALS
DAILY
(Cartaz numa loja de animais ao pé de minha casa.)
POLICHINELO EM EAST ANGLIA: Estou a postar de uma cidade cujo nome começa por "Cam" e acaba em "ridge", e cuja universidade é uma das mais famosas do mundo. Precisam de mais alguma pista? Há corvos no cimo das árvores, cogumelos exuberantes e um restaurante vegetariano onde servem um tajine com batatas doces ao qual nenhum adjectivo mais brando do que "celestial" faz jus.

domingo, novembro 04, 2007

ESCOLA PÚBLICA (2): Por vezes, fico com a ideia de que certos cronistas da imprensa portuguesa se entregam a uma espécie de concurso, que consiste em escrever os mais inacreditáveis contra-sensos sem perder a compostura. A não ser que, em vez de um concurso, se trate de um exercício espiritual, à maneira dos de Santo Inácio de Loiola, o que constituiria certamente uma atenuante, visto tratar-se de uma tentativa de auto-aperfeiçoamento. No "DN" de ontem, por exemplo, João Miranda escreve: «Um sistema público de educação acaba sempre por ficar refém de interesses particulares.» Preto no branco, e logo a abrir a crónica. Pouco adiante, faz questão de especificar: «Fica refém dos grupos com poder político (sindicatos dos professores, grupos religiosos, partidos políticos, burocratas) que conseguem colocar os recursos públicos ao serviço dos seus interesses.» Sucede amiúde que uma crónica que abre com uma asserção aparentemente tão indefensável acabe por revelar uma lógica interna perfeitamente válida. No caso deste artigo, essa lógica é até das mais límpidas, embora não seja levada até às suas últimas consequências. Parece inegável que certos grupos têm o poder e a margem de manobra para co-optar o ensino público, e que nele encontram um caldo de cultura para as suas agendas e interesses. Não é por não reflectir a realidade que a primeira frase desta crónica é absurda e chocante. É por omitir que, num sistema de ensino dominado por instituições privadas, esses mesmos sectores, interesses e grupos já não precisariam sequer de tomar o ensino como refém: seriam livres para vicejar, para criar as suas esferas de influência, para competir pela oportunidade de influenciar mentalidades, para impor as suas mundividências na maior das legalidades e normalidades.
ESCOLA PÚBLICA (1): Pois é, uma das consequências de ler blogs é a segurança de, mais cedo ou mais tarde, encontrarmos alguém que exprimiu com rigor e fluência precisamente aquilo que pensamos sobre um determinado assunto. Assim se desencoraja um cidadão de perder tempo e energia a procurar exprimir-se pelas próprias palavras. Não está certo. No caso mais recente, o alguém é Vital Moreira, o assunto é o (já irritante mas nem por isso menos crucial) debate escola pública/escola privada, e o aquilo é isto. Transcrevo parte da última frase, que me parece merecer ênfase: «(...) um Estado laico deve financiar um ensino público aberto e plural, como forma de inclusão social e de igualdade de oportunidades, e não um ensino segregado de acordo com orientações religiosas ou filosóficas particulares.» Este aspecto tem vindo a ser deixado pudicamente de lado, mas nunca deixa de estar presente, ainda que de forma latente. Se se consumasse o desmantelamento da escola pública, ou uma sua menorização, que autoridade teria o Estado para impor programas e currícula uniformemente aplicáveis a todos os estabelecimentos de ensino? Que garantia teríamos de que facções comunitárias, religiosas ou ideológicas não passariam a moldar os programas leccionados, de acordo com as suas agendas particulares?
PARMI NOUS: Recente overdose de Godard, entre outros efeitos secundários menos verbalizáveis, permitiu-me constatar que a frase "Les Signes Parmi Nous" (utilizada como título de um capítulo das "Histoire(s) du Cinéma") é pronunciada também nos filmes "Deux ou Trois Choses que Je Sais d'Elle" e "JLG JLG Autoportrait de Décembre".
MAIS UMA QUE MORDE O PÓ: Agradeço aos blogs O Vermelho e o Negro, O Blogue Que Muda de Nome, e Errância terem-me passado o testemunho da original corrente "página 161", ignorando talvez a minha incurável propensão para cercear sem dó todos os memes em cadeia que me passam pelas mãos. É verdade, o 1bsk possui um historial de interromper correntes já crescidote. Somos a Pasionaria das correntes. No pasarán! Para além de as interromper, raramente hesito em subvertê-las. No caso desta, já de si tão arbitrária, não me ocorreu uma subversão com um mínimo de salero, pelo que me limito a cumprir as regras, com a brandura com que se fazem as últimas vontades a um moribundo. Pego no livro que está mais próximo: é "Northwest Italy", de Dana Facaros e Michael Pauls, da série de guias turísticos Cadogan. Abro-o na página 161: dito e feito. Transcrevo a 5ª frase completa: «There's also plenty of less piquant seafood, too (L40-55 000, closed Mon).» Introduzo uma breve contextualização, que não era pedida mas que me parece oportuna. A frase supra diz respeito ao restaurante "Gambero Rosso" (Piazza Marconi, 16), situado na cidade de Vernazza, na Ligúria. O prato em comparação com o qual a outra comida é menos picante é tegame di acciughe, à base de anchovas. Por fim, chega a altura de não passar a corrente a outros 5 blogs. Em contrapartida, tenho entre mãos uma infalível oração a S. Judas Tadeu, que enviarei ainda hoje a 90 confrades, acompanhada por sinistras ameaças aos não cumpridores.

quinta-feira, novembro 01, 2007

OBJECÇÃO: Discordo, Ricardo. Um mundo em que a objecção de consciência seja evocada por dá cá aquela palha parece-me pregnante de excitantes potencialidades. Regra geral, a objecção de consciência, nos tempos que correm, é evocada por minorias ou nichos comunitários/religiosos, que brandem as suas sensibilidades beliscadas e princípios feridos para justificar a recusa de cumprir leis ou normas que a sociedade civil lhes impõe. Mas isto não tem de ser assim! Teria o seu quê de estimulante ver membros dessa mesma sociedade civil a recorrer à objecção de consciência, como reacção a situações que lhes parecessem atentatórias da legalidade, em particular concessões abusivas a sectores religiosos. Por exemplo:
  • funcionários da Presidência República em greve de zelo devido à presença de figuras da hierarquia católica no protocolo do Estado;
  • professores recusando-se a ensinar em salas de aulas enfeitadas com crucifixo;
  • funcionários da RTP negando-se a colaborar em transmissões em directo da procissão das velas e na transmissão da mensagem de Natal do cardeal, aos gritos de "Serviço público sim, catequese não!";
  • médicos e funcionários de hospitais públicos recusando-se a entrar em quartos onde estivesse presente, em clara violação do princípio da neutralidade religiosa, um capelão assalariado pelo Estado.

Pessoalmente, eu apoiaria todas estas acções.

E você, caro leitor, já praticou hoje algum acto de objecção de consciência?

DOIS EM UM: "Peindre ou Faire l'Amour" é um filme, realizado pelos irmãos Arnaud e Jean-Marie Larrieu, que recentemente passou pelas salas lisboetas. Por uma vez, a tradução do título em português foi o mais literal e o menos fantasista possível: "Pintar ou Fazer Amor". Talvez como reacção a esta sensaboria, quem inseriu o título no bilhete emitido pelo cinema King achou por bem introduzir uma genial variante pessoal:


Pintar ou fazer amor? A necessidade de escolher entre duas alternativas mutuamente exclusivas será, na verdade, incontornável? Para quê atormentar o espírito com um falso dilema? Não tem sido o cinema, desde 1895 e a entrada do comboio na gare de La Ciotat, uma porta aberta para o sonho e para a ousadia?

sábado, outubro 27, 2007

JÁ FUI AO BRASIL, PRAIA E BISSAU...: A campeã do mundo de xadrez da categoria de menos de 8 anos é indiana, e chama-se Ivana Maria Furtado.
UM TEMPO PARA VER OS QUADROS E UM TEMPO PARA ESPERAR PELA SUA VEZ: «Nesses museus, salvo para aceder a grandes retrospectivas, em regra com entrada autónoma, ninguém espera mais de dez minutos para comprar o bilhete e entrar.» Assim escreve Eduardo Pitta, referindo-se aos museus Met, MoMa, Tate, National Portrait Gallery, Louvre, Orsay, Prado e Thyssen. Pronuncio-me apenas sobre os três que conheço (omitindo o Prado, que visitei apenas na minha infância): a Tate é de acesso gratuito, o que não pode teixar de ter um efeito benéfico na fluidificação do tráfego de visitantes; o acesso ao Louvre pode acarretar uma experiência frustrante e morosa para quem não esteja a par da existência de entradas alternativas, por exemplo a da estação de metro Palais Royal Musée du Louvre; quando ao Museu de Orsay a fila de espera costuma ser longa e coriácea, o que me leva a conjecturar que o autor das linhas acima o terá visitado em época baixa, ou num dia em que um qualquer evento aglutinador do interesse popular roubou público aos museus de Paris.

quinta-feira, outubro 18, 2007

HUMANUM EST: A Errata da "Carta sobre os cegos para uso daqueles que vêem", de Denis Diderot (Vega, 2007) encerra ousadias pouco comuns neste sub-género. Por exemplo: página 120: onde se lê "Ena" deve ler-se "Epicurismo na" Ninguém se atreverá a questionar a utilidade desta Errata: sem a sua orientação, poucos seriam os leitores a ler "Epicurismo na" em vez de "Ena". O contexto e a imaginação fazem milagres, mas convém não exagerar. Fiquem desde já os leitores deste blog a saber que: onde lerem "Safa" deverão ler "Sai mais uma garrafa"; onde lerem "Fonix" deverão ler "Foi com a grandiosidade soberba e malsã de uma fénix"; onde lerem "Uau" deverão ler "Um veterinário da Póvoa de Lanhoso sofreu queimaduras de primeiro grau". Para que conste.
COMO FALAR DE UM AUTOR QUE NUNCA SE LEU: O excessivo peso que se atribui ao Nobel da literatura (como se a Academia fosse dotada de uma presciência sobre-humana que a distinguisse dos demais júris de milhares de prémios literários) mede-se não tanto em minutos de cobertura mediática (a rotineira nota de rodapé em noticiários televisivos e jornais) como na intensidade e verbosidade das reacções que se continuam a fazer ouvir, dias e semanas após a atribuição, à maneira de ecos tornados mais incómodos pela exiguidade da caixa de ressonância. Neste ano, atingiram-se zénites de idiotice e leviandade para os quais, admita-se, contribuíram muitas das opiniões de peritos que foram convidados a emitir juízo. De Hélder Macedo a Maria Teresa Horta, passando por Saramago e (pasme-se) Lídia Jorge, muito se falou em feminismo e experiência feminista, em sensibilidade social e em consciência cívica, em experiência e em valores. Falou-se de tudo um pouco, excepto de talento e mérito literário, coisa de que Doris Lessing é superiormente dotada, e da grandeza da sua obra multifacetada. Não teria sido necessário nada disto (mas deu uma ajudinha) para que surgissem os cínicos do costume, com a aljava repleta de argumentos contra a credibilidade do Nobel, conhecida arma de arremesso politicamente correcta esvaziada de conteúdo, titilados pelo sumário thumbs down de Harold Bloom (dá sempre jeito a um magala ter um fazedor de cânones como primeiro sargento). A culpa de tudo isto, no fundo, é da própria Doris Lessing. Para além de imune ao vedetismo, de escrever ficção científica, e de ter opiniões sobre política e sociedade, não possui um cunho estilístico marcado. É muito mais fácil desvalorizar o talento de um escritor que não se individualiza pelo estilo brilhante e convoluído do que um qualquer acrobata do verbo. Doris Lessing oferece, assim, o flanco àqueles em cujo espírito, por pura ignorância ou estreiteza de vistas, ausência de estilo individual equivale a desleixo formal. «Ou seja, para catalogar Doris Lessing não é preciso lê-la, basta incluí-la numa pretensa agenda política do Nobel da literatura» (Lido aqui.) Nunca ninguém leu aqui, neste blog tão verde, comentários sobre a obra e o mérito de Gao Xingjian, Imre Kertész ou Orhan Pamuk.
O SISTEMA: Não sou eu que estou contra o sistema, nem é o sistema que está contra mim. O que se passa é muito mais simples do que isso. Faço cócegas nas plantas dos pés do sistema, e, em troca, o sistema oferece-me rebuçados de mel de rosmaninho que não se encontram à venda nas lojas. É só isso.
UM BLOG... : Para blogar enquanto se nica ou para nicar enquanto se bloga. E vice-versa. Está tudo explicado aqui.

quinta-feira, outubro 11, 2007

FESTA É FESTA (MAS MENOS DO QUE ANTIGAMENTE): Não pude deixar de reparar, logo a seguir ao tal post de 2003 onde falava de Doris Lessing, a uma referência à Festa do Cinema Francês desse ano. Téchiné, Ozon, Pascal Bonitzer, Chéreau, Brisseau, Jean-Claude Biette... Que contraste relativamente ao desenxabido programa deste ano de 2007. Como não ceder ao saudosismo, perante este e outros indícios de que dantes era tudo melhor do que é hoje?
DO MÉRITO: A 2 de Outubro de 2003, eu escrevia: «(...)não me importo de admitir que, a cada ano que passa, alimento uma secreta esperança de ver premiado, e com direito ao spot de 60 segundos nos telejornais nacionais (entre o desporto e a meteorologia), um dos meus autores preferidos ainda vivos: John Barth, John Ashbery, Jacques Roubaud, Pascal Quignard, Doris Lessing, Peter Handke...» Acho absurdamente desproporcionado o alarido mediático que se cria em torno do prémio Nobel da literatura, mas não deixo de ficar satisfeito quando um escritor do meu panteão pessoal é distinguido. Há muito tempo (talvez desde Seamus Heaney) que um Nobel não me suscitava um sorriso de orelha a orelha. Doris Lessing é uma daquelas escritoras de quem se pode dizer ser desprovida de estilo (o que está longe de equivaler a desleixo formal). Tanto assim que um primeiro contacto com um fragmento da sua obra, um conto ou mesmo um romance inteiro pode decepcionar. Só muito de quando em quando emerge algo que se possa assemelhar a virtuosismo. Apesar da limpidez e do equilíbrio da sua prosa, não é o tipo de autor que fornece tiradas brilhantes e engenhosas aos coleccionadores de citações. A importância da sua obra deve ser apreciada, digamos assim, à distância, mediante uma visão de conjunto. Conheço poucos escritores que consigam conjugar de forma tão rica e exaltante a componente autobiográfica, a atenção aos problemas da sociedade e uma profunda dimensão humana. Não me parece que o seu livro mais conhecido seja "The Fifth Child". Em todo o caso, os meus romances favoritos de Lessing são a pentalogia "Children of Violence" e essa obra extraordinária chamada "The Golden Notebook", sem a qual - sinto-me tentado a afirmar - o século XX seria um pouco mais difícil de entender. (Nem me dou ao trabalho de percorrer os blogs para saber em que termos os escribas do costume põem a causa a justiça deste prémio. Tratando-se de uma mulher, ainda por cima de esquerda, ainda por cima meio africana, torna-se claro como água que se tratou de mais uma decisão política da Academia. Basta ter olhos na cara, pois então.)

terça-feira, outubro 09, 2007



ARTE SUBTERRÂNEA: Gosto muito das obras de Joana Rosa que integram a estação de metropolitano da Quinta das Conchas.




Joana Rosa baseia parte considerável do seu trabalho nos chamados "doodles": «(...) desenhos, garatujas e rabiscos feitos distraidamente enquanto se conversa ou se atenta noutras coisas. (...) À apropriação do objecto ou "doodle" feito pela própria, oferecido roubado ou colhido de outras pessoas, por vezes após longas horas de espera, a artista associa uma etiqueta em que explica quem o fez, onde, quando, em que contexto, e adiciona-lhe por isso uma densidade existencial: o "doodle" corresponde a uma personalidade e a um momento de criação, no qual tudo aparece em bruto e não filtrado pela consciência.» (Leonor Nazaré, Roteiro da colecção do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão).

Também me agradam fortemente os ícones de Eduardo Batarda que povoam as paredes da estação de Telheiras. Vejo-os todos os dias, assim como à máquina de venda de bebidas que tapa parcialmente um dos painéis de azulejos. Assim privam o passageiro (a quem já bastariam as ordinárias agruras e vicissitudes da vida) da fruição de algumas destas figuras, a meio caminho entre a abstracção e a funcionalidade.




Não será isto um caso de vandalismo institucional por parte do metropolitano de Lisboa?
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma senhora lia a epopeia de Gilgamesh, em alemão, na linha azul do metropolitano. Há que reconhecer que tenho andado a negligenciar esta linha, cujos passageiros em breve disporão de mais duas estações para ler epopeias sumérias, ou outras obras literárias que encontrem graça a seus olhos.
UM BEIJO DADO MAIS TARDE: Uma mulher está a ser julgada por ter beijado um quadro de Cy Twombly, numa exposição em Avignon. O beijo deixou marcas de bâton, o que ajuda a configurar uma situação de vandalismo, embora certamente não das mais convencionais.

O advogado de defesa afirma ter-se tratado de um acto de amor. A advogada da acusação, pouco impressionada, afirma que «en amour, il faut être deux et consentants», assim desqualificando sumariamente toda uma tradição de fetichismos e parafilias que, queira-se ou não, é parte integrante da cultura ocidental.

No meu romance "Aqui Vem o Sol", um assaltante do Rijksmuseum roçava com os lábios um quadro de Odilon Redon, o "Retrato de Violette Heymann", e ficava sem a justa punição.



A arte e a vida imitam-se uma à outra com um desembaraço encantador.

sexta-feira, outubro 05, 2007


Celebrar a República, sempre!

Relembrar aqueles que desbravaram o caminho da igualdade, da cidadania e dos valores democráticos,
e que nos livraram de uma monarquia inepta e ultramontana.


Celebrar a República com a mesma naturalidade
e serenidade com que a vivemos todos os dias.


Viva a República!

quarta-feira, outubro 03, 2007

AN ALAN SMITHEE FILM FEATURING MARGARIDA VILA-NOVA: Consta que João Botelho e Leonor Pinhão se desentenderam com o produtor de "Corrupção", e poderão recusar-se a assinar a versão do filme a comercializar. Seria, ao que parece, a primeira vez que um filme português estrearia sem nome de realizador. Tenho a propor uma solução que seria ao mesmo tempo simples, elegante, original e moderna: fazer de "Corrupção" o primeiro filme português assinado por Alan Smithee! (Ou então um nome com consonâncias mais lusas, forjado para o efeito. "Alan Smithee" é anagrama de "The Alias Men". Alguma ideia, Rogério?)
SÓ UM PALPITE: Na minha opinião, a Sílvia Rizzo não vai todos os dias ao Intermarché por causa dos frescos. Desconfio que lhe pagaram para dizer que vai, mas não vai.

terça-feira, setembro 25, 2007

E POR FALAR EM FRUTOS VERMELHOS: Também os "Morangos com Açúcar" se baseiam numa estrutura serial. Os anos passam, mas nunca falta um rebelde, um dono de bar, um professor mau, um professor bom, um deficiente, uma baby doll caprichosa, um delinquente, e uma estudante da Europa de Leste. Grande parte do encanto desta novela está na maneira engenhosa como os criadores temperam esta lógica serialista, eminentemente conservadora, com a exploração de traços pessoais das personagens, e com a introdução sabiamente doseada de acidentes e contingências. Assim se transmite a ilusão de estarmos perante um programa que evolui no tempo, quando afinal não passa de uma colorida e agitada máquina de auto-preservação, cuja única razão de ser é a sustentação de um simulacro de coerência narrativa ao longo do tempo. Posto isto, queria chamar a atenção para um dos novos actores, que fazia de criança índigo noutra novela da TVI. A personagem dele faz gazeta às aulas. A vida dá mais voltas do que o carrocel do "Strangers on a Train" do Hitchcock.
O SABOR DA CEREJA: No suplemento "Única" do "Expresso" de 15/9 ocorreu um lapso equiparável ao recente bonifáciogate (tentativa ardilosa de fazer passar John Updike por Thomas Pynchon, devidamente denunciada neste espaço). Numa reportagem intitulada "O Poder do Vermelho", da autoria de Nelson Marques, aparece uma magnífica cereja junto a uma legenda onde são enumeradas as virtudes das amoras pretas (redução do colesterol, inibição do cancro, conservação do equilíbrio, memória e coordenação motora). Confundir um Grande Escritor Americano com outro Grande Escritor Americano é, indubitavelmente, uma coisa grave: a literatura é uma das mais gloriosas realizações do espírito humano. Querer fazer passar uma cereja por uma amora configura algo de muito mais perverso, ao nível dos fundamentos da semântica e da ontologia do acto de nomear, e promove uma subversão das evidências que mexe com alguns dos fantasmas mais profundos do nosso imaginário colectivo. Isto para além de que um livro, por mais genial que seja, não possui propriedades antioxidantes nem pectina.

sábado, setembro 22, 2007

FESTA DO CINEMA FRANCÊS: Ora bem, falemos da 8ª Festa do Cinema Francês. Confesso que o programa não me entusiasmou, mas talvez isso seja, em parte, consequência de eu seguir menos de perto o novo cinema francês por comparação com o que fazia há alguns anos. Há nomes que eu desconheço e que, porventura, merecem atenção. Entre os imperdíveis estão os dois Resnais mais recentes ("Pas sur la bouche" e "Cœurs"). Resnais é um dos génios do cinema mundial, ponto final. Um homem que realizou obras-primas fulgurantes como "Hiroshima Mon Amour", "L'Année Dernière à Marienbad", "Mélo" ou "Providence" já não precisa de mostrar nada para merecer o seu lugar (e que lugar!) na história. Todos os seus novos filmes são obrigatórios, quanto mais não seja porque, pela ordem natural (mas deplorável) das coisas, dentro de algum tempo a expressão "o novo filme de Alain Resnais" deixará de ter cabimento. Outro filme que farei o possível por ver é "Les Chansons d'Amour", de Christophe Honoré. Vi recentemente "Dans Paris", que me deixou impressão positiva. Honoré parece ter o talento e a energia criativa para se afirmar como um dos autores mais consistentemente interessantes da sua geração. Deixa-me um pouco de pé atrás o facto de este filme ser um musical, mas há que admitir que muitos de entre os melhores passaram com distinção cum laude o seu exame de autor de musicais (Rivette com "Haut Bas Fragile", outra vez Resnais com "On Connaît la Chanson"...). Claro que há excepções (Von Trier com o execrável "Dancer in the Dark", Woody Allen com "Everybody Says I Love You", de que toda a gente gostou menos eu). De entre as restantes propostas, destaco "Backstage", de Emmanuelle Bercot, pela simples razão de que já li boas referências a filmes anteriores desta realizadora, e "Gradiva", por ser de quem é. Admiro profundamente Alain Robbe-Grillet enquanto escritor, mas nunca contactei com a sua já considerável obra cinematográfica. A presença de Arielle Dombasle no elenco é um ponto contra, mas há que ter vistas largas. Quanto aos demais, assinalo o elenco promissor de um dos Berri ("Anna M.", com Isabelle Carré e Gilbert Melki), e noto a já habitual tendência francesa para deixar escritores (Robbe-Grillet e Éric-Emmanuel Schmitt) e actores (Roschdy Zem e Laure Marsac) fazerem uma perninha atrás das câmaras. Laure Marsac, para quem não se recorda, era levada ao colo por Tom Cruise em "Entrevista com o Vampiro". Visite o site oficial. Fiquei ainda a saber que a Festa do Cinema Francês é do sexo feminino e tem 27 anos de idade. Impõe-se ainda um desabafo: E O RIVETTE?
O NOVO ANO SCOLARI: O "Sargentão" raramente desilude os seus fãs. Emitida a sentença (quatro jogos de suspensão), ei-lo a investir forte e feio no choradinho da injustiça. Punido por uma agressão a um adversário, presenciada ao vivo por dezenas de milhar e via televisão por milhões, o assalariado da Federação Portuguesa de Futebol puxa de uma argumentação que teria mais cabimento num recreio de escola do que numa sala de imprensa: ele é que começou. O seleccionador nacional de futebol deveria saber que lhe é exigido um sentido das responsabilidades superior ao de um qualquer Zezinho que acusa o Huguinho de lhe ter roubado um berlinde. Mas isso seria pedir demais a um treinador que entrou em puro denial sem bilhete de volta. Quanto a ter reconhecido "frontalmente" o seu erro... Se reconhecer frontalmente um erro passa por negar, com agastamento e veemência, ter cometido qualquer erro, então estamos perante um admirável exemplo de frontalidade. Uma pessoa que assistia comigo ao Portugal-Sérvia afirmou, após o já memorável semigancho de esquerda a Dragutinovic, que Scolari estava cada vez mais português. Concordo. Saber o hino e gostar de bacalhau à Gomes de Sá são critérios de fiabilidade reduzida. Armar peixeirada em pleno campo (ou, melhor ainda, no túnel de acesso aos vestiários - talvez ainda lá cheguemos) é, esse sim, um indicador sólido de que o processo de indigenização ultrapassou o ponto de não retorno.
THINGS HAD GOTTEN BETTER:



«things had been bad, there had been therapy, things had gotten better, guard had been let down»

(Declaração de um conhecido a propósito do suicídio de Francesca Woodman, 1958-1981.)

domingo, setembro 16, 2007

OS HOMENS PREFEREM AS LOURAS: Na sua crítica ao filme "Factory Girl", Linda Ruth Williams ("Sight & Sound", Abril) sugere que a substituição de Edie Sedgwick por Ingrid Superstar e por Nico, por parte de Andy Warhol, foi uma versão underground das serial blondes de Hitchcock.
INSUCESSO SCOLARI: É muito raro eu escrever sobre futebol. São tantos os que o fazem que eu hesito antes de acrescentar algum ruído ao ruído. Mas há ocasiões em que a minha renitência se tem de confessar vencida. Luiz Felipe Scolari é pago principescamente para exercer uma profissão que implica representar Portugal, e que lhe confere uma visibilidade enorme. Esta posição acarreta deveres e responsabilidades extremos. Dificilmente se poderia imaginar uma situação em que alguém se mostrasse mais indigno desses deveres e responsabilidades do que a que ocorreu em Alvalade, na passada quarta-feira. Agredir um adversário é agredir um adversário, sejam quais forem as atenuantes. Aliás, as atenuantes que têm sido alegadas são do foro da provocação verbal ou física. Não se tratou de um gesto de legítima defesa. Ainda que fosse na sequência de intimidações, tratou-se de uma AGRESSÃO, de um comportamento de arruaceiro, em directo para milhões de espectadores. Se isto, por si, já seria grave, mais grave e patético (para além, temo-o, de definidor de um carácter) foi a atitude de Scolari na conferência de imprensa: negação pura e simples, tentativa de convencer aqueles que legitimamente o questionavam de que se tratara de uma situação normal em futebol, e de que se limitara a "abrir os braços". Foi de meter dó. Com uma pessoa assim, que nega o óbvio com tão assombrosa desfaçatez, não se argumenta; mas numa pessoa assim não se confia para dirigir homens e uma equipa. Mesmo o tardio acto de contrição, 24 horas depois, soube a pouco. "Todos erram", afirmou Scolari, como que alegando tratar-se de um gesto de suprema humanidade, de um simples efeito colateral da condição falível partilhada por tudo quanto é Homo sapiens. O que faltou a Scolari foi admitir que nem todos os erros se assemelham pela magnitude, e que a estrondosa gravidade do seu erro colocou seriamente em causa a sua competência para a profissão que exerce. Salpicando a justa indignação suscitada pelo gesto de Scolari, lá surgem as inevitáveis vozes contemporizadoras, cujo apetite para tapar o sol com uma raquete de badminton só tem paralelo com a prontidão com que falam em "cruzada moralista" de cada vez que alguém se insurge contra uma situação que lhe parece errada. Num país brando nos costumes e flácido na ética, os medíocres e os sonsos safam-se invariavelmente melhor do que aqueles que procuram pôr o dedo na ferida, e cauterizá-la se necessário. Durante muito tempo, achei descabidas as críticas que choviam sobre o desempenho de Scolari, e impacientei-me contra os remoques de treinador de pantufas dirigidos a um treinador que conduziu Portugal a um vice-campeonato da Europa e às meias-finais de um Mundial. Convenço-me agora de que Scolari está a mais na selecção portuguesa, de cujo destino me desinteresso em definitivo, e cuja ausência do próximo Europeu talvez não fosse tão má como isso para a sanidade do país.
TODA A GENTE CÁ NA CASA PÕE A MÃO NO AR: As séries dos "Morangos com Açúcar" passam, mas certos motivos permanecem invariantes, a ponto de já não se conceber sem eles esta série tão ao gosto do público infanto-juvenil. Pequena lista ao correr da pena:
  • Donos de bar de compleição robusta e que nunca apertam os botões de cima da camisa (Fred, Xavier).
  • Personagens que desaparecem para países longínquos (Eslováquia, Suécia, Austrália) quando expira o seu tempo de vida útil do ponto de vista da economia narrativa da série.
  • Personagens sobre cujas cabeças pende ameaça de recambiamento para lugares inóspitos, longe dos amigos e dos Morang'Ices (Alentejo, e novamente a Eslováquia).
  • Acções cometidas sob efeito de substâncias alienantes sub-repticiamente introduzidas num alimento de aspecto inocente (lembram-se das tostas de frango do bar do Fred?).
  • Agentes da PSP que ajudam a salvar situações delicadas, mas que são sempre intepretados pelos piores actores.
  • Casalinhos separados por um infeliz mal-entendido, que se esclarece poucos dias antes do lançamento da nova grelha da TVI.

Aproveito para sugerir que o Duarte poderia ter facilmente reconquistado a Laura se se prontificasse a cortar o cabelo e deixar de usar Crocs. É um erro crasso acreditar que o amor é cego, em vez de apenas um bocadinho hipermétrope.

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No metropolitano, um cavalheiro lia "O Amor em Tempos de Cólera", de García Márquez. Nada de excepcional, convenha-se, mas impossível de omitir neste tempo de vacas magras que atravessamos.

segunda-feira, setembro 03, 2007

THE WRONG MAN: Num artigo incluído no último suplemento "Ípsilon", João Bonifácio coloca a diversas personalidades do mundo literário a questão incontornável: "Qual é, afinal, o grande escritor americano vivo?" (com maiúsculas ficava melhor). Entre as fotografias que complementam agradavelmente o artigo, uma não pode deixar de causar perplexidade. A legenda "Thomas Pynchon" fez-me inicialmente acreditar tratar-se de uma adição recente à escassíssima (para não dizer inexistente) iconografia do autor de "Gravity's Rainbow". Um exame mais atento (e a impecável memória visual de Q.) fizeram ruir essa doce ilusão. O indivíduo em questão é, afinal, John Updike.

A fotografia publicada não era esta, mas o aspecto de John Updike é este:





Os deslizes acontecem. E há que admitir que não me pareceria de todo inadmissível que a fisionomia do jovem marujo Pynchon tivesse, ao envelhecer, convergido para a imagem da fotografia anterior. Com um pouco de fantasia e de fé, a coisa passa.






Mas a minha representação preferida de Pynchon é, sem qualquer dúvida, esta:

LAPSO CORRIGIDO: Por lapso, esqueci-me de informar os leitores de que me iria ausentar durante cerca de 3 semanas. Deixo agora o aviso: durante 3 semanas, estive sem acesso regular à Internet. Mas agora estou de volta.

domingo, agosto 12, 2007

PALCO, VIDA E LINHA DOS TRÊS PONTOS: No seu livro "True and False - Heresy and Common Sense for the Actor", David Mamet estabelece a seguinte analogia entre o teatro e o basquetebol: «The Method school would teach the actor to prepare a moment, a memory, an emotion for each interchange in the play and to stick to that preparation. This is an error on the order of the basketball coach instructing his team to stick to the plays which they practiced irrespective of what their opponents are doing.» Há um poema de António Franco Alexandre (de "Quatro Caprichos") que fala de um treinador de basquetebol que era também encenador de teatro, embora fosse demasiado jovem e incompetente para qualquer uma das atribuições. Também explorei esta analogia numa peça minha.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na zona de restauração de um centro comercial do Saldanha, de cujo nome nunca me consigo recordar, um cavalheiro lia as "Metamorfoses" de Ovídio. Sem a atenção de Q., teria falhado este importante avistamento. A propósito: no filme "Esther Kahn", uma das irmãs de Esther lê "Sesame and Lilies", de John Ruskin. Proust, que admirava Ruskin, traduziu para francês este livro, aparentemente com a colaboração da sua mãe e da prima do compositor Reynaldo Hahn.
OUTRA VEZ SARTRE: Lembro-me também (outra memória falsa?) de ler ou ouvir dizer que Sartre tinha recusado o Nobel por não querer receber dinheiro do inventor da dinamite. No "Robert des grands écrivains de langue française" são mencionadas algumas motivações mais plausíveis:
  • son refus constant des distinctions officielles
  • sa conviction qu'«un écrivain qui prend des positions politiques, sociales ou littéraires ne doit agir qu'avec les moyens qui sont les siens, c'est-à-dire la parole écrite [et que] toutes les distinctions qu'il peut recevoir exposent ses lecteurs à une pression [qui n'est] pas souhaitable»
  • le constat selon lequel «dans la situation d'aujourd'hui, le prix Nobel se présente objectivement comme une distinction réservée aux écrivains de l'Ouest ou aux rebelles de l'Est».

Aproveito para acrescentar que a "madame Z." a quem é dedicada a obra "Les Mots" era Lena Zonina, intérprete durante a visita de Sartre à URSS.

EMANAÇÃO: No "DN" do passado dia 7 surgiu uma notícia (creio que não disponível "online") com o título: "Dalai Lama proibido de voltar a reencarnar". No corpo da notícia, é-nos explicado que as autoridades chinesas proibiram novas reencarnações de Buda, naquilo que só pode ser entendido como uma inaudita deriva sobrenaturalista do poder judicial. Ao carácter burlesco da notícia, o jornalista que a redigiu parece ter achado por bem acrescentar um suplemento de cómico involuntário: "O actual Dalai Lama, de 72 anos, vive no exílio desde a invasão chinesa(...). Quando morrer, a emanação de Buda vai reencarnar, passados 49 dias, num dos pequenos monges tibetanos.". O que vem a ser a "emanação de Buda"??? E estará a realidade objectiva da reencarnação suficientemente demonstrada para que o fenómeno seja mencionado com este desprendimento? Não seria obrigação de um jornal sério introduzir este tipo de frase com um palavreado do tipo "Os seguidores da religião budista alegam que..."?

domingo, agosto 05, 2007

LA CARRIÈRE D'ÉRIC: Até ao recente segundo visionamento (primeiro em grande ecrã), na Cinemateca, tinha "La Carrière de Suzanne" como, de longe, o menos conseguido dos "Contos Morais" de Rohmer. Vi-me obrigado a reconsiderar esta opinião severa. Embora obviamente menos rico do que alguns dos títulos que se lhe seguiram ("Le Genou de Claire", "La Collectionneuse", "Ma Nuit Chez Maud" são exemplos óbvios), não faltam méritos a "La Carrière de Suzanne". Em retrospectiva, a personagem de Suzanne, cortejada sucessivamente pelo amigo do narrador e pelo próprio narrador, aparece como o primeiro grande exemplo de um tipo de personagem recorrente nos filmes de Rohmer: a manipuladora involuntária. Durante quase todo o filme, a evolução de Suzanne (a sua "carreira", no fundo) é, aparentemente, um fruto do acaso e do capricho, mais do que de qualquer premeditação. Ao envolver-se sucessivamente com os dois jovens que a assediam, nunca abdica da sua margem de manobra, nem do poder supremo de condicionar o enredo, acabando por se associar romanticamente a um terceiro homem. As palavras finais do narrador são estas:


Cette fille, pour qui je n'avais pu éprouver, au cours de l'année, qu'une espèce de pitié honteuse, nous réglait notre compte à tous sur la ligne d'arrivée, et nous réduisait au rang des gamins que nous étions. Coupable ou non, naïve ou rusée, après tout qu'importait? En me privant du droit de la plaindre, Suzanne s'assurait sa vraie revanche.




Se o narrador de "La Carrière de Suzanne" conhecesse a obra de Rohmer, saberia quão vã pode ser esta pergunta: "ingénua ou astuciosa"? Quase todos os filmes de Rohmer exploram situações em que a ambiguidade dos julgamentos morais é fruto de uma indefinição entre o acaso, a intenção e uma versão marcadamente laica e terrena da predestinação. Tal como o Gaspard de "Conte d'Été", como a Haydée de "La Collectionneuse", até como a Marquesa de O... na adaptação da obra de Kleist, Suzanne pode ser vista como uma estratega sagaz ou como uma personagem que se limita a viver os eventos que ocorrem, independentes da sua vontade. Culpada ou não? Responsável ou não? Este tipo de perguntas nunca perderão a sua pertinência na filmografia de Rohmer, embora raras vezes sejam colocadas de maneira tão explícita. Sobre toda a obra deste cineasta pairam as armadilhas conceptuais subjacentes à possibilidade de formular juízos de valor. Não há realizador que atribua tanta importância à moral, não há realizador menos prescriptivo.


Uma das minhas cenas favoritas deste filme é uma cena que me parece totalmente gratuita (algo de pouco comum em Rohmer), em que as três personagens principais se entregam a uma pouco séria sessão de espiritismo. Trata-se de uma cena longa, na qual, à medida que a mensagem do "espírito de D. Giovanni" vai sendo decifrada, Rohmer intercala curtas imagens fixas de objectos do apartamento onde se desenrola a acção. Essas curtíssimas inserções, à maneira de vinhetas desinseridas de qualquer lógica de "raccord", podem talvez não ter outra função que não seja a de representar a própria duração temporal da cena, e a de sublinhar visualmente, de forma bem-humorada, a nula relevância da cena para a história. (Claro que tudo isto pode ser mero resultado da minha falta de perspicácia para detectar a função dessa cena e dessa opção de montagem.) Mais tarde, a gratuidade nos filmes de Rohmer haveria de se exprimir preferencialmente sob a forma de apontamentos de cariz etnográfico/turístico (a geografia urbana de Nevers em "Conte d'Hiver", os relatos sobre a pesca de alto mar em "Conte d'Été"...), deliciosamente supérfluos.


Para finalizar: gosto muito de uma coisa que António Rodrigues diz, na folha da Cinemateca dedicada à dupla sessão "La Boulangère de Monceau"/"La Carrière de Suzanne": «(...)como todo [o] classicista Rohmer tem a noção exacta das proporções», isto a propósito de todos os seus filmes terem a duração "certa". Sem dúvida que Rohmer é um classicista, e a sua obra arrebatadora surge como demonstração eloquente de que classicismo e liberdade criativa estão longe de ser inconciliáveis.

(Um classicista, um moderno e um criador livre? Mas isso são três desejos, não é possível...)

quinta-feira, agosto 02, 2007

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: E se, numa tarde de verão, um viajante da linha amarela do metropolitano visse uma jovem que lia o livro "Se Numa Noite de Inverno um Viajante", de Italo Calvino? Foi isso mesmo que aconteceu.
QUEBRO O MEU SILÊNCIO SOBRE OS MORANGOS COM AÇÚCAR: Parece-me, por esta altura, inegável que ao Bar do Xavier falta o carisma que fazia do Bar do Fred e do Bar Azul lugares tão especiais, lugares onde parecia natural esperar que alguma coisa de singular e tremendamente relevante acontecesse a qualquer momento; cenários do improvável, generosos catalisadores das intrigas cruzadas que caracterizam esta série tão do agrado do público juvenil. E há que tempos que não vejo um Morang'Ice ser servido!
EPITÁFIO-TRAVELLING, M.A. (1912-2007):




Comparativamente a Bergman, a minha relação com o cinema de Antonioni era menos forte. Ou, pelo menos, é essa a minha convicção, facilmente abalável quando me recordo de obras tão poderosas como "La Notte", "Il Deserto Rosso", "Blow up", "L'avventura" e "Zabriskie Point" (estes últimos os meus três favoritos). Antonioni é um caso invulgar na história do cinema por se tratar de um realizador que, apesar de uma vida e uma carreira muito longas (passaram-se 61 anos entre "Gente del Po" e o episódio de "Eros"), tem as suas principais obras-primas concentradas numa só década, os anos 60. É claro que entra aqui uma importante dose de opinião pessoal: considero os seus filmes a partir de "Professione: Reporter" (inclusive) inferiores aos que acima citei.


Foi gratificante ler que Augusto M. Seabra considera "Zabriskie Point" uma das obras mais subestimadas da história do cinema. Vi este filme na adolescência, na RTP, e na altura marcou-me com intensidade. Faz parte daquele conjunto de filmes em relação aos quais, por uma questão de curiosidade algo mórbida, me pergunto se resistiriam a um segundo visionamento tanto tempo depois do primeiro. (Curiosamente, revi recentemente a cena da explosão no deserto que faz parte deste filme, numa conferência de Delfim Sardo.)


Um dos comentários mais oportunos que li sobre os desaparecimentos de Bergman e Antonioni foi da autoria de Fernando Lopes, que afirmou (cito de memória) tratar-se do fim de uma certa ideia de cinema. De facto, juntamente com Resnais (felizmente ainda vivo, mas para quando seu último filme em salas portuguesas?), Fellini, e mais um punhado de realizadores, Bergman e Antonioni personificavam um cinema de autor com impacto e significado ao nível do grande público, caixa de ressonância do mundo contemporâneo e das suas contradições. Aos seus sucessores (penso em Moretti, Wenders, von Trier, Almodóvar, entre outros cujo programa passa pela coexistência entre a exigência artística e a vontade de alcançar uma audiência significiativa) não falta necessariamente talento; falta, isso sim, o prestígio e a relevância que outras gerações atribuíram ao cinema. Não têm culpa da trivialização a que o cinema tem vindo a ser condenado, da sua subalternização relativamente a formas massificadas de distribuição de imagem em movimento.


Uma das razões pela qual o falecimento, no mesmo dia, destes dois cineastas foi uma amarga ironia do destino foi a maneira exemplar como cada um deles ilustra duas das principais correntes do cinema mundial das últimas décadas. Bergman pertence à linhagem daqueles, como Buñuel, Fellini, Lynch e (até certo ponto) Tarkovsky, que privilegiavam a transposição de fantasmas e obsessões pessoais para a tela, e a tradução pictórica do seu universo pessoal. Quanto a Antonioni, a sua abordagem analítica e impessoal aparenta-o a Godard, Resnais, Greenaway e Bresson. (Claro está que esta classificação se afigura problemática em muitos casos: de que lado da trincheira se poderiam colocar Pasolini, Fassbinder...?)


(Na imagem, David Hemmings em "Blow up".)

segunda-feira, julho 30, 2007

EPITÁFIO COM LANTERNA MÁGICA (1918-2007):


Quando se trata de um grande homem, a morte é sempre inesperada e ultrajante, quer ocorra aos 89 anos ou aos 49 anos. Nem a idade, nem a ordem natural das coisas, nem a inevitabilidade, nem a doença são capazes de mitigar o desgosto.


A importância da obra de Bergman é imensa. Não vou ofender as dezenas de obras-primas que ele realizou com uma pobre tentativa de exprimir essa importância em quatro ou cinco linhas.


Na nossa televisão, alguém teve a infeliz ideia de chamar a Bergman "o poeta do cinema", e dedicaram-lhe hoje pouco mais tempo do que a uma sucata clandestina que foi descoberta em Sobral de Monte Agraço.


(Na imagem, Ingrid Thulin e Max von Sydow no meu filme preferido de Bergman, "O Rosto". Retirada daqui.)

domingo, julho 29, 2007

REPUTAÇÃO: José Manuel Fernandes remata a sua crónica do "Público" de sábado passado do seguinte modo: «Mesmo sem apreciar literatura mágica, mas curioso por perceber o que cativou milhões de adolescentes e jovens, não sei se, depois de um ano muito cansativo, não levarei para férias os sete volumes de Harry Potter adiando, mais uma vez, a entrada noutros sete volumes: os de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Mesmo que à custa da minha reputação intelectual na implacável blogosfera.» Em primeiro lugar, não se me afigura que a reputação intelectual de José Manuel Fernandes seja um dos tópicos de predilecção dos bloggers nacionais ou estrangeiros. Verdade seja dita, porém, que sou um leitor de blogs superficial, e não posso excluir a existência de numerosos recantos do ciberespaço (incluindo, quiçá, fóruns, comunidades no MySpace e províncias inteiras do Second Life) onde a envergadura intelectual de José Manuel Fernandes é objecto de debates electrizantes. Em segundo lugar, não me parece que José Manuel Fernandes deva temer repercussões negativas deste seu ousado desabafo. Neste país que é o nosso, onde um termo como "bem-pensante" ganhou aura pejorativa, privilegiar a cultura popular sobre a dita "alta cultura" muito dificilmente será visto como uma confissão de frivolidade; muito pelo contrário, esse tipo de confissão mais depressa será encarado como um suculento desafio ao politicamente correcto, e o seu autor como um iconoclasta dotado da virtude de não se levar a sério. Em terceiro lugar, julgo que estas inocentes negaças ao gosto dominante põem a reputação intelectual de José Manuel Fernandes menos em risco do que dislates como este (do editorial do "Público" de 24/7, a propósito das eleições legislativas na Turquia, negritos meus): «Os eleitores deram mais atenção a estes argumentos do que aos dos seus adversários, pelo que o voto de domingo foi um duro golpe para os militares, que, ao longo de décadas, garantiram o legado laico do Estado que Ataturk fundou sobre o modelo francês. Ou seja, sobre um modelo em que o Estado não é apenas independente da religião ou religiões, mas em que limita o espaço das religiões. Mesmo assim o voto de domingo não acaba com a polarização da sociedade turca, que se agravou nos últimos meses, pelo que o primeiro desafio do reeleito Erdogan passará por apaziguar as tensões entre secularistas e crentes, de forma a permitir que, do modelo francês, a Turquia possa evoluir para o anglo-saxónico, onde o Estado é laico mas não anti-religioso.» Lê-se e não se sabe o que mais admirar: se a mirabolante ideia de um modelo francês de Estado anti-religioso (própria de quem aprendeu a história da França por meio de fascículos piedosos com estampas coloridas) se a sugestão, não isenta de uma certa comicidade, de que a Inglaterra possa ser vista como um exemplo a seguir em termos de laicidade. É este apetite pela distorção dos factos que preocupa, da parte do director de um dos diários portugueses de maior tiragem, e não a inócua veleidade de passar as férias mergulhado nas aventuras de um jovem feiticeiro de óculos de aros redondos.
A PACIÊNCIA, MAIOR VIRTUDE DO CINÉFILO: Decididamente, escasseia-me a paciência para tentar penetrar os desígnios das distribuidoras de cinema. No site da Atalanta, eis que vários filmes deveras prometedores passaram da secção "Próximas Estreias" para "Brevemente", o que é tanto mais inquietante quanto o historial recente desta distribuidora já demonstrou quão elásticos podem ser os limites temporais deste termo. Falo, mais concretamente, dos filmes de Hou Hsiao-Hsien e de Kaurismäki, falo de "Peindre ou Faire l'Amour", dos irmãos Larrieu. É certo que alguns dos filmes que, vindos do nada, ocupam agora a secção "Próximas Estreias" são também de molde a despertar abundantes salivações cinéfilas: Tsai-Ming Liang, Emmanuelle Cuau (com a soberba Sandrine Kiberlain; vi um interessante filme desta realizadora em Paris, "Circuit Carole", com a rivetteana Laurence Côte), Iosseliani (se bem que este "Jardins en Automne", que já vi na Cinemateca, me pareça pouco acrescentar à obra do autor georgiano). Mas a questão não é essa. O que está em jogo aqui é a recorrente falibilidade das previsões da Atalanta sobre as datas de estreia dos próprios filmes. É uma questão de respeito pelo espectador, que assim se vê na contingência de implorar ao façanhudo deus das salas de cinema a dádiva de poder ver o filme há muito antecipado a partir da data que foi anunciada. Terá de passar muito tempo até que eu me esqueça de "Manderlay", anunciado durante meses e que acabou saindo directamente em DVD. São amargos de boca como este que me tornam céptico quanto à sobrevivência do cinema em salas, excepção feita à Cinemateca, por um lado, e aos blockbusters, por outro. Receio que o futuro da relação entre o consumidor e o cinema com um mínimo de pretensão artística passe essencialmente pelo DVD e por canais de televisão especializados (já é isso que sucede fora dos grandes centros urbanos) e pelo aluguer directo via Internet. (Ontem tentei ir ver "Juventude em Marcha" no Nimas, mas as sessões tinham sido canceladas, ao que parece por falta de autorização para a exibição do filme. Talvez isto tenha contribuído para este meu desencanto.) Naturalmente que concentro estes meus reparos na Atalanta porque seria ocioso estar a dirigi-los aos seus concorrentes. O "Die Hard 4" não é para aqui chamado.
MENTE FELINA: A gatinha Goneril e o gatinho Jasmim têm, cada um, as suas obsessões muito pessoais e intransmissíveis. Uma das poucas obsessões que partilham é pelas pratinhas de bombom. Podem ser bombons Garoto. Eles não discriminam marcas.


segunda-feira, julho 23, 2007

FALSA MEMÓRIA?: Recordo-me de ter ouvido dizer que uma das razões que Sartre alegou para recusar o Nobel foi o facto de este nunca ter sido atribuído a Pablo Neruda (que viria a ganhá-lo em 1971). Nunca mais voltei a ouvir esta história. Terei inventado isto? Terei feito confusão?
DISSE ELE: Há lá maior desafio do que viver uma vida decente?

domingo, julho 22, 2007

A RONDA DA NOITE(1):









Diz-se que gostos e cores não se discutem... Por norma, discordo: não só os gostos se discutem, como discutir cores pode ser um dos passatempos mais indispensáveis a uma vida sã e preenchida. Casos há , porém, em que discussões desta índole me parecem enfadonhas de tão dispensáveis. Por exemplo, as argumentações relativas ao primeiro lugar do pódio da ficção portuguesa actual, por norma açambarcadas por antuninos e saramaguianos pletóricos, perdem razão de ser a cada novo livro de Agustina Bessa-Luís que sai para o mundo. Agustina é o maior talento da prosa narrativa portuguesa dos últimos 100 anos, e não vejo quem, além de Vergílio Ferreira, lhe poderá ser comparável em profundidade e ambição artística, argúcia, manejo da língua e versatilidade (para não falar da produtividade). É forte a tentação que sinto de mandar às malvas qualquer objecção quanto à subjectividade de um julgamento deste tipo. Romances magníficos de inteligência e liberdade como "A Ronda da Noite" tornam esta evidência demasiado límpida para que se perca mais tempo com a questão.
PLANO NACIONAL DE RELEITURA: Recebam a minha gratidão, autores do Cine-Australopitecus e do Design do Dasein, por se terem lembrado de mim. Como não vejo qual o interesse que poderia ter a lista dos últimos 5 livros que passaram pelas minhas mãos, prefiro elencar 5 dos livros que ambiciono reler num futuro não demasido remoto. (Não que esta lista possa, mais do que a outra, ser de molde a despertar paixões, mas pelo menos compromete-me perante o mundo.) "Margarita e o Mestre", de Mikhail Bulgakov. O título deveria ser "O Mestre e Margarita"; nunca saberei por que motivo o tradutor português inverteu a ordem dos termos. (A propósito, Rogério, afinal as notas de rodapé com explicações sobre trocadilhos no original russo são escassíssimas, ao contrário do que a minha claudicante memória me sugeria.) Para além de ser uma das histórias de amor mais improváveis e exaltantes da história da literatura, passar muitos anos sem recordar a passagem do diabo por Moscovo é nocivo a tudo o que seja órgão, sistema e víscera. "The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman", de Laurence Sterne. Li-o demasiado jovem; impõe-se uma segunda dose. A ousadia não deve, só por si, ser uma virtude nas artes, mas pode ser um dos principais auxiliares do génio. Dá ainda que pensar o facto de este prodígio de invenção e humor, repleto de convoluções narrativas e retóricas, ter sido redigido no século XVIII e ter tornado o seu autor famoso. Bela negaça ao lugar-comum do autor incompreendido no seu tempo e exaltado pelos seus vindouros. "Ulysses", de James Joyce. Passou, julgo, suficiente tempo desde a última leitura para que a próxima se assemelhe à primeira, o que acarreta um deleite ímpar que me entretenho (perversamente?) a antecipar. Talvez desta vez seja de evitar a controversa edição revista por Hans Walter Gabler. "La Vie Mode d'Emploi", de Georges Perec. Se alguém, alguma vez, me pedisse (isto nunca aconteceu) para me definir em X palavras, ofereceria a essa pessoa um exemplar de "La Vie Mode d'Emploi". Não só seria a atitude mais correcta e menos morosa, como seriam elevadas as probabilidades de fazer um novo amigo. "Ficções", de Jorge Luis Borges. Antes de ter nas mãos pela primeira vez este livro, as referências que dele me chegavam faziam-me supor um calhamaço com centenas de páginas. Lendo-o, maravilhou-me esse talento quase sobrenatural de Borges para sugerir os abismos do infinito por meio da brevidade, da alusão, da elipse e de um comedimento vagamente cabotino. Será essa a sensação que esperarei reencontrar quando encetar a releitura. O facto de "Pierre Menard, autor do Quixote" ser um dos textos mais subtis e empolgantes que conheço não é detalhe de importância menor. (Ah, e não passo a ninguém este desafio, nem o original que declinei. Talvez seja caturrice minha, mas acho que a blogosfera estaria mais fresca e airosa sem estes memes, versão mais sofisticada e tongue-in-cheek das cartas em cadeia exortando à oração a São Judas Tadeu.)
EU CÁ APOIO LUÍS FILIPE MENEZES: Um homem que foi capaz de afirmar, no rescaldo do referendo sobre a legalização da interrupção voluntária da gravidez, ter-se tratado de uma grande derrota para Jósé Sócrates, e isto sem ceder a uma gargalhada, merece maior protagonismo na política portuguesa. Amiúde, é nesta zona cinzenta que faz fronteira com a estultice e com o desplante que se encontram os líderes de excepção, capazes de conduzir uma nação à glória, ou pelo menos a um descalabro glorioso.
OUT, DAMNED SPOT!: "Macbeth" revisitado numa máquina de lavar Siemens. Acto 5, cena I.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem lia Cesário Verde na linha amarela do metropolitano. Seria esta uma ocasião de ouro para um daqueles trocadilhos de bazar que abundam em certas paragens, e que os leitores habituais deste espaço já sabem não ser o tipo de coisa que esperam poder encontrar aqui.

quarta-feira, julho 18, 2007

ENLACE-SE: Tem nome de filme e abundância de versos. Gosto mais de "Paris" do que de "Texas", mas quando os dois se juntam coisas simpáticas costumam acontecer.

segunda-feira, julho 16, 2007

FAIRE SIGNE:



Este é um dos "quadros negros" de Goya, um dos catorze que ele pintou nos seus últimos anos, nas paredes da "Quinta del Sordo". Muito menos conhecido do que "Saturno devorando o seu filho", é, para mim, muito mais poderoso e impressionante. Tal como aos restantes "quadros negros", Goya não lhe atribuiu um título. Chamaram-lhe "Um cão lutando contra a corrente"; mais tarde, simplesmente, "Um cão". Encontra-se hoje no museu do Prado.

Daniel Arasse, no seu livro "Le Détail", defende que, neste quadro, Goya fez da virtualidade o próprio sentido da obra. E mais afirma:

«Ainsi conçu, le symbole énonce le sens comme une virtualité de l'image, force et puissance active dans cette image, qui échappe cependant à toute explicitation où s'abollirait la présence de l'image et où triompherait un discours dont l'image ne serait que l'équivalent visuel. Le sens intime d'Un chien pourrait bien être ainsi inhérent à l'œuvre elle-même, en être une «inhérence indéchirable» (...). Le sens de l'œuvre pourrait être l'œuvre elle-même, présence d'un objet signifiant, rendu énigmatique par l'opacité même de la peinture qui y fait signe.»

Olhando para este quadro, fico com a impressão de que quase tudo o que importa na história da pintura passa por aqui. (E talvez não só da pintura, e talvez à mistura com algo da ordem da paixão.)
ESTREITEZA DE VISTAS 1 BOM SENSO 0: Por vezes, sentimo-nos tentados a nutrir a ilusão de que a responsabilidade e a coragem política vão falar mais alto do que a tibieza e a pusilânime tentação do compromisso. O inevitável amargo de boca que se segue tem o travo detestável do hábito e da fatalidade. A versão mais rigorosa (mais "hitleriana", ou mais "fundamentalista", dirão os histéricos do costume) da lei de interdição do tabaco em espaços públicos tinha tudo a seu favor: o bom senso, a opinião pública, dados recentes que indicam valores impressionantes para o número de mortes anuais devidas ao fumo passivo. Tudo a seu favor? Erro! Tudo, menos a proverbial tacanhez de espírito dos legisladores portugueses e o seu apetite atávico pela acomodação, pelo arranjismo e pela cedência ao compromisso. O resultado líquido das derradeiras manobras nos bastidores de São Bento foi uma lei mais complicada, que vai claramente ao arrepio da tendência geral na Europa Ocidental, e que se arrisca a, depois de tanto alarido e ranger de dentes, deixar quase tudo na mesma, no que toca ao consumo de tabaco em bares e restaurantes: com efeito, ninguém ignora que os estabelecimentos com menos de 100 metros quadrados, onde continuará a ser permitido fumar excepto se os proprietários decidirem em contrário, estão em larguíssima maioria. A partir de 1 de Janeiro, cá estaremos para ver quantos destes passam a interditar o tabaco. Palpita-me (fica prometido o devido acto de contrição caso me engane) que serão poucos, para gáudio dos arautos da pseudo-liberdade de escolha, que nunca hesitaram em recorrer aos argumentos mais escabrosamente ridículos para vociferar contra qualquer lei que os privasse do direito de poluir o ar alheio com o agente que é a maior causa de morte evitável no mundo ocidental. Os vindouros hão-de ver nesta lei pouco mais do que uma supérflua etapa intermédia rumo a regulamentações mais restritivas, que não tardarão a surgir à medida que os contornos reais deste problema de saúde pública se forem tornando cada vez mais nítidos. Entretanto, as mortes e horas de trabalho perdido por via da exposição ao fumo alheio continuam dentro de momentos. Com a cumplicidade daqueles que malbarataram esta oportunidade.

domingo, julho 08, 2007

ANÚNCIO DE ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADO PERDIDOS:
Paredes, muros, cercas,
na vossa singeleza plana e monócroma,
não lamentais a singular falta
de anúncios,
especialmente
anúncios de gato perdido inventados?
Eles costumavam ser tantos e
tão repletos
de brincalhões cambiantes verbais.
A paixão pelos bichanitos
engolidos pela ingrata paisagem urbana
de Lisboa
emanava deles
como luz de um candeeiro a gás,
quer dizer suave mas perene.
O seu fluxo de dizeres
angustiados e esperançosos
e de focinhos atrevidos
fotocopiados a preto e branco
era parte dos meus dias.
(Talvez a melhor parte deles.)
Fui todos esses donos
e todos esses felinos
que estranhavam o asfalto
húmido de chuva e óleo.
Decorei números de telemóvel,
algarismos resplandecentes
de significados,
de promessas de reencontro
num qualquer canto macio de lar aquecido.
Em todos esses reencontros estive presente
mesmo naqueles que nunca aconteceram.
Nada
do que as paredes dizem
agora me desperta.
Talvez todos os gatos perdidos da cidade
tenham sido encontrados.
Talvez haja gatos, mas não
as palavras destinadas
a evocá-los,
nesta cidade demasiado mesquinha
para ser fatal.
BERLIN, CHAMISSOPLATZ: Sim, Chamissoplatz diz-me muita coisa, por acaso. Lembra-me um trecho do filme de Thome que ficou gravado numa cassete VHS, entre outros dois programas. Hanns Zischler cantava, acompanhando-se ao piano, uma canção longa e bela, para uma personagem feminina. Ou seria ela que cantava para ele? Recordo-me (mas a memória é um processo que nem precisa de malícia para ser traiçoeiro) de um travelling longo e circular no interior de um apartamento berlinense. E é tudo.

Tenho saudades dos filmes de Rudolf Thome. Houve tempos em que chegaram a ser mostrados assiduamente nas salas de Lisboa ("O Filósofo", "Amor à Primeira Vista") e na RTP. Agora, tornou-se quase impossível vê-los. Tive ainda a sorte de ver e gravar algumas das suas obras enquanto estive em França ("The Sun Goddess", "Tigerstreifenbaby Wartet Auf Tarzan"), e de ver, em estreia, "Paradiso" (que, por sinal, me desiludiu). Tenho profunda admiração pela maneira aparentemente simples e plácida como desconstrói as relações humanas, pela sensualidade quase pueril com que este cineasta de actores filma os seus actores. Em Thome, o acto de filmar tem tudo de subversivo e nada de provocatório ou agressivo.

O meu filme preferido deste realizador trata (um pouco atipicamente) da irrupção do sagrado entre os fluxos amorosos superficiais de um grupo de personagens. Ou talvez não passe de um esvaziamento encenado da própria noção de sagrado. Tanto que eu gostaria de rever "O Segredo".




(A companhia de produção de Thome, a Moanafilm, tem um site que não está nada mal feito.)
PARA QUÊ GASTAR DINHEIRO COM ADVOGADOS QUANDO SE TEM UM AMIGO NA CASA BRANCA INCLINADO PARA A COMPAIXÃO?: Durante o seu mandato e meio como Governador do Texas, George W. Bush apenas concedeu clemência num dos 153 casos de condenação à morte que passaram pela sua secretária, e o número de execuções nesse estado foi maior do que com qualquer um dos seus antecessores no cargo. Há poucos dias, o mesmo Bush comutou a pena de prisão de Lewis Libby, antigo assistente do vice-presidente Cheney acusado por um júri federal na sequência do escândalo da revelação da identidade da agente da CIA Valerie Plame. Libby fora condenado a 30 meses de prisão, uma multa de 250 000 dólares e 400 horas de serviço comunitário, por perjúrio, obstrução da justiça e por prestar declarações falsas a investigadores federais. Bush, fazendo uso de uma prerrogativa constitucional, anulou a pena de prisão, alegando que a sentença era "excessiva". Nos últimos tempos, tem crescido o consenso em torno da convicção de que Bush é o pior presidente dos E.U.A. das últimas gerações. Em final de mandato, "W." parece apostado em acrescentar à simples (mas colossal) incompetência uma sólida camada de ignomínia. Seria em alturas como estas que eu mais gostaria de auscultar a opinião desses que desfraldam com ingenuidade juvenil a bandeira da americanofilia. Falo dos Luíses Delgados e Joões Carlos Espadas que ufanamente confundem os Estados Unidos com um incorruptível farol de moral e virtudes, e que teimosamente se recusam a admitir o óbvio: que nenhum país está imune a abusos dos seus dirigentes, e que as beliscadelas na separação de poderes são um passatempo que não conhece fronteiras.

terça-feira, julho 03, 2007

O QUE HÁ NUM NOME? (E NUMA ALCUNHA?): Num episódio da série "Dharma & Greg", Dharma aconselhava a sua sogra a nunca jogar bilhar a dinheiro com um homem que se chamasse "Sweet Lou". Tenho pautado a minha vida, desde então, por esta sábia advertência. E não me arrependo.
CHECK YOUR FACTS!: Mesmo para um jornal gratuito, o desleixo que parece presidir à redacção de algumas notícias do "Meia Hora" causa calafrios. Na edição de ontem, a propósito do concerto de homenagem à "Princesa do Povo" (que o nosso serviço público de televisão fez o inestimável obséquio de trazer até nós), este diário afirmava que "Os príncipes levaram a concerto artistas de que Diana gostava, como Joss Stone". Atendendo a que, à data do fatídico acidente do túnel da ponte de Alma, a futura intérprete de "Right To Be Wrong" tinha 10 anos, e ainda nem sequer protagonizara a sua primeira actuação em público. na escola secundária de Uffculme, no Devon, isto abona muito em favor da presciência da princesa Diana e da sua capacidade para descobrir novos talentos.

quinta-feira, junho 28, 2007

IDEIA PARA UMA PEÇA: Na primeira cena, duas personagens discorrem longamente sobre a vantagem e legitimidade, por parte de uma autarquia, de delegar em empresas municipais certas atribuições que lhe são próprias. Uma das personagens está disfarçada de mosqueteiro, a outra de chefe índio. Segue-se um baile de máscaras, no qual uma intriga de enorme complexidade e envergadura soçobra devido à intervenção do factor humano. Para finalizar, algumas lamechices.
AZEITE VIRGEM DE CALTANISSETTA: Queria destacar duas das compras que fiz na Feira do Livro deste ano.

A mais estimulante: "Dream of Fair to Middling Women" (Arcade Publishing), de Samuel Beckett.





Sou admirador profundo, convicto, apaixonado e feroz da prosa de Beckett, mais ainda do que da sua escrita para o teatro. Da, chamemos-lhe assim, proto-história desta prosa faz parte "More Pricks than Kicks", esse prodígio de erudição e sarcasmo que já se atravessou no meu caminho. Tal como esta última obra, "Dream of Fair..." ficou por publicar na altura da sua concepção; ambas seriam alvo, mais tarde, por parte do próprio autor, de um cepticismo coriáceo quanto aos seus reais méritos. Felizmente que, contra todas estas adversidades, ambas acabaram por ver a luz do dia sob forma impressa. Beckett escreveu "Dream of Fair..." no verão de 1932, na Rue de Vaugirard, que nenhum aficionado de estatísticas ociosas ignora tratar-se da mais longa artéria parisiense.

Lendo a contracapa, ficamos a saber que este livro é "Indispensable to anyone interested in the pulse of twentieth-century art" (St. Petersburg Times). Não me reconhecendo nesta descrição (será a arte do século XX um doente com achaques que recomende a monitorização dos seus sinais vitais?), não deixo de me sentir perfeitamente à vontade para subscrever, com gestos enfáticos e impacientes, a parte do "indispensável".


A mais impulsiva: "A Mafia Senta-se à Mesa - histórias e receitas da onorata societá [sic]", de Jacques Kermoal e Martine Bartolomei (Teorema).





(Na figura, a capa da edição francesa.) Onde se fica a saber como confeccionar salmonetes com sementes de funcho, borrego assado com azeite virgem de Caltanissetta, espargos quentes com natas de ovelha, e Flan de castanhas, e em que ocasião tais iguarias acompanharam momentos marcantes da história da cosa nostra.

Para quando uma história gastronónica de Portugal, com coordenação de José Mattoso e receitas ilustradas do Chefe Silva?

sábado, junho 23, 2007

E, POR FALAR EM NOMES DE REALIZADORES...: Na Fnac do Chiado, sector dos DVDs, alguém, suponho que um funcionário zeloso, rasurou com caneta azul o "R" que corrompia a correcta grafia do nome do realizador de "La Dolce Vita" ("Frederico Fellini"). Ainda não perdi a esperança de que alguém acabe por reparar no "S" traiçoeiro que se insinuou no nome de "Tarkosvsky", mesmo ao lado.
PARA DESCOMPLICAR: Não terá escapado a nenhum cinéfilo digno dos seus galões que "Uzo", lido ao contrário, fica "Ozu". Espera-se ardentemente que surjam em breve novos tarifários com nomes como "Awasoruk", "Esuran", "Namgreb" ou "Dradog".
ALCARAVIA: O livro "Ervas Aromáticas e Especiarias" (Jill Norman, Dorling Kindersley/Civilização) descreve o aroma da alcaravia (Carum carvi) como sendo pungente, ardente e agridoce, bastante picante, com uma nota de casca seca de laranja e um travo leve mas demorado de anis.



Esta especiaria será fácil de encontrar em Lisboa?


Qualquer sugestão representaria uma ajuda supremamente bem-vinda.

quarta-feira, junho 20, 2007

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS (*): Num dos episódios de "Yes, Minister", a mulher do ministro Jim Hacker está a ler, na cama, o romance "Rites of Passage", de William Golding, por sinal um grande livro. A fotografia do autor na contracapa dissipa quaisquer eventuais dúvidas. (*) Neste caso, em lugares privados e fictícios.
BARBAS E RELÂMPAGOS: Segundo Vasari, o pintor Raffaello Sanzio comparou os músculos dos estudos de anatomia com os músculos de seres humanos vivos, e observou a trama dos ossos, nervos e artérias até atingir o grau de maestria na reprodução do detalhe que se exige a um pintor de excelência. Porém, ao dar-se conta de que nunca seria capaz de atingir a perfeição de Michelangelo, Raffaello optou por trabalhar mais aprofundadamente a disposição dos elementos no quadro, e esforçou-se por estudar tudo o que é necessário à arte da pintura: tecidos, sapatos, capacetes, armaduras, penteados femininos, cabelos e barbas, vasos, árvores, grutas, rochedos, fogos, céus tempestuosos ou limpos, nuvens, chuvas, relâmpagos, o bom tempo, a noite, o luar, os efeitos do sol, etc.





(Santa Cecília com santos, c. 1514-1516.)

sábado, junho 16, 2007

FRACOS EM HISTÓRIA E EM DOUTRINA?: Quando ocorre um feriado de cariz patriótico, é comum as nossas televisões passarem reportagens de rua daquelas em que se questiona o transeunte incauto sobre o significado da efeméride. Infalivelmente, basta uma meia dúzia de balbuceios hesitantes («Restauração da independência... Foi quando D. Afonso expulsou os mouros, não foi?») para conduzir o repórter, alegre e fatidicamente, até à conclusão de que os portugueses ignoram a história do seu próprio país. Tudo isto sobre fundo de imagens de arquivo da multidão na Rua Augusta, com um ar adequadamente ocioso e alheado. Estranhamente, é bastante mais raro que semelhante zelo seja aplicado aquando dos feriados religiosos. Neste país em que os índices de catolicismo atingem, alegadamente, os noventa e tantos por cento, quantos cidadão seriam capazes de explicar o que se celebra no dia do Corpo de Deus, da Assunção de Nossa Senhora, ou da Imaculada Concepção (o mais ardiloso "falso amigo" de todos os dogmas)?
GREGOS E TROIANOS: Nem Ota, nem Alcochete, nem Poceirão. Construam o novo aeroporto no Second Life!

quinta-feira, junho 07, 2007

UM EXEMPLO PARA TODOS: «Desde João Soares que Lisboa está financeiramente ingovernável. Os presidentes podem fazer um ou outro arranjo, centrar as atenções numa ponte ou num viaduto ou num grande plano de reconversão da Baixa, que a distracção pode ter sucesso, mas as dívidas e os juros crescem exponencialmente. Sem resolver esta questão, tudo o resto é fazer uns arranjos florais nos jardins. O único exemplo a seguir é o de Rui Rio. Apareça alguém a dizer que vai seguir o exemplo do Porto, ouça-se o espernear dos animadores culturais a dizer de que o “contabilista” está a “matar” a cidade, e Lisboa pode vir a ser finalmente governável.» (Pacheco Pereira, no Abrupto, A.D. 14/5/2007. Negritos meus, e ai de quem mos tentar tirar.) Não sei o que é mais deplorável nesta citação, mas talvez seja isto: a convicção implícita de que não existe um meio termo entre a prodigalidade desvairada e uma parcimónia em guerra aberta contra a alegada subsidiodependência dos agentes culturais. Ou, por outras palavras: a alegação de que a luta contra o despesismo não admite outra postura que não seja a de Rio. Para além das boas práticas contabilísticas, urge reconhecer aquilo que a atitude do edil portuense encerra de populismo duro e puro. Sonegar alguns milhares de euros a companhias de teatro pouco peso terá nas contas municipais, mas inscreve na coluna do activo uma quantia choruda em divisa das mais fortes: inimigos impopulares. Refiro-me aos tais animadores culturais, a quem o continuado hábito de exercer uma actividade artística à custa de dinheiros públicos faz merecer o estigmatizante estatuto de parasita. Quem será o autarca que não singra com o ressentimento desses saltimbancos ociosos, detestáveis aos olhos do bom povo que trabalha para ganhar a sua tosta mista e o seu panaché? O meu populista é menos populista do que o vosso populista. Desgraçadamente, muita da argumentação sociopolítica que por aí se ouve e lê não passa de uma glosa preguiçosa desta frase.