LA CARRIÈRE D'ÉRIC: Até ao recente segundo visionamento (primeiro em grande ecrã), na Cinemateca, tinha "La Carrière de Suzanne" como, de longe, o menos conseguido dos "Contos Morais" de Rohmer. Vi-me obrigado a reconsiderar esta opinião severa. Embora obviamente menos rico do que alguns dos títulos que se lhe seguiram ("Le Genou de Claire", "La Collectionneuse", "Ma Nuit Chez Maud" são exemplos óbvios), não faltam méritos a "La Carrière de Suzanne". Em retrospectiva, a personagem de Suzanne, cortejada sucessivamente pelo amigo do narrador e pelo próprio narrador, aparece como o primeiro grande exemplo de um tipo de personagem recorrente nos filmes de Rohmer: a manipuladora involuntária. Durante quase todo o filme, a evolução de Suzanne (a sua "carreira", no fundo) é, aparentemente, um fruto do acaso e do capricho, mais do que de qualquer premeditação. Ao envolver-se sucessivamente com os dois jovens que a assediam, nunca abdica da sua margem de manobra, nem do poder supremo de condicionar o enredo, acabando por se associar romanticamente a um terceiro homem. As palavras finais do narrador são estas:
Cette fille, pour qui je n'avais pu éprouver, au cours de l'année, qu'une espèce de pitié honteuse, nous réglait notre compte à tous sur la ligne d'arrivée, et nous réduisait au rang des gamins que nous étions. Coupable ou non, naïve ou rusée, après tout qu'importait? En me privant du droit de la plaindre, Suzanne s'assurait sa vraie revanche.
Se o narrador de "La Carrière de Suzanne" conhecesse a obra de Rohmer, saberia quão vã pode ser esta pergunta: "ingénua ou astuciosa"? Quase todos os filmes de Rohmer exploram situações em que a ambiguidade dos julgamentos morais é fruto de uma indefinição entre o acaso, a intenção e uma versão marcadamente laica e terrena da predestinação. Tal como o Gaspard de "Conte d'Été", como a Haydée de "La Collectionneuse", até como a Marquesa de O... na adaptação da obra de Kleist, Suzanne pode ser vista como uma estratega sagaz ou como uma personagem que se limita a viver os eventos que ocorrem, independentes da sua vontade. Culpada ou não? Responsável ou não? Este tipo de perguntas nunca perderão a sua pertinência na filmografia de Rohmer, embora raras vezes sejam colocadas de maneira tão explícita. Sobre toda a obra deste cineasta pairam as armadilhas conceptuais subjacentes à possibilidade de formular juízos de valor. Não há realizador que atribua tanta importância à moral, não há realizador menos prescriptivo.
Uma das minhas cenas favoritas deste filme é uma cena que me parece totalmente gratuita (algo de pouco comum em Rohmer), em que as três personagens principais se entregam a uma pouco séria sessão de espiritismo. Trata-se de uma cena longa, na qual, à medida que a mensagem do "espírito de D. Giovanni" vai sendo decifrada, Rohmer intercala curtas imagens fixas de objectos do apartamento onde se desenrola a acção. Essas curtíssimas inserções, à maneira de vinhetas desinseridas de qualquer lógica de "raccord", podem talvez não ter outra função que não seja a de representar a própria duração temporal da cena, e a de sublinhar visualmente, de forma bem-humorada, a nula relevância da cena para a história. (Claro que tudo isto pode ser mero resultado da minha falta de perspicácia para detectar a função dessa cena e dessa opção de montagem.) Mais tarde, a gratuidade nos filmes de Rohmer haveria de se exprimir preferencialmente sob a forma de apontamentos de cariz etnográfico/turístico (a geografia urbana de Nevers em "Conte d'Hiver", os relatos sobre a pesca de alto mar em "Conte d'Été"...), deliciosamente supérfluos.
Para finalizar: gosto muito de uma coisa que António Rodrigues diz, na folha da Cinemateca dedicada à dupla sessão "La Boulangère de Monceau"/"La Carrière de Suzanne": «(...)como todo [o] classicista Rohmer tem a noção exacta das proporções», isto a propósito de todos os seus filmes terem a duração "certa". Sem dúvida que Rohmer é um classicista, e a sua obra arrebatadora surge como demonstração eloquente de que classicismo e liberdade criativa estão longe de ser inconciliáveis.
(Um classicista, um moderno e um criador livre? Mas isso são três desejos, não é possível...)