quinta-feira, dezembro 30, 2010

DUAS FOTOGRAFIAS DA LIVRARIA CITY LIGHTS: Tal como diz o título do post, aqui estão duas fotografias da livraria City Lights:
OS FILMES DO ANO: Em estreia nas salas (ordem cronológica de visionamento): "Shutter Island", Martin Scorsese "A Serious Man", Ethan Coen/Joel Coen "Les Herbes Folles", Alain Resnais "Noite e Dia", Hong Sang-Soo "Io Sono l'Amore", Luca Guadagnino "Irène", Alain Cavalier "36 Vues du Pic Saint-Loup", Jacques Rivette "Le Roi de l'Évasion", Alain Guiraudie "Copie Conforme", Abbas Kiarostami Para a 10ª vaga, hesito entre "Alle Anderen", de Maren Ade, e "La Danse - le Ballet de l'Opéra de Paris", de Frederick Wiseman. Os leitores poderão ajudar a desempatar, manifestando a sua opinião via e-mail. Claro está que também podem não o fazer, mas olhem que o debate sobre o voto obrigatório está aí a fazer furor, e depois não se queixem. Cinemateca e festivais (ordem cronológica de visionamento): "Les Cinéphiles" (1 e 2), Louis Skorecki "La Chinoise", Jean-Luc Godard "Carl Th. Dreyer", Éric Rohmer "Kasaba", Nuri Bilge Ceylan "L'Hypothèse du Tableau Volé", Raoul Ruiz "Le Nom du Feu"/"Les Signes"/"Correspondances", Eugène Green "Badlands", Terrence Malick "Stranger Than Paradise", Jim Jarmusch "Coitado do Jorge", Jorge Silva Melo "La Marseillaise", Jean Renoir "Les Sœurs Brontë", André Téchiné (Desta vez ficam mesmo 11, sem desempate.) Piores do ano: "O Laço Branco", Michael Haneke "Anticristo", Lars von Trier (pior da década?)

quarta-feira, dezembro 29, 2010

HOMENAGEM QUE JÁ TARDAVA: A imprensa portuguesa fez recentemente eco da eleição das mais belas livrarias do mundo pelo guia "Lonely Planet", onde a livraria Lello, do Porto, figura num honroso 3º lugar. Não parece claro quais os critérios que presidiram à elaboração desta lista: à frase «here are our picks for the best spots to browse, buy, hang out, find sanctuary among the shelves, rave about your favourite writers and meet book-loving characters» sobra em jargão de guia de viagem vivaço aquilo que lhe falta em clareza e rigor. Sem desprimor para a Lello, uma livraria que visito sempre com prazer e que oferece uma razoável selecção, nenhum outro critério que não seja o da beleza arquitectónica pode justificar a sua presença nesta lista. Mas isto é difícil de conciliar com o primeiro lugar do pódio atribuído à City Lights de San Francisco, à qual aproveito para prestar homenagem, meses depois de ter tido a sorte de a visitar. A aura beat e o alto patrocínio espiritual de Kerouac constituem factores intangíveis que contribuem para o seu encanto, porém aquilo que fascina o visitante é, muito prosaicamente, a assombrosa qualidade e variedade da sua oferta. O edifício, se bem que classificado como património municipal, está longe de ser extraordinário, excepção feita a uns frescos vistosos na fachada exterior. O espaço não é dos mais vastos, mas o aproveitamento que dele foi feito é excelente. O teor de palha nas estantes é próximo do zero, tanto assim que percorrê-las exige atenção e tempo em níveis muito superiores aos exigidos pelas livrarias comuns, pejadas de monos. A City Lights é, em suma, uma das melhores livrarias onde já entrei, a par da Gibert Joseph e da Hune, em Paris, da Heffers em Cambridge e da Gotham, em NY (esta infelizmente já desaparecida). Esta afirmação vale o que vale, vinda de alguém com hábitos de viagem comedidos, incapaz de competir com a largueza de horizontes do staff da Lonely Planet. Alguns dos livros que comprei na City Lights:
(Harry Mathews é um membro do colectivo OuLiPo, de nacionalidade norte-americana.)
BOM ANO NOVO, COM PAZ, SAÚDE E CRÓNICAS DO PROFESSOR JOÃO CÉSAR DAS NEVES: Na sua última intervenção, João César das Neves discorre sobre as razões do atraso português e consegue omitir a Inquisição e a expulsão dos Judeus. O que não falta é o elogio ao Estado Novo, que teve como resultado «um país seguro, estável e progressivo», adequadamente contrastado com a "canalhice" da República (supõe-se que seja a 1ª) e com a "podridão" do Liberalismo. A peculiar mundividência histórica de JCN é sobejamente conhecida de todos, mas não é comum vê-la exposta de maneira tão cristalina. Há umas semanas, JCN logrou um feito digno de aplauso: numa só frase («No pecado gravíssimo do sexo fora do matrimónio, o preservativo torna-se um detalhe.»), disse mais (ainda que involuntariamente) sobre o desfasamento entre a Igreja e as pessoas do que muitos tratados, teses e ensaios. Que não nos faltem, no ano de 2011 que está prestes a encetar-se, as crónicas de João César das Neves: às segundas-feiras no "Diário de Notícias", às quintas-feiras no "Destak". Num mundo conturbado, precisamos de pontos de referência inamovíveis.
ABSTENCIONISTA: Não costumo votar nem nos "Ídolos" nem na "Operação Triunfo", mas desde já prometo solenemente o meu voto, e a reincidência nesse mesmo voto, ao candidato ou candidata que interprete uma das seguintes canções:
  • "The Man Who Couldn't Afford to Orgy", John Cale
  • "Kit de Prestidigitação", B Fachada
  • "Superafim", Cansei de Ser Sexy
  • "Stratford-On-Guy", Liz Phair
  • "My Legendary Girlfriend", Pulp

quarta-feira, dezembro 08, 2010

MOMENTOS DE PURA FELICIDADE NA FNAC DO CHIADO: Fui à Fnac. Escolhi um CD (sonatas de Beethoven interpretadas por Murray Perahia). A etiqueta dizia 19 euros e tal. Na caixa, o preço que apareceu foi 9 euros e tal. Abstive-me de aprofundar a razão de ser da discrepância. Fiquei contente. (Regra geral, o meu sentimento depois de passar pelas caixas desta Fnac é o oposto. Não percebo qual é a dificuldade em implementar um regime de fila única, garantindo assim o respeito do princípio sagrado do first come, first served.)
RUI PEREIRA COMO JOYCE: O ministro da Administração Interna, perante a destruição causada pelo tornado de ontem, afirmou: «Isto é mesmo, literalmente, o diabo à solta». Por uma saborosa ironia, o advérbio "literalmente" é dos que mais vezes são usados em sentido não literal. Partindo do princípio de que Rui Pereira não pretendeu sugerir que o próprio Satanás andou a deambular e a deixar pegadas de cascos pela região industrial da Sertã, conclui-se que terá cedido ao pecadilho linguístico de usar a palavra "literalmente" como mero elemento enfatizador. Em defesa do ministro, ele encontra-se na soberba companhia do próprio James Joyce, que inicia o seu famoso conto "The Dead" com a seguinte frase: «Lily, the caretaker's daughter, was literally run off her feet.». Os cépticos afirmarão que, no caso de Joyce, se trata de um recurso estilístico deliberado. Sou de opinião de que o mesmo benefício da dúvida deve ser dado a Rui Pereira.
MAIS PÉROLAS DA "PARIS REVIEW": ALICE MUNRO: We had a fundraising event at the Blyth Theater, about ten miles away from here. Everybody contributed something to be auctioned off to raise money, and somebody came up with the idea that I could auction off the right to have the successful bidder's name used for a character in my next story. A woman from Toronto paid four hundred dollars to be a character. Her name was Audrey Atkinson. I suddenly thought, That's the nurse! I never heard from her. I hope she didn't mind. ("The Paris Review Interviews, vol.2") Alice Munro é uma autora celebrada, a quem não têm faltado prémios e elogios. Talvez esteja escrito nas esferas celestes que acabarei por ler alguma das suas obras. Mas não consigo deixar de alimentar reticências sobre o que poderá ter saído de bom da pena de alguém que afirma «Henry James rewrote simple, understandable stuff so it was obscure and difficult». Qualificar um qualquer autor de contos que denotem atenção especial à natureza humana como um "novo Chekhov" tornou-se passatempo banal e popular. Para quando um novo Henry James?

domingo, dezembro 05, 2010

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um leitor lia "Angels & Insects", de A.S. Byatt, no café Magnólia do cinema Londres. É impressão minha, ou o Magnólia deixou de disponibilizar à sua clientela os petit-fours de menta que, outrora, funcionavam como uma espécie de emblema do estabelecimento?
ÍDOLOS: Nunca pensei vir a escrever um post sobre os "Ídolos", mas aqui vai ele. O Neemias é um logro monumental! Os meus preferidos são a Carolina, o Martim e a Sandra.

quinta-feira, novembro 25, 2010

MAIS PÉROLAS DA "PARIS REVIEW": Segundo a nota biográfica no final do 2º volume das entrevistas da "Paris Review", William Gaddis foi expulso de Harvard «on account of an incident of rowdiness». Da entrevista, contudo, não parece transparecer qualquer animosidade dirigida contra o sistema educativo: INTERVIEWER: Your satire concerning education is quite passionate. You must have had bad experiences. WILLIAM GADDIS: No, really the opposite, in fact. I went to boarding school in New England when I was very young, and to college at Harvard, and had a good education. ("The Paris Review Interviews, vol.2")

terça-feira, novembro 23, 2010

DA DIFERENÇA ENTRE HISTORIADORES E HISTORIADORES DE DOMINGO: «Sei que há uma grande tendência hoje para comparar de forma simplista o regime da I República com o Estado Novo, nomeadamente a nível da repressão. Aliás, há mesmo quem diga que a repressão política na I República foi superior à que se assistiu na ditadura salazarista. Em comum nestas comparações, a meu ver erradas, há um esquecimento importante, provavelmente ligado a desconhecimento de factos, que acaba por falsificar a realidade histórica.» (Irene Pimentel, who knows enough about it.)
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:
O centenário do 5 de Outubro serviu de prova em como os historiadores de domingo são legião. No meio da floresta virgem de asserções delirantes sobre a 1ª República (claramente a fase mais negra da história portuguesa desde a traição a Viriato, segundo alguns espíritos valorosos e de pena caudalosa), sabe bem encontrar uma clareira de bom senso e rigor científico.

quinta-feira, novembro 11, 2010

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma leitora lia "A Baía dos Anjos", de Anita Brookner. Tudo se passou -salvo monumental traição da memória - na linha verde do metropolitano
MANUEL CINTRA FERREIRA: Nunca o conheci pessoalmente, mas parece-me impossível gostar de cinema em Portugal, nestas décadas entre um milénio e o seguinte, sem ter convivido de perto com a escrita de Manuel Cintra Ferreira, com a sua insuperável erudição cinéfila, com o seu tão visível amor pelos filmes. Foi muito o que aprendi lendo as críticas dos "quatro magníficos" que, nos anos 80 e 90 (não me recordo do período exacto), faziam da crítica de cinema um exercício de inteligência e de paixão, nas páginas do "Expresso": Manuel Cintra Ferreira, Eduardo Prado Coelho, Jorge Leitão Ramos e João Lopes. De Manuel Cintra Ferreira, guardo dezenas de folhas da cinemateca, soltas ou compiladas; outras tantas pequenas lições de história do cinema, discretas apologias de uma arte que se quer dotada de memória. Ele vai fazer-nos falta.

terça-feira, novembro 02, 2010

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, um leitor lia "A Tale of Two Cities". O facto de se tratar da versão original, e de estar de pé, dá direito a 40 pontos de bónus, como não o ignoram os seguidores fiéis desta rubrica, tão numerosos que já justificavam uma flash mob.
TAMBÉM QUERO: Eu também quero ter um mandatário digital.

segunda-feira, novembro 01, 2010

PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: Aquela que se pode designar como a personagem principal de "Le Mauvais Lieu", de Julien Green (1977), é Louise, uma órfã pré-adolescente que vive com a tia. Rapidamente se torna claro que Louise funciona como receptáculo e ecrã para os desejos, pulsões e frustrações dos que a rodeiam. Ao longo da totalidade do romance, assiste-se ao aniquilamento de Louise como personagem e à sua ascensão ao patamar de símbolo da inocência em risco de ser conspurcada, e neste processo o autor demonstra uma perversidade, no plano simbólico e subtextual, de que nem as mais vis de entre as suas personagens, confinadas ao texto e à existência burguesa, seriam capazes. Como estratagema literário - e é talvez isto que mais custa perdoar - é previsível, denunciado e ineficaz.
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: Um grande, grande livro. Uma busca de felicidade na Londres do pós-WW2, guiada por um imperativo ético em registo semicómico: muito do que sucede à narradora, em termos pessoais e profissionais, decorre da sua obstinação em chamar "pisseur de copie" a um mau escritor protegido por uma autora influente e famosa. O excelente prefácio de Ali Smith elucida a subtileza e o profundo alcance moral deste romance, o décimo oitavo de Muriel Spark, publicado em 1988. "A Far Cry From Kensington" narra uma odisseia da autonomia do espírito e da coragem. A felicidade não surge como um prémio, tão pouco como um caprichoso efeito colateral: antes, como uma radiosa faceta da ordem natural das coisas. O registo, falsamente menor e ligeiro, serve admiravelmente o enredo e a intenção da autora. A ostentação e o excesso de gravidade tê-lo-iam arruinado. Poucas vezes, nos últimos tempos, simpatizei tanto com uma personagem como com a Mrs. Hawkins que engendra esta história, no meio das suas noites de insónia.

quarta-feira, outubro 27, 2010

MAIS PÉROLAS DA "PARIS REVIEW": INTERVIEWER: Is Jorge Luis Borges the only other contemporary poet of note who is also a librarian, by the way? Are you aware of any others? PHILIP LARKIN: Who is Jorge Luis Borges? (...) PHILIP LARKIN: I met Auden once at Stephen Spender's house, which was very kind of Spender, and in a sense he was more frightening than Eliot. I remember he said, Do you like living in Hull? and I said, I don't suppose I'm unhappier there than I should be anywhere else. To which he replied , Naughty, naughty. I thought that was very funny. ("The Paris Review Interviews, vol.2")