UMA CERTA TENDÊNCIA DE ANTÓNIO-PEDRO VASCONCELOS: Cada país e cada época têm as controvérsias cinéfilas que merecem. Em França, nos anos 50, Truffaut incendiou os ânimos com o artigo "Une Certaine Tendance du Cinéma Français". Mais de 50 anos depois, em Portugal, António-Pedro Vasconcelos
proclama-se "dissidente do cinema europeu" (presumo que sem largar às gargalhadas), e atira um calhau imaginário a um não menos imaginário charco. Não contente, puxa do que ele acredita serem os seus galões para
responder a um crítico, Vasco Câmara, que
desancou o seu último ópus "A Bela e o Paparazzo". Não comento as opinões de VC, uma vez que não vi o filme (a vida é curta, a pilha de DVDs e livros em lista de espera cresce em vez de minguar, e ainda não vi nenhuma das sete novas maravilhas do mundo), limito-me a constatar que APV é um polemista sofrível, embora não lhe faltem algumas qualidades, como a ausência de receio de cair no ridículo. Há que saudar devidamente, por exemplo, tiradas como
«Onde é que isso está, hoje (a emoção), no cinema que ele [Jean-Luc Godard] faz e VC defende?». O leitor fica na dúvida sobre se APV se está a referir ao mesmo Godard, ou se está a recorrer a um inaudito nível de ironia. Claro que o teor emocional de uma obra de arte dependerá sempre do receptor e das suas vivências pessoais, mas custa-me a acreditar que alguém possa ver "Nouvelle Vague", "Éloge de l'Amour" (sobretudo este), "Hélas pour Moi", "JLG/JLG" sem sentir como vibram de emoção e humanidade.
Existe toda uma indústria em torno da história alternativa: romances, contos, filmes e ensaios que tentam responder a questões como: que aspecto teria hoje a Europa se Hitler tivesse ganho a guerra? APV é, que eu saiba, o único a dedicar-se à história alternativa do cinema. Infelizmente, parece revelar dificuldades em distinguir a realidade dos seus cenários alternativos favoritos, em particular aquele em que Godard e a estética da
Nouvelle Vague teriam triunfado em toda a linha, alienando o público ao longo das décadas, e contribuindo para a condição moribunda do cinema europeu. Se é certo que a ruptura, por volta de 1960, foi real e irreversível, Godard não deixou seguidores nem tradição, os seus émulos directos são poucos e pouco interessantes, e não arrastou o cinema europeu para o abismo à custa de ensimesmamento e obstinação experimentalista. Procurem-se outros culpados, se for caso disso, e deixe-se Godard cumprir em paz o seu papel de interrogar o real e a História por meio de imagens e palavras, num exercício de lucidez que o leva a extremos por vezes incómodos. Se falharem o bom senso e a clarividência, que sejam a simples consideração e a decência a evitar que um autor que deu tanto ao cinema seja reduzido ao papel de profeta inconsciente que puxa o tapete por debaixo dos pés dos discípulos.
Éloge de l'Amour (2001)