sábado, julho 12, 2008

POR FALAR EM CORES, UM POUCO DE ARTE AO AR LIVRE: Por razões de todos conhecidas, falou-se muito, nestes últimos dias, dos prédios devolutos de Lisboa, e em especial dos prédios devolutos da Avenida da Liberdade. Um facto que todas as reportagens e todos os comentários preferiram, convenientemente, ignorar é a existência de uma porta de uma fachada de um prédio devoluto, próximo da esquina da Rua Alexandre Herculano, que se encontra integralmente pintado com uma cor muito semelhante (para não dizer idêntica) ao famoso azul de Yves Klein. Para quem conhece a zona, não fica longe do café/restaurante da cadeia "Coffee & Pot", cuja tão badalada sanduíche "Enigma" (beringela, queijo de cabra e bifana) continua a dividir opiniões, e que veio oferecer uma interessante alternativa de restauração aos frequentadores da Cinemateca. Sim, porque o próprio restaurante da Cinemateca continua sem me convencer, seja ao nível da ementa, da eficiência do serviço ou da decoração (Marisol ao lado de Marguerite Duras???).
BLÙS E BULÙS: «(...)the Italian Futurist Fortunato Depero also wrote a short abstract stage piece, Colours, in which four coloured shapes in a bare blue room held a conversation in an abstract language. The dark-grey ovoid spoke interminably in an 'animal-like' voice, with many is and us, including frequent blùs and bulùs. The dynamic red triangular polyhedron spoke in a 'roaring, crashing' voice, with many sharp consonants, in words such as 'TORIAAAAKRAKTO'. The long, sharp, white shape spoke with a 'sharp, thin, brittle voice' with many is and zs, and the black multiglobe uttered deep, sonorous ms and os in a 'very profound, guttural voice'.» (in "Colour in art", John Gage, Thames & Hudson) Ao que consta, esta peça nunca foi levada à cena, o que é uma verdadeira lástima.

domingo, julho 06, 2008

MOMENTO DE CRÍTICA LITERÁRIA: «F-se! Qual Camões!? Qual Cesário Verde!? Qual Fernando Pessoa!? Qual Herberto Hélder!? Qual Cesariny!? Bom. Bom é o António Franco Alexandre!!!» Eu teria provavelmente empregue mais rodeios e menos vernáculo, mas solidarizo-me com este desabafo. A. Franco Alexandre é talvez o meu favorito entre os poetas portugueses em actividade. Há muito que alimento a ideia de escrever umas linhas sobre a sua obra.
A HORA RIVETTE (10): Se fosse necessário encontrar uma linha de força em torno da qual se pudesse articular um esboço de sumário para "Out 1", essa linha de força seria provavelmente o binómio inclusão/exclusão. Quase todas as movimentações de personagens estão relacionadas com o esforço de se aproximar de um grupo, de manter um grupo coeso, de se integrar, ou de favorecer a desagregação de um colectivo, ou com a tentativa de distinguir iniciados de leigos. O peso, a importância, a real influência social desses grupos é bem menos importante do que a sua capacidade para suscitar dinâmicas centrípetas e centrífugas, ou até as tangentes protagonizadas, de forma independente, por Frédérique (Juliet Berto) e por Colin (Jean-Pierre Léaud). Assim se compreende que a real natureza dos "treze" (grupo poderoso ou simples piada entre amigos?) permaneça indefinida. Quanto aos dois grupos de teatro a braços com os textos de Ésquilo, é sintomático que o mais duradouro seja aquele que investe uma menor fracção da sua energia na planificação construtiva de uma peça. Ao passo que o grupo de Lili (Michèle Moretti) desenvolve trabalho concreto de encenação dos "Sete Contra Tebas" (estudo do espaço, vocalizações, movimentações dos actores, leituras) e acaba por se desfazer, o grupo de Thomas (Michael Lonsdale), após algumas discussões iniciais sobre as ideias subjacentes ao "Prometeu Agrilhoado", passa a dedicar-se a exercícios e improvisações que só muito remotamente estarão relacionados com a peça, e acaba sobrevivendo até perto do final do filme. Esvaziar deliberadamente de propósito as suas actividades é aqui a estratégia correcta para contrariar a tendência natural para o desmembramento. Os "treze", que integram elementos de ambos os núcleos, são o grupo mais resistente de todos os envolvidos no filme, precisamente porque, mais ainda do que os seus objectivos, é a própria existência do grupo que se encontra envolvida na dúvida. Os "treze" respiram a própria precariedade, a própria fragilidade dos seus vínculos. Desprovida de sentido, à união dos seus membros ("sainte fut notre union", como reza o enigma que quase leva Colin ao desespero) resta existir, pois não pode contar com mais nada - plausibilidade, cabimento, verosimilhança. (Continua...)

domingo, junho 29, 2008

TEATRO E XADREZ: Atenção, as negras já jogaram e6. Talvez quisesses dizer 4.Cf3 c6, e aqui sim, tínhamos uma semi-eslava. Esta abertura corre o risco de se tornar algo enfadonha, pelo que preconizo o activo 5.Bg5 (anti-Merano) para animar a malta. Não estava a chamar pós-modernos aos Nature Theater of Oklahoma. Nem sequer assisti ao espectáculo, pelo que nunca me permitiria tais confianças. Estava simplesmente a meter-me dentro da cabeça de Lukas Podolski. Adivinho no avançado alemão, recentemente sagrado vice-campeão europeu, um asceta, um ortodoxo, que rejeita sob pretexto de pós-modernismo desviante todas as aventuras formais com que vai deparando pelos festivais de teatro da Europa. Saindo da cabeça de Lukas Podolski e reentrando na minha, até aprecio a designação de "pós-moderno". Tem a sua utilidade quando se pretende aludir, sem grandes preocupações de rigor, a manifestações artísticas caracterizadas por um desejo de exploração formal e pela aposta na reflexão sobre o próprio processo criativo, e que se situam, do ponto de vista cronológico, claramente para o lado de cá do movimento modernista propriamente dito (Woolf, Joyce, Musil, Stravinsky, Matisse, esses gajos). Donald Barthelme costumava dizer que aceitava o epíteto de "pós-modernista" para designar o grupo de ficcionistas norte-americanos composto por ele, Thomas Pynchon, Kurt Vonnegut, Grace Paley, Robert Coover, John Barth et al., mas apenas à falta de uma melhor alternativa.
CORRECÇÃO DE UM PEQUENO ERRO NO PROGRAMA DA CINEMATECA DE JULHO: O filme "La Leggenda del Santo Bevitore", de Ermanno Olmi, é baseado na novela de Joseph Roth, autor austríaco, e não americano, como se lê no programa.

quinta-feira, junho 26, 2008

NO DICE: Não fui o único a alvitrar que Lukas Podolski possui uma costela de historiador de xadrez amador. O sr. Greg Mack, de Melbourne, Austrália, desenvolveu uma teoria idêntica: «Gentlemen, perhaps you are being a little hard on Lukas Podolski. He may in fact be an amateur historian as well as a footballer. In the West, dice were used in chess between the 10th and 14th century to determine which piece should be moved. Religious leaders frowned upon the dice game. In the East, the Caliph al-Mahdi wrote to Mecca religious leaders in 780 to give up chess played with dice.» Quanto à sugestão do Francisco, é difícil atribuir-lhe crédito. Tanto as origens polacas de Podolski como a sua atitude dentro das quatro linhas leva-me a pensar que ele é um seguidor das teorias do "teatro pobre" de Jerzy Grotowski, e que as derivas pós-modernistas do grupo Nature Theater não merecem mais do que o seu desdém silencioso. A talhe de foice, isto é um gambito de dama recusado.
COMEÇAR A PENSAR: Leitor prezado, mesmo que não tenhas tempo para mais nada, sugiro-te que faças passar o teu périplo blogosférico pelas "Notas demasiado soltas" que o André dedicou ao festival "IndieLisboa". (Começar aqui e depois ir por aí acima.) Há poucos espaços em Portugal onde se pense o cinema de forma tão intensa e profunda, e ao dizer isto não estou a fazer distinção de meio: blogs, jornais, televisão, revistas, panfletos distribuídos no Rossio e conversas de café.

terça-feira, junho 24, 2008

PORQUE NÃO APOIEI A SELECÇÃO (3): Porque enveredou decididamente pela utilização espertalhona de jogadores recém-naturalizados. A partir do momento em que lhes foi atribuída a nacionalidade portuguesa, Deco e Pepe passaram a gozar de plenos direitos enquanto cidadãos deste país. Isso não me choca minimamente. Choca-me, isso sim, que lhes seja dada a oportunidade de representar uma selecção portuguesa, uma vez que não foram formados no país que estão a representar, não nasceram para o futebol em Portugal, emigraram para jogar futebol, o que faz com que toda a operação tresande a oportunismo. Estamos a falar de jogadores que passaram poucos anos em Portugal e que já não exercem a sua actividade aqui. Que critério pode justificar a sua inclusão numa selecção nacional? Não me incomoda nem um pouco que jogadores como Makukula ou Bosingwa representem Portugal, pois foi aqui que se desenvolveram enquanto futebolistas, e o seu percurso não passou por qualquer naturalização "à pressão" com o fim específico de envergar a camisola das quinas. Isto não é uma questão de saber a letra do hino nem de gostar de bacalhau. Trata-se de responder a esta questão simples: uma selecção nacional deve reflectir o valor de uma nação e dos seus atletas, ou a sua capacidade para atrair profissionais de outro país em quantidade e qualidade? Quanto ao argumento de que "os outros fazem o mesmo", é digno daqueles que confundem a ética com um jogo de imitação.
TOCA-E-FOGE: Certos blogs, reconhecíveis por uma panóplia de detalhes (os tiques, a postura, o estilo "toca-e-foge") cultivam um modo próprio de lançar provocações e de fingir admiração, postiça e chocarreira, perante quem reage às suas provocações com uma indignação que lhes pareça demasiado acalorada. Nesses cadinhos de bazófia, graçola e pseudo-ciência, a virtude do politicamente incorrecto é ponto mais do que adquirido, é credo e confiteor, razão de ser por vezes única. Assim, para citar um exemplo recente, quando Patrícia Lança se permite mais um dos seus celebrados devaneios homofóbicos, não falta um compagnon para assinalar, com uma brevidade que ele confunde com malícia, a multiplicidade de respostas neste blog. Aquilo que parece ficar esquecido, no meio da leviandade e da criancice que fazem lei nessas paragens, é esta coisa muito simples: alusões e asserções sobre os tais temas "fracturantes" suscitam indignação, revolta e desprezo não só pelo seu nível mais ou menos asinino (embora também por isso), mas sobretudo porque esses temas possuem um alcance social e humano profundo. Dar trela à homofobia, ainda que por mero desfastio ou por vontade de beliscar a sociologia bem-pensante, significa atrasar um pouco mais o combate contra uma mentalidade que ainda hoje faz com que duas pessoas do mesmo sexo que se amam tenham, na esmagadora maioria dos locais públicos do mundo, de esconder o que sentem. Significa, por omissão, contribuir para que permaneçam no lugar todas as estruturas legislativas, religiosas e sociais que consagram a perseguição e a hostilidade contra os homossexuais. É com o fogo que se está a brincar, quando se confunde um tema desta gravidade com uma troca de galhardetes blogosférica acriançada. O problema é que quem corre o risco de se queimar não é quem brinca.

domingo, junho 22, 2008

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na sala de espera da clínica veterinária, o dono de uma gatinha lia o "Times Literary Supplement". Continuamos numa onda de periódicos, desta vez num lugar inusitado.

quinta-feira, junho 19, 2008

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No comboio Lisboa-Porto, uma jovem lia "Os Irmãos Karamazov" em finlandês. Na linha vermelha do metropolitano de Lisboa, outra jovem lia "Diário para Eliza", de Laurence Sterne, enquanto comia quadrados de chocolate. O elemento-chave destas descrições é, no primeiro caso, o finlandês, e no segundo o chocolate.

segunda-feira, junho 16, 2008

OFERTA E PROCURA: No último dia da Feira do Livro, nos saldos da Relógio d'Água, vi o livro "Noivado em S. Domingo", de Kleist, à venda por 1 euro. Senti uma opressão no peito ao ver-me rodeado por milhares de pessoas que acham que uma moeda de 1 euro vale mais do que um livro de Kleist. Felizmente, a barraca das farturas estava mesmo ali à mão.
CINEMA: Um dos melhores momentos do filme "Sex & the City" é, indubitavelmente, a cena em que Kim Cattrall, num gesto de enfado, atira para trás das costas um exemplar do livro de Rhonda Byrne, "The Secret", que aterra na areia de uma praia californiana.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Para variar, hoje é uma revista que está em destaque. Na linha amarela do metro, um cavalheiro lia, compenetrado, a "New Yorker".
SPEAKING IN TONGUES: O locutor da TVI mostrava dificuldades evidentes em pronunciar o apelido do defesa suíço Stephan Lichtsteiner. Teriam bastando alguns rudimentos da fonética alemã, assimiláveis em 5 minutos. Em vez de fazer o trabalhinho de casa, o locutor troçou da própria inépcia: "Eles também não sabem pronunciar Miguel Veloso nem Jorge Ribeiro". Há poucas coisas mais patéticas do que alegar a (hipotética) incompetência alheia para se desculpar da própria incompetência. A propósito de pronúncia de nomes estrangeiros, quem mais se distingue positivamente neste campo, na televisão portuguesa, é claramente José Rodrigues dos Santos. Não aprecio o seu estilo, e ler "A Filha do Capitão" não faz parte dos meus planos para os próximos 600 mil anos, mas tiro-lhe o meu chapéu por causa disto.
PORQUE NÃO APOIO A SELECÇÃO (2a): Dificilmente se poderia pedir a Luiz Felipe Scolari uma confirmação mais eloquente da sua falta de carácter. No rescaldo de uma derrota (mesmo não contando para nada tratou-se de uma derrota), em vez de procurar justificar o que correu mal, contenta-se em insinuar que estava tudo decidido de início, e que o resultado mais não foi do que um presente de despedida para a selecção Suíça. Com a maior das ligeirezas, pôs em causa a integridade moral quer da equipa de arbitragem quer da organização do evento. É triste constatar como Scolari tão rapidamente assimilou a mentalidade lusa: quando ganhamos, é porque somos os mais fortes, quando perdemos é porque o árbitro não nos deixou ganhar (árbitro esse que, bem entendido, não passa de um testa-de-ferro de interesses escondidos, dos "grandes", desses que não perdoam que os "pequenos" portugueses andem por aí a chegar a finais de campeonatos). Haja dó. Mau perder e falta de categoria é o que não falta em Portugal. Compreende-se mal a necessidade de importar treinadores e de lhes pagar três milhões por mês. Qualquer tuga bigodudo da divisão de honra fazia o mesmo por cem vezes menos, mais umas imperiais de vez em quando.

sexta-feira, junho 13, 2008

SABEDORIA OCULTA: Lukas Podolski, jogador da selecção alemã que já marcou 3 golos no corrente Europeu, fez recentemente uma declaração que desencadeou o gáudio malévolo entre aqueles que coleccionam os disparates proferidos por desportistas: «O futebol é como o xadrez, mas sem os dados.» Todos os que deram largas à chacota fariam melhor em dedicar-se à pesquisa antes de crucificar o pobre Lukas. Sucede que o xadrez, ou pelo menos algumas das versões de jogos que são considerados os antepassados do xadrez (por exemplo o chaturanga), eram jogados com o auxílio de dados. Ver aqui, aqui e aqui, por exemplo. Lukas Podolski, para além da sua velocidade, sentido de colocação e portentoso remate de pé esquerdo, demonstra um conhecimento muito profundo da história do xadrez, e a capacidade louvável de se servir dele como inspiração para os seus mots d'esprit.
PORQUE NÃO APOIO A SELECÇÃO (2): Porque é comandada por um homem sem carácter. Agredir um membro de uma equipa adversária, em directo, e perante milhões de telespectadores, é já de si uma atitude extremamente condenável, e que levaria a despedimento com justa causa em quase todos os sectores profissionais. Negar o sucedido, não dar mostras de arrependimento, minimizar a gravidade do caso por meio de um punhado de trôpegas justificações, e apenas se desculpar muito mais tarde, e ainda por cima claramente a contragosto, eis o que define um perfil moral muito rasteirinho. A cereja em cima do bolo foi o recurso apresentado após uma sanção que só pecou por brandura, recurso apoiado pela Federação e inexplicavelmente acatado pela UEFA. Todo o país ficou a saber que ao seleccionador da equipa nacional de futebol tudo se desculpa. Não deveria ser assim, Trata-se de um cargo principescamente remunerado, com elevada exposição mediática e que acarreta responsabilidades de representação do país. A tolerância para prevaricações e comportamentos de arruaceiro deveria ser menor do que num cargo normal, e não maior. Scolari é um grande treinador; isso não contesto. Acho bastante graça àqueles que tentam relativizar o seu brilhante currículo por meio de golpes de rins argumentativos que fariam inveja aos sofistas da antiguidade. Porém, ser um grande treinador não chega.

terça-feira, junho 10, 2008

A HORA RIVETTE (9): Na Cinemateca, a Hora Rivette já acabou há muito; aqui no 1bsk, todas as horas são horas Rivette. Critiquei recentemente Antonio Rodrigues por mor de uma folha pouco conseguida sobre o filme "L'Amour par Terre". Convém deixar claro que os reparos que fiz se devem entender no contexto da profunda admiração e reconhecimento que sinto por este crítico desde que, há coisa de 2 anos, ele escreveu, a propósito de "Out 1: Spectre": «Um filme baseado em elementos frágeis (a improvisação, a paranóia), que resulta numa das aventuras mais intensas que um espectador de cinema poderá ter em toda a sua vida.»