sábado, setembro 06, 2008

CINEMA: Enquanto não chega a altura de escrever, em termos elogiosos, sobre "Aquele Querido Mês de Agosto", deixo apenas um apontamento. Este apontamento, para usar uma expressão útil e consagrada pelos cânones, "vale o que vale". Algumas filas atrás de nós, antes de começar a sessão, uma senhora falava ao telemóvel, e explicava ao seu interlocutor que ia ver um filme português "que teve cinco estrelas no Expresso". Um ponto a favor daqueles que acham que a crítica tem uma influência palpável nos comportamentos dos frequentadores das salas de cinema.

domingo, agosto 31, 2008

GENTÍLICO: Alentejo, Agosto, clássicos à mão e vagar para os ler. Poderia ser uma fantasia, mas é também um diário trasladado. Depois do milagre no século XII, Ourique volta a deixar marcas na história portuguesa.
IMPRESSÕES DE PEQUIM A PARTIR DE TELHEIRAS (6): Medalhas de ouro obtidas pela França nos Jogos Olímpicos de Pequim:
  • Steeve Guénot (luta greco-romana, 66 kg)
  • Alain Bernard (natação, 100m livres)
  • Equipa masculina de sabre (esgrima)
  • Equipa masculina de espada (esgrima)
  • Anne-Caroline Chausson (ciclismo, BMX, individual)
  • Julien Absalon (ciclismo, VTT, individual)
  • Equipa masculina (andebol)

A França obteve um total de 40 medalhas (7 de ouro, 16 de prata, 17 de bronze). Isto representa, em comparação com o que sucedera há 4 anos, em Atenas, menos medalhas de ouro (7 contra 11) mas mais medalhas no total (40 contra 33). A França ganhou medalhas nas seguintes modalidades: ciclismo, esgrima, luta greco-romana, natação, andebol, atletismo, pugilismo, canoagem, ginástica, halterofilia, judo, vela, remo, taekwondo, tiro e tiro com arco, ou seja um notável total de dezasseis modalidades. Estes números ilustram bem o que foi a participação da equipa francesa nestes Jogos: um grande número de atletas de muito alto nível em diversas modalidades, uma dispersão muito considerável das medalhas por disciplinas diferentes, mas, ao mesmo tempo, a ausência de um grande campeão (Alain Bernard seria o único candidato) capaz de deixar a sua marca e de servir de rosto para o sucesso da delegação, como o fizeram, em tempos idos, atletas como David Douillet, Laure Manaudou ou Laura Flessel.

IMPRESSÕES DE PEQUIM A PARTIR DE TELHEIRAS (5): Três adjectivos para qualificar a cobertura dos Jogos Olímpicos por parte da RTP (não possuindo TV por cabo nem hábitos de noctívago, os meus comentários abrangem apenas as emissões diurnas da RTP1 e RTP2): trapalhona, amadora, provinciana. A estratégia seguida pelos responsáveis das emissões pode ser resumida em poucos pontos:
  • Correr como barata tonta atrás dos atletas portugueses, atribuindo prioridade absoluta aos seus desempenhos e às suas reacções, tanto as que acabaram por entrar para o anedotário nacional como as que não entraram.
  • Repetir as notícias e reportagens relativas aos portugueses vezes sem conta, até à náusea.
  • Quando o número de repetições excedesse os padrões da pouca vergonha (já nem falo dos padrões do bom senso), mostrar o Michael Phelps: Michael Phelps a nadar, Michael Phelps a ouvir música antes de uma prova, Michael Phelps a celebrar, Michael Phelps a trautear "The Star-Spangled Banner", Michael Phelps a mostrar SMSs no seu telemóvel em plena conferência de imprensa.
  • Quando já tudo tinha sido dito sobre Michael Phelps, mostrar mais Michael Phelps, ou mostrar cidadãos anónimos (Kobe quê???) a falar sobre Michael Phelps.
  • Quando, por acaso ou por descuido, Michael Phelps e as soporíferas controvérsias derivadas das declarações de Marco Fortes ou Vicente de Moura cediam o tempo de antena a transmissões das modalidades, atribuir preferência àquelas modalidades que merecem destaque durante o resto do ano (futebol, ténis), evitando a todo o custo a divulgação de modalidades menos vistas.

Tudo isto na companhia de Laura Santos e de Paulo Catarro, dois exemplos instrutivos de falta de dinâmica e nula presença televisiva. Junte-se a isto a inexplicável decisão de repetir, diariamente, e quase palavra por palavra, no jornal olímpico da RTP2 o que fora dito no jornal olímpico da RTP1, meia hora antes (em benefício dos milhões de telespectadores que têm acesso ao segundo mas não ao primeiro canal); as inúmeras imprecisões na divulgação de resultados (uma das mais hilariantes consistiu no aparecimento de uma bandeira do Chile, em vez da China, no topo do quadro das medalhas); o desastroso sentido do timing (um exemplo entre muitos: interrupção da transmissão do atletismo nos momentos decisivos do lançamento do peso masculino, para passar publicidade institucional). A mensagem é clara: ou por falta de meios, ou por falta de hábito de lidar com as grandes competições desde o aparecimento da SporTV, não se pode contar com a televisão pública para cobrir com eficácia qualquer evento de maior envergadura do que uma supertaça de futsal, ou um concurso de saltos de cavalo no Campo Grande.

quinta-feira, agosto 28, 2008

DERIVA MERITOCRÁTICA: Quiçá numa tentativa de reconciliação com as suas bases, depois do "rebelopintogate", a revista "Ler" entrou em plena deriva meritocrática e recrutou o Rogério para a sua equipa. Não me parece uma ideia famosa. Os portugueses não estão habituados a que o talento seja tão desavergonhadamente premiado. Antevejo que a emenda seja pior que o soneto, e que a revista acabe por alienar em definitivo os seus leitores. Enquanto o pau vai e vem, eu preparo-me para comprar a revista, depois do hiato motivado pela presença na capa da autora de "Português Suave". Esta decisão é irrevogável independentemente da identidade do dono deste ombro direito.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na estação de metro do Campo Grande, uma jovem lia, de pé, "A Trégua", de Primo Levi. A poucos metros de distância, também de pé, um jovem lia "Things You Should Know", da escritora americana A.M. Homes, uma recolha de contos que a escocesa Ali Smith qualificou nos seguintes termos: «funny and glinting and masterful, light as air, strange as a dream, monstrous as truth: the real and classic thing». Na linha verde do metropolitano, uma jovem lia "Sensibilidade e Bom Senso", de Jane Austen. Depois desta amostra, rirei na casa de quem ousar afirmar que a leitura é um hábito em declínio entre os portugueses, um riso sonoro e sarcástico, com o corpo inclinado para trás, como o dos maus nos desenhos animados.

domingo, agosto 24, 2008

IMPRESSÕES DE PEQUIM A PARTIR DE TELHEIRAS (4): A equipa masculina de pólo aquático da Hungria conquistou a medalha de ouro olímpica, ao passo que a equipa feminina se ficou pelo 4º lugar. Todos aqueles que viram o filme "Palombella Rossa", de Nanni Moretti, sabem que os húngaros são temíveis neste desporto. Pelo que me toca, sempre que assisto a uma transmissão de pólo aquático não sou capaz de evitar repetir interiormente o estribilho de Silvio Orlando:
Marca Budavari, marca Budavari, marca Budavari, marca Budavari, marca Budavari, marca Budavari, marca Budavari, marca Budavari, marca...

sábado, agosto 23, 2008

IMPRESSÕES DE PEQUIM A PARTIR DE TELHEIRAS (3): Parabéns a Nelson Évora e ao seu treinador João Ganço (cujas parecenças fisionómicas com o actor e escritor Dario Fo são notórias), parabéns não extensíveis à equipa de realização responsável pela emissão de atletismo dos Jogos. Os momentos decisivos do triplo salto foram preteridos em favor da apresentação, um a um, dos atletas que tomavam parte numa série dos 400 metros do decatlo, onde não se decidia nada (era somente a 5ª de 10 provas). A estratégia dos realizadores pareceu consistir em só mostrar (e certamente a contragosto) o triplo salto quando nada mais se passava no famigerado "Ninho de Pássaro", nem corridas, nem cerimónias protocolares, nem hinos, nem saltos, nem treinadores na bancada urrando e entregando-se a mímicas vagamente demenciais ou obscenas.
IGNORÂNCIA NO SAL: A actriz Catherine Deneuve visitou uma mina de sal-gema perto de Loulé, na companhia do ministro da Economia Manuel Pinho. No meio de um cenário feérico, que ajudou talvez a realçar o ridículo da pergunta, a jornalista quis saber se o ministro gostava de Deneuve "dos tempos em que ela andava no cinema". Dois minutos e uma pesquisa sumária teriam bastado a esta promissora profissional da comunicação social para concluir que Catherine Deneuve, longe de estar reformada, tem registado uma intensa actividade nos últimos anos, como se pode ver aqui. Nesta filmografia recente, não faltam os casos de papéis arrojados e exigentes, como por exemplo "Les Voleurs", de André Téchiné (1996), o magnífico "Le Vent de la Nuit", de Philippe Garrel (1999), "Pola X", de Leos Carax (1999) e "Rois et Reine", de Arnaud Desplechin (2004). Longe de estar afastada dos ecrãs, Catherine Deneuve, com mais de 60 anos, aceita papéis que fariam hesitar muitas jovens de 20 anos. Uma chapelada para esta actriz imensa, uma das poucas relativamente às quais se justifica empregar o tão abusado chavão "grande senhora".

quarta-feira, agosto 20, 2008

IMPRESSÕES DE PEQUIM A PARTIR DE TELHEIRAS (2): Os Jogos Olímpicos são uma ocasião excelente para fazer uma revisão geral sobre geografia política mundial. Numa das transmissões de atletismo, o comentador Jorge Lopes referia-se a um atleta de Antígua e Barbuda como sendo originário das Antilhas. Jorge Lopes foi provavelmente induzido em erro pela abreviatura "ANT". Não se tratou propriamente de um erro, pois Antígua e Barbuda fica situada precisamente nas Antilhas. Trata-se de um território membro da Commonwealth, independente desde 1981. Capital: Saint John's. População: 82 000. Aqui está a bandeira deste país:

domingo, agosto 17, 2008

IMPRESSÕES DE PEQUIM A PARTIR DE TELHEIRAS (1): Aos meus olhos de leigo, a prova de ensino equestre é descoroçoante. Torna-se penoso ver animais tão magníficos entregarem-se a uma série de passos e movimentos decalcados de paradigmas de elegância humana rígidos e bafientos. É difícil de sacudir a sensação de que o ensino equestre representa uma tentativa, por parte dos homens, para vergar a potência e a beleza do cavalo aos seus mesquinhos padrões de garbo e graciosidade. Prefiro cem vezes ver os cavalos a galopar, a correr, a saltar, a fazer uso pleno daquele assombroso poderio físico. Com todo o respeito pelo esforço inglório do cavaleiro Miguel Ralão Duarte, gostei de ver a égua Oxallys da Meia Lua a reagir daquela maneira, de a ver enervada, empinando-se poucos momentos depois de entrar no recinto. Gostei de sentir que aquele cavalo foi, naquele momento, simples e naturalmente, um animal dotado de instinto, e não um ser domesticado que é valorizado apenas em função do modo como se conforma àquilo que esperam dele.

quarta-feira, agosto 13, 2008

ISSO VEIO DEPOIS: Por norma, não tenho paciência para aqueles realizadores que se obstinam em menorizar o seu próprio trabalho. Podem ser quase tão insuportáveis como aqueles que se crêem génios. Dizer mal dos próprios filmes pode ser uma estratégia, mais ou menos consciente, para valorizar oh-tão-discretamente o próprio talento, um talento tão puro e absoluto que nunca uma obra realizada no mundo sub-lunar lhe poderá fazer jus. Em certos casos, porém, a auto-crítica é tão lapidar e desarmante que sou obrigado a achar graça. Excertos da filmografia de Aki Kaurismäki comentada pelo próprio: O meu irmão e eu rodámos a quatro mãos um documentário de duas horas sobre os grupos de rock finlandeses, com o título de "Saimaa-Ilmiö". Penso que já não deveria ser permitido vê-lo. A primeira razão [porque quis começar por filmar a adaptação de "Crime e Castigo"] foi o livro de Truffaut sobre Hitchcock em que este último afirmava que nunca tocaria em "Crime e Castigo" porque se tratava de um livro infilmável. (...) De qualquer maneira, no final dei-me conta de que Hitchcock tinha razão e que é efectivamente um romance impossível de filmar. Odeio "Rikos Ja Rangaistus" ("Crime e Castigo"), é demasiado sério (...) Não era o meu estilo, mas na altura não tinha nenhum estilo. Isso veio depois. (A propósito de "Calamari Union":) A publicidade do filme consistiu em dizer: "Este é o pior filme jamais feito na Finlândia. Não vale a pena vir vê-lo, fique em casa". Isto foi muito eficaz, o filme teve um grande sucesso e pude continuar a fazer cinema. "Calamari Union" foi uma tentativa consciente de fazer um filme tão mau quanto possível. Neste sentido, é um filme plenamente conseguido. (A propósito de "A Vida de Boémia":) Há três desculpas [para ter feito este filme]: 1) Jacques Prévert não estava disponível por motivos de força maior; 2) Já antes tinha arruinado obras primas de Dostoievski e Shakespeare da maneira mais saloia, o que, de qualquer modo, já não tem perdão; 3) O meu desejo era vingar-me de Puccini, que na consciência geral é tido como o pai desta história maravilhosa. (A propósito de "Toma o Teu Lenço, Tatiana":) Foi totalmente improvisado e nem sequer fomos capazes de fazer uma longa metragem. O filme dura apenas 59 minutos, mas não digam a ninguém! A ficha técnica indica 66 minutos para corresponder às exigências administrativas. Em "Leningrad Cowboys Meet Moses" cometi um erro: pensava que toda a gente tinha lido a Bíblia. Como tal não acontece, o filme é incompreensível! (Do catálogo da Cinemateca Portuguesa.)
IMEDIATAMENTE ACIMA: Há dias, uma personagem dos "Morangos com Açúcar", a Diana, teve um lampejo de génio. Num momento de desespero, afirmou que a desgraça que lhe sucedera (o rapto do filho bebé) teria sido um castigo por todas as aleivosias que ela tinha feito. (Cabe aqui informar os leigos de que a Diana rejeitou o filho após o nascimento, deixando-o entregue aos cuidados do pai deste, o Nuno.) O que é notável aqui é que a Diana tornou explícita uma mensagem que, até aí, se confinava ao sub-texto. Saltava à vista que o rapto tinha sido uma manobra narrativa destinada, entre outras coisas, a funcionar como justa retribuição do destino pelas atitudes da Diana, e como uma maneira de fazer com que a personagem se convencesse em definitivo do afecto que a unia ao pequeno ser. Não era preciso verbalizar este ensinamento. Esta moral não é daquelas que requerem fórceps para serem extraídas. Mas a contaminação do texto pelo sub-texto teve algo de refrescante. Não resisto aqui, a propósito das complexas relações entre sub-texto e texto, a recordar um dos mais brilhantes diálogos de cinema desde a invenção do sonoro (do filme "Barcelona", de Whit Stillman): FRED: Maybe you can clarify something for me. Since I've been, you know, waiting for the fleet to show up, I've read a lot, and-- TED: Really? FRED: And one of the things that keeps popping up is this about "subtext." Plays, novels, songs--they all have a "subtext," which I take to mean a hidden message or import of some kind. So subtext we know. But what do you call the message or meaning that's right there on the surface, completely open and obvious? They never talk about that. What do you call what's above the subtext? TED: The text. FRED: OK, that's right, but they never talk about that. (Já agora, está bem de ver que o filho da Diana e do Nuno foi recuperado são e salvo. Não há finais trágicos nos "Morangos".)

sexta-feira, agosto 01, 2008

PERVERSIDADE AUTORÍSTICA: Na FNAC do Chiado deparei com o livro de Bernardo Carvalho "Teatro" na secção de teatro. Sucede que "Teatro" é um romance. As circunstâncias atenuantes para o livreiro faltoso saltam à vista do juiz mais severo. Por vezes, os autores não colaboram. Pensemos em Saramago. Quantos exemplares de "Ensaio Sobre a Lucidez", "Ensaio Sobre a Cegueira" e "Manual de Pintura e Caligrafia" terão sido classificados nas estantes de Psicologia, Medicina e Belas-Artes, em livrarias deste país?
MORANGOS COM AÇÚCAR: Cheguei a suspeitar que a comunicação ao país do Prof. Cavaco Silva teria por objectivo declarar que a Raquel e o Tomás deveriam permanecer juntos. Bem sei que se tratou de uma conjectura com o seu quê de estulto, mas é também graças à fantasia e ao sonho que um homem tem a certeza de estar vivo. À falta de outras evidências empíricas, entrego-me à fantasia. Voltando ao Tomás e à Raquel, estamos perante um caso pungente. Eles gostam um do outro mas decidiram separar-se. Perceberam que as diferenças nas suas maneiras de ser iriam, inevitavelmente, conduzir a fricções penosas. Pôr um fim à relação foi um acto de superior maturidade, e uma lição para todos os espectadores que seguem esta popular série. Duvido que a situação seja reversível, pois o Tomás partiu para o Hawaii, e a experiência diz-nos que, nos "Morangos", quem parte para o estrangeiro nunca regressa.

domingo, julho 27, 2008

O QUE QUERO VER: No suplemento "Ípsilon" do "Público" da passada sexta-feira, foi publicada uma peça sobre a Cinemateca onde foram inseridas algumas palavras da minha autoria. Receio que, pelo contexto em que aparecem, a minha posição possa não ter ficado clara. Eu disse: «Mas é caso para perguntar se deve ser essa a função da Cinemateca, remediar as falhas do circuito comercial.» Isto não significa que, do meu ponto de vista, a Cinemateca não deva mostrar cinema contemporâneo. Bem pelo contrário. O que não me parece é que a Cinemateca deva ter como função tapar os buracos do nosso anémico circuito de distribuição. Concretizando: se obras de realizadores como Lars von Trier, Takeshi Kitano, Apichatpong Weerasethakul, Rudolf Thome, Alain Guiraudie, e tantos outros, não chegam às salas portuguesas, ou chegam com atrasos de anos, seria excessivo pedir à Cinemateca que acudisse a essas lacunas. Vejo a Cinemateca como uma instituição onde os filmes devem ser enquadrados numa perspectiva histórica e temática, e de exploração das linhas estéticas que compõem essa história. O cinema recente deve aparecer num contexto histórico, dando-se ênfase à continuidade (ou à ruptura) relativamente a essas linhas artísticas. Apoio fortemente a exibição de filmes contemporâneos, e acho imperativo que a Cinemateca esteja atenta ao que se passa no mundo, aos novos fenómenos, grupos e correntes que surgem, aos seus parentescos e linhagens. Mas considero redutor que se mostre a obra do autor X ou Y apenas porque lhe é reconhecido valor e o circuito comercial não lhe fez justiça. Isso seria prolongar a lógica da exploração das salas e dos festivais de cinema.
O SEU A SEU DONO: Devo o fotograma do filme "The Wind" ao blog "24 Lies Per Second", infelizmente descontinuado, cuja especialidade é a divulgação de capturas de ecrã de filmes a partir de VHS.

sábado, julho 26, 2008

CINEMA: Lendo a folha da Cinemateca sobre o filme "The Wind", de Victor Sjöström, dou por mim a perguntar-me se Manuel Cintra Ferreira foi vítima de um lapso de memória, ou se terá assistido a uma versão diferente da projectada. Escreve MCF: «E de súbito tudo se acalma. A partir do momento em que Letty aceita o seu destino, em que afirma "I'm not afraid of the wind. I'm not afraid of anything. Because I'm your wife, because I want to work with you, to love you", os elementos acalmam-se.» Mas não é nada disto que se vê. Os elementos, longe de se acalmarem, permanecem agitados e ameaçadores quando Lillian Gish e Lars Hanson os desafiam, no limiar da casa assolada pelo vento, perante uma porta mantida aberta pela areia amontoada. Serei eu o único a ver algo de ominoso e de inquietante neste final, na aparência supremamente feliz? Mais uma vez contrariando aquilo que MCF sugere, não me parece que a tempestade seja uma manifestação dos sentimentos da personagem de Gish. De entre todos os planos do filme, talvez seja este que mais se afasta dessa explicação romântica e psicologizante. Na sua comovente fragilidade, estes corpos enfrentam um poder exterior, independente de qualquer estado psicológico, vontade, verosimilhança ou sentido de justiça. O que se ergue contra as personagens é algo de mais inquietante do que o Mal: é a arbitrariedade da natureza, a sua colossal e imperturbável inumanidade. Pode ser que a fé, a coragem e o amor cheguem para vencer esse poder. Mas nada, nem o bom senso nem as convenções do cinema, nos permitem saber qual dos contendores, separados por uma imaterial soleira de porta, levará a melhor.

domingo, julho 20, 2008

PORÉM: «Rosa era espirituosa, grácil e travessa, qualidades que faziam dela uma figura rococó. Mais tarde, porém, veio a casar com um professor.» (Robert Walser, "Histórias de Amor", Relógio d'Água, tradução de Isabel Castro Silva.)

quarta-feira, julho 16, 2008

GERAÇÃO REBELDE: Contra todas as expectativas, a resiliente Jennifer continua a marcar presença no verão dos "Morangos com Açúcar". Saborosa ironia, a sua rival jurada, a Sara, foi afastada com aquela falta de cerimónia a que os argumentistas da série nos habituaram. O mais curioso é que esta vitória simbólica ocorreu pouco depois de a Jennifer ter passado a usar um penteado semelhante ao da Sara, como se, ao usurpar este atributo físico, aniquilasse a identidade da inimiga. Ao olhar para a Jennifer, o espectador fiel não pode agora evitar ver nela um eco longínquo da Sara. Caso haja alguém cuja vida se tenha tornado mais difícil de suportar sem a Sara (o que está longe de ser garantido), a Jennifer oferece corpo e voz aos seus doentios fantasmas, à sua esperança vã. Se foi essa a ideia dos criadores da série, há aqui, parece-me, uma influência hitchcockiana mal assimilada. Por mais que procurasse, não encontrei uma fotografia da Jennifer com o novo penteado. Fica uma recordação do seu visual antigo, nos tempos idílicos da claque, do namoro com o Luís e das quezílias com a Marília.