quarta-feira, março 11, 2009

TATUAGENS E NEGRITUDE: Desde que a TVI teve a peregrina ideia de mudar o horário dos "Morangos com Açúcar", tornei-me espectador assíduo do programa "Nós Por Cá", na SIC, claramente preferível ao "Feitiço de Amor". No "Nós Por Cá", dois convidados, que mudam todos os dias, comentam situações vagamente burlescas, como por exemplo o caso de um cidadão a quem foi enviado um cheque das Finanças no valor de um cêntimo. Na emissão de ontem, o duo de comentadores por um dia era daqueles para quem uma cavadela sem minhoca seria um malogro vexante. Um tatuador afirmava, alto e bom som, que, "se mandasse", arranjaria maneira de tirar aos ricos para dar aos pobres. Mas não era bem tirar-tirar, antes fazer uma espécie de acordo, conversar. Lamentavelmente, faltou o tempo para aprofundar esta peculiar teoria da redistribuição. A outra convidada era Helena Sacadura Cabral. A propósito do salário do presidente da República, o seu monólogo derivou para o presidente José Eduardo dos Santos, e deste para Léopold Senghor e para a negritude. Segundo Helena Sacadura Cabral, os negros devem ter tanto orgulho na sua negritude como os brancos na sua brancura. Sendo o orgulho que sinto por ser branco (se é que sou "branco", não sei bem o que é isso) comensurável com o orgulho que sinto por ter polegares oponíveis ou uma vesícula biliar, ou seja, nulo, este ponto de vista escapa-me completamente, mas é sempre refrescante contactar com outras maneiras de ver as coisas. O tatuador também se queixou dos malandros que vão fazer tatuagens a casa, sem qualquer higiene, estragando o negócio aos profissionais cumpridores. Como não concordar?
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na estação de metropolitano do Campo Grande, uma senhora lia contos de Eça de Queiroz, em pé. Numa carruagem que percorria a linha verde, uma jovem lia "Intimacy", de Hanif Kureishi, em versão original.

segunda-feira, março 09, 2009

OS FILMES DE ANGELA SCHANELEC: De 12 a 15 de Março, na Culturgest. Com programação de André Dias. Mais pormenores aqui. A avaliar pelo exemplo do filme "Nachmittag" (uma das mais intensas descobertas de 2008), este será um dos grandes momentos cinéfilos deste ano.
TUIT TUIT: «Para que caralho serve o twitter?», pergunta-se no Paraíso do Gelado. Como o 1bsk se dirige a toda a família, e os seus seguidores se distribuem uniformemente por todas as faixas etárias e todas as gradações de depravação, vou evitar usar a palavra "caralho", e limitar-me a perguntar: Para que serve o twitter, afinal?

domingo, março 08, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem lia a "Ilíada", na estação de metropolitano do Campo Grande. Era bonito de se ver.

quinta-feira, março 05, 2009

UMA PEDRADA NO CHARCO: Foi publicado um conto meu na "Revista 365", conto esse que funcionará como uma autêntica pedrada no charco. Esta revista está à venda nos estabelecimentos de categoria. Compre antes que esgote, leia, divulgue, dobre os cantos para marcar a página, guarde para a posteridade, coma frutas e legumes, faça férias repartidas e separe o lixo doméstico. E não se esqueça de visitar o site da "365", que é um verdadeiro delírio.

quarta-feira, março 04, 2009

TÉDIO: O tédio faz mal a praticamente todos os órgãos do corpo humano, como o demonstram dois em cada três estudos publicados nas mais prestigiadas revistas. Para combater o tédio, tudo é legítimo, até mesmo procurar as calinadas nos catálogos de DVDs da Fnac. Aqui estão algumas, do catálogo "A Magia do Cinema":
  • "Awakenings" foi a rampa de lançamento de Robert De Niro.
  • "Oficial e Cavalheiro" é um filme que agarra realmente as audiências e levanta os espíritos de todos.
  • "Chinatown" é considerado por muitos o melhor roteiro [sic] da história do cinema.
  • Em "La Dolce Vita", Fellini critica a estrutura de classes.
  • Fellini realizou um filme intitulado "Dois Ursos de Prata".
  • Antonioni tirava o máximo partido da composição e da cor. (Esta afirmação não é, por si, disparatada, mas surge num texto descritivo a propósito de uma caixa de 4 filmes que são todos a preto e branco: "La Signora Senza Camelie", "I Vinti", "Le Amiche" e "Il Grido".)
  • F. Scott Fitzgerald (1896-1940) foi um dos escritores americanos mais célebres do século XIX.

Mas não quero ser demasiado severo: foi graças a este mesmo catálogo que fiquei a saber que Boris Kaufman (irmão de Dziga Vertov e autor da fotografia de todos os filmes de Jean Vigo) ganhou um óscar por "On the Waterfront", de Elia Kazan. Honestamente, não fazia ideia.

PEQUENO OBITUÁRIO: É muito improvável que o nome de Keith John Worsley (1951-2009) diga alguma coisa aos leitores deste blog. Worsley, cuja carreira científica se desenrolou quase integralmente na Universidade de McGill, em Montréal, foi um dos nomes mais importantes da fase pioneira (que, no fundo, ainda dura) da imagiologia funcional do cérebro. Estatístico de formação, deu abundantes mostras de abertura de espírito e versatilidade ao orientar-se para aplicações na área das neurociências. Foram de sua co-autoria alguns dos artigos mais relevantes desta área nos anos 90, em que forneceu bases estatísticas rigorosas para o trabalho que estava a ser realizado, por outros grupos, no âmbito do estudo funcional do cérebro por meio de tomografia de emissão de positrões e ressonância magnética funcional. Isto sem menosprezo pelo trabalho que continuou a desenvolver até pouco antes do seu recente falecimento, denotando uma permanente vontade de continuar a desbravar terrenos novos, quer na teoria da análise de imagens funcionais, quer no desenvolvimento de ferramentas informáticas para aplicar os métodos desenvolvidos pelo seu grupo. Numa nota pessoal, recordo com intensidade as horas que passei, durante o meu doutoramento, a anotar e tentar assimilar alguns dos artigos de Worsley. (Refiro-me aos seus artigos para leigos, uma vez que nunca reuni a coragem para tentar sequer aflorar os artigos de estatística pura e dura.) Representou para mim uma enorme satisfação ter sido capaz de aplicar algumas das suas ideias ao meu trabalho. Cruzei-me pessoalmente com Keith Worsley apenas um par de vezes, mas foi quanto bastou para poder confirmar as qualidades de simpatia, humanidade e modéstia que lhe apontavam. Nunca esquecerei o almoço mexicano que ele fez questão de pagar, a mim e a alguns colegas que, um pouco por acaso, convergiram para a sua mesa nesse dia de Junho de 2000, em San Antonio, Texas. A notícia do seu desaparecimento deixou-me muito triste.

terça-feira, março 03, 2009

LEITURAS: Uma das leituras que mais apreciei nos últimos tempos foi a de "L'Emploi du Temps", de Michel Butor. Este romance assume a forma de um diário que o narrador (um jovem francês a estagiar na cidade inglesa imaginária de Bleston) redige, com um atraso de alguns meses relativamente aos acontecimentos que relata. Entre a descoberta de uma cidade que o repele e deprime, alguns amores esparsos e amargos, a relação amistosa que enceta com um dos seus colegas de trabalho e uma intriga de contornos vagamente policiais, decorre a vida do narrador durante o período de um ano, dividido entre a necessidade de recordar e transcrever os eventos do passado próximo e as novas perspectivas e revelações que surgem ao sabor do que acontece no presente, no tempo da escrita do diário. O resultado é um subtil jogo entre diferentes planos temporais, uma tentativa de compelir o passado a fazer sentido, a tempo de iluminar o tempo presente, de trazer elementos que ainda possam mudar algo. Pejado de repetições e de revisitações obsessivas de certos episódios, "L'Emploi du Temps" é uma das mais ricas e engenhosas explorações das clivagens (mas também das alianças fugazes) entre o tempo mental e o tempo cronológico. Graças a este excelente blog, fiquei a saber que "Bleston"... ...esconde Manchester, onde Butor ensinou entre 1951 e 1953, e que W.G. Sebald descreveu em "Os Emigrantes". Diz o autor do blog: «I won’t belabor the many intriguing parallels between the two writer’s views on Manchester, but I encourage fans of Sebald to find a copy of Michel Butor’s Passing Time E eu tenho sincera pena que ele não elabore. Nunca li "Os Emigrantes", e pelo andar da carruagem não terei outro remédio a não ser fazer isso mesmo.

Oh Manchester, so much to answer for... (The Smiths)

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, um cavalheiro lia "Palmeiras Bravas", de William Faulkner. Como não estava de pé nem se tratava da versão original, não dá direito a pontos de bónus.

segunda-feira, março 02, 2009

MEIA DÚZIA: Este blog, umblogsobrekleist, conhecido por 1bsk pelos íntimos, amigos, conhecidos e indiferentes, cumpriu ontem 6 anos de existência. Só hoje me lembrei da efeméride. Celebremos, pois, a nossa sexta órbita solar, e que melhor maneira de celebrar do que escutar a Fiona Apple a cantar "I Want You", de Elvis Costello, acompanhada por um certo Declan MacManus? Raras vezes terei visto uma coisa assim. Isto não se finge. Há alguns dias, cheguei a convencer-me de que tinha chegado ao fim do dia sem ter feito nem visto nada de útil. Foi só no dia seguinte que me recordei de que tinha descoberto Fiona Apple a interpretar "I Want You", ao vivo, no YouTube. E isso é quanto basta para eu classificar como "conseguido" um meu dia que poderia não o ser. Nesta actuação há mais do que intensidade, há mais do que sinceridade, há algo que me parece escapar ao entendimento, talvez a cruel consciência de que a vergonha, a dor e a raiva não se sublimam, e que não há alternativa a vivê-las e exprimi-las durante os sete minutos de uma canção, ou uma parte da vida.

domingo, março 01, 2009

TRIUNFO DA LITERATURA: Na apresentação das canções finalistas do Festival da Canção, era pedido aos intérpretes que, entre outras informações imprescindíveis ("praia ou montanha?", "silêncio ou ruído?"), revelassem à Nação qual era o seu livro preferido. Este exercício dispensável produziu resultados tão previsíveis como deprimentes: muito Nicholas Sparks, Richard Bach, e uma misteriosa obra cujo título era qualquer coisa como "Estás na Terra para Cumprir uma Missão". Piedosamente, algumas das escolhas dos concorrentes nem eram divulgadas. Eis senão quando, na apresentação da banda Flor-de-Lis, são mencionados (e mostrados) os livros "Madame Bovary" e "Morte em Veneza". Flaubert e Mann depois de Nicholas Sparks! Logo ali, passei a ver nos Flor-de-Lis os meus favoritos pessoais. A sua vitória final (frente à execrável Luciana Abreu), foi também uma vitória da verdadeira literatura sobre a água choca que nem para seu sucedâneo serve. O facto de a canção dos Flor-de-Lis ser, de longe, a melhor a concurso também não me passou despercebido.
TUDO ESTÁ NA TUA MÃO: A mente humana é um território capcioso. Durante a transmissão do Festival da Canção, e sem nenhuma conexão aparente com este, lembrei-me que o título que Hitler queria dar originalmente a "Mein Kampf" era qualquer coisa como "Doze Anos de Luta Contra a Estupidez, as Mentiras e a Cobardia". Foi a meio da canção da Nucha.
EM BUSCA DO NEOLOGISMO PERFEITO: Acho a sugestão excelente, sem dúvida merecedora de entrar no uso comum. O Prof. Marcelo Rebelo de Sousa não quererá dar uma mãozinha?
MABECOS: Leitor atento, a quem agradeço de forma sincera, elucidou-me sobre o significado do termo "mabeco". Trata-se de uma espécie de cão selvagem, bem conhecido dos ex-combatentes das guerras coloniais, similar ao chacal, dingo, coiote ou hiena. Com leitores assim, quem precisa de dicionários? Mais vale gastar o dinheiro em bebidas espirituosas fortes. Se a minha ousadia o permitisse, lançava agora o apelo para que me explicassem o que é um "musseque".

terça-feira, fevereiro 17, 2009

UM HOMEM DE "PRINCÍPIOS ELEVADOS" E O SEU DEVOTO SIDEKICK: Num mundo que gosta de se anunciar sem preconceitos e repudia a censura, existe um bloqueio drástico sobre o Holocausto. Comentar o horror nazi não pode ser feito fora da versão oficial. São admitidas todas as opiniões, menos essa. Quem escreveu estas palavras? Se o leitor se atreveu a um palpite, e se esse palpite foi "Mahmoud Ahmadinejad", ninguém o pode censurar. A plausibilidade está do seu lado. Sucede, contudo, que estas frases saíram da pena, sempre fecunda, de João César das Neves, o nosso cronista preferido das segundas-feiras, e foram extraídas de um artigo onde ele arrasa todos aqueles que, cedendo ao flagelo do politicamente correcto, criticaram Joseph Ratzinger por ter levantado a excomunhão aos quatro bispos da Sociedade S. Pio X, ordenados por Marcel Lefebvre (incluindo o negacionista Richard Williamson). Na sua ingenuidade, ou na sua má-fé (o efeito é idêntico), JCN atribui ao negacionismo o estatuto de historiografia. O mundo que JCN habita está povoado por historiadores que, cheios de sinceridade e honestidade, contestam o extermínio dos judeus pela máquina nazi da mesma forma que, se o vento tivesse soprado para esse lado, poderiam contestar a existência da escola de Sagres ou a descoberta do Brasil por Álvares Cabral em 1500. Um tema como qualquer outro. Estaria na altura de alguma alma caridosa pagar um TriNaranjus a JCN num bar qualquer, e aproveitar a ocasião para lhe dizer que, neste nosso mundo, o mundo real em que vivemos todos, os negacionistas não são historiadores sérios. São anti-semitas, frequentemente conotados com organizações airosas e simpáticas como a Frente Nacional de Le Pen. Não estão a fazer investigação histórica, mas sim a debitar agit-prop, em doses sabiamente controladas, perfeitamente cientes da margem de manobra que possuem nas sociedades de hoje. E contando, claro está, com a candura de opinantes como João César das Neves. Se estes agentes provocadores se dedicassem a tentar provar que Napoleão morreu em Waterloo, e que a criatura que penou em Santa Helena foi um mero sósia, não recolheriam mais do que escárnio e indiferença. Ao defenderem que as câmaras de gás dos campos de concentração eram usadas apenas para desinfecção, ou outras inanidades do mesmo jaez, sabem que estão a tocar numa ferida ainda aberta. Muito pessoalmente, ignoro por completo as subtilezas da lei canónica, e o real significado de uma excomunhão. Mais do que a excomunhão em si, acho sintomática a intenção, expressa pelo Vaticano, de promover a reconciliação com uma sociedade que faz a apologia da Inquisição e do regime de Vichy, e exprime as opiniões mais retrógradas e tacanhas sobre um sem-número de assuntos, desde a apostasia e o concílio de Trento até considerações sobre se é ou não pecaminoso tocar música folk para ganhar a vida. (Ver aqui, aqui, e aqui, por exemplo.) Nada do que sai da Basílica de São Pedro é inocente, e esta foi mais uma achega para definir um pontificado cujas cores, ao fim de quase quatro anos, são nítidas para todos, para júbilo de alguns aficionados versão pós-Vaticano II.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

LEITOR PREGUIÇOSO, MEU SEMELHANTE, MEU IRMÃO: Após mais de 300 páginas de "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo", de António Lobo Antunes, ainda não descobri o que é um "mabeco", nem me dei ao trabalho de averiguar. Receio que isto me afaste irremediavelmente do modelo de leitor ideal.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

O QUE FAZ FALTA: A língua portuguesa não é suficientemente concisa. Faz-nos falta um verbo que signifique "estar frente à entrada dos Armazéns do Chiado, em grupo ou sozinho/a, parado, sem fazer nada, perturbando aqueles que tentam entrar para ir à Fnac ver as novidades na secção dos DVDs".
CANONIZAÇÃO?: Não sei se se pode falar em canonização, mas o que é certo (e basta folhear os "Cahiers" para disso nos certificarmos) é que não falta por aí malta rendida a "The Curious Case of Benjamin Button", e que não regateia o certificado de obra-prima. Seja. Opiniões alheias assinadas por mãos que eu respeito podem fazer-me repensar as minhas apreciações, mas o filme de Fincher contém tanto daquilo que eu mais detesto em cinema (complacência, falsa ousadia formal, cedência descarada a lugares-comuns) que rever o veredicto não está nos meus planos. Quanto à constatação de que a Academia nomeou para 13 óscares (TM, ©, e tudo o resto) este filme indigesto e insignificante, vergado pela própria pompa sentimental, pelos papagueios morais e pela saturação de efeitos visuais, e que ignorou o subtil e perturbador "Zodiac", isso transmite-me uma sensação reconfortante. Premiar a mediocridade e votar ao desdém a ousadia faz parte das boas tradições de Hollywood. Inquietante e ominoso seria que, subitamente, estes saudáveis hábitos fossem ameaçados por uma qualquer brisa de clarividência.

domingo, fevereiro 08, 2009

OUTRA PARA QUEM A APANHAR: Na quinta-feira tive o privilégio de viver uma autêntica soirée temática. A soirée começou na Fnac, com o lançamento do livro "Os Ventos e Outros Contos" de Eudora Welty (tradução de Diana Almeida, edição Antígona), a que não pude assistir até ao fim devido ao início iminente do evento seguinte, o filme "Antígona" (Sófocles/Hölderlin/Brecht, esse mesmo), da imbatível parelha Huillet/Straub, na Cinemateca. Só faltou mesmo assistir à "Antígona Gelada", mas quando se fala em mitos gregos transpostos para satélites de Plutão estamos a falar em territórios que não me sinto tentado a desbravar.