quinta-feira, agosto 28, 2008
DERIVA MERITOCRÁTICA: Quiçá numa tentativa de reconciliação com as suas bases, depois do "rebelopintogate", a revista "Ler" entrou em plena deriva meritocrática e recrutou o Rogério para a sua equipa. Não me parece uma ideia famosa. Os portugueses não estão habituados a que o talento seja tão desavergonhadamente premiado. Antevejo que a emenda seja pior que o soneto, e que a revista acabe por alienar em definitivo os seus leitores. Enquanto o pau vai e vem, eu preparo-me para comprar a revista, depois do hiato motivado pela presença na capa da autora de "Português Suave". Esta decisão é irrevogável independentemente da identidade do dono deste ombro direito.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na estação de metro do Campo Grande, uma jovem lia, de pé, "A Trégua", de Primo Levi. A poucos metros de distância, também de pé, um jovem lia "Things You Should Know", da escritora americana A.M. Homes, uma recolha de contos que a escocesa Ali Smith qualificou nos seguintes termos: «funny and glinting and masterful, light as air, strange as a dream, monstrous as truth: the real and classic thing».
Na linha verde do metropolitano, uma jovem lia "Sensibilidade e Bom Senso", de Jane Austen.
Depois desta amostra, rirei na casa de quem ousar afirmar que a leitura é um hábito em declínio entre os portugueses, um riso sonoro e sarcástico, com o corpo inclinado para trás, como o dos maus nos desenhos animados.
domingo, agosto 24, 2008
IMPRESSÕES DE PEQUIM A PARTIR DE TELHEIRAS (4): A equipa masculina de pólo aquático da Hungria conquistou a medalha de ouro olímpica, ao passo que a equipa feminina se ficou pelo 4º lugar. Todos aqueles que viram o filme "Palombella Rossa", de Nanni Moretti, sabem que os húngaros são temíveis neste desporto. Pelo que me toca, sempre que assisto a uma transmissão de pólo aquático não sou capaz de evitar repetir interiormente o estribilho de Silvio Orlando:
Marca Budavari, marca Budavari, marca Budavari, marca Budavari, marca Budavari, marca Budavari, marca Budavari, marca Budavari, marca...
sábado, agosto 23, 2008
IMPRESSÕES DE PEQUIM A PARTIR DE TELHEIRAS (3): Parabéns a Nelson Évora e ao seu treinador João Ganço (cujas parecenças fisionómicas com o actor e escritor Dario Fo são notórias), parabéns não extensíveis à equipa de realização responsável pela emissão de atletismo dos Jogos. Os momentos decisivos do triplo salto foram preteridos em favor da apresentação, um a um, dos atletas que tomavam parte numa série dos 400 metros do decatlo, onde não se decidia nada (era somente a 5ª de 10 provas). A estratégia dos realizadores pareceu consistir em só mostrar (e certamente a contragosto) o triplo salto quando nada mais se passava no famigerado "Ninho de Pássaro", nem corridas, nem cerimónias protocolares, nem hinos, nem saltos, nem treinadores na bancada urrando e entregando-se a mímicas vagamente demenciais ou obscenas.
IGNORÂNCIA NO SAL: A actriz Catherine Deneuve visitou uma mina de sal-gema perto de Loulé, na companhia do ministro da Economia Manuel Pinho. No meio de um cenário feérico, que ajudou talvez a realçar o ridículo da pergunta, a jornalista quis saber se o ministro gostava de Deneuve "dos tempos em que ela andava no cinema". Dois minutos e uma pesquisa sumária teriam bastado a esta promissora profissional da comunicação social para concluir que Catherine Deneuve, longe de estar reformada, tem registado uma intensa actividade nos últimos anos, como se pode ver aqui. Nesta filmografia recente, não faltam os casos de papéis arrojados e exigentes, como por exemplo "Les Voleurs", de André Téchiné (1996), o magnífico "Le Vent de la Nuit", de Philippe Garrel (1999), "Pola X", de Leos Carax (1999) e "Rois et Reine", de Arnaud Desplechin (2004). Longe de estar afastada dos ecrãs, Catherine Deneuve, com mais de 60 anos, aceita papéis que fariam hesitar muitas jovens de 20 anos. Uma chapelada para esta actriz imensa, uma das poucas relativamente às quais se justifica empregar o tão abusado chavão "grande senhora".
quarta-feira, agosto 20, 2008
IMPRESSÕES DE PEQUIM A PARTIR DE TELHEIRAS (2): Os Jogos Olímpicos são uma ocasião excelente para fazer uma revisão geral sobre geografia política mundial. Numa das transmissões de atletismo, o comentador Jorge Lopes referia-se a um atleta de Antígua e Barbuda como sendo originário das Antilhas. Jorge Lopes foi provavelmente induzido em erro pela abreviatura "ANT". Não se tratou propriamente de um erro, pois Antígua e Barbuda fica situada precisamente nas Antilhas. Trata-se de um território membro da Commonwealth, independente desde 1981. Capital: Saint John's. População: 82 000. Aqui está a bandeira deste país:
domingo, agosto 17, 2008
IMPRESSÕES DE PEQUIM A PARTIR DE TELHEIRAS (1): Aos meus olhos de leigo, a prova de ensino equestre é descoroçoante. Torna-se penoso ver animais tão magníficos entregarem-se a uma série de passos e movimentos decalcados de paradigmas de elegância humana rígidos e bafientos. É difícil de sacudir a sensação de que o ensino equestre representa uma tentativa, por parte dos homens, para vergar a potência e a beleza do cavalo aos seus mesquinhos padrões de garbo e graciosidade. Prefiro cem vezes ver os cavalos a galopar, a correr, a saltar, a fazer uso pleno daquele assombroso poderio físico.
Com todo o respeito pelo esforço inglório do cavaleiro Miguel Ralão Duarte, gostei de ver a égua Oxallys da Meia Lua a reagir daquela maneira, de a ver enervada, empinando-se poucos momentos depois de entrar no recinto. Gostei de sentir que aquele cavalo foi, naquele momento, simples e naturalmente, um animal dotado de instinto, e não um ser domesticado que é valorizado apenas em função do modo como se conforma àquilo que esperam dele.
quarta-feira, agosto 13, 2008
ISSO VEIO DEPOIS: Por norma, não tenho paciência para aqueles realizadores que se obstinam em menorizar o seu próprio trabalho. Podem ser quase tão insuportáveis como aqueles que se crêem génios. Dizer mal dos próprios filmes pode ser uma estratégia, mais ou menos consciente, para valorizar oh-tão-discretamente o próprio talento, um talento tão puro e absoluto que nunca uma obra realizada no mundo sub-lunar lhe poderá fazer jus.
Em certos casos, porém, a auto-crítica é tão lapidar e desarmante que sou obrigado a achar graça.
Excertos da filmografia de Aki Kaurismäki comentada pelo próprio:
O meu irmão e eu rodámos a quatro mãos um documentário de duas horas sobre os grupos de rock finlandeses, com o título de "Saimaa-Ilmiö". Penso que já não deveria ser permitido vê-lo.
A primeira razão [porque quis começar por filmar a adaptação de "Crime e Castigo"] foi o livro de Truffaut sobre Hitchcock em que este último afirmava que nunca tocaria em "Crime e Castigo" porque se tratava de um livro infilmável. (...) De qualquer maneira, no final dei-me conta de que Hitchcock tinha razão e que é efectivamente um romance impossível de filmar.
Odeio "Rikos Ja Rangaistus" ("Crime e Castigo"), é demasiado sério (...) Não era o meu estilo, mas na altura não tinha nenhum estilo. Isso veio depois.
(A propósito de "Calamari Union":)
A publicidade do filme consistiu em dizer: "Este é o pior filme jamais feito na Finlândia. Não vale a pena vir vê-lo, fique em casa". Isto foi muito eficaz, o filme teve um grande sucesso e pude continuar a fazer cinema.
"Calamari Union" foi uma tentativa consciente de fazer um filme tão mau quanto possível. Neste sentido, é um filme plenamente conseguido.
(A propósito de "A Vida de Boémia":)
Há três desculpas [para ter feito este filme]: 1) Jacques Prévert não estava disponível por motivos de força maior; 2) Já antes tinha arruinado obras primas de Dostoievski e Shakespeare da maneira mais saloia, o que, de qualquer modo, já não tem perdão; 3) O meu desejo era vingar-me de Puccini, que na consciência geral é tido como o pai desta história maravilhosa.
(A propósito de "Toma o Teu Lenço, Tatiana":)
Foi totalmente improvisado e nem sequer fomos capazes de fazer uma longa metragem. O filme dura apenas 59 minutos, mas não digam a ninguém! A ficha técnica indica 66 minutos para corresponder às exigências administrativas.
Em "Leningrad Cowboys Meet Moses" cometi um erro: pensava que toda a gente tinha lido a Bíblia. Como tal não acontece, o filme é incompreensível!
(Do catálogo da Cinemateca Portuguesa.)
IMEDIATAMENTE ACIMA: Há dias, uma personagem dos "Morangos com Açúcar", a Diana, teve um lampejo de génio. Num momento de desespero, afirmou que a desgraça que lhe sucedera (o rapto do filho bebé) teria sido um castigo por todas as aleivosias que ela tinha feito. (Cabe aqui informar os leigos de que a Diana rejeitou o filho após o nascimento, deixando-o entregue aos cuidados do pai deste, o Nuno.)
O que é notável aqui é que a Diana tornou explícita uma mensagem que, até aí, se confinava ao sub-texto. Saltava à vista que o rapto tinha sido uma manobra narrativa destinada, entre outras coisas, a funcionar como justa retribuição do destino pelas atitudes da Diana, e como uma maneira de fazer com que a personagem se convencesse em definitivo do afecto que a unia ao pequeno ser. Não era preciso verbalizar este ensinamento. Esta moral não é daquelas que requerem fórceps para serem extraídas. Mas a contaminação do texto pelo sub-texto teve algo de refrescante.
Não resisto aqui, a propósito das complexas relações entre sub-texto e texto, a recordar um dos mais brilhantes diálogos de cinema desde a invenção do sonoro (do filme "Barcelona", de Whit Stillman):
FRED: Maybe you can clarify something for me. Since I've been, you know, waiting for the fleet to show up, I've read a lot, and--
TED: Really?
FRED: And one of the things that keeps popping up is this about "subtext." Plays, novels, songs--they all have a "subtext," which I take to mean a hidden message or import of some kind. So subtext we know. But what do you call the message or meaning that's right there on the surface, completely open and obvious? They never talk about that. What do you call what's above the subtext?
TED: The text.
FRED: OK, that's right, but they never talk about that.
(Já agora, está bem de ver que o filho da Diana e do Nuno foi recuperado são e salvo. Não há finais trágicos nos "Morangos".)
sexta-feira, agosto 01, 2008
PERVERSIDADE AUTORÍSTICA: Na FNAC do Chiado deparei com o livro de Bernardo Carvalho "Teatro" na secção de teatro. Sucede que "Teatro" é um romance. As circunstâncias atenuantes para o livreiro faltoso saltam à vista do juiz mais severo. Por vezes, os autores não colaboram. Pensemos em Saramago. Quantos exemplares de "Ensaio Sobre a Lucidez", "Ensaio Sobre a Cegueira" e "Manual de Pintura e Caligrafia" terão sido classificados nas estantes de Psicologia, Medicina e Belas-Artes, em livrarias deste país?
MORANGOS COM AÇÚCAR: Cheguei a suspeitar que a comunicação ao país do Prof. Cavaco Silva teria por objectivo declarar que a Raquel e o Tomás deveriam permanecer juntos. Bem sei que se tratou de uma conjectura com o seu quê de estulto, mas é também graças à fantasia e ao sonho que um homem tem a certeza de estar vivo. À falta de outras evidências empíricas, entrego-me à fantasia.
Voltando ao Tomás e à Raquel, estamos perante um caso pungente. Eles gostam um do outro mas decidiram separar-se. Perceberam que as diferenças nas suas maneiras de ser iriam, inevitavelmente, conduzir a fricções penosas. Pôr um fim à relação foi um acto de superior maturidade, e uma lição para todos os espectadores que seguem esta popular série. Duvido que a situação seja reversível, pois o Tomás partiu para o Hawaii, e a experiência diz-nos que, nos "Morangos", quem parte para o estrangeiro nunca regressa.
domingo, julho 27, 2008
O QUE QUERO VER: No suplemento "Ípsilon" do "Público" da passada sexta-feira, foi publicada uma peça sobre a Cinemateca onde foram inseridas algumas palavras da minha autoria. Receio que, pelo contexto em que aparecem, a minha posição possa não ter ficado clara. Eu disse:
«Mas é caso para perguntar se deve ser essa a função da Cinemateca, remediar as falhas do circuito comercial.»
Isto não significa que, do meu ponto de vista, a Cinemateca não deva mostrar cinema contemporâneo. Bem pelo contrário. O que não me parece é que a Cinemateca deva ter como função tapar os buracos do nosso anémico circuito de distribuição. Concretizando: se obras de realizadores como Lars von Trier, Takeshi Kitano, Apichatpong Weerasethakul, Rudolf Thome, Alain Guiraudie, e tantos outros, não chegam às salas portuguesas, ou chegam com atrasos de anos, seria excessivo pedir à Cinemateca que acudisse a essas lacunas. Vejo a Cinemateca como uma instituição onde os filmes devem ser enquadrados numa perspectiva histórica e temática, e de exploração das linhas estéticas que compõem essa história. O cinema recente deve aparecer num contexto histórico, dando-se ênfase à continuidade (ou à ruptura) relativamente a essas linhas artísticas. Apoio fortemente a exibição de filmes contemporâneos, e acho imperativo que a Cinemateca esteja atenta ao que se passa no mundo, aos novos fenómenos, grupos e correntes que surgem, aos seus parentescos e linhagens. Mas considero redutor que se mostre a obra do autor X ou Y apenas porque lhe é reconhecido valor e o circuito comercial não lhe fez justiça. Isso seria prolongar a lógica da exploração das salas e dos festivais de cinema.
O SEU A SEU DONO: Devo o fotograma do filme "The Wind" ao blog "24 Lies Per Second", infelizmente descontinuado, cuja especialidade é a divulgação de capturas de ecrã de filmes a partir de VHS.
sábado, julho 26, 2008
CINEMA: Lendo a folha da Cinemateca sobre o filme "The Wind", de Victor Sjöström, dou por mim a perguntar-me se Manuel Cintra Ferreira foi vítima de um lapso de memória, ou se terá assistido a uma versão diferente da projectada.
Escreve MCF: «E de súbito tudo se acalma. A partir do momento em que Letty aceita o seu destino, em que afirma "I'm not afraid of the wind. I'm not afraid of anything. Because I'm your wife, because I want to work with you, to love you", os elementos acalmam-se.» Mas não é nada disto que se vê. Os elementos, longe de se acalmarem, permanecem agitados e ameaçadores quando Lillian Gish e Lars Hanson os desafiam, no limiar da casa assolada pelo vento, perante uma porta mantida aberta pela areia amontoada.
Serei eu o único a ver algo de ominoso e de inquietante neste final, na aparência supremamente feliz? Mais uma vez contrariando aquilo que MCF sugere, não me parece que a tempestade seja uma manifestação dos sentimentos da personagem de Gish. De entre todos os planos do filme, talvez seja este que mais se afasta dessa explicação romântica e psicologizante. Na sua comovente fragilidade, estes corpos enfrentam um poder exterior, independente de qualquer estado psicológico, vontade, verosimilhança ou sentido de justiça. O que se ergue contra as personagens é algo de mais inquietante do que o Mal: é a arbitrariedade da natureza, a sua colossal e imperturbável inumanidade. Pode ser que a fé, a coragem e o amor cheguem para vencer esse poder. Mas nada, nem o bom senso nem as convenções do cinema, nos permitem saber qual dos contendores, separados por uma imaterial soleira de porta, levará a melhor.
Serei eu o único a ver algo de ominoso e de inquietante neste final, na aparência supremamente feliz? Mais uma vez contrariando aquilo que MCF sugere, não me parece que a tempestade seja uma manifestação dos sentimentos da personagem de Gish. De entre todos os planos do filme, talvez seja este que mais se afasta dessa explicação romântica e psicologizante. Na sua comovente fragilidade, estes corpos enfrentam um poder exterior, independente de qualquer estado psicológico, vontade, verosimilhança ou sentido de justiça. O que se ergue contra as personagens é algo de mais inquietante do que o Mal: é a arbitrariedade da natureza, a sua colossal e imperturbável inumanidade. Pode ser que a fé, a coragem e o amor cheguem para vencer esse poder. Mas nada, nem o bom senso nem as convenções do cinema, nos permitem saber qual dos contendores, separados por uma imaterial soleira de porta, levará a melhor.
domingo, julho 20, 2008
quarta-feira, julho 16, 2008
GERAÇÃO REBELDE: Contra todas as expectativas, a resiliente Jennifer continua a marcar presença no verão dos "Morangos com Açúcar". Saborosa ironia, a sua rival jurada, a Sara, foi afastada com aquela falta de cerimónia a que os argumentistas da série nos habituaram. O mais curioso é que esta vitória simbólica ocorreu pouco depois de a Jennifer ter passado a usar um penteado semelhante ao da Sara, como se, ao usurpar este atributo físico, aniquilasse a identidade da inimiga. Ao olhar para a Jennifer, o espectador fiel não pode agora evitar ver nela um eco longínquo da Sara. Caso haja alguém cuja vida se tenha tornado mais difícil de suportar sem a Sara (o que está longe de ser garantido), a Jennifer oferece corpo e voz aos seus doentios fantasmas, à sua esperança vã. Se foi essa a ideia dos criadores da série, há aqui, parece-me, uma influência hitchcockiana mal assimilada.
Por mais que procurasse, não encontrei uma fotografia da Jennifer com o novo penteado. Fica uma recordação do seu visual antigo, nos tempos idílicos da claque, do namoro com o Luís e das quezílias com a Marília.
SOMETHING WRONG, IRRESPONSIBLE AND MINDLESS:
«Someone once asked me about color and I used the occasion to mention a number of times and places in art where color was excluded - Chinese monochrome painting, analytic cubism, Picasso's Guernica, etc. There is something wrong, irresponsible and mindless about color, something impossible to control. Control and rationality are part of my morality.»
(Ad Reinhardt, 1960)
«[Grey] makes no statement whatever, it evokes neither feelings nor associations; it is really neither visible nor invisible. Its inconspicuousness gives it the capacity to mediate, to make visible in a positively illusionistic way, like a photograph. To me, grey is the welcome and only possible equivalence for indifference, non-commitment, absence of opinion, absence of shape.»
(Gerhard Richter, 1975)
«One must respect black. Nothing prostitutes it. It does not please the eye or awaken another sense. It is the agent of the mind even more than the beautiful colour of the palette or prism.»
(Odilon Redon)
(Citações retiradas de "Colour in art", John Gage, Thames & Hudson.)
terça-feira, julho 15, 2008
LUGAR ONDE: «New York City is the place where people come to invent, reinvent, or find the room they need to be who they wish to be. It's a place where fictions run freely and plentifully, where people are allowed a certain pretense about themselves, where cultivating a persona or an idea of how to live is permitted, even encouraged.»
(Siri Hustvedt, "A Plea for Eros")
À falta de um lugar onde ocorra uma reinvenção genuína, um honesto sucedâneo será uma cidade que albergue uma ficção sobre a reinvenção que nunca existiu. Uma cidade que assuma o aspecto exterior das expectativas daquele que a procurou, levando-o a crer numa batalha ganha. Uma cidade que seja benigna para aqueles que em nada mudam excepto na convicção de que alguma coisa de relevante mudou, e que euforicamente começam a edificar uma vida sobre essa certeza.
domingo, julho 13, 2008
O QUE HÁ NUM NOME: Em "L'atre périlleux", romance anónimo em verso de meados do século XIII, o cavaleiro Gauvain, modelo de valentia e de nobreza, vê-se confrontado com uma situação invulgar. Lançado na perseguição a um cavaleiro que ofendeu a corte do rei Artur, Gauvain cruza-se com três donzelas em pranto profundo. Interrogadas sobre o motivo do seu desgosto, respondem que ele se deve à notícia da morte do maior cavaleiro do mundo, ou seja precisamente o próprio Gauvain. Em vez de as desenganar, Gauvain esconde o seu nome, e só o revelará quando tiver desfeiteado em combate aquele que lançou o vergonhoso boato. Este comportamento, que pode parecer bizarro, enquadra-se perfeitamente na lógica subjacente aos romances da Távola Redonda. A identidade de um cavaleiro é função dos seus actos, muito mais do que das suas feições ou da sua parafernália de combate. Tanto o rosto e o corpo (quase sempre tapados pela armadura) como as armas e o escudo (que podem ser usurpados por outro que não o seu dono) são elementos de identificação menos fiáveis do que a maneira de agir, as acções mais ou menos corteses, a bravura. Privado do uso do seu próprio nome devido à notícia falsa da sua própria morte, Gauvain sabe que só readquirirá o direito a usá-lo quando se superiorizar àquele que se ufana de o ter batido. Assim, durante as aventuras que compõem a parte central deste romance, Gauvain será o cavaleiro sem nome. Num plano paralelo, a perda e recuperação do nome reflectem a perda e recuperação da própria honra: com efeito, a humilhação sofrida pelo rei Artur deve-se ao sequestro, em pleno banquete, de uma donzela que tinha sido confiada à guarda de Gauvain, e o romance, no fundo, narra a reconquista, por parte deste, do direito de se sentar entre os seus pares da Távola Redonda. Tudo se passa como se a perda dos atributos de excelência e nobreza que estavam associados ao nome de Gauvain fosse expressa no conto pela perda do nome propriamente dito.
A dada altura, Gauvain vê-se forçado a interromper uma aventura porque a donzela que o acompanha, declarando-se morta de fome, suplica-lhe que façam uma pausa para comer. O narrador do conto aproveita a oportunidade para se entregar a alguns desabafos misóginos: "Salomon dit en l'un de ses livres qu'il perd toute liberté, celui qui s'embarrasse d'une femme!", etc. A tradutora do romance comenta, em nota de rodapé: "Les couplets anti-féministes sont extrêmement fréquents dans ces textes". Há que notar que o narrador, para além de chauvinista, é injusto, pois é graças a este desvio para obter mantimentos que Gauvain consegue recrutar a ajuda de sete cavaleiros que lhe permitem sair vitorioso do combate desigual para o qual se dirigia, e é também essa excursão forçada devida à desnutrição da donzela que torna possível o reencontro de dois pares de amantes.
ADENDA: A propósito disto, com o falecimento, aos 100 anos de idade, de Jean Delannoy, são apenas dois os realizadores franceses vivos distinguidos com o prémio supremo do festival de Cannes: Claude Lelouch e Laurent Cantet. Esse número sobe para três se se contar com o franco-grego Costa-Gavras.
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