sexta-feira, março 14, 2008

A HORA RIVETTE: Para quê escondê-lo? (Sim, para quê?) A retrospectiva Rivette na Barata Salgueiro é uma das principais razões da minha indisponibilidade destes últimos dias. Fui ver, até agora, os seguintes filmes:
  • "L'Amour Fou" (terminou depois das 2 da manhã).
  • "Noroît"
  • "Céline et Julie Vont en Bateau"
  • "L'Amour par Terre"
  • "Merry-Go-Round"
  • "La Bande des Quatre"

No caso de "Noroît", "L'Amour par Terre" e "Merry-Go-Round", trata-se de filmes que eu não conhecia. O primeiro é uma obra extremamente bizarra, por vezes exasperante, mas de que gostei muito. O segundo é um grande filme, com um dos argumentos mais ricos de todos os filmes de Rivette. O terceiro é, de longe, o pior filme deste realizador, com muito pouca coisa que o resgate ao estatuto de falhanço colossal.

O momento mais sublime das últimas noites cinematequianas ocorreu quando, duas horas e meia depois do início de "Merry-Go-Round", um rapaz louro entrou na sala e se instalou calmamente a dois lugares do meu. Tudo na sua linguagem corporal indicava a predisposição para desfrutar de um filme na sua integralidade, com essa mistura de tensão e volúpia que distingue o cinéfilo do simples turista das salas de cinema. O filme terminou cinco minutos depois.

CÂNONE: Sucede que eu sou a favor da existência de um cânone da literatura ocidental. Mas eu também sou a favor de muitas coisas de popularidade duvidosa, como sejam a abolição da calçada à portuguesa e a elevação do bolo de arroz a património universal.
AGRADECIDO: Os meus agradecimentos vão todos, inteirinhos, sem passar pela casa Partida nem receber 2000 escudos, para o Irmaolucia e para o Pastoral Portuguesa pela menção ao primeiro lustro deste blog. Quanto ao preço da maionese, o que dizer que não tenha ainda sido dito? A especulação é, deveras, o mal do século.
TEMPO: Uma coisa é não ter tempo para escrever baboseiras sobre a vida em geral. Uma outra coisa, muito diferente. é não ter tempo para escrever algo, por pouco e inútil que seja, sobre o falecimento de Maria Gabriela Llansol.

sábado, março 01, 2008

VENHAM MAIS CINCO: O 1bsk faz hoje 5 anos. Foi inaugurado no dia do 75º aniversário do realizador Jacques Rivette, o seu patrono não oficial. Não foi deliberado, mas é o tipo de gesto que um indivíduo com queda para as efemérides, como eu, seria bem capaz de perpetrar. O segredo da longevidade do 1bsk é muito simples. Este blog não é um projecto que corra o risco de se esgotar, nem é uma empreitada susceptível de ser cumprida. A sua razão de ser nunca se desagregará porque não possui nenhuma. O seu "sentido" (palavra de que urge desconfiar) dura o tempo que duram as suas micro-erupções. O trabalho de o aniquilar implicaria atribuir-lhe uma importância manifestamente excessiva. O seu destino é o de, placidamente, perdurar. Este blog nunca mudou de template, excepção feita a modificações estéticas de pouca monta. Este blog nunca mudou de nome, nem de linha editorial, nem de tipo de letra. A mudança de plataforma foi o único evento que violou a sua natureza essencialmente conservadora. Esse conservadorismo não representa uma mentalidade nem uma convicção, mas apenas um fruto do apego à lei do menor esforço e da sensação de que neste mundo, que é o nosso, as coisas (ah, as coisas!) mudam demasiado depressa. Talvez para oferecer um contraponto ao pequeno núcleo de fel e ressentimento que o acompanha, intacto, desde o início, este blog prefere virar-se para assuntos simpáticos e aprazíveis em vez das medonhas desgraças e das ignóbeis golpadas que nunca deixam de merecer destaque na nossa imprensa de referência. Incomodámos interesses estabelecidos por colocar em plano de igualdade a literatura, o cinema, a doçaria portuguesa, o xadrez, a toponímia parisiense, a ética republicana, gatos perdidos, Demis Roussos e a estátua do Dr. Sousa Martins. Os interesses estabelecidos também nos incomodaram a nós. Os concertos ao ar livre no Jardim dos Ulmeiros (em Telheiras) incomodaram-nos a nós, aos interesses estabelecidos e a toda a vizinhança. Este é um blog ecléctico, o que quer dizer que estendemos a nossa mediocridade a vários domínios, em vez de a confinarmos a um só, como é norma. Leitores, este blog continuaria a existir sem vós, mas de forma infinitamente mais deprimente e macambúzia. Como gostaria eu de, em jeito de recompensa pela vossa fidelidade, vos oferecer um daqueles prefácios à maneira de Kierkegaard, ou, à falta disso, um magnífico chá dançante!

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

ANÚNCIO POR CAUSA DA MORAL:

Grande venda de obras de arte.
Todas as peças a €20.

Fotografias, pinturas, ilustrações, pautas musicais originais, manuscritos, etc., etc.

Só autores famosos.

Inauguração no dia 1 de Março, pelas 16h00, na Galeria do JUP (Rua Miguel Bombarda, 187, R/C, no Porto).

O produto das vendas será aplicado na produção da revista "aguasfurtadas" 11.


DE VOLTA: Regressei a Portugal e deixei de escrever no blog. Não tenho paciência para escrever.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

FRUTOS VERMELHOS COM SACAROSE: Sempre ambicionei começar um post com uma frase deste tipo: "Um leitor manifestou o seu espanto por eu não falar de... (inserir tema de actualidade, daqueles em que urge malhar enquanto o ferro está quente)". Eis que soou a minha hora. Um leitor manifestou o seu espanto por eu não falar dos "Morangos com Açúcar". Como sublinha, e bem, uma ausência do país não constitui justificação aceitável. A essência dos "Morangos" é algo de imaterial, que transcende a realidade quotidiana dos episódios que a TVI transmite. Os motivos são outros. Os "Morangos" transformaram-se numa máquina de produzir universais. As personagens são meras instâncias de ideias de personagem, essas formas puras, entre o realista e o folhetinesco, que presidem aos seus movimentos como severos anjos da guarda. Quando acompanhávamos as desventuras da simpática Matilde, a sua espessura humana e o seu papel na economia narrativa global do projecto "Morangos" equilibravam-se com graciosidade, nutriam-se mutuamente. Agora, as personagens parecem paralisadas pela necessidade de significarem algo, de estarem à altura das poderosas linhas de argumento que os ultrapassam, sufocantes na sua ominipresença. Torna-se também consternante para o espectador ter de se conformar com a arbitrariedade com que certas personagens são dispensadas, ao passo que outras, sem que nada justifique o tratamento diferenciado, são retidas. Exemplo: os irmãos João e Pulga sobreviveram à última hecatombe, mas o que é feito do progenitor, superiormente interpretado por Marcantonio Del Carlo? Finalmente, abandonar a zona de Cascais foi um trágico passo em falso. Só alguém completamente desfasado do espírito dos "Morangos" pode admitir que abdicar dos salpicos de água salgada e da pele bronzeada do João Catarré e da Diana Chaves e mergulhar numa weltschmerz urbana e macilenta pode representar um upgrade. Enfim, não me parece, como dizer?, bem.
OS ANTAGONISTAS DA GUERRA DAS CIVILIZAÇÕES NÃO SÃO QUEM SE PENSA: As declarações do arcebispo da Cantuária sobre a eventualidade (e conveniência) da introdução da sharia em Inglaterra demonstram aquilo que entra pelos olhos dentro de qualquer pessoa minimamente atenta ao que se passa no mundo. As quezílias locais e transientes entre religiões diferentes não passam de batalhas de flores quando comparadas com a guerra permanente entre as religiões organizadas e os estados seculares. Esta guerra só ocasionalmente surge sob as luzes da ribalta, mas não conhece tréguas, e os seus intervenientes estão cientes da sua importância vital. Líderes de religiões que supostamente se antagonizam assumem opiniões que parecem cópias conformes umas das outras. Alianças tácitas são estabelecidas com surpreendente facilidade, quando o objectivo é o de lançar areia para a engrenagem dos estados de direito e o de promover mundividências de cariz confessional sobre as leis e instituições democraticamente eleitas. Ainda mais reveladora do que a sua admissão de que a adopção de certas partes da sharia, no seio do sistema legal inglês, é "inevitável", é esta frase de Rowan Williams: «[an approach to law which simply says] there's one law for everybody and that's all there is to be said, and anything else that commands your loyalty or allegiance is completely irrelevant in the processes of the courts - I think that's a bit of a danger» É difícil ser mais transparente no repúdio do princípio basilar do estado de direito.

domingo, fevereiro 10, 2008

TUBÉRCULOS COMESTÍVEIS - TODA A VERDADE: O programa editorial do 1bsk reza assim: «Blog sobre a vida e obra de Heinrich von Kleist, bolos de arroz, a arte pela arte, o Dr. Sousa Martins, e outras coisas começadas por "k". » Que coisas começadas por "k", pergunta-se legitimamente o leitor, provavelmente com um esgar de perplexidade estampado no rosto. Um excelente exemplo é o "East Anglia Potato Day". Intercâmbio de sementes, utensílios para o cultivo deste popular tubérculo, prova de batatas fritas, livros e aconselhamento. Os nomes das variedades de batatas fazem sonhar: Mimi, Riviera, Ulster Chieftain, Cosmos, Magic Red, Vivaldi, Yukon Gold, Bambino, Harlequin, International Kidney, Picasso, Druid, Golden Wonder, Pink Fir Apple, Sarpo Axona... Imaginem-se as longas discussões que se podem manter acerca dos méritos relativos destes tipos de batatas. Cabe-me informar com lástima (e um pedido de desculpas pela minha inépcia) que o "Potato Day" deste ano decorreu neste sábado, pelo que é tarde demais para se dirigirem a Stonham Aspal, North Stowmarket, Suffolk com o propósito honesto de degustar uma Vivaldi frita. "East Anglia Potato Day" não começa por "k", evidência que me parece difícil de negar. Mas seria mesquinho excluir este evento de uma lista de coisas começadas por "k" apenas com base nesse argumento.
ESVAZIAMENTO: Ricardo Bexiga diz que houve estratégia de «esvaziamento». Este blog, por norma, é hostil a trocadilhos envolvendo funções orgânicas. A excepção justifica-se, neste caso, porque a reverência perante o génio é mais forte do que os princípios. E se este título não é genial, não sei o que é o génio. Se o jogo de palavras foi propositado, revela, por parte do seu autor, uma auto-ironia que é apanágio de poucos. Caso contrário, há que prestar tributo à capacidade do ser humano para alcançar a grandeza de forma não premeditada.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

COMO DIZER MAL SEM DIZER MAL: «While Lessing has certainly earned her right to be considered an elder stateswoman of contemporary letters, this portentous and, irritatingly vague tale does not really show her at her best.» (Christina Koning, crítica a "The Cleft", de Doris Lessing, "The Times", 26/1/2008.) Há muitas maneiras de travestir uma falta de consideração em elogio. Neste caso, o disfarce é dos mais diáfanos. Partindo do princípio de que a sinceridade é um dos atributos do bom crítico (admito que este é um ponto não consensual), teria sido mais apropriado que a autora desta crítica exprimisse o seu desprezo sem se julgar obrigada a derivas eufemísticas. "Elder stateswoman" remete para o estatuto, ignorando o talento. É o tipo de qualificativo que nenhum autor sério ambiciona. Deixar subentender que os esforços de um escritor se orientaram para a obtenção desse estatuto é, no caso de alguém como Doris Lessing, tão falso como mesquinho. À falta de sinceridade, outro dos predicados do bom crítico deve ser um conhecimento, pelo menos sofrível, das regras da pontuação. O excerto acima reproduzido nada indicia de lisonjeiro a esse respeito.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

LEI 37/2007: Também já tinha notado que o tema da legislação contra o tabaco nos lugares públicos é dos poucos (talvez o único) capaz de levar os mais cordatos e assisados a inauditos extremos de inanidade. À falta de comedimento e coerência, seria ao menos de esperar que estes diligentes artesãos da opinião dessem mostras de alguma criatividade. Mas o despeito tem como efeito secundário restringir o campo visual aos chavões mais à mão. Não me lembro de ter lido um único artigo contrário à nova lei que não empregasse uma ou mais das palavras "fascismo", "nazismo", "fundamentalismo", "taliban", "apartheid", "ghetto" ou seus derivados. A história continua a ocupar, destacada, o primeiro lugar entre os fornecedores de termos de comparação prontos-a-usar. O último a juntar-se a esta iracunda galeria foi Vasco Graça Moura que, na sua crónica do "DN" nos brinda com um texto muitíssimo engraçado. Entre fazer notar ("a quem possa interessar") que «o conceito de "tabagismo passivo" foi formulado pela primeira vez na Alemanha hitleriana» e alegar, em tom de trágica vitimização, que «[os fumadores] de há muito que se disciplinaram, habituando-se a não fumar nos transportes, em serviços de atendimento ao público, em restaurantes fora das zonas reservadas, etc., etc.» (por "disciplinaram" entenda-se, presumo, "passaram a cumprir a lei, como é obrigação de qualquer um"), VGM, com a verve pletórica que todos lhe reconhecem, encadeia grande parte das keywords que a tradição já exige: estrela amarela, fundamentalismo, ghetto, repressão, politicamente correcto, lei seca, novamente fundamentalismo, novamente ghetto, novamente repressão (VGM não teria à mão um dicionário de sinónimos?) e, qual cereja em cima do bolo, a jihad. O sentido das proporções é um dos nossos bens mais preciosos. Vê-lo soçobrar tão espectacularmente em pessoas inteligentes é deveras embaraçoso, um pouco como observar alguém a falar sozinho em público.

domingo, fevereiro 03, 2008

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha de autocarro Citi1, um cavalheiro lia descontraidamente "The Emigrants", de W.G. Sebald. A colheita de leitores em lugares públicos cantabrigianos tem sido de uma parcimónia que contrasta cruelmente com as minhas esperanças iniciais. Pode dar-se o caso de estar demasiado ocupado com as minhas próprias leituras. Descobri, com efeito, que consigo ler no autocarro sem efeitos adversos para a minha disposição física, apesar da tortuosidade do trajecto.
MEIA DESFEITA: Comparar o template deste blog a meias enfeitadas com raquetes é um dos mais calorosos elogios que eu poderia esperar. As meias enfeitadas com raquetes representam uma maneira de estar na vida na qual me revejo, e o que seria de estranhar era que o template não reflectisse isso mesmo. Este template, com alterações meramente circunstanciais e de pormenor, acompanha-me há quase 5 anos. Muitas peúgas que andam por aí não chegam a durar metade disso, por muito que prometam no início. Dispersei-me um poucochinho, mas penso ter feito passar a essência daquilo que queria fazer passar.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

NO FILM FOR YOUNG MEN: O filme "No Country for Old Men" recebeu, no Reino Unido, uma classificação etária de maiores de 15 anos, ao passo que "Lust, Caution" ficou reservado a maiores de 18 anos. Partindo do princípio de que a classificação atribuída ao filme de Ang Lee se deveu ao seu conteúdo sexual (existe uma cena bastante violenta, mas quase corriqueira quando comparada com os padrões de tolerância actuais), esta discrepância leva a concluir que, para o British Board of Film Censors (BBFC, venerável instituição e pilar da sociedade que não é meu desejo pôr em causa), um adolescente de 16 anos pode ficar mais traumatizado com a ginástica erótica de Tony Leung e Wei Tang do que com a sangrenta chacina em série protagonizada por Javier Bardem. O leitor pode obter aqui e aqui (ver "Certification" em "Additional Details") indícios de que esta fobia relativamente às liberdades artísticas do foro carnal, associada a uma certa tolerância para com a violência no ecrã, parece ser uma especificidade anglo-saxónica. Se a função de um organismo que regula as classificações etárias dos espectáculos é a de reflectir os preconceitos e os pontos sensíveis de uma sociedade, o BBFC está a realizar um trabalho exemplar. De todas as sociedades de que tenho um conhecimento razoável, a inglesa é sem dúvida aquela em que mais se nota o embaraço no tratamento de tudo o que tenha a ver com sexo: a chalaça, a ironia, a esquiva, a brejeirice peso-pluma, tudo é válido quando o objectivo é evitar tratar com frontalidade e naturalidade assuntos de natureza sexual. O site do British Board of Film Censors confirma que a classificação atribuída a "Lust, Caution" se deveu a "strong sex", e a de "No Country for Old Men" a "bloody violence".
OS MILAGRES EXISTEM: Caída, a bem dizer, de pára-quedas, foi publicada na Chessbase uma reportagem sobre um torneio de xadrez realizado na Marinha Grande.
REGICÍDIO: A data que eu celebro é o 5 de Outubro, não certamente o 1 de Fevereiro. A primeiríssima razão é a convicção de que o homicídio é o pior dos crimes. Deixo para outros, com mais conhecimentos sobre o assunto e mais vagar, as considerações sobre a importância deste acto para o processo que levou à implantação de República. O ponto fulcral e inamovível é este: salvo em casos extremos e excepcionais, não me sinto capaz de exaltar a memória de alguém que matou voluntariamente outro ser humano.

Não celebrar não significa renegar. Sou contrário à ideia de que, de alguma forma, o regicídio macula moralmente a fundação da República. A discussão sobre a legitimidade moral do acto de Manuel Buíça e Alfredo Costa é, julgo, inconsequente. Faz tanto sentido como discutir se a aniquilação do Conde Andeiro foi um gesto reprovável. A História não se compadece com julgamentos de valor copiados e colados do nosso dia-a-dia.

Gosto de viver numa República. Gosto de viver num país cujo líder máximo usufrui da legitimidade do voto. Por mais contestável que esta possa ser, é infinitamente preferível à legitimidade do parentesco, essa ficção iníqua que, aqui e ali, continua a perdurar neste século XXI, como um sonho mau. Os avanços, recuos e arabescos laterais da História que transformaram Portugal naquilo que hoje é merecem, obviamente, estudo aprofundado, mas importam-me menos do que esta constatação: vivo num país cuja figura suprema, ao ser eleita pelos seus cidadãos, tem plena autoridade para os representar e actuar como garante das liberdades constitucionais, essa autoridade de que carece um monarca, bafejado apenas pelos arbítrios da hereditariedade e por uma sugestão, mais ou menos explícita, de Graça divina (o ingrediente mágico das monarquias).

quinta-feira, janeiro 31, 2008

PELAS RUAS DE CAMBRIDGE: Uma alternativa anfíbia ao Clive é a escola de condução "Toad's School of Driving".
NOLI ME TANGERE: Foi em VHS, sim senhor. E às prestações. Trouxe as cassetes do "Out 1" da fabulosa mediateca Jean-Pierre Melville (à rue de Tolbiac) cuja colecção de vídeos tinha a particularidade (única entre as bibliotecas de Paris, pelo que me apercebi) de estar ordenada pelo nome do realizador e não pelo título, sinal evidente de escrúpulo cinéfilo. Quanto ao vagar, foi sendo encontrado às prestações, porque 12 horas sempre são 12 horas (e não 8, por exemplo, muito menos 4). Outro feito rivetteano que me deixa mais do que um bocadinho ufano é ter assistido a estreias de filmes deste realizador em 3 países diferentes: Itália ("Haut Bas Fragile"), França ("Secret Défense") e Portugal (vários, a começar por "La Bande des Quatre"). Se, como é previsível, a minha saída de campo deste fim-de-semana para observar espécies de esquilos raras for cancelada, devido às inclemências da meteorologia, juntarei mais um binómio nação/filme a esta contabilidade. Com efeito, "Ne Touchez pas la Hache" ("Don't Touch the Axe") estreia amanhã aqui em Cambridge, no mítico Arts Picture House. Pergunto-me como será a tradução portuguesa do título deste filme. "Não Toques no Machado" remete mais para o parque Mayer do que para Balzac.

terça-feira, janeiro 29, 2008

DON'T COME KNOCKING ON THAT DOOR:


(St. Giles's Church, Cambridge)

segunda-feira, janeiro 28, 2008

AJUDANTES DA GRAVIDADE: Um fabuloso post sem palavras do Francisco. De cima para baixo, e correndo o risco de quebrar o mistério:
  • Fejria Deliba e Benoît Régent em "La Bande des Quatre", de Jacques Rivette.
  • Laure Marsac e Sandrine Bonnaire em "Secret Défense", de Jacques Rivette.
  • Jerzy Radziwilowicz e Emmanuelle Béart em "Histoire de Marie et Julien", de Jacques Rivette.

Julgo recordar-me de uma outra cena, também em "Secret Défense", onde Jerzy Radziwilowicz persuade/força uma das personagens (mas qual delas?) a largar uma arma. Tenho o DVD ao alcance da mão. Assim a minha vida de observador da vida selvagem mo permita, tentarei localizar a cena em questão. Assim que tiver novidades, os leitores serão os primeiros a saber.

Fevereiro e Março serão meses euforicamente vividos sob o signo de Rivette, por ocasião dos 80 anos desse franzino filho de um farmacêutico de Rouen, e da retrospectiva que a Cinemateca lhe dedicará.

domingo, janeiro 27, 2008

HORA DISCOVERY 'R' US:


Esta é uma bofetada de luva branca em todos aqueles (e são legião!) que duvidavam da minha vocação para fotógrafo da vida selvagem.

O habitat destas simpáticas criaturas concentra-se nas zonas mais inóspitas e inacessíveis da região da East Anglia. Foi um colossal golpe de sorte deparar com uma em pleno centro de Cambridge, a dois passos do museu Fitzwilliam (aberto de terça a sábado das 10 da manhã às 5 da tarde, aos domingos do meio-dia às 5 da tarde, entrada livre).

A minha afinidade para com os esquilos tem já uma longa história. Por exemplo, certa vez um vivaço membro desta espécie atravessou-se à minha frente em pleno parque de Schönbrunn. A princípio, confundi a sua atitude, demasiado amigável, com um gesto de agressividade, quando afinal se tratava somente da natural manifestação de uma apurada vontade de socializar. Considerei a hipótese de o adoptar, mas receei que a mudança de Viena para Lisboa pudesse acarretar consequências negativas para a qualidade de vida do animalzito.

sábado, janeiro 26, 2008

PELAS RUAS DE CAMBRIDGE: Leitor que lês este humilde blog, aceitarias alguma vez recorrer aos serviços de uma escola de condução baptizada "Drive with Clive"? Se a tua reacção é um consternado abanar de cabeça é porque vemos o mundo com os mesmos olhos. (Que sirva de lição àqueles que não acreditam na relação de causa/efeito entre um nome e uma vocação. Neste caso, com a ajuda de um incipiente gosto pelas regras da rima.)
DO BRASIL PARA O MUNDO: A revista online Critério inclui, no seu último número, um dossier temático sobre Delmore Schwartz, do qual consta um artigo da minha autoria.
UM BLOG COM VOZ: Uma árvore com voz em forma de blog. Borges, David Mourão-Ferreira, John Cage e Pogues marcam presença no aquário do peixe solúvel.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

É ENTRAR, É ENTRAR, O ESPECTÁCULO VAI COMEÇAR: Certas pessoas parecem retirar prazer de exercícios de contorcionismo argumentativo destinados a refutar o irrefutável ou a defender o indefensável. Em certos casos, o exercício é levado a tais extremos que, mais do que contorcionismo, se torna necessário falar de prestidigitação. Uma prestidigitação de feira popular, em que os truques só entretêm a multidão até alguém descobrir o compartimento onde se escondem as pernas da partenaire, ataviada de lantejoulas, que foi supostamente serrada ao meio. Numa das suas últimas crónicas, João César das Neves tenta convencer o seu respeitável público (perdão, os seus leitores) de que a Europa contemporânea foi obra da Igreja Católica. Uma coisa que ninguém nega é o papel importante que a Igreja desempenhou, na Idade Média, na conservação de arquivos e obras fundamentais de autores das civilizações clássicas (suponho que JCN inclui os atenienses do século de Péricles entre os pagãos "obscurantistas"). É também evidente que a Igreja, valendo-se do seu estatuto de instituição mais sólida e bem organizada ao longo de vários séculos, propiciou alguma estabilidade no continente europeu (mas não certamente da forma generalizada e idílica que JCN nos pinta). Isto, claro, quando não se entretinha a lançar achas para algumas fogueiras cuja combustão servia os seus desígnios. Daí a atribuir à Igreja o mérito por todas as invenções e progressos registados durante a Idade Média vai um imenso abismo, que JCN transpõe com a ligeireza despreocupada com que um gaiato salta uma poça de água. Quem o levasse à letra, ficaria convencido de que o arado, os óculos, as tintas a óleo e "as bases da ciência" (!!!???) foram obra de bem-intencionados monges e clérigos. As alegações de JCN não poderiam ser mais explícitas: «Em todos estes avanços, e muitos outros, têm papel decisivo mosteiros, conventos e escolas da catedral(...)». Teria especial interesse em que me fosse explicado o papel dos mosteiros na invenção do soneto. Com aquilo que o próprio tomará talvez por subtileza, JCN limita a sua análise trapalhona à Idade Média, calando-se quanto àquilo que a História regista a partir da contra-reforma. Mesmo que se admitisse, esforçando os limites da boa vontade, que a Igreja foi a principal responsável pela criação de um espaço europeu de progresso material e científico, uma rápida pesquisa na Internet ou numa boa biblioteca permitiria localizar centenas de exemplos de situações em que, nos últimos séculos, as autoridades eclesiásticas e a mentalidade cristã se afirmaram como os principais inimigos da ciência, do pensamento livre e da emancipação dos povos. Galileo Galilei, a Inquisição, o Índex, as encíclicas contra a separação Igreja/Estado e a liberdade de expressão, as cumplicidades com algumas ditaduras odiosas do século XX, são apenas alguns dos exemplos que não deixariam de ocorrer a qualquer cidadão normal que, como fonte de informação, não se ficasse pelas homilias de JCN ou de uma das suas cópias-conformes. Há limites para a credulidade da populaça. A Europa moderna construiu-se muito mais contra a Igreja do que por obra dela, e esse conflito não acabou: perdura ainda hoje, como o comprova a leitura regular dos jornais, povoados de intromissões na vida secular por parte daqueles a quem o bom-senso aconselharia a confinar-se ao tal reino que, diz-se, não é deste mundo.
ROBERT JAMES FISCHER 1943-2008:



Como xadrezista, foi um dos maiores talentos do século XX. Durante curtos períodos, exerceu um domínio avassalador sobre os seus pares, com poucos paralelos na história da modalidade. (Estou a pensar, em particular, no período que mediou entre o interzonal de Palma de Maiorca de 1970 e o match final do torneio dos candidatos contra Petrossian, em 1971.) A sua carreira foi mais curta e esparsa do que a de outros campeões do mundo, como Lasker, Capablanca, Alekhine, Karpov ou Kasparov, o que forçosamente condiciona qualquer comparação que se pretenda fazer entre eles. O seu estilo era enérgico, agressivo e pragmático.

Como pessoa, era execrável. Durante a sua carreira profissional, era conhecido pelo egocentrismo, pela falta de urbanidade e pelos seus caprichos. Na fase final da sua vida, resvalou por uma arrepiante espiral descendente que o levou à paranóia, ao anti-semitismo e à mania da perseguição. Na sequência dos atentados de 11 de Setembro, declarou "This is all wonderful news". É interessante constatar como o seu enorme talento parece ter servido como atenuante para as suas acções e declarações deploráveis. Até ao seu desaparecimento, nunca faltaram os amigos e ex-amigos prontos a desculparem-no. O governo da Islândia achou por bem conceder-lhe cidadania honorária, o que lhe permitiu viver os seus últimos anos em tranquilidade e segurança.

Fischer foi possivelmente a figura que maior influência e impacto teve no xadrez, na era moderna. O mediatismo que rodeou a sua disputa com Boris Spassky em 1972, que o levou ao título do campeão do mundo, representou um pico de popularidade e visibilidade que o xadrez muito dificilmente voltará a alcançar. Ao morrer, Fischer não se transformou em lenda. Reduzido a uma caricatura de si próprio, era já como lenda que ele sobrevivia no imaginário dos que o admiravam. E ninguém que aprecie o xadrez pode deixar de admirar profundamente aquilo que Fischer nos legou de mais precioso: a sua paixão por este jogo sublime, e as suas partidas.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

HÁ PAÍSES EM QUE A LAICIDADE É LEVADA A SÉRIO: O papa renunciou a visitar a universidade da Sapienza, em Roma, onde deveria ter pronunciado o discurso de abertura do ano lectivo. Parece-me que os protestos de alguns professores e alunos, que acabaram por levar à inviabilização da visita, foram um tudo-nada despropositados. A reacção mais indicada, a meu ver, teria sido outra: pedir, como legítima e cordial contrapartida ao privilégio concedido ao cidadão Ratzinger, que o presidente do Departamento de Física (aparentemente o mais fortemente implicado no protesto) fosse convidado a fazer a próxima bênção Urbi et Orbi. Tudo em nome da tolerância e da reconciliação entre ciência e religião. Sejamos claros: a presença deste papa, que já se distinguiu por afirmações anti-científicas, numa universidade tem tanto cabimento como a de um busto de Rosa Casaco num museu dedicado à resistência anti-fascista.
SÓ FALTA A MENS SANA: Hoje bebi um smoothie que, segundo reivindicação do fabricante, continha mais de 550% da dose diária recomendada de vitamina C. Sinto-me muito bem, sinto-me activo, alerta, pleno de ânimo, e nem um bocadinho oxidado. O smoothie continha acerola e "rosehip". Fiquei a saber que este último é o fruto da roseira, particularmente rico em vitamina C, para além de outras vitaminas, ácidos gordos e flavonóides. Para que o dia fosse perfeito, só me faltava ver um esquilo a atravessar a rua, e foi precisamente isso que sucedeu.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

CH-CH-CHANGES: Em resposta à pergunta de um entrevistador, Nick Clegg, recentemente eleito líder do partido Liberal Democrático, em Inglaterra, afirmou não acreditar em Deus. Pessoalmente, acho que tem escassa relevância o facto de este ou aquele líder político acreditar ou não em Deus. Trata-se de uma questão do foro pessoal. O que me interessa, e muito, é saber se a pessoa em questão deixa que as suas crenças interfiram nos seus processos de decisão, o que pensa sobre a separação Igreja/Estado, e se é mais ou menos imune às pressões exercidas por sectores religiosos na vida pública. Entre outras coisas. Contudo, há que admitir ser positivo e salutar para uma democracia que o líder de um partido com alguma expressão se sinta à vontade para manifestar a sua não-crença, sem rodeios nem tergiversações. Em quase todas as épocas do passado das democracias, e, ainda hoje, em muitos países, isso seria equivalente a suicídio político (sem prejuízo de outras consequências desconfortáveis para a pessoa jurídica ou física do indivíduo). O "Daily Telegraph", curiosamente, parecia mais preocupado com o facto de Clegg ter declarado que "Changes", de David Bowie, é o seu álbum preferido (quando na verdade é um single). Clegg parece apostado em fazer passar a sua mensagem às gerações mais jovens, tendo inclusivamente recrutado Brian Eno para o ajudar nesse desiderato. A acreditar no "Telegraph", tão colossal ignorância da história do rock não pode deixar de augurar um futuro sombrio para o timoneiro dos Lib Dems.

terça-feira, janeiro 08, 2008

LEI 37/2007: Deixou-me encantado, como é óbvio, a entrada em vigor da lei de protecção dos cidadãos da exposição involuntária ao fumo do tabaco (pois é disso que se trata, e não de uma perseguição aos fumadores, como por vezes se tenta fazer crer). Contudo, trata-se de uma lei marcada por alguns aspectos singularmente asininos. A introdução de excepções (Artigo 5º) é injustificada. Se é consensual que o tabagismo passivo mata e incapacita, numa escala preocupante, como se compreende que a legislação continue a admitir a exposição involuntária ao fumo de trabalhadores e clientes? Só o desejo de agradar a gregos e troianos, esse inexpugnável atavismo do génio português, pode dar origem a aberrações deste género. A maneira pouco explícita como a lei descreve o equipamento técnico que seria requerido, assim como os custos associados, parecem, afortunadamente, ter dissuadido a grande maioria dos proprietários de criar zonas de fumadores nos seus restaurantes e cafés. Também isto está de acordo com as boas tradições portuguesas: as anfractuosidades da legislação são alisadas pela pouca competência com que foram redigidas, e toda a gente fica satisfeita. Amanhã é outro dia, e o que é isto comparado com o raio da Terra expresso em milímetros. Aqui de Inglaterra, onde o bom senso chegou com alguns meses de avanço (sem excepções, sem alíneas), antecipo já o momento em que entrarei numa pastelaria de Lisboa com a garantia de, enquanto saboreio a minha beberagem acompanhada por bolo ou derivado, poder respirar à vontade. Até vai parecer estranho.
MODERN TALKING: Num ensaio publicado em edição recente do "Times Literary Supplement", Gabriel Josipovici lamenta o facto de a esmagadora maioria dos escritores contemporâneos do Reino Unido escrever como se o modernismo não tivesse existido. Pior ainda, como se o modernismo tivesse sido um episódio embaraçoso, que se despacha com uma piada e um encolher de ombros. Achei particularmente conseguida a comparação entre Kingsley Amis e Philip Larkin (que, nas cartas que trocavam, se entretinham a apoucar Virginia Woolf, D.H. Lawrence e outros seus contemporâneos) e um par de crianças que, perdidos numa festa de adultos, onde ninguém lhes liga, se vêem reduzidos a sussurrar graçolas dirigidas aos convivas. Não pude deixar de associar estas reflexões ao falecimento de Fernanda Botelho, exemplo excelente de uma autora agudamente consciente das convulsões que o romance conheceu no século XX, e que soube, de forma magistral, integrar essa herança no processo de maturação da sua voz ficcional própria. Não são muitos os nomes da actual ficção portuguesa em relação aos quais se pode dizer o mesmo (Vergílio Ferreira era outro exemplo). Talvez porque o modernismo foi, entre nós, sobretudo obra de poetas, os autores de hoje, com demasiada frequência, preferem alojar-se nos seus pequenos nichos de pós-modernismo estéril do que dar continuidade ao trabalho de reflexão iniciado pelas gerações anteriores. Um aspecto que Josipovici deixou talvez sem a devida ênfase foi a reduzidíssima tendência dos ingleses para se deixarem contaminar por influências estrangeiras. Mais do que a uma antipatia pelo modernismo, parece-me ser a essa resistência aos ventos que sopram do continente que se deve atribuir o défice de consciência histórica dos ficcionistas britânicos.

domingo, janeiro 06, 2008

FERNANDA BOTELHO: Fernanda Botelho faleceu e, como seria de esperar, não mereceu mais do que o destaque que a imprensa reserva (apetece-me dizer "concede, a contragosto") aos criadores e artistas que não tiveram a ventura de, em vida, aceder ao círculo de ícones da cultura oficial onde residem Saramago, Lobo Antunes, Paula Rego, Manoel de Oliveira, e poucos mais. Sou admirador dos romances de Fernanda Botelho. Se bem que a sua obra não possua a dimensão da de Agustina Bessa-Luís, têm em comum o facto de serem subvalorizadas, e de confirmarem uma minha convicção que vem de longe: a de que, em Portugal, se consome demasiada energia em picardias antunino-saramaguianas para reconhecer a excelência e a grandeza de certos autores que cuidam mais mediocremente das suas imagens. O que eu mais aprecio na maneira de escrever de Fernanda Botelho é o modo como explora a riqueza e complexidade humana das suas personagens nos seus romances, sem que isso a iniba de empreender um trabalho subtil e arrojado sobre a matéria ficcional. Por outras palavras, a profundidade das personagens nunca serve de álibi para descurar o aspecto formal. Os seus romances possuem estruturas complexas, por vezes desconcertantes, mas a sobriedade da autora nunca permite que se transformem em meros exercícios de estilo, da mesma forma que um sempre presente e saudável cepticismo a respeito da natureza humana impede que as personagens assumam preponderância sobre a ideia de ficção que funciona como fulcro do livro. Como seria de recear, muitos dos testemunhos recolhidos aquando da morte de Fernanda Botelho (não me lembro dos responsáveis, e pouco importa) pareceram mais apostados em salientar o facto de se tratar de uma mulher num mundo predominantemente masculino (com o que isso acarreta de loas à sua "visão" e "escrita feminina") do que em explicar a sua importância e valorizar o seu talento.
UM GRANDE POST: Um grande post para começar bem o ano de 2008. Temo apenas que os esforços e a clareza argumentativa do Ricardo se baldem, perante a proverbial má-fé dos potenciais destinatários. Esthers Mucznicks, Joões Césares das Neves, Antónios Marujos e outros que tais continuarão a defender que a laicidade não é mais do que uma forma de religião, que o ateísmo conduz inevitavelmente à amoralidade e é o mais eficaz cadinho para a ditadura, e que toda e qualquer medida que vá no sentido de concretizar a separação entre Igreja e Estado é um atentado contra as crenças profundas do bom povo português. Há pouco a fazer face àqueles que substituiram o bom senso e o exercício da racionalidade pela mera enunciação de dogmas.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

OS MEUS FILMES DAVAM UMA VIDA: Listas de filmes da vida são uma das coisas que tornam a existência mais doce, sobretudo quando a sua elaboração tem como efeito secundário, ou mesmo principal, um debate sobre o que vem a ser afinal um filme da vida. Com pouco tempo disponível entre mãos (em vésperas da partida para mais uma expedição de bird-watching, squirrel-frightening e kitten-fondling nos confins bravios de East Anglia), e sem desprimor para as bem fundamentadas opiniões alheias, atrevo-me a avançar três critérios necessários e suficientes para qualificar como "filme da vida" um filme que, de outro modo, não o seria.
  • Provoca forte e duradoura impressão no espectador.
  • Presta-se a que sobre ele se reflicta (o que exclui arrufos e meras reacções do foro visceral).
  • Essa impressão interage com os (mais ou menos voláteis) estados de espírito que marcaram uma determinada fase da vida do espectador.

Passando à prática, é com prazer que respondo ao desafio lançado pelo Sérgio do Auto-Retrato (há mais de 2 meses, é certo, um tempo de reacção que faz jus às tradições deste blog):

(5 de entre os 50 ou mais que poderia escolher. Demasiados filmes para tão pouca vida?)

LEIS DE KEPLER: O Umblogsobrekleist deseja a todos os seus leitores, clientes, visitantes, sócios, simpatizantes e credores um aprazível périplo da Terra em torno do Sol. Obrigado por passarem aqui. Tentarei ser mais assíduo em 2008, ano da entrada em vigor da lei 37/2007, das Olimpíadas em Dresden (sim, leram bem, Dresden), dos 80 anos de Jacques Rivette, e dos previsíveis revivalismos lacrimosos por ocasião do centenário do regicídio. Assunto não irá faltar.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

PASSEANDO POR CAMBRIDGE NUM DOMINGO COM O NATAL À PORTA:
  • Perto de Christ's Pieces, um pai de família que devora uma salsicha no pão vê-me a comer uma banana, e comenta «Taken the healthy choice?».
  • Um saxofonista interpreta um tema de Norah Jones, perto da entrada do Boots, ofuscando as mini-filarmónicas que povoam as ruas mais concorridas do centro da cidade.
  • Na livraria Borders, uma mulher, ao telefone, pergunta «How much into architecture is he?». A resposta parece ter sido categórica, e a pessoa em questão (que espero não seja leitor deste blog) pode contar com um livro sobre as "Houses of Parliament" no sapatinho.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No comboio Cambridge-Londres, uma jovem lia "The Crying of Lot 49", de Thomas Pynchon.


Pelo menos durante uma manhã, o sinistro segredo de Trystero pairou sobre as estações de Foxton, Shepreth, Meldreth, Royston, Ashwell & Morden, Baldock...


segunda-feira, dezembro 10, 2007

FINGERLESS, LAMBSKIN, LEATHER, STRIPED, FLEECE, AMBIDEXTROUS: Este site propõe-se reunir luvas perdidas na cidade de Pittsburgh, Pennsylvania, com os legítimos donos. Ou, mais exactamente, com as mãos geladas que tanto sentem a falta do artigo perdido. Há dias, encontrei um par de luvas num autocarro. Curiosamente, pareciam-se muito com estas. Não preciso de muito mais para acreditar num sinal do destino. Talvez a minha razão de ser e de estar no mundo tenha a ver com luvas. O meu destino não é loquaz. O meu destino é taciturno e lacónico, e esta seria uma preciosa ocasião para que o meu destino mudasse de atitude.

sábado, dezembro 08, 2007

LE POINT CENTRAL EST PRÉCISÉMENT LE SENTIMENT DE L'ÊTRE: «Au temps où j'écrivais la seconde et la troisième partie de ce livre, il m'est souvent arrivé de me répeter silencieusement ou à mi-voix à moi-même: «Zénon, Zénon, Zénon, Zénon, Zénon, Zénon...» Vingt fois, cent fois, davantage. Et sentir qu'à force de dire ce nom un peu plus de réalité se coagulait.» Isto escreve Marguerite Yourcenar no "Carnet de notes de L'Oeuvre au Noir". Como se fazer existir no mundo a sonoridade das sílabas do seu nome conferisse a uma personagem a sua legitimidade. Mais ainda: a sua inevitabilidade, um travo a facto consumado que consagra a responsabilidade do autor, para quem o retrocesso deixa de ser possível. Esta repetição é mais do que um mantra: é um salto no vazio, uma abdicação do direito a não criar. Mais do que criar um vínculo, o acto de nomear faz parte do vínculo.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No cinema Arts Picture House, de Cambridge, um jovem lia um livro de V.S. Naipaul. Sentou-se, tal como eu, na 3ª fila da plateia, não sei se por gostar de estar perto do ecrã, ou simplesmente por ser um lugar com iluminação suficiente para continuar a ler o seu livro antes do início do filme ("The Darjeeling Limited", Wes Anderson).

segunda-feira, dezembro 03, 2007

INITIATED INTO AN ORDER OF EXILES:



Os telhados de Paris, modo de usar; ou, Rivette em Cambridge; ou ainda, Trata Bem A Tua DVDteca E A Tua DVDteca Tratará Bem De Ti.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: (Neste caso, as minhas.) Lembro-me de ler que Marguerite Yourcenar declarou que preferiria uma morte lenta, para sentir o processo entranhar-se dentro de si. Foi impossível não recordar esta citação (talvez deturpada) ao ler o relato da morte auto-infligida da personagem Zénon, que encerra o romance "L'Oeuvre au Noir". Ainda estou na dúvida sobre se essas páginas tão singularmente lúcidas e serenas, mas também brutais, ganharam ou perderam intensidade ao serem lidas no piso superior de um autocarro da carreira "Citi 1", a caminho do centro de Cambridge, sacudido pelos solavancos do tráfego que faziam oscilar ruidosamente uma garrafa de "Dr. Pepper" abandonada no chão. Ao meu lado, esquecido sobre um banco, um par de luvas que entreguei ao condutor antes de sair. A vida, fazendo-se lembrada com bem-humorada prepotência?

quinta-feira, novembro 29, 2007

XADREZ: Para que um xadrezista português mereça algum destaque na imprensa generalista é necessário que o feito seja pouco menos que colossal. E foi o que aconteceu desta vez, com o desempenho notável de Ruben Pereira, que se sagrou vice-campeão mundial de sub-16 (com os mesmos pontos do vencedor), no recente campeonato disputado em Kemer-Antalya, na Turquia. Ruben Pereira é sem dúvida a maior esperança de um xadrez português que tarda em renovar-se, mau grado numerosas iniciativas de promoção e incentivo à modalidade, sobretudo ao nível das escolas. É difícil lutar contra a indiferença da comunicação social e contra a incipiente implantação do xadrez na sociedade portuguesa. Leitores habituais deste espaço estarão naturalmente desejosos por se inteirarem do resultado da goesa Ivana Maria Furtado, e é com indisfarçável gáudio que informo que ela triunfou, isolada, na categoria feminina de sub-8 anos. Em sub-18, a sua compatriota Mary Ann Gomes guindou-se a um honroso 6º lugar.
POST DE RODAPÉ: A propósito do Magdalen College, afiançaram-me um dia que a pronúncia correcta do seu nome é qualquer coisa como "Maudlin", ao passo que o nome da rua Magdalen Street, esse, deve ser pronunciado de forma mais ortodoxa ("Mag-da-len", como se escreve). Existe um parque de grande beleza, povoado por veados, adjacente ao Magdalen College.
QUIZ SHOW: Sou fã do concurso "University Challenge", uma instituição da televisão inglesa cuja primeira emissão remonta a 1962 (com um interregno de 7 anos pelo meio). Trata-se de um concurso de cultura geral, com a particularidade de ser disputado por equipas compostas por alunos de uma mesma universidade. São duas as características que fazem sobressair este concurso dos demais: a grande exigência das perguntas e o modo directo e pragmático como elas são colocadas, sem lugar para conversas de salão nem para dispensáveis minudências autobiográficas. Na última sessão a que assisti, uma das perguntas era qualquer coisa como: «Qual o nome do escritor francês experimentalista autor do maior palíndromo conhecido em língua francesa?». Após algumas hesitações, e de alguém ter murmurado "Queneau" em tom dubitativo, o jovem concorrente da Universidade de Birmingham (que, por sinal, foi derrotada ingloriamente pelo Magdalen College de Oxford) pronunciou, quase a medo, a resposta correcta: "Perec". Foi um momento de televisão muito bonito.

quarta-feira, novembro 28, 2007

PAINT IT BLACK:
NO BIKES
or we'll paint them black.
O facto deste anúncio estar afixado ao gradeamento do Departamento de História da Arte da Universidade de Cambridge empresta um certo peso à ameaça.

segunda-feira, novembro 26, 2007

PASSEANDO POR CAMBRIDGE: Passeando pelas ruas e lojas de Cambridge, o cidadão atento presencia cenas que merecem menção pela sua suculência inaudita. Por exemplo, num estabelecimento de restauração rápida de Regent Street uma jovem contava a uma amiga o enredo do romance "The Line of Beauty", de Alan Hollinghurst (ou talvez da série da BBC nele baseada). Por entre o ruído denso e tenaz que os convivas produziam, escutavam-se frases como "he was a Tory MP" e "what it was like being gay in the eighties". Na opulenta livraria Heffers, duas mulheres riam com juvenil franqueza diante de uma antologia do poeta John Betjeman, aberta sem dúvida num qualquer poema de elevado teor cómico. Nada disto se compara ao homem que, dentro de um caixote do lixo público, cantava "I'm Like a Bird", de Nelly Furtado, acompanhando-se à guitarra. Foi há cinco anos, nesta mesma cidade. Eram outros tempos, mais loucos, mais eufóricos.

terça-feira, novembro 20, 2007

A GUIDE BOOK OF EAST ANGLIA SMALL RODENTS: Algumas limitações no acesso à Internet, assim como o eclodir de um insuspeitado interesse pela observação de esquilos, poderão levar a que este blog continue a ser infrequentemente actualizado nos próximos tempos.
EVERYTHING IS MEANT: A melhor notícia para a blogosfera desde a blogosfera. Aqui.

quarta-feira, novembro 14, 2007

NECROLOGIA DOS PARASITAS:
FLEA
FUNERALS
DAILY
(Cartaz numa loja de animais ao pé de minha casa.)
POLICHINELO EM EAST ANGLIA: Estou a postar de uma cidade cujo nome começa por "Cam" e acaba em "ridge", e cuja universidade é uma das mais famosas do mundo. Precisam de mais alguma pista? Há corvos no cimo das árvores, cogumelos exuberantes e um restaurante vegetariano onde servem um tajine com batatas doces ao qual nenhum adjectivo mais brando do que "celestial" faz jus.

domingo, novembro 04, 2007

ESCOLA PÚBLICA (2): Por vezes, fico com a ideia de que certos cronistas da imprensa portuguesa se entregam a uma espécie de concurso, que consiste em escrever os mais inacreditáveis contra-sensos sem perder a compostura. A não ser que, em vez de um concurso, se trate de um exercício espiritual, à maneira dos de Santo Inácio de Loiola, o que constituiria certamente uma atenuante, visto tratar-se de uma tentativa de auto-aperfeiçoamento. No "DN" de ontem, por exemplo, João Miranda escreve: «Um sistema público de educação acaba sempre por ficar refém de interesses particulares.» Preto no branco, e logo a abrir a crónica. Pouco adiante, faz questão de especificar: «Fica refém dos grupos com poder político (sindicatos dos professores, grupos religiosos, partidos políticos, burocratas) que conseguem colocar os recursos públicos ao serviço dos seus interesses.» Sucede amiúde que uma crónica que abre com uma asserção aparentemente tão indefensável acabe por revelar uma lógica interna perfeitamente válida. No caso deste artigo, essa lógica é até das mais límpidas, embora não seja levada até às suas últimas consequências. Parece inegável que certos grupos têm o poder e a margem de manobra para co-optar o ensino público, e que nele encontram um caldo de cultura para as suas agendas e interesses. Não é por não reflectir a realidade que a primeira frase desta crónica é absurda e chocante. É por omitir que, num sistema de ensino dominado por instituições privadas, esses mesmos sectores, interesses e grupos já não precisariam sequer de tomar o ensino como refém: seriam livres para vicejar, para criar as suas esferas de influência, para competir pela oportunidade de influenciar mentalidades, para impor as suas mundividências na maior das legalidades e normalidades.
ESCOLA PÚBLICA (1): Pois é, uma das consequências de ler blogs é a segurança de, mais cedo ou mais tarde, encontrarmos alguém que exprimiu com rigor e fluência precisamente aquilo que pensamos sobre um determinado assunto. Assim se desencoraja um cidadão de perder tempo e energia a procurar exprimir-se pelas próprias palavras. Não está certo. No caso mais recente, o alguém é Vital Moreira, o assunto é o (já irritante mas nem por isso menos crucial) debate escola pública/escola privada, e o aquilo é isto. Transcrevo parte da última frase, que me parece merecer ênfase: «(...) um Estado laico deve financiar um ensino público aberto e plural, como forma de inclusão social e de igualdade de oportunidades, e não um ensino segregado de acordo com orientações religiosas ou filosóficas particulares.» Este aspecto tem vindo a ser deixado pudicamente de lado, mas nunca deixa de estar presente, ainda que de forma latente. Se se consumasse o desmantelamento da escola pública, ou uma sua menorização, que autoridade teria o Estado para impor programas e currícula uniformemente aplicáveis a todos os estabelecimentos de ensino? Que garantia teríamos de que facções comunitárias, religiosas ou ideológicas não passariam a moldar os programas leccionados, de acordo com as suas agendas particulares?
PARMI NOUS: Recente overdose de Godard, entre outros efeitos secundários menos verbalizáveis, permitiu-me constatar que a frase "Les Signes Parmi Nous" (utilizada como título de um capítulo das "Histoire(s) du Cinéma") é pronunciada também nos filmes "Deux ou Trois Choses que Je Sais d'Elle" e "JLG JLG Autoportrait de Décembre".
MAIS UMA QUE MORDE O PÓ: Agradeço aos blogs O Vermelho e o Negro, O Blogue Que Muda de Nome, e Errância terem-me passado o testemunho da original corrente "página 161", ignorando talvez a minha incurável propensão para cercear sem dó todos os memes em cadeia que me passam pelas mãos. É verdade, o 1bsk possui um historial de interromper correntes já crescidote. Somos a Pasionaria das correntes. No pasarán! Para além de as interromper, raramente hesito em subvertê-las. No caso desta, já de si tão arbitrária, não me ocorreu uma subversão com um mínimo de salero, pelo que me limito a cumprir as regras, com a brandura com que se fazem as últimas vontades a um moribundo. Pego no livro que está mais próximo: é "Northwest Italy", de Dana Facaros e Michael Pauls, da série de guias turísticos Cadogan. Abro-o na página 161: dito e feito. Transcrevo a 5ª frase completa: «There's also plenty of less piquant seafood, too (L40-55 000, closed Mon).» Introduzo uma breve contextualização, que não era pedida mas que me parece oportuna. A frase supra diz respeito ao restaurante "Gambero Rosso" (Piazza Marconi, 16), situado na cidade de Vernazza, na Ligúria. O prato em comparação com o qual a outra comida é menos picante é tegame di acciughe, à base de anchovas. Por fim, chega a altura de não passar a corrente a outros 5 blogs. Em contrapartida, tenho entre mãos uma infalível oração a S. Judas Tadeu, que enviarei ainda hoje a 90 confrades, acompanhada por sinistras ameaças aos não cumpridores.

quinta-feira, novembro 01, 2007

OBJECÇÃO: Discordo, Ricardo. Um mundo em que a objecção de consciência seja evocada por dá cá aquela palha parece-me pregnante de excitantes potencialidades. Regra geral, a objecção de consciência, nos tempos que correm, é evocada por minorias ou nichos comunitários/religiosos, que brandem as suas sensibilidades beliscadas e princípios feridos para justificar a recusa de cumprir leis ou normas que a sociedade civil lhes impõe. Mas isto não tem de ser assim! Teria o seu quê de estimulante ver membros dessa mesma sociedade civil a recorrer à objecção de consciência, como reacção a situações que lhes parecessem atentatórias da legalidade, em particular concessões abusivas a sectores religiosos. Por exemplo:
  • funcionários da Presidência República em greve de zelo devido à presença de figuras da hierarquia católica no protocolo do Estado;
  • professores recusando-se a ensinar em salas de aulas enfeitadas com crucifixo;
  • funcionários da RTP negando-se a colaborar em transmissões em directo da procissão das velas e na transmissão da mensagem de Natal do cardeal, aos gritos de "Serviço público sim, catequese não!";
  • médicos e funcionários de hospitais públicos recusando-se a entrar em quartos onde estivesse presente, em clara violação do princípio da neutralidade religiosa, um capelão assalariado pelo Estado.

Pessoalmente, eu apoiaria todas estas acções.

E você, caro leitor, já praticou hoje algum acto de objecção de consciência?

DOIS EM UM: "Peindre ou Faire l'Amour" é um filme, realizado pelos irmãos Arnaud e Jean-Marie Larrieu, que recentemente passou pelas salas lisboetas. Por uma vez, a tradução do título em português foi o mais literal e o menos fantasista possível: "Pintar ou Fazer Amor". Talvez como reacção a esta sensaboria, quem inseriu o título no bilhete emitido pelo cinema King achou por bem introduzir uma genial variante pessoal:


Pintar ou fazer amor? A necessidade de escolher entre duas alternativas mutuamente exclusivas será, na verdade, incontornável? Para quê atormentar o espírito com um falso dilema? Não tem sido o cinema, desde 1895 e a entrada do comboio na gare de La Ciotat, uma porta aberta para o sonho e para a ousadia?

sábado, outubro 27, 2007

JÁ FUI AO BRASIL, PRAIA E BISSAU...: A campeã do mundo de xadrez da categoria de menos de 8 anos é indiana, e chama-se Ivana Maria Furtado.
UM TEMPO PARA VER OS QUADROS E UM TEMPO PARA ESPERAR PELA SUA VEZ: «Nesses museus, salvo para aceder a grandes retrospectivas, em regra com entrada autónoma, ninguém espera mais de dez minutos para comprar o bilhete e entrar.» Assim escreve Eduardo Pitta, referindo-se aos museus Met, MoMa, Tate, National Portrait Gallery, Louvre, Orsay, Prado e Thyssen. Pronuncio-me apenas sobre os três que conheço (omitindo o Prado, que visitei apenas na minha infância): a Tate é de acesso gratuito, o que não pode teixar de ter um efeito benéfico na fluidificação do tráfego de visitantes; o acesso ao Louvre pode acarretar uma experiência frustrante e morosa para quem não esteja a par da existência de entradas alternativas, por exemplo a da estação de metro Palais Royal Musée du Louvre; quando ao Museu de Orsay a fila de espera costuma ser longa e coriácea, o que me leva a conjecturar que o autor das linhas acima o terá visitado em época baixa, ou num dia em que um qualquer evento aglutinador do interesse popular roubou público aos museus de Paris.

quinta-feira, outubro 18, 2007

HUMANUM EST: A Errata da "Carta sobre os cegos para uso daqueles que vêem", de Denis Diderot (Vega, 2007) encerra ousadias pouco comuns neste sub-género. Por exemplo: página 120: onde se lê "Ena" deve ler-se "Epicurismo na" Ninguém se atreverá a questionar a utilidade desta Errata: sem a sua orientação, poucos seriam os leitores a ler "Epicurismo na" em vez de "Ena". O contexto e a imaginação fazem milagres, mas convém não exagerar. Fiquem desde já os leitores deste blog a saber que: onde lerem "Safa" deverão ler "Sai mais uma garrafa"; onde lerem "Fonix" deverão ler "Foi com a grandiosidade soberba e malsã de uma fénix"; onde lerem "Uau" deverão ler "Um veterinário da Póvoa de Lanhoso sofreu queimaduras de primeiro grau". Para que conste.
COMO FALAR DE UM AUTOR QUE NUNCA SE LEU: O excessivo peso que se atribui ao Nobel da literatura (como se a Academia fosse dotada de uma presciência sobre-humana que a distinguisse dos demais júris de milhares de prémios literários) mede-se não tanto em minutos de cobertura mediática (a rotineira nota de rodapé em noticiários televisivos e jornais) como na intensidade e verbosidade das reacções que se continuam a fazer ouvir, dias e semanas após a atribuição, à maneira de ecos tornados mais incómodos pela exiguidade da caixa de ressonância. Neste ano, atingiram-se zénites de idiotice e leviandade para os quais, admita-se, contribuíram muitas das opiniões de peritos que foram convidados a emitir juízo. De Hélder Macedo a Maria Teresa Horta, passando por Saramago e (pasme-se) Lídia Jorge, muito se falou em feminismo e experiência feminista, em sensibilidade social e em consciência cívica, em experiência e em valores. Falou-se de tudo um pouco, excepto de talento e mérito literário, coisa de que Doris Lessing é superiormente dotada, e da grandeza da sua obra multifacetada. Não teria sido necessário nada disto (mas deu uma ajudinha) para que surgissem os cínicos do costume, com a aljava repleta de argumentos contra a credibilidade do Nobel, conhecida arma de arremesso politicamente correcta esvaziada de conteúdo, titilados pelo sumário thumbs down de Harold Bloom (dá sempre jeito a um magala ter um fazedor de cânones como primeiro sargento). A culpa de tudo isto, no fundo, é da própria Doris Lessing. Para além de imune ao vedetismo, de escrever ficção científica, e de ter opiniões sobre política e sociedade, não possui um cunho estilístico marcado. É muito mais fácil desvalorizar o talento de um escritor que não se individualiza pelo estilo brilhante e convoluído do que um qualquer acrobata do verbo. Doris Lessing oferece, assim, o flanco àqueles em cujo espírito, por pura ignorância ou estreiteza de vistas, ausência de estilo individual equivale a desleixo formal. «Ou seja, para catalogar Doris Lessing não é preciso lê-la, basta incluí-la numa pretensa agenda política do Nobel da literatura» (Lido aqui.) Nunca ninguém leu aqui, neste blog tão verde, comentários sobre a obra e o mérito de Gao Xingjian, Imre Kertész ou Orhan Pamuk.
O SISTEMA: Não sou eu que estou contra o sistema, nem é o sistema que está contra mim. O que se passa é muito mais simples do que isso. Faço cócegas nas plantas dos pés do sistema, e, em troca, o sistema oferece-me rebuçados de mel de rosmaninho que não se encontram à venda nas lojas. É só isso.
UM BLOG... : Para blogar enquanto se nica ou para nicar enquanto se bloga. E vice-versa. Está tudo explicado aqui.

quinta-feira, outubro 11, 2007

FESTA É FESTA (MAS MENOS DO QUE ANTIGAMENTE): Não pude deixar de reparar, logo a seguir ao tal post de 2003 onde falava de Doris Lessing, a uma referência à Festa do Cinema Francês desse ano. Téchiné, Ozon, Pascal Bonitzer, Chéreau, Brisseau, Jean-Claude Biette... Que contraste relativamente ao desenxabido programa deste ano de 2007. Como não ceder ao saudosismo, perante este e outros indícios de que dantes era tudo melhor do que é hoje?
DO MÉRITO: A 2 de Outubro de 2003, eu escrevia: «(...)não me importo de admitir que, a cada ano que passa, alimento uma secreta esperança de ver premiado, e com direito ao spot de 60 segundos nos telejornais nacionais (entre o desporto e a meteorologia), um dos meus autores preferidos ainda vivos: John Barth, John Ashbery, Jacques Roubaud, Pascal Quignard, Doris Lessing, Peter Handke...» Acho absurdamente desproporcionado o alarido mediático que se cria em torno do prémio Nobel da literatura, mas não deixo de ficar satisfeito quando um escritor do meu panteão pessoal é distinguido. Há muito tempo (talvez desde Seamus Heaney) que um Nobel não me suscitava um sorriso de orelha a orelha. Doris Lessing é uma daquelas escritoras de quem se pode dizer ser desprovida de estilo (o que está longe de equivaler a desleixo formal). Tanto assim que um primeiro contacto com um fragmento da sua obra, um conto ou mesmo um romance inteiro pode decepcionar. Só muito de quando em quando emerge algo que se possa assemelhar a virtuosismo. Apesar da limpidez e do equilíbrio da sua prosa, não é o tipo de autor que fornece tiradas brilhantes e engenhosas aos coleccionadores de citações. A importância da sua obra deve ser apreciada, digamos assim, à distância, mediante uma visão de conjunto. Conheço poucos escritores que consigam conjugar de forma tão rica e exaltante a componente autobiográfica, a atenção aos problemas da sociedade e uma profunda dimensão humana. Não me parece que o seu livro mais conhecido seja "The Fifth Child". Em todo o caso, os meus romances favoritos de Lessing são a pentalogia "Children of Violence" e essa obra extraordinária chamada "The Golden Notebook", sem a qual - sinto-me tentado a afirmar - o século XX seria um pouco mais difícil de entender. (Nem me dou ao trabalho de percorrer os blogs para saber em que termos os escribas do costume põem a causa a justiça deste prémio. Tratando-se de uma mulher, ainda por cima de esquerda, ainda por cima meio africana, torna-se claro como água que se tratou de mais uma decisão política da Academia. Basta ter olhos na cara, pois então.)

terça-feira, outubro 09, 2007



ARTE SUBTERRÂNEA: Gosto muito das obras de Joana Rosa que integram a estação de metropolitano da Quinta das Conchas.




Joana Rosa baseia parte considerável do seu trabalho nos chamados "doodles": «(...) desenhos, garatujas e rabiscos feitos distraidamente enquanto se conversa ou se atenta noutras coisas. (...) À apropriação do objecto ou "doodle" feito pela própria, oferecido roubado ou colhido de outras pessoas, por vezes após longas horas de espera, a artista associa uma etiqueta em que explica quem o fez, onde, quando, em que contexto, e adiciona-lhe por isso uma densidade existencial: o "doodle" corresponde a uma personalidade e a um momento de criação, no qual tudo aparece em bruto e não filtrado pela consciência.» (Leonor Nazaré, Roteiro da colecção do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão).

Também me agradam fortemente os ícones de Eduardo Batarda que povoam as paredes da estação de Telheiras. Vejo-os todos os dias, assim como à máquina de venda de bebidas que tapa parcialmente um dos painéis de azulejos. Assim privam o passageiro (a quem já bastariam as ordinárias agruras e vicissitudes da vida) da fruição de algumas destas figuras, a meio caminho entre a abstracção e a funcionalidade.




Não será isto um caso de vandalismo institucional por parte do metropolitano de Lisboa?
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma senhora lia a epopeia de Gilgamesh, em alemão, na linha azul do metropolitano. Há que reconhecer que tenho andado a negligenciar esta linha, cujos passageiros em breve disporão de mais duas estações para ler epopeias sumérias, ou outras obras literárias que encontrem graça a seus olhos.
UM BEIJO DADO MAIS TARDE: Uma mulher está a ser julgada por ter beijado um quadro de Cy Twombly, numa exposição em Avignon. O beijo deixou marcas de bâton, o que ajuda a configurar uma situação de vandalismo, embora certamente não das mais convencionais.

O advogado de defesa afirma ter-se tratado de um acto de amor. A advogada da acusação, pouco impressionada, afirma que «en amour, il faut être deux et consentants», assim desqualificando sumariamente toda uma tradição de fetichismos e parafilias que, queira-se ou não, é parte integrante da cultura ocidental.

No meu romance "Aqui Vem o Sol", um assaltante do Rijksmuseum roçava com os lábios um quadro de Odilon Redon, o "Retrato de Violette Heymann", e ficava sem a justa punição.



A arte e a vida imitam-se uma à outra com um desembaraço encantador.

sexta-feira, outubro 05, 2007


Celebrar a República, sempre!

Relembrar aqueles que desbravaram o caminho da igualdade, da cidadania e dos valores democráticos,
e que nos livraram de uma monarquia inepta e ultramontana.


Celebrar a República com a mesma naturalidade
e serenidade com que a vivemos todos os dias.


Viva a República!

quarta-feira, outubro 03, 2007

AN ALAN SMITHEE FILM FEATURING MARGARIDA VILA-NOVA: Consta que João Botelho e Leonor Pinhão se desentenderam com o produtor de "Corrupção", e poderão recusar-se a assinar a versão do filme a comercializar. Seria, ao que parece, a primeira vez que um filme português estrearia sem nome de realizador. Tenho a propor uma solução que seria ao mesmo tempo simples, elegante, original e moderna: fazer de "Corrupção" o primeiro filme português assinado por Alan Smithee! (Ou então um nome com consonâncias mais lusas, forjado para o efeito. "Alan Smithee" é anagrama de "The Alias Men". Alguma ideia, Rogério?)
SÓ UM PALPITE: Na minha opinião, a Sílvia Rizzo não vai todos os dias ao Intermarché por causa dos frescos. Desconfio que lhe pagaram para dizer que vai, mas não vai.

terça-feira, setembro 25, 2007

E POR FALAR EM FRUTOS VERMELHOS: Também os "Morangos com Açúcar" se baseiam numa estrutura serial. Os anos passam, mas nunca falta um rebelde, um dono de bar, um professor mau, um professor bom, um deficiente, uma baby doll caprichosa, um delinquente, e uma estudante da Europa de Leste. Grande parte do encanto desta novela está na maneira engenhosa como os criadores temperam esta lógica serialista, eminentemente conservadora, com a exploração de traços pessoais das personagens, e com a introdução sabiamente doseada de acidentes e contingências. Assim se transmite a ilusão de estarmos perante um programa que evolui no tempo, quando afinal não passa de uma colorida e agitada máquina de auto-preservação, cuja única razão de ser é a sustentação de um simulacro de coerência narrativa ao longo do tempo. Posto isto, queria chamar a atenção para um dos novos actores, que fazia de criança índigo noutra novela da TVI. A personagem dele faz gazeta às aulas. A vida dá mais voltas do que o carrocel do "Strangers on a Train" do Hitchcock.
O SABOR DA CEREJA: No suplemento "Única" do "Expresso" de 15/9 ocorreu um lapso equiparável ao recente bonifáciogate (tentativa ardilosa de fazer passar John Updike por Thomas Pynchon, devidamente denunciada neste espaço). Numa reportagem intitulada "O Poder do Vermelho", da autoria de Nelson Marques, aparece uma magnífica cereja junto a uma legenda onde são enumeradas as virtudes das amoras pretas (redução do colesterol, inibição do cancro, conservação do equilíbrio, memória e coordenação motora). Confundir um Grande Escritor Americano com outro Grande Escritor Americano é, indubitavelmente, uma coisa grave: a literatura é uma das mais gloriosas realizações do espírito humano. Querer fazer passar uma cereja por uma amora configura algo de muito mais perverso, ao nível dos fundamentos da semântica e da ontologia do acto de nomear, e promove uma subversão das evidências que mexe com alguns dos fantasmas mais profundos do nosso imaginário colectivo. Isto para além de que um livro, por mais genial que seja, não possui propriedades antioxidantes nem pectina.

sábado, setembro 22, 2007

FESTA DO CINEMA FRANCÊS: Ora bem, falemos da 8ª Festa do Cinema Francês. Confesso que o programa não me entusiasmou, mas talvez isso seja, em parte, consequência de eu seguir menos de perto o novo cinema francês por comparação com o que fazia há alguns anos. Há nomes que eu desconheço e que, porventura, merecem atenção. Entre os imperdíveis estão os dois Resnais mais recentes ("Pas sur la bouche" e "Cœurs"). Resnais é um dos génios do cinema mundial, ponto final. Um homem que realizou obras-primas fulgurantes como "Hiroshima Mon Amour", "L'Année Dernière à Marienbad", "Mélo" ou "Providence" já não precisa de mostrar nada para merecer o seu lugar (e que lugar!) na história. Todos os seus novos filmes são obrigatórios, quanto mais não seja porque, pela ordem natural (mas deplorável) das coisas, dentro de algum tempo a expressão "o novo filme de Alain Resnais" deixará de ter cabimento. Outro filme que farei o possível por ver é "Les Chansons d'Amour", de Christophe Honoré. Vi recentemente "Dans Paris", que me deixou impressão positiva. Honoré parece ter o talento e a energia criativa para se afirmar como um dos autores mais consistentemente interessantes da sua geração. Deixa-me um pouco de pé atrás o facto de este filme ser um musical, mas há que admitir que muitos de entre os melhores passaram com distinção cum laude o seu exame de autor de musicais (Rivette com "Haut Bas Fragile", outra vez Resnais com "On Connaît la Chanson"...). Claro que há excepções (Von Trier com o execrável "Dancer in the Dark", Woody Allen com "Everybody Says I Love You", de que toda a gente gostou menos eu). De entre as restantes propostas, destaco "Backstage", de Emmanuelle Bercot, pela simples razão de que já li boas referências a filmes anteriores desta realizadora, e "Gradiva", por ser de quem é. Admiro profundamente Alain Robbe-Grillet enquanto escritor, mas nunca contactei com a sua já considerável obra cinematográfica. A presença de Arielle Dombasle no elenco é um ponto contra, mas há que ter vistas largas. Quanto aos demais, assinalo o elenco promissor de um dos Berri ("Anna M.", com Isabelle Carré e Gilbert Melki), e noto a já habitual tendência francesa para deixar escritores (Robbe-Grillet e Éric-Emmanuel Schmitt) e actores (Roschdy Zem e Laure Marsac) fazerem uma perninha atrás das câmaras. Laure Marsac, para quem não se recorda, era levada ao colo por Tom Cruise em "Entrevista com o Vampiro". Visite o site oficial. Fiquei ainda a saber que a Festa do Cinema Francês é do sexo feminino e tem 27 anos de idade. Impõe-se ainda um desabafo: E O RIVETTE?
O NOVO ANO SCOLARI: O "Sargentão" raramente desilude os seus fãs. Emitida a sentença (quatro jogos de suspensão), ei-lo a investir forte e feio no choradinho da injustiça. Punido por uma agressão a um adversário, presenciada ao vivo por dezenas de milhar e via televisão por milhões, o assalariado da Federação Portuguesa de Futebol puxa de uma argumentação que teria mais cabimento num recreio de escola do que numa sala de imprensa: ele é que começou. O seleccionador nacional de futebol deveria saber que lhe é exigido um sentido das responsabilidades superior ao de um qualquer Zezinho que acusa o Huguinho de lhe ter roubado um berlinde. Mas isso seria pedir demais a um treinador que entrou em puro denial sem bilhete de volta. Quanto a ter reconhecido "frontalmente" o seu erro... Se reconhecer frontalmente um erro passa por negar, com agastamento e veemência, ter cometido qualquer erro, então estamos perante um admirável exemplo de frontalidade. Uma pessoa que assistia comigo ao Portugal-Sérvia afirmou, após o já memorável semigancho de esquerda a Dragutinovic, que Scolari estava cada vez mais português. Concordo. Saber o hino e gostar de bacalhau à Gomes de Sá são critérios de fiabilidade reduzida. Armar peixeirada em pleno campo (ou, melhor ainda, no túnel de acesso aos vestiários - talvez ainda lá cheguemos) é, esse sim, um indicador sólido de que o processo de indigenização ultrapassou o ponto de não retorno.
THINGS HAD GOTTEN BETTER:



«things had been bad, there had been therapy, things had gotten better, guard had been let down»

(Declaração de um conhecido a propósito do suicídio de Francesca Woodman, 1958-1981.)

domingo, setembro 16, 2007

OS HOMENS PREFEREM AS LOURAS: Na sua crítica ao filme "Factory Girl", Linda Ruth Williams ("Sight & Sound", Abril) sugere que a substituição de Edie Sedgwick por Ingrid Superstar e por Nico, por parte de Andy Warhol, foi uma versão underground das serial blondes de Hitchcock.
INSUCESSO SCOLARI: É muito raro eu escrever sobre futebol. São tantos os que o fazem que eu hesito antes de acrescentar algum ruído ao ruído. Mas há ocasiões em que a minha renitência se tem de confessar vencida. Luiz Felipe Scolari é pago principescamente para exercer uma profissão que implica representar Portugal, e que lhe confere uma visibilidade enorme. Esta posição acarreta deveres e responsabilidades extremos. Dificilmente se poderia imaginar uma situação em que alguém se mostrasse mais indigno desses deveres e responsabilidades do que a que ocorreu em Alvalade, na passada quarta-feira. Agredir um adversário é agredir um adversário, sejam quais forem as atenuantes. Aliás, as atenuantes que têm sido alegadas são do foro da provocação verbal ou física. Não se tratou de um gesto de legítima defesa. Ainda que fosse na sequência de intimidações, tratou-se de uma AGRESSÃO, de um comportamento de arruaceiro, em directo para milhões de espectadores. Se isto, por si, já seria grave, mais grave e patético (para além, temo-o, de definidor de um carácter) foi a atitude de Scolari na conferência de imprensa: negação pura e simples, tentativa de convencer aqueles que legitimamente o questionavam de que se tratara de uma situação normal em futebol, e de que se limitara a "abrir os braços". Foi de meter dó. Com uma pessoa assim, que nega o óbvio com tão assombrosa desfaçatez, não se argumenta; mas numa pessoa assim não se confia para dirigir homens e uma equipa. Mesmo o tardio acto de contrição, 24 horas depois, soube a pouco. "Todos erram", afirmou Scolari, como que alegando tratar-se de um gesto de suprema humanidade, de um simples efeito colateral da condição falível partilhada por tudo quanto é Homo sapiens. O que faltou a Scolari foi admitir que nem todos os erros se assemelham pela magnitude, e que a estrondosa gravidade do seu erro colocou seriamente em causa a sua competência para a profissão que exerce. Salpicando a justa indignação suscitada pelo gesto de Scolari, lá surgem as inevitáveis vozes contemporizadoras, cujo apetite para tapar o sol com uma raquete de badminton só tem paralelo com a prontidão com que falam em "cruzada moralista" de cada vez que alguém se insurge contra uma situação que lhe parece errada. Num país brando nos costumes e flácido na ética, os medíocres e os sonsos safam-se invariavelmente melhor do que aqueles que procuram pôr o dedo na ferida, e cauterizá-la se necessário. Durante muito tempo, achei descabidas as críticas que choviam sobre o desempenho de Scolari, e impacientei-me contra os remoques de treinador de pantufas dirigidos a um treinador que conduziu Portugal a um vice-campeonato da Europa e às meias-finais de um Mundial. Convenço-me agora de que Scolari está a mais na selecção portuguesa, de cujo destino me desinteresso em definitivo, e cuja ausência do próximo Europeu talvez não fosse tão má como isso para a sanidade do país.
TODA A GENTE CÁ NA CASA PÕE A MÃO NO AR: As séries dos "Morangos com Açúcar" passam, mas certos motivos permanecem invariantes, a ponto de já não se conceber sem eles esta série tão ao gosto do público infanto-juvenil. Pequena lista ao correr da pena:
  • Donos de bar de compleição robusta e que nunca apertam os botões de cima da camisa (Fred, Xavier).
  • Personagens que desaparecem para países longínquos (Eslováquia, Suécia, Austrália) quando expira o seu tempo de vida útil do ponto de vista da economia narrativa da série.
  • Personagens sobre cujas cabeças pende ameaça de recambiamento para lugares inóspitos, longe dos amigos e dos Morang'Ices (Alentejo, e novamente a Eslováquia).
  • Acções cometidas sob efeito de substâncias alienantes sub-repticiamente introduzidas num alimento de aspecto inocente (lembram-se das tostas de frango do bar do Fred?).
  • Agentes da PSP que ajudam a salvar situações delicadas, mas que são sempre intepretados pelos piores actores.
  • Casalinhos separados por um infeliz mal-entendido, que se esclarece poucos dias antes do lançamento da nova grelha da TVI.

Aproveito para sugerir que o Duarte poderia ter facilmente reconquistado a Laura se se prontificasse a cortar o cabelo e deixar de usar Crocs. É um erro crasso acreditar que o amor é cego, em vez de apenas um bocadinho hipermétrope.

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No metropolitano, um cavalheiro lia "O Amor em Tempos de Cólera", de García Márquez. Nada de excepcional, convenha-se, mas impossível de omitir neste tempo de vacas magras que atravessamos.

segunda-feira, setembro 03, 2007

THE WRONG MAN: Num artigo incluído no último suplemento "Ípsilon", João Bonifácio coloca a diversas personalidades do mundo literário a questão incontornável: "Qual é, afinal, o grande escritor americano vivo?" (com maiúsculas ficava melhor). Entre as fotografias que complementam agradavelmente o artigo, uma não pode deixar de causar perplexidade. A legenda "Thomas Pynchon" fez-me inicialmente acreditar tratar-se de uma adição recente à escassíssima (para não dizer inexistente) iconografia do autor de "Gravity's Rainbow". Um exame mais atento (e a impecável memória visual de Q.) fizeram ruir essa doce ilusão. O indivíduo em questão é, afinal, John Updike.

A fotografia publicada não era esta, mas o aspecto de John Updike é este:





Os deslizes acontecem. E há que admitir que não me pareceria de todo inadmissível que a fisionomia do jovem marujo Pynchon tivesse, ao envelhecer, convergido para a imagem da fotografia anterior. Com um pouco de fantasia e de fé, a coisa passa.






Mas a minha representação preferida de Pynchon é, sem qualquer dúvida, esta:

LAPSO CORRIGIDO: Por lapso, esqueci-me de informar os leitores de que me iria ausentar durante cerca de 3 semanas. Deixo agora o aviso: durante 3 semanas, estive sem acesso regular à Internet. Mas agora estou de volta.

domingo, agosto 12, 2007

PALCO, VIDA E LINHA DOS TRÊS PONTOS: No seu livro "True and False - Heresy and Common Sense for the Actor", David Mamet estabelece a seguinte analogia entre o teatro e o basquetebol: «The Method school would teach the actor to prepare a moment, a memory, an emotion for each interchange in the play and to stick to that preparation. This is an error on the order of the basketball coach instructing his team to stick to the plays which they practiced irrespective of what their opponents are doing.» Há um poema de António Franco Alexandre (de "Quatro Caprichos") que fala de um treinador de basquetebol que era também encenador de teatro, embora fosse demasiado jovem e incompetente para qualquer uma das atribuições. Também explorei esta analogia numa peça minha.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na zona de restauração de um centro comercial do Saldanha, de cujo nome nunca me consigo recordar, um cavalheiro lia as "Metamorfoses" de Ovídio. Sem a atenção de Q., teria falhado este importante avistamento. A propósito: no filme "Esther Kahn", uma das irmãs de Esther lê "Sesame and Lilies", de John Ruskin. Proust, que admirava Ruskin, traduziu para francês este livro, aparentemente com a colaboração da sua mãe e da prima do compositor Reynaldo Hahn.
OUTRA VEZ SARTRE: Lembro-me também (outra memória falsa?) de ler ou ouvir dizer que Sartre tinha recusado o Nobel por não querer receber dinheiro do inventor da dinamite. No "Robert des grands écrivains de langue française" são mencionadas algumas motivações mais plausíveis:
  • son refus constant des distinctions officielles
  • sa conviction qu'«un écrivain qui prend des positions politiques, sociales ou littéraires ne doit agir qu'avec les moyens qui sont les siens, c'est-à-dire la parole écrite [et que] toutes les distinctions qu'il peut recevoir exposent ses lecteurs à une pression [qui n'est] pas souhaitable»
  • le constat selon lequel «dans la situation d'aujourd'hui, le prix Nobel se présente objectivement comme une distinction réservée aux écrivains de l'Ouest ou aux rebelles de l'Est».

Aproveito para acrescentar que a "madame Z." a quem é dedicada a obra "Les Mots" era Lena Zonina, intérprete durante a visita de Sartre à URSS.

EMANAÇÃO: No "DN" do passado dia 7 surgiu uma notícia (creio que não disponível "online") com o título: "Dalai Lama proibido de voltar a reencarnar". No corpo da notícia, é-nos explicado que as autoridades chinesas proibiram novas reencarnações de Buda, naquilo que só pode ser entendido como uma inaudita deriva sobrenaturalista do poder judicial. Ao carácter burlesco da notícia, o jornalista que a redigiu parece ter achado por bem acrescentar um suplemento de cómico involuntário: "O actual Dalai Lama, de 72 anos, vive no exílio desde a invasão chinesa(...). Quando morrer, a emanação de Buda vai reencarnar, passados 49 dias, num dos pequenos monges tibetanos.". O que vem a ser a "emanação de Buda"??? E estará a realidade objectiva da reencarnação suficientemente demonstrada para que o fenómeno seja mencionado com este desprendimento? Não seria obrigação de um jornal sério introduzir este tipo de frase com um palavreado do tipo "Os seguidores da religião budista alegam que..."?

domingo, agosto 05, 2007

LA CARRIÈRE D'ÉRIC: Até ao recente segundo visionamento (primeiro em grande ecrã), na Cinemateca, tinha "La Carrière de Suzanne" como, de longe, o menos conseguido dos "Contos Morais" de Rohmer. Vi-me obrigado a reconsiderar esta opinião severa. Embora obviamente menos rico do que alguns dos títulos que se lhe seguiram ("Le Genou de Claire", "La Collectionneuse", "Ma Nuit Chez Maud" são exemplos óbvios), não faltam méritos a "La Carrière de Suzanne". Em retrospectiva, a personagem de Suzanne, cortejada sucessivamente pelo amigo do narrador e pelo próprio narrador, aparece como o primeiro grande exemplo de um tipo de personagem recorrente nos filmes de Rohmer: a manipuladora involuntária. Durante quase todo o filme, a evolução de Suzanne (a sua "carreira", no fundo) é, aparentemente, um fruto do acaso e do capricho, mais do que de qualquer premeditação. Ao envolver-se sucessivamente com os dois jovens que a assediam, nunca abdica da sua margem de manobra, nem do poder supremo de condicionar o enredo, acabando por se associar romanticamente a um terceiro homem. As palavras finais do narrador são estas:


Cette fille, pour qui je n'avais pu éprouver, au cours de l'année, qu'une espèce de pitié honteuse, nous réglait notre compte à tous sur la ligne d'arrivée, et nous réduisait au rang des gamins que nous étions. Coupable ou non, naïve ou rusée, après tout qu'importait? En me privant du droit de la plaindre, Suzanne s'assurait sa vraie revanche.




Se o narrador de "La Carrière de Suzanne" conhecesse a obra de Rohmer, saberia quão vã pode ser esta pergunta: "ingénua ou astuciosa"? Quase todos os filmes de Rohmer exploram situações em que a ambiguidade dos julgamentos morais é fruto de uma indefinição entre o acaso, a intenção e uma versão marcadamente laica e terrena da predestinação. Tal como o Gaspard de "Conte d'Été", como a Haydée de "La Collectionneuse", até como a Marquesa de O... na adaptação da obra de Kleist, Suzanne pode ser vista como uma estratega sagaz ou como uma personagem que se limita a viver os eventos que ocorrem, independentes da sua vontade. Culpada ou não? Responsável ou não? Este tipo de perguntas nunca perderão a sua pertinência na filmografia de Rohmer, embora raras vezes sejam colocadas de maneira tão explícita. Sobre toda a obra deste cineasta pairam as armadilhas conceptuais subjacentes à possibilidade de formular juízos de valor. Não há realizador que atribua tanta importância à moral, não há realizador menos prescriptivo.


Uma das minhas cenas favoritas deste filme é uma cena que me parece totalmente gratuita (algo de pouco comum em Rohmer), em que as três personagens principais se entregam a uma pouco séria sessão de espiritismo. Trata-se de uma cena longa, na qual, à medida que a mensagem do "espírito de D. Giovanni" vai sendo decifrada, Rohmer intercala curtas imagens fixas de objectos do apartamento onde se desenrola a acção. Essas curtíssimas inserções, à maneira de vinhetas desinseridas de qualquer lógica de "raccord", podem talvez não ter outra função que não seja a de representar a própria duração temporal da cena, e a de sublinhar visualmente, de forma bem-humorada, a nula relevância da cena para a história. (Claro que tudo isto pode ser mero resultado da minha falta de perspicácia para detectar a função dessa cena e dessa opção de montagem.) Mais tarde, a gratuidade nos filmes de Rohmer haveria de se exprimir preferencialmente sob a forma de apontamentos de cariz etnográfico/turístico (a geografia urbana de Nevers em "Conte d'Hiver", os relatos sobre a pesca de alto mar em "Conte d'Été"...), deliciosamente supérfluos.


Para finalizar: gosto muito de uma coisa que António Rodrigues diz, na folha da Cinemateca dedicada à dupla sessão "La Boulangère de Monceau"/"La Carrière de Suzanne": «(...)como todo [o] classicista Rohmer tem a noção exacta das proporções», isto a propósito de todos os seus filmes terem a duração "certa". Sem dúvida que Rohmer é um classicista, e a sua obra arrebatadora surge como demonstração eloquente de que classicismo e liberdade criativa estão longe de ser inconciliáveis.

(Um classicista, um moderno e um criador livre? Mas isso são três desejos, não é possível...)

quinta-feira, agosto 02, 2007

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: E se, numa tarde de verão, um viajante da linha amarela do metropolitano visse uma jovem que lia o livro "Se Numa Noite de Inverno um Viajante", de Italo Calvino? Foi isso mesmo que aconteceu.