terça-feira, dezembro 16, 2008

ALGO VAI MAL: Depois de uma visita ao Reino Unido, é impossível entrar numa Fnac em Lisboa e consultar os preços dos DVDs sem sentir que algo vai mal.
Por exemplo, em Cambridge comprei uma caixa Polanski por 7 libras (ao câmbio actual, aliás muito propício a desvarios consumistas nesta moeda, são menos de 8 euros). A mesma caixa, na Fnac do Chiado, está à venda por trinta e tal euros.
Para juntar o insulto ao dano, a caixa que comprei inclui um DVD de curtas que não consta da versão vendida aqui.
Outros exemplos poderia dar. Só para citar mais um: uma caixa Herzog, à venda na loja Fopp em Cambridge (de visita obrigatória) por 12 libras, ao passo que uma caixa com (tanto quanto me apercebi) os mesmos filmes obrigará o herzogiano que há dentro de cada um de nós a uma despesa aproximadamente três vezes maior, na Fnac.
OLIVEIRA (1): Há coisas que me deixam perplexo. Manoel de Oliveira, um monumento? Não me consta que os monumentos cultivem o bom hábito de continuar a criar, a fazer obra, a ousar. E desde quando o usufruto de dinheiros públicos é incompatível com o exercício da liberdade artística? Que me mostrem um único momento de um único filme de Oliveira onde se detectem vestígios de subserviência, um único plano onde a reverência e o constrangimento pesem mais do que a mão soberana do realizador. "Raramente se discute" Oliveira? Muito pelo contrário: nunca houve em Portugal cineasta mais discutido, criticado, vilipendiado, fautor de causes célèbres. Raramente se discute com conhecimento de causa, isso sim. Raramente se discute sem que se caia na tentação do populismo ou do lugar-comum apalermado. Quem se recorda do inefável José Rodrigues dos Santos, com as pálpebras contraídas num ricto de indignação, denunciando essa aleivosia suprema que é o interminável plano inicial de "Non"? Estar à altura da fascinante singularidade de Oliveira é tarefa de monta. Àqueles que não se sintam à altura, seria de recomendar um silêncio decoroso. (Ler, a propósito, o que o Jorge escreveu.)

quarta-feira, novembro 26, 2008

CERTOS TÍTULOS:
Se certos escritores suspeitassem a importância de que certos quadros se revestem para certas pessoas, talvez evitassem dar certos títulos a certas das suas obras.
Estou seguro de que António Mega Ferreira não fez por maldade.
(As conotações cinéfilas apenas agravam a situação.)

terça-feira, novembro 18, 2008

MOTIVO PRINCIPAL DA MINHA NULA ASSIDUIDADE NOS ÚLTIMOS TEMPOS: Mais informações aqui.

domingo, novembro 02, 2008

XADREZ: Anand!!!

Foto Eugeny Atarov, retirada daqui.

Viswanathan Anand (Índia) manteve o título de campeão mundial de xadrez. Vladimir Kramnik (Rússia) precisava de vencer as duas últimas partidas para forçar os desempates, mas ficou-se por um empate na 11ª e penúltima. Anand mais uma vez surpreendeu o adversário na abertura, ao sair com peão de rei (o seu lance mais habitual, mas de que abdicara ao longo deste encontro em favor de 1.d4, peão de dama). Confrontado com a necessidade de vencer com negras, e sabendo que as suas respostas mais habituais ao peão de rei (como a defesa Russa) são quase inofensivas, Kramnik optou por uma Siciliana Najdorf. Porém, a sua falta de familiaridade com esta abertura levou a que Anand anulasse as tentativas negras de complicar o jogo, sem dificuldades de maior. Foi o próprio Kramnik quem propôs o empate, apesar de isso significar a sua derrota no encontro. Na posição final, havia até ligeira vantagem para Anand. Não li um único comentário em que o triunfo de Anand não fosse considerado amplamente merecido. O indiano dominou claramente a primeira metade do encontro, alcançando duas vitórias brilhantes, com negras, na mesma variante (Merano) do Gambito de Dama, pondo em evidência a superioridade da sua preparação teórica. Seguiu-se uma vitória com brancas, numa Nimzo-Índia. Na segunda metade do encontro, Kramnik conseguiu reequilibrar a balança, e obteve uma vitória (também com uma Nimzo-Índia) notável, bem ao seu estilo posicional e subtil. Mas era tarde demais. Pela primeira vez desde 1993 existe um campeão mundial de xadrez incontestado. Para mim, e para quase todos, não existiam já dúvidas de que Anand era o campeão, depois da sua vitória num torneio realizado no México, realizado pelo único organismo que reúne legitimidade para atribuir o título (Federação Internacional de Xadrez, FIDE). Com este triunfo em Bona, ele satisfez os irredutíveis (e ruidosos) adeptos que defendem o match (sequência de um número pré-definido de partidas entre dois jogadores) como o único meio aceitável para determinar o campeão do mundo. Aqueles que, durante anos, se digladiaram em blogs, fóruns, listas de difusão e (presumo eu) cafés, autocarros e jardins públicos para determinar quem era o verdadeiro campeão do mundo, entretêm-se agora a debater, em retrospectiva, quem foi o campeão do mundo durante o período do cisma (iniciado em 1993, e apenas agora definitivamente encerrado). Vale a pena espreitar estas trocas de mimos para se perceber a que extremos de rudeza e virulência podem chegar estas discussões sobre temas completamente ignorados por 99,99... % da população mundial.
OBAMA/BIDEN!: Este blog apoia Barack Obama, sem a mínima hesitação. Obama tem a seu favor um maior potencial de liderança, ideias mais claras sobre o que quer para o país e para o papel dos E.U.A. no mundo. John McCain, por seu lado, tem um historial de conivência com alguns dos maiores desvarios da nefanda administração Bush, e nunca mostrou especial vontade de se demarcar dos sectores mais retrógrados e tacanhos do partido republicano, em particular a sinistra direita religiosa. A escolha de uma nulidade como Sarah Palin para a vice-presidência foi um sinal ominoso de que, para chegar ao poder, ele está disposto a deixar fugir o pé para a chinela do populismo mais descarado e do anti-intelectualismo mais primário, ainda que por interposta pessoa. A escolha entre estes dois candidatos não deveria ser difícil. Vamos ver se, na terça-feira, triunfa a sensatez.

terça-feira, outubro 28, 2008

CAMPOS DE MORANGOS PARA SEMPRE: A Fred, personagem da nova série dos "Morangos com Açúcar", protagonizou um momento absolutamente genial. Confrontada com os remoques acintosos de um amigo, saiu-se com: «Vai ver se eu estou online!» Há quem não esconda a perplexidade face à atenção escrupulosa com que acompanho os "Morangos". Eu não preciso de puxar pela imaginação para encontrar argumentos, a própria série fornece-os por mim. (Já agora, o regresso do setôr Eugénio, agora com cabelo, representou uma pequena revolução que passou ao lado das forças vivas da nação. Foi quebrada a regra, não escrita, que impedia as personagens afastadas, quase sempre para lugares distantes como a Austrália ou a República Checa, de regressarem. Acho extraordinária a leviandade com que se abrem precedentes como este. O regresso do Eugénio teve a não pequena virtude de retirar algum destaque à detestável personagem do pai, o Zeca, ex-sem-abrigo reconvertido em professor paternalista, bonacheirão e falso como Judas.)
XADREZ: No campeonato do mundo, em Bona, Viswanathan Anand teve oportunidade, na segunda-feira, de alcançar o meio ponto que lhe falta para manter o título. Colocado entre a espada e a parede, Vladimir Kramnik reagiu da melhor maneira, dominando posicionalmente o adversário numa defesa nimzo-índia e vencendo a partida. A forma como Anand soçobrou em poucos lances poderá inquietar os seus fãs, e leva a pensar que a pressão começa a exercer os seus efeitos. Depois de um dia de descanso (hoje), a competição retomará amanhã. Anand necessita apenas de fazer meio ponto (um empate) nas duas partidas que faltam, para evitar a necessidade de recorrer aos desempates. Jogando com as brancas, é de esperar que o indiano se esforce por jogar linhas tranquilas e sem risco. Kramnik terá de forçar os acontecimentos, o que vai claramente contra o seu temperamento e o seu historial, sobretudo com as negras. Se Kramnik conseguir vencer as duas partidas que faltam, terá protagonizado uma das mais sensacionais reviravoltas da história do xadrez moderno. Anand, ao longo da sua carreira, não tem sido dado a colapsos psicológicos de grande monta, mas nunca se sabe como um jogador pode reagir em momentos de tão intensa pressão. Seja como for, este encontro irá ter um final bem mais emocionante do que se chegou a recear quando Anand conquistou uma vantagem de 3 vitórias ao fim de apenas 6 partidas.

sexta-feira, outubro 24, 2008

MESMO COMBATE: «I see this financial breakdown, moreover, as being not merely a moral crisis but the monetary expression of the broader degradation of our values - the erosion of duty and responsibility to others in favour of instant gratification, unlimited demands repackaged as 'rights' and the loss of self-discipline. And the root cause of that erosion is 'militant atheism' which, in junking religion, has destroyed our sense of anything beyond our material selves and the here and now and, through such hyper-individualism, paved the way for the onslaught on bedrock moral values expressed through such things as family breakdown and mass fatherlessness, educational collapse, widespread incivility, unprecedented levels of near psychopathic violent crime, epidemic drunkenness and drug abuse, the repudiation of all authority, the moral inversion of victim culture, the destruction of truth and objectivity and a corresponding rise in credulousness in the face of lies and propaganda -- and intimidation and bullying to drive this agenda into public policy.» «Desculpem, mas acho que não é necessário aulas nenhumas de educação sexual, antigamente não havia nada disso, nem TV, nem conversas com os pais acerca de tais assuntos e não apareciam miúdas de 12, 13 anos grávidas como aparecem agora... agora têm tudo e é o que se vê! Tenham juízo, que é o que lhes falta na juventude de hoje em dia!!» O que têm em comum estas duas citações? A tentativa de postular relações de causa e efeito sem sombra de fundamentação, levada a extremos, bastante refrescantes, de paranóia e ideia fixa; a insistência em atribuir a uma única causa (o "ateísmo militante", a educação sexual) um fenómeno complexo. O primeiro excerto é de um artigo de Melanie Phillips, colunista do "Spectator"; o segundo, de um comentário publicado em www.destak.pt. Mas o contraste entre a aparente sofisticação argumentativa do primeiro e a candura tosca do segundo não escondem o traço comum que os une. O combate é o mesmo. Em todos os estratos, nichos e territórios da vasta teia da informação global, o disparate e o delírio vicejam, sem fact-checking nem contraditório capaz de acudir a tantos fogos. Parece que José Manuel Fernandes também culpou a perda da dimensão moral religiosa pelo descalabro do capitalismo contemporâneo. Neste caso, tratando-se de um recidivista múltiplo, o efeito surpresa nos seus leitores é reduzido. (Quantas horas por dia perderão estes opinadores-étoile a lerem-se uns aos outros?)

quarta-feira, outubro 22, 2008

CAUTELAS, CALDOS DE GALINHA E GIGABYTES: Nesta era tão venturosa, em que se vendem pen-drives de 4 Gbytes na Worten ao preço da uva diurética (para não falar nos CDs, nos DVDs, nos discos rígidos USBs, ou na prosaica impressão em derivados de celulose 210x297...), ter um ano de trabalho num computador portátil e não fazer cópias de segurança é abaixo de irresponsável, abaixo de negligente, abaixo de néscio. Não vale a pena procurar adjectivos. O que aconteceu a Miguel Sousa Tavares não merece comiseração, nem um resquício que seja de condolências. Para alguns, a ideia que pode passar é a de um escritor tão ocupado a parlamentar com a musa que despreza as contingências da vida real, como assaltos, vírus, formatações inopinadas de disco e coisas assim. Para mim, trata-se de irresponsabilidade, pura e não adulterada por qualquer traço vestigial de bom-senso. Felizmente, é daquelas irresponsabilidades que apenas lesam o irresponsável, sem danos colaterais, se descontarmos os milhares de leitores que terão de aguardar mais alguns meses pelo novo Opus tavariano. Vale a pena esperar. Tarkovsky - assim reza a lenda - teve de refilmar "Stalker" na sua integralidade, porque o negativo da primeira versão se perdeu. O que não mata torna-nos pessoas melhores. Obra-prima à vista, pois.
MANTER AS DISTÂNCIAS: A chanceler Angela Merkel não gosta dos chochos e das mãos demasiado leves do presidente Sarkozy. O meu gato, Jasmim, gosta de festas, mas não aprecia colo, e debate-se, com ar furibundo (e um tanto psicopata) quando lhe pego. Manter as distâncias é o que está a dar. Manter as distâncias é a nova sensibilidade. Sejamos fiéis ao ar do tempo.
BALANÇO DA FESTA DO CINEMA FRANCÊS: O meu balanço pessoal da festa do cinema francês deste ano faz-se rapidamente, porque só vi dois filmes. (Houve três outros que eu gostaria de ter visto, mas que irão estrear ou já estrearam: "Paris", "Le Silence de Lorna" e "Entre les Murs".) Os filmes que eu vi foram os seguintes. "Ce Que Mes Yeux Ont Vu", de Laurent de Bartillat. Confirmaram-se os meus receios. Este filme pouco mais é do que um banal drama psicológico com caução artística. O argumento é débil, e abusa de situações e personagens estereotipadas (a estudante com dificuldade em pagar o aluguer da casa, mas obcecada por uma ideia fixa, e a quem o desenrolar da narrativa dará plena razão; o orientador, insensível, altivo e misterioso; e até um homem-estátua surdo-mudo e transbordante de sensibilidade). Sylvie Testud e Jean-Pierre Marielle, dois actores de quem gosto muito, fazem o que podem com as suas personagens. Salvam-se algumas ideias de realização, e duas ou três sequências (por exemplo o leilão na Bélgica em que Sylvie Testud licita repetidamente, mesmo sem noção das quantias envolvidas por não perceber o flamengo, tudo para se apoderar de um quadro que poderá trazer a chave para o enigma que a atormenta). Um mérito do filme, certamente não dos menores, é o de chamar a atenção para a excelência e subtileza da obra de Watteau. "Un Baiser S'Il Vous Plaît", de Emmanuel Mouret. Este sim, encheu-me as medidas. À primeira vista, pode confundir-se este filme com uma das dezenas de comédias românticas palavrosas que a França produz anualmente. Mas "Un Baiser S'Il Vous Plaît" distingue-se pela inteligência dos diálogos, pela simplicidade e rigor, por vezes quase ascéticos, da realização, e pela maneira notável como o realizador (que é também um dos protagonistas) insere momentos de elevadíssima intensidade emocional num registo de aparente ligeireza e comicidade. O filme encontra-se estruturado como uma narrativa dentro de uma narrativa: em Nantes, uma mulher nega um beijo a um homem que acabou de conhecer, e com quem acabou de jantar agradavelmente. Para fundamentar a recusa, conta-lhe a história de um casal seu amigo, cujos problemas começaram quando ela aceitou beijá-lo nos lábios, um gesto de pura amizade destinado a paliar as suas carências emocionais. As peripécias sucedem-se em registo de sitcom minimalista, mas o fio condutor é sempre o mesmo: as consequências de um acto isolado, e as suas ramificações éticas no seio de uma relação. As comparações com Woody Allen e Rohmer (mau grado o cepticismo que aqui exprimi) justificam-se plenamente, devido à persona cómica desajeitada e logorreica que Mouret criou, e devido à insistência nas ressonâncias morais de uma ideia fixa levada às suas últimas consequências (ou à recusa em ceder a essa ideia, na outra narrativa, aquela em que o beijo é negado por precaução, e apenas concedido no final, sob condições draconianas que são impotentes para suprimir a emoção). Foi também uma grata surpresa constatar a esplêndida forma em que se encontra Julie Gayet, uma dessas actrizes cuja inteligência e talento se alimentam mutuamente, e de que os franceses parecem deter a patente (recordo-me de Sandrine Kiberlain, Catherine Deneuve, Sandrine Bonnaire, Jeanne Balibar...).
XADREZ: Está a desenrolar-se o match para a atribuição do título de campeão do mundo de xadrez, em Bona, na Alemanha, entre Viswanathan Anand (Índia, campeão em título) e Vladimir Kramnik (Rússia, pretendente).

Anand está à esquerda, na figura, promovendo o seu peão "g" a Dama no final da 6ª partida.

A história recente do campeonato do mundo de xadrez tem sido tão complexa, tão convoluída, tão recheada de peripécias mirabolantes e cisões acrimoniosas, que é um alívio poder garantir a quem esteja menos dentro do assunto que, desta vez, irá sai deste encontro um campeão do mundo incontroverso e reconhecido universalmente. Para mim, e para 95 % dos aficionados, Anand já é campeão do mundo desde 2007, altura em que triunfou num torneio fechado, realizado na Cidade do México, destinado à atribuição do título, e reconhecido universalmente como tal. Porém, muitos apoiantes de Kramnik continuaram a ver neste o único herdeiro do título "clássico", último de uma linhagem cuja origem remonta a 1886, quando Wilhelm Steinitz bateu Johannes Zukertort (e o próprio Kramnik, em entrevistas, defendeu esta teoria com frequência). Chegou agora o momento do tira-teimas decisivo. Só uma obstinação patológica poderá levar alguém a negar que o vencedor do encontro de Bona é o campeão mundial de xadrez. (O leitor interessado encontrará aqui informação histórica bastante exaustiva sobre este assunto.)

Até agora, a contenda tem sido de sentido único. Anand levou a melhor em 3 das primeiras 6 partidas (de um total de 12), e lidera por 4,5-1,5. Anand tem-se superiorizado a Kramnik em todas as fases do jogo, em particular na preparação teórica ao nível das aberturas. A este nível, recuperar de uma desvantagem de 3 derrotas em 6 partidas é tarefa quase impossível. Pessoalmente, torço por Anand, por duas razões. Em primeiro lugar, o estilo do indiano, fluido e versátil (muitas vezes comparado ao do ex-campeão do mundo Boris Spassky), agrada-me mais do que o de Kramnik, mais posicional, pragmático e conservador. É certo que o meu jogador preferido de todos os tempos, Anatoly Karpov, possuía um estilo que também primava pelo pragmatismo e pelo sentido posicional, porém mais rico e menos unidimensional. Em segundo lugar, desagrada-me em Kramnik a sua atitude, nos limites do cinismo, e a forma calculista como tem gerido a sua carreira, desprezando os torneios e focalizando-se quase exclusivamente na manutenção de um título mundial cuja legitimidade nunca foi branca como a neve. O campeonato mundial de xadrez está a ser acompanhado pela vasta equipa de enviados especiais do 1bsk, que inclui numerosos grandes-mestres e mestres internacionais. (Mentira, sou só eu e estou em Telheiras.) Página oficial. Outros sites com cobertura do evento.

sábado, outubro 18, 2008

A HORA RIVETTE (13): «Voltando a "Histoire de Marie et Julien", o filme anterior àquele que é provavelmente o melhor filme desta década, "Ne touchez pas la hache", é incompreensível o tamanho dos disparates que foram escritos. Ninguém, repito, Ninguém, no cinema de hoje tem tal domínio, discernimento e compreensão daquilo a que se chama mise-en-scène, essa arte de respeitar e compreender/apreender o real e a matéria, esse embate fulcral com as texturas, saliências e ambiências de um mundo que está lá, que existe, antes de qualquer artilharia técnica e estilística pré-concebida. Antes de qualquer excitação e fantasia.» Retirado daqui. É pena não haver mais gente a escrever tão bem sobre cinema em blogs portugueses.
A FNAC DO VASCO DA GAMA: Não posso deixar de subscrever estas palavras. A esta lúgubre apreciação acrescento que a secção de livros de cinema está reduzida a duas miseráveis prateleiras (e uma parte considerável dos títulos são na linha "50 000 filmes que deve ver antes de esticar o pernil, se não quer que trocem de si nas festas"), e que a ficção estrangeira, em quantidade e variedade decepcionantes, se resume ao inglês e ao francês. (Philip Roth aparece em força.) Quanto aos DVDs, a secção do "cinema de autor" (e tanto haveria a dizer sobre a pertinência desta designação) está ordenada de forma peculiar: por ordem alfabética do título, mas abrindo excepções para realizadores mais generosamente representados (p.ex. Almodóvar). Este esquema híbrido arrisca-se a gerar confusão. Talvez os vendedores da Fnac sintam carência de contacto social, e estejam desejosos de interagir com os consumidores, desesperados por não conseguirem encontrar sozinhos o filme que pretendem. Para juntar o insulto ao dano, a Bertrand mudou-se do piso superior para o piso inferior, tendo perdido um ror de metros quadrados no caminho. A Bertrand do Vasco da Gama era uma das melhores de Lisboa, e agora não passa de um bocejo em forma de livraria. Aguardemos por dias melhores. (Estou curioso em conhecer a nova Buchholz, no antigo armazém da Sá da Costa, ao Chiado.) [Adenda (22/10): Quando mencionei a ficção estrangeira, referia-me a ficção estrangeira em língua original, não à traduzida. E reparei que, afinal, existem alguns livros em castelhano. Quanto aos DVDs, é de notar que os realizadores que têm direito a entrada individual aparecem ordenados pelo nome próprio (Pedro Almodóvar aparece no "P"), o que só agrava, parece-me, a situação.]

domingo, outubro 12, 2008

O MAL PELA RAIZ: As bolsas não podem cair mais enquanto estiverem fechadas. A solução é não abrir as bolsas. Eu sou a favor da abolição dos dias úteis.
O NOBEL: A importância desmedida que muitos atribuem ao Prémio Nobel da Literatura nunca cessa de me surpreender. Bastou que o premiado deste ano fosse um autor francês para que alguns defendessem tratar-se da prova evidente de que a cultura francesa não está moribunda. Dá vontade de sorrir. A cultura francesa, com as suas grandezas e limitações, tem sobrevivido muito bem, ao longo dos séculos, sem precisar da sanção periódica de um punhado de cavalheiros suecos que se reúnem numa sala para decidir quem vai receber a taluda. É apenas um prémio. "Mas não um prémio como outro qualquer", dirão alguns. De acordo. Mas qual a fracção desse prestígio, desse carácter único, dessa projecção, que corresponde a invenção mediática, e qual a que deriva do real discernimento crítico e clarividência daqueles que atribuem o galardão? A necessidade de relativizar a importância do Nobel não me retira a vontade de tecer algumas considerações sobre a decisão deste ano. Não me posso pronunciar sobre a justiça da atribuição do prémio a Jean-Marie Le Clézio, pois nunca li uma única linha deste autor. Desconsola-me verificar que, 23 anos depois do último escritor de língua francesa ter recebido o prémio, a Academia Sueca ignorou alguns dos nomes que, a meu ver, mereceriam amplamente a consagração do Nobel. Pascal Quignard é o nome que se destaca dos restantes, mas Jacques Roubaud e Michel Butor seriam candidatos legítimos. Nunca vi estes dois nomes citados como potenciais vencedores. No caso de Jacques Roubaud, o galardão reconheceria um dos escritores mais singulares do pós-guerra, autor de uma obra vastíssima e multiforme, onde a componente lúdica, a autobiografia, a experimentação e a matemática marcam presença. Seria também uma maneira de prestar tributo à importância e influência do movimento OuLiPo, agora que Georges Perec, Raymond Queneau e Italo Calvino, pela razão indesculpável de terem falecido, se encontram fora de concurso. Quanto a Butor, conheço poucos exemplos de autores que se movam com tanto à-vontade entre o romance, a poesia, o ensaio literário, a crítica e o livro de viagens, e o seu permanente rigor intelectual e liberdade criativa transformam a descoberta da sua obra num genuíno deleite. Olhando para trás, torna-se confrangedor constatar como têm sido numerosas as ocasiões que a Academia Sueca tem esbanjado para homenagear a singularidade da literatura de língua francesa. Depois da 2ª guerra mundial, após Gide e Mauriac, duas escolhas mais ou menos óbvias, seguiram-se Camus e Sartre (com o poeta Saint-John Perse de permeio), quais incontornáveis torres gémeas da paisagem literária/filosófica gaulesa. Sem pôr em causa os seus méritos literários, que não são poucos, quer-me parecer que os Nobel de Camus e Sartre premiaram mais a encarnação do intelectual, do pensador que escolheu a literatura como forma de expressão, do que os escritores. Depois de Sartre, houve Beckett (obviamente um caso à parte), Claude Simon (que assim representou o "nouveau roman" no palmarés), e agora Le Clézio. Francis Ponge, René Char, Marguerite Duras, Marguerite Yourcenar, Romain Gary, Henri Michaux, Jean Anouilh, Alain Robbe-Grillet, Henry de Montherlant, Julien Gracq (e fico-me por aqui) deixaram este mundo sem o reconhecimento do Nobel. É de lamentar, mas não é nenhuma catástrofe. Felizmente, ao contrário do que este pico de excitação outonal pode fazer crer aos mais distraídos, o Nobel não é o único prémio de literatura, e não é certamente o que distingue um escrevinhador de um imortal.

sexta-feira, outubro 10, 2008

INADMISSÍVEL: «É inadmissível que se façam branqueamentos dentários em cabeleireiros, esteticistas e Spas.» (Lido no "Meia-Hora" de ontem.) Eu próprio me tenho indignado amiúde com esta situação, e surpreende-me que ainda não tenha sido lançado um debate, alargado (bem-entendido) a toda a sociedade, sobre o assunto.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Aparentemente, existem suspeitas de uma fuga de informação durante o processo de atribuição do Nobel da Literatura deste ano. O elevado número de apostas no nome de Le Clézio registado nos últimos dias antes da divulgação do resultado, que terá mesmo levado a Ladbrokes a encerrar as apostas nesse nome, suscitou as suspeitas do secretário permanente da academia. Horace Engdahl reconhece que se encontrava em Paris no último fim-de-semana, e que estava a ler um livro de Le Clézio durante o trajecto para o aeroporto, mas garante que camuflou o livro para não permitir a sua identificação. Tamanha ingenuidade é aflitiva. O mundo está repleto de observadores ávidos das leituras em lugares públicos, fecundos em recursos, e obstinados como mulas. Camuflar um livro não chega. Um fragmento de frase lido por cima de um ombro incauto, um tipo de letra, mil e um detalhes, podem chegar para identificar um livro. Uma rede de conspiradores actua na sombra para não deixar por identificar um único livro que seja exposto num lugar público. O sr. Engdahl deveria saber que mostrar um livro de Le Clézio num aeroporto de Paris, por mais "camuflado" (muitas aspas aqui) que estivesse, seria equivalente a envergar uma sweat-shirt com uma fotografia do autor estampada, e os dizeres "É ele o próximo Nobel".

domingo, outubro 05, 2008

5 DE OUTUBRO: Desde o princípio que o 5 de Outubro é uma das datas de referência do 1bsk, juntamente com o 14 de Julho, o Bloomsday (16 de Junho), o aniversário do Doutor Sousa Martins (uma efeméride de tão graúda importância que nem me recordo em que data calha), e o próprio dia da fundação do Blog e das comunidades kleistianas no estrangeiro (1 de Março, curiosamente coincidente com o aniversário de Jacques Rivette). Estamos a 2 anos do centenário da implantação da República, e nota-se já por aí o engrossar do caudal de comentários anti-republicanos, quase sempre protagonizado por revisionistas de poltrona. Perante as falsidades, as distorções e as meias-verdades, perante a desfaçatez daqueles que acusam a 1ª República de todos as maleitas de que padeceu Portugal no século XX, a atitude mais sensata consiste em recordar duas ou três coisas muito elementares. A implantação da República foi o culminar de um processo que libertou o povo português de uma dinastia reinante ineficaz, conivente com um clero retrógrado e ultramontano, e condescendente para com veleidades ditatoriais como as de João Franco. A República trouxe benefícios imediatos e modernizadores para Portugal, como a regulamentação do divórcio e dos registos civis de nascimento, a laicização do ensino e a separação da Igreja e do Estado. Independentemente da instabilidade que a caracterizou, a 1ª República lançou as bases ideológicas que, após o 25 de Abril, vieram a facilitar uma transição relativamente rápida em direcção a um regime estável, democrático e progressista. Nos dias de hoje, 98 anos depois da revolução, Portugal faz parte da vasta maioria de nações cujo chefe máximo é eleito pelo seu povo ou por representantes seus, e em vez de ser o descendente de um longínquo antepassado cujo principal mérito foi o de ter sido mais forte na espadeirada ou em conspirações palacianas. As razões para celebrar esta data são abundantes. Para o constatar, basta ler os livros de História com objectividade e honestidade, e sem segundas ou terceiras intenções, mais ou menos transparentes, a espreitar pela algibeira. (Ou então, ler qualquer entrevista ao Sr. Duarte de Bragança, esse estadista visionário, exemplo vivo de quão arriscado é confiar aos azares da hereditariedade o futuro de um país.)