quarta-feira, julho 14, 2010

14 DE JULHO: A tomada da Bastilha foi há 221 anos. Há quem ache que o mundo era um sítio melhor para se viver em 1789 do que em 2010. Há quem pense que a Revolução Francesa não passou de um acto de arruaça, uma erupção de perversidade jacobina e sans-culottista sem antecedentes nem consequências de maior. Há quem defenda que os antigos regimes, com cambiantes de tirania mais ou menos acentuados, acabariam por cair de podres sem precisar de revoluções nem rupturas. Há até quem considere que esses mesmos antigos regimes não eram tão maus quanto os pintam. Não me incluindo em nenhum destes subconjuntos, resta-me celebrar, ano após ano, a data que simboliza um evento que dividiu em dois a história da humanidade, e que, mau grado todos os desvios e circunvoluções, contribuiu, mais do que qualquer outro, para consolidar os conceitos de cidadania e liberdade e fazer destes a fundação para todas as sociedades actuais com razões para se reclamarem decentes.

quinta-feira, julho 08, 2010

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: "Confissões de Uma Máscara", de Mishima, lidas por um jovem no cais da estação do Campo Grande, direcção (a sempre bela, viçosa e surpreendente) Telheiras.
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:
Decidi lê-lo acima de tudo porque se passa em Barcelona. Este foi o romance que revelou o futuro autor de "A Cidade dos Prodígios". É interessante enquanto retrato político e social da época que coincidiu com o final da 1ª Grande Guerra. Do ponto de vista literário, perde-se com demasiada frequência em soluções narrativas algo frouxas e previsíveis, e as personagens não são convincentes. Assinale-se a ousadia da pluralidade de registos (depoimento em tribunal, artigo de jornal, primeira pessoa, terceira pessoa, texto epistolar...).

segunda-feira, julho 05, 2010

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: "La Tempestad", de Juan Manuel de Prada. Prémio Planeta de 1997. Logo nas primeiras páginas deste romance, um anel é lançado à água. Por coincidência (uma das duas tetas de que se nutre o PLEC, sendo a outra a premeditação), o livro que foi lido antes deste acabava literalmente com um anel arremessado à água. No caso do último opus da saga Ripley, tratava-se do anel de Murchison, um americano demasiado curioso que Ripley fora obrigado a suprimir, anos antes. O seu cadáver fora lançado a um dos afluentes do Sena, e repousara debaixo de água até que um outro americano, não menos curioso, o descobriu e trouxe novamente à superfície. O anel, uma das últimas provas que poderia ajudar a incriminar Ripley, é por este devolvido às profundezas, com um sangue-frio totalmente digno da personagem. Quanto ao livro de Prada, a água é a de um canal veneziano, e o anel foi retirado do dedo de um falsificador e ladrão de arte que acaba de ser alvejado, e que irá morrer nos braços do narrador, um obscuro investigador universitário espanhol obcecado com um famoso quadro de Giorgione. Haverá por aí mais romances nos quais anéis são atirados à água? Leitores, caso vos ocorra algum sabeis para onde escrever.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No cais da estação de metropolitano da Baixa-Chiado (linha verde, direcção Telheiras), um cavalheiro lia "Temor e Tremor", de Kierkegaard. A sua indumentária (sobretudo as sandálias de praia com a bandeira do Brasil) mais depressa evocavam o estádio estético da vida do que o ético ou o religioso. Mas desde quando a leitura requer dress code?
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem lia "A Fisiologia do Gosto", de Brillat-Savarin, em plena sala Dr. Félix Ribeiro da Cinemateca. Cruel ironia! Há muito tempo que a Cinemateca abandonou qualquer pretensão à excelência gastronómica. Há tempos, não tão distantes quanto isso, o restaurante sito no piso superior do recinto da Rua Barata Salgueiro reservava aos cinéfilos com larica especialidades como os espinafres à 39 degraus e os peixinhos da horta. Agora, a pobreza da ementa é tamanha que já me levou a saciar-me no McDonald's da Rua Rodrigo da Fonseca, entre umas curtas do Griffith e um Godard (autêntico). Nem só de Daney vive um homem.

terça-feira, junho 29, 2010

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: Não há mais livros da série Tom Ripley para ler. Este foi o último. Isso deixa-me triste. Era bom que houvesse mais. Queria que houvesse tantos livros de Tom Ripley como de Pepe Carvalho, ou da colecção "Uma Aventura". Mas a realidade que temos é esta, e nenhuma outra.

segunda-feira, junho 28, 2010

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:
Leitura motivada em parte por ter tombado, um pouco por acaso, no relato do encontro de Iris Murdoch com Raymond Queneau, e em parte por ser Queneau, de há muitas décadas a esta parte, um dos meus autores de língua francesa favoritos. O PLEC faz-se de acasos e de convicções arreigadas, em garrida e sonora sinergia!
Murdoch referiu-se a Queneau como um "charming ex-surrealist", designação tão curiosa como esta frase sua: «Part of me wants to be Raymond Queneau, another wants to be Thomas Mann» (Peter J. Conradi, "Iris Murdoch - a Life", HarperCollins).
(Ver também isto.)
CLUBE DOS BLOGS MORTOS CADA VEZ MAIS BEM FREQUENTADO: Já se passaram meses, mas ainda não me conformei com o suicídio do "Vermelho e o Negro". Pode ser impressão minha, ou falta de atenção às novidades primavera-verão, mas quer-me parecer que ganha volume a tendência para se calarem as vozes mais originais da blogosfera, e para eclodirem, ocupando canhestramente o espaço deixado vazio, cada vez mais polemistas papagueantes, insonsos e falsamente ousados.
OS TÍTULOS SÃO IMPORTANTES: Acontece-me pelo menos uma vez por ano relembrar uma convicção antiga: "A Hora da Sensação Verdadeira" (Peter Handke) é um dos mais belos e profundos títulos de toda a literatura. Há o paradoxo, ou simulacro de paradoxo (pode uma sensação ser verdadeira)? Há a discreta transição de centro de gravidade, da "sensação" para a "hora", sugerindo que a vivência temporal (balizada por imensidões, antes e depois) é mais importante que a sensação propriamente dita. Há, por fim, a persistência do elemento de autenticidade, dessa "verdade" que é e foi ponto de fuga último de tantos percursos pessoais e tantas narrativas trágicas.

terça-feira, junho 15, 2010

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS, DELEGAÇÃO DA CATALUNHA: No metropolitano de Barcelona lê-se muito mais do que em qualquer lugar público de Lisboa. Por exemplo, na linha 3 (Zona Universitaria - Trinitat Nova) uma senhora lia "The Great Gatsby" em versão original.

quarta-feira, maio 26, 2010

NEIL HANNON BÁLTICO: Q. encontrou semelhanças entre os concorrentes estónios da Eurovisão e os Divine Comedy. E o leitor o que acha?
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um cavalheiro lia "The Legacy of Lord Trenchard". Lord Trenchard foi considerado o pai da Royal Air Force. Tudo isto na linha verde do metropolitano, por uma grande margem a mais esplendorosa e desconcertante de todas.

segunda-feira, maio 17, 2010

FAZ-TE UM HOMEM! QUEIMA UM BOTTICELLI!: «tenho de ver se qualquer dia escrevo qq coisa de jeito sobre o imenso Girolamo [Savonarola]. Pelo menos, era homem: queimava arte, ia directo ao assunto – não lhe escapavam os Botticellis desta vida» (Carlos Vidal) Só nas caixas de comentários do "Cinco Dias" é que se lêem estas coisas.
NOTAS AVULSAS SOBRE A VISITA DO PAPA (4): Aulas canceladas, exames adiados, consultas que não se realizaram, desvios no trânsito, atrasos, escolas fechadas, lixo por recolher. Por mais difíceis de contabilizar que sejam, vale a pena pensar um bocadinho na multiplicidade de transtornos humanos que resultaram da incursão papal de um monarca absoluto pelo território de uma República livre, e destas tolerâncias de ponto ridículas, lamentáveis, incompreensíveis e impopulares.

quinta-feira, maio 13, 2010

CLUBE DO REGIME, CINEASTA DO REGIME: No espaço de poucos dias, ficámos todos a saber que o clube de futebol preferido do Presidente da República é o Olhanense, e que o seu filme da vida, pelos vistos, é "O Pianista" (ver rubrica "Os Filmes dos Presidentes"). Acto contínuo, o Olhanense garantiu a permanência na 1ª divisão (já estou velho para lhe chamar "Liga Sagres", ou seja qual for o patrocinador vigente). Será isto um prenúncio auspicioso para os imbróglios judiciais de Roman Polanski?
NOTAS AVULSAS SOBRE A VISITA DO PAPA (3): Quem tomou a decisão de, dentro da Carris, do Pingo Doce, do Diário de Notícias, de outras empresas e serviços, manifestar apoio explícito à visita do papa, saudar Joseph Ratzinger por meio de bandeirolas, dizeres ou qualquer outro meio, julgou talvez estar a homenagear uma figura consensual, um paladino da paz e da concórdia, uma fonte de onde nada pode jorrar senão o Bem. Mas esta visão é ingénua. O papa representa uma religião, uma agenda, uma mundividência. A sua acção e as suas palavras não são universalmente justas nem imunes à contestação. A nenhuma das suas visitas, discursos, atitudes é alheio o objectivo supremo de servir a causa de uma confissão religiosa, e dos valores a esta associados. Concorde-se ou não com o que Joseph Ratzinger diz e faz, apoiá-lo e celebrar a sua presença de forma incondicional e acrítica, por vezes no limite da vassalagem, como o têm feito tantos e com tanto alarido nos últimos dias, implica tomar partido. Haja consciência disso.

terça-feira, maio 11, 2010

NOTAS AVULSAS SOBRE A VISITA DO PAPA (2): Compreendo que um católico anseie por ver o papa porque é o papa, o herdeiro do trono de S. Pedro, o símbolo da sua fé, independentemente do homem, das suas limitações e defeitos, das suas palavras, dos seus antecedentes. Não compreendo que uma comunicação social que se desejaria crítica, lúcida e imparcial, as hierarquias mais elevadas de um país soberano e laico, participem desse êxtase colectivo e abdiquem, em nome do protocolo ou da deferência, da faculdade de julgar, do sentido da proporção, do contraditório a que não deixaria de estar sujeita qualquer outra personalidade.
NOTAS AVULSAS SOBRE A VISITA DO PAPA (1): Uma cidade inteira pára para acolher um padre alemão que nunca na vida, que se visse, fez alguma coisa por essa cidade. Um pedido de desculpas pelo incómodo teria sido oportuno.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma senhora lia "O Vermelho e o Negro" na linha verde do metropolitano. Haveria aqui pasto para trocadilhos cromáticos, indignos de um blog que se pauta pela sobriedade. Mas digam lá se Stendhal, de manhãzinha, num transporte público, não é uma coisa linda. Também na linha verde, outra senhora lia Sartre: "Pena Suspensa".