quarta-feira, outubro 27, 2010

O MEU CORAÇÃO SÓ TEM UMA COR, VERMELHO E NEGRO: No meio do caos, quase deixava passar em claro o regresso milagroso do blog do melhorio "O Vermelho e o Negro". De finado a ressuscitado: isto sim, é um percurso meritório, e a segunda lei da termodinâmica que se vá encher de moscas.
MAGISTRATURA DE INFLUÊNCIA: Neste blog, acreditamos nos poderes da magistratura de influência. E não só por constatação empírica das suas virtudes, mas também por convicção moral solidamente ancorada.

quarta-feira, outubro 20, 2010

BALANÇO DO NOBEL: O Vaticano criticou o prémio Nobel da medicina. O PCP criticou o prémio Nobel da paz. A isto chamo eu um excelente balanço. O único aspecto negativo foi a desconsideração da Academia Sueca pelos numerosos bloggers portugueses que, ano após ano, proclamam alto e bom som a parcialidade das escolhas do Nobel da literatura e a sua submissão a agendas terceiro-mundistas, politicamente correctas, esquerdizantes, feministas, altermundialistas, etc. Vargas Llosa foi um erro de casting. Para 2011, espera-se uma escolha mais compatível com as edificações mentais deste respeitado sector da opinião pública portuguesa.
APENAS UMA SUGESTÃO: INTERVIEWER: Some people say they can't understand your writing, even after they have read it two or three times. What approach would you suggest for them? WILLIAM FAULKNER: Read it four times. ("The Paris Review Interviews, vol.2")
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um cavalheiro, no metropolitano (não me recordo em que linha), lia "Um Rapaz da Geórgia", de Erskine Caldwell. (Seria a tradução de Jorge de Sena?) Estava de pé. A menos de um metro dele, um outro cavalheiro, este sentado, lia "The Wrench", tradução inglesa do excelente livro de Primo Levi "La Chiave a Stella". Cheguei a recear que estes dois leitores em lugares públicos, ao tocarem-se, se aniquilassem numa tremenda explosão de energia, mas isso não aconteceu.

terça-feira, outubro 05, 2010

O MEU FAVORITO PESSOAL PARA O NOBEL DA LITERATURA:
Não consultei a sua cotação nas principais casas de apostas, mas duvido que paguem menos do que 1 para 10 000. Fica feita a promessa soleníssima de que, caso o prémio seja atribuído a Michel Butor, irei pagar uma rodada de imperiais (ou uma alternativa não alcoólica) às primeiras doze pessoas que escreverem para este blog, desde que tenham o cuidado de inserir uma citação do autor no assunto da mensagem.
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: O Processo continua, contra tudo e contra todos, gozando já de uma adesão popular que ninguém pode ignorar. Provavelmente teria deixado passar este livro, não fossem os ecos que ele teve na blogosfera mais atenta. Falo, em particular, das recensões do João Paulo Sousa e do José Mário Silva, decisivas para aguçar a minha curiosidade relativamente ao romance de Dag Solstad. Uma das coisas que achei mais bem conseguidas neste livro foi a escolha do factor responsável pela crise que abala a vida da personagem principal, um professor norueguês do ensino secundário. Em plena aula, ele julga descobrir uma perspectiva nova sobre uma peça de Ibsen, capaz de iluminar a obra e de revelar significados até aí ocultos; algo, enfim, a meio caminho entre o grandioso e o banal. Uma crise pode nascer de um abalo ou de uma acumulação de anos de nulidade; atribuí-la a um evento que mal sobressai de um fundo de mediocridade, a um pequeno novelo de heterodoxia invisível para os demais, revela coragem e clarividência notáveis. Por coincidência, vi pela segunda vez "Coitado do Jorge", de Jorge Silva Melo, enquanto estava a ler "Pudor e Dignidade". No filme, a crise vivida pela personagem de Jerzy Radziwilowicz parece fruto de geração espontânea, isenta de motivo ou de foco. É um processo com vida própria que parece ocupar os interstícios, cada vez maiores, entre os vários planos da realidade, e que suga energia das fricções, dos movimentos dos corpos, dos sons desencontrados. Tudo isto é admiravelmente concretizado pela realização e pelos actores, pelos planos que funcionam como organismos dotados de dinâmica, propósito, contradições. A origem da crise, da ruptura, do conflito é um dos aspectos onde mais limpidamente se revelam a ousadia e a inteligência narrativa do autor. Pena é que, na grande maioria dos casos, a solução adoptada redunde em cedências a psicologia de fascículo.
VIVA A REPÚBLICA!:

1910-2010

Uma homenagem a todos aqueles que a tornaram possível.

quinta-feira, setembro 30, 2010

E AGORA, UM POST QUE REFLECTE A CONDIÇÃO DO MUNDO EM QUE VIVEMOS, A MINHA WELTANSCHAUUNG ACTUAL, E MUITAS OUTRAS COISAS MAIS: O padre Borga deixa cair o microfone:
OLIMPÍADAS: Estão a decorrer em Khanty-Mansiysk, na Rússia, as Olimpíadas de xadrez. A 2 rondas do final, lideram a Ucrânia, na prova absoluta, e a Rússia na prova feminina. As equipas portuguesas (FORÇA PORTUGAL!!!) vão fazendo pela vida, e estão neste momento numa posição pouco mais ou menos correspondente ao que era esperado. Destaque ainda para o meu herói, Vassily Ivanchuk, que alinhou 6 vitórias consecutivas (incluindo esta partida de antologia, frente ao georgiano Jobava), antes de ceder um empate e, ainda hoje, uma derrota face ao azeri Mamedyarov. O Xadrez64 está a realizar uma excelente cobertura do evento. Costumo queixar-me da paucidade de sites portugueses de xadrez dignos de interesse, mas o Xadrez64 tem tudo o que se poderia pedir: é bem concebido, informativo e actualizado com regularidade. Mais informação sobre as Olimpíadas:
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: O jovem que lia "Daisy Miller" na linha verde do metropolitano faria bem em meditar nas seguintes palavras de James Thurber: I have the reputation for having read all of Henry James. Which would argue a misspent youth and middle age. ("The Paris Review Interviews", vol.2)

sexta-feira, setembro 10, 2010

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS:
  1. Na esplanada do Palácio de Cristal, no Porto, uma senhora lia "Cartas a Sandra", de Vergílio Ferreira.
  2. No Alfa Pendular, sentido Porto-Lisboa, um cavalheiro lia "Once There Was a War" (reportagens de guerra de John Steinbeck), e uma senhora a seu lado lia "Wuthering Heights".
AD HOMINEM: Correm rumores segundo os quais eu seria desfavorável ao desregramento dos sentidos. É uma calúnia suja.

sexta-feira, julho 30, 2010

DO USO DAS ADVERSATIVAS: Penélope Cruz casou-se no princípio do mês com Javier Bardem e já se fala que está grávida do actor. Ainda assim, a actriz espanhola não abdica de dizer o que pensa: «Por mim fechava todas as revistas de adolescentes que encorajam as miúdas a fazer dieta. A sua influência nas raparigas novas é horrenda.» ("Metro" de 29/7/2010. Sublinhado meu.) Trocado por miúdos:
  1. Casou-se.
  2. Está grávida.
  3. Ainda assim, diz o que pensa.
  4. A mulher passou-se!
UMA CERVEJA, SEM INFERNO: Samuel Smith's Imperial Stout. The "liquid Christmas pudding" character (raisins and burnt fruit) found in traditional imperial stouts shows very well in this spicy example. It is also very rich, despite being less strong than some counterparts. (Michael Jackson, "Great Beer Guide") Advertência aos paladares aventureiros: esta cerveja está disponível no restaurante junto aos cinemas Monumental Saldanha. (Como diria Homer Simpson: «Hmm, raisins and burnt fruit».)

sábado, julho 24, 2010

AINDA OS ANÉIS ATIRADOS À ÁGUA: E que dizer da letra da canção "A-Punk", dos Vampire Weekend? I saw Johanna down in the subway She took an apartment in Washington Heights Half of the ring lies here with me But the other half's at the bottom of the sea
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS:
  1. Com a devida vénia ao Eduardo: senhora avistada na linha verde do metropolitano, concentrada na leitura de "Cidade Proibida".
  2. Na cafetaria do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, cavalheiro observado a folhear "Na Cova dos Leões", marco do anticlericalismo português da autoria de Tomás da Fonseca.

terça-feira, julho 20, 2010

DIÁLOGOS SIM, MAS SÓ COM LEUCÒ: «Uma coisa é uma companhia de teatro que vai representar Beckett a Aljustrel, outra é o «criador» que nunca saiu do Bairro Alto e que reclama a mensalidade para espalhar cascas de ovo partidas no chão da galeria com uma legenda a dizer «A CRIAÇÃO DO MUNDO». A «cultura», como tudo, não pode ficar refém dos caprichos daqueles que a produzem, tem de existir, em algum momento, um diálogo qualquer com o resto do mundo. A ideia não é acabar de vez com tudo o que não dê lucro, é acabar de vez com tudo o que não agradece a atenção.» Um diálogo com o mundo... Mal por mal, prefiro o critério do lucro, que tem a vantagem de ser limpo de ambiguidades, claro e quantificável. Dialogar com o mundo... Será que era à louvável disposição de dialogar com o mundo que se entregavam Straub e Huillet quando filmaram "Quei Loro Incontri", Barnett Newman quando pintou as "Stations of the Cross", Leonard Cohen quando compôs "Hallelujah", Pascal Quignard quando escreveu os "Petits Traités"? Tenho as minhas dúvidas. E de que mundo estamos a falar? Da "opinião publica", esse conceito nebuloso do qual cada um faz o que lhe convém? Da constelação de vozes, opiniões, convenções, preconceitos e grunhices que afogam tudo o resto com o seu alarido, seja na praça pública, no ar que respiramos ou em todos os magníficos instrumentos que a Web 2.0 coloca à nossa disposição, a começar pelas caixas de comentários dos blogs? Prefiro o monólogo, o ensimesmamento, a não reconciliação. Prefiro os artistas que não agradecem. (Ver também este excelente post do Jorge.)

ANÉIS ATIRADOS À ÁGUA: Obrigado aos numerosos leitores que responderam a este apelo. Dos milhares de mensagens recebidas, selecciono aleatoriamente três:

  • No romance "Mau Tempo no Canal", Margarida arremessa ao mar o seu anel decorado com uma serpente, depois de se casar com André Barreto.
  • Em "O Silmarillion" de Tolkien, o anel originalmente criado por Sauron, e que confere o poder da invisibilidade ao seu portador, solta-se do dedo do rei Isildur e cai a um rio. Subitamente visível, Isildur é morto pelos Orcs.
  • No filme "Match Point", a personagem de Jonathan Rhys Meyers arremessa ao Tamisa o anel da mulher que assassinou. O anel ressalta num parapeito e cai fora de água, o que acabará por livrar a personagem de uma provável condenação.
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: "Novelas do Defunto Ivan Petróvitch Bélkin", de Aleksandr Púchkin. De quando em quando, um tipo sente uma vontade irreprimível de ler prosa onde entrem samovares, verstas e fidalgos russos roídos pelo tedium vitae.