sábado, março 06, 2010

PARIS JE T'AIME: Amanhã (domingo), no suplemento do jornal "Público", será publicado um conto meu. A acção do conto decorre no injustamente esquecido bairro de Ménilmontant, em Paris. Amanhã nas bancas, em todo o país.

quarta-feira, março 03, 2010

CINEMA, AINDA "ANTICRISTO": Há uma frase do artigo da Wikipedia sobre o filme de Lars von Trier que me deixa boquiaberto: To get into the right mood before filming started, both Dafoe and Gainsbourg were shown Andrei Tarkovsky's The Mirror from 1975. "O Espelho", de Tarkovsky (por acaso um dos filmes da minha vida) e "Anticristo" parecem-me irreconciliavelmente opostos em todos os aspectos, do estilo ao argumento, do acidente à essência. "O Espelho" é um filme tão profundo e inimitável que expor-se a ele como fonte de inspiração pode dar lugar a resultados catastróficos e embaraçosos - parece ser esse o ensinamento a retirar daqui. Deixando de parte o sarcasmo, este foi o segundo filme de Lars von Trier que detestei, depois de "Dancer in the Dark". A sua misoginia atinge patamares patológicos e nauseabundos, a tal ponto que a motivação para a analisar e contextualizar se evapora. O cinema, assim como outras artes, é pródigo em casos clínicos. Só vejo nisso um problema quando a minha reacção perante um filme é o desejo de que o realizador faça uma pausa sabática para se tratar, em vez da esperança de que realize em breve um novo filme. Por enquanto, o balanço da obra de von Trier continua a ser positivo, muito graças a "Os Idiotas", "Dogville" e "Breaking the Waves". Mas o declive da encosta é, neste momento, abrupto e descendente.
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:
Quem tem medo do PLEC? Não há que ter medo. Como qualquer processo, o PLEC é um meio, e não o fim. Um processo que nos conduzirá, assim o esperamos, a um Amanhã Melhor, Risonho e Ameno.
Neste momento, o último romance (ou o que quiserem) de uma das minhas autoras preferidas de língua portuguesa.
A seguir, quem sabe?

segunda-feira, março 01, 2010

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: Da influência da traça urbana lisboeta na história de Portugal.
À VOLTA DE KLEIST: Assinale-se o ciclo "À Volta de Kleist", na cinemateca. Começa já no dia 4, com "A Marquesa de O..." de Rohmer, mas as restantes sessões terão lugar só a partir do dia 15.
CINEMA: Saúde-se o inesperado momento de refinadíssimo humor que ocorre no final do filme "Anticristo", de Lars von Trier. Falo, como é óbvio, da dedicatória a Tarkovsky.
SETE ANOS: Este blog existe há 7 anos, cumpridos hoje. Desde o primeiro dia que este blog é um blog onde se defendem os valores republicanos e da laicidade, francófilo assumido, bibliófilo e cinéfilo. Foi com o correr do tempo que surgiu e se instalou a empatia por todos aqueles que, kafkianamente, falham na vida real mas têm razão na metáfora.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:

Estou a tentar pensar num comentário sobre este livro que seja ao mesmo tempo mordaz, sofisticado, irónico e profundo, mas o meu gato não me deixa em paz e é impossível concentrar-me.

(Como não dar razão, perante isto, a José Manuel Fernandes?)

DESCONFIANÇA: José Manuel Fernandes desconfia de mim! Isto não é paranóia. Está escrito, com todas as letras e vírgulas, no simpático blog "Blasfémias". JMF afirma ter uma desconfiança de princípio relativamente a todos aqueles que preferem ter gatos em vez de cães - um subconjunto da humanidade onde, notoriamente, me insiro. Se alguma vez os nossos caminhos se cruzarem terei o cuidado de confessar esta minha fraqueza, por uma questão de delicadeza.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

JOÃO CÉSAR DAS NEVES, ALEGRIA DO POVO: Mané Garrincha foi uma das maiores estrelas do futebol brasileiro dos anos 60. Em 1962 o cineasta Joaquim Pedro de Andrade rodou um documentário sobre ele, intitulado "Garrincha, Alegria do Povo". Dizia-se de Garrincha que todos os espectadores, quando o viam receber a bola no flanco direito, sabiam perfeitamente que finta ele iria fazer. Aquilo que ninguém sabia e que a todos deixava na expectativa, a começar pelo adversário directo, era quando Garrincha iria fazer a finta. João César das Neves é o Garrincha do jornalismo de opinião português. Quando o leitor enceta uma das suas crónicas (em vez de fazer algo de mais salutar, como tocar com os dedos na ponta dos pés ou ir passear o cão) sabe perfeitamente que os cavalos de batalha cesarianos hão-de aparecer, mais cedo ou mais tarde. (Exceptuam-se as crónicas de cariz exclusivamente económico, claramente as menos interessantes.) A grande incógnita, capaz de transmitir um mínimo de emotividade ao exercício, é a altura em que JCN se deixa de rodeios, aproximações e metáforas para enfim espetar a sua farpa, romba e gasta devida ao uso. Veja-se, por exemplo, a sua última intervenção hebdomadária: transita-se do caso das escutas para o Watergate, deste para a natureza humana, desta para o terror revolucionário e o Nasdaq, e eis que, para gáudio da torcida, surge o golpe de rins: JCN cumpre a estocada e instala-se nos terrenos da moral, da homossexualidade e da decadência dos costumes, onde ele se movimenta com reconhecida desenvoltura - nem sempre acompanhada pela clarividência, mas tudo se perdoa a um homem de causas.
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:

Há uns dias cometi uma proeza. Numa só noite, revi o magnífico filme "La Chinoise", de Godard, e não vi "A Bela e o Paparazzo", de António-Pedro Vasconcelos, auto-proclamado dissidente do cinema europeu. Mas seria ir longe demais reivindicar que decidi ler um romance de François Mauriac por ele ser avô de uma das actrizes do filme (Anne Wiazemsky). Os motivos foram outros: o livro estava a 1 euro nos últimos saldos da Buchholz, e tenho um fraco por romances que se passam no meio moralmente corrupto e hipócrita de uma certa burguesia francesa.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

ROHMER, UM HOMEM LIVRE: "Um homem livre." Parece-me ser esta a maneira mais sucinta e, ao mesmo tempo, artisticamente mais justa para designar Éric Rohmer. Conheço poucas personalidades (e não estou a cingir-me ao domínio artístico) a quem o epíteto de "livre" se aplique com maior propriedade. Ao longo de uma carreira de mais de meio século, Rohmer concretizou os seus pressupostos teóricos sob a forma de obras de arte perenes e únicas. Fê-lo com pleno domínio dos seus recursos, com toda a deliberação e ponderação. É tarefa inglória esquadrinhar toda a sua filmografia, fotograma a fotograma, em busca de uma cedência, por minúscula que seja, às modas e às imposições alheias. Nada disto seria relevante, nem digno de especial admiração, se a sensibilidade do homem por detrás da câmara fosse medíocre, se a sua ambição fosse mesquinha. Mas a ambição de Rohmer era desmesurada, a sua sensibilidade era aguda e poderosa. Rohmer nunca deixou de se situar na delicadíssima encruzilhada da vontade, do desejo e do comportamento social e moral. Todas as suas personagens atravessam essa zona, tão misteriosa e paradoxal como a que Tarkovsky sugeriu em "Stalker"; todas elas revelam o seu lado absurdo e profundamente humano no preciso instante em que o livre arbítrio, o acaso e uma versão profana e corriqueira do destino se equivalem e determinam o desfecho. Foi essa a maior de todas as ousadias: em vez de se conformar com receitas e aproximações, Rohmer mostrou-nos mulheres e homens que agem (com diferentes gradações de consciência dos próprios actos) e que sofrem, sozinhos no mundo nesse momento da decisão, que tanto pode ser activa como redundar num abandono à sorte e à concidência (Melvil Poupaud em "Conte d'Été", Charlotte Véry em "Conte d'Hiver", Marie Rivière em "Le Rayon Vert"...). Acima de tudo, os filmes de Rohmer são obras dotadas de uma coerência e intensidade estéticas singulares. Rohmer filmou, ao longo das décadas, como se o amor, o desgosto, a solidão e o desejo fossem os únicos temas dignos. Filmou com a convicção de que o mundo, as paisagens, as ruas, os apartamentos eram cenário suficientemente nobre para conter a gravidade palavrosa dos seres humanos, e que a linguagem viva do cinema, que ele ajudou a criar, era um instrumento privilegiado para a transmitir. Todos lhe devemos muito. Cabe-nos a todos merecer os filmes de Rohmer, e nunca deixar esmorecer, por comodismo ou inércia, a urgência de os rever. (Há cerca de 5 anos e meio, escrevi sobre Rohmer com a abundância própria de um proselitista com demasiado tempo livre entre mãos. O leitor ocioso poderá encontrar esses artigos aqui, aqui e aqui.)

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

I BEG TO DIFFER: Alguém se deu ao trabalho de compilar os piores versos da história da pop. Todas as escolhas são subjectivas - assim o garantem a semântica e a vox populi. Seria um exercício de futilidade contestar a composição desta galeria de horrores. Sucede que nunca ninguém viu este blog fugir da futilidade. Faço questão de assinalar que o autor do artigo parece insensível ao humor deadpan que, claramente, presidiu à redacção destas linhas magníficas And I met a girl / She asked me my name / I told her what it was (Razorlight, "Somewhere Else") e que se inserem na mesma linha estética destas I took her to a supermarket/I don't know why but I had to start it somewhere/So it started there (Pulp, "Common People") prova, entre miríades de outras, do génio de Jarvis Cocker.
ROHMER MAIS FORTE DO QUE AS AGÊNCIAS DE RATING: Tem-me faltado a vontade de escrever, por causa da preocupação com os veredictos das agências de rating sobre a dívida pública portuguesa. Mas deixar passar em claro este excelente artigo sobre "Quatre Aventures de Reinette et Mirabelle" (um dos meus filmes preferidos de Rohmer, e um dos mais ignorados) seria vergonhoso, incoerente e rasteiro, para não falar de criminoso.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha amarela do metropolitano, uma jovem lia "Dom Casmurro", de Machado de Assis. A sua expressão era a de quem cisma acerca do verdadeiro carácter da enigmática Capitu.

terça-feira, janeiro 19, 2010

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Ainda não avistei uma única pessoa a ler Roberto Bolaño em lugares públicos. Que conclusões se podem retirar daqui? Rigorosamente nenhumas.
DIZ QUE DISSE: Pelos vistos, o fact-checking não é actividade muito prezada nos selectos clubes ingleses que João Carlos Espada frequenta. Nesta crónica, o homem que semanalmente explica Popper e Hayek (o Friedrich, não a Salma) às criancinhas e às massas baseia a sua argumentação sobre a liberdade e os seus inimigos numa citação atribuída a Afonso Costa, que teria proclamado alto e bom som a sua intenção de acabar com a religião católica em Portugal em duas gerações. Este é um dos mitos mais fortemente enraizados na história da 1ª República. Chamo-lhe "mito" porque nunca li qualquer confirmação, devidamente fundamentada, desta suposta afirmação. O mito encontra-se desmontado aqui. Não sou historiador; ignoro se existem teses alternativas. Mas acho sintomático que nunca os críticos da 1ª República se dêem ao trabalho de conspurcar os seus imaculados artigos de opinião com uma referenciazita bibliográfica, uma migalha de legitimidade historiográfica que transmitisse ao leitor a impressão de estar perante factos, em vez de meras ideias feitas com um grau de veracidade comensurável com o milagre de Ourique. Como toda a crónica do Prof. Espada se servia como alicerce dessa alegada intenção de aniquilar o catolicismo, a sua validade sofre um certo abalo. O que é pena: os devaneios sobre Isaiah Berlin, liberdade positiva e liberdade negativa merecem ser seguidos, quanto mais não seja para aferir até onde pode ir uma retórica em roda livre, singularmente refractária à realidade. As conclusões, essas, não surpreenderão os leitores habituais do Prof. Espada, entre os quais, bem entendido, tenho a honra de me contar: só na Inglaterra e nos Estados Unidos se vive bem. Aliás, a Inglaterra é amiúde apontada pelo Prof. Espada como exemplo, embora as descrições que dela faz mais depressa evoquem uma nação imaginária (onde imperam o bom senso e a benevolência, onde gregos e troianos convivem pacificamente sob o olhar amável dos bobbies, e onde todos vivem e deixam viver) do que a Inglaterra real, um país que vem no mapa, que tem 51 milhões de habitantes, cuja capital é Londres e onde sucedem coisas como esta. (Francisco Sarsfield Cabral também se juntou ao número dos que atribuíram a Afonso Costa o mesmo propósito explicitamente catolicida. Foi no Público, penso - não tenho o link.)

quinta-feira, janeiro 14, 2010

"RAYUELA", NOTAS DE LEITURA: Ao contrário do que seria de esperar, gostei mais da parte do livro que se passa na Argentina, depois do regresso de Oliveira do exílio parisiense. O convívio com o amigo Traveler e com Talita, a mulher deste, dá origem a páginas de uma profundidade de observação e de uma invenção cómica desconcertantes. É particularmente notável o capítulo 41 (ao que parece, aquele que Cortázar escreveu em primeiro lugar), todo ele um prodígio de burlesco e absurdo, onde Talita se empoleira numa ponte improvisada entre duas janelas de terceiro andar, apenas para entregar a Oliveira um pacote de erva-mate, e onde se aprende mais do que em qualquer outro lugar acerca dos complexos laços que unem o triângulo e do desespero sobre o qual se recortam todas as acções de Oliveira. Gekrepten, a noiva de Oliveira que por ele esperou durante o exílio, poderia ser o vértice que faltava para o triângulo se transformar em quadrado, decerto mais estável e menos atravessado por tensões. Mas Gekrepten é uma personagem insípida, deliberadamente menorizada. Gostaria imenso de saber a origem deste nome, tão invulgar, aparentemente tão pouco devedor da eufonia, e que contudo tanto gosto de repetir. Gekrepten, Gekrepten. O Google, por uma vez, não ajudou.
SOMETIMES IT'S WISER TO BE TRUTHFUL THAN TO LIE, SO YOU WON'T BE BELIEVED. DON'T YOU BELIEVE ME?: Ainda não consegui reunir a coragem para escrever sobre Rohmer, por isso fico-me por esta chamada para um artigo brilhante sobre os paralelismos entre "Triple Agent" e um conto de Nabokov. Outra vez o paradoxo do bluffer sincero, outra vez esta frase, uma das minhas preferidas de toda a obra de Rohmer. Já não me lembrava da cena do jogo de xadrez.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

E OUTROS POSTS: Há também "Léah e outras histórias", do sempre recomendável José Rodrigues Miguéis. Claro que o cúmulo do refinamento seria um livro intitulado "Esta História e outras histórias". Sonhar não custa. E a propósito, deixa-me completar a frase que, decerto por culpa de compromissos inadiáveis, ou de um visitante de Porlock, foste compelido a truncar. «Os melhores autores de contos de todos os tempos foram o Isaac Babel e o Leonard Michaels, sem contar com a Katherine Mansfield, está bem de ver Era isto, não era?