terça-feira, maio 26, 2009

YLANG YLANG: Naquilo que julgo ser uma jogada de marketing inédita, o detergente Surf monopolizou os espaços publicitários de todo o metropolitano de Lisboa (ou pelo menos da linha verde, que é a que eu mais frequento). A concorrência que se cuide. Este golpe de publicidade é obviamente eficaz, pois eu próprio sinto agora vontade de comprar detergente Surf ("pequeno & poderoso"), hesitando apenas entre os aromas Ylang Ylang com Flores Tropicais e Limão com Flores do Campo. Ariel, Skip, Omo e demais perderam a sua aura, e aparecem-me completamente ultrapassados.
TRÁGICA COINCIDÊNCIA: No espaço de poucas semanas, desapareceram o maior divulgador de cinema de animação em Portugal das últimas décadas (Vasco Granja) e o maior divulgador de cinema tout court (João Bénard da Costa). Esperemos que a hecatombe se fique por aqui. Não juntei a minha ao coro de vozes que prestaram homenagem a Vasco Granja, mas devia tê-lo feito. A minha infância (como a de 99,99 % dos meus coevos) ficou marcada pelas emissões que ele protagonizava, como discreto e amigável mestre de cerimónias, ao mesmo tempo cúmplice e didáctico. A cinefilia de Vasco Granja não se confinava aos bonecos animados. Possuo (e li com gosto) um livro de sua autoria, sobre o realizador Dziga Vertov. (Vertov foi responsável por um dos mais maravilhosos títulos da história do cinema: "Lenin habita no coração do campesinato".)

domingo, maio 24, 2009

JOÃO BÉNARD DA COSTA (1935-2009): Num divulgador, num homem vocacionado para formar gostos e hábitos culturais, o carisma e uma certa dimensão maior do que a vida são virtudes de peso. João Bénard da Costa possuía estas duas características e sabia fazer uso delas. Felizmente para todos nós, ao impacto único da sua presença (voz, silhueta, postura) vinham juntar-se a visão, a tenacidade que fez da Cinemateca aquilo que hoje ela é e o talento de falar sobre filmes com uma mistura única de paixão e erudição.
Concordei com algumas das críticas que iam sendo feitas ao seu modo de dirigir a instituição a que presidia, achei escusadas e pouco abonatórias algumas das atitudes que assumiu em polémicas recentes, em particular a que rodeou a sua recondução mau grado o limite de idade. Nada disso importa agora. A obra que deixou não é comensurável com eventuais deslizes, excessos ou despropósitos. Aquilo com que não posso concordar é que, na hora do desaparecimento de um homem com a estatura de João Bénard da Costa, alguns (decerto com as melhores intenções do mundo) julguem que a melhor maneira de lhe prestar homenagem é através de enormidades como "Morreu o cinema" , "O cinema português deve-lhe tudo" e outras do mesmo jaez. A partir de uma dada fasquia de absurdo, a hipérbole, em vez de engrandecer, ofusca o verdadeiro valor do homenageado.
Restam os filmes. Resta vê-los e revê-los, sempre.
"A Lenda da Fortaleza de Suram", de Sergei Paradzhanov, um dos primeiros filmes que vi na Cinemateca.

quarta-feira, maio 20, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um dia em cheio na estação de metro de Telheiras. Uma dama lia "Life on the Mississippi", de Mark Twain. Um cavalheiro lia "La Vieille Dame de Bayeux", de Georges Simenon, integrado numa antologia "Tout Maigret". Telheiras: menospreze-a se quiser, mas faça-o por sua conta e risco!
RECORDAÇÕES DE PARIS (5): Os avisos, afixados nos cinemas, que diziam "Les ouvreuses ne sont rémunérées qu'au pourboire". A reacção, discreta mas ácida, da empregada (dona?) do cinema Reflet Médicis, perto de Saint-Michel, quando não lhe dei gorjeta à entrada (nunca dava).
GOSTAM DE CHAMAR: «a expressão daquilo a que os cavalheiros da classe média que sofrem de enterite gostam de chamar audácia» (Guillaume Apollinaire, a propósito da pintura de Kees van Dongen, citado em "Fauvism", de Sarah Whitfield, Thames & Hudson)

Chemise (1905), Kees van Dongen

domingo, maio 17, 2009

RECORDAÇÕES DE PARIS (4): Os funcionários de serviço ao bengaleiro da gigantesca livraria Gibert Joseph, no Boulevard Saint-Michel, tão sisudos e antipáticos que, com o tempo, abandonei o esforço de lhes dizer "bonjour".
RECORDAÇÕES DE PARIS (3): Entrar no cemitério Montparnasse para fazer horas, antes de uma sessão de cinema. Passar pelas sepulturas de Samuel Beckett, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir.
RECORDAÇÕES DE PARIS (2): Comprar uma televisão com vídeo incorporado, num centro comercial da Place d'Italie. Transportá-la para casa, subestimando idiotamente o esforço necessário para tal, no dia de abertura do Mundial de futebol 1998. Chegar a casa com os braços tão doridos que mal fui capaz de compor o código de acesso ao edifício, mas a tempo de assistir à segunda parte do Brasil-Escócia (vitória do Brasil por 2 a 1).
RECORDAÇÕES DE PARIS (1): Vaguear pelas ruas do sorumbático 16ème arrondissement, num dia de inverno muito frio. Sentir as maçãs do rosto a ficar sem circulação. Entrar num cinema, um pouco ao acaso, para ver "The Spanish Prisoner", de David Mamet.
RECORDAÇÕES DE PARIS (0): Vou hoje iniciar uma nova série de posts, chamada "Recordações de Paris", cujo título me parece dispensar explicações. Já a seguir.
CORRENTES, O ELO MAIS FRACO 'R' US: No que toca a correntes blogosféricas, manda a tradição que eu agradeça a quem se lembrou de mim, que aceite o desafio reservando-me o direito de o subverter a meu gosto, e que não as passe a ninguém.
Não sou grande fã de séries, fundamentalmente porque são raríssimas as que acrescentam alguma coisa de verdadeiramente relevante à existência, sobretudo se comparadas com o cinema (mostrem-me séries de valor comparável a "La Dolce Vita", "Andrei Rubliov" ou "Francisca" e logo falaremos); e, se o objectivo é o entretenimento, existem alternativas que encontram mais graça aos meus olhos.
Limito-me a mencionar duas obras-primas de Dennis Potter: "The Singing Detective" e "Lipstick On Your Collar" (na imagem). Tudo o resto, desde então, soa-me a anticlímax.

terça-feira, maio 12, 2009

IMAGENS E PALAVRAS: A esta (muito completa) lista tenho a acrescentar outro filme de Desplechin, "La Vie des Morts". Nele é lido parte do poema "Le Voyage" (Baudelaire), por vários actores que se revezam, em particular Laurence Côte e Emmanuel Salinger. É uma das mais belas cenas de um filme onde elas são legião.

segunda-feira, maio 04, 2009

GUARDA-SOL AMARELO uma criação colectiva com encenação de Gonçalo Amorim e dramaturgia de Ana Bigotte Vieira
O grupo de teatro da Associação de Residentes de Telheiras Teatroàparte apresenta uma Nova Peça em Maio de 2009. No Auditório da Biblioteca Orlando Ribeiro em Telheiras. Actuações a 15 Maio 22h 16 Maio 22h 22 Maio 22h (inserido na Mostra de Teatro do Lumiar) 23 Maio 16h e 22h 29 Maio 22h 30 Maio 22h Reservas e Informações 96 55 77 545 teatroaparte@sapo.pt -------------------------------------------------------------------------------- Há um guarda-sol amarelo na mitologia da Associação de Residentes de Telheiras, entretanto, tornado seu símbolo gráfico. Mas o mito do guarda-sol amarelo, difundido na pequena brochura, é também uma realidade materializada. Sempre que alguma coisa está para acontecer, há uma campanha em curso, ou se torna urgente gerar mobilização, os chapéus abrem-se nas esquinas de maior movimento. [Ana Contumélias] -------------------------------------------------------------------------------- Guarda-Sol Amarelo é uma meditação sobre a cidade feita por 30 cabeças, 60 mãos, algumas miniaturas, umas maquetas. É sobre estarmos aqui. E é uma espécie de construção em andares da nossa história recente (os 35 anos desta democracia) feita em cima dos mapas emotivos das ruas por onde andamos. -------------------------------------------------------------------------------- O grupo teatroàparte (com o nome Pó de Palco até 2003) foi fundado em Novembro de 1997, no âmbito das actividades lúdicas e culturais da Associação de Residentes de Telheiras (ART), mas rapidamente a sua gestão se tornou autónoma. Actualmente é constituído por cerca de 24 elementos activos. O grupo foi orientado por Susana Graça Oliveira (1997/1998), Fernando Ascenção (1998/1999), Rui Catarino (1999/2000), Pedro Carmo (2000-2004) e Jorge Parente (2005-2007). Desde Fevereiro de 2008, tem vindo a ser orientado por Gonçalo Amorim. O teatroàparte está registado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial. http://teatroaparte.no.sapo.pt/

quinta-feira, abril 30, 2009

ESPREGUIÇAR-SE E ANDAR: Acho fascinante a graciosidade com que os gatos se espreguiçam em andamento, como quem procura poupar tempo conjugando dois gestos independentes. E se há coisa que não falte aos gatos é tempo livre.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um cavalheiro lia um livro de William Makepeace Thackeray, em versão original, no bar do cinema City Classic Alvalade. Pareceu-me tratar-se de "The Four Georges", recolha de conferências sobre os quatro primeiros reis da dinastia de Hanover. Vinte pontos de bónus. Na linha verde do metropolitano, uma senhora lia "Mau Tempo no Canal", de Vitorino Nemésio.

domingo, abril 26, 2009

MY OWN PRIVATE TWITTER: O que estás a fazer? Produção de adenosina trifosfato.
GRANDE PLANO: No romance de Abel Neves, "Corações Piegas", lê-se a páginas tantas: Faltava-me ali o puto e o Matias na janela a ler o bilhetinho. Plano aberto e depois insert do grande plano do rosto sofrido mas esperançado, à Carl Dreyer no seu Dies Irae. No entanto, na folha da Cinemateca dedicada a este filme, Manuel Cintra Ferreira afirma: Dreyer também se distancia de uma característica que fizera a fama de LA PASSION DE JEANNE D'ARC: a utilização do grande plano. A minha memória deste filme é demasiado longínqua e incompleta para me ser de algum auxílio.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha vermelha do metropolitano, um jovem lia "A Metamorfose", de Franz Kafka. Na mesma noite, desta vez na linha verde, foi avistado um jovem com um livro de Whitman, em versão original. Infelizmente, não o estava a ler, entregando-se a outras ocupações. Tratando-se de Whitman, a minha vontade de torcer as regras e contabilizar alguns pontitos de bónus à conta deste avistamento foi muita, mas as regras são as regras, e o resto é caos.
MEIOS E FINS: No documentário sobre Jorge de Sena, que a RTP2 transmitiu ontem, um dos episódios a que se fez alusão tinha a ver com a atribuição de um prémio literário ao romance "A Gata e a Fábula", de Fernanda Botelho, em detrimento da recolha de contos "Andanças do Demónio", de Sena, sob um pretexto com todas as aparências de artificialidade ad hominem. Este episódio era um, de entre muitos, evocado como exemplo da renitência dos conterrâneos de Sena em reconhecerem o seu génio. Não faltava um depoimento de José Saramago, onde este afirmava categoricamente que a escolha de "A Gata e a Fábula", uma «simples história bem contada», representava uma relutância tendenciosa do júri em recompensar o mérito de uma obra muito mais rica e complexa. Nunca li "Andanças do Demónio", mas li "A Gata e a Fábula", e julgo que qualificar este romance de historieta banal é de uma injustiça monumental. A ficção de Fernanda Botelho, de que esta obra não é certamente um dos exemplos menos conseguidos, é de uma subtileza e de uma profundidade que a deviam colocar ao abrigo de apreciações sumárias como esta. Opiniões são opiniões, mas não me parece sensato escamotear a dimensão de obra alheia com o fim de provar uma tese, neste caso a da colossal e permanente injustiça feita a Jorge de Sena.