terça-feira, maio 11, 2010

NOTAS AVULSAS SOBRE A VISITA DO PAPA (2): Compreendo que um católico anseie por ver o papa porque é o papa, o herdeiro do trono de S. Pedro, o símbolo da sua fé, independentemente do homem, das suas limitações e defeitos, das suas palavras, dos seus antecedentes. Não compreendo que uma comunicação social que se desejaria crítica, lúcida e imparcial, as hierarquias mais elevadas de um país soberano e laico, participem desse êxtase colectivo e abdiquem, em nome do protocolo ou da deferência, da faculdade de julgar, do sentido da proporção, do contraditório a que não deixaria de estar sujeita qualquer outra personalidade.
NOTAS AVULSAS SOBRE A VISITA DO PAPA (1): Uma cidade inteira pára para acolher um padre alemão que nunca na vida, que se visse, fez alguma coisa por essa cidade. Um pedido de desculpas pelo incómodo teria sido oportuno.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma senhora lia "O Vermelho e o Negro" na linha verde do metropolitano. Haveria aqui pasto para trocadilhos cromáticos, indignos de um blog que se pauta pela sobriedade. Mas digam lá se Stendhal, de manhãzinha, num transporte público, não é uma coisa linda. Também na linha verde, outra senhora lia Sartre: "Pena Suspensa".

quinta-feira, maio 06, 2010

MORANGOS COM AÇÚCAR: Por uma razão que me ultrapassa, nos "Morangos com Açúcar" escolhem sempre os piores actores para representar polícias e outros agentes de autoridade. Há figurantes que conseguem ser mais eloquentes, ainda que relegados ao segundo plano, a bebericar um Sumol.
TEATROÀPARTE APRESENTA "APESAR DE TUDO É UMA MÚSICA": O Teatroàparte apresenta a peça "Apesar de Tudo É Uma Música", a partir de Jacques Prévert, com encenação de Bruno Bravo. «Partindo do imaginário de Jacques Prévert para a construção de um espectáculo que visita as diversas linguagens do autor, desde a poesia ironicamente pedagógica aos textos dramáticos plenos de uma fantasia amarga, o teatroàparte fabrica um diálogo entre as palavras e a música, os sons e os silêncios. Um trabalho que pretende ser uma aproximação aos anseios de Jacques Prévert, colocando em palco as figuras maiores e menores que sussurram na sua obra. Um espectáculo com música mas sem ser musical, onde se cantará Prévert e a sua canção.» No Auditório da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Telheiras 13 Maio 22h 14 Maio 22h 15 Maio 22h 20 Maio 22h 21 Maio 22h 22 Maio 22h 27 Maio 22h 28 Maio 22h 29 Maio 16h e 22h
PETIÇÃO "CIDADÃOS PELA LAICIDADE": Porque Portugal ainda não é, que me conste, um anexo da Santa Sé. Assinar aqui.

sábado, maio 01, 2010

RETRATO DO ARTISTA ENQUANTO ESTOUVADO: «Je réfléchis quelques instants à l'asile que je choisirais pour la nuit, et j'allai demander l'hospitalité à une personne de vertu moyenne que j'avais connue au commencement de l'hiver.» (Benjamin Constant, Le Cahier Rouge) Considero soberba a expressão "personne de vertu moyenne". "Le Cahier Rouge" (ou "Ma Vie") é um curto texto de cariz autobiográfico que abrange a primeira vintena de anos do autor, e que integra a minha edição de "Adolphe". O destaque vai para os numerosos disparates de juventude (dívidas, paixonetas) que Constant relata com imperturbável candura. Por exemplo, quando o pai o tenta recambiar de Paris para Bois-le-Duc, onde se encontra o regimento a que pertencia, Constant decide fugir para Inglaterra, via Calais. Quando chega a Londres, apesar do capital limitado de que dispõe e da angústia perante as previsíveis consequências do seu gesto, a primeira coisa que faz depois de resolver a questão do alojamento é comprar dois cães e um macaco. A incompatibilidade de feitios com o macaco persuade-o a devolvê-lo, trocando-o por um terceiro cão.
LET'S IGNORE THE TRAILA: Nunca vi um book trailer, nem faço planos para, seja a curto, médio ou longo prazo, colmatar essa lacuna na minha formação cultural. A perda, sem dúvida, é toda minha. Basta olhar para os sorrisos de orelha a orelha que arvoram os consumidores vorazes de book trailers com quem me cruzo na via pública.

terça-feira, abril 27, 2010

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma senhora lia contos de Flannery O'Connor, em versão original, na linha verde do metropolitano.
MORANGOS COM AÇÚCAR: «Sabes qual é o problema das palavras? É que não são actos.» (Paulinha para o João Pedro, em episódio de há algumas semanas.) Diálogos como este confirmam que certas tendências da filosofia analítica começam a exercer um domínio sufocante sobre os enredos dos "Morangos". Entretanto, a Paulinha e o João Pedro caminham rapidamente para a condição de unha com carne, algo que era enfadonhamente previsível mesmo para os enfadonhos padrões desta série.

sexta-feira, abril 23, 2010

LANÇAMENTO: O cartaz diz tudo. Tudo, excepto o prazer que é para mim saber que vai sair um livro da Margarida.

quinta-feira, abril 22, 2010

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: "Adolphe", de Benjamin Constant. Tão distante das maquinações de Laclos como da espontaneidade sentimental de Stendhal, "Adolphe" pode ser descrito como um case-study sobre a ética da relação amorosa, narrado por uma das partes interessadas, sucessivamente criatura amante, amada, e calculista a seu pesar. Vamos ver no que isto dá! Faltou-me a sorte para encontrar uma imagem igual à da capa da minha edição, e a paciência para a digitalizar. Não faz mal. Outras prioridades me reclamam, e a marcha do PLEC não se compadece com obstáculos comezinhos.
RECOMENDO: Há um muito bom artigo sobre "A Serious Man" no blog Only the Cinema. Tenho andado para escrever há que tempos acerca deste filme, que, depois do brilhante "No Country for Old Men", confirmou a minha reconciliação com os manos Coen.
PARA QUEM NÃO TOLERA A TOLERÂNCIA: Dois grupos no Facebook: "Eu trabalho e não quero tolerância de ponto no dia 13 de maio" e "Trabalho para o Estado e não quero tolerância de ponto no dia 13 de Maio!". Aderi a ambos. Enfim, caturrices de ateístas militantes.

segunda-feira, abril 19, 2010

PAVLOV HOJE: Um dos mais edificantes (e previsíveis) efeitos colaterais do escândalo dos abusos sexuais de menores por parte de sacerdotes católicos é o coro de vozes que se ergue contra uma suposta tribo de "ateístas militantes" (variante fenotípica: "laicistas militantes"), culpada das maiores ignomínias, entre as quais a de criticar padres, exigir a sua imputabilidade jurídica, expor a incoerência moral da Igreja católica, exprimir indignação perante dilações e encobrimentos, e outras aleivosias de semelhante calibre. Conheço muitos ateus, mas nunca tive o prazer de me cruzar com um membro dessa espécie de ateístas militantes que tantos cronistas denunciam. Não me consta que milícias de ateus percorram os caminhos de Portugal com o objectivo de extirpar a fé dos crentes à força de varapau. O limiar de indignação destes cronistas é rasteiro; o rótulo de "ateísta militante" é atribuído com desconcertante ligeireza a todo aquele que assinala violações da laicidade do Estado, a todo aquele que aponta o dedo a desmandos eclesiásticos. Valorosos profissionais da opinião como João Pereira Coutinho, Henrique Raposo, Alberto Gonçalves, seriam condescendentes com ateístas e laicistas mansos e amigos do compromisso, que se soubessem manter no seu lugar, que falassem em surdina, que criticassem a Igreja como quem admoesta um sobrinho birrento mas, lá no fundo, excelente rapaz. Face a vozes que chamam os bois pelos nomes, que denunciam alto e bom som situações aberrantes e/ou ilegais (crucifixos nas salas de aula, capelães pagos pelos contribuintes, membros do clero no protocolo do Estado), sentem-se moralmente obrigados a agitar o espantalho do "ateísmo militante", e a descrever os seus adversários como nostálgicos dos sans-culottes, prontos a acusar de pedofilia qualquer criatura que use sotaina. Desculpa-se e aceita-se; é uma questão de status, trata-se de não perder a face no concorrido recreio dos inimigos do politicamente correcto. O que custa um pouco mais a aceitar é a falta de honestidade intelectual. Quando Henrique Raposo acusa os "ateus de serviço" de criticarem sempre a Igreja católica, e nunca o Islão radical, está a ignorar as centenas de posts, por sinal publicados nalguns dos blogs mais lidos e amiúde rotulados como "jacobinos", que atacam ferozmente as monstruosidades do Islão. (Cito apenas este, este e este. Poderia citar outros.) Quando Alberto Gonçalves, que parece comprazer-se na exibição semanal da sua indigência argumentativa, fala em "padres homossexuais que abusam de criancinhas" está a deixar fugir o pé para chinela da homofobia, com uma displicência que ele decerto toma por subtileza, e a baralhar os dados do problema. Turvar as águas não dá trabalho; se o vigor colocado na acção for suficiente, a próxima crónica chegará antes que o lodo assente.
VASSILY SMYSLOV 1921-2010: Vassily Smyslov foi o 7º campeão do mundo de xadrez, estatuto que alcançou ao bater Mikhail Botvinnik em 1957. Perdeu o título no ano seguinte, aquando do match de desforra com o mesmo Botvinnik, o que fez dele um dos campeões do mundo com reinado mais curto. Apesar de nunca ter recuperado o título, manteve-se durante muitos anos como um dos melhores jogadores do mundo. Caso raro de longevidade, atingiu a final do torneio de candidatos ao título mundial em 1982, aos 61 anos, tendo sido derrotado por um jovem Garry Kasparov na sua trajectória irresistível rumo ao topo. Smyslov não tinha a fogosidade de Mikhail Tal, nem o rigor científico de Botvinnik, nem a versatilidade de Boris Spassky, para mencionar apenas alguns dos seus contemporâneos. Dele se afirmou que o seu estilo era tão natural que as jogadas pareciam fluir da própria mão que deslocava as peças, em vez de ter origem algures na massa cerebral. Para além da sua carreira como xadrezista, Smyslov ficou conhecido como barítono, tendo chegado a fazer uma audição no teatro Bolshoi. No entanto, ao contrário do seu compatriota Mark Taimanov (que desenvolveu em paralelo as carreiras de pianista e grande-mestre), dedicou-se em exclusivo ao xadrez em detrimento da música. Assim como a melhor maneira de homenagear um realizador de cinema é revendo os seus filmes, o melhor tributo que se pode prestar a esta figura máxima do xadrez do século XX é a revisitação das suas partidas. (Obituário no Chessbase.)

segunda-feira, abril 12, 2010

"ANTICRISTO" AINDA, ESPERO QUE PELA ÚLTIMA VEZ: Devo dizer que o afastamento relativo aos princípios do "Dogma 95" não me faz perder um minuto de sono. Foi um movimento que teve o mérito de agitar algumas águas e de servir de pretexto para um filme excelente ("Os Idiotas") e outro bastante bom, embora sobrevalorizado ("Festen"). Custa-me a acreditar que os seus subscritores se tenham levado minimamente a sério, e não me surpreenderia que, no momento em que assinaram este manifesto pseudo-rigorista, as respectivas línguas estivessem plantadas nas bochechas contraídas por um sorriso de malícia. O "Dogma 95" foi algo entre a arte conceptual e o calembour. Passados mais de 10 anos, o que me interessa é se um filme é bom ou não é. E "Anticristo" é um filme pavoroso, independentemente de qualquer contextualização ou genealogia. Sustento ser quase impossível que tudo numa longa-metragem suscite repulsa ou indiferença. Em "Anticristo", gostei de:
  • as bolotas a cair
  • a cena em que Willem Dafoe pede a Charlotte Gainsbourg que imagine a chegada à cabana
  • a ária da ópera "Rinaldo" Lascia ch'io pianga, para lá do sublime.
LOTTO: Sucedeu-me já por duas vezes atrair comentários de parceiros de xadrez online por causa do meu nick alusivo a Lorenzo Lotto. A minha admiração por este veneziano desterrado vem de longe e não apresenta tendência para perder pungência com o tempo. Obrigado pela ligação ao excelente artigo de Colm Toíbín, um homem que até já esteve na Casa Branca. E aqui está o meu retrato preferido deste pintor.
É DISTO QUE O MEU POVO GOSTA: João César das Neves, "alegria do povo", parece empenhado num mano-a-mano com Lionel Messi do qual não é garantido que saia derrotado. Bem pode o astro argentino do Barcelona protagonizar exibições brilhantes ao fim-de-semana, no Camp Nou ou noutro estádio: invariavelmente, JCN supera-o com as fintas argumentativas que polvilham as suas crónicas de segunda-feira no "DN". Na semana passada saiu-se com esta "revienga": as críticas à Igreja católica motivadas pelo encobrimento de casos de pedofilia inserem-se numa "guerra cultural" e visam «a promoção do aborto, eutanásia, divórcio, promiscuidade». Nem mais. Às segundas-feiras, no espacinho que as sucessivas direcções do "DN" insistem em atribuir a JCN, a suspensão da incredulidade ganha foros de lei e só raramente as coisas são aquilo que parecem. A sua prestação de hoje não foi menos estonteante: «Ninguém atropelou mais o rigor científico que os iluministas. Ninguém foi mais sangrento que os jacobinos.» Conto debruçar-me sobre esta nova adição ao argumentário nevesiano durante esta semana, antes que o Luís Freitas Lobo ou o António Tadeia se antecipem.

sexta-feira, abril 02, 2010

ISABELLA FALLS IN LOVE: No teatro isabelino existia um vasto e reconhecível repertório de gestos convencionados, aos quais os actores recorriam para representar estados emocionais complexos na certeza de que iriam ser correctamente interpretados pelos espectadores. Este arsenal de maneirismos facilitava a assimilação de papéis novos numa altura em que os tempos de ensaio eram limitados, e permitia a inserção de didascálias de uma concisão fascinante, como «Isabella falls in love». (Fonte: Stephen Coote, "The Penguin Short History of English Literature".)
ESCRITA CRIATIVA: Uma das personagens do romance (ou o que quiserem) "Ilusão (ou o que quiserem)", de Luísa Costa Gomes, propõe uma ideia para peça em que as personagens principais são dois amantes com SIDA, sendo um deles um cinquentão fadista, adepto do Belenenses, cabelos grisalhos, ar distinto, bom nome de família, simpático, galante, bom cavaleiro e bissexual. Um fadista do Belenenses com SIDA e bissexual possui um potencial dramático no mínimo igual ao mítico pasteleiro trotskista que Nanni Moretti menciona em "Caro Diario". O que não é dizer pouco.
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:

O "Daily Mail" descreveu-o como "a page-turner of a masterpiece", o "Guardian" qualificou-o de "stunningly accomplished". Perante isto, como hesitar em confiá-lo às mãos de um dos numerosos comités que protagoniza o glorioso Processo de Leitura Em Curso?

Joseph O'Connor é o irmão de Sinéad O'Connor, que outrora ganhou modesta fama como imitadora da portuguesa Inês Santos.

quinta-feira, março 25, 2010

RATING: Ao contrário do que sucede com Portugal, o rating du umblogsobrekleist permance firme e hirto em AA+, melhor do que muitos frigoríficos. Especuladores, ide bater a outra freguesia!

segunda-feira, março 22, 2010

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:
"El Lado de la Sombra", contos de Adolfo Bioy Casares. As primeiras impressões são francamente boas. Graças ao contacto prévio com Cortázar, já sei que quando uma personagem fala em "comprar erva" está a referir-se a chá mate. O PLEC é também um percurso, que se constrói (adivinharam?) caminhando.

domingo, março 21, 2010

UMA CERTA TENDÊNCIA DE ANTÓNIO-PEDRO VASCONCELOS: Cada país e cada época têm as controvérsias cinéfilas que merecem. Em França, nos anos 50, Truffaut incendiou os ânimos com o artigo "Une Certaine Tendance du Cinéma Français". Mais de 50 anos depois, em Portugal, António-Pedro Vasconcelos proclama-se "dissidente do cinema europeu" (presumo que sem largar às gargalhadas), e atira um calhau imaginário a um não menos imaginário charco. Não contente, puxa do que ele acredita serem os seus galões para responder a um crítico, Vasco Câmara, que desancou o seu último ópus "A Bela e o Paparazzo". Não comento as opinões de VC, uma vez que não vi o filme (a vida é curta, a pilha de DVDs e livros em lista de espera cresce em vez de minguar, e ainda não vi nenhuma das sete novas maravilhas do mundo), limito-me a constatar que APV é um polemista sofrível, embora não lhe faltem algumas qualidades, como a ausência de receio de cair no ridículo. Há que saudar devidamente, por exemplo, tiradas como «Onde é que isso está, hoje (a emoção), no cinema que ele [Jean-Luc Godard] faz e VC defende?». O leitor fica na dúvida sobre se APV se está a referir ao mesmo Godard, ou se está a recorrer a um inaudito nível de ironia. Claro que o teor emocional de uma obra de arte dependerá sempre do receptor e das suas vivências pessoais, mas custa-me a acreditar que alguém possa ver "Nouvelle Vague", "Éloge de l'Amour" (sobretudo este), "Hélas pour Moi", "JLG/JLG" sem sentir como vibram de emoção e humanidade. Existe toda uma indústria em torno da história alternativa: romances, contos, filmes e ensaios que tentam responder a questões como: que aspecto teria hoje a Europa se Hitler tivesse ganho a guerra? APV é, que eu saiba, o único a dedicar-se à história alternativa do cinema. Infelizmente, parece revelar dificuldades em distinguir a realidade dos seus cenários alternativos favoritos, em particular aquele em que Godard e a estética da Nouvelle Vague teriam triunfado em toda a linha, alienando o público ao longo das décadas, e contribuindo para a condição moribunda do cinema europeu. Se é certo que a ruptura, por volta de 1960, foi real e irreversível, Godard não deixou seguidores nem tradição, os seus émulos directos são poucos e pouco interessantes, e não arrastou o cinema europeu para o abismo à custa de ensimesmamento e obstinação experimentalista. Procurem-se outros culpados, se for caso disso, e deixe-se Godard cumprir em paz o seu papel de interrogar o real e a História por meio de imagens e palavras, num exercício de lucidez que o leva a extremos por vezes incómodos. Se falharem o bom senso e a clarividência, que sejam a simples consideração e a decência a evitar que um autor que deu tanto ao cinema seja reduzido ao papel de profeta inconsciente que puxa o tapete por debaixo dos pés dos discípulos.

Éloge de l'Amour (2001)

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem lia Pessoa, "The Book of Disquiet", na linha amarela do metropolitano.

terça-feira, março 16, 2010

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:

Dos escaparates da Fnac para o topo da minha lista de espera, em menos tempo do que leva a dizer «O joy! O rapture!».

quarta-feira, março 10, 2010

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: A circulação estava suspensa na linha verde do metropolitano. De pé, junto das bilheteiras automáticas da estação de Telheiras, um jovem lia "Diário Remendado", de Luiz Pacheco. Ou como transformar uma vicissitude do quotidiano numa oportunidade de desfrutar da literatura portuguesa.

sábado, março 06, 2010

PARIS JE T'AIME: Amanhã (domingo), no suplemento do jornal "Público", será publicado um conto meu. A acção do conto decorre no injustamente esquecido bairro de Ménilmontant, em Paris. Amanhã nas bancas, em todo o país.

quarta-feira, março 03, 2010

CINEMA, AINDA "ANTICRISTO": Há uma frase do artigo da Wikipedia sobre o filme de Lars von Trier que me deixa boquiaberto: To get into the right mood before filming started, both Dafoe and Gainsbourg were shown Andrei Tarkovsky's The Mirror from 1975. "O Espelho", de Tarkovsky (por acaso um dos filmes da minha vida) e "Anticristo" parecem-me irreconciliavelmente opostos em todos os aspectos, do estilo ao argumento, do acidente à essência. "O Espelho" é um filme tão profundo e inimitável que expor-se a ele como fonte de inspiração pode dar lugar a resultados catastróficos e embaraçosos - parece ser esse o ensinamento a retirar daqui. Deixando de parte o sarcasmo, este foi o segundo filme de Lars von Trier que detestei, depois de "Dancer in the Dark". A sua misoginia atinge patamares patológicos e nauseabundos, a tal ponto que a motivação para a analisar e contextualizar se evapora. O cinema, assim como outras artes, é pródigo em casos clínicos. Só vejo nisso um problema quando a minha reacção perante um filme é o desejo de que o realizador faça uma pausa sabática para se tratar, em vez da esperança de que realize em breve um novo filme. Por enquanto, o balanço da obra de von Trier continua a ser positivo, muito graças a "Os Idiotas", "Dogville" e "Breaking the Waves". Mas o declive da encosta é, neste momento, abrupto e descendente.
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:
Quem tem medo do PLEC? Não há que ter medo. Como qualquer processo, o PLEC é um meio, e não o fim. Um processo que nos conduzirá, assim o esperamos, a um Amanhã Melhor, Risonho e Ameno.
Neste momento, o último romance (ou o que quiserem) de uma das minhas autoras preferidas de língua portuguesa.
A seguir, quem sabe?

segunda-feira, março 01, 2010

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: Da influência da traça urbana lisboeta na história de Portugal.
À VOLTA DE KLEIST: Assinale-se o ciclo "À Volta de Kleist", na cinemateca. Começa já no dia 4, com "A Marquesa de O..." de Rohmer, mas as restantes sessões terão lugar só a partir do dia 15.
CINEMA: Saúde-se o inesperado momento de refinadíssimo humor que ocorre no final do filme "Anticristo", de Lars von Trier. Falo, como é óbvio, da dedicatória a Tarkovsky.
SETE ANOS: Este blog existe há 7 anos, cumpridos hoje. Desde o primeiro dia que este blog é um blog onde se defendem os valores republicanos e da laicidade, francófilo assumido, bibliófilo e cinéfilo. Foi com o correr do tempo que surgiu e se instalou a empatia por todos aqueles que, kafkianamente, falham na vida real mas têm razão na metáfora.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:

Estou a tentar pensar num comentário sobre este livro que seja ao mesmo tempo mordaz, sofisticado, irónico e profundo, mas o meu gato não me deixa em paz e é impossível concentrar-me.

(Como não dar razão, perante isto, a José Manuel Fernandes?)

DESCONFIANÇA: José Manuel Fernandes desconfia de mim! Isto não é paranóia. Está escrito, com todas as letras e vírgulas, no simpático blog "Blasfémias". JMF afirma ter uma desconfiança de princípio relativamente a todos aqueles que preferem ter gatos em vez de cães - um subconjunto da humanidade onde, notoriamente, me insiro. Se alguma vez os nossos caminhos se cruzarem terei o cuidado de confessar esta minha fraqueza, por uma questão de delicadeza.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

JOÃO CÉSAR DAS NEVES, ALEGRIA DO POVO: Mané Garrincha foi uma das maiores estrelas do futebol brasileiro dos anos 60. Em 1962 o cineasta Joaquim Pedro de Andrade rodou um documentário sobre ele, intitulado "Garrincha, Alegria do Povo". Dizia-se de Garrincha que todos os espectadores, quando o viam receber a bola no flanco direito, sabiam perfeitamente que finta ele iria fazer. Aquilo que ninguém sabia e que a todos deixava na expectativa, a começar pelo adversário directo, era quando Garrincha iria fazer a finta. João César das Neves é o Garrincha do jornalismo de opinião português. Quando o leitor enceta uma das suas crónicas (em vez de fazer algo de mais salutar, como tocar com os dedos na ponta dos pés ou ir passear o cão) sabe perfeitamente que os cavalos de batalha cesarianos hão-de aparecer, mais cedo ou mais tarde. (Exceptuam-se as crónicas de cariz exclusivamente económico, claramente as menos interessantes.) A grande incógnita, capaz de transmitir um mínimo de emotividade ao exercício, é a altura em que JCN se deixa de rodeios, aproximações e metáforas para enfim espetar a sua farpa, romba e gasta devida ao uso. Veja-se, por exemplo, a sua última intervenção hebdomadária: transita-se do caso das escutas para o Watergate, deste para a natureza humana, desta para o terror revolucionário e o Nasdaq, e eis que, para gáudio da torcida, surge o golpe de rins: JCN cumpre a estocada e instala-se nos terrenos da moral, da homossexualidade e da decadência dos costumes, onde ele se movimenta com reconhecida desenvoltura - nem sempre acompanhada pela clarividência, mas tudo se perdoa a um homem de causas.
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:

Há uns dias cometi uma proeza. Numa só noite, revi o magnífico filme "La Chinoise", de Godard, e não vi "A Bela e o Paparazzo", de António-Pedro Vasconcelos, auto-proclamado dissidente do cinema europeu. Mas seria ir longe demais reivindicar que decidi ler um romance de François Mauriac por ele ser avô de uma das actrizes do filme (Anne Wiazemsky). Os motivos foram outros: o livro estava a 1 euro nos últimos saldos da Buchholz, e tenho um fraco por romances que se passam no meio moralmente corrupto e hipócrita de uma certa burguesia francesa.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

ROHMER, UM HOMEM LIVRE: "Um homem livre." Parece-me ser esta a maneira mais sucinta e, ao mesmo tempo, artisticamente mais justa para designar Éric Rohmer. Conheço poucas personalidades (e não estou a cingir-me ao domínio artístico) a quem o epíteto de "livre" se aplique com maior propriedade. Ao longo de uma carreira de mais de meio século, Rohmer concretizou os seus pressupostos teóricos sob a forma de obras de arte perenes e únicas. Fê-lo com pleno domínio dos seus recursos, com toda a deliberação e ponderação. É tarefa inglória esquadrinhar toda a sua filmografia, fotograma a fotograma, em busca de uma cedência, por minúscula que seja, às modas e às imposições alheias. Nada disto seria relevante, nem digno de especial admiração, se a sensibilidade do homem por detrás da câmara fosse medíocre, se a sua ambição fosse mesquinha. Mas a ambição de Rohmer era desmesurada, a sua sensibilidade era aguda e poderosa. Rohmer nunca deixou de se situar na delicadíssima encruzilhada da vontade, do desejo e do comportamento social e moral. Todas as suas personagens atravessam essa zona, tão misteriosa e paradoxal como a que Tarkovsky sugeriu em "Stalker"; todas elas revelam o seu lado absurdo e profundamente humano no preciso instante em que o livre arbítrio, o acaso e uma versão profana e corriqueira do destino se equivalem e determinam o desfecho. Foi essa a maior de todas as ousadias: em vez de se conformar com receitas e aproximações, Rohmer mostrou-nos mulheres e homens que agem (com diferentes gradações de consciência dos próprios actos) e que sofrem, sozinhos no mundo nesse momento da decisão, que tanto pode ser activa como redundar num abandono à sorte e à concidência (Melvil Poupaud em "Conte d'Été", Charlotte Véry em "Conte d'Hiver", Marie Rivière em "Le Rayon Vert"...). Acima de tudo, os filmes de Rohmer são obras dotadas de uma coerência e intensidade estéticas singulares. Rohmer filmou, ao longo das décadas, como se o amor, o desgosto, a solidão e o desejo fossem os únicos temas dignos. Filmou com a convicção de que o mundo, as paisagens, as ruas, os apartamentos eram cenário suficientemente nobre para conter a gravidade palavrosa dos seres humanos, e que a linguagem viva do cinema, que ele ajudou a criar, era um instrumento privilegiado para a transmitir. Todos lhe devemos muito. Cabe-nos a todos merecer os filmes de Rohmer, e nunca deixar esmorecer, por comodismo ou inércia, a urgência de os rever. (Há cerca de 5 anos e meio, escrevi sobre Rohmer com a abundância própria de um proselitista com demasiado tempo livre entre mãos. O leitor ocioso poderá encontrar esses artigos aqui, aqui e aqui.)

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

I BEG TO DIFFER: Alguém se deu ao trabalho de compilar os piores versos da história da pop. Todas as escolhas são subjectivas - assim o garantem a semântica e a vox populi. Seria um exercício de futilidade contestar a composição desta galeria de horrores. Sucede que nunca ninguém viu este blog fugir da futilidade. Faço questão de assinalar que o autor do artigo parece insensível ao humor deadpan que, claramente, presidiu à redacção destas linhas magníficas And I met a girl / She asked me my name / I told her what it was (Razorlight, "Somewhere Else") e que se inserem na mesma linha estética destas I took her to a supermarket/I don't know why but I had to start it somewhere/So it started there (Pulp, "Common People") prova, entre miríades de outras, do génio de Jarvis Cocker.
ROHMER MAIS FORTE DO QUE AS AGÊNCIAS DE RATING: Tem-me faltado a vontade de escrever, por causa da preocupação com os veredictos das agências de rating sobre a dívida pública portuguesa. Mas deixar passar em claro este excelente artigo sobre "Quatre Aventures de Reinette et Mirabelle" (um dos meus filmes preferidos de Rohmer, e um dos mais ignorados) seria vergonhoso, incoerente e rasteiro, para não falar de criminoso.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha amarela do metropolitano, uma jovem lia "Dom Casmurro", de Machado de Assis. A sua expressão era a de quem cisma acerca do verdadeiro carácter da enigmática Capitu.

terça-feira, janeiro 19, 2010

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Ainda não avistei uma única pessoa a ler Roberto Bolaño em lugares públicos. Que conclusões se podem retirar daqui? Rigorosamente nenhumas.
DIZ QUE DISSE: Pelos vistos, o fact-checking não é actividade muito prezada nos selectos clubes ingleses que João Carlos Espada frequenta. Nesta crónica, o homem que semanalmente explica Popper e Hayek (o Friedrich, não a Salma) às criancinhas e às massas baseia a sua argumentação sobre a liberdade e os seus inimigos numa citação atribuída a Afonso Costa, que teria proclamado alto e bom som a sua intenção de acabar com a religião católica em Portugal em duas gerações. Este é um dos mitos mais fortemente enraizados na história da 1ª República. Chamo-lhe "mito" porque nunca li qualquer confirmação, devidamente fundamentada, desta suposta afirmação. O mito encontra-se desmontado aqui. Não sou historiador; ignoro se existem teses alternativas. Mas acho sintomático que nunca os críticos da 1ª República se dêem ao trabalho de conspurcar os seus imaculados artigos de opinião com uma referenciazita bibliográfica, uma migalha de legitimidade historiográfica que transmitisse ao leitor a impressão de estar perante factos, em vez de meras ideias feitas com um grau de veracidade comensurável com o milagre de Ourique. Como toda a crónica do Prof. Espada se servia como alicerce dessa alegada intenção de aniquilar o catolicismo, a sua validade sofre um certo abalo. O que é pena: os devaneios sobre Isaiah Berlin, liberdade positiva e liberdade negativa merecem ser seguidos, quanto mais não seja para aferir até onde pode ir uma retórica em roda livre, singularmente refractária à realidade. As conclusões, essas, não surpreenderão os leitores habituais do Prof. Espada, entre os quais, bem entendido, tenho a honra de me contar: só na Inglaterra e nos Estados Unidos se vive bem. Aliás, a Inglaterra é amiúde apontada pelo Prof. Espada como exemplo, embora as descrições que dela faz mais depressa evoquem uma nação imaginária (onde imperam o bom senso e a benevolência, onde gregos e troianos convivem pacificamente sob o olhar amável dos bobbies, e onde todos vivem e deixam viver) do que a Inglaterra real, um país que vem no mapa, que tem 51 milhões de habitantes, cuja capital é Londres e onde sucedem coisas como esta. (Francisco Sarsfield Cabral também se juntou ao número dos que atribuíram a Afonso Costa o mesmo propósito explicitamente catolicida. Foi no Público, penso - não tenho o link.)

quinta-feira, janeiro 14, 2010

"RAYUELA", NOTAS DE LEITURA: Ao contrário do que seria de esperar, gostei mais da parte do livro que se passa na Argentina, depois do regresso de Oliveira do exílio parisiense. O convívio com o amigo Traveler e com Talita, a mulher deste, dá origem a páginas de uma profundidade de observação e de uma invenção cómica desconcertantes. É particularmente notável o capítulo 41 (ao que parece, aquele que Cortázar escreveu em primeiro lugar), todo ele um prodígio de burlesco e absurdo, onde Talita se empoleira numa ponte improvisada entre duas janelas de terceiro andar, apenas para entregar a Oliveira um pacote de erva-mate, e onde se aprende mais do que em qualquer outro lugar acerca dos complexos laços que unem o triângulo e do desespero sobre o qual se recortam todas as acções de Oliveira. Gekrepten, a noiva de Oliveira que por ele esperou durante o exílio, poderia ser o vértice que faltava para o triângulo se transformar em quadrado, decerto mais estável e menos atravessado por tensões. Mas Gekrepten é uma personagem insípida, deliberadamente menorizada. Gostaria imenso de saber a origem deste nome, tão invulgar, aparentemente tão pouco devedor da eufonia, e que contudo tanto gosto de repetir. Gekrepten, Gekrepten. O Google, por uma vez, não ajudou.
SOMETIMES IT'S WISER TO BE TRUTHFUL THAN TO LIE, SO YOU WON'T BE BELIEVED. DON'T YOU BELIEVE ME?: Ainda não consegui reunir a coragem para escrever sobre Rohmer, por isso fico-me por esta chamada para um artigo brilhante sobre os paralelismos entre "Triple Agent" e um conto de Nabokov. Outra vez o paradoxo do bluffer sincero, outra vez esta frase, uma das minhas preferidas de toda a obra de Rohmer. Já não me lembrava da cena do jogo de xadrez.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

E OUTROS POSTS: Há também "Léah e outras histórias", do sempre recomendável José Rodrigues Miguéis. Claro que o cúmulo do refinamento seria um livro intitulado "Esta História e outras histórias". Sonhar não custa. E a propósito, deixa-me completar a frase que, decerto por culpa de compromissos inadiáveis, ou de um visitante de Porlock, foste compelido a truncar. «Os melhores autores de contos de todos os tempos foram o Isaac Babel e o Leonard Michaels, sem contar com a Katherine Mansfield, está bem de ver Era isto, não era?
MORTE AOS MITOS!: Um estudo recente colocou em causa a existência do ponto G. Eu sou a favor dos esforços de contestação das verdades adquiridas, desde que alicerçados no rigor e na objectividade. Por exemplo, dentro do mesmo espírito, estaria na altura de se averiguar, de uma vez por todas, se existe o famigerado "petit pan de mur jaune" a que o escritor Bergotte, na obra magistral de Marcel Proust, dedicava tão profunda admiração, . Tenho examinado longamente o quadro de Vermeer, e "petit pan de mur jaune" é coisa que não distingo, nem com a minha lendária boa vontade. Desconfio que o "petit pan de mur jaune" nunca existiu, e sinto-me aliviado por verificar que consigo viver com essa hipótese. Não sou eu o único a nutrir estas dúvidas cruéis, semelhantes a vermes em maçã Granny Smith.
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: Continua a onda sul-americana.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

ÉRIC ROHMER (1920-2010): Um dos maiores, um dos maiores de sempre, um dos maiores em tudo. Ainda não tenho palavras. Só o desgosto.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

LHASA DE SELA (1972-2010): Nunca fui fã. Porém, circunstâncias da minha vida obrigaram-me, a dada altura, a reservar-lhe um pequeno nicho no meu imaginário e no meu disco rígido. De entre as suas canções, a minha preferida é "My Name" (de "The Living Road").
E PRONTO: E pronto, já está. E eu, a quem a ideia de ter "orgulho em ser português" provoca algo de semelhante à náusea, e que só toco na locução "dia histórico" com uma vara de 5 metros, vejo-me à míngua de expressões que não sejam essas, para dar conta do que sinto. Foi um dia histórico. E sinto orgulho em ser português. Por uma vez. «...pour un instant. Pour un instant seulement» como dizia o Brel.

quarta-feira, janeiro 06, 2010

BALANÇO DO ANO (LIVROS): Os livros lidos em 2009 de que mais gostei. Por ordem cronológica de leitura.
  • Antigos Mestres (Thomas Bernhard)
  • The Matisse Stories (A.S. Byatt)
  • Dream of Fair to Middling Women (Samuel Beckett)
  • Armance (Stendhal)
  • Fanny Owen (Agustina Bessa-Luís)
  • Dom Casmurro (Machado de Assis)
  • Bleak House (Charles Dickens)
  • La Princesse de Clèves (Madame de Lafayette)
  • Anatomy of Restlessness (Bruce Chatwin)
  • Les Plaisirs et les Jours (Marcel Proust)
  • Jacobo e outras histórias (Teresa Veiga)
Quanto à poesia, as minhas leituras foram menos sistemáticas e mais escassas, mas não queria deixar de salientar Blaise Cendrars e Rui Coias ("A Ordem do Mundo").
BALANÇO DO ANO (CINEMA): Os melhores filmes que vi em 2009, por ordem cronológica de visionamento: Estreias:
  • El Cant dels Ocells (A. Serra)
  • La Mujer Sin Cabeza (L. Martel) (talvez o melhor do ano)
  • Les Plages d'Agnès (A. Varda)
  • The Limits of Control (J. Jarmusch)
  • 35 Rhums (C. Denis) (não vi este filme belíssimo em nenhum top anual, shame, shame)
Festivais, cinemateca, etc.:
  • filmes de Angela Schanelec (Schöne Gelbe Farbe, Ich Bin den Sommer Über in Berlin Geblieben, Plätze in Städten)
  • Quatre Nuits d'Un Rêveur (R. Bresson)
  • I Clowns (F. Fellini)
  • Ashes of Time Redux (Wong Kar-Wai)
  • Comment Je Me Suis Disputé... (Ma Vie Sexuelle) (A. Desplechin)
  • Die Marquise von O... (E. Rohmer)
  • Ensayo de un Crimen (L. Buñuel)
  • Shirin (A. Kiarostami)
  • Partie de Campagne (J. Renoir)
  • L'Annonce Faite à Marie (A. Cuny)
  • Na Presença de Um Palhaço (I. Bergman)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No Alfa Pendular, entre Porto e Lisboa, uma senhora lia um livro de Günter Grass. Infelizmente, não consegui descobrir qual era o livro.
VAMOS A VOTOS: O 1bsk deseja a todos os seus leitores, amigos, conhecidos, assinantes, benfeitores, mecenas, colaboradores, pessoal administrativo, antigos alunos e agentes inflitrados um ano novo cheio de bolos de arroz, boas leituras, cinema de qualidade e a cores, boa comida, amor e carinhos vários, música do melhor que há, tudo sempre a abrir e sempre a bombar. Pelo que nos toca, continuaremos a dedicar-nos de corpo e alma à missão que nos propusemos há quase sete anos: escrever uns posts de vez em quando e publicá-los neste blog.

terça-feira, dezembro 29, 2009

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: "Rayuela", de Julio Cortázar. Com uma introdução de Andrés Amorós mais longa do que certos romances que já li (por exemplo, "Os Três Seios de Novélia"). A capa da edição que estou a ler é ligeiramente diferente (quadro de Bonnard em vez do jogo da macaca). O Natal é quando um homem quiser, ler a "Rayuela" é quando um homem quiser, e eu quis agora.
O PROBLEMA DA HOMOSSEXUALIDADE É COMPLICADO, OU RUI MACHETE NO SEU MELHOR:
«O casamento gay não é um problema nacional. Sou católico e acho que o casamento para os católicos não é o casamento gay. Não pode ser. Embora tenha respeito pelas pessoas e consideração pelas suas liberdades. Porque o problema da homossexualidade é complicado. Se o Estado acha que é verdadeiramente importante que se discuta e se faça, sobretudo se isso não significar, o que é difícil, um certo abaixamento do nível moral e dos costumes... Isso pode ser feito de várias maneiras, de uma maneira decente e de uma maneira menos decente, só que, de facto, esse não é o principal problema que nós temos.» (Entrevista ao jornal "Público", 27/12/2009.) Que pena é os entrevistadores não terem aprofundado este tema, em vez de (talvez por pressentirem a catástrofe iminente) mudar a agulhagem e abordar o tema do orçamento. Entre as questões que me surgiram, as que mais estimularam a minha curiosidade foram: a) Porque é que, na opinião do Dr. Rui Machete, a homossexualidade é um "problema complicado"? b) Porque será tão difícil que a aprovação do "casamento gay" ocorra sem "um certo abaixamento do nível moral e dos costumes"? Basear-se-á o Dr. Rui Machete na intuição, na dedução, ou na observação de exemplos como a Espanha, onde (é bem sabido) a dissipação e o deboche atingiram níveis históricos após a aprovação dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo? c) Quais são as maneiras "decente" e "menos decente" de promulgar o "casamento gay"? (Tremo só de pensar.)
BOM-SENSO SFF: Aqui há dias, saiu no jornal "Público" uma peça sobre as fases do processo legislativo relativo à alteração do Código Civil que permitirá o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Uma das principais preocupações do autor do artigo foi a de sondar as probabilidades de o processo estar concluído antes da visita a Portugal, prevista para Maio, do cidadão anteriormente conhecido por Joseph Ratzinger. Pasma-me a importância que se atribui a esta visita; mais do que pasmar, indigna-me que se admita sequer que a presença do regedor de um bairro romano (acessoriamente, chefe de estado de uma nação de duvidosíssima legitimidade) possa condicionar um processo que deveria depender apenas da constituição portuguesa e das decisões individuais dos magistrados competentes.

sábado, dezembro 26, 2009

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: Processo de folheamento já concluído, em boa verdade. É o quarto e penúltimo episódio da saga de Tom Ripley. O quinto já está comprado, e não é de esperar que acumule muito bolor na lista de espera. A dada altura, Ripley está em Berlim, hospedado em casa de um indivíduo que se entrega ao tráfico de pedras preciosas. Sozinho no apartamento, Ripley decide inspeccionar aquilo que parecem ser as obras completas de Schiller, numa estante, convencido de que se trata de um esconderijo; afinal, são mesmo livros de Schiller. Um dos encantos do romance reside na maneira como a economia narrativa, as frases directas e isentas de ornamentação, o despojamento estilístico, coexistem com esporádicas incursões na irrelevância.

sábado, dezembro 19, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem lia "Os Passos em Volta", de Herberto Helder, no metropolitano. Uma capa cor-de-laranja na linha verde, essa mesma que une Telheiras ao Cais do Sodré, e vice-versa.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

PIERRE MENARD, AUTOR DE "PIERRE MENARD, AUTOR DO QUIXOTE": Alguém, algures, alguma vez se atreverá a reescrever "Pierre Menard, autor do Quixote"? Uma pitada de recursividade não deixaria de realçar os atractivos deste imortal conto de Borges. (Nota: parte de um sonho.)

sexta-feira, dezembro 11, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma senhora lia "Marius", de Marcel Pagnol, na pastelaria Alsaciana. Ignoro se a incongruência geográfica era involuntária ou tongue in cheek. Um cavalheiro lia o "Mahabharata" no bar da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

terça-feira, dezembro 01, 2009

MINARETES E LAICIDADE: Como é seu costume, o Ricardo é certeiro naquilo que escreve sobre a polémica dos minaretes na Suíça (aqui e aqui). Concordo com tudo e assino por baixo. A transcrição dos excertos da Carta Constitucional e da Lei da Separação é oportuna, e serve para demostrar que, com o resultado deste referendo, a Suíça recuou, em termos de tolerância para com religiões não cristãs, para os níveis do Portugal pré-5 de Outubro de 1910. A verdadeira laicidade é incompatível com limitações à liberdade de culto, sobretudo se se tratar de limitações selectivas, ao sabor da evolução de sensibilidades islamófobas. Quanto àqueles que colocam no mesmo patamar a restrição à edificação de minaretes e a remoção dos crucifixos das salas de aula, ou bem que pecam por ignorância ou bem que pecam por pura e não adulterada má fé. Receio bem que os segundos sejam em número muito superior aos primeiros, e temo por isso que a límpida argumentação do Ricardo acabe por redundar em perda de tempo. Quem não vê algo de tão óbvio está para lá do alcance da lógica e da razoabilidade.

segunda-feira, novembro 30, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Este blog não se compadece com a facilidade, e é apenas por esse motivo que não costumamos assinalar avistamentos de leitores na Fnac. Mas há situações em que abrir uma excepção é um imperativo moral. Na Fnac do Vasco da Gama, um jovem munido de leitor MP3 lia "Portnoy's Complaint", de Philip Roth (o tal que só ganhará o prémio Nobel em 2119). E ria-se com gosto, de vez em quando.
APERTA APERTA COM ELA: O grupo "Estrelas do Alva" interpreta, com inegável brilho, o êxito de José Malhoa "Baile de Verão". "Aquele Querido Mês de Agosto", uma das mais estimulantes surpresas do cinema português dos últimos anos.
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: Depois de "Jacobo e outras histórias", de Teresa Veiga, "Venâncio e outras histórias", de Joaquim Paço d'Arcos. É o segundo livro com um título da forma "[nome próprio masculino] e outras histórias" que eu leio num curto espaço de tempo. Alguém me saberá recomendar outro livro cujo título respeite este requisito formal?
REFERENDE-SE: Proponho que se leve a referendo o dogma da Santíssima Trindade. Está na altura de o povo se manifestar sobre esta questão, cuja importância ninguém de bom senso se lembrará de contestar. Não tenhamos medo de ouvir a voz dos cidadãos. O debate aprofundado que este dogma merece ainda está por realizar.

segunda-feira, novembro 23, 2009

BLUFFER SINCERO: Quando estou a assistir a uma sessão do concurso "Jogo Duplo", é comum recordar-me de uma frase pronunciada pelo extraordinário Serge Renko no extraordinário "Triple Agent" (Éric Rohmer). «Por vezes, é mais inteligente dizer a verdade do que mentir, porque os outros não acreditam em ti.»
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:

Não é de hoje o meu fascínio pelo matemático amador indiano Srinivasa Ramanujan, revelado ao Ocidente pelo ilustre G.H. Hardy. Fiquei contente ao saber que David Leavitt escrevera um romance baseado no encontro improvável entre estes dois homens. Comprei o livro, e agora estou a lê-lo. O facto de se passar em Cambridge é um bónus bem-vindo.

segunda-feira, novembro 09, 2009

LONGE DO ESTORIL: O que me faz lamentar estar a perder o festival de cinema do Estoril é, mais do que Juliette Binoche, David Byrne ou Francis Ford Coppola (e eu admiro-os a todos), a presença na selecção oficial de "Le Roi de l'Évasion", de Alain Guiraudie. Sou grande admirador deste realizador, sobretudo do sublime "Pas de Repos pour les Braves" e da fabulosa média metragem "Du Soleil pour les Gueux". Ao penúltimo filme de Guiraudie, "Voici Venu le Temps", não foi dada oportunidade nas salas portuguesas. Quem sabe quando, ou (suspiro) se, terei oportunidade de assistir a este "Le Roi de l'Évasion"? Dá vontade de ir ali ao Cais do Sodré apanhar o comboio.
OS ABISMOS DE SODOMA, VERSÃO SARAIVA: «Contava-me uma empregada minha que numa casa onde em tempos trabalhou havia um menino que só gostava de brincar com bonecas, tachos e panelas. A minha empregada começou a achar aquilo estranho. E a verdade é que, na saída da adolescência, o menino revelou a sua inclinação homossexual. Este caso deverá ser extremo, mas não há dúvida de que em certas pessoas a inversão sexual se manifesta muito cedo.» José António Saraiva é, em Portugal, o expoente supremo da comicidade involuntária - e não por falta de concorrência. Nesta sua peça sobre o casamento homossexual, o que mais impressiona é o contraste entre a pose de quem escreve, entre oráculo e compenetrado árbitro de costumes, e a atroz banalidade das opiniões que exprime. Prosa como esta constitui um poderoso argumento contra o referendo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, talvez mais eficaz ainda do que o elementar bom senso. A haver um referendo, a haver o tal debate, certamente muito "amplo", muito "alargado" e muito "profundo", o tal debate que se estende há anos mas que alguns insistem em enriquecer com mais achegas e rotações de manivela, argumentação como esta (talvez um pouco menos trôpega) encheria jornais, blogs e prós e contras, durante semanas. Não se deve abusar dos pontapés na nossa sanidade colectiva.
TO WHOM IT MAY CONCERN: Os contos "Eulália e Vina" e "O Fim do Curso", de Teresa Veiga, fariam muito boa figura numa antologia dos melhores contos portugueses do século XX.

sábado, novembro 07, 2009

PRÉMIOS: O prémio Booker foi atribuído a Hilary Mantel ("Wolf Hall"), o Goncourt a Marie NDiaye ("Trois Femmes Puissantes") e o Nobel a Herta Müller. É a primeira vez que estes três prémios são entregues, no mesmo ano, a mulheres. O único ano em que o Booker e o Goncourt tinham sido ambos atribuídos a mulheres, até hoje, tinha sido 1984 (Anita Brookner, "Hotel du Lac", e Marguerite Duras, "L'Amant").
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: Gosto muito da capa.

segunda-feira, novembro 02, 2009

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:
UM LEMA PARA A VIDA:
"I'd rather have a bottle in front of me than a frontal lobotomy."
Qual "E pluribus unum", qual "No hay caminos hay que caminar", qual "If you want something set it free". Este sim, é um lema que merece durar uma vida inteira.
LANÇAMENTO: A antologia luso-brasileira "Um Rio de Contos" (Editorial Tágide) será lançada amanhã, 3 de Novembro, terça-feira, às 18h30, no Espaço Machado de Assis (Avenida da Liberdade, 180-A, 10º andar). A obra será apresentada pelo Embaixador Lauro Moreira e pelo escritor Miguel Real. Participo nesta antologia com um conto cuja acção se desenrola nas margens do garboso rio Guadiana.

sexta-feira, outubro 09, 2009

UMA HORA E VINTE MINUTOS ANTES DO INÍCIO DA JORNADA DE REFLEXÃO, DEIXO-VOS A MINHA HOMENAGEM AO ÍNDICE REBUÇADO: Já conhece o índice rebuçado? Descubra tudo aqui. São inspirações como esta que distinguem uma democracia vibrante e vigorosa de uma democracia apagada e moribunda. Habitantes do Lumiar, a escolha é vossa. Vamos lá mudar de paradigma?
SÓ ALGUNS: Posso garantir, com pleno conhecimento de causa, que não mais de dois telheirenses em cada três lêem Murakami. Falar em "moda" releva do exagero.

quarta-feira, outubro 07, 2009

LIFE, THE TRUTH OF ART AND THE SORROWS OF IMAGINATION: Lá fora chove com abundância bíblica, o tempo não convida a saídas nocturnas, e que melhor maneira de passar um serão doméstico do que ler a crítica do blog "Reverse Shot" ao último filme de Rivette? Angustiam-me um pouco os tons de epitáfio que Damon Smith detectou em "36 Vues du Pic Saint-Loup". Espero que Rivette o desminta, realizando ainda muitos e excelentes filmes.
O QUE FAZ FALTA É ENLAÇAR A MALTA: Fiz um pouco de manutenção na lista dos enlaces. Aproveitei para acrescentar o Jugular, o Ladrões de Bicicletas, o Que Treta! e O Vermelho e o Negro, que já lá deviam estar há muito tempo. Tempus Fugit, como dizia o outro.

segunda-feira, outubro 05, 2009

NOTAS DE LEITURA SOBRE "LES PLAISIRS ET LES JOURS": Proust não tinha em elevada conta a arte da conversação, entendida como pretendente a género literário. Criticou Sainte-Beuve a este respeito, e chegou a pronunciar-se desfavoravelmente sobre Stendhal por este encarar a literatura como uma distracção, e por ter escrito "La Chartreuse de Parme" «faute de maisons où l'on cause agréablement et où l'on serve du zambajon». (Isto como nota de rodapé ao discurso de uma das personagens de "Mondanité et mélomanie de Bouvard et Pécuchet", pastiche de Flaubert onde Mallarmé é depreciado por não ter talento, apesar de ser um "brillant causeur".)
NOTAS BREVES SOBRE O 5 DE OUTUBRO:
  1. A República entra hoje no seu centésimo ano. (Deixemos, por agora, de lado o debate sobre se o Estado Novo merece a designação de "República".) Os 365 dias que se seguem devem ser de celebração, comemoração, informação e debate. Com sobriedade. Deixe-se o monopólio da pompa e da desmesura àquelas instituições mais comprometidas com a irracionalidade e com a suspensão do bom-senso (por exemplo, a monarquia, Fátima, o PC chinês).
  2. Frequentemente, escutam-se vozes preocupadas com a reduzida adesão popular ao feriado do 5 de Outubro. Não me conto entre os que vêem aqui motivo de ansiedade e de estados de alma. Se o 5 de Outubro não se comemora com fervor nem afã, isso deve-se acima de tudo ao facto de a República estar hoje solidamente instituída, a tal ponto que comemorá-la pode parecer uma redundância. (A ausência de multidões eufóricas nas ruas, no 1º de Dezembro, é razão para descrer do apego que os portugueses dedicam à independência do seu país?)
  3. Estes 365 dias não deixarão de trazer a dose fatal de provocações, acrobacias retóricas, e tentativas de fazer crer que existe hoje uma questão de regime em Portugal. Os jornais e televisões agradecem. Deixem a rapaziada da Causa Real, e demais facções (consta que não são poucas), entregar-se aos seus ruidosos e garridos rituais de iniciação, desde que não estraguem muita coisa, e de preferência antes das 2 da manhã, por causa do sono alheio.
  4. Viva a República!

sexta-feira, outubro 02, 2009

BOLO-REI: Que sorte. Pelo que me toca, ainda não me consegui habituar aos disparates deste blog. Quanto ao bolo-rei da "Suprema", eu falei em fama, e não em mérito, coisas que nem sempre andam de mão dada. Mais depressa revelaria o PIN do meu cartão multibanco do que as minhas preferências no campo da doçaria natalícia. Este assunto reveste-se de enorme importância, e aliás tenciono fazer uma comunicação ao país a este propósito, amanhã, às 20 horas e 50 segundos.
MORTES LITERÁRIAS: Uma comentadora da obra de Proust, Anne Henry, assinalou as numerosas semelhanças (que raiam o plágio) entre a morte de Baldassare Silvande, personagem de um conto de "Les Plaisirs et les Jours", e a do Ivan Ilyich de Tolstoi. «Chevaux de chasse et dettes de jeu, alliances princières, revolvers et policiers rossés arrivent tout droit de Moscou pour peupler le délire de Baldassare.»
ESSA MALTA: Pacheco Pereira denuncia, no seu blog, a «grosseria que se torna cada vez mais habitual no vale tudo em que estamos mergulhados». Não podia estar mais de acordo. O exemplo supremo desta grosseria, que PP terá sem dúvida omitido por o achar demasiado óbvio, são as crónicas de Vasco Graça Moura no "Diário de Notícias", que redefine semanalmente as fronteiras da vulgaridade e do bom senso. No seu mais recente esforço, VGM não regateia invectivas contra os mais de 2 milhões de portugueses que votaram no PS: de amorfos a impudentes, passando por invertebrados, tudo cabe no cabaz do tradutor de Petrarca. Momentos inspirados como «eles acabam de mostrar que preferem chafurdar na porcaria a encontrar soluções verdadeiras», ou «O que essa malta quer é o rendimento mínimo, o subsídio por tudo e por nada, a lei do menor esforço» (dê-se ao trabalho de ler a crónica, caro leitor, há muito mais) deverão, se houver justiça, entrar em antologias do uso vergonhoso da língua portuguesa. No meio da torrente, merece especial destaque este mimo: «Não se diga que tomo assim uma atitude de mau perdedor, ou que há falta de fair play da minha parte.» Inquietação inútil: nenhum leitor consciente tomará isto como mau perder. Estamos a falar de outra dimensão. A crónica de VGM está para o mau perder como as invasões dos hunos estão para um calduço na nuca. Um dos maiores mistérios que o nosso dulcíssimo Portugal guarda no seu seio é este: como é que um homem da estirpe intelectual de Vasco Graça Moura permite a si mesmo entregar-se a estes exercícios de má fé e pesporrência? É certo que a erudição não é totalmente incompatível com a boçalidade, mas um caso tão extremo dá que pensar. Quem sabe, porém, se os vindouros, desenquadrados do medíocre contexto histórico em que estamos imersos, não verão nestas tiradas valiosas instâncias de escárnio e maldizer pós-modernos, que contribuirão para a reputação póstuma deste autor. Desiludido com os seus coetâneos, resta a VGM apostar na posteridade.

terça-feira, setembro 29, 2009

E TAMBÉM É O SÍMBOLO DE FACTORIAL!!!: A nova epígrafe do 1bsk espelha, espero que com clareza, a minha posição face à recente polémica sobre as virtudes e vícios no uso do ponto de exclamação. Para breve, neste espaço, pode o leitor contar com uma micro-antologia do ponto de exclamação na literatura universal, incluindo Gerard Manley Hopkins, Emily Brontë, Rimbaud e muitos outros. Nada melhor do que deixar os génios falar.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, uma senhora lia "Boneca de Luxo", de Truman Capote. De pé.

sábado, setembro 19, 2009

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:
SAI UMA MEIA DE LEITE E UMA TORRADA PARA A MINHA FONTE: No (deveras inquietante) caso das alegadas escutas à Presidência da República, uma das perguntas para a qual a nação sequiosa exige resposta é esta: qual foi o café da Avenida de Roma no qual o assessor do PR e o jornalista do "Público" se encontraram? A Avenida de Roma é grande, mas as hipóteses sérias não são tão numerosas quanto isso. Penso que se pode excluir o "Vá-Vá", demasiado vasto, exposto e conhecido para conspirações que não sejam de natureza cinéfila. O "Luanda", situado em posição diametralmente oposta, do outro lado do cruzamento com a Avenida dos E.U.A., parece-me ligeiramente mais favorável, devido à disposição da esplanada (sobre o comprido, propiciando alguns locais discretos). A "Suprema", cujo bolo-rei é muito justamente afamado, afigura-se-me demasiado acanhada, pouco adequada a uma figura pública que pretende passar despercebida. A "Sílvia" possui um espaço coberto que se presta menos mal a tête-à-têtes sigilosos - os cinéfilos recordam-se, decerto, da conversa pungente entre o sr. João de Deus e a empregadita da geladaria, em "A Comédia de Deus". Deixo as considerações sobre outros espaços, como o "Sul-América", para quem frequente mais amiúde o troço setentrional da avenida.
CINEMA: Gostei muito de "The Limits of Control", de Jim Jarmusch, mas não pelas razões que antecipava. Esperava uma declinação jarmuschiana dos temas do filme negro, e vi-me perante um filme que leva a abstracção formal a um patamar pouco frequentado, que transcende géneros e qualquer tentativa de glosa destes, tudo isto sem nunca deixar de se projectar prioritariamente na dimensão pictórica e física. É uma obra deliberadamente vazia de conteúdo (pelo menos no sentido estrito - digamos cognitivo ou narrativo - do termo), mas que se deixa invadir e vibrar por todas as expectativas e memórias do cinéfilo. Está longe de ser um filme arbitrário: todas as personagens, encontros, diálogos, aludem uns aos outros, servem-se mutuamente de eco, formando uma rede de significados cuja decifração é menos importante do que o simples facto da sua existência auto-referente. É, em última análise, um filme completamente legível e isento de fundos falsos. Não existem enigmas em "The Limits of Control", excepção feita ao enigma que é o próprio filme, não mais intrigante do que a própria vida (a vida que o filme, aliás, se abstém elegantemente de imitar) - um enigma que se evacua a si próprio no momento em que Isaach de Bankolé desaparece do campo de visão pela última vez. A solução do problema da vida manifesta-se pelo desaparecimento do problema (Wittgenstein). Entre (tantas) outras coisas, "The Limits of Control" é um festim para o fetichista cinéfilo. Desde que o vi, são inumeráveis as ocasiões em que tive de reprimir o desejo de pedir "two espressos in separate cups".

terça-feira, setembro 08, 2009

ENQUANTO ISSO...: O novo filme de Jacques Rivette, "36 Vues du Pic Saint-Loup", está na selecção oficial do Festival de Veneza. E estreará em França amanhã. Fiquei estupefacto com a duração deste filme: com apenas 84 minutos, é a longa-metragem mais breve da extensa carreira de Rivette. Esperemos que não venha a sofrer o mesmo triste destino de "Ne Touchez Pas la Hache": directamente para DVD sem passar pelas salas portuguesas, sem passar pela casa partida e sem receber 2000 escudos.

sexta-feira, agosto 14, 2009

O LADO NEGRO DA FORÇA: O país, boquiaberto, ficou a saber que no blog 31 da Armada coexistem várias alas, entre as quais uma ala monárquica. E o que decidiram fazer os elementos desta ala, para sair do deprimente anonimato em que viviam? O que empreenderam para promover as suas ideias? Fundaram um partido ou um movimento? Distribuiram panfletos no metropolitano? Convocaram uma flash mob? Nada disso. O ar da sua graça assumiu a forma da substituição da bandeira hasteada na Câmara Municipal de Lisboa por uma bandeira da monarquia. Com esta garotice, ainda para mais perpetrada com uma máscara de Darth Vader(para desencorajar aqueles que ainda alimentassem a veleidade de os levar a sério), os irrequietos monárquicos trivializaram a sua causa e forneceram uma prova adicional de que hoje em dia, em Portugal, não existe uma questão de regime. Estando a defesa da monarquia entregue a folgazões inofensivos com vocação para homem-mosca, a um partido sem expressão (PPM) e a espécimes como os manos Câmara Pereira, a República pode dormir descansada. Claro está que alguma da nossa imprensa, ávida de irrelevâncias, não se ensaiou nada para ver neste pseudo-evento um trampolim para o relançamento do debate sobre a monarquia. Espanta ainda menos que o cidadão Bragança tenha sucumbido à tentação de apanhar a boleia desta frágil barcaça. Ainda falta muito para acabar a silly season?
SPEAKING IN TONGUES: José Mourinho já fala melhor italiano do que alguma vez falou inglês. Dá gosto ouvi-lo alardear o seu mau perder e a sua má fé com uma fluência que ele nunca demonstrou nos seus anos do Chelsea. O emprego da palavra "consapevole" impressionou-me particularmente.

MORANGOS COM AÇÚCAR - CELEBRAR A FESTA DA VIDA É SER RADICAL:

  • O Lucas é o vilão menos convincente da história dos "Morangos". Volta, Guga, estás perdoado.
  • O Vicente aplicou um gancho de direita ao Gonçalo, indignado por este nutrir sentimentos ternos pela sua (do Vicente) mãe, interpretada pela Sylvie Rocha. Sucede que o Gonçalo ficou com um lanho no sobrolho direito, o que me parece carecer cruelmente de verosimilhança.
  • Todas as personagens que estão a curtir as férias em Portimão mudam de roupa todos os dias, e raras vezes repetem uma peça de vestuário. Como é isto possível?.

segunda-feira, julho 27, 2009

CINEMA: No filme "Roma", de Fellini, também não há palavra "fim". Há uma longa e inquietante sequência final que mostra um enxame de motorizadas a percorrer as artérias romanas, e depois o filme acaba. A última bobina chega ao fim e o ecrã deixa de estar iluminado. As pessoas vão-se embora. E é tudo.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem lia "The Picture of Dorian Gray", de Oscar Wilde, numa carruagem que fazia serviço na linha verde do metropolitano. Em Lisboa.
AH, E A SANDUÍCHE DE SUSHI FOI UMA CRUEL DECEPÇÃO: Serei eu o único a pensar que Joanna Newsom não é uma escolha feliz para fundo musical do programa "Entre Pratos", de Henrique Sá Pessoa?