sexta-feira, maio 23, 2008

ENTRETANTO, NA CROISETTE...: A selecção de filmes franceses em competição no festival de Cannes deste ano surge ao arrepio da tendência, predominante nos últimos anos, de escolher obras com um certo perfume "de autor" mas cirurgicamente insuspeitas de grandeza ou genialidade, e conformistas o quanto baste para evitar ofender a placidez mediática. (Não me esqueço de notáveis excepções, como Christophe Honoré, Bruno Dumont, Olivier Assayas, nem de falsas excepções ao jeito vivaço de Gaspar Noé e Dominik Moll.) Arnaud Desplechin e Philippe Garrel são, para além de realizadores consagrados, artistas em pleno vigor criativo, que assinaram recentemente obras-primas absolutas ("Rois et Reine" e "Les Amants Réguliers") estreadas em Portugal. A estes junta-se Laurent Cantet, que, sem ser um génio, sabe aplicar aos seus filmes as doses certas de inteligência, contenção e profissionalismo. Acho estupendo que se perca a vergonha de mostrar o cinema francês (o melhor do mundo, na minha opinião) em toda a sua excelência e pujança, ainda que tal possa não ser suficiente para que a Palma de Ouro fique em casa pela primeira vez desde que, em 1987, Maurice Pialat subiu ao palco (no meio dos assobios) e recebeu o troféu das mãos de Yves Montand, permitindo-se ainda um gesto que fez história («Si vous ne m'aimez pas, je ne vous aime pas non plus»).


"La Frontière de l'Aube", de Philippe Garrel.

terça-feira, maio 20, 2008

AINDA XADREZ: Durante anos, o "Échiquier Niçois" foi um dos sites que eu visitava com regularidade quase quotidiana, até ter sido interrompido pelo mais trágico dos motivos. Nem sempre, ao navegar pela internet, nos lembramos de como a possibilidade de desfrutar desta extraordinária riqueza de informação depende, em tão grande medida, do esforço, da persistência, da dedicação, do entusiasmo desmedido de alguns.
XADREZ NOVAMENTE: Jogar xadrez sem auxílio de tabuleiro é proeza corriqueira para o grande-mestre médio. Existe mesmo um torneio anual onde alguns dos melhores jogadores do mundo se defrontam às cegas. Bem entendido, o nível de jogo deixa algo a desejar, e abundam os erros de cortar a respiração. Bem entendido, o nível de jogo faria inveja a 99,99 % dos jogadores de todo o mundo. (Nada disto é muito importante, mas o ritmo de actualização do "Pastoral Portuguesa" tem vindo a rivalizar com o deste blog, e há que espicaçar o seu autor, tarefa para a qual urge convocar todas as forças vivas da nação, e que justificaria mesmo uma presidência aberta.)
XADREZ: O fim-de-semana offline recordou-me os tempos em que dependia da página de xadrez de Luís Santos, n'"A Capital" das terças, e da revista "Europe Échecs" (adquirida devotamente na Barata da Avenida de Roma), para me inteirar do que se passava na actualidade xadrezística. Passado o tormento que foi a impossibilidade de acompanhar as últimas duas rondas do torneio M-Tel, restou-me a profunda satisfação de constatar que "Chucky", o boneco diabólico, não vacilou. Depois da estrondosa primeira volta (5 vitórias em 5 jogos), Vassily Ivanchuk geriu o seu avanço com uma serenidade que deve ter enchido de alívio os seus fãs, habituados aos colapsos espectaculares do génio ucraniano. Após 4 empates (e alguns calafrios, especialmente face ao búlgaro Topalov e ao chinês Bu), Ivanchuk ainda triunfou, de negras, na última ronda, frente ao búlgaro Cheparinov, terminando o torneio com 1,5 pontos de avanço sobre o segundo classificado, e uma performance fenomenal de 2977 pontos Elo.
PAUSA FORÇADA: Fim-de-semana sem internet, por culpa de um problema de origem indeterminada. Segundo o técnico do Clix, a interrupção ocorrera "na rua", o que obrigou à intervenção da PT, dona e senhora de tudo o que se encontra a montante do domicílio do cliente da operadora rival. A sensação de ir de Herodes para Pilatos não durou mais do que uns dias, frustrantes mas não isentos de sensações fortes e revigorantes. Tudo novamente nos conformes. A queixa para a Anacom ficará para outra ocasião. E o que faz a polícia no meio disto? É esta a questão que atormenta a gente de bem, grupo no qual tentativamente me incluo.

terça-feira, maio 13, 2008

RARIDADE: «Um dia» dizia amargamente William Golding «alguém há-de descobrir um exemplar de um dos meus romances sem dedicatória, e valerá uma fortuna.» (Fonte: Gérard Genette, "Bardadrac", Éditions du Seuil.)
O DEDO NA FERIDA: A Linha dos Nodos põe o dedo na ferida. O que pensarão as bases do PSD do Matthew Barney? E qual a posição da concelhia de Famalicão sobre a teoria das supercordas? O que leva a Dra. Manuela Ferreira Leite a ocultar a sua opinião sobre a escola de Frankfurt (em geral) e Theodor Adorno (em particular)?
XADREZ:




Algo de extraordinário se está a passar em Sófia, Bulgária, no torneio "M-Tel Masters". O grande-mestre ucraniano Vassily Ivanchuk ganhou os seus primeiros 5 jogos (de um total de 10) contra os nºs 4, 6, 8, 22 e 27 do mundo. Atendendo à elevada percentagem de empates (tipicamente entre 50 e 70%) que normalmente se verifica a este nível, 5 vitórias seguidas constituem uma façanha assombrosa, que já evoca comparações com outras performances míticas na história da modalidade. Vêm à ideia, por exemplo, os triunfos de Bobby Fischer, só com vitórias, nos campeonatos dos E.U.A. ou no torneio dos candidatos, os sucessos esmagadores de Kasparov em torneios do mais alto nível, ou o triunfo de Karpov em Linares, 1994, com 11 pontos em 13.

Desde há muito tempo que Ivanchuk é o meu grande ídolo do xadrez. (Isto, claro, se não pensarmos em Karpov. O melhor é pôr Karpov à parte. O melhor é nem falar de Karpov... *) O seu estilo, combinação inimitável de heterodoxia e limpidez clássica, a sua ubiquidade nas grandes competições internacionais (que contrasta com a parcimónia de muitos dos seus pares, que se contentam com raras aparições em torneios seleccionados, quase a medo, como que mais preocupados em preservar a sua aura e o seu ranking do que em jogar xadrez), assim como (há que dizê-lo) as suas excentricidades atraíram uma leal base de fãs, que nunca deixa de se manifestar ruidosamente sempre que "Chucky" mostra o seu brilhantismo. Infelizmente, os nervos frágeis deste génio custaram-lhe muitos dissabores ao longo da sua carreira, e provavelmente a possibilidade de se tornar campeão mundial. Durante anos, escassearam os convites, e Ivanchuk só conseguiu manter-se entre os melhores do mundo trucidando adversários muito inferiores em competições de magnitude inferior. Aos 39 anos, ei-lo que aparece numa das suas melhores formas de sempre. Aos seus admiradores, resta fazer figas para que Ivanchuk não sofra um dos seus lendários colapsos na segunda metade do torneio.

Site oficial do torneio "M-Tel Masters".
Cobertura no site Chessbase.
Cobertura no site Chessdom.
Cobertura no site Europe Échecs.


* copyright Linha dos Nodos

quarta-feira, maio 07, 2008

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na estação de metro do Campo Grande, no espaço de poucos segundos: "Lord of the Flies", de William Golding, em versão original, e "A Arte de Amar", de Ovídio. O escrúpulo obriga-me a frisar que este último não estava a ser lido, mas tinha acabado de ser fechado pelo seu possuidor, pelo que a presunção de leitura não é descabida.

domingo, maio 04, 2008

ATENUANTES: Em defesa do autor e do(s) revisor(es) de "Rosa Vermelha em Quarto Escuro":
  • O nome original da equipa de basquetebol "New York Knicks" era "New York Knickerbockers". "Knickerbockers" é um apelido holandês, um tipo de calções muito em voga no início do século XX e o nome de uma personagem fictícia (de um conto de Washington Irving) que funcionou como símbolo da cidade. O substantivo "knickers", bem mais conhecido hoje em dia, derivou deste epónimo. Portanto, se é certo que os Knicks nunca foram conhecidos (que eu saiba) por "New York Knickers", essa designação não é completamente destituída de sentido etimológico. (Uma nota final: os Knicks são a equipa favorita do Joey Tribbiani da série "Friends".)
  • O número de volumes de "Em Busca do Tempo Perdido" pode ser diferente de sete, dependendo das edições. A minha, da Garnier-Flammarion, tem dez. Claro que isto depende de considerarmos, por exemplo, que "Sodoma e Gomorra" consiste em dois volumes ou num único volume dividido em dois tomos por conveniências de edição.

Quanto à mensagem principal do post, estou inteiramente de acordo. A revisão é o calcanhar de Aquiles da edição portuguesa. Infelizmente, o desleixo no campo ortográfico não é mais do que o reflexo da falta de exigência que, a este respeito, se cultiva em Portugal.

QUÍMICA: A acreditar na teoria de Joey Tribbiani (personagem da série "Friends"), quanto menor a empatia (a famosa "química") entre dois actores em palco, melhor eles se entendem fora dele. Se esta teoria possuir algum fundo de verdade, e se for transponível para a televisão, os bastidores das telenovelas portuguesas estarão repletos de romances tórridos entre os seus protagonistas. (E nem vou falar dos "Morangos", onde não é difícil adivinhar amor juvenil às mancheias eclodindo entre os actores, com intensidade directamente proporcional ao absurdo dos mismatches que abundam neste série. A Vera com o Bruno?! Estão a fazer pouco da gente honesta.)

sexta-feira, maio 02, 2008

A CARAVANA PASSA:




Dia 3 (amanhã), na Fnac Chiado, lançamento do livro "Caravana", de Rui Manuel Amaral. Com Fernando Alvim.

Clique aqui e veja o trailer desta apresentação na Fnac do Chiado:http://www.youtube.com/watch?v=MTJXUU6iVeU"

Mais informações sobre o livro e o autor aqui:http://www.angelus-novus.com/livros/detalhe.php?id=157

Conheça todas as datas e locais de apresentação de "Caravana" aqui:http://farm3.static.flickr.com/2279/2381814381_2c7444dd5e_o.jpg

quinta-feira, maio 01, 2008

ALGUMAS HORAS: Em "La Peau de Chagrin", a páginas tantas, a personagem principal (Raphaël) e a sua futura mulher (Pauline), que se reencontraram após uma série de peripécias, trocam declarações apaixonadas. O seu enlevo dá origem a um dos mais elegantes eufemismos a que Balzac se permitiu em toda a "Comédia Humana": Heureux qui devinera leurs joies, il les aura connues ! -Oh ! mon Raphaël, dit Pauline après quelques heures de silence, je voudrais qu'à l'avenir personne n'entrât dans cette chère mansarde. Após várias páginas de eloquência amorosa, a menção a "quelques heures de silence" não pode deixar lugar a dúvidas de interpretação. Uma das edições anteriores do romance ia mais longe, ao falar em "quelques heures de silence bien employées". Edições póstumas, pelo contrário, acharam bem reduzir as "quelques heures" a "deux heures", no nobre intuito, presume-se, de diluir o conteúdo escabroso sem atentar declaradamente contra a liberdade do artista.
A HORA RIVETTE (8), UM BANDO DE LOUCOS: "Um Bando de Loucos". A expressão empregue pelo Excelentíssimo Presidente Do Governo Regional Da Madeira (que, apresso-me a dizer, não é um palhaço, nem um arruaceiro, nem um grosseirão, e ao qual não é meu desejo associar qualquer qualificativo susceptível de desencadear acção judicial por difamação) não podia ter sido mais acertada. Enganou-se apenas nos destinatários. Em vez da assembleia regional da Madeira, a expressão assenta que nem uma luva àqueles que devotaram mais de uma dúzia de horas da sua vida à projecção integral de "Out 1", na cinemateca, dividida por dois fins de tarde e dois princípios de noite. Um bando de loucos na sala, outro bando de loucos no ecrã. Torna-se difícil dizer se a experiência foi mais demolidora e exaltante para quem assistiu ao filme ou para quem participou na sua rodagem, há quase 40 anos. Uma chávena de chocolate, uma malga de caldo verde e umas línguas de veado teriam sido recompensa bem merecida para todos os que, de entre este bando de loucos, saíram da sala Luís de Pina à 1 da manhã, algo titubeantes (pelo menos no meu caso). Em vez disso, apenas o olhar, misto de compaixão e de impaciência, do segurança que esperava pela debandada do cortejo de doentes mentais.
ARTE CORPORAL: Graças à revista "Ler", fiquei a saber que o escritor José Luís Peixoto tem o nome do condado imaginário dos romances de Faulkner ("Yoknapatawpha") tatuado no braço. Isto decidiu-me a tatuar "11, rue Simon-Crubellier" na minha omoplata direita. É a minha resolução de primavera.

quarta-feira, abril 23, 2008

A HORA RIVETTE (7): Por vezes, tentam fazer-nos crer que tal acontecimento será "único", ou que a oportunidade de o viver dificilmente se repetirá. Estamos todos saturados de hipérboles deste jaez. Travestir o corriqueiro em qualquer coisa de excepcional e irrepetível é algo que desespera a gente de bem.

Mas há que admitir que, de longe em longe, surgem oportunidades genuinamente irrepetíveis, e assinalam-se eventos cuja reprodução no lapso de tempo correspondente à vida média de um cidadão está longe de ser garantida.

Nos próximos dias 28 e 29, na Cinemateca, será exibida a versão integral de "Out 1", de Jacques Rivette. Esta versão, também chamada "Noli Me Tangere" (para a distinguir da versão abreviada, "Spectre"), com uma duração de mais de 12 horas, nunca foi vista em Portugal. Não me admiraria que os dedos das mãos chegassem para contar o número de exibições que este filme conheceu em todo o mundo.

Instrumentos persas de percussão, Ésquilo, Paris, Jean-Pierre Léaud, Michael Lonsdale, Bernadette Lafont, Bulle Ogier, Rohmer discursando sobre Balzac, conspirações tenebrosas, Lewis Carroll, tudo isto desfilará perante o olhar pasmado de quem aceitar o desafio e se dirigir às simpáticas instalações da Barata Salgueiro, de preferência munido de farnel.



(Atenção, o filme é colorido, mas na Internet só encontrei fotogramas a preto e branco.)

domingo, abril 20, 2008

A HORA RIVETTE (6): Citando de memória algumas das ideias/devaneios/argumentos trocados entre Serge Daney e Jacques Rivette ("Jacques Rivette, le Veilleur", de Claire Denis, Cinemateca, no passado dia 11):



  • Rivette pouco dado a close-ups por atribuir prioridade à interacção entre as personagens, à presença física dos corpos influenciando-se mutuamente. Os close-ups de Godard seriam válidos porque se continua a sentir o resto do corpo fora de campo, o prolongamento orgânico dos rostos.


    Eddie Constantine e Anna Karina em "Alphaville" (1965)


  • A chegada a Paris do jovem Rivette. Um encontro numa livraria de Saint-Sulpice, e a ida, nessa mesma noite, a uma sessão onde um certo Maurice Schérer (que ainda não era Éric Rohmer) apresentava "Les Dames du Bois de Boulogne", de Bresson.

  • Já não é possível começar uma história sabendo de antemão como essa história se irá terminar. "Não existem mais desenlaces." ("La Bande des Quatre" e "Haut Bas Fragile" são excelentes exemplos de filmes que parecem conduzir a desenlaces, mas que acabam por recusá-los, de forma discreta mas categórica.)

  • Um encontro com Fritz Lang em que este falou apenas e só de moral.

  • Rivette manifesta contentamento por sentir que os seus filmes são vistos e amados em paragens remotas. Uma vez, uma rapariga da Califórnia escreveu-lhe uma carta. A impressão vermelha da palma de uma mão, no exterior do envelope, revelava que a carta tinha a ver com o filme "Céline et Julie Vont en Bateau".

  • As filmagens de "La Bande des Quatre", marcadas pela recordação da filha de Bulle Ogier.

sábado, abril 19, 2008

EM TORNO DE "A NOITE": Antonioni possui um apelo sobre as massas nitidamente superior ao de Jacques Rivette. Ao passo que, nos filmes deste realizador recentemente mostrados na Cinemateca, raras vezes contei mais de uma dúzia de espectadores, a sala Dr. Félix Ribeiro registou bem mais de meia casa para a exibição de "A Noite". Um dos espectadores era um comentador desportivo sobejamente conhecido, cujo nome não revelo por uma questão de discrição. Posso apenas dizer que se trata de um household name de todos aqueles que, no último par de décadas, assistiram com regularidade a transmissões de futebol na televisão. Na bilheteira, um cavalheiro limitou-se a dizer "Antonioni", enquanto depositava o dinheiro sobre o balcão, com o ar mais solene deste mundo. Como se fosse uma espécie de senha. Nos lavabos dos homens da Cinemateca podem ler-se numerosas referências a realizadores famosos, da autoria (presumo) de frequentadores para quem a escatologia é indissociável da cinefilia. Exemplos: Antonioni, Pasolini, Jarman, Wilder, Bresson, Lynch. É ver para crer. Ou, no caso das senhoras, é pedir a um acompanhante masculino para ir lá ver para crer, e depois contar-lhe o que viu.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, uma senhora lia "A Enfermaria nº 6 e outros contos", de Chekhov, numa edição de bolso da colecção "livros RTP". Por falar em leituras: no filme "A Noite", de Antonioni, Monica Vitti está a ler "Os Sonâmbulos", de Broch, coisa que parece deixar Marcello Mastroianni deveras impressionado.

«A atitude de que a natureza é caótica e de que o artista lhe traz ordem é um ponto de vista muito absurdo, julgo eu. A única coisa que podemos pretender é trazer alguma ordem a nós mesmos.» (Willem de Kooning)




Willem de Kooning, "Untitled XX"

domingo, abril 13, 2008

DEDICATÓRIAS: Thea von Harbou dedicou o argumento de "Metropolis" a Fritz Lang, nos seguintes termos: "Para Ti, e para a Alemanha". Philip Larkin dedicou "The Less Deceived" à sua companheira Monica Jones. Foi a única recolha de poemas que ele dedicou a alguém. (*) (*) Fonte: Andrew Motion, in "Lives For Sale - Biographers' Tales", edited by Mark Bostridge, Continuum, 2004.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde (?) do metropolitano, uma senhora sentada à minha frente lia "Une Mort Très Douce", de Simone de Beauvoir. Trata-se de um curto relato, de natureza autobiográfica, onde a autora conta os momentos passados à cabeceira da sua mãe moribunda. Ao meu lado, uma senhora lia um livro da escritora moçambicana Paulina Chiziane. Eu lia o meu Balzac ("La Peau de Chagrin").

domingo, abril 06, 2008

INTO MY ARMS, O LORD, INTO MY ARMS, O LORD: Nessa noite, o pianista do centro comercial Atrium Saldanha tocava versões muito suas de temas de Nick Cave, intercalados com melodias vivaças de Jerry Lee Lewis. Não escutava uma música ambiente tão despropositada desde que, em escala no aeroporto de Barajas (Madrid), reconheci, com compreensível surpresa, duas canções de Leonard Cohen: "Bird On a Wire" e "Last Year's Man".
FILMES QUE EU GOSTARIA DE VER EM SALAS PORTUGUESAS:
Em pelo menos um destes casos, o filme ainda nem sequer teve estreia mundial. Noutros, a sua estreia em Portugal já está anunciada. Há até um (Rivette) que já pude ver. O que une estes filmes é o meu desejo de os ver, um dia, num ecrã perto de mim. Nos dias que correm, isso pode ser pedir demais. Hoje em dia, a divisa do Maio de 68 confunde-se com a aspiração do cinéfilo médio: ser realista e pedir o impossível.



"Voici Venu le Temps", de Alain Guiraudie










"Ne Touchez Pas la Hache", de Jacques Rivette








"Un Conte de Noël", de Arnaud Desplechin








"Aleksandra", de Aleksandr Sokurov






"Yella", de Christian Petzold






"Nightwatching", de Peter Greenaway







"Takeshis'", de Takeshi Kitano
O MEU PAI ESTÁ PRESO: Na opinião de Q., a música do "Filho do Recluso" é muito parecida com a de uma canção da Lhasa. Eu ainda tenho as minhas dúvidas.

quinta-feira, abril 03, 2008

O QUE DIRÁ DE TUDO ISTO O MARCANTONIO DEL CARLO?: Num momento de elevada intensidade dramática do episódio de hoje dos "Morangos com Açúcar", o Pulga revelou ao irmão que gosta de rapazes. Pergunto-me se o argumentista se terá inspirado nestes versos dos Belle and Sebastian: My brother had confessed that he was gay It took the heat off me for a while Se assim foi, a continuação da canção fornece excelentes ideias para os próximos desenvolvimentos da situação: He stood up with a sailor friend Made it known upon my sister's wedding day Todos os dias úteis, na TVI, entre as 18h e as 20h.

quarta-feira, abril 02, 2008

A HORA RIVETTE(5): Às vezes, a leitura das folhas da Cinemateca torna-se uma experiência penosa. Por exemplo, a folha dedicada a "L'Amour par Terre", de Rivette, da autoria de Antonio Rodrigues, repleta de afirmações no mínimo contestáveis. Pascal Bonitzer será um "bom crítico"? O extraordinário livro que Bonitzer dedicou a Éric Rohmer parece-me demonstrar à saciedade que o adjectivo "bom" é, neste caso, um brutal eufemismo. Trata-se de uma questão de opinião, bem entendido. Qualquer um é livre de chamar a Bonitzer um "bom crítico", assim como qualquer um é livre de chamar a Sven Nykvist um "técnico competente". Bonitzer será "um daqueles franceses pedantes, mas com estofo, que sabe do que está a falar"? Eu diria, isso sim, que Bonitzer é um daqueles franceses (como se a nacionalidade fosse aqui relevante) suficientemente inteligente, erudito, agudo e articulado para ser apodado de "pedante" por aqueles a quem a inteligência, a erudição, a agudeza e a articulação excessivas causam escândalo. Bonitzer é "péssimo realizador"? Dos seis filmes por ele realizados, apenas vi "Rien sur Robert" e "Petites Coupures". O primeiro é uma comédia vagamente existencial, que funciona também como engenhosa sátira do meio intello parisiense, valorizada por esses actores geniais que são Sandrine Kiberlain e Fabrice Luchini. O segundo é uma exploração, densa e sombria, da fugacidade das relações humanas. Mais uma vez, trata-se de uma questão de gosto, mas diabos me carreguem se consigo conceber como é que alguém, de entre todas as combinações de adjectivo e grau que a riqueza da língua portuguesa coloca ao seu dispor, se lembra de "péssimo" para qualificar a obra de realizador de Pascal Bonitzer. Bonitzer "tornou[-se] uma espécie de superego de Rivette"? Em psicanálise não me meto, mas caramba... Rivette só utiliza, neste filme, actores que nunca tinham trabalhado com ele, à excepção de Jean-Pierre Kalfon? É falso. Já trabalhara com Geraldine Chaplin em "Noroît". O cinema de Rivette fora, até então, "terrivelmente sério, desprovido da menor gota de humor"? É caso para perguntar se o autor desta folha viu mais algum filme de Rivette. "Le Coup du Berger", "Paris Nous Appartient", "L'Amour Fou" (recorde-se a cena das matrioskas), "Out 1" (recorde-se o inenarrável monólogo de Rohmer sobre Balzac, dirigido a um Jean-Pierre Léaud pretensamente mudo) e "Noroît" são filmes onde o humor se encontra presente, e não certamente em doses homeopáticas. Quanto a "Céline et Julie Vont en Bateau", qualificá-lo de outra forma que não de "comédia" é atentar ao seu espírito de forma flagrantíssima. Felizmente, revi ontem "Haut Bas Fragile", filme que possui a virtude de atenuar todas as frustrações, contrariedades e arrelias.
HAIKKUS POLÍTICOS (3-5): Os sulcos da neve. Patinha Antão e colegas de bancada. A tarde. Os seus rumores envolvendo o sábio. Sufrágio universal. Maçãs verdes sobre a cal. Distrital de Coimbra do CDS-P.Popular.
VIVA KARL POPPER!: Recentemente, recebi uma mensagem de um indivíduo que reivindicava ter descoberto que a teoria da Relatividade de Einstein estava errada, e que solicitava uma contribuição monetária para adquirir uma peça de equipamento que lhe permitiria demonstrar a sua falsidade. Essa peça de equipamento custaria 650 euros. Parece-me uma quantia irrisória para revolucionar a Física. Seria irrealista pedir uma melhor relação preço/qualidade. Foi, enfim, uma variante refrescante, à modesta escala portuguesa, e (quem sabe?) talvez isenta de propósitos maliciosos, dessas mensagens de homens de negócios nigerianos ou de viúvas de guerra ruandesas que conquistaram o seu lugar no dia-a-dia do internauta médio. (A propósito de nigerian scams, isto merece sem dúvida os mais de 500 000 visionamentos que já registou: trapaceiros persuadidos a reproduzir um dos mais famosos momentos humorísticos do século XX, o "Parrot Sketch" dos Monty Python, por um scambaiter. É quase demasiado suculento para ser verdade.)

domingo, março 30, 2008

WIDMARK, BATTER YOUR CONK: Sobre o recentemente falecido Richard Widmark, duvido que algum obituário tenha sido mais eloquente do que este discurso saído da boca de uma personagem de Donald Barthelme (do conto "Visitors", in "40 Stories"): Richard Widmark was one of his favorite actors in the whole world, he told her, because of the way in which Richard Widmark was able to convey, what was the word, resilience. You could knock Richard Widmark down, he said, you could even knock Richard Widmark down repeatedly, but you had better bear in mind while knocking Richard Widmark down that Richard Widmark was pretty damn sure going to bounce back up and batter your conk-
A HORA RIVETTE (4): "O Segredo por Trás do Segredo" é o nome do ciclo que a Cinemateca está a dedicar a Jacques Rivette. Só um qualquer segredo obscuro, a estultice ou um capricho levariam alguém a escolher este lance como o primeiro de um jogo de xadrez. A base de dados ChessGames só regista 11 partidas (de um total de mais de 400 000) cujo primeiro lance foi f3 (peão do bispo de rei avança uma casa). Nunca fiz um levantamento sistemático de cenas com xadrez nos filmes de Rivette, mas ocorre-me uma cena de "Out 1" em que Juliet Berto entra na casa de Jacques Doniol-Valcroze quando este está a estudar uma posição num tabuleiro. Se bem me recordo, Doniol-Valcroze convida-a a regressar noutro dia, e oferece-se para lhe ensinar os rudimentos do jogo. Também há xadrez em "L'Amour par Terre".
FAVORITISMOS: Para quem tenha acabado de chegar ao nosso planeta, proveniente do planeta Zog, queria informar que os blogs Bibliotecário de Babel e 5 Dias são excelentes e dignos de visitas muito regulares.
LLANSOL: Raras foram as reacções ao falecimento da escritora Maria Gabriela Llansol que não afloraram questões como o "hermetismo", a "inacessibilidade" ou até um suposto carácter "místico" da prosa desta autora. A obra de Llansol presta-se, certamente, ao debate relativo às exigências, de cariz mais ou menos explicitamente contratual, que um texto deve ou pode estabelecer com o seu leitor, e sem dúvida que dicotomias como "fácil"/"difícil", ou "acessível"/"hermético" podem servir como pontos de partida, ainda que a um nível muito superficial, para uma discussão séria sobre um dado autor. Mas onde existirá, na imprensa de hoje, espaço para o aprofundamento destas discussões? Não existe, por maior que seja a boa vontade ou a preparação do crítico. Autores como Llansol, pouco mediáticos mas não obscuros, vêem as análises à sua obra confinadas a revistas da especialidade e colóquios, sendo que os fugazes episódios de exposição ao grande público (por ocasião de prémios ou do seu desaparecimento) de pouco servem senão para ajudar a cristalizar noções devidamente moldadas em chavões prontos a usar. Quase seria mais desejável um simples obituário, o mais lacónico possível, num canto de página. (Pelo menos, desta vez, não ouvi ninguém falar em "feminismo" ou em "experiência feminina".) De certa forma, acho desconcertante que se fale de uma escrita "difícil" a propósito de Maria Gabriela Llansol. É redutor encarar-se uma obra literária como um mero desafio proposto ao leitor, dotado de um prémio final, qual pote de ouro por detrás do arco-íris, chame-se ele "sentido", "moral" ou "desenlace", mais ou menos fácil de alcançar consoante os caprichos do leitor ou o seu apetite pelas armadilhas. Em Llansol, a própria construção do texto, esse labor cuja extrema complexidade e morosidade poucos autores terão compreendido e aceite tão bem como ela, é o desafio permanente, um desafio para o qual o leitor é convocado ao mesmo tempo que o autor o vive. Longe de ser rebarbativa, a prosa de Llansol é atravessada por uma vontade de acolher e envolver. A agudíssima penetração da sua inteligência não é usada para alienar um leitor incapaz de tamanhos voos; serve, isso sim, para mostrar facetas insuspeitadas em noções e entidades, num espaço que é o do quotidiano mas também o da especulação. O sentido da prosa de Llansol é um sentido aparentemente precário e transiente, até mesmo arbitrário, mas ele alicerça-se numa meticulosa exploração das associações entre seres, conceitos, sensações, e as múltiplas manifestações da História e da vivência humana. Os seus livros são um permanente convite ao leitor. A leitura atenta de um livro de Maria Gabriela Llansol é uma das experiências mais gratificantes que a literatura portuguesa dos últimos 100 anos tem para oferecer. (Não é de hoje, este conflito que eu sinto: por um lado, a certeza de que uma maior cobertura mediática de certos autores não faria mais do que acentuar o ruído de fundo de futilidades que disfarça o essencial da sua obra; por outro, o desejo de que, em Portugal, se soubesse reconhecer aquilo que aqui existe de único e irrepetível em termos de criação artística.)

domingo, março 23, 2008

PUTAIN!: O acordeonista entrou numa carruagem da linha vermelha. Desabafo oriundo de um grupo de jovens francesas: "Putain! Même à Lisbonne!". É verdade: em vez dos maravilhosos jardins, das livrarias de sonho ou das padarias repletas de éclairs, pains au chocolat e tartelettes de framboesa, importamos de Paris a desoladora cacofonia acordeónica de trazer pelo metropolitano. Não existem aqui motivos de contentamento.

quarta-feira, março 19, 2008

INVESTIMENTOS NO FUTURO: Duas aquisições recentes para a DVDteca.



"Signs & Wonders", de Jonathan Nossiter. Uma das mais esplendorosas descobertas cinéfilas que tive a sorte de fazer durante a minha estadia em Paris. Um cruel conto urbano sobre as armadilhas do significado, extremamente rico do ponto de vista visual, e superiormente interpretado.


"Blissfully Yours", de Apichatpong Weerasethakul. Fiquei deveras impressionado com "Syndromes and a Century", e achei que valia a pena arriscar neste filme, de um realizador tailandês que tarda em estrear em salas portuguesas.
HAIKKUS POLÍTICOS (0-2): Na cerejeira a sombra. Amargo, o horizonte. Ribau Esteves. Gotas. Na cidade Cintilam insectos. E o comité central? Vitalino Canas. O som da maré enche Todas as janelas.
A HORA RIVETTE (3): Essa história dos títulos e das regras fez-me pensar que Rivette é o exemplo supremo do criador que não deixa as suas convicções teóricas cristalizarem-se em regras que se transformem em espartilhos. Rivette é um dos realizadores mais livres que existem, não porque careça de princípios e de ideias claras sobre o cinema, mas porque é suficientemente inteligente e subtil para, em vez de forçar os materiais com que trabalha para que se adaptem às suas maneiras de ver, criar as condições para que o cinema, tal como o entende, aconteça. Estou a falar da colaboração com argumentistas e actores, em particular, mas, de uma maneira geral, refiro-me a todas as atitudes e procedimentos que contribuem para o equilíbrio entre espontaneidade e premeditação que perpassa por toda a obra de Rivette. (Claro que eu nunca me atreveria a dizer que realizadores interventivos e manipuladores como Hitchcock ou Lynch não são "livres". Não pretendo enredar-me em excepções ou contra-exemplos, não viso uma qualquer lei. Estou apenas a falar de Rivette.)
SUGESTÕES PARA A PÁSCOA: Duas fatias de prosa da minha autoria estão agora disponíveis em todos os bons estabelecimentos. Uma delas é um conto, que se chama "Sonhos e Responsabilidade em Tondela", e que foi dado à estampa no âmbito do nº 16 da revista "Ficções". É um conto um bocado estranho, sobre um indivíduo que chega a uma cidade do interior do país para ser encenador de um grupo de teatro escolar, e que acaba por exercer também as funções de treinador de basquetebol. Acontecem muitas coisas neste conto, que se passa em Tondela (daí o título). A outra é um texto integrado no catálogo sobre Jacques Rivette editado pela Cinemateca. É um texto que se lê num instante, e que fala de vários filmes desse realizador.

domingo, março 16, 2008

A HORA RIVETTE (2): Não é essa a única excepção à regra de não pronunciar, nos diálogos, o título dos filmes de Rivette. No próprio "La Belle Noiseuse", o título (que é também o do quadro que constitui a obsessão de Frenhofer/Michel Piccoli) aparece nas falas de várias personagens. O mais curioso é que, no filme anterior ("La Bande des Quatre"), o quadro é também mencionado, pela misteriosa personagem de Benoît Régent, referindo-se a uma obscura história de tráfico de arte que (como tantas vezes sucede em Rivette) nunca saberemos se é verdade ou invenção.
OLHARES: Em Inglaterra, uma argentina revelou-me que, no seu país de origem, é comum perfeitos estranhos estabelecerem contacto visual na via pública, e que, quando isso sucede, a etiqueta obriga a que se saúdem. Manifestei-lhe a minha surpresa, mas não fiz questão de lhe explicar como, em Portugal, evitar o olhar alheio constitui actividade das mais disseminadas, e daquelas que são exercidas com maior empenho. Nos transportes públicos, por exemplo, mas não apenas aí.
BRESSON, MODO ESTÁDIO DO DRAGÃO: Segundo Q., Jesualdo Ferreira respeita as regras enunciadas nas "Notas Sobre o Cinematógrafo".

sexta-feira, março 14, 2008

A HORA RIVETTE: Para quê escondê-lo? (Sim, para quê?) A retrospectiva Rivette na Barata Salgueiro é uma das principais razões da minha indisponibilidade destes últimos dias. Fui ver, até agora, os seguintes filmes:
  • "L'Amour Fou" (terminou depois das 2 da manhã).
  • "Noroît"
  • "Céline et Julie Vont en Bateau"
  • "L'Amour par Terre"
  • "Merry-Go-Round"
  • "La Bande des Quatre"

No caso de "Noroît", "L'Amour par Terre" e "Merry-Go-Round", trata-se de filmes que eu não conhecia. O primeiro é uma obra extremamente bizarra, por vezes exasperante, mas de que gostei muito. O segundo é um grande filme, com um dos argumentos mais ricos de todos os filmes de Rivette. O terceiro é, de longe, o pior filme deste realizador, com muito pouca coisa que o resgate ao estatuto de falhanço colossal.

O momento mais sublime das últimas noites cinematequianas ocorreu quando, duas horas e meia depois do início de "Merry-Go-Round", um rapaz louro entrou na sala e se instalou calmamente a dois lugares do meu. Tudo na sua linguagem corporal indicava a predisposição para desfrutar de um filme na sua integralidade, com essa mistura de tensão e volúpia que distingue o cinéfilo do simples turista das salas de cinema. O filme terminou cinco minutos depois.

CÂNONE: Sucede que eu sou a favor da existência de um cânone da literatura ocidental. Mas eu também sou a favor de muitas coisas de popularidade duvidosa, como sejam a abolição da calçada à portuguesa e a elevação do bolo de arroz a património universal.
AGRADECIDO: Os meus agradecimentos vão todos, inteirinhos, sem passar pela casa Partida nem receber 2000 escudos, para o Irmaolucia e para o Pastoral Portuguesa pela menção ao primeiro lustro deste blog. Quanto ao preço da maionese, o que dizer que não tenha ainda sido dito? A especulação é, deveras, o mal do século.
TEMPO: Uma coisa é não ter tempo para escrever baboseiras sobre a vida em geral. Uma outra coisa, muito diferente. é não ter tempo para escrever algo, por pouco e inútil que seja, sobre o falecimento de Maria Gabriela Llansol.

sábado, março 01, 2008

VENHAM MAIS CINCO: O 1bsk faz hoje 5 anos. Foi inaugurado no dia do 75º aniversário do realizador Jacques Rivette, o seu patrono não oficial. Não foi deliberado, mas é o tipo de gesto que um indivíduo com queda para as efemérides, como eu, seria bem capaz de perpetrar. O segredo da longevidade do 1bsk é muito simples. Este blog não é um projecto que corra o risco de se esgotar, nem é uma empreitada susceptível de ser cumprida. A sua razão de ser nunca se desagregará porque não possui nenhuma. O seu "sentido" (palavra de que urge desconfiar) dura o tempo que duram as suas micro-erupções. O trabalho de o aniquilar implicaria atribuir-lhe uma importância manifestamente excessiva. O seu destino é o de, placidamente, perdurar. Este blog nunca mudou de template, excepção feita a modificações estéticas de pouca monta. Este blog nunca mudou de nome, nem de linha editorial, nem de tipo de letra. A mudança de plataforma foi o único evento que violou a sua natureza essencialmente conservadora. Esse conservadorismo não representa uma mentalidade nem uma convicção, mas apenas um fruto do apego à lei do menor esforço e da sensação de que neste mundo, que é o nosso, as coisas (ah, as coisas!) mudam demasiado depressa. Talvez para oferecer um contraponto ao pequeno núcleo de fel e ressentimento que o acompanha, intacto, desde o início, este blog prefere virar-se para assuntos simpáticos e aprazíveis em vez das medonhas desgraças e das ignóbeis golpadas que nunca deixam de merecer destaque na nossa imprensa de referência. Incomodámos interesses estabelecidos por colocar em plano de igualdade a literatura, o cinema, a doçaria portuguesa, o xadrez, a toponímia parisiense, a ética republicana, gatos perdidos, Demis Roussos e a estátua do Dr. Sousa Martins. Os interesses estabelecidos também nos incomodaram a nós. Os concertos ao ar livre no Jardim dos Ulmeiros (em Telheiras) incomodaram-nos a nós, aos interesses estabelecidos e a toda a vizinhança. Este é um blog ecléctico, o que quer dizer que estendemos a nossa mediocridade a vários domínios, em vez de a confinarmos a um só, como é norma. Leitores, este blog continuaria a existir sem vós, mas de forma infinitamente mais deprimente e macambúzia. Como gostaria eu de, em jeito de recompensa pela vossa fidelidade, vos oferecer um daqueles prefácios à maneira de Kierkegaard, ou, à falta disso, um magnífico chá dançante!

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

ANÚNCIO POR CAUSA DA MORAL:

Grande venda de obras de arte.
Todas as peças a €20.

Fotografias, pinturas, ilustrações, pautas musicais originais, manuscritos, etc., etc.

Só autores famosos.

Inauguração no dia 1 de Março, pelas 16h00, na Galeria do JUP (Rua Miguel Bombarda, 187, R/C, no Porto).

O produto das vendas será aplicado na produção da revista "aguasfurtadas" 11.


DE VOLTA: Regressei a Portugal e deixei de escrever no blog. Não tenho paciência para escrever.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

FRUTOS VERMELHOS COM SACAROSE: Sempre ambicionei começar um post com uma frase deste tipo: "Um leitor manifestou o seu espanto por eu não falar de... (inserir tema de actualidade, daqueles em que urge malhar enquanto o ferro está quente)". Eis que soou a minha hora. Um leitor manifestou o seu espanto por eu não falar dos "Morangos com Açúcar". Como sublinha, e bem, uma ausência do país não constitui justificação aceitável. A essência dos "Morangos" é algo de imaterial, que transcende a realidade quotidiana dos episódios que a TVI transmite. Os motivos são outros. Os "Morangos" transformaram-se numa máquina de produzir universais. As personagens são meras instâncias de ideias de personagem, essas formas puras, entre o realista e o folhetinesco, que presidem aos seus movimentos como severos anjos da guarda. Quando acompanhávamos as desventuras da simpática Matilde, a sua espessura humana e o seu papel na economia narrativa global do projecto "Morangos" equilibravam-se com graciosidade, nutriam-se mutuamente. Agora, as personagens parecem paralisadas pela necessidade de significarem algo, de estarem à altura das poderosas linhas de argumento que os ultrapassam, sufocantes na sua ominipresença. Torna-se também consternante para o espectador ter de se conformar com a arbitrariedade com que certas personagens são dispensadas, ao passo que outras, sem que nada justifique o tratamento diferenciado, são retidas. Exemplo: os irmãos João e Pulga sobreviveram à última hecatombe, mas o que é feito do progenitor, superiormente interpretado por Marcantonio Del Carlo? Finalmente, abandonar a zona de Cascais foi um trágico passo em falso. Só alguém completamente desfasado do espírito dos "Morangos" pode admitir que abdicar dos salpicos de água salgada e da pele bronzeada do João Catarré e da Diana Chaves e mergulhar numa weltschmerz urbana e macilenta pode representar um upgrade. Enfim, não me parece, como dizer?, bem.
OS ANTAGONISTAS DA GUERRA DAS CIVILIZAÇÕES NÃO SÃO QUEM SE PENSA: As declarações do arcebispo da Cantuária sobre a eventualidade (e conveniência) da introdução da sharia em Inglaterra demonstram aquilo que entra pelos olhos dentro de qualquer pessoa minimamente atenta ao que se passa no mundo. As quezílias locais e transientes entre religiões diferentes não passam de batalhas de flores quando comparadas com a guerra permanente entre as religiões organizadas e os estados seculares. Esta guerra só ocasionalmente surge sob as luzes da ribalta, mas não conhece tréguas, e os seus intervenientes estão cientes da sua importância vital. Líderes de religiões que supostamente se antagonizam assumem opiniões que parecem cópias conformes umas das outras. Alianças tácitas são estabelecidas com surpreendente facilidade, quando o objectivo é o de lançar areia para a engrenagem dos estados de direito e o de promover mundividências de cariz confessional sobre as leis e instituições democraticamente eleitas. Ainda mais reveladora do que a sua admissão de que a adopção de certas partes da sharia, no seio do sistema legal inglês, é "inevitável", é esta frase de Rowan Williams: «[an approach to law which simply says] there's one law for everybody and that's all there is to be said, and anything else that commands your loyalty or allegiance is completely irrelevant in the processes of the courts - I think that's a bit of a danger» É difícil ser mais transparente no repúdio do princípio basilar do estado de direito.

domingo, fevereiro 10, 2008

TUBÉRCULOS COMESTÍVEIS - TODA A VERDADE: O programa editorial do 1bsk reza assim: «Blog sobre a vida e obra de Heinrich von Kleist, bolos de arroz, a arte pela arte, o Dr. Sousa Martins, e outras coisas começadas por "k". » Que coisas começadas por "k", pergunta-se legitimamente o leitor, provavelmente com um esgar de perplexidade estampado no rosto. Um excelente exemplo é o "East Anglia Potato Day". Intercâmbio de sementes, utensílios para o cultivo deste popular tubérculo, prova de batatas fritas, livros e aconselhamento. Os nomes das variedades de batatas fazem sonhar: Mimi, Riviera, Ulster Chieftain, Cosmos, Magic Red, Vivaldi, Yukon Gold, Bambino, Harlequin, International Kidney, Picasso, Druid, Golden Wonder, Pink Fir Apple, Sarpo Axona... Imaginem-se as longas discussões que se podem manter acerca dos méritos relativos destes tipos de batatas. Cabe-me informar com lástima (e um pedido de desculpas pela minha inépcia) que o "Potato Day" deste ano decorreu neste sábado, pelo que é tarde demais para se dirigirem a Stonham Aspal, North Stowmarket, Suffolk com o propósito honesto de degustar uma Vivaldi frita. "East Anglia Potato Day" não começa por "k", evidência que me parece difícil de negar. Mas seria mesquinho excluir este evento de uma lista de coisas começadas por "k" apenas com base nesse argumento.
ESVAZIAMENTO: Ricardo Bexiga diz que houve estratégia de «esvaziamento». Este blog, por norma, é hostil a trocadilhos envolvendo funções orgânicas. A excepção justifica-se, neste caso, porque a reverência perante o génio é mais forte do que os princípios. E se este título não é genial, não sei o que é o génio. Se o jogo de palavras foi propositado, revela, por parte do seu autor, uma auto-ironia que é apanágio de poucos. Caso contrário, há que prestar tributo à capacidade do ser humano para alcançar a grandeza de forma não premeditada.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

COMO DIZER MAL SEM DIZER MAL: «While Lessing has certainly earned her right to be considered an elder stateswoman of contemporary letters, this portentous and, irritatingly vague tale does not really show her at her best.» (Christina Koning, crítica a "The Cleft", de Doris Lessing, "The Times", 26/1/2008.) Há muitas maneiras de travestir uma falta de consideração em elogio. Neste caso, o disfarce é dos mais diáfanos. Partindo do princípio de que a sinceridade é um dos atributos do bom crítico (admito que este é um ponto não consensual), teria sido mais apropriado que a autora desta crítica exprimisse o seu desprezo sem se julgar obrigada a derivas eufemísticas. "Elder stateswoman" remete para o estatuto, ignorando o talento. É o tipo de qualificativo que nenhum autor sério ambiciona. Deixar subentender que os esforços de um escritor se orientaram para a obtenção desse estatuto é, no caso de alguém como Doris Lessing, tão falso como mesquinho. À falta de sinceridade, outro dos predicados do bom crítico deve ser um conhecimento, pelo menos sofrível, das regras da pontuação. O excerto acima reproduzido nada indicia de lisonjeiro a esse respeito.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

LEI 37/2007: Também já tinha notado que o tema da legislação contra o tabaco nos lugares públicos é dos poucos (talvez o único) capaz de levar os mais cordatos e assisados a inauditos extremos de inanidade. À falta de comedimento e coerência, seria ao menos de esperar que estes diligentes artesãos da opinião dessem mostras de alguma criatividade. Mas o despeito tem como efeito secundário restringir o campo visual aos chavões mais à mão. Não me lembro de ter lido um único artigo contrário à nova lei que não empregasse uma ou mais das palavras "fascismo", "nazismo", "fundamentalismo", "taliban", "apartheid", "ghetto" ou seus derivados. A história continua a ocupar, destacada, o primeiro lugar entre os fornecedores de termos de comparação prontos-a-usar. O último a juntar-se a esta iracunda galeria foi Vasco Graça Moura que, na sua crónica do "DN" nos brinda com um texto muitíssimo engraçado. Entre fazer notar ("a quem possa interessar") que «o conceito de "tabagismo passivo" foi formulado pela primeira vez na Alemanha hitleriana» e alegar, em tom de trágica vitimização, que «[os fumadores] de há muito que se disciplinaram, habituando-se a não fumar nos transportes, em serviços de atendimento ao público, em restaurantes fora das zonas reservadas, etc., etc.» (por "disciplinaram" entenda-se, presumo, "passaram a cumprir a lei, como é obrigação de qualquer um"), VGM, com a verve pletórica que todos lhe reconhecem, encadeia grande parte das keywords que a tradição já exige: estrela amarela, fundamentalismo, ghetto, repressão, politicamente correcto, lei seca, novamente fundamentalismo, novamente ghetto, novamente repressão (VGM não teria à mão um dicionário de sinónimos?) e, qual cereja em cima do bolo, a jihad. O sentido das proporções é um dos nossos bens mais preciosos. Vê-lo soçobrar tão espectacularmente em pessoas inteligentes é deveras embaraçoso, um pouco como observar alguém a falar sozinho em público.

domingo, fevereiro 03, 2008

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha de autocarro Citi1, um cavalheiro lia descontraidamente "The Emigrants", de W.G. Sebald. A colheita de leitores em lugares públicos cantabrigianos tem sido de uma parcimónia que contrasta cruelmente com as minhas esperanças iniciais. Pode dar-se o caso de estar demasiado ocupado com as minhas próprias leituras. Descobri, com efeito, que consigo ler no autocarro sem efeitos adversos para a minha disposição física, apesar da tortuosidade do trajecto.
MEIA DESFEITA: Comparar o template deste blog a meias enfeitadas com raquetes é um dos mais calorosos elogios que eu poderia esperar. As meias enfeitadas com raquetes representam uma maneira de estar na vida na qual me revejo, e o que seria de estranhar era que o template não reflectisse isso mesmo. Este template, com alterações meramente circunstanciais e de pormenor, acompanha-me há quase 5 anos. Muitas peúgas que andam por aí não chegam a durar metade disso, por muito que prometam no início. Dispersei-me um poucochinho, mas penso ter feito passar a essência daquilo que queria fazer passar.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

NO FILM FOR YOUNG MEN: O filme "No Country for Old Men" recebeu, no Reino Unido, uma classificação etária de maiores de 15 anos, ao passo que "Lust, Caution" ficou reservado a maiores de 18 anos. Partindo do princípio de que a classificação atribuída ao filme de Ang Lee se deveu ao seu conteúdo sexual (existe uma cena bastante violenta, mas quase corriqueira quando comparada com os padrões de tolerância actuais), esta discrepância leva a concluir que, para o British Board of Film Censors (BBFC, venerável instituição e pilar da sociedade que não é meu desejo pôr em causa), um adolescente de 16 anos pode ficar mais traumatizado com a ginástica erótica de Tony Leung e Wei Tang do que com a sangrenta chacina em série protagonizada por Javier Bardem. O leitor pode obter aqui e aqui (ver "Certification" em "Additional Details") indícios de que esta fobia relativamente às liberdades artísticas do foro carnal, associada a uma certa tolerância para com a violência no ecrã, parece ser uma especificidade anglo-saxónica. Se a função de um organismo que regula as classificações etárias dos espectáculos é a de reflectir os preconceitos e os pontos sensíveis de uma sociedade, o BBFC está a realizar um trabalho exemplar. De todas as sociedades de que tenho um conhecimento razoável, a inglesa é sem dúvida aquela em que mais se nota o embaraço no tratamento de tudo o que tenha a ver com sexo: a chalaça, a ironia, a esquiva, a brejeirice peso-pluma, tudo é válido quando o objectivo é evitar tratar com frontalidade e naturalidade assuntos de natureza sexual. O site do British Board of Film Censors confirma que a classificação atribuída a "Lust, Caution" se deveu a "strong sex", e a de "No Country for Old Men" a "bloody violence".
OS MILAGRES EXISTEM: Caída, a bem dizer, de pára-quedas, foi publicada na Chessbase uma reportagem sobre um torneio de xadrez realizado na Marinha Grande.
REGICÍDIO: A data que eu celebro é o 5 de Outubro, não certamente o 1 de Fevereiro. A primeiríssima razão é a convicção de que o homicídio é o pior dos crimes. Deixo para outros, com mais conhecimentos sobre o assunto e mais vagar, as considerações sobre a importância deste acto para o processo que levou à implantação de República. O ponto fulcral e inamovível é este: salvo em casos extremos e excepcionais, não me sinto capaz de exaltar a memória de alguém que matou voluntariamente outro ser humano.

Não celebrar não significa renegar. Sou contrário à ideia de que, de alguma forma, o regicídio macula moralmente a fundação da República. A discussão sobre a legitimidade moral do acto de Manuel Buíça e Alfredo Costa é, julgo, inconsequente. Faz tanto sentido como discutir se a aniquilação do Conde Andeiro foi um gesto reprovável. A História não se compadece com julgamentos de valor copiados e colados do nosso dia-a-dia.

Gosto de viver numa República. Gosto de viver num país cujo líder máximo usufrui da legitimidade do voto. Por mais contestável que esta possa ser, é infinitamente preferível à legitimidade do parentesco, essa ficção iníqua que, aqui e ali, continua a perdurar neste século XXI, como um sonho mau. Os avanços, recuos e arabescos laterais da História que transformaram Portugal naquilo que hoje é merecem, obviamente, estudo aprofundado, mas importam-me menos do que esta constatação: vivo num país cuja figura suprema, ao ser eleita pelos seus cidadãos, tem plena autoridade para os representar e actuar como garante das liberdades constitucionais, essa autoridade de que carece um monarca, bafejado apenas pelos arbítrios da hereditariedade e por uma sugestão, mais ou menos explícita, de Graça divina (o ingrediente mágico das monarquias).

quinta-feira, janeiro 31, 2008

PELAS RUAS DE CAMBRIDGE: Uma alternativa anfíbia ao Clive é a escola de condução "Toad's School of Driving".
NOLI ME TANGERE: Foi em VHS, sim senhor. E às prestações. Trouxe as cassetes do "Out 1" da fabulosa mediateca Jean-Pierre Melville (à rue de Tolbiac) cuja colecção de vídeos tinha a particularidade (única entre as bibliotecas de Paris, pelo que me apercebi) de estar ordenada pelo nome do realizador e não pelo título, sinal evidente de escrúpulo cinéfilo. Quanto ao vagar, foi sendo encontrado às prestações, porque 12 horas sempre são 12 horas (e não 8, por exemplo, muito menos 4). Outro feito rivetteano que me deixa mais do que um bocadinho ufano é ter assistido a estreias de filmes deste realizador em 3 países diferentes: Itália ("Haut Bas Fragile"), França ("Secret Défense") e Portugal (vários, a começar por "La Bande des Quatre"). Se, como é previsível, a minha saída de campo deste fim-de-semana para observar espécies de esquilos raras for cancelada, devido às inclemências da meteorologia, juntarei mais um binómio nação/filme a esta contabilidade. Com efeito, "Ne Touchez pas la Hache" ("Don't Touch the Axe") estreia amanhã aqui em Cambridge, no mítico Arts Picture House. Pergunto-me como será a tradução portuguesa do título deste filme. "Não Toques no Machado" remete mais para o parque Mayer do que para Balzac.

terça-feira, janeiro 29, 2008

DON'T COME KNOCKING ON THAT DOOR:


(St. Giles's Church, Cambridge)

segunda-feira, janeiro 28, 2008

AJUDANTES DA GRAVIDADE: Um fabuloso post sem palavras do Francisco. De cima para baixo, e correndo o risco de quebrar o mistério:
  • Fejria Deliba e Benoît Régent em "La Bande des Quatre", de Jacques Rivette.
  • Laure Marsac e Sandrine Bonnaire em "Secret Défense", de Jacques Rivette.
  • Jerzy Radziwilowicz e Emmanuelle Béart em "Histoire de Marie et Julien", de Jacques Rivette.

Julgo recordar-me de uma outra cena, também em "Secret Défense", onde Jerzy Radziwilowicz persuade/força uma das personagens (mas qual delas?) a largar uma arma. Tenho o DVD ao alcance da mão. Assim a minha vida de observador da vida selvagem mo permita, tentarei localizar a cena em questão. Assim que tiver novidades, os leitores serão os primeiros a saber.

Fevereiro e Março serão meses euforicamente vividos sob o signo de Rivette, por ocasião dos 80 anos desse franzino filho de um farmacêutico de Rouen, e da retrospectiva que a Cinemateca lhe dedicará.

domingo, janeiro 27, 2008

HORA DISCOVERY 'R' US:


Esta é uma bofetada de luva branca em todos aqueles (e são legião!) que duvidavam da minha vocação para fotógrafo da vida selvagem.

O habitat destas simpáticas criaturas concentra-se nas zonas mais inóspitas e inacessíveis da região da East Anglia. Foi um colossal golpe de sorte deparar com uma em pleno centro de Cambridge, a dois passos do museu Fitzwilliam (aberto de terça a sábado das 10 da manhã às 5 da tarde, aos domingos do meio-dia às 5 da tarde, entrada livre).

A minha afinidade para com os esquilos tem já uma longa história. Por exemplo, certa vez um vivaço membro desta espécie atravessou-se à minha frente em pleno parque de Schönbrunn. A princípio, confundi a sua atitude, demasiado amigável, com um gesto de agressividade, quando afinal se tratava somente da natural manifestação de uma apurada vontade de socializar. Considerei a hipótese de o adoptar, mas receei que a mudança de Viena para Lisboa pudesse acarretar consequências negativas para a qualidade de vida do animalzito.

sábado, janeiro 26, 2008

PELAS RUAS DE CAMBRIDGE: Leitor que lês este humilde blog, aceitarias alguma vez recorrer aos serviços de uma escola de condução baptizada "Drive with Clive"? Se a tua reacção é um consternado abanar de cabeça é porque vemos o mundo com os mesmos olhos. (Que sirva de lição àqueles que não acreditam na relação de causa/efeito entre um nome e uma vocação. Neste caso, com a ajuda de um incipiente gosto pelas regras da rima.)
DO BRASIL PARA O MUNDO: A revista online Critério inclui, no seu último número, um dossier temático sobre Delmore Schwartz, do qual consta um artigo da minha autoria.
UM BLOG COM VOZ: Uma árvore com voz em forma de blog. Borges, David Mourão-Ferreira, John Cage e Pogues marcam presença no aquário do peixe solúvel.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

É ENTRAR, É ENTRAR, O ESPECTÁCULO VAI COMEÇAR: Certas pessoas parecem retirar prazer de exercícios de contorcionismo argumentativo destinados a refutar o irrefutável ou a defender o indefensável. Em certos casos, o exercício é levado a tais extremos que, mais do que contorcionismo, se torna necessário falar de prestidigitação. Uma prestidigitação de feira popular, em que os truques só entretêm a multidão até alguém descobrir o compartimento onde se escondem as pernas da partenaire, ataviada de lantejoulas, que foi supostamente serrada ao meio. Numa das suas últimas crónicas, João César das Neves tenta convencer o seu respeitável público (perdão, os seus leitores) de que a Europa contemporânea foi obra da Igreja Católica. Uma coisa que ninguém nega é o papel importante que a Igreja desempenhou, na Idade Média, na conservação de arquivos e obras fundamentais de autores das civilizações clássicas (suponho que JCN inclui os atenienses do século de Péricles entre os pagãos "obscurantistas"). É também evidente que a Igreja, valendo-se do seu estatuto de instituição mais sólida e bem organizada ao longo de vários séculos, propiciou alguma estabilidade no continente europeu (mas não certamente da forma generalizada e idílica que JCN nos pinta). Isto, claro, quando não se entretinha a lançar achas para algumas fogueiras cuja combustão servia os seus desígnios. Daí a atribuir à Igreja o mérito por todas as invenções e progressos registados durante a Idade Média vai um imenso abismo, que JCN transpõe com a ligeireza despreocupada com que um gaiato salta uma poça de água. Quem o levasse à letra, ficaria convencido de que o arado, os óculos, as tintas a óleo e "as bases da ciência" (!!!???) foram obra de bem-intencionados monges e clérigos. As alegações de JCN não poderiam ser mais explícitas: «Em todos estes avanços, e muitos outros, têm papel decisivo mosteiros, conventos e escolas da catedral(...)». Teria especial interesse em que me fosse explicado o papel dos mosteiros na invenção do soneto. Com aquilo que o próprio tomará talvez por subtileza, JCN limita a sua análise trapalhona à Idade Média, calando-se quanto àquilo que a História regista a partir da contra-reforma. Mesmo que se admitisse, esforçando os limites da boa vontade, que a Igreja foi a principal responsável pela criação de um espaço europeu de progresso material e científico, uma rápida pesquisa na Internet ou numa boa biblioteca permitiria localizar centenas de exemplos de situações em que, nos últimos séculos, as autoridades eclesiásticas e a mentalidade cristã se afirmaram como os principais inimigos da ciência, do pensamento livre e da emancipação dos povos. Galileo Galilei, a Inquisição, o Índex, as encíclicas contra a separação Igreja/Estado e a liberdade de expressão, as cumplicidades com algumas ditaduras odiosas do século XX, são apenas alguns dos exemplos que não deixariam de ocorrer a qualquer cidadão normal que, como fonte de informação, não se ficasse pelas homilias de JCN ou de uma das suas cópias-conformes. Há limites para a credulidade da populaça. A Europa moderna construiu-se muito mais contra a Igreja do que por obra dela, e esse conflito não acabou: perdura ainda hoje, como o comprova a leitura regular dos jornais, povoados de intromissões na vida secular por parte daqueles a quem o bom-senso aconselharia a confinar-se ao tal reino que, diz-se, não é deste mundo.
ROBERT JAMES FISCHER 1943-2008:



Como xadrezista, foi um dos maiores talentos do século XX. Durante curtos períodos, exerceu um domínio avassalador sobre os seus pares, com poucos paralelos na história da modalidade. (Estou a pensar, em particular, no período que mediou entre o interzonal de Palma de Maiorca de 1970 e o match final do torneio dos candidatos contra Petrossian, em 1971.) A sua carreira foi mais curta e esparsa do que a de outros campeões do mundo, como Lasker, Capablanca, Alekhine, Karpov ou Kasparov, o que forçosamente condiciona qualquer comparação que se pretenda fazer entre eles. O seu estilo era enérgico, agressivo e pragmático.

Como pessoa, era execrável. Durante a sua carreira profissional, era conhecido pelo egocentrismo, pela falta de urbanidade e pelos seus caprichos. Na fase final da sua vida, resvalou por uma arrepiante espiral descendente que o levou à paranóia, ao anti-semitismo e à mania da perseguição. Na sequência dos atentados de 11 de Setembro, declarou "This is all wonderful news". É interessante constatar como o seu enorme talento parece ter servido como atenuante para as suas acções e declarações deploráveis. Até ao seu desaparecimento, nunca faltaram os amigos e ex-amigos prontos a desculparem-no. O governo da Islândia achou por bem conceder-lhe cidadania honorária, o que lhe permitiu viver os seus últimos anos em tranquilidade e segurança.

Fischer foi possivelmente a figura que maior influência e impacto teve no xadrez, na era moderna. O mediatismo que rodeou a sua disputa com Boris Spassky em 1972, que o levou ao título do campeão do mundo, representou um pico de popularidade e visibilidade que o xadrez muito dificilmente voltará a alcançar. Ao morrer, Fischer não se transformou em lenda. Reduzido a uma caricatura de si próprio, era já como lenda que ele sobrevivia no imaginário dos que o admiravam. E ninguém que aprecie o xadrez pode deixar de admirar profundamente aquilo que Fischer nos legou de mais precioso: a sua paixão por este jogo sublime, e as suas partidas.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

HÁ PAÍSES EM QUE A LAICIDADE É LEVADA A SÉRIO: O papa renunciou a visitar a universidade da Sapienza, em Roma, onde deveria ter pronunciado o discurso de abertura do ano lectivo. Parece-me que os protestos de alguns professores e alunos, que acabaram por levar à inviabilização da visita, foram um tudo-nada despropositados. A reacção mais indicada, a meu ver, teria sido outra: pedir, como legítima e cordial contrapartida ao privilégio concedido ao cidadão Ratzinger, que o presidente do Departamento de Física (aparentemente o mais fortemente implicado no protesto) fosse convidado a fazer a próxima bênção Urbi et Orbi. Tudo em nome da tolerância e da reconciliação entre ciência e religião. Sejamos claros: a presença deste papa, que já se distinguiu por afirmações anti-científicas, numa universidade tem tanto cabimento como a de um busto de Rosa Casaco num museu dedicado à resistência anti-fascista.
SÓ FALTA A MENS SANA: Hoje bebi um smoothie que, segundo reivindicação do fabricante, continha mais de 550% da dose diária recomendada de vitamina C. Sinto-me muito bem, sinto-me activo, alerta, pleno de ânimo, e nem um bocadinho oxidado. O smoothie continha acerola e "rosehip". Fiquei a saber que este último é o fruto da roseira, particularmente rico em vitamina C, para além de outras vitaminas, ácidos gordos e flavonóides. Para que o dia fosse perfeito, só me faltava ver um esquilo a atravessar a rua, e foi precisamente isso que sucedeu.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

CH-CH-CHANGES: Em resposta à pergunta de um entrevistador, Nick Clegg, recentemente eleito líder do partido Liberal Democrático, em Inglaterra, afirmou não acreditar em Deus. Pessoalmente, acho que tem escassa relevância o facto de este ou aquele líder político acreditar ou não em Deus. Trata-se de uma questão do foro pessoal. O que me interessa, e muito, é saber se a pessoa em questão deixa que as suas crenças interfiram nos seus processos de decisão, o que pensa sobre a separação Igreja/Estado, e se é mais ou menos imune às pressões exercidas por sectores religiosos na vida pública. Entre outras coisas. Contudo, há que admitir ser positivo e salutar para uma democracia que o líder de um partido com alguma expressão se sinta à vontade para manifestar a sua não-crença, sem rodeios nem tergiversações. Em quase todas as épocas do passado das democracias, e, ainda hoje, em muitos países, isso seria equivalente a suicídio político (sem prejuízo de outras consequências desconfortáveis para a pessoa jurídica ou física do indivíduo). O "Daily Telegraph", curiosamente, parecia mais preocupado com o facto de Clegg ter declarado que "Changes", de David Bowie, é o seu álbum preferido (quando na verdade é um single). Clegg parece apostado em fazer passar a sua mensagem às gerações mais jovens, tendo inclusivamente recrutado Brian Eno para o ajudar nesse desiderato. A acreditar no "Telegraph", tão colossal ignorância da história do rock não pode deixar de augurar um futuro sombrio para o timoneiro dos Lib Dems.

terça-feira, janeiro 08, 2008

LEI 37/2007: Deixou-me encantado, como é óbvio, a entrada em vigor da lei de protecção dos cidadãos da exposição involuntária ao fumo do tabaco (pois é disso que se trata, e não de uma perseguição aos fumadores, como por vezes se tenta fazer crer). Contudo, trata-se de uma lei marcada por alguns aspectos singularmente asininos. A introdução de excepções (Artigo 5º) é injustificada. Se é consensual que o tabagismo passivo mata e incapacita, numa escala preocupante, como se compreende que a legislação continue a admitir a exposição involuntária ao fumo de trabalhadores e clientes? Só o desejo de agradar a gregos e troianos, esse inexpugnável atavismo do génio português, pode dar origem a aberrações deste género. A maneira pouco explícita como a lei descreve o equipamento técnico que seria requerido, assim como os custos associados, parecem, afortunadamente, ter dissuadido a grande maioria dos proprietários de criar zonas de fumadores nos seus restaurantes e cafés. Também isto está de acordo com as boas tradições portuguesas: as anfractuosidades da legislação são alisadas pela pouca competência com que foram redigidas, e toda a gente fica satisfeita. Amanhã é outro dia, e o que é isto comparado com o raio da Terra expresso em milímetros. Aqui de Inglaterra, onde o bom senso chegou com alguns meses de avanço (sem excepções, sem alíneas), antecipo já o momento em que entrarei numa pastelaria de Lisboa com a garantia de, enquanto saboreio a minha beberagem acompanhada por bolo ou derivado, poder respirar à vontade. Até vai parecer estranho.
MODERN TALKING: Num ensaio publicado em edição recente do "Times Literary Supplement", Gabriel Josipovici lamenta o facto de a esmagadora maioria dos escritores contemporâneos do Reino Unido escrever como se o modernismo não tivesse existido. Pior ainda, como se o modernismo tivesse sido um episódio embaraçoso, que se despacha com uma piada e um encolher de ombros. Achei particularmente conseguida a comparação entre Kingsley Amis e Philip Larkin (que, nas cartas que trocavam, se entretinham a apoucar Virginia Woolf, D.H. Lawrence e outros seus contemporâneos) e um par de crianças que, perdidos numa festa de adultos, onde ninguém lhes liga, se vêem reduzidos a sussurrar graçolas dirigidas aos convivas. Não pude deixar de associar estas reflexões ao falecimento de Fernanda Botelho, exemplo excelente de uma autora agudamente consciente das convulsões que o romance conheceu no século XX, e que soube, de forma magistral, integrar essa herança no processo de maturação da sua voz ficcional própria. Não são muitos os nomes da actual ficção portuguesa em relação aos quais se pode dizer o mesmo (Vergílio Ferreira era outro exemplo). Talvez porque o modernismo foi, entre nós, sobretudo obra de poetas, os autores de hoje, com demasiada frequência, preferem alojar-se nos seus pequenos nichos de pós-modernismo estéril do que dar continuidade ao trabalho de reflexão iniciado pelas gerações anteriores. Um aspecto que Josipovici deixou talvez sem a devida ênfase foi a reduzidíssima tendência dos ingleses para se deixarem contaminar por influências estrangeiras. Mais do que a uma antipatia pelo modernismo, parece-me ser a essa resistência aos ventos que sopram do continente que se deve atribuir o défice de consciência histórica dos ficcionistas britânicos.

domingo, janeiro 06, 2008

FERNANDA BOTELHO: Fernanda Botelho faleceu e, como seria de esperar, não mereceu mais do que o destaque que a imprensa reserva (apetece-me dizer "concede, a contragosto") aos criadores e artistas que não tiveram a ventura de, em vida, aceder ao círculo de ícones da cultura oficial onde residem Saramago, Lobo Antunes, Paula Rego, Manoel de Oliveira, e poucos mais. Sou admirador dos romances de Fernanda Botelho. Se bem que a sua obra não possua a dimensão da de Agustina Bessa-Luís, têm em comum o facto de serem subvalorizadas, e de confirmarem uma minha convicção que vem de longe: a de que, em Portugal, se consome demasiada energia em picardias antunino-saramaguianas para reconhecer a excelência e a grandeza de certos autores que cuidam mais mediocremente das suas imagens. O que eu mais aprecio na maneira de escrever de Fernanda Botelho é o modo como explora a riqueza e complexidade humana das suas personagens nos seus romances, sem que isso a iniba de empreender um trabalho subtil e arrojado sobre a matéria ficcional. Por outras palavras, a profundidade das personagens nunca serve de álibi para descurar o aspecto formal. Os seus romances possuem estruturas complexas, por vezes desconcertantes, mas a sobriedade da autora nunca permite que se transformem em meros exercícios de estilo, da mesma forma que um sempre presente e saudável cepticismo a respeito da natureza humana impede que as personagens assumam preponderância sobre a ideia de ficção que funciona como fulcro do livro. Como seria de recear, muitos dos testemunhos recolhidos aquando da morte de Fernanda Botelho (não me lembro dos responsáveis, e pouco importa) pareceram mais apostados em salientar o facto de se tratar de uma mulher num mundo predominantemente masculino (com o que isso acarreta de loas à sua "visão" e "escrita feminina") do que em explicar a sua importância e valorizar o seu talento.
UM GRANDE POST: Um grande post para começar bem o ano de 2008. Temo apenas que os esforços e a clareza argumentativa do Ricardo se baldem, perante a proverbial má-fé dos potenciais destinatários. Esthers Mucznicks, Joões Césares das Neves, Antónios Marujos e outros que tais continuarão a defender que a laicidade não é mais do que uma forma de religião, que o ateísmo conduz inevitavelmente à amoralidade e é o mais eficaz cadinho para a ditadura, e que toda e qualquer medida que vá no sentido de concretizar a separação entre Igreja e Estado é um atentado contra as crenças profundas do bom povo português. Há pouco a fazer face àqueles que substituiram o bom senso e o exercício da racionalidade pela mera enunciação de dogmas.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

OS MEUS FILMES DAVAM UMA VIDA: Listas de filmes da vida são uma das coisas que tornam a existência mais doce, sobretudo quando a sua elaboração tem como efeito secundário, ou mesmo principal, um debate sobre o que vem a ser afinal um filme da vida. Com pouco tempo disponível entre mãos (em vésperas da partida para mais uma expedição de bird-watching, squirrel-frightening e kitten-fondling nos confins bravios de East Anglia), e sem desprimor para as bem fundamentadas opiniões alheias, atrevo-me a avançar três critérios necessários e suficientes para qualificar como "filme da vida" um filme que, de outro modo, não o seria.
  • Provoca forte e duradoura impressão no espectador.
  • Presta-se a que sobre ele se reflicta (o que exclui arrufos e meras reacções do foro visceral).
  • Essa impressão interage com os (mais ou menos voláteis) estados de espírito que marcaram uma determinada fase da vida do espectador.

Passando à prática, é com prazer que respondo ao desafio lançado pelo Sérgio do Auto-Retrato (há mais de 2 meses, é certo, um tempo de reacção que faz jus às tradições deste blog):

(5 de entre os 50 ou mais que poderia escolher. Demasiados filmes para tão pouca vida?)

LEIS DE KEPLER: O Umblogsobrekleist deseja a todos os seus leitores, clientes, visitantes, sócios, simpatizantes e credores um aprazível périplo da Terra em torno do Sol. Obrigado por passarem aqui. Tentarei ser mais assíduo em 2008, ano da entrada em vigor da lei 37/2007, das Olimpíadas em Dresden (sim, leram bem, Dresden), dos 80 anos de Jacques Rivette, e dos previsíveis revivalismos lacrimosos por ocasião do centenário do regicídio. Assunto não irá faltar.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

PASSEANDO POR CAMBRIDGE NUM DOMINGO COM O NATAL À PORTA:
  • Perto de Christ's Pieces, um pai de família que devora uma salsicha no pão vê-me a comer uma banana, e comenta «Taken the healthy choice?».
  • Um saxofonista interpreta um tema de Norah Jones, perto da entrada do Boots, ofuscando as mini-filarmónicas que povoam as ruas mais concorridas do centro da cidade.
  • Na livraria Borders, uma mulher, ao telefone, pergunta «How much into architecture is he?». A resposta parece ter sido categórica, e a pessoa em questão (que espero não seja leitor deste blog) pode contar com um livro sobre as "Houses of Parliament" no sapatinho.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No comboio Cambridge-Londres, uma jovem lia "The Crying of Lot 49", de Thomas Pynchon.


Pelo menos durante uma manhã, o sinistro segredo de Trystero pairou sobre as estações de Foxton, Shepreth, Meldreth, Royston, Ashwell & Morden, Baldock...


segunda-feira, dezembro 10, 2007

FINGERLESS, LAMBSKIN, LEATHER, STRIPED, FLEECE, AMBIDEXTROUS: Este site propõe-se reunir luvas perdidas na cidade de Pittsburgh, Pennsylvania, com os legítimos donos. Ou, mais exactamente, com as mãos geladas que tanto sentem a falta do artigo perdido. Há dias, encontrei um par de luvas num autocarro. Curiosamente, pareciam-se muito com estas. Não preciso de muito mais para acreditar num sinal do destino. Talvez a minha razão de ser e de estar no mundo tenha a ver com luvas. O meu destino não é loquaz. O meu destino é taciturno e lacónico, e esta seria uma preciosa ocasião para que o meu destino mudasse de atitude.

sábado, dezembro 08, 2007

LE POINT CENTRAL EST PRÉCISÉMENT LE SENTIMENT DE L'ÊTRE: «Au temps où j'écrivais la seconde et la troisième partie de ce livre, il m'est souvent arrivé de me répeter silencieusement ou à mi-voix à moi-même: «Zénon, Zénon, Zénon, Zénon, Zénon, Zénon...» Vingt fois, cent fois, davantage. Et sentir qu'à force de dire ce nom un peu plus de réalité se coagulait.» Isto escreve Marguerite Yourcenar no "Carnet de notes de L'Oeuvre au Noir". Como se fazer existir no mundo a sonoridade das sílabas do seu nome conferisse a uma personagem a sua legitimidade. Mais ainda: a sua inevitabilidade, um travo a facto consumado que consagra a responsabilidade do autor, para quem o retrocesso deixa de ser possível. Esta repetição é mais do que um mantra: é um salto no vazio, uma abdicação do direito a não criar. Mais do que criar um vínculo, o acto de nomear faz parte do vínculo.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No cinema Arts Picture House, de Cambridge, um jovem lia um livro de V.S. Naipaul. Sentou-se, tal como eu, na 3ª fila da plateia, não sei se por gostar de estar perto do ecrã, ou simplesmente por ser um lugar com iluminação suficiente para continuar a ler o seu livro antes do início do filme ("The Darjeeling Limited", Wes Anderson).

segunda-feira, dezembro 03, 2007

INITIATED INTO AN ORDER OF EXILES:



Os telhados de Paris, modo de usar; ou, Rivette em Cambridge; ou ainda, Trata Bem A Tua DVDteca E A Tua DVDteca Tratará Bem De Ti.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: (Neste caso, as minhas.) Lembro-me de ler que Marguerite Yourcenar declarou que preferiria uma morte lenta, para sentir o processo entranhar-se dentro de si. Foi impossível não recordar esta citação (talvez deturpada) ao ler o relato da morte auto-infligida da personagem Zénon, que encerra o romance "L'Oeuvre au Noir". Ainda estou na dúvida sobre se essas páginas tão singularmente lúcidas e serenas, mas também brutais, ganharam ou perderam intensidade ao serem lidas no piso superior de um autocarro da carreira "Citi 1", a caminho do centro de Cambridge, sacudido pelos solavancos do tráfego que faziam oscilar ruidosamente uma garrafa de "Dr. Pepper" abandonada no chão. Ao meu lado, esquecido sobre um banco, um par de luvas que entreguei ao condutor antes de sair. A vida, fazendo-se lembrada com bem-humorada prepotência?

quinta-feira, novembro 29, 2007

XADREZ: Para que um xadrezista português mereça algum destaque na imprensa generalista é necessário que o feito seja pouco menos que colossal. E foi o que aconteceu desta vez, com o desempenho notável de Ruben Pereira, que se sagrou vice-campeão mundial de sub-16 (com os mesmos pontos do vencedor), no recente campeonato disputado em Kemer-Antalya, na Turquia. Ruben Pereira é sem dúvida a maior esperança de um xadrez português que tarda em renovar-se, mau grado numerosas iniciativas de promoção e incentivo à modalidade, sobretudo ao nível das escolas. É difícil lutar contra a indiferença da comunicação social e contra a incipiente implantação do xadrez na sociedade portuguesa. Leitores habituais deste espaço estarão naturalmente desejosos por se inteirarem do resultado da goesa Ivana Maria Furtado, e é com indisfarçável gáudio que informo que ela triunfou, isolada, na categoria feminina de sub-8 anos. Em sub-18, a sua compatriota Mary Ann Gomes guindou-se a um honroso 6º lugar.
POST DE RODAPÉ: A propósito do Magdalen College, afiançaram-me um dia que a pronúncia correcta do seu nome é qualquer coisa como "Maudlin", ao passo que o nome da rua Magdalen Street, esse, deve ser pronunciado de forma mais ortodoxa ("Mag-da-len", como se escreve). Existe um parque de grande beleza, povoado por veados, adjacente ao Magdalen College.
QUIZ SHOW: Sou fã do concurso "University Challenge", uma instituição da televisão inglesa cuja primeira emissão remonta a 1962 (com um interregno de 7 anos pelo meio). Trata-se de um concurso de cultura geral, com a particularidade de ser disputado por equipas compostas por alunos de uma mesma universidade. São duas as características que fazem sobressair este concurso dos demais: a grande exigência das perguntas e o modo directo e pragmático como elas são colocadas, sem lugar para conversas de salão nem para dispensáveis minudências autobiográficas. Na última sessão a que assisti, uma das perguntas era qualquer coisa como: «Qual o nome do escritor francês experimentalista autor do maior palíndromo conhecido em língua francesa?». Após algumas hesitações, e de alguém ter murmurado "Queneau" em tom dubitativo, o jovem concorrente da Universidade de Birmingham (que, por sinal, foi derrotada ingloriamente pelo Magdalen College de Oxford) pronunciou, quase a medo, a resposta correcta: "Perec". Foi um momento de televisão muito bonito.

quarta-feira, novembro 28, 2007

PAINT IT BLACK:
NO BIKES
or we'll paint them black.
O facto deste anúncio estar afixado ao gradeamento do Departamento de História da Arte da Universidade de Cambridge empresta um certo peso à ameaça.

segunda-feira, novembro 26, 2007

PASSEANDO POR CAMBRIDGE: Passeando pelas ruas e lojas de Cambridge, o cidadão atento presencia cenas que merecem menção pela sua suculência inaudita. Por exemplo, num estabelecimento de restauração rápida de Regent Street uma jovem contava a uma amiga o enredo do romance "The Line of Beauty", de Alan Hollinghurst (ou talvez da série da BBC nele baseada). Por entre o ruído denso e tenaz que os convivas produziam, escutavam-se frases como "he was a Tory MP" e "what it was like being gay in the eighties". Na opulenta livraria Heffers, duas mulheres riam com juvenil franqueza diante de uma antologia do poeta John Betjeman, aberta sem dúvida num qualquer poema de elevado teor cómico. Nada disto se compara ao homem que, dentro de um caixote do lixo público, cantava "I'm Like a Bird", de Nelly Furtado, acompanhando-se à guitarra. Foi há cinco anos, nesta mesma cidade. Eram outros tempos, mais loucos, mais eufóricos.

terça-feira, novembro 20, 2007

A GUIDE BOOK OF EAST ANGLIA SMALL RODENTS: Algumas limitações no acesso à Internet, assim como o eclodir de um insuspeitado interesse pela observação de esquilos, poderão levar a que este blog continue a ser infrequentemente actualizado nos próximos tempos.
EVERYTHING IS MEANT: A melhor notícia para a blogosfera desde a blogosfera. Aqui.

quarta-feira, novembro 14, 2007

NECROLOGIA DOS PARASITAS:
FLEA
FUNERALS
DAILY
(Cartaz numa loja de animais ao pé de minha casa.)
POLICHINELO EM EAST ANGLIA: Estou a postar de uma cidade cujo nome começa por "Cam" e acaba em "ridge", e cuja universidade é uma das mais famosas do mundo. Precisam de mais alguma pista? Há corvos no cimo das árvores, cogumelos exuberantes e um restaurante vegetariano onde servem um tajine com batatas doces ao qual nenhum adjectivo mais brando do que "celestial" faz jus.

domingo, novembro 04, 2007

ESCOLA PÚBLICA (2): Por vezes, fico com a ideia de que certos cronistas da imprensa portuguesa se entregam a uma espécie de concurso, que consiste em escrever os mais inacreditáveis contra-sensos sem perder a compostura. A não ser que, em vez de um concurso, se trate de um exercício espiritual, à maneira dos de Santo Inácio de Loiola, o que constituiria certamente uma atenuante, visto tratar-se de uma tentativa de auto-aperfeiçoamento. No "DN" de ontem, por exemplo, João Miranda escreve: «Um sistema público de educação acaba sempre por ficar refém de interesses particulares.» Preto no branco, e logo a abrir a crónica. Pouco adiante, faz questão de especificar: «Fica refém dos grupos com poder político (sindicatos dos professores, grupos religiosos, partidos políticos, burocratas) que conseguem colocar os recursos públicos ao serviço dos seus interesses.» Sucede amiúde que uma crónica que abre com uma asserção aparentemente tão indefensável acabe por revelar uma lógica interna perfeitamente válida. No caso deste artigo, essa lógica é até das mais límpidas, embora não seja levada até às suas últimas consequências. Parece inegável que certos grupos têm o poder e a margem de manobra para co-optar o ensino público, e que nele encontram um caldo de cultura para as suas agendas e interesses. Não é por não reflectir a realidade que a primeira frase desta crónica é absurda e chocante. É por omitir que, num sistema de ensino dominado por instituições privadas, esses mesmos sectores, interesses e grupos já não precisariam sequer de tomar o ensino como refém: seriam livres para vicejar, para criar as suas esferas de influência, para competir pela oportunidade de influenciar mentalidades, para impor as suas mundividências na maior das legalidades e normalidades.