quarta-feira, junho 17, 2009

Il ne sait pas si c'est le monde qui est en train de devenir rêve ou le rêve, monde. (JLGodard)

(Henri Matisse, "A Cortina Amarela", 1914-15)

terça-feira, junho 16, 2009

MORANGOS COM AÇÚCAR: Nesta série da TVI, tão do agrado do público mais jovem, muito pranto e ranger de dentes se tem feito ouvir, por causa de um acidente da responsabilidade do António, alcoólico em vias de recuperação. A Beatriz, que ia com o António, sofreu ferimentos que deixaram sequelas, sob a forma de uma alegada cicatriz no pescoço. Digo "alegada" porque, não obstante todos os meus esforços nesse sentido, nunca consegui ver a cicatriz. A cicatriz deveria ser desfigurante, a ponto de justificar todas as recriminações que o António dirige a si mesmo, mas não se vê. Chego ao ponto de ver abaladas as minhas certezas quanto à existência da cicatriz, sendo obrigado a refugiar-me na fé. Chego ao ponto de comparar o estatuto ontológico da cicatriz com o da bola de ténis da sequência final de "Blow Up", de Michelangelo Antonioni.
AND NO MORE TURN ASIDE AND BROOD/UPON LOVE'S BITTER MYSTERY: O Bloomsday original foi há 105 anos. Hoje foi dia de andar com uma batata num dos bolsos, e com uma carta pseudónima noutro bolso, e de caminhar pela praia de olhos fechados, e de comer rim de porco ao pequeno-almoço e pão com queijo ao almoço e de beber cacau à ceia. E de olhar com secreto despeito para todos aqueles que, na convicção de ser este um dia igual aos outros, não se entregaram a estes rituais.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Nos degraus de entrada da Faculdade de Belas-Artes, uma jovem lia um volume de poemas de Robert Burns, no original, assim respondendo categoricamente, e na afirmativa, à pergunta que brota de todos os lábios: será que ainda alguém lê Burns nos dias de hoje?

domingo, junho 14, 2009

RECORDAÇÕES DE PARIS (7): A música tocada ao vivo nos transportes públicos era, regra geral, de fraca qualidade, repetitiva e interpretada sem paixão. Foram poucas as ocasiões em que dela retirei genuíno prazer. Uma dessas vezes ocorreu num dos muitos trajectos Paris-Orsay que efectuei. Um guitarrista solitário tocou e cantou "Don Juan", que é desde então uma das minhas canções preferidas de Brassens. Gloire à qui freine à mort, de peur d'ecrabouiller Le hérisson perdu, le crapaud fourvoyé Et gloire à don Juan, d'avoir un jour souri A celle à qui les autres n'attachaient aucun prix Cette fille est trop vilaine, il me la faut
RECORDAÇÕES DE PARIS (6): Dos 15 dias que passei na residência de estudantes dinamarqueses, na Cité Universitaire, recordo sobretudo duas coisas: a vaga de calor que Paris atravessava, por essa altura, e os dois únicos CDs que tinha comigo ("Impromptus", de Schubert, por Radu Lupu, e uma antologia de France Gall). Havia também umas uvas deliciosas, precioso auxiliar na luta contra o calor e a sede.

quinta-feira, junho 11, 2009

WHAT'S NOT TO LIKE ABOUT THESE GUYS?:
Não era precisa (mas lá que ajuda ajuda) a expressão destas afinidades electivas, com destaque para a número 3, para eu gostar dos Nature Theater of Oklahoma. Bastava ter visto "Romeo and Juliet" a produção que trouxeram recentemente ao Teatro Maria Matos. "Romeo and Juliet" baseia-se em conversas em que era pedido aos interlocutores que contassem, de memória, o enredo da peça de Shakespeare. Num autêntico golpe de génio, os actores (magníficos Anne Gridley e Robert M. Johanson) dão voz a essas conversas, às hesitações, tropeços e fantasias típicas de quem se tenta recordar de uma história (aprendida outrora, na juventude, no liceu...) com a ênfase e a dicção de actores Shakespeareanos, um tudo-nada cabotinos. O efeito de distanciamento é desconcertante. Em vez do amor entre Romeu e Julieta, em vez da Verona dos Capuletos e dos Montecchios, o que é trazido à cena é a tragédia processada pela falível memória humana, pela invenção, pelo esforço inglório de reconstrução de um enredo de que apenas restam algumas balizas, uma ou outra personagem, um punhado de citações, alguma cena mais forte (a varanda, sempre a varanda). A aposta é claramente ganha: recordo-me de poucas peças em que um efeito cómico imediato (muito se riu na plateia completamente cheia, nessa noite) seja conjugado de forma tão feliz com a inteligência formal.

(Sentir-me-ia mal com a minha consciência caso não deixasse uma palavra de apreço para a terceira personagem da peça: um ponto vestido de ave que parecia saída da Rua Sésamo. A sua dança silenciosa arrancou algumas das mais sonoras gargalhadas da noite.)

terça-feira, maio 26, 2009

«ESSES PRINCÍPIOS SÃO AQUELES A QUE A SOCIEDADE ATÉ HÁ POUCO CHAMAVA "PORCALHÕES"»: Depois desta primeira investida, não percam "João César das Neves contra os pedagogos do coito e do deboche", em versão redux. Quando João César das Neves finalmente se imolar em público, em jeito de protesto final contra este século libertino, as segundas-feiras perderão o seu único motivo de encanto.
YLANG YLANG: Naquilo que julgo ser uma jogada de marketing inédita, o detergente Surf monopolizou os espaços publicitários de todo o metropolitano de Lisboa (ou pelo menos da linha verde, que é a que eu mais frequento). A concorrência que se cuide. Este golpe de publicidade é obviamente eficaz, pois eu próprio sinto agora vontade de comprar detergente Surf ("pequeno & poderoso"), hesitando apenas entre os aromas Ylang Ylang com Flores Tropicais e Limão com Flores do Campo. Ariel, Skip, Omo e demais perderam a sua aura, e aparecem-me completamente ultrapassados.
TRÁGICA COINCIDÊNCIA: No espaço de poucas semanas, desapareceram o maior divulgador de cinema de animação em Portugal das últimas décadas (Vasco Granja) e o maior divulgador de cinema tout court (João Bénard da Costa). Esperemos que a hecatombe se fique por aqui. Não juntei a minha ao coro de vozes que prestaram homenagem a Vasco Granja, mas devia tê-lo feito. A minha infância (como a de 99,99 % dos meus coevos) ficou marcada pelas emissões que ele protagonizava, como discreto e amigável mestre de cerimónias, ao mesmo tempo cúmplice e didáctico. A cinefilia de Vasco Granja não se confinava aos bonecos animados. Possuo (e li com gosto) um livro de sua autoria, sobre o realizador Dziga Vertov. (Vertov foi responsável por um dos mais maravilhosos títulos da história do cinema: "Lenin habita no coração do campesinato".)

domingo, maio 24, 2009

JOÃO BÉNARD DA COSTA (1935-2009): Num divulgador, num homem vocacionado para formar gostos e hábitos culturais, o carisma e uma certa dimensão maior do que a vida são virtudes de peso. João Bénard da Costa possuía estas duas características e sabia fazer uso delas. Felizmente para todos nós, ao impacto único da sua presença (voz, silhueta, postura) vinham juntar-se a visão, a tenacidade que fez da Cinemateca aquilo que hoje ela é e o talento de falar sobre filmes com uma mistura única de paixão e erudição.
Concordei com algumas das críticas que iam sendo feitas ao seu modo de dirigir a instituição a que presidia, achei escusadas e pouco abonatórias algumas das atitudes que assumiu em polémicas recentes, em particular a que rodeou a sua recondução mau grado o limite de idade. Nada disso importa agora. A obra que deixou não é comensurável com eventuais deslizes, excessos ou despropósitos. Aquilo com que não posso concordar é que, na hora do desaparecimento de um homem com a estatura de João Bénard da Costa, alguns (decerto com as melhores intenções do mundo) julguem que a melhor maneira de lhe prestar homenagem é através de enormidades como "Morreu o cinema" , "O cinema português deve-lhe tudo" e outras do mesmo jaez. A partir de uma dada fasquia de absurdo, a hipérbole, em vez de engrandecer, ofusca o verdadeiro valor do homenageado.
Restam os filmes. Resta vê-los e revê-los, sempre.
"A Lenda da Fortaleza de Suram", de Sergei Paradzhanov, um dos primeiros filmes que vi na Cinemateca.

quarta-feira, maio 20, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um dia em cheio na estação de metro de Telheiras. Uma dama lia "Life on the Mississippi", de Mark Twain. Um cavalheiro lia "La Vieille Dame de Bayeux", de Georges Simenon, integrado numa antologia "Tout Maigret". Telheiras: menospreze-a se quiser, mas faça-o por sua conta e risco!
RECORDAÇÕES DE PARIS (5): Os avisos, afixados nos cinemas, que diziam "Les ouvreuses ne sont rémunérées qu'au pourboire". A reacção, discreta mas ácida, da empregada (dona?) do cinema Reflet Médicis, perto de Saint-Michel, quando não lhe dei gorjeta à entrada (nunca dava).
GOSTAM DE CHAMAR: «a expressão daquilo a que os cavalheiros da classe média que sofrem de enterite gostam de chamar audácia» (Guillaume Apollinaire, a propósito da pintura de Kees van Dongen, citado em "Fauvism", de Sarah Whitfield, Thames & Hudson)

Chemise (1905), Kees van Dongen

domingo, maio 17, 2009

RECORDAÇÕES DE PARIS (4): Os funcionários de serviço ao bengaleiro da gigantesca livraria Gibert Joseph, no Boulevard Saint-Michel, tão sisudos e antipáticos que, com o tempo, abandonei o esforço de lhes dizer "bonjour".
RECORDAÇÕES DE PARIS (3): Entrar no cemitério Montparnasse para fazer horas, antes de uma sessão de cinema. Passar pelas sepulturas de Samuel Beckett, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir.
RECORDAÇÕES DE PARIS (2): Comprar uma televisão com vídeo incorporado, num centro comercial da Place d'Italie. Transportá-la para casa, subestimando idiotamente o esforço necessário para tal, no dia de abertura do Mundial de futebol 1998. Chegar a casa com os braços tão doridos que mal fui capaz de compor o código de acesso ao edifício, mas a tempo de assistir à segunda parte do Brasil-Escócia (vitória do Brasil por 2 a 1).
RECORDAÇÕES DE PARIS (1): Vaguear pelas ruas do sorumbático 16ème arrondissement, num dia de inverno muito frio. Sentir as maçãs do rosto a ficar sem circulação. Entrar num cinema, um pouco ao acaso, para ver "The Spanish Prisoner", de David Mamet.
RECORDAÇÕES DE PARIS (0): Vou hoje iniciar uma nova série de posts, chamada "Recordações de Paris", cujo título me parece dispensar explicações. Já a seguir.
CORRENTES, O ELO MAIS FRACO 'R' US: No que toca a correntes blogosféricas, manda a tradição que eu agradeça a quem se lembrou de mim, que aceite o desafio reservando-me o direito de o subverter a meu gosto, e que não as passe a ninguém.
Não sou grande fã de séries, fundamentalmente porque são raríssimas as que acrescentam alguma coisa de verdadeiramente relevante à existência, sobretudo se comparadas com o cinema (mostrem-me séries de valor comparável a "La Dolce Vita", "Andrei Rubliov" ou "Francisca" e logo falaremos); e, se o objectivo é o entretenimento, existem alternativas que encontram mais graça aos meus olhos.
Limito-me a mencionar duas obras-primas de Dennis Potter: "The Singing Detective" e "Lipstick On Your Collar" (na imagem). Tudo o resto, desde então, soa-me a anticlímax.

terça-feira, maio 12, 2009

IMAGENS E PALAVRAS: A esta (muito completa) lista tenho a acrescentar outro filme de Desplechin, "La Vie des Morts". Nele é lido parte do poema "Le Voyage" (Baudelaire), por vários actores que se revezam, em particular Laurence Côte e Emmanuel Salinger. É uma das mais belas cenas de um filme onde elas são legião.

segunda-feira, maio 04, 2009

GUARDA-SOL AMARELO uma criação colectiva com encenação de Gonçalo Amorim e dramaturgia de Ana Bigotte Vieira
O grupo de teatro da Associação de Residentes de Telheiras Teatroàparte apresenta uma Nova Peça em Maio de 2009. No Auditório da Biblioteca Orlando Ribeiro em Telheiras. Actuações a 15 Maio 22h 16 Maio 22h 22 Maio 22h (inserido na Mostra de Teatro do Lumiar) 23 Maio 16h e 22h 29 Maio 22h 30 Maio 22h Reservas e Informações 96 55 77 545 teatroaparte@sapo.pt -------------------------------------------------------------------------------- Há um guarda-sol amarelo na mitologia da Associação de Residentes de Telheiras, entretanto, tornado seu símbolo gráfico. Mas o mito do guarda-sol amarelo, difundido na pequena brochura, é também uma realidade materializada. Sempre que alguma coisa está para acontecer, há uma campanha em curso, ou se torna urgente gerar mobilização, os chapéus abrem-se nas esquinas de maior movimento. [Ana Contumélias] -------------------------------------------------------------------------------- Guarda-Sol Amarelo é uma meditação sobre a cidade feita por 30 cabeças, 60 mãos, algumas miniaturas, umas maquetas. É sobre estarmos aqui. E é uma espécie de construção em andares da nossa história recente (os 35 anos desta democracia) feita em cima dos mapas emotivos das ruas por onde andamos. -------------------------------------------------------------------------------- O grupo teatroàparte (com o nome Pó de Palco até 2003) foi fundado em Novembro de 1997, no âmbito das actividades lúdicas e culturais da Associação de Residentes de Telheiras (ART), mas rapidamente a sua gestão se tornou autónoma. Actualmente é constituído por cerca de 24 elementos activos. O grupo foi orientado por Susana Graça Oliveira (1997/1998), Fernando Ascenção (1998/1999), Rui Catarino (1999/2000), Pedro Carmo (2000-2004) e Jorge Parente (2005-2007). Desde Fevereiro de 2008, tem vindo a ser orientado por Gonçalo Amorim. O teatroàparte está registado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial. http://teatroaparte.no.sapo.pt/

quinta-feira, abril 30, 2009

ESPREGUIÇAR-SE E ANDAR: Acho fascinante a graciosidade com que os gatos se espreguiçam em andamento, como quem procura poupar tempo conjugando dois gestos independentes. E se há coisa que não falte aos gatos é tempo livre.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um cavalheiro lia um livro de William Makepeace Thackeray, em versão original, no bar do cinema City Classic Alvalade. Pareceu-me tratar-se de "The Four Georges", recolha de conferências sobre os quatro primeiros reis da dinastia de Hanover. Vinte pontos de bónus. Na linha verde do metropolitano, uma senhora lia "Mau Tempo no Canal", de Vitorino Nemésio.

domingo, abril 26, 2009

MY OWN PRIVATE TWITTER: O que estás a fazer? Produção de adenosina trifosfato.
GRANDE PLANO: No romance de Abel Neves, "Corações Piegas", lê-se a páginas tantas: Faltava-me ali o puto e o Matias na janela a ler o bilhetinho. Plano aberto e depois insert do grande plano do rosto sofrido mas esperançado, à Carl Dreyer no seu Dies Irae. No entanto, na folha da Cinemateca dedicada a este filme, Manuel Cintra Ferreira afirma: Dreyer também se distancia de uma característica que fizera a fama de LA PASSION DE JEANNE D'ARC: a utilização do grande plano. A minha memória deste filme é demasiado longínqua e incompleta para me ser de algum auxílio.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha vermelha do metropolitano, um jovem lia "A Metamorfose", de Franz Kafka. Na mesma noite, desta vez na linha verde, foi avistado um jovem com um livro de Whitman, em versão original. Infelizmente, não o estava a ler, entregando-se a outras ocupações. Tratando-se de Whitman, a minha vontade de torcer as regras e contabilizar alguns pontitos de bónus à conta deste avistamento foi muita, mas as regras são as regras, e o resto é caos.
MEIOS E FINS: No documentário sobre Jorge de Sena, que a RTP2 transmitiu ontem, um dos episódios a que se fez alusão tinha a ver com a atribuição de um prémio literário ao romance "A Gata e a Fábula", de Fernanda Botelho, em detrimento da recolha de contos "Andanças do Demónio", de Sena, sob um pretexto com todas as aparências de artificialidade ad hominem. Este episódio era um, de entre muitos, evocado como exemplo da renitência dos conterrâneos de Sena em reconhecerem o seu génio. Não faltava um depoimento de José Saramago, onde este afirmava categoricamente que a escolha de "A Gata e a Fábula", uma «simples história bem contada», representava uma relutância tendenciosa do júri em recompensar o mérito de uma obra muito mais rica e complexa. Nunca li "Andanças do Demónio", mas li "A Gata e a Fábula", e julgo que qualificar este romance de historieta banal é de uma injustiça monumental. A ficção de Fernanda Botelho, de que esta obra não é certamente um dos exemplos menos conseguidos, é de uma subtileza e de uma profundidade que a deviam colocar ao abrigo de apreciações sumárias como esta. Opiniões são opiniões, mas não me parece sensato escamotear a dimensão de obra alheia com o fim de provar uma tese, neste caso a da colossal e permanente injustiça feita a Jorge de Sena.

segunda-feira, abril 20, 2009

CINEMA: Tem graça. Quase sempre, quando surge um esboço de consenso em como um dado filme nada traz de novo à carreira de um realizador, quando este é acusado de se repetir, quando se fala em esgotamento criativo, começo logo a suspeitar de que o filme em questão me irá deveras agradar. Não me costumo enganar. Sucedeu mais uma vez com "La Mujer sin Cabeza", de Lucrecia Martel, como já sucedera com Wong Kar-Wai ("2046"), Greenaway, Rohmer, Kiarostami... "La Mujer sin Cabeza" é um filme magnífico. Gostei ainda mais dele do que de "La Ciénaga" e "La Niña Santa". Poucos realizadores contemporâneos correm de forma tão decidida o risco de filmar o invisível e o indizível. Martel aposta desassombradamente numa via abstractizante, mas servindo-se para isso da dimensão plástica, dos corpos e dos movimentos de câmara. Numa situação narrativa em que o colapso e a desagregação mental são uma ameaça permanente, o cinema e as suas improváveis lógicas aparecem, paradoxalmente, como a única hipótese de manter um símile de coerência. É essa a tensão que atravessa este filme, é essa a tensão que Martel não resolve nem liberta, até ao final. A maneira de filmar de "La Mujer sin Cabeza" pode ser vista como um amadurecimento do estilo que estava já presente nos filmes anteriores. Eu não chamo a isto "repetir-se". Chamo a isto perseverança, busca, fidelidade às ideias.
NÃO DIGAM QUE NÃO AVISEI: Certos admiradores incondicionais do Professor João César das Neves contam sofregamente os dias que os separam da segunda-feira seguinte, mal podendo aguardar pela sua dose semanal de analogias mancas, golpes de rins argumentativos, fogo-de-artíficio de non sequiturs, e no entanto ignoram que o mesmíssimo cronista ocupa uma coluna no "Destak" das quintas-feiras. Trata-se de uma imprudência grave. Com menos espaço do que o que lhe é concedido no "Diário de Notícias", JCN tem menos oportunidade para se espraiar nos seus fleumáticos rodopios retóricos, pelo que a indigência da sua prosa e do seu raciocínio vêm ao de cima com a naturalidade das coisas simples. Algumas destas crónicas não ultrapassam o nível de um banal desabafo; outras permitem-nos vaguear pelos tenebrosos compartimentos de uma mundividência desfasada de vários séculos deste mundo em que vivemos. No passado dia 19 de Março, a intervenção nevesiana foi subordinada ao tema da educação sexual nas escolas. Vale a pena ler o texto na íntegra: «O Parlamento discute o programa de educação sexual das escolas. O Ministério da Educação quer mostrar órgãos sexuais às crianças e explicar-lhes os detalhes de carícias, coito e métodos contraceptivos. Acha que a masturbação é natural, se deve promover o impulso sexual juvenil praticado com segurança e que todos os géneros e famílias são equivalentes. Até pode achar que a educação sexual é só informativa, não formativa. São opiniões legítimas e respeitáveis. Mas é bom lembrar dois pormenores. Primeiro, não são afirmações científicas e terapêuticas. São posições ideológicas, contingentes e discutíveis acerca do comportamento. Quem defende o oposto tem igual legitimidade e merece a mesma respeitabilidade O Ministério não pode impor ao País uma sua opinião como verdade comprovada e definitiva, para mais neste assunto. Segundo, as posições do Ministério não são maioritárias na sociedade portuguesa. Apesar do maciço bombardeamento cultural de televisões, revistas e discursos, Portugal acha que o pudor é uma atitude natural e civilizada, que o sexo deve ser praticado dentro de relação estável e duradoura, que o deboche e a pornografia são más. Em todo o mundo as juras de amor continuam a ser eternas. O espantoso é o Ministério não notar que neste tema está a ser tão tacanho e faccioso como era nos anos 1940. A orientação é oposta, mas a atitude é a mesma do livro único salazarista. Há aqui talvez um traço de carácter nacional. Não esqueçamos que os «Grandes Portugueses», eleitos por sufrágio televisivo em 2007, foram Salazar e Cunhal.» (O texto está também disponível aqui.) Quanto à forma, não há muito a dizer. JCN não foge ao seu método preferido, que consiste em caricaturar as posições dos adversários para mais comodamente argumentar contra elas. (E para quê abster-se de o fazer, se esse modus operandi lhe tem garantido influência e credibilidade, para além um nicho cativo num dos diários de referência do país?) No que ao conteúdo respeita, deixo ao critério do leitor a escolha do naco mais suculento:
  • a imagem de funcionários de ministério arquitectando estratégias para converter alunos das escolas 2+3 em debochados?
  • a alacridade com que o autor, depois de acusar o ministério de estar a impor ao país a sua ideologia, vem falar em nome de Portugal inteiro ("o pudor é uma atitude natural e civilizada")?
  • a singeleza com que proclama que "em todo o mundo as juras de amor continuam a ser eternas", enganando-se não só no século, como no planeta?
  • o gambito final, em que logra associar o puritano Salazar e o ascético Cunhal a uma diatribe contra a lascívia ensinada a petizes?

Perante isto, parece-me ocioso recomendar que não percam o "Destak" das quintas-feiras. Este jornal gratuito é distribuído em estações de metro, aglomerações, estabelecimentos comerciais e semáforos. É certo que as crónicas estão também disponíveis online, mas não é a mesma coisa, não, não é a mesma coisa.

MY OWN PRIVATE TWITTER: O que estás a fazer? Estou aqui ocupado com umas cenas minhas.

quarta-feira, abril 15, 2009

PTARMIGANS: "Ptarmigans". Nunca esta palavra me tinha chamado a atenção, e eis que ontem, no espaço de poucos minutos, a leio em dois sítios diferentes: num poema de Blaise Cendrars ("Lièvres arctiques perdrix de neige ptarmigans") e no almanaque "Schott's Original Miscellany", onde se fica a saber que o nome colectivo que designa um conjunto de "ptarmigans" é "covey". O "Concise Oxford" define assim "ptarmigan": Grouse of northern mountains and the Arctic, whose plumage is white in winter. A palavra deriva do gaélico tàrmachan. O nome científico é Lagopus mutus. É uma bonita palavra, e sinto-me feliz por tê-la aprendido.

terça-feira, abril 07, 2009

AUSÊNCIA: Vou estar sem acesso à Internet durante uns dias, mas nem assim deixarei de twittar, twittarei com alacridade todos os meus movimentos, inspirações, expirações, impressões, dilatações de pupila e pachorrentos meneares de cabeça. Offline twitter is the new black. Boa Páscoa.

domingo, abril 05, 2009

MY OWN PRIVATE TWITTER: O que estás a fazer? Estou a rodar em torno de uma estrela, a uma velocidade aproximada de 30 quilómetros por segundo.
SEM FALHAR: Não parece forçoso que toda a beleza deva ser inspiradora de espanto e trazer consigo um eco funesto. Essas manifestações não fazem parte da essência da beleza, e no entanto acompanham-na infalivelmente.

terça-feira, março 31, 2009

JE DIS BONJOUR À LA BOULANGÈRE, JE TIENS LA PORTE À LA VIEILLE DAME: A tentação de ser uma pessoa decente, fiável, canónica, traz consigo a promessa de um prazer tão intenso que pode parecer afim da perversidade. A decência é um dos maiores desafios para uma pessoa. Uma espécie de condição mínima necessária para a humanidade, que pode, singularmente, acabar por ser também o seu horizonte supremo. Há uma canção de Enzo Enzo que exprime admiravelmente esta tentação da normalidade, e da pequena e média rectidão moral quotidiana, embora se sirva dos tons de amargura que se adequam a uma vida falhada. (Ver a letra da canção aqui.)
LE LIEN SECRET: En outre, le lien secret qui relie le discours dissimulé dans les profondeurs d'un personnage avec le discours étalé à la surface d'un autre constitue un puissant facteur de composition. (Paul Ricœur, nota de rodapé em "Temps et Récit, 2".)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma jovem lia um livro de Orhan Pamuk, "Istambul", na linha verde do metropolitano. Uma jovem lia "Lo Straniero" na linha vermelha. Camus em italiano, quem se atreve a pedir mais?

terça-feira, março 24, 2009

MY OWN PRIVATE TWITTER: O que estás a fazer? Estou a escrever isto.
BOA ONDA: A onda Poe continua a submergir o país. É já amanhã (quarta-feira) o lançamento da obra poética completa, com tradução de Margarida Vale de Gato. Às 18h30. Na Fnac do Chiado. A edição é da Tinta da China.

sexta-feira, março 20, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No cais da estação de metropolitano do Campo Grande, um cavalheiro lia, de pé, o último romance de Maria Velho da Costa, "Myra". Observação mais atenta revelou que o cavalheiro era um dos nomes mais destacados da poesia portuguesa contemporânea.
POE E CRIATIVIDADE GÓTICA: Por minha exclusiva e inalienável culpa, divulgo esta iniciativa tarde e a más horas. Talvez algum leitor mais afoito ainda vá a tempo de abanar o capacete ao som de «Quoth the raven, 'Nevermore'», na "Raven Rave Party".

terça-feira, março 17, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma jovem lia "A Gaivota", de Chekhov. Uma senhora lia "O Livro das Ilusões", de Paul Auster. Tudo isto no metropolitano.
OUTRA VEZ NADA DE NOVO: Segui esta polémica com alguma náusea, nenhuma surpresa. Ao contrário do que sucede com outras artes, são raros os que hesitam em opinar sobre cinema. Para o melhor e para o pior, o cinema transborda da cultura popular para o domínio artístico e vice-versa, e talvez seja este esbater de fronteiras que dá coragem a cada espectador para emitir sentenças com alacridade. Isso seria excelente, e muito democrático, se esse à-vontade não fosse acompanhado, tantas vezes, pelo impulso de zurzir na crítica especializada, acusados de elitismo e de irem sistematicamente contra o gosto do público (ou das "massas", para usar a terminologia deste inenarrável post). Essa acusação não é apenas injusta e descabida: quem a faz ignora olimpicamente a evolução das grandes tendências críticas do cinema contemporâneo (de que todos os críticos, ou pelo menos os que vale a pena ler, são devedores, em maior ou menor grau). Ignora que, longe de se fechar numa torre de marfim, a crítica de cinema tem-se desenvolvido muito ao sabor da apreciação e (re)avaliação das grandes tendências do cinema popular e de entretenimento (série B americana, westerns, polars, musicais, cinema asiático de artes marciais...). Ignora, acima de tudo, que um crítico é uma pessoa a quem, salvo evidências claras de má-fé, se deve atribuir o benefício da dúvida, e que não retira especial prazer de dizer mal daquilo de que a maioria gosta. Admiro a paciência com que João Lopes continua, ano após ano, polémica após polémica, a tentar argumentar contra a leviandade daqueles que incorrem neste (e noutros) lugares comuns. Receio, porém, que esforços como este sejam baldados. Existe uma tendência (que o crescimento do fenómeno dos blogs só veio agravar) para que certas ideias feitas ganhem aceitação devido ao número de vezes que são repetidas, apesar da falta de correspondência com a realidade. Essas ideias falaciosas tornam-se virtualmente impossíveis de falsificar, uma vez que quaisquer argumentos contra elas serão desacreditados pela simples intensidade da vozearia. Essas ideias ganham popularidade porque é cómodo e isento de risco aderir a elas. Uma dessas ideias é precisamente esta:
  • Os críticos dizem sempre mal dos filmes populares.

Existem muitas outras, como por exemplo (um autêntico campeão de vendas):

  • Os ateus também são crentes, porque crêem na não existência de Deus.

Tudo isto teria reduzida importância se não se desse o caso de estas guerras de alecrim e manjerona ocuparem o espaço e o tempo que poderia ser empregue a discutir questões, essas sim, essenciais. Por exemplo: quais as condições, na imprensa escrita portuguesa actual, para o desenvolvimento de um discurso crítico sério sobre cinema, continuado, não espartilhado pelas contingências do calendário de estreias?

quarta-feira, março 11, 2009

TATUAGENS E NEGRITUDE: Desde que a TVI teve a peregrina ideia de mudar o horário dos "Morangos com Açúcar", tornei-me espectador assíduo do programa "Nós Por Cá", na SIC, claramente preferível ao "Feitiço de Amor". No "Nós Por Cá", dois convidados, que mudam todos os dias, comentam situações vagamente burlescas, como por exemplo o caso de um cidadão a quem foi enviado um cheque das Finanças no valor de um cêntimo. Na emissão de ontem, o duo de comentadores por um dia era daqueles para quem uma cavadela sem minhoca seria um malogro vexante. Um tatuador afirmava, alto e bom som, que, "se mandasse", arranjaria maneira de tirar aos ricos para dar aos pobres. Mas não era bem tirar-tirar, antes fazer uma espécie de acordo, conversar. Lamentavelmente, faltou o tempo para aprofundar esta peculiar teoria da redistribuição. A outra convidada era Helena Sacadura Cabral. A propósito do salário do presidente da República, o seu monólogo derivou para o presidente José Eduardo dos Santos, e deste para Léopold Senghor e para a negritude. Segundo Helena Sacadura Cabral, os negros devem ter tanto orgulho na sua negritude como os brancos na sua brancura. Sendo o orgulho que sinto por ser branco (se é que sou "branco", não sei bem o que é isso) comensurável com o orgulho que sinto por ter polegares oponíveis ou uma vesícula biliar, ou seja, nulo, este ponto de vista escapa-me completamente, mas é sempre refrescante contactar com outras maneiras de ver as coisas. O tatuador também se queixou dos malandros que vão fazer tatuagens a casa, sem qualquer higiene, estragando o negócio aos profissionais cumpridores. Como não concordar?
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na estação de metropolitano do Campo Grande, uma senhora lia contos de Eça de Queiroz, em pé. Numa carruagem que percorria a linha verde, uma jovem lia "Intimacy", de Hanif Kureishi, em versão original.

segunda-feira, março 09, 2009

OS FILMES DE ANGELA SCHANELEC: De 12 a 15 de Março, na Culturgest. Com programação de André Dias. Mais pormenores aqui. A avaliar pelo exemplo do filme "Nachmittag" (uma das mais intensas descobertas de 2008), este será um dos grandes momentos cinéfilos deste ano.
TUIT TUIT: «Para que caralho serve o twitter?», pergunta-se no Paraíso do Gelado. Como o 1bsk se dirige a toda a família, e os seus seguidores se distribuem uniformemente por todas as faixas etárias e todas as gradações de depravação, vou evitar usar a palavra "caralho", e limitar-me a perguntar: Para que serve o twitter, afinal?

domingo, março 08, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem lia a "Ilíada", na estação de metropolitano do Campo Grande. Era bonito de se ver.

quinta-feira, março 05, 2009

UMA PEDRADA NO CHARCO: Foi publicado um conto meu na "Revista 365", conto esse que funcionará como uma autêntica pedrada no charco. Esta revista está à venda nos estabelecimentos de categoria. Compre antes que esgote, leia, divulgue, dobre os cantos para marcar a página, guarde para a posteridade, coma frutas e legumes, faça férias repartidas e separe o lixo doméstico. E não se esqueça de visitar o site da "365", que é um verdadeiro delírio.

quarta-feira, março 04, 2009

TÉDIO: O tédio faz mal a praticamente todos os órgãos do corpo humano, como o demonstram dois em cada três estudos publicados nas mais prestigiadas revistas. Para combater o tédio, tudo é legítimo, até mesmo procurar as calinadas nos catálogos de DVDs da Fnac. Aqui estão algumas, do catálogo "A Magia do Cinema":
  • "Awakenings" foi a rampa de lançamento de Robert De Niro.
  • "Oficial e Cavalheiro" é um filme que agarra realmente as audiências e levanta os espíritos de todos.
  • "Chinatown" é considerado por muitos o melhor roteiro [sic] da história do cinema.
  • Em "La Dolce Vita", Fellini critica a estrutura de classes.
  • Fellini realizou um filme intitulado "Dois Ursos de Prata".
  • Antonioni tirava o máximo partido da composição e da cor. (Esta afirmação não é, por si, disparatada, mas surge num texto descritivo a propósito de uma caixa de 4 filmes que são todos a preto e branco: "La Signora Senza Camelie", "I Vinti", "Le Amiche" e "Il Grido".)
  • F. Scott Fitzgerald (1896-1940) foi um dos escritores americanos mais célebres do século XIX.

Mas não quero ser demasiado severo: foi graças a este mesmo catálogo que fiquei a saber que Boris Kaufman (irmão de Dziga Vertov e autor da fotografia de todos os filmes de Jean Vigo) ganhou um óscar por "On the Waterfront", de Elia Kazan. Honestamente, não fazia ideia.

PEQUENO OBITUÁRIO: É muito improvável que o nome de Keith John Worsley (1951-2009) diga alguma coisa aos leitores deste blog. Worsley, cuja carreira científica se desenrolou quase integralmente na Universidade de McGill, em Montréal, foi um dos nomes mais importantes da fase pioneira (que, no fundo, ainda dura) da imagiologia funcional do cérebro. Estatístico de formação, deu abundantes mostras de abertura de espírito e versatilidade ao orientar-se para aplicações na área das neurociências. Foram de sua co-autoria alguns dos artigos mais relevantes desta área nos anos 90, em que forneceu bases estatísticas rigorosas para o trabalho que estava a ser realizado, por outros grupos, no âmbito do estudo funcional do cérebro por meio de tomografia de emissão de positrões e ressonância magnética funcional. Isto sem menosprezo pelo trabalho que continuou a desenvolver até pouco antes do seu recente falecimento, denotando uma permanente vontade de continuar a desbravar terrenos novos, quer na teoria da análise de imagens funcionais, quer no desenvolvimento de ferramentas informáticas para aplicar os métodos desenvolvidos pelo seu grupo. Numa nota pessoal, recordo com intensidade as horas que passei, durante o meu doutoramento, a anotar e tentar assimilar alguns dos artigos de Worsley. (Refiro-me aos seus artigos para leigos, uma vez que nunca reuni a coragem para tentar sequer aflorar os artigos de estatística pura e dura.) Representou para mim uma enorme satisfação ter sido capaz de aplicar algumas das suas ideias ao meu trabalho. Cruzei-me pessoalmente com Keith Worsley apenas um par de vezes, mas foi quanto bastou para poder confirmar as qualidades de simpatia, humanidade e modéstia que lhe apontavam. Nunca esquecerei o almoço mexicano que ele fez questão de pagar, a mim e a alguns colegas que, um pouco por acaso, convergiram para a sua mesa nesse dia de Junho de 2000, em San Antonio, Texas. A notícia do seu desaparecimento deixou-me muito triste.

terça-feira, março 03, 2009

LEITURAS: Uma das leituras que mais apreciei nos últimos tempos foi a de "L'Emploi du Temps", de Michel Butor. Este romance assume a forma de um diário que o narrador (um jovem francês a estagiar na cidade inglesa imaginária de Bleston) redige, com um atraso de alguns meses relativamente aos acontecimentos que relata. Entre a descoberta de uma cidade que o repele e deprime, alguns amores esparsos e amargos, a relação amistosa que enceta com um dos seus colegas de trabalho e uma intriga de contornos vagamente policiais, decorre a vida do narrador durante o período de um ano, dividido entre a necessidade de recordar e transcrever os eventos do passado próximo e as novas perspectivas e revelações que surgem ao sabor do que acontece no presente, no tempo da escrita do diário. O resultado é um subtil jogo entre diferentes planos temporais, uma tentativa de compelir o passado a fazer sentido, a tempo de iluminar o tempo presente, de trazer elementos que ainda possam mudar algo. Pejado de repetições e de revisitações obsessivas de certos episódios, "L'Emploi du Temps" é uma das mais ricas e engenhosas explorações das clivagens (mas também das alianças fugazes) entre o tempo mental e o tempo cronológico. Graças a este excelente blog, fiquei a saber que "Bleston"... ...esconde Manchester, onde Butor ensinou entre 1951 e 1953, e que W.G. Sebald descreveu em "Os Emigrantes". Diz o autor do blog: «I won’t belabor the many intriguing parallels between the two writer’s views on Manchester, but I encourage fans of Sebald to find a copy of Michel Butor’s Passing Time E eu tenho sincera pena que ele não elabore. Nunca li "Os Emigrantes", e pelo andar da carruagem não terei outro remédio a não ser fazer isso mesmo.

Oh Manchester, so much to answer for... (The Smiths)

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, um cavalheiro lia "Palmeiras Bravas", de William Faulkner. Como não estava de pé nem se tratava da versão original, não dá direito a pontos de bónus.

segunda-feira, março 02, 2009

MEIA DÚZIA: Este blog, umblogsobrekleist, conhecido por 1bsk pelos íntimos, amigos, conhecidos e indiferentes, cumpriu ontem 6 anos de existência. Só hoje me lembrei da efeméride. Celebremos, pois, a nossa sexta órbita solar, e que melhor maneira de celebrar do que escutar a Fiona Apple a cantar "I Want You", de Elvis Costello, acompanhada por um certo Declan MacManus? Raras vezes terei visto uma coisa assim. Isto não se finge. Há alguns dias, cheguei a convencer-me de que tinha chegado ao fim do dia sem ter feito nem visto nada de útil. Foi só no dia seguinte que me recordei de que tinha descoberto Fiona Apple a interpretar "I Want You", ao vivo, no YouTube. E isso é quanto basta para eu classificar como "conseguido" um meu dia que poderia não o ser. Nesta actuação há mais do que intensidade, há mais do que sinceridade, há algo que me parece escapar ao entendimento, talvez a cruel consciência de que a vergonha, a dor e a raiva não se sublimam, e que não há alternativa a vivê-las e exprimi-las durante os sete minutos de uma canção, ou uma parte da vida.

domingo, março 01, 2009

TRIUNFO DA LITERATURA: Na apresentação das canções finalistas do Festival da Canção, era pedido aos intérpretes que, entre outras informações imprescindíveis ("praia ou montanha?", "silêncio ou ruído?"), revelassem à Nação qual era o seu livro preferido. Este exercício dispensável produziu resultados tão previsíveis como deprimentes: muito Nicholas Sparks, Richard Bach, e uma misteriosa obra cujo título era qualquer coisa como "Estás na Terra para Cumprir uma Missão". Piedosamente, algumas das escolhas dos concorrentes nem eram divulgadas. Eis senão quando, na apresentação da banda Flor-de-Lis, são mencionados (e mostrados) os livros "Madame Bovary" e "Morte em Veneza". Flaubert e Mann depois de Nicholas Sparks! Logo ali, passei a ver nos Flor-de-Lis os meus favoritos pessoais. A sua vitória final (frente à execrável Luciana Abreu), foi também uma vitória da verdadeira literatura sobre a água choca que nem para seu sucedâneo serve. O facto de a canção dos Flor-de-Lis ser, de longe, a melhor a concurso também não me passou despercebido.
TUDO ESTÁ NA TUA MÃO: A mente humana é um território capcioso. Durante a transmissão do Festival da Canção, e sem nenhuma conexão aparente com este, lembrei-me que o título que Hitler queria dar originalmente a "Mein Kampf" era qualquer coisa como "Doze Anos de Luta Contra a Estupidez, as Mentiras e a Cobardia". Foi a meio da canção da Nucha.
EM BUSCA DO NEOLOGISMO PERFEITO: Acho a sugestão excelente, sem dúvida merecedora de entrar no uso comum. O Prof. Marcelo Rebelo de Sousa não quererá dar uma mãozinha?
MABECOS: Leitor atento, a quem agradeço de forma sincera, elucidou-me sobre o significado do termo "mabeco". Trata-se de uma espécie de cão selvagem, bem conhecido dos ex-combatentes das guerras coloniais, similar ao chacal, dingo, coiote ou hiena. Com leitores assim, quem precisa de dicionários? Mais vale gastar o dinheiro em bebidas espirituosas fortes. Se a minha ousadia o permitisse, lançava agora o apelo para que me explicassem o que é um "musseque".

terça-feira, fevereiro 17, 2009

UM HOMEM DE "PRINCÍPIOS ELEVADOS" E O SEU DEVOTO SIDEKICK: Num mundo que gosta de se anunciar sem preconceitos e repudia a censura, existe um bloqueio drástico sobre o Holocausto. Comentar o horror nazi não pode ser feito fora da versão oficial. São admitidas todas as opiniões, menos essa. Quem escreveu estas palavras? Se o leitor se atreveu a um palpite, e se esse palpite foi "Mahmoud Ahmadinejad", ninguém o pode censurar. A plausibilidade está do seu lado. Sucede, contudo, que estas frases saíram da pena, sempre fecunda, de João César das Neves, o nosso cronista preferido das segundas-feiras, e foram extraídas de um artigo onde ele arrasa todos aqueles que, cedendo ao flagelo do politicamente correcto, criticaram Joseph Ratzinger por ter levantado a excomunhão aos quatro bispos da Sociedade S. Pio X, ordenados por Marcel Lefebvre (incluindo o negacionista Richard Williamson). Na sua ingenuidade, ou na sua má-fé (o efeito é idêntico), JCN atribui ao negacionismo o estatuto de historiografia. O mundo que JCN habita está povoado por historiadores que, cheios de sinceridade e honestidade, contestam o extermínio dos judeus pela máquina nazi da mesma forma que, se o vento tivesse soprado para esse lado, poderiam contestar a existência da escola de Sagres ou a descoberta do Brasil por Álvares Cabral em 1500. Um tema como qualquer outro. Estaria na altura de alguma alma caridosa pagar um TriNaranjus a JCN num bar qualquer, e aproveitar a ocasião para lhe dizer que, neste nosso mundo, o mundo real em que vivemos todos, os negacionistas não são historiadores sérios. São anti-semitas, frequentemente conotados com organizações airosas e simpáticas como a Frente Nacional de Le Pen. Não estão a fazer investigação histórica, mas sim a debitar agit-prop, em doses sabiamente controladas, perfeitamente cientes da margem de manobra que possuem nas sociedades de hoje. E contando, claro está, com a candura de opinantes como João César das Neves. Se estes agentes provocadores se dedicassem a tentar provar que Napoleão morreu em Waterloo, e que a criatura que penou em Santa Helena foi um mero sósia, não recolheriam mais do que escárnio e indiferença. Ao defenderem que as câmaras de gás dos campos de concentração eram usadas apenas para desinfecção, ou outras inanidades do mesmo jaez, sabem que estão a tocar numa ferida ainda aberta. Muito pessoalmente, ignoro por completo as subtilezas da lei canónica, e o real significado de uma excomunhão. Mais do que a excomunhão em si, acho sintomática a intenção, expressa pelo Vaticano, de promover a reconciliação com uma sociedade que faz a apologia da Inquisição e do regime de Vichy, e exprime as opiniões mais retrógradas e tacanhas sobre um sem-número de assuntos, desde a apostasia e o concílio de Trento até considerações sobre se é ou não pecaminoso tocar música folk para ganhar a vida. (Ver aqui, aqui, e aqui, por exemplo.) Nada do que sai da Basílica de São Pedro é inocente, e esta foi mais uma achega para definir um pontificado cujas cores, ao fim de quase quatro anos, são nítidas para todos, para júbilo de alguns aficionados versão pós-Vaticano II.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

LEITOR PREGUIÇOSO, MEU SEMELHANTE, MEU IRMÃO: Após mais de 300 páginas de "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo", de António Lobo Antunes, ainda não descobri o que é um "mabeco", nem me dei ao trabalho de averiguar. Receio que isto me afaste irremediavelmente do modelo de leitor ideal.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

O QUE FAZ FALTA: A língua portuguesa não é suficientemente concisa. Faz-nos falta um verbo que signifique "estar frente à entrada dos Armazéns do Chiado, em grupo ou sozinho/a, parado, sem fazer nada, perturbando aqueles que tentam entrar para ir à Fnac ver as novidades na secção dos DVDs".
CANONIZAÇÃO?: Não sei se se pode falar em canonização, mas o que é certo (e basta folhear os "Cahiers" para disso nos certificarmos) é que não falta por aí malta rendida a "The Curious Case of Benjamin Button", e que não regateia o certificado de obra-prima. Seja. Opiniões alheias assinadas por mãos que eu respeito podem fazer-me repensar as minhas apreciações, mas o filme de Fincher contém tanto daquilo que eu mais detesto em cinema (complacência, falsa ousadia formal, cedência descarada a lugares-comuns) que rever o veredicto não está nos meus planos. Quanto à constatação de que a Academia nomeou para 13 óscares (TM, ©, e tudo o resto) este filme indigesto e insignificante, vergado pela própria pompa sentimental, pelos papagueios morais e pela saturação de efeitos visuais, e que ignorou o subtil e perturbador "Zodiac", isso transmite-me uma sensação reconfortante. Premiar a mediocridade e votar ao desdém a ousadia faz parte das boas tradições de Hollywood. Inquietante e ominoso seria que, subitamente, estes saudáveis hábitos fossem ameaçados por uma qualquer brisa de clarividência.

domingo, fevereiro 08, 2009

OUTRA PARA QUEM A APANHAR: Na quinta-feira tive o privilégio de viver uma autêntica soirée temática. A soirée começou na Fnac, com o lançamento do livro "Os Ventos e Outros Contos" de Eudora Welty (tradução de Diana Almeida, edição Antígona), a que não pude assistir até ao fim devido ao início iminente do evento seguinte, o filme "Antígona" (Sófocles/Hölderlin/Brecht, esse mesmo), da imbatível parelha Huillet/Straub, na Cinemateca. Só faltou mesmo assistir à "Antígona Gelada", mas quando se fala em mitos gregos transpostos para satélites de Plutão estamos a falar em territórios que não me sinto tentado a desbravar.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

ESCUTADO NA RUA:
  • "Eu não tenho vergonha! As salsichas tinham bolor!"
  • "Trabalhar com essa casa não resulta, nunca resultou e nunca resultará."
  • "Quando eu estou online o bacano também está online."

(Esta última frase dizia provavelmente respeito ao Prof. Cavaco Silva.)

sábado, janeiro 31, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Hoje temos uma estreia nesta rubrica, tão apreciada pelos nossos leitores: Heinrich Böll. Na linha verde do metropolitano, uma jovem lia "A Honra Perdida de Katharina Blum".

segunda-feira, janeiro 26, 2009

FADO, FÁTIMA E GODARD: A minha parte preferida do trailer de "Amália" é aquela em que um espectador, erguendo-se da plateia com um ímpeto que denuncia a mais genuína indignação, urra "FASCISTA!!!". Faz-me recordar uma outra cena, de um filme de Godard ("Masculin Féminin", se não me falha a memória cada vez mais falível). Jean-Pierre Léaud está sentado num cinema, na marmelada com uma jovem. Um espectador, sentado algumas filas mais atrás, pede-lhes silêncio. Léaud volta-se e sai-se com um "Cala-te, trotskista!".

domingo, janeiro 25, 2009

CUIDADO COM AS IMITAÇÕES: Há cerca de uma semana, fui assistir a uma peça pelo grupo norte-americano Elevator Repair Service. Poucos dias depois disso, vi-me na contingência de telefonar para o serviço de reparação de elevadores. Se isto é a vida a imitar a arte, não poderia a vida fazer um trabalhinho mais escorreito?

terça-feira, janeiro 20, 2009

SARILHOS GRANDES: O cidadão José Policarpo, a cujas perorações a comunicação social continua a atribuir relevo desproporcionado à importância e ao tino da personagem, tem arrobas de razão. Uma mulher católica arrisca-se a um sem fim de sarilhos se se casar com um muçulmano. A inversa não é menos verdadeira. O mesmo se aplica a uma católica que case com um xintoísta, a um amish que se case com um bahá'í ou a uma testemunha de Jeová que se case com um cristão ortodoxo. Todas as decisões importantes da vida acarretam o potencial para a desgraça ou para a felicidade. Não há antídoto contra o risco, mas há coisas que podem ajudar. Por exemplo: ter sempre em conta que o casamento é uma união entre duas pessoas livres, que se amam e querem construir uma vida em comum; dispensar a canga de preceitos, atavismos e prescrições que as religiões insistem em associar ao matrimónio; ignorar as cristalizações sectárias e mesquinhas com que a sociedade, os cleros e a tradição conspurcam a união entre dois seres. Se não estivesse tão ocupado a tactear, à socapa, os seus próprios telhados de vidro, o cidadão José Policarpo talvez libertasse uma parcela do seu discernimento e se recordasse de todas as mulheres catolica, apostolica, submissa e romanamente casadas que, século após século, se meteram em "sarilhos" inenarráveis por culpa de uma mentalidade misógina que a Igreja raramente hesitou em sancionar.
EXTREMOS, NÃO SEI SE SE TOCAM OU NÃO: Depois de acabar "Myra", de Maria Velho da Costa, cuja redacção foi concluída a 25 de Julho de 2008, li "Gliglois", romance arturiano de autor anónimo, escrito na primeira metade do século XIII. Não me move a ambição de bater recordes de separação epocal entre leituras consecutivas, mas registe-se. (Não sei se ainda está na moda a expressão "from Beowulf to Virginia Woolf" para descrever certos programas de literatura inglesa.)

domingo, janeiro 18, 2009

YOKNAPATAWPHA MEU AMOR: Local: Grande Auditório da Culturgest. A poucos minutos do início da peça "The Sound and the Fury (April Seventh, 1928)", pelo grupo norte-americano Elevator Repair Service, um espectador da primeira fila, talvez impaciente com a espera, decidiu levantar-se e passear-se pelo cenário. Este impulso de mergulhar no imaginário faulkneriano pareceu-me uma coisa nobre e espontânea, e certamente não merecedora do olhar horrorizado do arrumador, que se apressou a pôr na ordem o transgressor. Como tributo, foi pelo menos tão sincero, e certamente mais inócuo para o próprio, do que este.
RECTIFICAÇÃO: Da entrevista a V.S. Naipaul publicada na última edição da revista "Ler" consta, a páginas tantas, o seguinte: «Hardy parou de escrever romances em 1895, quando tinha 25 anos. Não morreu. Tornou-se um homem bastante velho. Escreveu poesia nos seus dias de idade mais avançada.» Algo não batia certo. Escrever "Far From the Madding Crowd", "The Return of the Native", "Tess of the D'Urbervilles" e "Jude the Obscure" antes dos 25 anos representaria um caso de precocidade inverosímil. Nem foi necessário, auxílio online, bastou o meu fiel "Concise Oxford Companion to English Literature". Foi aos 55 anos que Hardy abandonou a ficção e se dedicou à poesia. Resta saber se o lapso se deveu a erro de transcrição ou à falibilidade da memória de "Sir Vidia". Em todo o caso, um pouco mais de genica no fact-checking não teria ficado mal à "Ler".

terça-feira, janeiro 13, 2009

FILMES DO ANO (2): Siga o rol, agora com filmes vistos em festivais e nas formosas instalações da Barata Salgueiro. Ordem cronológica.
  • "L'Amour par Terre", de Jacques Rivette
  • "The Scarlet Empress", de Josef von Sternberg
  • "True Heart Susie", de D.W. Griffith
  • "Distant Voices, Still Lives", de Terence Davies
  • "The Wind", de Victor Sjöström
  • "Paris Vu Par...", de Douchet, Rouch, Pollet, Rohmer, Godard e Chabrol
  • "10 on Ten", de Abbas Kiarostami
  • "Muriel ou le Temps d'Un Retour", de Alain Resnais
  • "Le Genou d'Artemide"/"Itinéraire de Jean Bricard", de Straub e Huillet
  • "Un Baiser s'il vous Plaît", de Emmanuel Mouret
  • "L'Aimée", de Arnaud Desplechin

EM CÂMARA LENTA, COMO NA TV: Sem surpresa, de todas as resoluções de novo ano publicadas pelo jornal "Metro" no passado dia 11, as de Rui Reininho (53 anos, músico) são as únicas dignas de citação. «Agora que estou mais tempo em Leça, vou ver se retomo o tai-chi-chuan, a arte marcial em câmara lenta, que para o equilíbrio é muito boa.» A associação entre Leça e tai-chi-chuan, que na boca de qualquer outro seria um dislate lamentável, parece fazer sentido (e quiçá harmonizar-se com a ordem cósmica) quando o seu fautor é Rui Reininho.

domingo, janeiro 11, 2009

FILMES DO ANO: Não tenho pudor em, à minha modesta escala, produzir umas gotículas de história. As experiências que vivi terão, mais tarde ou mais cedo, de se transmutar em filamentos da história pessoal - ou então serem aniquiladas. Tanto faz ser agora, e sob esta forma consagrada pelos cânones, do que noutra altura e de outra maneira. Qualquer benefício colateral, para mim ou para o leitor, é bem-vindo, mas é de alimentar um cânone íntimo que se trata. Começo pelos filmes estreados em 2008 (ordem cronológica):
  • "Syndromes and a Century", de Apichatpong Weerasethakul (em Cambridge)
  • "No Country for Old Men", dos irmãos Coen
  • "Ne Touchez Pas la Hache", de Jacques Rivette (em Cambridge)
  • "Three Times", de Hou Hsiao-Hsien
  • "I'm Not There", de Todd Haynes
  • "Nightwatching", de Peter Greenaway
  • "Les Amours d'Astrée et de Céladon", de Éric Rohmer
  • "Aquele Querido Mês de Agosto", de Miguel Gomes
  • "Mal Nascida", de João Canijo
  • "La Frontière de l'Aube", de Philippe Garrel

Seguir-se-á a lista dos filmes vistos na Cinemateca ou em festivais.

MORANGOS COM AÇÚCAR: A mãe da Catarina (cujo nome me escapa) empregou, numa cena de há dias com o pai da Beatriz (cuja graça também não me acorre à lembrança, neste momento) uma expressão deliciosa: "Homem de Deus!". A par de "Homessa!" e "Criatura!", é uma das expressões que mais merece ser acarinhada, e encorajada pelos autores de ficção televisiva nacional. Entretanto, a Madalena e o Rodrigo, claramente um dos casais nucleares desta série, já caíram nos braços um do outro. Estamos em Janeiro. Até ao Verão, haverá tempo de sobra para uma zanga e uma reconciliação. Que os "Morangos" funcionam por ciclos e contraciclos românticos é algo que se tornou evidente desde os tempos fundadores do Catarré e da Benedita Pereira.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, um cavalheiro lia "On Photography", de Susan Sontag.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

DE UM TEMPO AUSENTE: A livraria Lello, no Porto, é considerada por muitos uma das mais belas do mundo. Outro dia, descobri nas suas estantes um exemplar do meu romance "Benoni", esgotado há anos. Este desconcertante anacronismo não deixou de contribuir, aos meus olhos, para o encanto muito peculiar desta livraria. A capacidade de inverter a seta do tempo é virtude tão ou mais recomendável do que uma sumptuosa escadaria de madeira maciça.
LEITURAS DE NATAL:
  • "Americana", de Don DeLillo
  • "O Homem ou É Tonto ou É Mulher", de Gonçalo M. Tavares
  • "Paisagem Sem Barcos", de Maria Judite de Carvalho

E ainda "Antigos Mestres", o meu primeiro Thomas Bernhard. Um dos melhores livros que me passou ultimamente pelas mãos. Espero escrever alguma coisa sobre ele, em breve.

LAPSO SOBRE UM LAPSO: Durante algumas horas horrorosas, convenci-me de que tinha deslinkado por engano o "Dias Felizes". Afinal não passou de falso alarme, imputável ao frio polar e às arrelias da vida em geral. Mas custou-me deixar passar em claro uma oportunidade de dizer que o "Dias Felizes" continua a ser provavelmente o melhor blog português. E, se houvesse que retirar uma palavra à frase anterior, seria o "provavelmente". Cuidado com os espectros garrelianos lá para as bandas do Campo Alegre.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

PODIA REPETIR, FOR FAVOR?: Pode ter sido por falta de atenção da minha parte, mas não me passou pelos olhos uma única lista de melhores filmes de 2008 da qual constasse "Mal Nascida", de João Canijo. Talvez o principal motivo tenha sido, muito singelamente, um consenso crítico menos favorável do que o reservado a "Noite Escura". Quer-me parecer que uma outra razão possível terá sido a relativa semelhança de registos entre os dois filmes, que terá levado muitos a pensar estarem a assistir a uma mera recauchutagem do mesmo dispositivo formal por parte do realizador, que assim daria mostras de défice de criatividade. Se assim foi, não poderia estar mais em desacordo. "Mal Nascida" repete procedimentos de "Noite Escura" (o trabalho com o som, os movimentos de câmara aparentemente arbitrários mas sempre em profunda consonância com as tensões de cada cena), mas está longe de sugerir estagnação formal. Vezes sem conta tenho constatado uma tendência para certos realizadores serem acusados de se repetirem, ou de fazerem sempre o mesmo filme, apenas porque retomam certos detalhes de estilo de uma obra para outra. Um bom exemplo disto foi o modo como "Aprile", de Moretti, foi acolhido com uma indiferença digna de um parente pobre, depois do triunfo de "Caro Diario". Felizmente, cineastas como Rohmer, Kiarostami ou Wong Kar Wai não se deixam apoquentar por opiniões tacanhas e continuam a filmar como muito bem entendem, repetindo-se gloriosamente e gloriosamente reinventando por completo a sua arte a cada filme.
TABUS: Nos dias que correm, nenhum jornal, revista, filme ou série comete o deslize de ter tabus. Melhor ainda, apregoam o seu estatuto livre de tabus com ponderado orgulho. A tal ponto se tornou banal esta reivindicação que a única maneira de ser original hoje em dia, logo ousado, logo verdadeiramente escabroso, é reclamar o tabu e a inibição como virtudes. Pessoalmente, eu dificilmente resistiria a ver, digamos, um talk-show assumidamente condicionado por tabus. Os convidados e o anfitrião discutiriam livremente, instalados em confortáveis sofás, até ao momento em que alguém aflorasse um dos tabus (publicamente assumidos, como é natural, à laia de estatuto editorial). O sangue afluiria mansamente às faces, os olhares acanhados divergiriam uns dos outros, e haveria uma minúscula pausa prenhe de pudor. Após o que alguém mudaria de assunto, com todo o tacto. Usar de rodeios seria não só permitido, como encorajado. A arte da elipse, do eufemismo, da litote, só teria a ganhar com tudo isto.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

PUBLICIDADE ENGANOSA: Saiu finalmente (com semanas de atraso relativamente à data anunciada) a caixa "Contos Morais" de Rohmer, editada pela Atalanta e pela Fnac. No pequeno texto de introdução a "Ma Nuit Chez Maud", afirma-se que Rohmer recebeu o Óscar (TM, © e quejandos) de melhor argumento. A minha estupefacção foi, compreende-se, grande. Decidido a tirar tudo a limpo, fui verificar a veracidade da asserção. Enquanto se fazia ouvir aquele rumor muito meigo que acompanha o regresso das coisas à sua ordem natural, constatei que "Ma Nuit Chez Maud" foi meramente nomeado para o Óscar de melhor argumento original, relativo ao ano de 1970, tendo este sido atribuído a Francis Ford Coppola e Edmund H. North por "Patton". Teve o seu encanto nutrir a visão de uma estatueta dourada no escritório de Rohmer, servindo de aperta-livros para a edição Pléiade das obras completas de Pascal.
PARECE QUE FOI NATAL, E QUE JÁ PASSOU: A pausa natalícia interrompeu o caudaloso fluxo de posts que tem caracterizado este blog, e os leitores não foram avisados, o que é uma vergonha. Estimo que tenham passado uma agradável pausa natalícia e anonovícia. Para este ano de 2009 não faço promessas, nem declarações de intenção. Apenas um grito que me sai bem do fundo das entranhas: Quero ver o filme "Ashes of Time Redux", de Wong Kar Wai!!! Um portentoso ano novo para todos, e deixo-vos apenas com mais uma ideia: turrón de chocolate com licor Cointreau.

terça-feira, dezembro 16, 2008

UM APELO AO LEITOR: Leitor! O que estás a fazer aqui em vez de estares a ler aquilo que a Cristina escreveu sobre o Rivette? Assim não vamos a lado nenhum, ai não vamos não. (Muito ao longe, o tiquetaque dos relógios de Jerzy Radziwilowicz em "Histoire de Marie et Julien".)
ALGO VAI MAL: Depois de uma visita ao Reino Unido, é impossível entrar numa Fnac em Lisboa e consultar os preços dos DVDs sem sentir que algo vai mal.
Por exemplo, em Cambridge comprei uma caixa Polanski por 7 libras (ao câmbio actual, aliás muito propício a desvarios consumistas nesta moeda, são menos de 8 euros). A mesma caixa, na Fnac do Chiado, está à venda por trinta e tal euros.
Para juntar o insulto ao dano, a caixa que comprei inclui um DVD de curtas que não consta da versão vendida aqui.
Outros exemplos poderia dar. Só para citar mais um: uma caixa Herzog, à venda na loja Fopp em Cambridge (de visita obrigatória) por 12 libras, ao passo que uma caixa com (tanto quanto me apercebi) os mesmos filmes obrigará o herzogiano que há dentro de cada um de nós a uma despesa aproximadamente três vezes maior, na Fnac.
OLIVEIRA (1): Há coisas que me deixam perplexo. Manoel de Oliveira, um monumento? Não me consta que os monumentos cultivem o bom hábito de continuar a criar, a fazer obra, a ousar. E desde quando o usufruto de dinheiros públicos é incompatível com o exercício da liberdade artística? Que me mostrem um único momento de um único filme de Oliveira onde se detectem vestígios de subserviência, um único plano onde a reverência e o constrangimento pesem mais do que a mão soberana do realizador. "Raramente se discute" Oliveira? Muito pelo contrário: nunca houve em Portugal cineasta mais discutido, criticado, vilipendiado, fautor de causes célèbres. Raramente se discute com conhecimento de causa, isso sim. Raramente se discute sem que se caia na tentação do populismo ou do lugar-comum apalermado. Quem se recorda do inefável José Rodrigues dos Santos, com as pálpebras contraídas num ricto de indignação, denunciando essa aleivosia suprema que é o interminável plano inicial de "Non"? Estar à altura da fascinante singularidade de Oliveira é tarefa de monta. Àqueles que não se sintam à altura, seria de recomendar um silêncio decoroso. (Ler, a propósito, o que o Jorge escreveu.)

quarta-feira, novembro 26, 2008

CERTOS TÍTULOS:
Se certos escritores suspeitassem a importância de que certos quadros se revestem para certas pessoas, talvez evitassem dar certos títulos a certas das suas obras.
Estou seguro de que António Mega Ferreira não fez por maldade.
(As conotações cinéfilas apenas agravam a situação.)

terça-feira, novembro 18, 2008

MOTIVO PRINCIPAL DA MINHA NULA ASSIDUIDADE NOS ÚLTIMOS TEMPOS: Mais informações aqui.

domingo, novembro 02, 2008

XADREZ: Anand!!!

Foto Eugeny Atarov, retirada daqui.

Viswanathan Anand (Índia) manteve o título de campeão mundial de xadrez. Vladimir Kramnik (Rússia) precisava de vencer as duas últimas partidas para forçar os desempates, mas ficou-se por um empate na 11ª e penúltima. Anand mais uma vez surpreendeu o adversário na abertura, ao sair com peão de rei (o seu lance mais habitual, mas de que abdicara ao longo deste encontro em favor de 1.d4, peão de dama). Confrontado com a necessidade de vencer com negras, e sabendo que as suas respostas mais habituais ao peão de rei (como a defesa Russa) são quase inofensivas, Kramnik optou por uma Siciliana Najdorf. Porém, a sua falta de familiaridade com esta abertura levou a que Anand anulasse as tentativas negras de complicar o jogo, sem dificuldades de maior. Foi o próprio Kramnik quem propôs o empate, apesar de isso significar a sua derrota no encontro. Na posição final, havia até ligeira vantagem para Anand. Não li um único comentário em que o triunfo de Anand não fosse considerado amplamente merecido. O indiano dominou claramente a primeira metade do encontro, alcançando duas vitórias brilhantes, com negras, na mesma variante (Merano) do Gambito de Dama, pondo em evidência a superioridade da sua preparação teórica. Seguiu-se uma vitória com brancas, numa Nimzo-Índia. Na segunda metade do encontro, Kramnik conseguiu reequilibrar a balança, e obteve uma vitória (também com uma Nimzo-Índia) notável, bem ao seu estilo posicional e subtil. Mas era tarde demais. Pela primeira vez desde 1993 existe um campeão mundial de xadrez incontestado. Para mim, e para quase todos, não existiam já dúvidas de que Anand era o campeão, depois da sua vitória num torneio realizado no México, realizado pelo único organismo que reúne legitimidade para atribuir o título (Federação Internacional de Xadrez, FIDE). Com este triunfo em Bona, ele satisfez os irredutíveis (e ruidosos) adeptos que defendem o match (sequência de um número pré-definido de partidas entre dois jogadores) como o único meio aceitável para determinar o campeão do mundo. Aqueles que, durante anos, se digladiaram em blogs, fóruns, listas de difusão e (presumo eu) cafés, autocarros e jardins públicos para determinar quem era o verdadeiro campeão do mundo, entretêm-se agora a debater, em retrospectiva, quem foi o campeão do mundo durante o período do cisma (iniciado em 1993, e apenas agora definitivamente encerrado). Vale a pena espreitar estas trocas de mimos para se perceber a que extremos de rudeza e virulência podem chegar estas discussões sobre temas completamente ignorados por 99,99... % da população mundial.
OBAMA/BIDEN!: Este blog apoia Barack Obama, sem a mínima hesitação. Obama tem a seu favor um maior potencial de liderança, ideias mais claras sobre o que quer para o país e para o papel dos E.U.A. no mundo. John McCain, por seu lado, tem um historial de conivência com alguns dos maiores desvarios da nefanda administração Bush, e nunca mostrou especial vontade de se demarcar dos sectores mais retrógrados e tacanhos do partido republicano, em particular a sinistra direita religiosa. A escolha de uma nulidade como Sarah Palin para a vice-presidência foi um sinal ominoso de que, para chegar ao poder, ele está disposto a deixar fugir o pé para a chinela do populismo mais descarado e do anti-intelectualismo mais primário, ainda que por interposta pessoa. A escolha entre estes dois candidatos não deveria ser difícil. Vamos ver se, na terça-feira, triunfa a sensatez.

terça-feira, outubro 28, 2008

CAMPOS DE MORANGOS PARA SEMPRE: A Fred, personagem da nova série dos "Morangos com Açúcar", protagonizou um momento absolutamente genial. Confrontada com os remoques acintosos de um amigo, saiu-se com: «Vai ver se eu estou online!» Há quem não esconda a perplexidade face à atenção escrupulosa com que acompanho os "Morangos". Eu não preciso de puxar pela imaginação para encontrar argumentos, a própria série fornece-os por mim. (Já agora, o regresso do setôr Eugénio, agora com cabelo, representou uma pequena revolução que passou ao lado das forças vivas da nação. Foi quebrada a regra, não escrita, que impedia as personagens afastadas, quase sempre para lugares distantes como a Austrália ou a República Checa, de regressarem. Acho extraordinária a leviandade com que se abrem precedentes como este. O regresso do Eugénio teve a não pequena virtude de retirar algum destaque à detestável personagem do pai, o Zeca, ex-sem-abrigo reconvertido em professor paternalista, bonacheirão e falso como Judas.)
XADREZ: No campeonato do mundo, em Bona, Viswanathan Anand teve oportunidade, na segunda-feira, de alcançar o meio ponto que lhe falta para manter o título. Colocado entre a espada e a parede, Vladimir Kramnik reagiu da melhor maneira, dominando posicionalmente o adversário numa defesa nimzo-índia e vencendo a partida. A forma como Anand soçobrou em poucos lances poderá inquietar os seus fãs, e leva a pensar que a pressão começa a exercer os seus efeitos. Depois de um dia de descanso (hoje), a competição retomará amanhã. Anand necessita apenas de fazer meio ponto (um empate) nas duas partidas que faltam, para evitar a necessidade de recorrer aos desempates. Jogando com as brancas, é de esperar que o indiano se esforce por jogar linhas tranquilas e sem risco. Kramnik terá de forçar os acontecimentos, o que vai claramente contra o seu temperamento e o seu historial, sobretudo com as negras. Se Kramnik conseguir vencer as duas partidas que faltam, terá protagonizado uma das mais sensacionais reviravoltas da história do xadrez moderno. Anand, ao longo da sua carreira, não tem sido dado a colapsos psicológicos de grande monta, mas nunca se sabe como um jogador pode reagir em momentos de tão intensa pressão. Seja como for, este encontro irá ter um final bem mais emocionante do que se chegou a recear quando Anand conquistou uma vantagem de 3 vitórias ao fim de apenas 6 partidas.

sexta-feira, outubro 24, 2008

MESMO COMBATE: «I see this financial breakdown, moreover, as being not merely a moral crisis but the monetary expression of the broader degradation of our values - the erosion of duty and responsibility to others in favour of instant gratification, unlimited demands repackaged as 'rights' and the loss of self-discipline. And the root cause of that erosion is 'militant atheism' which, in junking religion, has destroyed our sense of anything beyond our material selves and the here and now and, through such hyper-individualism, paved the way for the onslaught on bedrock moral values expressed through such things as family breakdown and mass fatherlessness, educational collapse, widespread incivility, unprecedented levels of near psychopathic violent crime, epidemic drunkenness and drug abuse, the repudiation of all authority, the moral inversion of victim culture, the destruction of truth and objectivity and a corresponding rise in credulousness in the face of lies and propaganda -- and intimidation and bullying to drive this agenda into public policy.» «Desculpem, mas acho que não é necessário aulas nenhumas de educação sexual, antigamente não havia nada disso, nem TV, nem conversas com os pais acerca de tais assuntos e não apareciam miúdas de 12, 13 anos grávidas como aparecem agora... agora têm tudo e é o que se vê! Tenham juízo, que é o que lhes falta na juventude de hoje em dia!!» O que têm em comum estas duas citações? A tentativa de postular relações de causa e efeito sem sombra de fundamentação, levada a extremos, bastante refrescantes, de paranóia e ideia fixa; a insistência em atribuir a uma única causa (o "ateísmo militante", a educação sexual) um fenómeno complexo. O primeiro excerto é de um artigo de Melanie Phillips, colunista do "Spectator"; o segundo, de um comentário publicado em www.destak.pt. Mas o contraste entre a aparente sofisticação argumentativa do primeiro e a candura tosca do segundo não escondem o traço comum que os une. O combate é o mesmo. Em todos os estratos, nichos e territórios da vasta teia da informação global, o disparate e o delírio vicejam, sem fact-checking nem contraditório capaz de acudir a tantos fogos. Parece que José Manuel Fernandes também culpou a perda da dimensão moral religiosa pelo descalabro do capitalismo contemporâneo. Neste caso, tratando-se de um recidivista múltiplo, o efeito surpresa nos seus leitores é reduzido. (Quantas horas por dia perderão estes opinadores-étoile a lerem-se uns aos outros?)

quarta-feira, outubro 22, 2008

CAUTELAS, CALDOS DE GALINHA E GIGABYTES: Nesta era tão venturosa, em que se vendem pen-drives de 4 Gbytes na Worten ao preço da uva diurética (para não falar nos CDs, nos DVDs, nos discos rígidos USBs, ou na prosaica impressão em derivados de celulose 210x297...), ter um ano de trabalho num computador portátil e não fazer cópias de segurança é abaixo de irresponsável, abaixo de negligente, abaixo de néscio. Não vale a pena procurar adjectivos. O que aconteceu a Miguel Sousa Tavares não merece comiseração, nem um resquício que seja de condolências. Para alguns, a ideia que pode passar é a de um escritor tão ocupado a parlamentar com a musa que despreza as contingências da vida real, como assaltos, vírus, formatações inopinadas de disco e coisas assim. Para mim, trata-se de irresponsabilidade, pura e não adulterada por qualquer traço vestigial de bom-senso. Felizmente, é daquelas irresponsabilidades que apenas lesam o irresponsável, sem danos colaterais, se descontarmos os milhares de leitores que terão de aguardar mais alguns meses pelo novo Opus tavariano. Vale a pena esperar. Tarkovsky - assim reza a lenda - teve de refilmar "Stalker" na sua integralidade, porque o negativo da primeira versão se perdeu. O que não mata torna-nos pessoas melhores. Obra-prima à vista, pois.
MANTER AS DISTÂNCIAS: A chanceler Angela Merkel não gosta dos chochos e das mãos demasiado leves do presidente Sarkozy. O meu gato, Jasmim, gosta de festas, mas não aprecia colo, e debate-se, com ar furibundo (e um tanto psicopata) quando lhe pego. Manter as distâncias é o que está a dar. Manter as distâncias é a nova sensibilidade. Sejamos fiéis ao ar do tempo.
BALANÇO DA FESTA DO CINEMA FRANCÊS: O meu balanço pessoal da festa do cinema francês deste ano faz-se rapidamente, porque só vi dois filmes. (Houve três outros que eu gostaria de ter visto, mas que irão estrear ou já estrearam: "Paris", "Le Silence de Lorna" e "Entre les Murs".) Os filmes que eu vi foram os seguintes. "Ce Que Mes Yeux Ont Vu", de Laurent de Bartillat. Confirmaram-se os meus receios. Este filme pouco mais é do que um banal drama psicológico com caução artística. O argumento é débil, e abusa de situações e personagens estereotipadas (a estudante com dificuldade em pagar o aluguer da casa, mas obcecada por uma ideia fixa, e a quem o desenrolar da narrativa dará plena razão; o orientador, insensível, altivo e misterioso; e até um homem-estátua surdo-mudo e transbordante de sensibilidade). Sylvie Testud e Jean-Pierre Marielle, dois actores de quem gosto muito, fazem o que podem com as suas personagens. Salvam-se algumas ideias de realização, e duas ou três sequências (por exemplo o leilão na Bélgica em que Sylvie Testud licita repetidamente, mesmo sem noção das quantias envolvidas por não perceber o flamengo, tudo para se apoderar de um quadro que poderá trazer a chave para o enigma que a atormenta). Um mérito do filme, certamente não dos menores, é o de chamar a atenção para a excelência e subtileza da obra de Watteau. "Un Baiser S'Il Vous Plaît", de Emmanuel Mouret. Este sim, encheu-me as medidas. À primeira vista, pode confundir-se este filme com uma das dezenas de comédias românticas palavrosas que a França produz anualmente. Mas "Un Baiser S'Il Vous Plaît" distingue-se pela inteligência dos diálogos, pela simplicidade e rigor, por vezes quase ascéticos, da realização, e pela maneira notável como o realizador (que é também um dos protagonistas) insere momentos de elevadíssima intensidade emocional num registo de aparente ligeireza e comicidade. O filme encontra-se estruturado como uma narrativa dentro de uma narrativa: em Nantes, uma mulher nega um beijo a um homem que acabou de conhecer, e com quem acabou de jantar agradavelmente. Para fundamentar a recusa, conta-lhe a história de um casal seu amigo, cujos problemas começaram quando ela aceitou beijá-lo nos lábios, um gesto de pura amizade destinado a paliar as suas carências emocionais. As peripécias sucedem-se em registo de sitcom minimalista, mas o fio condutor é sempre o mesmo: as consequências de um acto isolado, e as suas ramificações éticas no seio de uma relação. As comparações com Woody Allen e Rohmer (mau grado o cepticismo que aqui exprimi) justificam-se plenamente, devido à persona cómica desajeitada e logorreica que Mouret criou, e devido à insistência nas ressonâncias morais de uma ideia fixa levada às suas últimas consequências (ou à recusa em ceder a essa ideia, na outra narrativa, aquela em que o beijo é negado por precaução, e apenas concedido no final, sob condições draconianas que são impotentes para suprimir a emoção). Foi também uma grata surpresa constatar a esplêndida forma em que se encontra Julie Gayet, uma dessas actrizes cuja inteligência e talento se alimentam mutuamente, e de que os franceses parecem deter a patente (recordo-me de Sandrine Kiberlain, Catherine Deneuve, Sandrine Bonnaire, Jeanne Balibar...).
XADREZ: Está a desenrolar-se o match para a atribuição do título de campeão do mundo de xadrez, em Bona, na Alemanha, entre Viswanathan Anand (Índia, campeão em título) e Vladimir Kramnik (Rússia, pretendente).

Anand está à esquerda, na figura, promovendo o seu peão "g" a Dama no final da 6ª partida.

A história recente do campeonato do mundo de xadrez tem sido tão complexa, tão convoluída, tão recheada de peripécias mirabolantes e cisões acrimoniosas, que é um alívio poder garantir a quem esteja menos dentro do assunto que, desta vez, irá sai deste encontro um campeão do mundo incontroverso e reconhecido universalmente. Para mim, e para 95 % dos aficionados, Anand já é campeão do mundo desde 2007, altura em que triunfou num torneio fechado, realizado na Cidade do México, destinado à atribuição do título, e reconhecido universalmente como tal. Porém, muitos apoiantes de Kramnik continuaram a ver neste o único herdeiro do título "clássico", último de uma linhagem cuja origem remonta a 1886, quando Wilhelm Steinitz bateu Johannes Zukertort (e o próprio Kramnik, em entrevistas, defendeu esta teoria com frequência). Chegou agora o momento do tira-teimas decisivo. Só uma obstinação patológica poderá levar alguém a negar que o vencedor do encontro de Bona é o campeão mundial de xadrez. (O leitor interessado encontrará aqui informação histórica bastante exaustiva sobre este assunto.)

Até agora, a contenda tem sido de sentido único. Anand levou a melhor em 3 das primeiras 6 partidas (de um total de 12), e lidera por 4,5-1,5. Anand tem-se superiorizado a Kramnik em todas as fases do jogo, em particular na preparação teórica ao nível das aberturas. A este nível, recuperar de uma desvantagem de 3 derrotas em 6 partidas é tarefa quase impossível. Pessoalmente, torço por Anand, por duas razões. Em primeiro lugar, o estilo do indiano, fluido e versátil (muitas vezes comparado ao do ex-campeão do mundo Boris Spassky), agrada-me mais do que o de Kramnik, mais posicional, pragmático e conservador. É certo que o meu jogador preferido de todos os tempos, Anatoly Karpov, possuía um estilo que também primava pelo pragmatismo e pelo sentido posicional, porém mais rico e menos unidimensional. Em segundo lugar, desagrada-me em Kramnik a sua atitude, nos limites do cinismo, e a forma calculista como tem gerido a sua carreira, desprezando os torneios e focalizando-se quase exclusivamente na manutenção de um título mundial cuja legitimidade nunca foi branca como a neve. O campeonato mundial de xadrez está a ser acompanhado pela vasta equipa de enviados especiais do 1bsk, que inclui numerosos grandes-mestres e mestres internacionais. (Mentira, sou só eu e estou em Telheiras.) Página oficial. Outros sites com cobertura do evento.

sábado, outubro 18, 2008

A HORA RIVETTE (13): «Voltando a "Histoire de Marie et Julien", o filme anterior àquele que é provavelmente o melhor filme desta década, "Ne touchez pas la hache", é incompreensível o tamanho dos disparates que foram escritos. Ninguém, repito, Ninguém, no cinema de hoje tem tal domínio, discernimento e compreensão daquilo a que se chama mise-en-scène, essa arte de respeitar e compreender/apreender o real e a matéria, esse embate fulcral com as texturas, saliências e ambiências de um mundo que está lá, que existe, antes de qualquer artilharia técnica e estilística pré-concebida. Antes de qualquer excitação e fantasia.» Retirado daqui. É pena não haver mais gente a escrever tão bem sobre cinema em blogs portugueses.