quarta-feira, janeiro 13, 2010

MORTE AOS MITOS!: Um estudo recente colocou em causa a existência do ponto G. Eu sou a favor dos esforços de contestação das verdades adquiridas, desde que alicerçados no rigor e na objectividade. Por exemplo, dentro do mesmo espírito, estaria na altura de se averiguar, de uma vez por todas, se existe o famigerado "petit pan de mur jaune" a que o escritor Bergotte, na obra magistral de Marcel Proust, dedicava tão profunda admiração, . Tenho examinado longamente o quadro de Vermeer, e "petit pan de mur jaune" é coisa que não distingo, nem com a minha lendária boa vontade. Desconfio que o "petit pan de mur jaune" nunca existiu, e sinto-me aliviado por verificar que consigo viver com essa hipótese. Não sou eu o único a nutrir estas dúvidas cruéis, semelhantes a vermes em maçã Granny Smith.
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: Continua a onda sul-americana.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

ÉRIC ROHMER (1920-2010): Um dos maiores, um dos maiores de sempre, um dos maiores em tudo. Ainda não tenho palavras. Só o desgosto.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

LHASA DE SELA (1972-2010): Nunca fui fã. Porém, circunstâncias da minha vida obrigaram-me, a dada altura, a reservar-lhe um pequeno nicho no meu imaginário e no meu disco rígido. De entre as suas canções, a minha preferida é "My Name" (de "The Living Road").
E PRONTO: E pronto, já está. E eu, a quem a ideia de ter "orgulho em ser português" provoca algo de semelhante à náusea, e que só toco na locução "dia histórico" com uma vara de 5 metros, vejo-me à míngua de expressões que não sejam essas, para dar conta do que sinto. Foi um dia histórico. E sinto orgulho em ser português. Por uma vez. «...pour un instant. Pour un instant seulement» como dizia o Brel.

quarta-feira, janeiro 06, 2010

BALANÇO DO ANO (LIVROS): Os livros lidos em 2009 de que mais gostei. Por ordem cronológica de leitura.
  • Antigos Mestres (Thomas Bernhard)
  • The Matisse Stories (A.S. Byatt)
  • Dream of Fair to Middling Women (Samuel Beckett)
  • Armance (Stendhal)
  • Fanny Owen (Agustina Bessa-Luís)
  • Dom Casmurro (Machado de Assis)
  • Bleak House (Charles Dickens)
  • La Princesse de Clèves (Madame de Lafayette)
  • Anatomy of Restlessness (Bruce Chatwin)
  • Les Plaisirs et les Jours (Marcel Proust)
  • Jacobo e outras histórias (Teresa Veiga)
Quanto à poesia, as minhas leituras foram menos sistemáticas e mais escassas, mas não queria deixar de salientar Blaise Cendrars e Rui Coias ("A Ordem do Mundo").
BALANÇO DO ANO (CINEMA): Os melhores filmes que vi em 2009, por ordem cronológica de visionamento: Estreias:
  • El Cant dels Ocells (A. Serra)
  • La Mujer Sin Cabeza (L. Martel) (talvez o melhor do ano)
  • Les Plages d'Agnès (A. Varda)
  • The Limits of Control (J. Jarmusch)
  • 35 Rhums (C. Denis) (não vi este filme belíssimo em nenhum top anual, shame, shame)
Festivais, cinemateca, etc.:
  • filmes de Angela Schanelec (Schöne Gelbe Farbe, Ich Bin den Sommer Über in Berlin Geblieben, Plätze in Städten)
  • Quatre Nuits d'Un Rêveur (R. Bresson)
  • I Clowns (F. Fellini)
  • Ashes of Time Redux (Wong Kar-Wai)
  • Comment Je Me Suis Disputé... (Ma Vie Sexuelle) (A. Desplechin)
  • Die Marquise von O... (E. Rohmer)
  • Ensayo de un Crimen (L. Buñuel)
  • Shirin (A. Kiarostami)
  • Partie de Campagne (J. Renoir)
  • L'Annonce Faite à Marie (A. Cuny)
  • Na Presença de Um Palhaço (I. Bergman)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No Alfa Pendular, entre Porto e Lisboa, uma senhora lia um livro de Günter Grass. Infelizmente, não consegui descobrir qual era o livro.
VAMOS A VOTOS: O 1bsk deseja a todos os seus leitores, amigos, conhecidos, assinantes, benfeitores, mecenas, colaboradores, pessoal administrativo, antigos alunos e agentes inflitrados um ano novo cheio de bolos de arroz, boas leituras, cinema de qualidade e a cores, boa comida, amor e carinhos vários, música do melhor que há, tudo sempre a abrir e sempre a bombar. Pelo que nos toca, continuaremos a dedicar-nos de corpo e alma à missão que nos propusemos há quase sete anos: escrever uns posts de vez em quando e publicá-los neste blog.

terça-feira, dezembro 29, 2009

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: "Rayuela", de Julio Cortázar. Com uma introdução de Andrés Amorós mais longa do que certos romances que já li (por exemplo, "Os Três Seios de Novélia"). A capa da edição que estou a ler é ligeiramente diferente (quadro de Bonnard em vez do jogo da macaca). O Natal é quando um homem quiser, ler a "Rayuela" é quando um homem quiser, e eu quis agora.
O PROBLEMA DA HOMOSSEXUALIDADE É COMPLICADO, OU RUI MACHETE NO SEU MELHOR:
«O casamento gay não é um problema nacional. Sou católico e acho que o casamento para os católicos não é o casamento gay. Não pode ser. Embora tenha respeito pelas pessoas e consideração pelas suas liberdades. Porque o problema da homossexualidade é complicado. Se o Estado acha que é verdadeiramente importante que se discuta e se faça, sobretudo se isso não significar, o que é difícil, um certo abaixamento do nível moral e dos costumes... Isso pode ser feito de várias maneiras, de uma maneira decente e de uma maneira menos decente, só que, de facto, esse não é o principal problema que nós temos.» (Entrevista ao jornal "Público", 27/12/2009.) Que pena é os entrevistadores não terem aprofundado este tema, em vez de (talvez por pressentirem a catástrofe iminente) mudar a agulhagem e abordar o tema do orçamento. Entre as questões que me surgiram, as que mais estimularam a minha curiosidade foram: a) Porque é que, na opinião do Dr. Rui Machete, a homossexualidade é um "problema complicado"? b) Porque será tão difícil que a aprovação do "casamento gay" ocorra sem "um certo abaixamento do nível moral e dos costumes"? Basear-se-á o Dr. Rui Machete na intuição, na dedução, ou na observação de exemplos como a Espanha, onde (é bem sabido) a dissipação e o deboche atingiram níveis históricos após a aprovação dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo? c) Quais são as maneiras "decente" e "menos decente" de promulgar o "casamento gay"? (Tremo só de pensar.)
BOM-SENSO SFF: Aqui há dias, saiu no jornal "Público" uma peça sobre as fases do processo legislativo relativo à alteração do Código Civil que permitirá o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Uma das principais preocupações do autor do artigo foi a de sondar as probabilidades de o processo estar concluído antes da visita a Portugal, prevista para Maio, do cidadão anteriormente conhecido por Joseph Ratzinger. Pasma-me a importância que se atribui a esta visita; mais do que pasmar, indigna-me que se admita sequer que a presença do regedor de um bairro romano (acessoriamente, chefe de estado de uma nação de duvidosíssima legitimidade) possa condicionar um processo que deveria depender apenas da constituição portuguesa e das decisões individuais dos magistrados competentes.

sábado, dezembro 26, 2009

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: Processo de folheamento já concluído, em boa verdade. É o quarto e penúltimo episódio da saga de Tom Ripley. O quinto já está comprado, e não é de esperar que acumule muito bolor na lista de espera. A dada altura, Ripley está em Berlim, hospedado em casa de um indivíduo que se entrega ao tráfico de pedras preciosas. Sozinho no apartamento, Ripley decide inspeccionar aquilo que parecem ser as obras completas de Schiller, numa estante, convencido de que se trata de um esconderijo; afinal, são mesmo livros de Schiller. Um dos encantos do romance reside na maneira como a economia narrativa, as frases directas e isentas de ornamentação, o despojamento estilístico, coexistem com esporádicas incursões na irrelevância.

sábado, dezembro 19, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem lia "Os Passos em Volta", de Herberto Helder, no metropolitano. Uma capa cor-de-laranja na linha verde, essa mesma que une Telheiras ao Cais do Sodré, e vice-versa.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

PIERRE MENARD, AUTOR DE "PIERRE MENARD, AUTOR DO QUIXOTE": Alguém, algures, alguma vez se atreverá a reescrever "Pierre Menard, autor do Quixote"? Uma pitada de recursividade não deixaria de realçar os atractivos deste imortal conto de Borges. (Nota: parte de um sonho.)

sexta-feira, dezembro 11, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma senhora lia "Marius", de Marcel Pagnol, na pastelaria Alsaciana. Ignoro se a incongruência geográfica era involuntária ou tongue in cheek. Um cavalheiro lia o "Mahabharata" no bar da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

terça-feira, dezembro 01, 2009

MINARETES E LAICIDADE: Como é seu costume, o Ricardo é certeiro naquilo que escreve sobre a polémica dos minaretes na Suíça (aqui e aqui). Concordo com tudo e assino por baixo. A transcrição dos excertos da Carta Constitucional e da Lei da Separação é oportuna, e serve para demostrar que, com o resultado deste referendo, a Suíça recuou, em termos de tolerância para com religiões não cristãs, para os níveis do Portugal pré-5 de Outubro de 1910. A verdadeira laicidade é incompatível com limitações à liberdade de culto, sobretudo se se tratar de limitações selectivas, ao sabor da evolução de sensibilidades islamófobas. Quanto àqueles que colocam no mesmo patamar a restrição à edificação de minaretes e a remoção dos crucifixos das salas de aula, ou bem que pecam por ignorância ou bem que pecam por pura e não adulterada má fé. Receio bem que os segundos sejam em número muito superior aos primeiros, e temo por isso que a límpida argumentação do Ricardo acabe por redundar em perda de tempo. Quem não vê algo de tão óbvio está para lá do alcance da lógica e da razoabilidade.

segunda-feira, novembro 30, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Este blog não se compadece com a facilidade, e é apenas por esse motivo que não costumamos assinalar avistamentos de leitores na Fnac. Mas há situações em que abrir uma excepção é um imperativo moral. Na Fnac do Vasco da Gama, um jovem munido de leitor MP3 lia "Portnoy's Complaint", de Philip Roth (o tal que só ganhará o prémio Nobel em 2119). E ria-se com gosto, de vez em quando.
APERTA APERTA COM ELA: O grupo "Estrelas do Alva" interpreta, com inegável brilho, o êxito de José Malhoa "Baile de Verão". "Aquele Querido Mês de Agosto", uma das mais estimulantes surpresas do cinema português dos últimos anos.
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: Depois de "Jacobo e outras histórias", de Teresa Veiga, "Venâncio e outras histórias", de Joaquim Paço d'Arcos. É o segundo livro com um título da forma "[nome próprio masculino] e outras histórias" que eu leio num curto espaço de tempo. Alguém me saberá recomendar outro livro cujo título respeite este requisito formal?