terça-feira, janeiro 19, 2010

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Ainda não avistei uma única pessoa a ler Roberto Bolaño em lugares públicos. Que conclusões se podem retirar daqui? Rigorosamente nenhumas.
DIZ QUE DISSE: Pelos vistos, o fact-checking não é actividade muito prezada nos selectos clubes ingleses que João Carlos Espada frequenta. Nesta crónica, o homem que semanalmente explica Popper e Hayek (o Friedrich, não a Salma) às criancinhas e às massas baseia a sua argumentação sobre a liberdade e os seus inimigos numa citação atribuída a Afonso Costa, que teria proclamado alto e bom som a sua intenção de acabar com a religião católica em Portugal em duas gerações. Este é um dos mitos mais fortemente enraizados na história da 1ª República. Chamo-lhe "mito" porque nunca li qualquer confirmação, devidamente fundamentada, desta suposta afirmação. O mito encontra-se desmontado aqui. Não sou historiador; ignoro se existem teses alternativas. Mas acho sintomático que nunca os críticos da 1ª República se dêem ao trabalho de conspurcar os seus imaculados artigos de opinião com uma referenciazita bibliográfica, uma migalha de legitimidade historiográfica que transmitisse ao leitor a impressão de estar perante factos, em vez de meras ideias feitas com um grau de veracidade comensurável com o milagre de Ourique. Como toda a crónica do Prof. Espada se servia como alicerce dessa alegada intenção de aniquilar o catolicismo, a sua validade sofre um certo abalo. O que é pena: os devaneios sobre Isaiah Berlin, liberdade positiva e liberdade negativa merecem ser seguidos, quanto mais não seja para aferir até onde pode ir uma retórica em roda livre, singularmente refractária à realidade. As conclusões, essas, não surpreenderão os leitores habituais do Prof. Espada, entre os quais, bem entendido, tenho a honra de me contar: só na Inglaterra e nos Estados Unidos se vive bem. Aliás, a Inglaterra é amiúde apontada pelo Prof. Espada como exemplo, embora as descrições que dela faz mais depressa evoquem uma nação imaginária (onde imperam o bom senso e a benevolência, onde gregos e troianos convivem pacificamente sob o olhar amável dos bobbies, e onde todos vivem e deixam viver) do que a Inglaterra real, um país que vem no mapa, que tem 51 milhões de habitantes, cuja capital é Londres e onde sucedem coisas como esta. (Francisco Sarsfield Cabral também se juntou ao número dos que atribuíram a Afonso Costa o mesmo propósito explicitamente catolicida. Foi no Público, penso - não tenho o link.)

quinta-feira, janeiro 14, 2010

"RAYUELA", NOTAS DE LEITURA: Ao contrário do que seria de esperar, gostei mais da parte do livro que se passa na Argentina, depois do regresso de Oliveira do exílio parisiense. O convívio com o amigo Traveler e com Talita, a mulher deste, dá origem a páginas de uma profundidade de observação e de uma invenção cómica desconcertantes. É particularmente notável o capítulo 41 (ao que parece, aquele que Cortázar escreveu em primeiro lugar), todo ele um prodígio de burlesco e absurdo, onde Talita se empoleira numa ponte improvisada entre duas janelas de terceiro andar, apenas para entregar a Oliveira um pacote de erva-mate, e onde se aprende mais do que em qualquer outro lugar acerca dos complexos laços que unem o triângulo e do desespero sobre o qual se recortam todas as acções de Oliveira. Gekrepten, a noiva de Oliveira que por ele esperou durante o exílio, poderia ser o vértice que faltava para o triângulo se transformar em quadrado, decerto mais estável e menos atravessado por tensões. Mas Gekrepten é uma personagem insípida, deliberadamente menorizada. Gostaria imenso de saber a origem deste nome, tão invulgar, aparentemente tão pouco devedor da eufonia, e que contudo tanto gosto de repetir. Gekrepten, Gekrepten. O Google, por uma vez, não ajudou.
SOMETIMES IT'S WISER TO BE TRUTHFUL THAN TO LIE, SO YOU WON'T BE BELIEVED. DON'T YOU BELIEVE ME?: Ainda não consegui reunir a coragem para escrever sobre Rohmer, por isso fico-me por esta chamada para um artigo brilhante sobre os paralelismos entre "Triple Agent" e um conto de Nabokov. Outra vez o paradoxo do bluffer sincero, outra vez esta frase, uma das minhas preferidas de toda a obra de Rohmer. Já não me lembrava da cena do jogo de xadrez.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

E OUTROS POSTS: Há também "Léah e outras histórias", do sempre recomendável José Rodrigues Miguéis. Claro que o cúmulo do refinamento seria um livro intitulado "Esta História e outras histórias". Sonhar não custa. E a propósito, deixa-me completar a frase que, decerto por culpa de compromissos inadiáveis, ou de um visitante de Porlock, foste compelido a truncar. «Os melhores autores de contos de todos os tempos foram o Isaac Babel e o Leonard Michaels, sem contar com a Katherine Mansfield, está bem de ver Era isto, não era?
MORTE AOS MITOS!: Um estudo recente colocou em causa a existência do ponto G. Eu sou a favor dos esforços de contestação das verdades adquiridas, desde que alicerçados no rigor e na objectividade. Por exemplo, dentro do mesmo espírito, estaria na altura de se averiguar, de uma vez por todas, se existe o famigerado "petit pan de mur jaune" a que o escritor Bergotte, na obra magistral de Marcel Proust, dedicava tão profunda admiração, . Tenho examinado longamente o quadro de Vermeer, e "petit pan de mur jaune" é coisa que não distingo, nem com a minha lendária boa vontade. Desconfio que o "petit pan de mur jaune" nunca existiu, e sinto-me aliviado por verificar que consigo viver com essa hipótese. Não sou eu o único a nutrir estas dúvidas cruéis, semelhantes a vermes em maçã Granny Smith.
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: Continua a onda sul-americana.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

ÉRIC ROHMER (1920-2010): Um dos maiores, um dos maiores de sempre, um dos maiores em tudo. Ainda não tenho palavras. Só o desgosto.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

LHASA DE SELA (1972-2010): Nunca fui fã. Porém, circunstâncias da minha vida obrigaram-me, a dada altura, a reservar-lhe um pequeno nicho no meu imaginário e no meu disco rígido. De entre as suas canções, a minha preferida é "My Name" (de "The Living Road").
E PRONTO: E pronto, já está. E eu, a quem a ideia de ter "orgulho em ser português" provoca algo de semelhante à náusea, e que só toco na locução "dia histórico" com uma vara de 5 metros, vejo-me à míngua de expressões que não sejam essas, para dar conta do que sinto. Foi um dia histórico. E sinto orgulho em ser português. Por uma vez. «...pour un instant. Pour un instant seulement» como dizia o Brel.

quarta-feira, janeiro 06, 2010

BALANÇO DO ANO (LIVROS): Os livros lidos em 2009 de que mais gostei. Por ordem cronológica de leitura.
  • Antigos Mestres (Thomas Bernhard)
  • The Matisse Stories (A.S. Byatt)
  • Dream of Fair to Middling Women (Samuel Beckett)
  • Armance (Stendhal)
  • Fanny Owen (Agustina Bessa-Luís)
  • Dom Casmurro (Machado de Assis)
  • Bleak House (Charles Dickens)
  • La Princesse de Clèves (Madame de Lafayette)
  • Anatomy of Restlessness (Bruce Chatwin)
  • Les Plaisirs et les Jours (Marcel Proust)
  • Jacobo e outras histórias (Teresa Veiga)
Quanto à poesia, as minhas leituras foram menos sistemáticas e mais escassas, mas não queria deixar de salientar Blaise Cendrars e Rui Coias ("A Ordem do Mundo").
BALANÇO DO ANO (CINEMA): Os melhores filmes que vi em 2009, por ordem cronológica de visionamento: Estreias:
  • El Cant dels Ocells (A. Serra)
  • La Mujer Sin Cabeza (L. Martel) (talvez o melhor do ano)
  • Les Plages d'Agnès (A. Varda)
  • The Limits of Control (J. Jarmusch)
  • 35 Rhums (C. Denis) (não vi este filme belíssimo em nenhum top anual, shame, shame)
Festivais, cinemateca, etc.:
  • filmes de Angela Schanelec (Schöne Gelbe Farbe, Ich Bin den Sommer Über in Berlin Geblieben, Plätze in Städten)
  • Quatre Nuits d'Un Rêveur (R. Bresson)
  • I Clowns (F. Fellini)
  • Ashes of Time Redux (Wong Kar-Wai)
  • Comment Je Me Suis Disputé... (Ma Vie Sexuelle) (A. Desplechin)
  • Die Marquise von O... (E. Rohmer)
  • Ensayo de un Crimen (L. Buñuel)
  • Shirin (A. Kiarostami)
  • Partie de Campagne (J. Renoir)
  • L'Annonce Faite à Marie (A. Cuny)
  • Na Presença de Um Palhaço (I. Bergman)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No Alfa Pendular, entre Porto e Lisboa, uma senhora lia um livro de Günter Grass. Infelizmente, não consegui descobrir qual era o livro.
VAMOS A VOTOS: O 1bsk deseja a todos os seus leitores, amigos, conhecidos, assinantes, benfeitores, mecenas, colaboradores, pessoal administrativo, antigos alunos e agentes inflitrados um ano novo cheio de bolos de arroz, boas leituras, cinema de qualidade e a cores, boa comida, amor e carinhos vários, música do melhor que há, tudo sempre a abrir e sempre a bombar. Pelo que nos toca, continuaremos a dedicar-nos de corpo e alma à missão que nos propusemos há quase sete anos: escrever uns posts de vez em quando e publicá-los neste blog.

terça-feira, dezembro 29, 2009

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: "Rayuela", de Julio Cortázar. Com uma introdução de Andrés Amorós mais longa do que certos romances que já li (por exemplo, "Os Três Seios de Novélia"). A capa da edição que estou a ler é ligeiramente diferente (quadro de Bonnard em vez do jogo da macaca). O Natal é quando um homem quiser, ler a "Rayuela" é quando um homem quiser, e eu quis agora.
O PROBLEMA DA HOMOSSEXUALIDADE É COMPLICADO, OU RUI MACHETE NO SEU MELHOR:
«O casamento gay não é um problema nacional. Sou católico e acho que o casamento para os católicos não é o casamento gay. Não pode ser. Embora tenha respeito pelas pessoas e consideração pelas suas liberdades. Porque o problema da homossexualidade é complicado. Se o Estado acha que é verdadeiramente importante que se discuta e se faça, sobretudo se isso não significar, o que é difícil, um certo abaixamento do nível moral e dos costumes... Isso pode ser feito de várias maneiras, de uma maneira decente e de uma maneira menos decente, só que, de facto, esse não é o principal problema que nós temos.» (Entrevista ao jornal "Público", 27/12/2009.) Que pena é os entrevistadores não terem aprofundado este tema, em vez de (talvez por pressentirem a catástrofe iminente) mudar a agulhagem e abordar o tema do orçamento. Entre as questões que me surgiram, as que mais estimularam a minha curiosidade foram: a) Porque é que, na opinião do Dr. Rui Machete, a homossexualidade é um "problema complicado"? b) Porque será tão difícil que a aprovação do "casamento gay" ocorra sem "um certo abaixamento do nível moral e dos costumes"? Basear-se-á o Dr. Rui Machete na intuição, na dedução, ou na observação de exemplos como a Espanha, onde (é bem sabido) a dissipação e o deboche atingiram níveis históricos após a aprovação dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo? c) Quais são as maneiras "decente" e "menos decente" de promulgar o "casamento gay"? (Tremo só de pensar.)
BOM-SENSO SFF: Aqui há dias, saiu no jornal "Público" uma peça sobre as fases do processo legislativo relativo à alteração do Código Civil que permitirá o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Uma das principais preocupações do autor do artigo foi a de sondar as probabilidades de o processo estar concluído antes da visita a Portugal, prevista para Maio, do cidadão anteriormente conhecido por Joseph Ratzinger. Pasma-me a importância que se atribui a esta visita; mais do que pasmar, indigna-me que se admita sequer que a presença do regedor de um bairro romano (acessoriamente, chefe de estado de uma nação de duvidosíssima legitimidade) possa condicionar um processo que deveria depender apenas da constituição portuguesa e das decisões individuais dos magistrados competentes.

sábado, dezembro 26, 2009

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: Processo de folheamento já concluído, em boa verdade. É o quarto e penúltimo episódio da saga de Tom Ripley. O quinto já está comprado, e não é de esperar que acumule muito bolor na lista de espera. A dada altura, Ripley está em Berlim, hospedado em casa de um indivíduo que se entrega ao tráfico de pedras preciosas. Sozinho no apartamento, Ripley decide inspeccionar aquilo que parecem ser as obras completas de Schiller, numa estante, convencido de que se trata de um esconderijo; afinal, são mesmo livros de Schiller. Um dos encantos do romance reside na maneira como a economia narrativa, as frases directas e isentas de ornamentação, o despojamento estilístico, coexistem com esporádicas incursões na irrelevância.

sábado, dezembro 19, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem lia "Os Passos em Volta", de Herberto Helder, no metropolitano. Uma capa cor-de-laranja na linha verde, essa mesma que une Telheiras ao Cais do Sodré, e vice-versa.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

PIERRE MENARD, AUTOR DE "PIERRE MENARD, AUTOR DO QUIXOTE": Alguém, algures, alguma vez se atreverá a reescrever "Pierre Menard, autor do Quixote"? Uma pitada de recursividade não deixaria de realçar os atractivos deste imortal conto de Borges. (Nota: parte de um sonho.)

sexta-feira, dezembro 11, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma senhora lia "Marius", de Marcel Pagnol, na pastelaria Alsaciana. Ignoro se a incongruência geográfica era involuntária ou tongue in cheek. Um cavalheiro lia o "Mahabharata" no bar da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

terça-feira, dezembro 01, 2009

MINARETES E LAICIDADE: Como é seu costume, o Ricardo é certeiro naquilo que escreve sobre a polémica dos minaretes na Suíça (aqui e aqui). Concordo com tudo e assino por baixo. A transcrição dos excertos da Carta Constitucional e da Lei da Separação é oportuna, e serve para demostrar que, com o resultado deste referendo, a Suíça recuou, em termos de tolerância para com religiões não cristãs, para os níveis do Portugal pré-5 de Outubro de 1910. A verdadeira laicidade é incompatível com limitações à liberdade de culto, sobretudo se se tratar de limitações selectivas, ao sabor da evolução de sensibilidades islamófobas. Quanto àqueles que colocam no mesmo patamar a restrição à edificação de minaretes e a remoção dos crucifixos das salas de aula, ou bem que pecam por ignorância ou bem que pecam por pura e não adulterada má fé. Receio bem que os segundos sejam em número muito superior aos primeiros, e temo por isso que a límpida argumentação do Ricardo acabe por redundar em perda de tempo. Quem não vê algo de tão óbvio está para lá do alcance da lógica e da razoabilidade.

segunda-feira, novembro 30, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Este blog não se compadece com a facilidade, e é apenas por esse motivo que não costumamos assinalar avistamentos de leitores na Fnac. Mas há situações em que abrir uma excepção é um imperativo moral. Na Fnac do Vasco da Gama, um jovem munido de leitor MP3 lia "Portnoy's Complaint", de Philip Roth (o tal que só ganhará o prémio Nobel em 2119). E ria-se com gosto, de vez em quando.
APERTA APERTA COM ELA: O grupo "Estrelas do Alva" interpreta, com inegável brilho, o êxito de José Malhoa "Baile de Verão". "Aquele Querido Mês de Agosto", uma das mais estimulantes surpresas do cinema português dos últimos anos.
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: Depois de "Jacobo e outras histórias", de Teresa Veiga, "Venâncio e outras histórias", de Joaquim Paço d'Arcos. É o segundo livro com um título da forma "[nome próprio masculino] e outras histórias" que eu leio num curto espaço de tempo. Alguém me saberá recomendar outro livro cujo título respeite este requisito formal?
REFERENDE-SE: Proponho que se leve a referendo o dogma da Santíssima Trindade. Está na altura de o povo se manifestar sobre esta questão, cuja importância ninguém de bom senso se lembrará de contestar. Não tenhamos medo de ouvir a voz dos cidadãos. O debate aprofundado que este dogma merece ainda está por realizar.

segunda-feira, novembro 23, 2009

BLUFFER SINCERO: Quando estou a assistir a uma sessão do concurso "Jogo Duplo", é comum recordar-me de uma frase pronunciada pelo extraordinário Serge Renko no extraordinário "Triple Agent" (Éric Rohmer). «Por vezes, é mais inteligente dizer a verdade do que mentir, porque os outros não acreditam em ti.»
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:

Não é de hoje o meu fascínio pelo matemático amador indiano Srinivasa Ramanujan, revelado ao Ocidente pelo ilustre G.H. Hardy. Fiquei contente ao saber que David Leavitt escrevera um romance baseado no encontro improvável entre estes dois homens. Comprei o livro, e agora estou a lê-lo. O facto de se passar em Cambridge é um bónus bem-vindo.

segunda-feira, novembro 09, 2009

LONGE DO ESTORIL: O que me faz lamentar estar a perder o festival de cinema do Estoril é, mais do que Juliette Binoche, David Byrne ou Francis Ford Coppola (e eu admiro-os a todos), a presença na selecção oficial de "Le Roi de l'Évasion", de Alain Guiraudie. Sou grande admirador deste realizador, sobretudo do sublime "Pas de Repos pour les Braves" e da fabulosa média metragem "Du Soleil pour les Gueux". Ao penúltimo filme de Guiraudie, "Voici Venu le Temps", não foi dada oportunidade nas salas portuguesas. Quem sabe quando, ou (suspiro) se, terei oportunidade de assistir a este "Le Roi de l'Évasion"? Dá vontade de ir ali ao Cais do Sodré apanhar o comboio.
OS ABISMOS DE SODOMA, VERSÃO SARAIVA: «Contava-me uma empregada minha que numa casa onde em tempos trabalhou havia um menino que só gostava de brincar com bonecas, tachos e panelas. A minha empregada começou a achar aquilo estranho. E a verdade é que, na saída da adolescência, o menino revelou a sua inclinação homossexual. Este caso deverá ser extremo, mas não há dúvida de que em certas pessoas a inversão sexual se manifesta muito cedo.» José António Saraiva é, em Portugal, o expoente supremo da comicidade involuntária - e não por falta de concorrência. Nesta sua peça sobre o casamento homossexual, o que mais impressiona é o contraste entre a pose de quem escreve, entre oráculo e compenetrado árbitro de costumes, e a atroz banalidade das opiniões que exprime. Prosa como esta constitui um poderoso argumento contra o referendo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, talvez mais eficaz ainda do que o elementar bom senso. A haver um referendo, a haver o tal debate, certamente muito "amplo", muito "alargado" e muito "profundo", o tal debate que se estende há anos mas que alguns insistem em enriquecer com mais achegas e rotações de manivela, argumentação como esta (talvez um pouco menos trôpega) encheria jornais, blogs e prós e contras, durante semanas. Não se deve abusar dos pontapés na nossa sanidade colectiva.
TO WHOM IT MAY CONCERN: Os contos "Eulália e Vina" e "O Fim do Curso", de Teresa Veiga, fariam muito boa figura numa antologia dos melhores contos portugueses do século XX.

sábado, novembro 07, 2009

PRÉMIOS: O prémio Booker foi atribuído a Hilary Mantel ("Wolf Hall"), o Goncourt a Marie NDiaye ("Trois Femmes Puissantes") e o Nobel a Herta Müller. É a primeira vez que estes três prémios são entregues, no mesmo ano, a mulheres. O único ano em que o Booker e o Goncourt tinham sido ambos atribuídos a mulheres, até hoje, tinha sido 1984 (Anita Brookner, "Hotel du Lac", e Marguerite Duras, "L'Amant").
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: Gosto muito da capa.

segunda-feira, novembro 02, 2009

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:
UM LEMA PARA A VIDA:
"I'd rather have a bottle in front of me than a frontal lobotomy."
Qual "E pluribus unum", qual "No hay caminos hay que caminar", qual "If you want something set it free". Este sim, é um lema que merece durar uma vida inteira.
LANÇAMENTO: A antologia luso-brasileira "Um Rio de Contos" (Editorial Tágide) será lançada amanhã, 3 de Novembro, terça-feira, às 18h30, no Espaço Machado de Assis (Avenida da Liberdade, 180-A, 10º andar). A obra será apresentada pelo Embaixador Lauro Moreira e pelo escritor Miguel Real. Participo nesta antologia com um conto cuja acção se desenrola nas margens do garboso rio Guadiana.

sexta-feira, outubro 09, 2009

UMA HORA E VINTE MINUTOS ANTES DO INÍCIO DA JORNADA DE REFLEXÃO, DEIXO-VOS A MINHA HOMENAGEM AO ÍNDICE REBUÇADO: Já conhece o índice rebuçado? Descubra tudo aqui. São inspirações como esta que distinguem uma democracia vibrante e vigorosa de uma democracia apagada e moribunda. Habitantes do Lumiar, a escolha é vossa. Vamos lá mudar de paradigma?
SÓ ALGUNS: Posso garantir, com pleno conhecimento de causa, que não mais de dois telheirenses em cada três lêem Murakami. Falar em "moda" releva do exagero.

quarta-feira, outubro 07, 2009

LIFE, THE TRUTH OF ART AND THE SORROWS OF IMAGINATION: Lá fora chove com abundância bíblica, o tempo não convida a saídas nocturnas, e que melhor maneira de passar um serão doméstico do que ler a crítica do blog "Reverse Shot" ao último filme de Rivette? Angustiam-me um pouco os tons de epitáfio que Damon Smith detectou em "36 Vues du Pic Saint-Loup". Espero que Rivette o desminta, realizando ainda muitos e excelentes filmes.
O QUE FAZ FALTA É ENLAÇAR A MALTA: Fiz um pouco de manutenção na lista dos enlaces. Aproveitei para acrescentar o Jugular, o Ladrões de Bicicletas, o Que Treta! e O Vermelho e o Negro, que já lá deviam estar há muito tempo. Tempus Fugit, como dizia o outro.

segunda-feira, outubro 05, 2009

NOTAS DE LEITURA SOBRE "LES PLAISIRS ET LES JOURS": Proust não tinha em elevada conta a arte da conversação, entendida como pretendente a género literário. Criticou Sainte-Beuve a este respeito, e chegou a pronunciar-se desfavoravelmente sobre Stendhal por este encarar a literatura como uma distracção, e por ter escrito "La Chartreuse de Parme" «faute de maisons où l'on cause agréablement et où l'on serve du zambajon». (Isto como nota de rodapé ao discurso de uma das personagens de "Mondanité et mélomanie de Bouvard et Pécuchet", pastiche de Flaubert onde Mallarmé é depreciado por não ter talento, apesar de ser um "brillant causeur".)
NOTAS BREVES SOBRE O 5 DE OUTUBRO:
  1. A República entra hoje no seu centésimo ano. (Deixemos, por agora, de lado o debate sobre se o Estado Novo merece a designação de "República".) Os 365 dias que se seguem devem ser de celebração, comemoração, informação e debate. Com sobriedade. Deixe-se o monopólio da pompa e da desmesura àquelas instituições mais comprometidas com a irracionalidade e com a suspensão do bom-senso (por exemplo, a monarquia, Fátima, o PC chinês).
  2. Frequentemente, escutam-se vozes preocupadas com a reduzida adesão popular ao feriado do 5 de Outubro. Não me conto entre os que vêem aqui motivo de ansiedade e de estados de alma. Se o 5 de Outubro não se comemora com fervor nem afã, isso deve-se acima de tudo ao facto de a República estar hoje solidamente instituída, a tal ponto que comemorá-la pode parecer uma redundância. (A ausência de multidões eufóricas nas ruas, no 1º de Dezembro, é razão para descrer do apego que os portugueses dedicam à independência do seu país?)
  3. Estes 365 dias não deixarão de trazer a dose fatal de provocações, acrobacias retóricas, e tentativas de fazer crer que existe hoje uma questão de regime em Portugal. Os jornais e televisões agradecem. Deixem a rapaziada da Causa Real, e demais facções (consta que não são poucas), entregar-se aos seus ruidosos e garridos rituais de iniciação, desde que não estraguem muita coisa, e de preferência antes das 2 da manhã, por causa do sono alheio.
  4. Viva a República!

sexta-feira, outubro 02, 2009

BOLO-REI: Que sorte. Pelo que me toca, ainda não me consegui habituar aos disparates deste blog. Quanto ao bolo-rei da "Suprema", eu falei em fama, e não em mérito, coisas que nem sempre andam de mão dada. Mais depressa revelaria o PIN do meu cartão multibanco do que as minhas preferências no campo da doçaria natalícia. Este assunto reveste-se de enorme importância, e aliás tenciono fazer uma comunicação ao país a este propósito, amanhã, às 20 horas e 50 segundos.
MORTES LITERÁRIAS: Uma comentadora da obra de Proust, Anne Henry, assinalou as numerosas semelhanças (que raiam o plágio) entre a morte de Baldassare Silvande, personagem de um conto de "Les Plaisirs et les Jours", e a do Ivan Ilyich de Tolstoi. «Chevaux de chasse et dettes de jeu, alliances princières, revolvers et policiers rossés arrivent tout droit de Moscou pour peupler le délire de Baldassare.»
ESSA MALTA: Pacheco Pereira denuncia, no seu blog, a «grosseria que se torna cada vez mais habitual no vale tudo em que estamos mergulhados». Não podia estar mais de acordo. O exemplo supremo desta grosseria, que PP terá sem dúvida omitido por o achar demasiado óbvio, são as crónicas de Vasco Graça Moura no "Diário de Notícias", que redefine semanalmente as fronteiras da vulgaridade e do bom senso. No seu mais recente esforço, VGM não regateia invectivas contra os mais de 2 milhões de portugueses que votaram no PS: de amorfos a impudentes, passando por invertebrados, tudo cabe no cabaz do tradutor de Petrarca. Momentos inspirados como «eles acabam de mostrar que preferem chafurdar na porcaria a encontrar soluções verdadeiras», ou «O que essa malta quer é o rendimento mínimo, o subsídio por tudo e por nada, a lei do menor esforço» (dê-se ao trabalho de ler a crónica, caro leitor, há muito mais) deverão, se houver justiça, entrar em antologias do uso vergonhoso da língua portuguesa. No meio da torrente, merece especial destaque este mimo: «Não se diga que tomo assim uma atitude de mau perdedor, ou que há falta de fair play da minha parte.» Inquietação inútil: nenhum leitor consciente tomará isto como mau perder. Estamos a falar de outra dimensão. A crónica de VGM está para o mau perder como as invasões dos hunos estão para um calduço na nuca. Um dos maiores mistérios que o nosso dulcíssimo Portugal guarda no seu seio é este: como é que um homem da estirpe intelectual de Vasco Graça Moura permite a si mesmo entregar-se a estes exercícios de má fé e pesporrência? É certo que a erudição não é totalmente incompatível com a boçalidade, mas um caso tão extremo dá que pensar. Quem sabe, porém, se os vindouros, desenquadrados do medíocre contexto histórico em que estamos imersos, não verão nestas tiradas valiosas instâncias de escárnio e maldizer pós-modernos, que contribuirão para a reputação póstuma deste autor. Desiludido com os seus coetâneos, resta a VGM apostar na posteridade.

terça-feira, setembro 29, 2009

E TAMBÉM É O SÍMBOLO DE FACTORIAL!!!: A nova epígrafe do 1bsk espelha, espero que com clareza, a minha posição face à recente polémica sobre as virtudes e vícios no uso do ponto de exclamação. Para breve, neste espaço, pode o leitor contar com uma micro-antologia do ponto de exclamação na literatura universal, incluindo Gerard Manley Hopkins, Emily Brontë, Rimbaud e muitos outros. Nada melhor do que deixar os génios falar.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, uma senhora lia "Boneca de Luxo", de Truman Capote. De pé.

sábado, setembro 19, 2009

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:
SAI UMA MEIA DE LEITE E UMA TORRADA PARA A MINHA FONTE: No (deveras inquietante) caso das alegadas escutas à Presidência da República, uma das perguntas para a qual a nação sequiosa exige resposta é esta: qual foi o café da Avenida de Roma no qual o assessor do PR e o jornalista do "Público" se encontraram? A Avenida de Roma é grande, mas as hipóteses sérias não são tão numerosas quanto isso. Penso que se pode excluir o "Vá-Vá", demasiado vasto, exposto e conhecido para conspirações que não sejam de natureza cinéfila. O "Luanda", situado em posição diametralmente oposta, do outro lado do cruzamento com a Avenida dos E.U.A., parece-me ligeiramente mais favorável, devido à disposição da esplanada (sobre o comprido, propiciando alguns locais discretos). A "Suprema", cujo bolo-rei é muito justamente afamado, afigura-se-me demasiado acanhada, pouco adequada a uma figura pública que pretende passar despercebida. A "Sílvia" possui um espaço coberto que se presta menos mal a tête-à-têtes sigilosos - os cinéfilos recordam-se, decerto, da conversa pungente entre o sr. João de Deus e a empregadita da geladaria, em "A Comédia de Deus". Deixo as considerações sobre outros espaços, como o "Sul-América", para quem frequente mais amiúde o troço setentrional da avenida.
CINEMA: Gostei muito de "The Limits of Control", de Jim Jarmusch, mas não pelas razões que antecipava. Esperava uma declinação jarmuschiana dos temas do filme negro, e vi-me perante um filme que leva a abstracção formal a um patamar pouco frequentado, que transcende géneros e qualquer tentativa de glosa destes, tudo isto sem nunca deixar de se projectar prioritariamente na dimensão pictórica e física. É uma obra deliberadamente vazia de conteúdo (pelo menos no sentido estrito - digamos cognitivo ou narrativo - do termo), mas que se deixa invadir e vibrar por todas as expectativas e memórias do cinéfilo. Está longe de ser um filme arbitrário: todas as personagens, encontros, diálogos, aludem uns aos outros, servem-se mutuamente de eco, formando uma rede de significados cuja decifração é menos importante do que o simples facto da sua existência auto-referente. É, em última análise, um filme completamente legível e isento de fundos falsos. Não existem enigmas em "The Limits of Control", excepção feita ao enigma que é o próprio filme, não mais intrigante do que a própria vida (a vida que o filme, aliás, se abstém elegantemente de imitar) - um enigma que se evacua a si próprio no momento em que Isaach de Bankolé desaparece do campo de visão pela última vez. A solução do problema da vida manifesta-se pelo desaparecimento do problema (Wittgenstein). Entre (tantas) outras coisas, "The Limits of Control" é um festim para o fetichista cinéfilo. Desde que o vi, são inumeráveis as ocasiões em que tive de reprimir o desejo de pedir "two espressos in separate cups".

terça-feira, setembro 08, 2009

ENQUANTO ISSO...: O novo filme de Jacques Rivette, "36 Vues du Pic Saint-Loup", está na selecção oficial do Festival de Veneza. E estreará em França amanhã. Fiquei estupefacto com a duração deste filme: com apenas 84 minutos, é a longa-metragem mais breve da extensa carreira de Rivette. Esperemos que não venha a sofrer o mesmo triste destino de "Ne Touchez Pas la Hache": directamente para DVD sem passar pelas salas portuguesas, sem passar pela casa partida e sem receber 2000 escudos.

sexta-feira, agosto 14, 2009

O LADO NEGRO DA FORÇA: O país, boquiaberto, ficou a saber que no blog 31 da Armada coexistem várias alas, entre as quais uma ala monárquica. E o que decidiram fazer os elementos desta ala, para sair do deprimente anonimato em que viviam? O que empreenderam para promover as suas ideias? Fundaram um partido ou um movimento? Distribuiram panfletos no metropolitano? Convocaram uma flash mob? Nada disso. O ar da sua graça assumiu a forma da substituição da bandeira hasteada na Câmara Municipal de Lisboa por uma bandeira da monarquia. Com esta garotice, ainda para mais perpetrada com uma máscara de Darth Vader(para desencorajar aqueles que ainda alimentassem a veleidade de os levar a sério), os irrequietos monárquicos trivializaram a sua causa e forneceram uma prova adicional de que hoje em dia, em Portugal, não existe uma questão de regime. Estando a defesa da monarquia entregue a folgazões inofensivos com vocação para homem-mosca, a um partido sem expressão (PPM) e a espécimes como os manos Câmara Pereira, a República pode dormir descansada. Claro está que alguma da nossa imprensa, ávida de irrelevâncias, não se ensaiou nada para ver neste pseudo-evento um trampolim para o relançamento do debate sobre a monarquia. Espanta ainda menos que o cidadão Bragança tenha sucumbido à tentação de apanhar a boleia desta frágil barcaça. Ainda falta muito para acabar a silly season?
SPEAKING IN TONGUES: José Mourinho já fala melhor italiano do que alguma vez falou inglês. Dá gosto ouvi-lo alardear o seu mau perder e a sua má fé com uma fluência que ele nunca demonstrou nos seus anos do Chelsea. O emprego da palavra "consapevole" impressionou-me particularmente.

MORANGOS COM AÇÚCAR - CELEBRAR A FESTA DA VIDA É SER RADICAL:

  • O Lucas é o vilão menos convincente da história dos "Morangos". Volta, Guga, estás perdoado.
  • O Vicente aplicou um gancho de direita ao Gonçalo, indignado por este nutrir sentimentos ternos pela sua (do Vicente) mãe, interpretada pela Sylvie Rocha. Sucede que o Gonçalo ficou com um lanho no sobrolho direito, o que me parece carecer cruelmente de verosimilhança.
  • Todas as personagens que estão a curtir as férias em Portimão mudam de roupa todos os dias, e raras vezes repetem uma peça de vestuário. Como é isto possível?.

segunda-feira, julho 27, 2009

CINEMA: No filme "Roma", de Fellini, também não há palavra "fim". Há uma longa e inquietante sequência final que mostra um enxame de motorizadas a percorrer as artérias romanas, e depois o filme acaba. A última bobina chega ao fim e o ecrã deixa de estar iluminado. As pessoas vão-se embora. E é tudo.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem lia "The Picture of Dorian Gray", de Oscar Wilde, numa carruagem que fazia serviço na linha verde do metropolitano. Em Lisboa.
AH, E A SANDUÍCHE DE SUSHI FOI UMA CRUEL DECEPÇÃO: Serei eu o único a pensar que Joanna Newsom não é uma escolha feliz para fundo musical do programa "Entre Pratos", de Henrique Sá Pessoa?
LIDO NO "DESTAK" DE HOJE: A Igreja de S. Sebastião (Almada), que não funciona como espaço de culto desde o século XVIII, reabriu este fim de semana. Segundo o bispo de Setúbal, a igreja é «um desafio para a construção da cidade, de Setúbal e do mundo». Os próximos tempos dirão se o mundo está preparado para o desafio da igreja de São Sebastião.

quinta-feira, julho 23, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma jovem lia "Os Jogos e os Homens", de Roger Caillois, na linha amarela do metropolitano. Também na linha amarela, mas noutra carruagem, uma jovem lia "As Velas Ardem até ao Fim", de Sándor Márai.

terça-feira, julho 14, 2009

LIBERDADE IGUALDADE FRATERNIDADE: Um símbolo vale aquilo que vale. Um símbolo tem o potencial de aniquilar e trivializar a realidade que simboliza. Reduzir a Revolução Francesa à tomada da Bastilha implica ignorar a teia de episódios, pessoas e movimentações que, durante anos, nesse virar do século XVIII para o XIX, forjaram a natureza das sociedades modernas, e fizeram emergir valores nos quais ainda hoje nos reconhecemos. Que fazer, então de um símbolo? Que fazer do 14 de Julho? Celebrá-lo, digo eu, não como convite à simplificação da história, mas como penhor de tudo o que de complexo, rico, exaltante e fecundo se viveu durante esse período.

Le 14 Juillet au Havre (Albert Marquet)

PLANO: Este blog já tem um plano de contingência para a gripe A.

domingo, julho 12, 2009

IMPRESSÕES DE SAN FRANCISCO (1) - THIS PLACE HAS BROUGHT "DOING YOUR LAUNDRY" TO A WHOLE NEW LEVEL: Existe um bairro em San Francisco, chamado Russian Hill, onde existe (literalmente) uma lavandaria em cada esquina. Uma delas dá pelo delicioso nome de "The Missing Sock". Os comentários dos utentes dão vontade de ir viver para San Francisco, só para poder usufruir regularmente de uma tão rica experiência de lavagem de roupa.

quinta-feira, julho 09, 2009

RELIGIONS AND SCHOOL DON'T MIX: Quem diria que o ex-ABBA Björn Ulvaeus era um tão convicto opositor da promiscuidade entre escola e religião, a ponto de assinar um artigo no "The Guardian" sobre o assunto? Uma agradável surpresa. Os argumentos são sólidos e bem conduzidos, e é difícil encontrar um com que eu não concorde. Só à conta desta revelação, dá vontade de escutar alguns êxitos dos ABBA. Já agora, aqui fica uma muito short-list dos meus temas favoritos deste grupo sueco de sucesso internacional: "Does Your Mother Know", "Dancing Queen", "Fernando", "Take Your Chance On Me", "Voulez Vous", "S.O.S.". Não deixa de ser encorajador constatar que a grande maioria dos comentários a este artigo vão no sentido da aprovação. (Via "Esquerda Republicana".)
MORANGOS COM AÇÚCAR: A Beatriz, após vários episódios de cruéis hesitações, lá decidiu submeter-se à operação plástica. A cicatriz que lhe desfigurava o pescoço desapareceu por completo. Isto não deve constituir surpresa, uma vez que a cicatriz nunca existiu, tal como oportunamente denunciei neste espaço. Não se pode eliminar uma coisa que carece da virtude de existir. A TVI empurra a suspensão da incredulidade até limites indecorosos.

domingo, junho 28, 2009

É ASSIM MESMO: «O filme não apresenta a legenda "fim". Não se trata de corte. É assim mesmo a sua conclusão.» (aviso ao espectador na folha da cinemateca do filme "O Último Tango em Paris")

quarta-feira, junho 17, 2009

Il ne sait pas si c'est le monde qui est en train de devenir rêve ou le rêve, monde. (JLGodard)

(Henri Matisse, "A Cortina Amarela", 1914-15)

terça-feira, junho 16, 2009

MORANGOS COM AÇÚCAR: Nesta série da TVI, tão do agrado do público mais jovem, muito pranto e ranger de dentes se tem feito ouvir, por causa de um acidente da responsabilidade do António, alcoólico em vias de recuperação. A Beatriz, que ia com o António, sofreu ferimentos que deixaram sequelas, sob a forma de uma alegada cicatriz no pescoço. Digo "alegada" porque, não obstante todos os meus esforços nesse sentido, nunca consegui ver a cicatriz. A cicatriz deveria ser desfigurante, a ponto de justificar todas as recriminações que o António dirige a si mesmo, mas não se vê. Chego ao ponto de ver abaladas as minhas certezas quanto à existência da cicatriz, sendo obrigado a refugiar-me na fé. Chego ao ponto de comparar o estatuto ontológico da cicatriz com o da bola de ténis da sequência final de "Blow Up", de Michelangelo Antonioni.
AND NO MORE TURN ASIDE AND BROOD/UPON LOVE'S BITTER MYSTERY: O Bloomsday original foi há 105 anos. Hoje foi dia de andar com uma batata num dos bolsos, e com uma carta pseudónima noutro bolso, e de caminhar pela praia de olhos fechados, e de comer rim de porco ao pequeno-almoço e pão com queijo ao almoço e de beber cacau à ceia. E de olhar com secreto despeito para todos aqueles que, na convicção de ser este um dia igual aos outros, não se entregaram a estes rituais.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Nos degraus de entrada da Faculdade de Belas-Artes, uma jovem lia um volume de poemas de Robert Burns, no original, assim respondendo categoricamente, e na afirmativa, à pergunta que brota de todos os lábios: será que ainda alguém lê Burns nos dias de hoje?

domingo, junho 14, 2009

RECORDAÇÕES DE PARIS (7): A música tocada ao vivo nos transportes públicos era, regra geral, de fraca qualidade, repetitiva e interpretada sem paixão. Foram poucas as ocasiões em que dela retirei genuíno prazer. Uma dessas vezes ocorreu num dos muitos trajectos Paris-Orsay que efectuei. Um guitarrista solitário tocou e cantou "Don Juan", que é desde então uma das minhas canções preferidas de Brassens. Gloire à qui freine à mort, de peur d'ecrabouiller Le hérisson perdu, le crapaud fourvoyé Et gloire à don Juan, d'avoir un jour souri A celle à qui les autres n'attachaient aucun prix Cette fille est trop vilaine, il me la faut
RECORDAÇÕES DE PARIS (6): Dos 15 dias que passei na residência de estudantes dinamarqueses, na Cité Universitaire, recordo sobretudo duas coisas: a vaga de calor que Paris atravessava, por essa altura, e os dois únicos CDs que tinha comigo ("Impromptus", de Schubert, por Radu Lupu, e uma antologia de France Gall). Havia também umas uvas deliciosas, precioso auxiliar na luta contra o calor e a sede.

quinta-feira, junho 11, 2009

WHAT'S NOT TO LIKE ABOUT THESE GUYS?:
Não era precisa (mas lá que ajuda ajuda) a expressão destas afinidades electivas, com destaque para a número 3, para eu gostar dos Nature Theater of Oklahoma. Bastava ter visto "Romeo and Juliet" a produção que trouxeram recentemente ao Teatro Maria Matos. "Romeo and Juliet" baseia-se em conversas em que era pedido aos interlocutores que contassem, de memória, o enredo da peça de Shakespeare. Num autêntico golpe de génio, os actores (magníficos Anne Gridley e Robert M. Johanson) dão voz a essas conversas, às hesitações, tropeços e fantasias típicas de quem se tenta recordar de uma história (aprendida outrora, na juventude, no liceu...) com a ênfase e a dicção de actores Shakespeareanos, um tudo-nada cabotinos. O efeito de distanciamento é desconcertante. Em vez do amor entre Romeu e Julieta, em vez da Verona dos Capuletos e dos Montecchios, o que é trazido à cena é a tragédia processada pela falível memória humana, pela invenção, pelo esforço inglório de reconstrução de um enredo de que apenas restam algumas balizas, uma ou outra personagem, um punhado de citações, alguma cena mais forte (a varanda, sempre a varanda). A aposta é claramente ganha: recordo-me de poucas peças em que um efeito cómico imediato (muito se riu na plateia completamente cheia, nessa noite) seja conjugado de forma tão feliz com a inteligência formal.

(Sentir-me-ia mal com a minha consciência caso não deixasse uma palavra de apreço para a terceira personagem da peça: um ponto vestido de ave que parecia saída da Rua Sésamo. A sua dança silenciosa arrancou algumas das mais sonoras gargalhadas da noite.)

terça-feira, maio 26, 2009

«ESSES PRINCÍPIOS SÃO AQUELES A QUE A SOCIEDADE ATÉ HÁ POUCO CHAMAVA "PORCALHÕES"»: Depois desta primeira investida, não percam "João César das Neves contra os pedagogos do coito e do deboche", em versão redux. Quando João César das Neves finalmente se imolar em público, em jeito de protesto final contra este século libertino, as segundas-feiras perderão o seu único motivo de encanto.
YLANG YLANG: Naquilo que julgo ser uma jogada de marketing inédita, o detergente Surf monopolizou os espaços publicitários de todo o metropolitano de Lisboa (ou pelo menos da linha verde, que é a que eu mais frequento). A concorrência que se cuide. Este golpe de publicidade é obviamente eficaz, pois eu próprio sinto agora vontade de comprar detergente Surf ("pequeno & poderoso"), hesitando apenas entre os aromas Ylang Ylang com Flores Tropicais e Limão com Flores do Campo. Ariel, Skip, Omo e demais perderam a sua aura, e aparecem-me completamente ultrapassados.
TRÁGICA COINCIDÊNCIA: No espaço de poucas semanas, desapareceram o maior divulgador de cinema de animação em Portugal das últimas décadas (Vasco Granja) e o maior divulgador de cinema tout court (João Bénard da Costa). Esperemos que a hecatombe se fique por aqui. Não juntei a minha ao coro de vozes que prestaram homenagem a Vasco Granja, mas devia tê-lo feito. A minha infância (como a de 99,99 % dos meus coevos) ficou marcada pelas emissões que ele protagonizava, como discreto e amigável mestre de cerimónias, ao mesmo tempo cúmplice e didáctico. A cinefilia de Vasco Granja não se confinava aos bonecos animados. Possuo (e li com gosto) um livro de sua autoria, sobre o realizador Dziga Vertov. (Vertov foi responsável por um dos mais maravilhosos títulos da história do cinema: "Lenin habita no coração do campesinato".)

domingo, maio 24, 2009

JOÃO BÉNARD DA COSTA (1935-2009): Num divulgador, num homem vocacionado para formar gostos e hábitos culturais, o carisma e uma certa dimensão maior do que a vida são virtudes de peso. João Bénard da Costa possuía estas duas características e sabia fazer uso delas. Felizmente para todos nós, ao impacto único da sua presença (voz, silhueta, postura) vinham juntar-se a visão, a tenacidade que fez da Cinemateca aquilo que hoje ela é e o talento de falar sobre filmes com uma mistura única de paixão e erudição.
Concordei com algumas das críticas que iam sendo feitas ao seu modo de dirigir a instituição a que presidia, achei escusadas e pouco abonatórias algumas das atitudes que assumiu em polémicas recentes, em particular a que rodeou a sua recondução mau grado o limite de idade. Nada disso importa agora. A obra que deixou não é comensurável com eventuais deslizes, excessos ou despropósitos. Aquilo com que não posso concordar é que, na hora do desaparecimento de um homem com a estatura de João Bénard da Costa, alguns (decerto com as melhores intenções do mundo) julguem que a melhor maneira de lhe prestar homenagem é através de enormidades como "Morreu o cinema" , "O cinema português deve-lhe tudo" e outras do mesmo jaez. A partir de uma dada fasquia de absurdo, a hipérbole, em vez de engrandecer, ofusca o verdadeiro valor do homenageado.
Restam os filmes. Resta vê-los e revê-los, sempre.
"A Lenda da Fortaleza de Suram", de Sergei Paradzhanov, um dos primeiros filmes que vi na Cinemateca.

quarta-feira, maio 20, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um dia em cheio na estação de metro de Telheiras. Uma dama lia "Life on the Mississippi", de Mark Twain. Um cavalheiro lia "La Vieille Dame de Bayeux", de Georges Simenon, integrado numa antologia "Tout Maigret". Telheiras: menospreze-a se quiser, mas faça-o por sua conta e risco!
RECORDAÇÕES DE PARIS (5): Os avisos, afixados nos cinemas, que diziam "Les ouvreuses ne sont rémunérées qu'au pourboire". A reacção, discreta mas ácida, da empregada (dona?) do cinema Reflet Médicis, perto de Saint-Michel, quando não lhe dei gorjeta à entrada (nunca dava).
GOSTAM DE CHAMAR: «a expressão daquilo a que os cavalheiros da classe média que sofrem de enterite gostam de chamar audácia» (Guillaume Apollinaire, a propósito da pintura de Kees van Dongen, citado em "Fauvism", de Sarah Whitfield, Thames & Hudson)

Chemise (1905), Kees van Dongen

domingo, maio 17, 2009

RECORDAÇÕES DE PARIS (4): Os funcionários de serviço ao bengaleiro da gigantesca livraria Gibert Joseph, no Boulevard Saint-Michel, tão sisudos e antipáticos que, com o tempo, abandonei o esforço de lhes dizer "bonjour".
RECORDAÇÕES DE PARIS (3): Entrar no cemitério Montparnasse para fazer horas, antes de uma sessão de cinema. Passar pelas sepulturas de Samuel Beckett, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir.
RECORDAÇÕES DE PARIS (2): Comprar uma televisão com vídeo incorporado, num centro comercial da Place d'Italie. Transportá-la para casa, subestimando idiotamente o esforço necessário para tal, no dia de abertura do Mundial de futebol 1998. Chegar a casa com os braços tão doridos que mal fui capaz de compor o código de acesso ao edifício, mas a tempo de assistir à segunda parte do Brasil-Escócia (vitória do Brasil por 2 a 1).
RECORDAÇÕES DE PARIS (1): Vaguear pelas ruas do sorumbático 16ème arrondissement, num dia de inverno muito frio. Sentir as maçãs do rosto a ficar sem circulação. Entrar num cinema, um pouco ao acaso, para ver "The Spanish Prisoner", de David Mamet.
RECORDAÇÕES DE PARIS (0): Vou hoje iniciar uma nova série de posts, chamada "Recordações de Paris", cujo título me parece dispensar explicações. Já a seguir.
CORRENTES, O ELO MAIS FRACO 'R' US: No que toca a correntes blogosféricas, manda a tradição que eu agradeça a quem se lembrou de mim, que aceite o desafio reservando-me o direito de o subverter a meu gosto, e que não as passe a ninguém.
Não sou grande fã de séries, fundamentalmente porque são raríssimas as que acrescentam alguma coisa de verdadeiramente relevante à existência, sobretudo se comparadas com o cinema (mostrem-me séries de valor comparável a "La Dolce Vita", "Andrei Rubliov" ou "Francisca" e logo falaremos); e, se o objectivo é o entretenimento, existem alternativas que encontram mais graça aos meus olhos.
Limito-me a mencionar duas obras-primas de Dennis Potter: "The Singing Detective" e "Lipstick On Your Collar" (na imagem). Tudo o resto, desde então, soa-me a anticlímax.

terça-feira, maio 12, 2009

IMAGENS E PALAVRAS: A esta (muito completa) lista tenho a acrescentar outro filme de Desplechin, "La Vie des Morts". Nele é lido parte do poema "Le Voyage" (Baudelaire), por vários actores que se revezam, em particular Laurence Côte e Emmanuel Salinger. É uma das mais belas cenas de um filme onde elas são legião.

segunda-feira, maio 04, 2009

GUARDA-SOL AMARELO uma criação colectiva com encenação de Gonçalo Amorim e dramaturgia de Ana Bigotte Vieira
O grupo de teatro da Associação de Residentes de Telheiras Teatroàparte apresenta uma Nova Peça em Maio de 2009. No Auditório da Biblioteca Orlando Ribeiro em Telheiras. Actuações a 15 Maio 22h 16 Maio 22h 22 Maio 22h (inserido na Mostra de Teatro do Lumiar) 23 Maio 16h e 22h 29 Maio 22h 30 Maio 22h Reservas e Informações 96 55 77 545 teatroaparte@sapo.pt -------------------------------------------------------------------------------- Há um guarda-sol amarelo na mitologia da Associação de Residentes de Telheiras, entretanto, tornado seu símbolo gráfico. Mas o mito do guarda-sol amarelo, difundido na pequena brochura, é também uma realidade materializada. Sempre que alguma coisa está para acontecer, há uma campanha em curso, ou se torna urgente gerar mobilização, os chapéus abrem-se nas esquinas de maior movimento. [Ana Contumélias] -------------------------------------------------------------------------------- Guarda-Sol Amarelo é uma meditação sobre a cidade feita por 30 cabeças, 60 mãos, algumas miniaturas, umas maquetas. É sobre estarmos aqui. E é uma espécie de construção em andares da nossa história recente (os 35 anos desta democracia) feita em cima dos mapas emotivos das ruas por onde andamos. -------------------------------------------------------------------------------- O grupo teatroàparte (com o nome Pó de Palco até 2003) foi fundado em Novembro de 1997, no âmbito das actividades lúdicas e culturais da Associação de Residentes de Telheiras (ART), mas rapidamente a sua gestão se tornou autónoma. Actualmente é constituído por cerca de 24 elementos activos. O grupo foi orientado por Susana Graça Oliveira (1997/1998), Fernando Ascenção (1998/1999), Rui Catarino (1999/2000), Pedro Carmo (2000-2004) e Jorge Parente (2005-2007). Desde Fevereiro de 2008, tem vindo a ser orientado por Gonçalo Amorim. O teatroàparte está registado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial. http://teatroaparte.no.sapo.pt/

quinta-feira, abril 30, 2009

ESPREGUIÇAR-SE E ANDAR: Acho fascinante a graciosidade com que os gatos se espreguiçam em andamento, como quem procura poupar tempo conjugando dois gestos independentes. E se há coisa que não falte aos gatos é tempo livre.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um cavalheiro lia um livro de William Makepeace Thackeray, em versão original, no bar do cinema City Classic Alvalade. Pareceu-me tratar-se de "The Four Georges", recolha de conferências sobre os quatro primeiros reis da dinastia de Hanover. Vinte pontos de bónus. Na linha verde do metropolitano, uma senhora lia "Mau Tempo no Canal", de Vitorino Nemésio.

domingo, abril 26, 2009

MY OWN PRIVATE TWITTER: O que estás a fazer? Produção de adenosina trifosfato.
GRANDE PLANO: No romance de Abel Neves, "Corações Piegas", lê-se a páginas tantas: Faltava-me ali o puto e o Matias na janela a ler o bilhetinho. Plano aberto e depois insert do grande plano do rosto sofrido mas esperançado, à Carl Dreyer no seu Dies Irae. No entanto, na folha da Cinemateca dedicada a este filme, Manuel Cintra Ferreira afirma: Dreyer também se distancia de uma característica que fizera a fama de LA PASSION DE JEANNE D'ARC: a utilização do grande plano. A minha memória deste filme é demasiado longínqua e incompleta para me ser de algum auxílio.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha vermelha do metropolitano, um jovem lia "A Metamorfose", de Franz Kafka. Na mesma noite, desta vez na linha verde, foi avistado um jovem com um livro de Whitman, em versão original. Infelizmente, não o estava a ler, entregando-se a outras ocupações. Tratando-se de Whitman, a minha vontade de torcer as regras e contabilizar alguns pontitos de bónus à conta deste avistamento foi muita, mas as regras são as regras, e o resto é caos.
MEIOS E FINS: No documentário sobre Jorge de Sena, que a RTP2 transmitiu ontem, um dos episódios a que se fez alusão tinha a ver com a atribuição de um prémio literário ao romance "A Gata e a Fábula", de Fernanda Botelho, em detrimento da recolha de contos "Andanças do Demónio", de Sena, sob um pretexto com todas as aparências de artificialidade ad hominem. Este episódio era um, de entre muitos, evocado como exemplo da renitência dos conterrâneos de Sena em reconhecerem o seu génio. Não faltava um depoimento de José Saramago, onde este afirmava categoricamente que a escolha de "A Gata e a Fábula", uma «simples história bem contada», representava uma relutância tendenciosa do júri em recompensar o mérito de uma obra muito mais rica e complexa. Nunca li "Andanças do Demónio", mas li "A Gata e a Fábula", e julgo que qualificar este romance de historieta banal é de uma injustiça monumental. A ficção de Fernanda Botelho, de que esta obra não é certamente um dos exemplos menos conseguidos, é de uma subtileza e de uma profundidade que a deviam colocar ao abrigo de apreciações sumárias como esta. Opiniões são opiniões, mas não me parece sensato escamotear a dimensão de obra alheia com o fim de provar uma tese, neste caso a da colossal e permanente injustiça feita a Jorge de Sena.

segunda-feira, abril 20, 2009

CINEMA: Tem graça. Quase sempre, quando surge um esboço de consenso em como um dado filme nada traz de novo à carreira de um realizador, quando este é acusado de se repetir, quando se fala em esgotamento criativo, começo logo a suspeitar de que o filme em questão me irá deveras agradar. Não me costumo enganar. Sucedeu mais uma vez com "La Mujer sin Cabeza", de Lucrecia Martel, como já sucedera com Wong Kar-Wai ("2046"), Greenaway, Rohmer, Kiarostami... "La Mujer sin Cabeza" é um filme magnífico. Gostei ainda mais dele do que de "La Ciénaga" e "La Niña Santa". Poucos realizadores contemporâneos correm de forma tão decidida o risco de filmar o invisível e o indizível. Martel aposta desassombradamente numa via abstractizante, mas servindo-se para isso da dimensão plástica, dos corpos e dos movimentos de câmara. Numa situação narrativa em que o colapso e a desagregação mental são uma ameaça permanente, o cinema e as suas improváveis lógicas aparecem, paradoxalmente, como a única hipótese de manter um símile de coerência. É essa a tensão que atravessa este filme, é essa a tensão que Martel não resolve nem liberta, até ao final. A maneira de filmar de "La Mujer sin Cabeza" pode ser vista como um amadurecimento do estilo que estava já presente nos filmes anteriores. Eu não chamo a isto "repetir-se". Chamo a isto perseverança, busca, fidelidade às ideias.
NÃO DIGAM QUE NÃO AVISEI: Certos admiradores incondicionais do Professor João César das Neves contam sofregamente os dias que os separam da segunda-feira seguinte, mal podendo aguardar pela sua dose semanal de analogias mancas, golpes de rins argumentativos, fogo-de-artíficio de non sequiturs, e no entanto ignoram que o mesmíssimo cronista ocupa uma coluna no "Destak" das quintas-feiras. Trata-se de uma imprudência grave. Com menos espaço do que o que lhe é concedido no "Diário de Notícias", JCN tem menos oportunidade para se espraiar nos seus fleumáticos rodopios retóricos, pelo que a indigência da sua prosa e do seu raciocínio vêm ao de cima com a naturalidade das coisas simples. Algumas destas crónicas não ultrapassam o nível de um banal desabafo; outras permitem-nos vaguear pelos tenebrosos compartimentos de uma mundividência desfasada de vários séculos deste mundo em que vivemos. No passado dia 19 de Março, a intervenção nevesiana foi subordinada ao tema da educação sexual nas escolas. Vale a pena ler o texto na íntegra: «O Parlamento discute o programa de educação sexual das escolas. O Ministério da Educação quer mostrar órgãos sexuais às crianças e explicar-lhes os detalhes de carícias, coito e métodos contraceptivos. Acha que a masturbação é natural, se deve promover o impulso sexual juvenil praticado com segurança e que todos os géneros e famílias são equivalentes. Até pode achar que a educação sexual é só informativa, não formativa. São opiniões legítimas e respeitáveis. Mas é bom lembrar dois pormenores. Primeiro, não são afirmações científicas e terapêuticas. São posições ideológicas, contingentes e discutíveis acerca do comportamento. Quem defende o oposto tem igual legitimidade e merece a mesma respeitabilidade O Ministério não pode impor ao País uma sua opinião como verdade comprovada e definitiva, para mais neste assunto. Segundo, as posições do Ministério não são maioritárias na sociedade portuguesa. Apesar do maciço bombardeamento cultural de televisões, revistas e discursos, Portugal acha que o pudor é uma atitude natural e civilizada, que o sexo deve ser praticado dentro de relação estável e duradoura, que o deboche e a pornografia são más. Em todo o mundo as juras de amor continuam a ser eternas. O espantoso é o Ministério não notar que neste tema está a ser tão tacanho e faccioso como era nos anos 1940. A orientação é oposta, mas a atitude é a mesma do livro único salazarista. Há aqui talvez um traço de carácter nacional. Não esqueçamos que os «Grandes Portugueses», eleitos por sufrágio televisivo em 2007, foram Salazar e Cunhal.» (O texto está também disponível aqui.) Quanto à forma, não há muito a dizer. JCN não foge ao seu método preferido, que consiste em caricaturar as posições dos adversários para mais comodamente argumentar contra elas. (E para quê abster-se de o fazer, se esse modus operandi lhe tem garantido influência e credibilidade, para além um nicho cativo num dos diários de referência do país?) No que ao conteúdo respeita, deixo ao critério do leitor a escolha do naco mais suculento:
  • a imagem de funcionários de ministério arquitectando estratégias para converter alunos das escolas 2+3 em debochados?
  • a alacridade com que o autor, depois de acusar o ministério de estar a impor ao país a sua ideologia, vem falar em nome de Portugal inteiro ("o pudor é uma atitude natural e civilizada")?
  • a singeleza com que proclama que "em todo o mundo as juras de amor continuam a ser eternas", enganando-se não só no século, como no planeta?
  • o gambito final, em que logra associar o puritano Salazar e o ascético Cunhal a uma diatribe contra a lascívia ensinada a petizes?

Perante isto, parece-me ocioso recomendar que não percam o "Destak" das quintas-feiras. Este jornal gratuito é distribuído em estações de metro, aglomerações, estabelecimentos comerciais e semáforos. É certo que as crónicas estão também disponíveis online, mas não é a mesma coisa, não, não é a mesma coisa.

MY OWN PRIVATE TWITTER: O que estás a fazer? Estou aqui ocupado com umas cenas minhas.

quarta-feira, abril 15, 2009

PTARMIGANS: "Ptarmigans". Nunca esta palavra me tinha chamado a atenção, e eis que ontem, no espaço de poucos minutos, a leio em dois sítios diferentes: num poema de Blaise Cendrars ("Lièvres arctiques perdrix de neige ptarmigans") e no almanaque "Schott's Original Miscellany", onde se fica a saber que o nome colectivo que designa um conjunto de "ptarmigans" é "covey". O "Concise Oxford" define assim "ptarmigan": Grouse of northern mountains and the Arctic, whose plumage is white in winter. A palavra deriva do gaélico tàrmachan. O nome científico é Lagopus mutus. É uma bonita palavra, e sinto-me feliz por tê-la aprendido.

terça-feira, abril 07, 2009

AUSÊNCIA: Vou estar sem acesso à Internet durante uns dias, mas nem assim deixarei de twittar, twittarei com alacridade todos os meus movimentos, inspirações, expirações, impressões, dilatações de pupila e pachorrentos meneares de cabeça. Offline twitter is the new black. Boa Páscoa.

domingo, abril 05, 2009

MY OWN PRIVATE TWITTER: O que estás a fazer? Estou a rodar em torno de uma estrela, a uma velocidade aproximada de 30 quilómetros por segundo.