segunda-feira, novembro 09, 2009

LONGE DO ESTORIL: O que me faz lamentar estar a perder o festival de cinema do Estoril é, mais do que Juliette Binoche, David Byrne ou Francis Ford Coppola (e eu admiro-os a todos), a presença na selecção oficial de "Le Roi de l'Évasion", de Alain Guiraudie. Sou grande admirador deste realizador, sobretudo do sublime "Pas de Repos pour les Braves" e da fabulosa média metragem "Du Soleil pour les Gueux". Ao penúltimo filme de Guiraudie, "Voici Venu le Temps", não foi dada oportunidade nas salas portuguesas. Quem sabe quando, ou (suspiro) se, terei oportunidade de assistir a este "Le Roi de l'Évasion"? Dá vontade de ir ali ao Cais do Sodré apanhar o comboio.
OS ABISMOS DE SODOMA, VERSÃO SARAIVA: «Contava-me uma empregada minha que numa casa onde em tempos trabalhou havia um menino que só gostava de brincar com bonecas, tachos e panelas. A minha empregada começou a achar aquilo estranho. E a verdade é que, na saída da adolescência, o menino revelou a sua inclinação homossexual. Este caso deverá ser extremo, mas não há dúvida de que em certas pessoas a inversão sexual se manifesta muito cedo.» José António Saraiva é, em Portugal, o expoente supremo da comicidade involuntária - e não por falta de concorrência. Nesta sua peça sobre o casamento homossexual, o que mais impressiona é o contraste entre a pose de quem escreve, entre oráculo e compenetrado árbitro de costumes, e a atroz banalidade das opiniões que exprime. Prosa como esta constitui um poderoso argumento contra o referendo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, talvez mais eficaz ainda do que o elementar bom senso. A haver um referendo, a haver o tal debate, certamente muito "amplo", muito "alargado" e muito "profundo", o tal debate que se estende há anos mas que alguns insistem em enriquecer com mais achegas e rotações de manivela, argumentação como esta (talvez um pouco menos trôpega) encheria jornais, blogs e prós e contras, durante semanas. Não se deve abusar dos pontapés na nossa sanidade colectiva.
TO WHOM IT MAY CONCERN: Os contos "Eulália e Vina" e "O Fim do Curso", de Teresa Veiga, fariam muito boa figura numa antologia dos melhores contos portugueses do século XX.

sábado, novembro 07, 2009

PRÉMIOS: O prémio Booker foi atribuído a Hilary Mantel ("Wolf Hall"), o Goncourt a Marie NDiaye ("Trois Femmes Puissantes") e o Nobel a Herta Müller. É a primeira vez que estes três prémios são entregues, no mesmo ano, a mulheres. O único ano em que o Booker e o Goncourt tinham sido ambos atribuídos a mulheres, até hoje, tinha sido 1984 (Anita Brookner, "Hotel du Lac", e Marguerite Duras, "L'Amant").
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: Gosto muito da capa.

segunda-feira, novembro 02, 2009

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:
UM LEMA PARA A VIDA:
"I'd rather have a bottle in front of me than a frontal lobotomy."
Qual "E pluribus unum", qual "No hay caminos hay que caminar", qual "If you want something set it free". Este sim, é um lema que merece durar uma vida inteira.
LANÇAMENTO: A antologia luso-brasileira "Um Rio de Contos" (Editorial Tágide) será lançada amanhã, 3 de Novembro, terça-feira, às 18h30, no Espaço Machado de Assis (Avenida da Liberdade, 180-A, 10º andar). A obra será apresentada pelo Embaixador Lauro Moreira e pelo escritor Miguel Real. Participo nesta antologia com um conto cuja acção se desenrola nas margens do garboso rio Guadiana.

sexta-feira, outubro 09, 2009

UMA HORA E VINTE MINUTOS ANTES DO INÍCIO DA JORNADA DE REFLEXÃO, DEIXO-VOS A MINHA HOMENAGEM AO ÍNDICE REBUÇADO: Já conhece o índice rebuçado? Descubra tudo aqui. São inspirações como esta que distinguem uma democracia vibrante e vigorosa de uma democracia apagada e moribunda. Habitantes do Lumiar, a escolha é vossa. Vamos lá mudar de paradigma?
SÓ ALGUNS: Posso garantir, com pleno conhecimento de causa, que não mais de dois telheirenses em cada três lêem Murakami. Falar em "moda" releva do exagero.

quarta-feira, outubro 07, 2009

LIFE, THE TRUTH OF ART AND THE SORROWS OF IMAGINATION: Lá fora chove com abundância bíblica, o tempo não convida a saídas nocturnas, e que melhor maneira de passar um serão doméstico do que ler a crítica do blog "Reverse Shot" ao último filme de Rivette? Angustiam-me um pouco os tons de epitáfio que Damon Smith detectou em "36 Vues du Pic Saint-Loup". Espero que Rivette o desminta, realizando ainda muitos e excelentes filmes.
O QUE FAZ FALTA É ENLAÇAR A MALTA: Fiz um pouco de manutenção na lista dos enlaces. Aproveitei para acrescentar o Jugular, o Ladrões de Bicicletas, o Que Treta! e O Vermelho e o Negro, que já lá deviam estar há muito tempo. Tempus Fugit, como dizia o outro.

segunda-feira, outubro 05, 2009

NOTAS DE LEITURA SOBRE "LES PLAISIRS ET LES JOURS": Proust não tinha em elevada conta a arte da conversação, entendida como pretendente a género literário. Criticou Sainte-Beuve a este respeito, e chegou a pronunciar-se desfavoravelmente sobre Stendhal por este encarar a literatura como uma distracção, e por ter escrito "La Chartreuse de Parme" «faute de maisons où l'on cause agréablement et où l'on serve du zambajon». (Isto como nota de rodapé ao discurso de uma das personagens de "Mondanité et mélomanie de Bouvard et Pécuchet", pastiche de Flaubert onde Mallarmé é depreciado por não ter talento, apesar de ser um "brillant causeur".)
NOTAS BREVES SOBRE O 5 DE OUTUBRO:
  1. A República entra hoje no seu centésimo ano. (Deixemos, por agora, de lado o debate sobre se o Estado Novo merece a designação de "República".) Os 365 dias que se seguem devem ser de celebração, comemoração, informação e debate. Com sobriedade. Deixe-se o monopólio da pompa e da desmesura àquelas instituições mais comprometidas com a irracionalidade e com a suspensão do bom-senso (por exemplo, a monarquia, Fátima, o PC chinês).
  2. Frequentemente, escutam-se vozes preocupadas com a reduzida adesão popular ao feriado do 5 de Outubro. Não me conto entre os que vêem aqui motivo de ansiedade e de estados de alma. Se o 5 de Outubro não se comemora com fervor nem afã, isso deve-se acima de tudo ao facto de a República estar hoje solidamente instituída, a tal ponto que comemorá-la pode parecer uma redundância. (A ausência de multidões eufóricas nas ruas, no 1º de Dezembro, é razão para descrer do apego que os portugueses dedicam à independência do seu país?)
  3. Estes 365 dias não deixarão de trazer a dose fatal de provocações, acrobacias retóricas, e tentativas de fazer crer que existe hoje uma questão de regime em Portugal. Os jornais e televisões agradecem. Deixem a rapaziada da Causa Real, e demais facções (consta que não são poucas), entregar-se aos seus ruidosos e garridos rituais de iniciação, desde que não estraguem muita coisa, e de preferência antes das 2 da manhã, por causa do sono alheio.
  4. Viva a República!

sexta-feira, outubro 02, 2009

BOLO-REI: Que sorte. Pelo que me toca, ainda não me consegui habituar aos disparates deste blog. Quanto ao bolo-rei da "Suprema", eu falei em fama, e não em mérito, coisas que nem sempre andam de mão dada. Mais depressa revelaria o PIN do meu cartão multibanco do que as minhas preferências no campo da doçaria natalícia. Este assunto reveste-se de enorme importância, e aliás tenciono fazer uma comunicação ao país a este propósito, amanhã, às 20 horas e 50 segundos.
MORTES LITERÁRIAS: Uma comentadora da obra de Proust, Anne Henry, assinalou as numerosas semelhanças (que raiam o plágio) entre a morte de Baldassare Silvande, personagem de um conto de "Les Plaisirs et les Jours", e a do Ivan Ilyich de Tolstoi. «Chevaux de chasse et dettes de jeu, alliances princières, revolvers et policiers rossés arrivent tout droit de Moscou pour peupler le délire de Baldassare.»
ESSA MALTA: Pacheco Pereira denuncia, no seu blog, a «grosseria que se torna cada vez mais habitual no vale tudo em que estamos mergulhados». Não podia estar mais de acordo. O exemplo supremo desta grosseria, que PP terá sem dúvida omitido por o achar demasiado óbvio, são as crónicas de Vasco Graça Moura no "Diário de Notícias", que redefine semanalmente as fronteiras da vulgaridade e do bom senso. No seu mais recente esforço, VGM não regateia invectivas contra os mais de 2 milhões de portugueses que votaram no PS: de amorfos a impudentes, passando por invertebrados, tudo cabe no cabaz do tradutor de Petrarca. Momentos inspirados como «eles acabam de mostrar que preferem chafurdar na porcaria a encontrar soluções verdadeiras», ou «O que essa malta quer é o rendimento mínimo, o subsídio por tudo e por nada, a lei do menor esforço» (dê-se ao trabalho de ler a crónica, caro leitor, há muito mais) deverão, se houver justiça, entrar em antologias do uso vergonhoso da língua portuguesa. No meio da torrente, merece especial destaque este mimo: «Não se diga que tomo assim uma atitude de mau perdedor, ou que há falta de fair play da minha parte.» Inquietação inútil: nenhum leitor consciente tomará isto como mau perder. Estamos a falar de outra dimensão. A crónica de VGM está para o mau perder como as invasões dos hunos estão para um calduço na nuca. Um dos maiores mistérios que o nosso dulcíssimo Portugal guarda no seu seio é este: como é que um homem da estirpe intelectual de Vasco Graça Moura permite a si mesmo entregar-se a estes exercícios de má fé e pesporrência? É certo que a erudição não é totalmente incompatível com a boçalidade, mas um caso tão extremo dá que pensar. Quem sabe, porém, se os vindouros, desenquadrados do medíocre contexto histórico em que estamos imersos, não verão nestas tiradas valiosas instâncias de escárnio e maldizer pós-modernos, que contribuirão para a reputação póstuma deste autor. Desiludido com os seus coetâneos, resta a VGM apostar na posteridade.

terça-feira, setembro 29, 2009

E TAMBÉM É O SÍMBOLO DE FACTORIAL!!!: A nova epígrafe do 1bsk espelha, espero que com clareza, a minha posição face à recente polémica sobre as virtudes e vícios no uso do ponto de exclamação. Para breve, neste espaço, pode o leitor contar com uma micro-antologia do ponto de exclamação na literatura universal, incluindo Gerard Manley Hopkins, Emily Brontë, Rimbaud e muitos outros. Nada melhor do que deixar os génios falar.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, uma senhora lia "Boneca de Luxo", de Truman Capote. De pé.

sábado, setembro 19, 2009

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:
SAI UMA MEIA DE LEITE E UMA TORRADA PARA A MINHA FONTE: No (deveras inquietante) caso das alegadas escutas à Presidência da República, uma das perguntas para a qual a nação sequiosa exige resposta é esta: qual foi o café da Avenida de Roma no qual o assessor do PR e o jornalista do "Público" se encontraram? A Avenida de Roma é grande, mas as hipóteses sérias não são tão numerosas quanto isso. Penso que se pode excluir o "Vá-Vá", demasiado vasto, exposto e conhecido para conspirações que não sejam de natureza cinéfila. O "Luanda", situado em posição diametralmente oposta, do outro lado do cruzamento com a Avenida dos E.U.A., parece-me ligeiramente mais favorável, devido à disposição da esplanada (sobre o comprido, propiciando alguns locais discretos). A "Suprema", cujo bolo-rei é muito justamente afamado, afigura-se-me demasiado acanhada, pouco adequada a uma figura pública que pretende passar despercebida. A "Sílvia" possui um espaço coberto que se presta menos mal a tête-à-têtes sigilosos - os cinéfilos recordam-se, decerto, da conversa pungente entre o sr. João de Deus e a empregadita da geladaria, em "A Comédia de Deus". Deixo as considerações sobre outros espaços, como o "Sul-América", para quem frequente mais amiúde o troço setentrional da avenida.
CINEMA: Gostei muito de "The Limits of Control", de Jim Jarmusch, mas não pelas razões que antecipava. Esperava uma declinação jarmuschiana dos temas do filme negro, e vi-me perante um filme que leva a abstracção formal a um patamar pouco frequentado, que transcende géneros e qualquer tentativa de glosa destes, tudo isto sem nunca deixar de se projectar prioritariamente na dimensão pictórica e física. É uma obra deliberadamente vazia de conteúdo (pelo menos no sentido estrito - digamos cognitivo ou narrativo - do termo), mas que se deixa invadir e vibrar por todas as expectativas e memórias do cinéfilo. Está longe de ser um filme arbitrário: todas as personagens, encontros, diálogos, aludem uns aos outros, servem-se mutuamente de eco, formando uma rede de significados cuja decifração é menos importante do que o simples facto da sua existência auto-referente. É, em última análise, um filme completamente legível e isento de fundos falsos. Não existem enigmas em "The Limits of Control", excepção feita ao enigma que é o próprio filme, não mais intrigante do que a própria vida (a vida que o filme, aliás, se abstém elegantemente de imitar) - um enigma que se evacua a si próprio no momento em que Isaach de Bankolé desaparece do campo de visão pela última vez. A solução do problema da vida manifesta-se pelo desaparecimento do problema (Wittgenstein). Entre (tantas) outras coisas, "The Limits of Control" é um festim para o fetichista cinéfilo. Desde que o vi, são inumeráveis as ocasiões em que tive de reprimir o desejo de pedir "two espressos in separate cups".

terça-feira, setembro 08, 2009

ENQUANTO ISSO...: O novo filme de Jacques Rivette, "36 Vues du Pic Saint-Loup", está na selecção oficial do Festival de Veneza. E estreará em França amanhã. Fiquei estupefacto com a duração deste filme: com apenas 84 minutos, é a longa-metragem mais breve da extensa carreira de Rivette. Esperemos que não venha a sofrer o mesmo triste destino de "Ne Touchez Pas la Hache": directamente para DVD sem passar pelas salas portuguesas, sem passar pela casa partida e sem receber 2000 escudos.

sexta-feira, agosto 14, 2009

O LADO NEGRO DA FORÇA: O país, boquiaberto, ficou a saber que no blog 31 da Armada coexistem várias alas, entre as quais uma ala monárquica. E o que decidiram fazer os elementos desta ala, para sair do deprimente anonimato em que viviam? O que empreenderam para promover as suas ideias? Fundaram um partido ou um movimento? Distribuiram panfletos no metropolitano? Convocaram uma flash mob? Nada disso. O ar da sua graça assumiu a forma da substituição da bandeira hasteada na Câmara Municipal de Lisboa por uma bandeira da monarquia. Com esta garotice, ainda para mais perpetrada com uma máscara de Darth Vader(para desencorajar aqueles que ainda alimentassem a veleidade de os levar a sério), os irrequietos monárquicos trivializaram a sua causa e forneceram uma prova adicional de que hoje em dia, em Portugal, não existe uma questão de regime. Estando a defesa da monarquia entregue a folgazões inofensivos com vocação para homem-mosca, a um partido sem expressão (PPM) e a espécimes como os manos Câmara Pereira, a República pode dormir descansada. Claro está que alguma da nossa imprensa, ávida de irrelevâncias, não se ensaiou nada para ver neste pseudo-evento um trampolim para o relançamento do debate sobre a monarquia. Espanta ainda menos que o cidadão Bragança tenha sucumbido à tentação de apanhar a boleia desta frágil barcaça. Ainda falta muito para acabar a silly season?
SPEAKING IN TONGUES: José Mourinho já fala melhor italiano do que alguma vez falou inglês. Dá gosto ouvi-lo alardear o seu mau perder e a sua má fé com uma fluência que ele nunca demonstrou nos seus anos do Chelsea. O emprego da palavra "consapevole" impressionou-me particularmente.

MORANGOS COM AÇÚCAR - CELEBRAR A FESTA DA VIDA É SER RADICAL:

  • O Lucas é o vilão menos convincente da história dos "Morangos". Volta, Guga, estás perdoado.
  • O Vicente aplicou um gancho de direita ao Gonçalo, indignado por este nutrir sentimentos ternos pela sua (do Vicente) mãe, interpretada pela Sylvie Rocha. Sucede que o Gonçalo ficou com um lanho no sobrolho direito, o que me parece carecer cruelmente de verosimilhança.
  • Todas as personagens que estão a curtir as férias em Portimão mudam de roupa todos os dias, e raras vezes repetem uma peça de vestuário. Como é isto possível?.

segunda-feira, julho 27, 2009

CINEMA: No filme "Roma", de Fellini, também não há palavra "fim". Há uma longa e inquietante sequência final que mostra um enxame de motorizadas a percorrer as artérias romanas, e depois o filme acaba. A última bobina chega ao fim e o ecrã deixa de estar iluminado. As pessoas vão-se embora. E é tudo.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem lia "The Picture of Dorian Gray", de Oscar Wilde, numa carruagem que fazia serviço na linha verde do metropolitano. Em Lisboa.
AH, E A SANDUÍCHE DE SUSHI FOI UMA CRUEL DECEPÇÃO: Serei eu o único a pensar que Joanna Newsom não é uma escolha feliz para fundo musical do programa "Entre Pratos", de Henrique Sá Pessoa?
LIDO NO "DESTAK" DE HOJE: A Igreja de S. Sebastião (Almada), que não funciona como espaço de culto desde o século XVIII, reabriu este fim de semana. Segundo o bispo de Setúbal, a igreja é «um desafio para a construção da cidade, de Setúbal e do mundo». Os próximos tempos dirão se o mundo está preparado para o desafio da igreja de São Sebastião.

quinta-feira, julho 23, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma jovem lia "Os Jogos e os Homens", de Roger Caillois, na linha amarela do metropolitano. Também na linha amarela, mas noutra carruagem, uma jovem lia "As Velas Ardem até ao Fim", de Sándor Márai.

terça-feira, julho 14, 2009

LIBERDADE IGUALDADE FRATERNIDADE: Um símbolo vale aquilo que vale. Um símbolo tem o potencial de aniquilar e trivializar a realidade que simboliza. Reduzir a Revolução Francesa à tomada da Bastilha implica ignorar a teia de episódios, pessoas e movimentações que, durante anos, nesse virar do século XVIII para o XIX, forjaram a natureza das sociedades modernas, e fizeram emergir valores nos quais ainda hoje nos reconhecemos. Que fazer, então de um símbolo? Que fazer do 14 de Julho? Celebrá-lo, digo eu, não como convite à simplificação da história, mas como penhor de tudo o que de complexo, rico, exaltante e fecundo se viveu durante esse período.

Le 14 Juillet au Havre (Albert Marquet)

PLANO: Este blog já tem um plano de contingência para a gripe A.

domingo, julho 12, 2009

IMPRESSÕES DE SAN FRANCISCO (1) - THIS PLACE HAS BROUGHT "DOING YOUR LAUNDRY" TO A WHOLE NEW LEVEL: Existe um bairro em San Francisco, chamado Russian Hill, onde existe (literalmente) uma lavandaria em cada esquina. Uma delas dá pelo delicioso nome de "The Missing Sock". Os comentários dos utentes dão vontade de ir viver para San Francisco, só para poder usufruir regularmente de uma tão rica experiência de lavagem de roupa.

quinta-feira, julho 09, 2009

RELIGIONS AND SCHOOL DON'T MIX: Quem diria que o ex-ABBA Björn Ulvaeus era um tão convicto opositor da promiscuidade entre escola e religião, a ponto de assinar um artigo no "The Guardian" sobre o assunto? Uma agradável surpresa. Os argumentos são sólidos e bem conduzidos, e é difícil encontrar um com que eu não concorde. Só à conta desta revelação, dá vontade de escutar alguns êxitos dos ABBA. Já agora, aqui fica uma muito short-list dos meus temas favoritos deste grupo sueco de sucesso internacional: "Does Your Mother Know", "Dancing Queen", "Fernando", "Take Your Chance On Me", "Voulez Vous", "S.O.S.". Não deixa de ser encorajador constatar que a grande maioria dos comentários a este artigo vão no sentido da aprovação. (Via "Esquerda Republicana".)
MORANGOS COM AÇÚCAR: A Beatriz, após vários episódios de cruéis hesitações, lá decidiu submeter-se à operação plástica. A cicatriz que lhe desfigurava o pescoço desapareceu por completo. Isto não deve constituir surpresa, uma vez que a cicatriz nunca existiu, tal como oportunamente denunciei neste espaço. Não se pode eliminar uma coisa que carece da virtude de existir. A TVI empurra a suspensão da incredulidade até limites indecorosos.

domingo, junho 28, 2009

É ASSIM MESMO: «O filme não apresenta a legenda "fim". Não se trata de corte. É assim mesmo a sua conclusão.» (aviso ao espectador na folha da cinemateca do filme "O Último Tango em Paris")

quarta-feira, junho 17, 2009

Il ne sait pas si c'est le monde qui est en train de devenir rêve ou le rêve, monde. (JLGodard)

(Henri Matisse, "A Cortina Amarela", 1914-15)

terça-feira, junho 16, 2009

MORANGOS COM AÇÚCAR: Nesta série da TVI, tão do agrado do público mais jovem, muito pranto e ranger de dentes se tem feito ouvir, por causa de um acidente da responsabilidade do António, alcoólico em vias de recuperação. A Beatriz, que ia com o António, sofreu ferimentos que deixaram sequelas, sob a forma de uma alegada cicatriz no pescoço. Digo "alegada" porque, não obstante todos os meus esforços nesse sentido, nunca consegui ver a cicatriz. A cicatriz deveria ser desfigurante, a ponto de justificar todas as recriminações que o António dirige a si mesmo, mas não se vê. Chego ao ponto de ver abaladas as minhas certezas quanto à existência da cicatriz, sendo obrigado a refugiar-me na fé. Chego ao ponto de comparar o estatuto ontológico da cicatriz com o da bola de ténis da sequência final de "Blow Up", de Michelangelo Antonioni.
AND NO MORE TURN ASIDE AND BROOD/UPON LOVE'S BITTER MYSTERY: O Bloomsday original foi há 105 anos. Hoje foi dia de andar com uma batata num dos bolsos, e com uma carta pseudónima noutro bolso, e de caminhar pela praia de olhos fechados, e de comer rim de porco ao pequeno-almoço e pão com queijo ao almoço e de beber cacau à ceia. E de olhar com secreto despeito para todos aqueles que, na convicção de ser este um dia igual aos outros, não se entregaram a estes rituais.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Nos degraus de entrada da Faculdade de Belas-Artes, uma jovem lia um volume de poemas de Robert Burns, no original, assim respondendo categoricamente, e na afirmativa, à pergunta que brota de todos os lábios: será que ainda alguém lê Burns nos dias de hoje?

domingo, junho 14, 2009

RECORDAÇÕES DE PARIS (7): A música tocada ao vivo nos transportes públicos era, regra geral, de fraca qualidade, repetitiva e interpretada sem paixão. Foram poucas as ocasiões em que dela retirei genuíno prazer. Uma dessas vezes ocorreu num dos muitos trajectos Paris-Orsay que efectuei. Um guitarrista solitário tocou e cantou "Don Juan", que é desde então uma das minhas canções preferidas de Brassens. Gloire à qui freine à mort, de peur d'ecrabouiller Le hérisson perdu, le crapaud fourvoyé Et gloire à don Juan, d'avoir un jour souri A celle à qui les autres n'attachaient aucun prix Cette fille est trop vilaine, il me la faut
RECORDAÇÕES DE PARIS (6): Dos 15 dias que passei na residência de estudantes dinamarqueses, na Cité Universitaire, recordo sobretudo duas coisas: a vaga de calor que Paris atravessava, por essa altura, e os dois únicos CDs que tinha comigo ("Impromptus", de Schubert, por Radu Lupu, e uma antologia de France Gall). Havia também umas uvas deliciosas, precioso auxiliar na luta contra o calor e a sede.

quinta-feira, junho 11, 2009

WHAT'S NOT TO LIKE ABOUT THESE GUYS?:
Não era precisa (mas lá que ajuda ajuda) a expressão destas afinidades electivas, com destaque para a número 3, para eu gostar dos Nature Theater of Oklahoma. Bastava ter visto "Romeo and Juliet" a produção que trouxeram recentemente ao Teatro Maria Matos. "Romeo and Juliet" baseia-se em conversas em que era pedido aos interlocutores que contassem, de memória, o enredo da peça de Shakespeare. Num autêntico golpe de génio, os actores (magníficos Anne Gridley e Robert M. Johanson) dão voz a essas conversas, às hesitações, tropeços e fantasias típicas de quem se tenta recordar de uma história (aprendida outrora, na juventude, no liceu...) com a ênfase e a dicção de actores Shakespeareanos, um tudo-nada cabotinos. O efeito de distanciamento é desconcertante. Em vez do amor entre Romeu e Julieta, em vez da Verona dos Capuletos e dos Montecchios, o que é trazido à cena é a tragédia processada pela falível memória humana, pela invenção, pelo esforço inglório de reconstrução de um enredo de que apenas restam algumas balizas, uma ou outra personagem, um punhado de citações, alguma cena mais forte (a varanda, sempre a varanda). A aposta é claramente ganha: recordo-me de poucas peças em que um efeito cómico imediato (muito se riu na plateia completamente cheia, nessa noite) seja conjugado de forma tão feliz com a inteligência formal.

(Sentir-me-ia mal com a minha consciência caso não deixasse uma palavra de apreço para a terceira personagem da peça: um ponto vestido de ave que parecia saída da Rua Sésamo. A sua dança silenciosa arrancou algumas das mais sonoras gargalhadas da noite.)

terça-feira, maio 26, 2009

«ESSES PRINCÍPIOS SÃO AQUELES A QUE A SOCIEDADE ATÉ HÁ POUCO CHAMAVA "PORCALHÕES"»: Depois desta primeira investida, não percam "João César das Neves contra os pedagogos do coito e do deboche", em versão redux. Quando João César das Neves finalmente se imolar em público, em jeito de protesto final contra este século libertino, as segundas-feiras perderão o seu único motivo de encanto.
YLANG YLANG: Naquilo que julgo ser uma jogada de marketing inédita, o detergente Surf monopolizou os espaços publicitários de todo o metropolitano de Lisboa (ou pelo menos da linha verde, que é a que eu mais frequento). A concorrência que se cuide. Este golpe de publicidade é obviamente eficaz, pois eu próprio sinto agora vontade de comprar detergente Surf ("pequeno & poderoso"), hesitando apenas entre os aromas Ylang Ylang com Flores Tropicais e Limão com Flores do Campo. Ariel, Skip, Omo e demais perderam a sua aura, e aparecem-me completamente ultrapassados.
TRÁGICA COINCIDÊNCIA: No espaço de poucas semanas, desapareceram o maior divulgador de cinema de animação em Portugal das últimas décadas (Vasco Granja) e o maior divulgador de cinema tout court (João Bénard da Costa). Esperemos que a hecatombe se fique por aqui. Não juntei a minha ao coro de vozes que prestaram homenagem a Vasco Granja, mas devia tê-lo feito. A minha infância (como a de 99,99 % dos meus coevos) ficou marcada pelas emissões que ele protagonizava, como discreto e amigável mestre de cerimónias, ao mesmo tempo cúmplice e didáctico. A cinefilia de Vasco Granja não se confinava aos bonecos animados. Possuo (e li com gosto) um livro de sua autoria, sobre o realizador Dziga Vertov. (Vertov foi responsável por um dos mais maravilhosos títulos da história do cinema: "Lenin habita no coração do campesinato".)

domingo, maio 24, 2009

JOÃO BÉNARD DA COSTA (1935-2009): Num divulgador, num homem vocacionado para formar gostos e hábitos culturais, o carisma e uma certa dimensão maior do que a vida são virtudes de peso. João Bénard da Costa possuía estas duas características e sabia fazer uso delas. Felizmente para todos nós, ao impacto único da sua presença (voz, silhueta, postura) vinham juntar-se a visão, a tenacidade que fez da Cinemateca aquilo que hoje ela é e o talento de falar sobre filmes com uma mistura única de paixão e erudição.
Concordei com algumas das críticas que iam sendo feitas ao seu modo de dirigir a instituição a que presidia, achei escusadas e pouco abonatórias algumas das atitudes que assumiu em polémicas recentes, em particular a que rodeou a sua recondução mau grado o limite de idade. Nada disso importa agora. A obra que deixou não é comensurável com eventuais deslizes, excessos ou despropósitos. Aquilo com que não posso concordar é que, na hora do desaparecimento de um homem com a estatura de João Bénard da Costa, alguns (decerto com as melhores intenções do mundo) julguem que a melhor maneira de lhe prestar homenagem é através de enormidades como "Morreu o cinema" , "O cinema português deve-lhe tudo" e outras do mesmo jaez. A partir de uma dada fasquia de absurdo, a hipérbole, em vez de engrandecer, ofusca o verdadeiro valor do homenageado.
Restam os filmes. Resta vê-los e revê-los, sempre.
"A Lenda da Fortaleza de Suram", de Sergei Paradzhanov, um dos primeiros filmes que vi na Cinemateca.

quarta-feira, maio 20, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um dia em cheio na estação de metro de Telheiras. Uma dama lia "Life on the Mississippi", de Mark Twain. Um cavalheiro lia "La Vieille Dame de Bayeux", de Georges Simenon, integrado numa antologia "Tout Maigret". Telheiras: menospreze-a se quiser, mas faça-o por sua conta e risco!
RECORDAÇÕES DE PARIS (5): Os avisos, afixados nos cinemas, que diziam "Les ouvreuses ne sont rémunérées qu'au pourboire". A reacção, discreta mas ácida, da empregada (dona?) do cinema Reflet Médicis, perto de Saint-Michel, quando não lhe dei gorjeta à entrada (nunca dava).
GOSTAM DE CHAMAR: «a expressão daquilo a que os cavalheiros da classe média que sofrem de enterite gostam de chamar audácia» (Guillaume Apollinaire, a propósito da pintura de Kees van Dongen, citado em "Fauvism", de Sarah Whitfield, Thames & Hudson)

Chemise (1905), Kees van Dongen

domingo, maio 17, 2009

RECORDAÇÕES DE PARIS (4): Os funcionários de serviço ao bengaleiro da gigantesca livraria Gibert Joseph, no Boulevard Saint-Michel, tão sisudos e antipáticos que, com o tempo, abandonei o esforço de lhes dizer "bonjour".
RECORDAÇÕES DE PARIS (3): Entrar no cemitério Montparnasse para fazer horas, antes de uma sessão de cinema. Passar pelas sepulturas de Samuel Beckett, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir.
RECORDAÇÕES DE PARIS (2): Comprar uma televisão com vídeo incorporado, num centro comercial da Place d'Italie. Transportá-la para casa, subestimando idiotamente o esforço necessário para tal, no dia de abertura do Mundial de futebol 1998. Chegar a casa com os braços tão doridos que mal fui capaz de compor o código de acesso ao edifício, mas a tempo de assistir à segunda parte do Brasil-Escócia (vitória do Brasil por 2 a 1).
RECORDAÇÕES DE PARIS (1): Vaguear pelas ruas do sorumbático 16ème arrondissement, num dia de inverno muito frio. Sentir as maçãs do rosto a ficar sem circulação. Entrar num cinema, um pouco ao acaso, para ver "The Spanish Prisoner", de David Mamet.
RECORDAÇÕES DE PARIS (0): Vou hoje iniciar uma nova série de posts, chamada "Recordações de Paris", cujo título me parece dispensar explicações. Já a seguir.
CORRENTES, O ELO MAIS FRACO 'R' US: No que toca a correntes blogosféricas, manda a tradição que eu agradeça a quem se lembrou de mim, que aceite o desafio reservando-me o direito de o subverter a meu gosto, e que não as passe a ninguém.
Não sou grande fã de séries, fundamentalmente porque são raríssimas as que acrescentam alguma coisa de verdadeiramente relevante à existência, sobretudo se comparadas com o cinema (mostrem-me séries de valor comparável a "La Dolce Vita", "Andrei Rubliov" ou "Francisca" e logo falaremos); e, se o objectivo é o entretenimento, existem alternativas que encontram mais graça aos meus olhos.
Limito-me a mencionar duas obras-primas de Dennis Potter: "The Singing Detective" e "Lipstick On Your Collar" (na imagem). Tudo o resto, desde então, soa-me a anticlímax.

terça-feira, maio 12, 2009

IMAGENS E PALAVRAS: A esta (muito completa) lista tenho a acrescentar outro filme de Desplechin, "La Vie des Morts". Nele é lido parte do poema "Le Voyage" (Baudelaire), por vários actores que se revezam, em particular Laurence Côte e Emmanuel Salinger. É uma das mais belas cenas de um filme onde elas são legião.

segunda-feira, maio 04, 2009

GUARDA-SOL AMARELO uma criação colectiva com encenação de Gonçalo Amorim e dramaturgia de Ana Bigotte Vieira
O grupo de teatro da Associação de Residentes de Telheiras Teatroàparte apresenta uma Nova Peça em Maio de 2009. No Auditório da Biblioteca Orlando Ribeiro em Telheiras. Actuações a 15 Maio 22h 16 Maio 22h 22 Maio 22h (inserido na Mostra de Teatro do Lumiar) 23 Maio 16h e 22h 29 Maio 22h 30 Maio 22h Reservas e Informações 96 55 77 545 teatroaparte@sapo.pt -------------------------------------------------------------------------------- Há um guarda-sol amarelo na mitologia da Associação de Residentes de Telheiras, entretanto, tornado seu símbolo gráfico. Mas o mito do guarda-sol amarelo, difundido na pequena brochura, é também uma realidade materializada. Sempre que alguma coisa está para acontecer, há uma campanha em curso, ou se torna urgente gerar mobilização, os chapéus abrem-se nas esquinas de maior movimento. [Ana Contumélias] -------------------------------------------------------------------------------- Guarda-Sol Amarelo é uma meditação sobre a cidade feita por 30 cabeças, 60 mãos, algumas miniaturas, umas maquetas. É sobre estarmos aqui. E é uma espécie de construção em andares da nossa história recente (os 35 anos desta democracia) feita em cima dos mapas emotivos das ruas por onde andamos. -------------------------------------------------------------------------------- O grupo teatroàparte (com o nome Pó de Palco até 2003) foi fundado em Novembro de 1997, no âmbito das actividades lúdicas e culturais da Associação de Residentes de Telheiras (ART), mas rapidamente a sua gestão se tornou autónoma. Actualmente é constituído por cerca de 24 elementos activos. O grupo foi orientado por Susana Graça Oliveira (1997/1998), Fernando Ascenção (1998/1999), Rui Catarino (1999/2000), Pedro Carmo (2000-2004) e Jorge Parente (2005-2007). Desde Fevereiro de 2008, tem vindo a ser orientado por Gonçalo Amorim. O teatroàparte está registado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial. http://teatroaparte.no.sapo.pt/

quinta-feira, abril 30, 2009

ESPREGUIÇAR-SE E ANDAR: Acho fascinante a graciosidade com que os gatos se espreguiçam em andamento, como quem procura poupar tempo conjugando dois gestos independentes. E se há coisa que não falte aos gatos é tempo livre.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um cavalheiro lia um livro de William Makepeace Thackeray, em versão original, no bar do cinema City Classic Alvalade. Pareceu-me tratar-se de "The Four Georges", recolha de conferências sobre os quatro primeiros reis da dinastia de Hanover. Vinte pontos de bónus. Na linha verde do metropolitano, uma senhora lia "Mau Tempo no Canal", de Vitorino Nemésio.

domingo, abril 26, 2009

MY OWN PRIVATE TWITTER: O que estás a fazer? Produção de adenosina trifosfato.
GRANDE PLANO: No romance de Abel Neves, "Corações Piegas", lê-se a páginas tantas: Faltava-me ali o puto e o Matias na janela a ler o bilhetinho. Plano aberto e depois insert do grande plano do rosto sofrido mas esperançado, à Carl Dreyer no seu Dies Irae. No entanto, na folha da Cinemateca dedicada a este filme, Manuel Cintra Ferreira afirma: Dreyer também se distancia de uma característica que fizera a fama de LA PASSION DE JEANNE D'ARC: a utilização do grande plano. A minha memória deste filme é demasiado longínqua e incompleta para me ser de algum auxílio.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha vermelha do metropolitano, um jovem lia "A Metamorfose", de Franz Kafka. Na mesma noite, desta vez na linha verde, foi avistado um jovem com um livro de Whitman, em versão original. Infelizmente, não o estava a ler, entregando-se a outras ocupações. Tratando-se de Whitman, a minha vontade de torcer as regras e contabilizar alguns pontitos de bónus à conta deste avistamento foi muita, mas as regras são as regras, e o resto é caos.
MEIOS E FINS: No documentário sobre Jorge de Sena, que a RTP2 transmitiu ontem, um dos episódios a que se fez alusão tinha a ver com a atribuição de um prémio literário ao romance "A Gata e a Fábula", de Fernanda Botelho, em detrimento da recolha de contos "Andanças do Demónio", de Sena, sob um pretexto com todas as aparências de artificialidade ad hominem. Este episódio era um, de entre muitos, evocado como exemplo da renitência dos conterrâneos de Sena em reconhecerem o seu génio. Não faltava um depoimento de José Saramago, onde este afirmava categoricamente que a escolha de "A Gata e a Fábula", uma «simples história bem contada», representava uma relutância tendenciosa do júri em recompensar o mérito de uma obra muito mais rica e complexa. Nunca li "Andanças do Demónio", mas li "A Gata e a Fábula", e julgo que qualificar este romance de historieta banal é de uma injustiça monumental. A ficção de Fernanda Botelho, de que esta obra não é certamente um dos exemplos menos conseguidos, é de uma subtileza e de uma profundidade que a deviam colocar ao abrigo de apreciações sumárias como esta. Opiniões são opiniões, mas não me parece sensato escamotear a dimensão de obra alheia com o fim de provar uma tese, neste caso a da colossal e permanente injustiça feita a Jorge de Sena.

segunda-feira, abril 20, 2009

CINEMA: Tem graça. Quase sempre, quando surge um esboço de consenso em como um dado filme nada traz de novo à carreira de um realizador, quando este é acusado de se repetir, quando se fala em esgotamento criativo, começo logo a suspeitar de que o filme em questão me irá deveras agradar. Não me costumo enganar. Sucedeu mais uma vez com "La Mujer sin Cabeza", de Lucrecia Martel, como já sucedera com Wong Kar-Wai ("2046"), Greenaway, Rohmer, Kiarostami... "La Mujer sin Cabeza" é um filme magnífico. Gostei ainda mais dele do que de "La Ciénaga" e "La Niña Santa". Poucos realizadores contemporâneos correm de forma tão decidida o risco de filmar o invisível e o indizível. Martel aposta desassombradamente numa via abstractizante, mas servindo-se para isso da dimensão plástica, dos corpos e dos movimentos de câmara. Numa situação narrativa em que o colapso e a desagregação mental são uma ameaça permanente, o cinema e as suas improváveis lógicas aparecem, paradoxalmente, como a única hipótese de manter um símile de coerência. É essa a tensão que atravessa este filme, é essa a tensão que Martel não resolve nem liberta, até ao final. A maneira de filmar de "La Mujer sin Cabeza" pode ser vista como um amadurecimento do estilo que estava já presente nos filmes anteriores. Eu não chamo a isto "repetir-se". Chamo a isto perseverança, busca, fidelidade às ideias.
NÃO DIGAM QUE NÃO AVISEI: Certos admiradores incondicionais do Professor João César das Neves contam sofregamente os dias que os separam da segunda-feira seguinte, mal podendo aguardar pela sua dose semanal de analogias mancas, golpes de rins argumentativos, fogo-de-artíficio de non sequiturs, e no entanto ignoram que o mesmíssimo cronista ocupa uma coluna no "Destak" das quintas-feiras. Trata-se de uma imprudência grave. Com menos espaço do que o que lhe é concedido no "Diário de Notícias", JCN tem menos oportunidade para se espraiar nos seus fleumáticos rodopios retóricos, pelo que a indigência da sua prosa e do seu raciocínio vêm ao de cima com a naturalidade das coisas simples. Algumas destas crónicas não ultrapassam o nível de um banal desabafo; outras permitem-nos vaguear pelos tenebrosos compartimentos de uma mundividência desfasada de vários séculos deste mundo em que vivemos. No passado dia 19 de Março, a intervenção nevesiana foi subordinada ao tema da educação sexual nas escolas. Vale a pena ler o texto na íntegra: «O Parlamento discute o programa de educação sexual das escolas. O Ministério da Educação quer mostrar órgãos sexuais às crianças e explicar-lhes os detalhes de carícias, coito e métodos contraceptivos. Acha que a masturbação é natural, se deve promover o impulso sexual juvenil praticado com segurança e que todos os géneros e famílias são equivalentes. Até pode achar que a educação sexual é só informativa, não formativa. São opiniões legítimas e respeitáveis. Mas é bom lembrar dois pormenores. Primeiro, não são afirmações científicas e terapêuticas. São posições ideológicas, contingentes e discutíveis acerca do comportamento. Quem defende o oposto tem igual legitimidade e merece a mesma respeitabilidade O Ministério não pode impor ao País uma sua opinião como verdade comprovada e definitiva, para mais neste assunto. Segundo, as posições do Ministério não são maioritárias na sociedade portuguesa. Apesar do maciço bombardeamento cultural de televisões, revistas e discursos, Portugal acha que o pudor é uma atitude natural e civilizada, que o sexo deve ser praticado dentro de relação estável e duradoura, que o deboche e a pornografia são más. Em todo o mundo as juras de amor continuam a ser eternas. O espantoso é o Ministério não notar que neste tema está a ser tão tacanho e faccioso como era nos anos 1940. A orientação é oposta, mas a atitude é a mesma do livro único salazarista. Há aqui talvez um traço de carácter nacional. Não esqueçamos que os «Grandes Portugueses», eleitos por sufrágio televisivo em 2007, foram Salazar e Cunhal.» (O texto está também disponível aqui.) Quanto à forma, não há muito a dizer. JCN não foge ao seu método preferido, que consiste em caricaturar as posições dos adversários para mais comodamente argumentar contra elas. (E para quê abster-se de o fazer, se esse modus operandi lhe tem garantido influência e credibilidade, para além um nicho cativo num dos diários de referência do país?) No que ao conteúdo respeita, deixo ao critério do leitor a escolha do naco mais suculento:
  • a imagem de funcionários de ministério arquitectando estratégias para converter alunos das escolas 2+3 em debochados?
  • a alacridade com que o autor, depois de acusar o ministério de estar a impor ao país a sua ideologia, vem falar em nome de Portugal inteiro ("o pudor é uma atitude natural e civilizada")?
  • a singeleza com que proclama que "em todo o mundo as juras de amor continuam a ser eternas", enganando-se não só no século, como no planeta?
  • o gambito final, em que logra associar o puritano Salazar e o ascético Cunhal a uma diatribe contra a lascívia ensinada a petizes?

Perante isto, parece-me ocioso recomendar que não percam o "Destak" das quintas-feiras. Este jornal gratuito é distribuído em estações de metro, aglomerações, estabelecimentos comerciais e semáforos. É certo que as crónicas estão também disponíveis online, mas não é a mesma coisa, não, não é a mesma coisa.

MY OWN PRIVATE TWITTER: O que estás a fazer? Estou aqui ocupado com umas cenas minhas.

quarta-feira, abril 15, 2009

PTARMIGANS: "Ptarmigans". Nunca esta palavra me tinha chamado a atenção, e eis que ontem, no espaço de poucos minutos, a leio em dois sítios diferentes: num poema de Blaise Cendrars ("Lièvres arctiques perdrix de neige ptarmigans") e no almanaque "Schott's Original Miscellany", onde se fica a saber que o nome colectivo que designa um conjunto de "ptarmigans" é "covey". O "Concise Oxford" define assim "ptarmigan": Grouse of northern mountains and the Arctic, whose plumage is white in winter. A palavra deriva do gaélico tàrmachan. O nome científico é Lagopus mutus. É uma bonita palavra, e sinto-me feliz por tê-la aprendido.

terça-feira, abril 07, 2009

AUSÊNCIA: Vou estar sem acesso à Internet durante uns dias, mas nem assim deixarei de twittar, twittarei com alacridade todos os meus movimentos, inspirações, expirações, impressões, dilatações de pupila e pachorrentos meneares de cabeça. Offline twitter is the new black. Boa Páscoa.

domingo, abril 05, 2009

MY OWN PRIVATE TWITTER: O que estás a fazer? Estou a rodar em torno de uma estrela, a uma velocidade aproximada de 30 quilómetros por segundo.
SEM FALHAR: Não parece forçoso que toda a beleza deva ser inspiradora de espanto e trazer consigo um eco funesto. Essas manifestações não fazem parte da essência da beleza, e no entanto acompanham-na infalivelmente.

terça-feira, março 31, 2009

JE DIS BONJOUR À LA BOULANGÈRE, JE TIENS LA PORTE À LA VIEILLE DAME: A tentação de ser uma pessoa decente, fiável, canónica, traz consigo a promessa de um prazer tão intenso que pode parecer afim da perversidade. A decência é um dos maiores desafios para uma pessoa. Uma espécie de condição mínima necessária para a humanidade, que pode, singularmente, acabar por ser também o seu horizonte supremo. Há uma canção de Enzo Enzo que exprime admiravelmente esta tentação da normalidade, e da pequena e média rectidão moral quotidiana, embora se sirva dos tons de amargura que se adequam a uma vida falhada. (Ver a letra da canção aqui.)
LE LIEN SECRET: En outre, le lien secret qui relie le discours dissimulé dans les profondeurs d'un personnage avec le discours étalé à la surface d'un autre constitue un puissant facteur de composition. (Paul Ricœur, nota de rodapé em "Temps et Récit, 2".)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma jovem lia um livro de Orhan Pamuk, "Istambul", na linha verde do metropolitano. Uma jovem lia "Lo Straniero" na linha vermelha. Camus em italiano, quem se atreve a pedir mais?

terça-feira, março 24, 2009

MY OWN PRIVATE TWITTER: O que estás a fazer? Estou a escrever isto.
BOA ONDA: A onda Poe continua a submergir o país. É já amanhã (quarta-feira) o lançamento da obra poética completa, com tradução de Margarida Vale de Gato. Às 18h30. Na Fnac do Chiado. A edição é da Tinta da China.

sexta-feira, março 20, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No cais da estação de metropolitano do Campo Grande, um cavalheiro lia, de pé, o último romance de Maria Velho da Costa, "Myra". Observação mais atenta revelou que o cavalheiro era um dos nomes mais destacados da poesia portuguesa contemporânea.
POE E CRIATIVIDADE GÓTICA: Por minha exclusiva e inalienável culpa, divulgo esta iniciativa tarde e a más horas. Talvez algum leitor mais afoito ainda vá a tempo de abanar o capacete ao som de «Quoth the raven, 'Nevermore'», na "Raven Rave Party".

terça-feira, março 17, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma jovem lia "A Gaivota", de Chekhov. Uma senhora lia "O Livro das Ilusões", de Paul Auster. Tudo isto no metropolitano.
OUTRA VEZ NADA DE NOVO: Segui esta polémica com alguma náusea, nenhuma surpresa. Ao contrário do que sucede com outras artes, são raros os que hesitam em opinar sobre cinema. Para o melhor e para o pior, o cinema transborda da cultura popular para o domínio artístico e vice-versa, e talvez seja este esbater de fronteiras que dá coragem a cada espectador para emitir sentenças com alacridade. Isso seria excelente, e muito democrático, se esse à-vontade não fosse acompanhado, tantas vezes, pelo impulso de zurzir na crítica especializada, acusados de elitismo e de irem sistematicamente contra o gosto do público (ou das "massas", para usar a terminologia deste inenarrável post). Essa acusação não é apenas injusta e descabida: quem a faz ignora olimpicamente a evolução das grandes tendências críticas do cinema contemporâneo (de que todos os críticos, ou pelo menos os que vale a pena ler, são devedores, em maior ou menor grau). Ignora que, longe de se fechar numa torre de marfim, a crítica de cinema tem-se desenvolvido muito ao sabor da apreciação e (re)avaliação das grandes tendências do cinema popular e de entretenimento (série B americana, westerns, polars, musicais, cinema asiático de artes marciais...). Ignora, acima de tudo, que um crítico é uma pessoa a quem, salvo evidências claras de má-fé, se deve atribuir o benefício da dúvida, e que não retira especial prazer de dizer mal daquilo de que a maioria gosta. Admiro a paciência com que João Lopes continua, ano após ano, polémica após polémica, a tentar argumentar contra a leviandade daqueles que incorrem neste (e noutros) lugares comuns. Receio, porém, que esforços como este sejam baldados. Existe uma tendência (que o crescimento do fenómeno dos blogs só veio agravar) para que certas ideias feitas ganhem aceitação devido ao número de vezes que são repetidas, apesar da falta de correspondência com a realidade. Essas ideias falaciosas tornam-se virtualmente impossíveis de falsificar, uma vez que quaisquer argumentos contra elas serão desacreditados pela simples intensidade da vozearia. Essas ideias ganham popularidade porque é cómodo e isento de risco aderir a elas. Uma dessas ideias é precisamente esta:
  • Os críticos dizem sempre mal dos filmes populares.

Existem muitas outras, como por exemplo (um autêntico campeão de vendas):

  • Os ateus também são crentes, porque crêem na não existência de Deus.

Tudo isto teria reduzida importância se não se desse o caso de estas guerras de alecrim e manjerona ocuparem o espaço e o tempo que poderia ser empregue a discutir questões, essas sim, essenciais. Por exemplo: quais as condições, na imprensa escrita portuguesa actual, para o desenvolvimento de um discurso crítico sério sobre cinema, continuado, não espartilhado pelas contingências do calendário de estreias?

quarta-feira, março 11, 2009

TATUAGENS E NEGRITUDE: Desde que a TVI teve a peregrina ideia de mudar o horário dos "Morangos com Açúcar", tornei-me espectador assíduo do programa "Nós Por Cá", na SIC, claramente preferível ao "Feitiço de Amor". No "Nós Por Cá", dois convidados, que mudam todos os dias, comentam situações vagamente burlescas, como por exemplo o caso de um cidadão a quem foi enviado um cheque das Finanças no valor de um cêntimo. Na emissão de ontem, o duo de comentadores por um dia era daqueles para quem uma cavadela sem minhoca seria um malogro vexante. Um tatuador afirmava, alto e bom som, que, "se mandasse", arranjaria maneira de tirar aos ricos para dar aos pobres. Mas não era bem tirar-tirar, antes fazer uma espécie de acordo, conversar. Lamentavelmente, faltou o tempo para aprofundar esta peculiar teoria da redistribuição. A outra convidada era Helena Sacadura Cabral. A propósito do salário do presidente da República, o seu monólogo derivou para o presidente José Eduardo dos Santos, e deste para Léopold Senghor e para a negritude. Segundo Helena Sacadura Cabral, os negros devem ter tanto orgulho na sua negritude como os brancos na sua brancura. Sendo o orgulho que sinto por ser branco (se é que sou "branco", não sei bem o que é isso) comensurável com o orgulho que sinto por ter polegares oponíveis ou uma vesícula biliar, ou seja, nulo, este ponto de vista escapa-me completamente, mas é sempre refrescante contactar com outras maneiras de ver as coisas. O tatuador também se queixou dos malandros que vão fazer tatuagens a casa, sem qualquer higiene, estragando o negócio aos profissionais cumpridores. Como não concordar?
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na estação de metropolitano do Campo Grande, uma senhora lia contos de Eça de Queiroz, em pé. Numa carruagem que percorria a linha verde, uma jovem lia "Intimacy", de Hanif Kureishi, em versão original.

segunda-feira, março 09, 2009

OS FILMES DE ANGELA SCHANELEC: De 12 a 15 de Março, na Culturgest. Com programação de André Dias. Mais pormenores aqui. A avaliar pelo exemplo do filme "Nachmittag" (uma das mais intensas descobertas de 2008), este será um dos grandes momentos cinéfilos deste ano.
TUIT TUIT: «Para que caralho serve o twitter?», pergunta-se no Paraíso do Gelado. Como o 1bsk se dirige a toda a família, e os seus seguidores se distribuem uniformemente por todas as faixas etárias e todas as gradações de depravação, vou evitar usar a palavra "caralho", e limitar-me a perguntar: Para que serve o twitter, afinal?

domingo, março 08, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem lia a "Ilíada", na estação de metropolitano do Campo Grande. Era bonito de se ver.

quinta-feira, março 05, 2009

UMA PEDRADA NO CHARCO: Foi publicado um conto meu na "Revista 365", conto esse que funcionará como uma autêntica pedrada no charco. Esta revista está à venda nos estabelecimentos de categoria. Compre antes que esgote, leia, divulgue, dobre os cantos para marcar a página, guarde para a posteridade, coma frutas e legumes, faça férias repartidas e separe o lixo doméstico. E não se esqueça de visitar o site da "365", que é um verdadeiro delírio.

quarta-feira, março 04, 2009

TÉDIO: O tédio faz mal a praticamente todos os órgãos do corpo humano, como o demonstram dois em cada três estudos publicados nas mais prestigiadas revistas. Para combater o tédio, tudo é legítimo, até mesmo procurar as calinadas nos catálogos de DVDs da Fnac. Aqui estão algumas, do catálogo "A Magia do Cinema":
  • "Awakenings" foi a rampa de lançamento de Robert De Niro.
  • "Oficial e Cavalheiro" é um filme que agarra realmente as audiências e levanta os espíritos de todos.
  • "Chinatown" é considerado por muitos o melhor roteiro [sic] da história do cinema.
  • Em "La Dolce Vita", Fellini critica a estrutura de classes.
  • Fellini realizou um filme intitulado "Dois Ursos de Prata".
  • Antonioni tirava o máximo partido da composição e da cor. (Esta afirmação não é, por si, disparatada, mas surge num texto descritivo a propósito de uma caixa de 4 filmes que são todos a preto e branco: "La Signora Senza Camelie", "I Vinti", "Le Amiche" e "Il Grido".)
  • F. Scott Fitzgerald (1896-1940) foi um dos escritores americanos mais célebres do século XIX.

Mas não quero ser demasiado severo: foi graças a este mesmo catálogo que fiquei a saber que Boris Kaufman (irmão de Dziga Vertov e autor da fotografia de todos os filmes de Jean Vigo) ganhou um óscar por "On the Waterfront", de Elia Kazan. Honestamente, não fazia ideia.

PEQUENO OBITUÁRIO: É muito improvável que o nome de Keith John Worsley (1951-2009) diga alguma coisa aos leitores deste blog. Worsley, cuja carreira científica se desenrolou quase integralmente na Universidade de McGill, em Montréal, foi um dos nomes mais importantes da fase pioneira (que, no fundo, ainda dura) da imagiologia funcional do cérebro. Estatístico de formação, deu abundantes mostras de abertura de espírito e versatilidade ao orientar-se para aplicações na área das neurociências. Foram de sua co-autoria alguns dos artigos mais relevantes desta área nos anos 90, em que forneceu bases estatísticas rigorosas para o trabalho que estava a ser realizado, por outros grupos, no âmbito do estudo funcional do cérebro por meio de tomografia de emissão de positrões e ressonância magnética funcional. Isto sem menosprezo pelo trabalho que continuou a desenvolver até pouco antes do seu recente falecimento, denotando uma permanente vontade de continuar a desbravar terrenos novos, quer na teoria da análise de imagens funcionais, quer no desenvolvimento de ferramentas informáticas para aplicar os métodos desenvolvidos pelo seu grupo. Numa nota pessoal, recordo com intensidade as horas que passei, durante o meu doutoramento, a anotar e tentar assimilar alguns dos artigos de Worsley. (Refiro-me aos seus artigos para leigos, uma vez que nunca reuni a coragem para tentar sequer aflorar os artigos de estatística pura e dura.) Representou para mim uma enorme satisfação ter sido capaz de aplicar algumas das suas ideias ao meu trabalho. Cruzei-me pessoalmente com Keith Worsley apenas um par de vezes, mas foi quanto bastou para poder confirmar as qualidades de simpatia, humanidade e modéstia que lhe apontavam. Nunca esquecerei o almoço mexicano que ele fez questão de pagar, a mim e a alguns colegas que, um pouco por acaso, convergiram para a sua mesa nesse dia de Junho de 2000, em San Antonio, Texas. A notícia do seu desaparecimento deixou-me muito triste.

terça-feira, março 03, 2009

LEITURAS: Uma das leituras que mais apreciei nos últimos tempos foi a de "L'Emploi du Temps", de Michel Butor. Este romance assume a forma de um diário que o narrador (um jovem francês a estagiar na cidade inglesa imaginária de Bleston) redige, com um atraso de alguns meses relativamente aos acontecimentos que relata. Entre a descoberta de uma cidade que o repele e deprime, alguns amores esparsos e amargos, a relação amistosa que enceta com um dos seus colegas de trabalho e uma intriga de contornos vagamente policiais, decorre a vida do narrador durante o período de um ano, dividido entre a necessidade de recordar e transcrever os eventos do passado próximo e as novas perspectivas e revelações que surgem ao sabor do que acontece no presente, no tempo da escrita do diário. O resultado é um subtil jogo entre diferentes planos temporais, uma tentativa de compelir o passado a fazer sentido, a tempo de iluminar o tempo presente, de trazer elementos que ainda possam mudar algo. Pejado de repetições e de revisitações obsessivas de certos episódios, "L'Emploi du Temps" é uma das mais ricas e engenhosas explorações das clivagens (mas também das alianças fugazes) entre o tempo mental e o tempo cronológico. Graças a este excelente blog, fiquei a saber que "Bleston"... ...esconde Manchester, onde Butor ensinou entre 1951 e 1953, e que W.G. Sebald descreveu em "Os Emigrantes". Diz o autor do blog: «I won’t belabor the many intriguing parallels between the two writer’s views on Manchester, but I encourage fans of Sebald to find a copy of Michel Butor’s Passing Time E eu tenho sincera pena que ele não elabore. Nunca li "Os Emigrantes", e pelo andar da carruagem não terei outro remédio a não ser fazer isso mesmo.

Oh Manchester, so much to answer for... (The Smiths)

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, um cavalheiro lia "Palmeiras Bravas", de William Faulkner. Como não estava de pé nem se tratava da versão original, não dá direito a pontos de bónus.

segunda-feira, março 02, 2009

MEIA DÚZIA: Este blog, umblogsobrekleist, conhecido por 1bsk pelos íntimos, amigos, conhecidos e indiferentes, cumpriu ontem 6 anos de existência. Só hoje me lembrei da efeméride. Celebremos, pois, a nossa sexta órbita solar, e que melhor maneira de celebrar do que escutar a Fiona Apple a cantar "I Want You", de Elvis Costello, acompanhada por um certo Declan MacManus? Raras vezes terei visto uma coisa assim. Isto não se finge. Há alguns dias, cheguei a convencer-me de que tinha chegado ao fim do dia sem ter feito nem visto nada de útil. Foi só no dia seguinte que me recordei de que tinha descoberto Fiona Apple a interpretar "I Want You", ao vivo, no YouTube. E isso é quanto basta para eu classificar como "conseguido" um meu dia que poderia não o ser. Nesta actuação há mais do que intensidade, há mais do que sinceridade, há algo que me parece escapar ao entendimento, talvez a cruel consciência de que a vergonha, a dor e a raiva não se sublimam, e que não há alternativa a vivê-las e exprimi-las durante os sete minutos de uma canção, ou uma parte da vida.

domingo, março 01, 2009

TRIUNFO DA LITERATURA: Na apresentação das canções finalistas do Festival da Canção, era pedido aos intérpretes que, entre outras informações imprescindíveis ("praia ou montanha?", "silêncio ou ruído?"), revelassem à Nação qual era o seu livro preferido. Este exercício dispensável produziu resultados tão previsíveis como deprimentes: muito Nicholas Sparks, Richard Bach, e uma misteriosa obra cujo título era qualquer coisa como "Estás na Terra para Cumprir uma Missão". Piedosamente, algumas das escolhas dos concorrentes nem eram divulgadas. Eis senão quando, na apresentação da banda Flor-de-Lis, são mencionados (e mostrados) os livros "Madame Bovary" e "Morte em Veneza". Flaubert e Mann depois de Nicholas Sparks! Logo ali, passei a ver nos Flor-de-Lis os meus favoritos pessoais. A sua vitória final (frente à execrável Luciana Abreu), foi também uma vitória da verdadeira literatura sobre a água choca que nem para seu sucedâneo serve. O facto de a canção dos Flor-de-Lis ser, de longe, a melhor a concurso também não me passou despercebido.
TUDO ESTÁ NA TUA MÃO: A mente humana é um território capcioso. Durante a transmissão do Festival da Canção, e sem nenhuma conexão aparente com este, lembrei-me que o título que Hitler queria dar originalmente a "Mein Kampf" era qualquer coisa como "Doze Anos de Luta Contra a Estupidez, as Mentiras e a Cobardia". Foi a meio da canção da Nucha.
EM BUSCA DO NEOLOGISMO PERFEITO: Acho a sugestão excelente, sem dúvida merecedora de entrar no uso comum. O Prof. Marcelo Rebelo de Sousa não quererá dar uma mãozinha?
MABECOS: Leitor atento, a quem agradeço de forma sincera, elucidou-me sobre o significado do termo "mabeco". Trata-se de uma espécie de cão selvagem, bem conhecido dos ex-combatentes das guerras coloniais, similar ao chacal, dingo, coiote ou hiena. Com leitores assim, quem precisa de dicionários? Mais vale gastar o dinheiro em bebidas espirituosas fortes. Se a minha ousadia o permitisse, lançava agora o apelo para que me explicassem o que é um "musseque".

terça-feira, fevereiro 17, 2009

UM HOMEM DE "PRINCÍPIOS ELEVADOS" E O SEU DEVOTO SIDEKICK: Num mundo que gosta de se anunciar sem preconceitos e repudia a censura, existe um bloqueio drástico sobre o Holocausto. Comentar o horror nazi não pode ser feito fora da versão oficial. São admitidas todas as opiniões, menos essa. Quem escreveu estas palavras? Se o leitor se atreveu a um palpite, e se esse palpite foi "Mahmoud Ahmadinejad", ninguém o pode censurar. A plausibilidade está do seu lado. Sucede, contudo, que estas frases saíram da pena, sempre fecunda, de João César das Neves, o nosso cronista preferido das segundas-feiras, e foram extraídas de um artigo onde ele arrasa todos aqueles que, cedendo ao flagelo do politicamente correcto, criticaram Joseph Ratzinger por ter levantado a excomunhão aos quatro bispos da Sociedade S. Pio X, ordenados por Marcel Lefebvre (incluindo o negacionista Richard Williamson). Na sua ingenuidade, ou na sua má-fé (o efeito é idêntico), JCN atribui ao negacionismo o estatuto de historiografia. O mundo que JCN habita está povoado por historiadores que, cheios de sinceridade e honestidade, contestam o extermínio dos judeus pela máquina nazi da mesma forma que, se o vento tivesse soprado para esse lado, poderiam contestar a existência da escola de Sagres ou a descoberta do Brasil por Álvares Cabral em 1500. Um tema como qualquer outro. Estaria na altura de alguma alma caridosa pagar um TriNaranjus a JCN num bar qualquer, e aproveitar a ocasião para lhe dizer que, neste nosso mundo, o mundo real em que vivemos todos, os negacionistas não são historiadores sérios. São anti-semitas, frequentemente conotados com organizações airosas e simpáticas como a Frente Nacional de Le Pen. Não estão a fazer investigação histórica, mas sim a debitar agit-prop, em doses sabiamente controladas, perfeitamente cientes da margem de manobra que possuem nas sociedades de hoje. E contando, claro está, com a candura de opinantes como João César das Neves. Se estes agentes provocadores se dedicassem a tentar provar que Napoleão morreu em Waterloo, e que a criatura que penou em Santa Helena foi um mero sósia, não recolheriam mais do que escárnio e indiferença. Ao defenderem que as câmaras de gás dos campos de concentração eram usadas apenas para desinfecção, ou outras inanidades do mesmo jaez, sabem que estão a tocar numa ferida ainda aberta. Muito pessoalmente, ignoro por completo as subtilezas da lei canónica, e o real significado de uma excomunhão. Mais do que a excomunhão em si, acho sintomática a intenção, expressa pelo Vaticano, de promover a reconciliação com uma sociedade que faz a apologia da Inquisição e do regime de Vichy, e exprime as opiniões mais retrógradas e tacanhas sobre um sem-número de assuntos, desde a apostasia e o concílio de Trento até considerações sobre se é ou não pecaminoso tocar música folk para ganhar a vida. (Ver aqui, aqui, e aqui, por exemplo.) Nada do que sai da Basílica de São Pedro é inocente, e esta foi mais uma achega para definir um pontificado cujas cores, ao fim de quase quatro anos, são nítidas para todos, para júbilo de alguns aficionados versão pós-Vaticano II.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

LEITOR PREGUIÇOSO, MEU SEMELHANTE, MEU IRMÃO: Após mais de 300 páginas de "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo", de António Lobo Antunes, ainda não descobri o que é um "mabeco", nem me dei ao trabalho de averiguar. Receio que isto me afaste irremediavelmente do modelo de leitor ideal.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

O QUE FAZ FALTA: A língua portuguesa não é suficientemente concisa. Faz-nos falta um verbo que signifique "estar frente à entrada dos Armazéns do Chiado, em grupo ou sozinho/a, parado, sem fazer nada, perturbando aqueles que tentam entrar para ir à Fnac ver as novidades na secção dos DVDs".