quarta-feira, março 19, 2008

HAIKKUS POLÍTICOS (0-2): Na cerejeira a sombra. Amargo, o horizonte. Ribau Esteves. Gotas. Na cidade Cintilam insectos. E o comité central? Vitalino Canas. O som da maré enche Todas as janelas.
A HORA RIVETTE (3): Essa história dos títulos e das regras fez-me pensar que Rivette é o exemplo supremo do criador que não deixa as suas convicções teóricas cristalizarem-se em regras que se transformem em espartilhos. Rivette é um dos realizadores mais livres que existem, não porque careça de princípios e de ideias claras sobre o cinema, mas porque é suficientemente inteligente e subtil para, em vez de forçar os materiais com que trabalha para que se adaptem às suas maneiras de ver, criar as condições para que o cinema, tal como o entende, aconteça. Estou a falar da colaboração com argumentistas e actores, em particular, mas, de uma maneira geral, refiro-me a todas as atitudes e procedimentos que contribuem para o equilíbrio entre espontaneidade e premeditação que perpassa por toda a obra de Rivette. (Claro que eu nunca me atreveria a dizer que realizadores interventivos e manipuladores como Hitchcock ou Lynch não são "livres". Não pretendo enredar-me em excepções ou contra-exemplos, não viso uma qualquer lei. Estou apenas a falar de Rivette.)
SUGESTÕES PARA A PÁSCOA: Duas fatias de prosa da minha autoria estão agora disponíveis em todos os bons estabelecimentos. Uma delas é um conto, que se chama "Sonhos e Responsabilidade em Tondela", e que foi dado à estampa no âmbito do nº 16 da revista "Ficções". É um conto um bocado estranho, sobre um indivíduo que chega a uma cidade do interior do país para ser encenador de um grupo de teatro escolar, e que acaba por exercer também as funções de treinador de basquetebol. Acontecem muitas coisas neste conto, que se passa em Tondela (daí o título). A outra é um texto integrado no catálogo sobre Jacques Rivette editado pela Cinemateca. É um texto que se lê num instante, e que fala de vários filmes desse realizador.

domingo, março 16, 2008

A HORA RIVETTE (2): Não é essa a única excepção à regra de não pronunciar, nos diálogos, o título dos filmes de Rivette. No próprio "La Belle Noiseuse", o título (que é também o do quadro que constitui a obsessão de Frenhofer/Michel Piccoli) aparece nas falas de várias personagens. O mais curioso é que, no filme anterior ("La Bande des Quatre"), o quadro é também mencionado, pela misteriosa personagem de Benoît Régent, referindo-se a uma obscura história de tráfico de arte que (como tantas vezes sucede em Rivette) nunca saberemos se é verdade ou invenção.
OLHARES: Em Inglaterra, uma argentina revelou-me que, no seu país de origem, é comum perfeitos estranhos estabelecerem contacto visual na via pública, e que, quando isso sucede, a etiqueta obriga a que se saúdem. Manifestei-lhe a minha surpresa, mas não fiz questão de lhe explicar como, em Portugal, evitar o olhar alheio constitui actividade das mais disseminadas, e daquelas que são exercidas com maior empenho. Nos transportes públicos, por exemplo, mas não apenas aí.
BRESSON, MODO ESTÁDIO DO DRAGÃO: Segundo Q., Jesualdo Ferreira respeita as regras enunciadas nas "Notas Sobre o Cinematógrafo".

sexta-feira, março 14, 2008

A HORA RIVETTE: Para quê escondê-lo? (Sim, para quê?) A retrospectiva Rivette na Barata Salgueiro é uma das principais razões da minha indisponibilidade destes últimos dias. Fui ver, até agora, os seguintes filmes:
  • "L'Amour Fou" (terminou depois das 2 da manhã).
  • "Noroît"
  • "Céline et Julie Vont en Bateau"
  • "L'Amour par Terre"
  • "Merry-Go-Round"
  • "La Bande des Quatre"

No caso de "Noroît", "L'Amour par Terre" e "Merry-Go-Round", trata-se de filmes que eu não conhecia. O primeiro é uma obra extremamente bizarra, por vezes exasperante, mas de que gostei muito. O segundo é um grande filme, com um dos argumentos mais ricos de todos os filmes de Rivette. O terceiro é, de longe, o pior filme deste realizador, com muito pouca coisa que o resgate ao estatuto de falhanço colossal.

O momento mais sublime das últimas noites cinematequianas ocorreu quando, duas horas e meia depois do início de "Merry-Go-Round", um rapaz louro entrou na sala e se instalou calmamente a dois lugares do meu. Tudo na sua linguagem corporal indicava a predisposição para desfrutar de um filme na sua integralidade, com essa mistura de tensão e volúpia que distingue o cinéfilo do simples turista das salas de cinema. O filme terminou cinco minutos depois.

CÂNONE: Sucede que eu sou a favor da existência de um cânone da literatura ocidental. Mas eu também sou a favor de muitas coisas de popularidade duvidosa, como sejam a abolição da calçada à portuguesa e a elevação do bolo de arroz a património universal.
AGRADECIDO: Os meus agradecimentos vão todos, inteirinhos, sem passar pela casa Partida nem receber 2000 escudos, para o Irmaolucia e para o Pastoral Portuguesa pela menção ao primeiro lustro deste blog. Quanto ao preço da maionese, o que dizer que não tenha ainda sido dito? A especulação é, deveras, o mal do século.
TEMPO: Uma coisa é não ter tempo para escrever baboseiras sobre a vida em geral. Uma outra coisa, muito diferente. é não ter tempo para escrever algo, por pouco e inútil que seja, sobre o falecimento de Maria Gabriela Llansol.

sábado, março 01, 2008

VENHAM MAIS CINCO: O 1bsk faz hoje 5 anos. Foi inaugurado no dia do 75º aniversário do realizador Jacques Rivette, o seu patrono não oficial. Não foi deliberado, mas é o tipo de gesto que um indivíduo com queda para as efemérides, como eu, seria bem capaz de perpetrar. O segredo da longevidade do 1bsk é muito simples. Este blog não é um projecto que corra o risco de se esgotar, nem é uma empreitada susceptível de ser cumprida. A sua razão de ser nunca se desagregará porque não possui nenhuma. O seu "sentido" (palavra de que urge desconfiar) dura o tempo que duram as suas micro-erupções. O trabalho de o aniquilar implicaria atribuir-lhe uma importância manifestamente excessiva. O seu destino é o de, placidamente, perdurar. Este blog nunca mudou de template, excepção feita a modificações estéticas de pouca monta. Este blog nunca mudou de nome, nem de linha editorial, nem de tipo de letra. A mudança de plataforma foi o único evento que violou a sua natureza essencialmente conservadora. Esse conservadorismo não representa uma mentalidade nem uma convicção, mas apenas um fruto do apego à lei do menor esforço e da sensação de que neste mundo, que é o nosso, as coisas (ah, as coisas!) mudam demasiado depressa. Talvez para oferecer um contraponto ao pequeno núcleo de fel e ressentimento que o acompanha, intacto, desde o início, este blog prefere virar-se para assuntos simpáticos e aprazíveis em vez das medonhas desgraças e das ignóbeis golpadas que nunca deixam de merecer destaque na nossa imprensa de referência. Incomodámos interesses estabelecidos por colocar em plano de igualdade a literatura, o cinema, a doçaria portuguesa, o xadrez, a toponímia parisiense, a ética republicana, gatos perdidos, Demis Roussos e a estátua do Dr. Sousa Martins. Os interesses estabelecidos também nos incomodaram a nós. Os concertos ao ar livre no Jardim dos Ulmeiros (em Telheiras) incomodaram-nos a nós, aos interesses estabelecidos e a toda a vizinhança. Este é um blog ecléctico, o que quer dizer que estendemos a nossa mediocridade a vários domínios, em vez de a confinarmos a um só, como é norma. Leitores, este blog continuaria a existir sem vós, mas de forma infinitamente mais deprimente e macambúzia. Como gostaria eu de, em jeito de recompensa pela vossa fidelidade, vos oferecer um daqueles prefácios à maneira de Kierkegaard, ou, à falta disso, um magnífico chá dançante!

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

ANÚNCIO POR CAUSA DA MORAL:

Grande venda de obras de arte.
Todas as peças a €20.

Fotografias, pinturas, ilustrações, pautas musicais originais, manuscritos, etc., etc.

Só autores famosos.

Inauguração no dia 1 de Março, pelas 16h00, na Galeria do JUP (Rua Miguel Bombarda, 187, R/C, no Porto).

O produto das vendas será aplicado na produção da revista "aguasfurtadas" 11.


DE VOLTA: Regressei a Portugal e deixei de escrever no blog. Não tenho paciência para escrever.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

FRUTOS VERMELHOS COM SACAROSE: Sempre ambicionei começar um post com uma frase deste tipo: "Um leitor manifestou o seu espanto por eu não falar de... (inserir tema de actualidade, daqueles em que urge malhar enquanto o ferro está quente)". Eis que soou a minha hora. Um leitor manifestou o seu espanto por eu não falar dos "Morangos com Açúcar". Como sublinha, e bem, uma ausência do país não constitui justificação aceitável. A essência dos "Morangos" é algo de imaterial, que transcende a realidade quotidiana dos episódios que a TVI transmite. Os motivos são outros. Os "Morangos" transformaram-se numa máquina de produzir universais. As personagens são meras instâncias de ideias de personagem, essas formas puras, entre o realista e o folhetinesco, que presidem aos seus movimentos como severos anjos da guarda. Quando acompanhávamos as desventuras da simpática Matilde, a sua espessura humana e o seu papel na economia narrativa global do projecto "Morangos" equilibravam-se com graciosidade, nutriam-se mutuamente. Agora, as personagens parecem paralisadas pela necessidade de significarem algo, de estarem à altura das poderosas linhas de argumento que os ultrapassam, sufocantes na sua ominipresença. Torna-se também consternante para o espectador ter de se conformar com a arbitrariedade com que certas personagens são dispensadas, ao passo que outras, sem que nada justifique o tratamento diferenciado, são retidas. Exemplo: os irmãos João e Pulga sobreviveram à última hecatombe, mas o que é feito do progenitor, superiormente interpretado por Marcantonio Del Carlo? Finalmente, abandonar a zona de Cascais foi um trágico passo em falso. Só alguém completamente desfasado do espírito dos "Morangos" pode admitir que abdicar dos salpicos de água salgada e da pele bronzeada do João Catarré e da Diana Chaves e mergulhar numa weltschmerz urbana e macilenta pode representar um upgrade. Enfim, não me parece, como dizer?, bem.
OS ANTAGONISTAS DA GUERRA DAS CIVILIZAÇÕES NÃO SÃO QUEM SE PENSA: As declarações do arcebispo da Cantuária sobre a eventualidade (e conveniência) da introdução da sharia em Inglaterra demonstram aquilo que entra pelos olhos dentro de qualquer pessoa minimamente atenta ao que se passa no mundo. As quezílias locais e transientes entre religiões diferentes não passam de batalhas de flores quando comparadas com a guerra permanente entre as religiões organizadas e os estados seculares. Esta guerra só ocasionalmente surge sob as luzes da ribalta, mas não conhece tréguas, e os seus intervenientes estão cientes da sua importância vital. Líderes de religiões que supostamente se antagonizam assumem opiniões que parecem cópias conformes umas das outras. Alianças tácitas são estabelecidas com surpreendente facilidade, quando o objectivo é o de lançar areia para a engrenagem dos estados de direito e o de promover mundividências de cariz confessional sobre as leis e instituições democraticamente eleitas. Ainda mais reveladora do que a sua admissão de que a adopção de certas partes da sharia, no seio do sistema legal inglês, é "inevitável", é esta frase de Rowan Williams: «[an approach to law which simply says] there's one law for everybody and that's all there is to be said, and anything else that commands your loyalty or allegiance is completely irrelevant in the processes of the courts - I think that's a bit of a danger» É difícil ser mais transparente no repúdio do princípio basilar do estado de direito.

domingo, fevereiro 10, 2008

TUBÉRCULOS COMESTÍVEIS - TODA A VERDADE: O programa editorial do 1bsk reza assim: «Blog sobre a vida e obra de Heinrich von Kleist, bolos de arroz, a arte pela arte, o Dr. Sousa Martins, e outras coisas começadas por "k". » Que coisas começadas por "k", pergunta-se legitimamente o leitor, provavelmente com um esgar de perplexidade estampado no rosto. Um excelente exemplo é o "East Anglia Potato Day". Intercâmbio de sementes, utensílios para o cultivo deste popular tubérculo, prova de batatas fritas, livros e aconselhamento. Os nomes das variedades de batatas fazem sonhar: Mimi, Riviera, Ulster Chieftain, Cosmos, Magic Red, Vivaldi, Yukon Gold, Bambino, Harlequin, International Kidney, Picasso, Druid, Golden Wonder, Pink Fir Apple, Sarpo Axona... Imaginem-se as longas discussões que se podem manter acerca dos méritos relativos destes tipos de batatas. Cabe-me informar com lástima (e um pedido de desculpas pela minha inépcia) que o "Potato Day" deste ano decorreu neste sábado, pelo que é tarde demais para se dirigirem a Stonham Aspal, North Stowmarket, Suffolk com o propósito honesto de degustar uma Vivaldi frita. "East Anglia Potato Day" não começa por "k", evidência que me parece difícil de negar. Mas seria mesquinho excluir este evento de uma lista de coisas começadas por "k" apenas com base nesse argumento.
ESVAZIAMENTO: Ricardo Bexiga diz que houve estratégia de «esvaziamento». Este blog, por norma, é hostil a trocadilhos envolvendo funções orgânicas. A excepção justifica-se, neste caso, porque a reverência perante o génio é mais forte do que os princípios. E se este título não é genial, não sei o que é o génio. Se o jogo de palavras foi propositado, revela, por parte do seu autor, uma auto-ironia que é apanágio de poucos. Caso contrário, há que prestar tributo à capacidade do ser humano para alcançar a grandeza de forma não premeditada.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

COMO DIZER MAL SEM DIZER MAL: «While Lessing has certainly earned her right to be considered an elder stateswoman of contemporary letters, this portentous and, irritatingly vague tale does not really show her at her best.» (Christina Koning, crítica a "The Cleft", de Doris Lessing, "The Times", 26/1/2008.) Há muitas maneiras de travestir uma falta de consideração em elogio. Neste caso, o disfarce é dos mais diáfanos. Partindo do princípio de que a sinceridade é um dos atributos do bom crítico (admito que este é um ponto não consensual), teria sido mais apropriado que a autora desta crítica exprimisse o seu desprezo sem se julgar obrigada a derivas eufemísticas. "Elder stateswoman" remete para o estatuto, ignorando o talento. É o tipo de qualificativo que nenhum autor sério ambiciona. Deixar subentender que os esforços de um escritor se orientaram para a obtenção desse estatuto é, no caso de alguém como Doris Lessing, tão falso como mesquinho. À falta de sinceridade, outro dos predicados do bom crítico deve ser um conhecimento, pelo menos sofrível, das regras da pontuação. O excerto acima reproduzido nada indicia de lisonjeiro a esse respeito.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

LEI 37/2007: Também já tinha notado que o tema da legislação contra o tabaco nos lugares públicos é dos poucos (talvez o único) capaz de levar os mais cordatos e assisados a inauditos extremos de inanidade. À falta de comedimento e coerência, seria ao menos de esperar que estes diligentes artesãos da opinião dessem mostras de alguma criatividade. Mas o despeito tem como efeito secundário restringir o campo visual aos chavões mais à mão. Não me lembro de ter lido um único artigo contrário à nova lei que não empregasse uma ou mais das palavras "fascismo", "nazismo", "fundamentalismo", "taliban", "apartheid", "ghetto" ou seus derivados. A história continua a ocupar, destacada, o primeiro lugar entre os fornecedores de termos de comparação prontos-a-usar. O último a juntar-se a esta iracunda galeria foi Vasco Graça Moura que, na sua crónica do "DN" nos brinda com um texto muitíssimo engraçado. Entre fazer notar ("a quem possa interessar") que «o conceito de "tabagismo passivo" foi formulado pela primeira vez na Alemanha hitleriana» e alegar, em tom de trágica vitimização, que «[os fumadores] de há muito que se disciplinaram, habituando-se a não fumar nos transportes, em serviços de atendimento ao público, em restaurantes fora das zonas reservadas, etc., etc.» (por "disciplinaram" entenda-se, presumo, "passaram a cumprir a lei, como é obrigação de qualquer um"), VGM, com a verve pletórica que todos lhe reconhecem, encadeia grande parte das keywords que a tradição já exige: estrela amarela, fundamentalismo, ghetto, repressão, politicamente correcto, lei seca, novamente fundamentalismo, novamente ghetto, novamente repressão (VGM não teria à mão um dicionário de sinónimos?) e, qual cereja em cima do bolo, a jihad. O sentido das proporções é um dos nossos bens mais preciosos. Vê-lo soçobrar tão espectacularmente em pessoas inteligentes é deveras embaraçoso, um pouco como observar alguém a falar sozinho em público.