BALANÇO DA FESTA DO CINEMA FRANCÊS: O meu balanço pessoal da festa do cinema francês deste ano faz-se rapidamente, porque só vi dois filmes. (Houve três outros que eu gostaria de ter visto, mas que irão estrear ou já estrearam: "Paris", "Le Silence de Lorna" e "Entre les Murs".) Os filmes que eu vi foram os seguintes.
"Ce Que Mes Yeux Ont Vu", de Laurent de Bartillat. Confirmaram-se os meus receios. Este filme pouco mais é do que um banal drama psicológico com caução artística. O argumento é débil, e abusa de situações e personagens estereotipadas (a estudante com dificuldade em pagar o aluguer da casa, mas obcecada por uma ideia fixa, e a quem o desenrolar da narrativa dará plena razão; o orientador, insensível, altivo e misterioso; e até um homem-estátua surdo-mudo e transbordante de sensibilidade). Sylvie Testud e Jean-Pierre Marielle, dois actores de quem gosto muito, fazem o que podem com as suas personagens. Salvam-se algumas ideias de realização, e duas ou três sequências (por exemplo o leilão na Bélgica em que Sylvie Testud licita repetidamente, mesmo sem noção das quantias envolvidas por não perceber o flamengo, tudo para se apoderar de um quadro que poderá trazer a chave para o enigma que a atormenta). Um mérito do filme, certamente não dos menores, é o de chamar a atenção para a excelência e subtileza da obra de Watteau.
"Un Baiser S'Il Vous Plaît", de Emmanuel Mouret. Este sim, encheu-me as medidas. À primeira vista, pode confundir-se este filme com uma das dezenas de comédias românticas palavrosas que a França produz anualmente. Mas "Un Baiser S'Il Vous Plaît" distingue-se pela inteligência dos diálogos, pela simplicidade e rigor, por vezes quase ascéticos, da realização, e pela maneira notável como o realizador (que é também um dos protagonistas) insere momentos de elevadíssima intensidade emocional num registo de aparente ligeireza e comicidade. O filme encontra-se estruturado como uma narrativa dentro de uma narrativa: em Nantes, uma mulher nega um beijo a um homem que acabou de conhecer, e com quem acabou de jantar agradavelmente. Para fundamentar a recusa, conta-lhe a história de um casal seu amigo, cujos problemas começaram quando ela aceitou beijá-lo nos lábios, um gesto de pura amizade destinado a paliar as suas carências emocionais. As peripécias sucedem-se em registo de
sitcom minimalista, mas o fio condutor é sempre o mesmo: as consequências de um acto isolado, e as suas ramificações éticas no seio de uma relação. As comparações com Woody Allen e Rohmer (mau grado o cepticismo que
aqui exprimi) justificam-se plenamente, devido à
persona cómica desajeitada e logorreica que Mouret criou, e devido à insistência nas ressonâncias morais de uma ideia fixa levada às suas últimas consequências (ou à recusa em ceder a essa ideia, na outra narrativa, aquela em que o beijo é negado por precaução, e apenas concedido no final, sob condições draconianas que são impotentes para suprimir a emoção). Foi também uma grata surpresa constatar a esplêndida forma em que se encontra Julie Gayet, uma dessas actrizes cuja inteligência e talento se alimentam mutuamente, e de que os franceses parecem deter a patente (recordo-me de Sandrine Kiberlain, Catherine Deneuve, Sandrine Bonnaire, Jeanne Balibar...).