segunda-feira, fevereiro 28, 2011
domingo, fevereiro 27, 2011
O aspecto mais curioso de "Jane Eyre" é que se presta com igual ductilidade a ser lido como um manifesto proto-feminista e como o seu oposto. A obsessão de Jane em apoderar-se do próprio destino, ainda que à custa da indigência e da solidão mais absoluta, coexiste ao longo do romance com a sua dedicação total a Rochester, que acaba por tomar o lugar de qualquer ambição pessoal que alguma vez tenha alimentado. O conjunto de circunstâncias que lhe permite, no fim, conciliar a adesão estrita aos seus princípios e a união com um Rochester cego e estropiado, para lá da inverosimilhança e do patético, tem algo de prestidigitatório mas não isento de coerência moral. Confesso que o efeito, quer o pretendido pela autora quer o que resultou da minha leitura (não é garantido que coincidam), quase foi comprometido pela personagem - talvez uma das mais sinistras de toda a literatura inglesa - de St. John Rivers, esse monstro rigorista. O simples facto de Jane ter sequer considerado unir-se a ele em matrimónio e de o acompanhar à Índia está de tal modo desfasado do seu carácter que me pergunto se Charlotte Brontë não terá cedido à tentação de testar a credulidade do leitor - um pequeno jogo que, afinal de contas, nunca fez mal a ninguém.
quarta-feira, fevereiro 16, 2011
- "cinderela de carlos paião em linguagem simbólica" (porque não em morse?)
- "episódio das aventuras de elion em português" (não olhem para mim, sei tanto como vocês)
E, na categoria "parabéns pelo bom gosto":
- "operação jean-luc godard diário de notícias"
- "rui cóias"
- "retratos de odilon redon"
(Estes ingleses nem para falar de um bichano dispensam a newspeak.)
terça-feira, fevereiro 15, 2011
sexta-feira, fevereiro 11, 2011
sábado, fevereiro 05, 2011
Só após a sua morte fiquei a saber que Maria Schneider era filha do actor Daniel Gélin (que nunca a reconheceu).
- "Lola"
- "Autumn Almanac"
- "Days"
Regra geral, incluo a música nos estabelecimentos de restauração entre as 10 maiores pragas da civilização ocidental. Mas desta vez soube bem.
segunda-feira, janeiro 17, 2011
quinta-feira, janeiro 13, 2011
- "bombons garoto" (Parabéns pelo bom gosto.)
- "american beauty saco de plástico kant" (Finalmente alguém percebeu que o filme de Sam Mendes é uma longa paráfrase da "Fundação Metafísica dos Costumes".)
- "autor da letra da canção a 13 de maio" (António Botto, creio.)
- "ensaio winnie the pooh manuel antonio pina" (Deve ter ficado desiludido/a, mas despertou a minha curiosidade.)
- "laurence sterne diário para eliza" (Vide "bombons garoto".)
quarta-feira, janeiro 12, 2011
"Le Roi de l'Évasion", de Alain Guiraudie, teve uma passagem relativamente discreta numa sala de Lisboa, no final do ano passado. Muito do que se escreveu sobre este filme, em Portugal e extra-muros, deu destaque ao facto de Guiraudie oferecer uma perspectiva sobre a homossexualidade, (provinciana, protagonizada por homens idosos ou de meia-idade) distante do paradigma dominante (urbano, jovem, chic). Contudo, para mim, a importância e beleza deste filme vão muito além desta constatação sociológica. "Le Roi de l'Évasion" é um filme de uma liberdade formal exaltante, que se desenrola ao sabor das pulsões, da consciência, das pressões sociais e do desejo, numa interacção complexa que é no fundo aquela de que padece qualquer ser humano. É, como é habitual em Guiraudie, uma obra pontuada por diálogos luminosos, de uma comicidade que nunca oculta observações agudíssimas sobre as contradições do amor.
"Du Soleil pour les Gueux", realizado por Guiraudie 2001, passará na Cinemateca no dia 26 (escolha de Miguel Gomes). Apetecia-me dizer que todas as desculpas para não ir ver este filme são, por definição, pífias, mas infelizmente sucede que eu próprio deverei estar impossibilitado de me deslocar à Barata Salgueiro neste dia. Fica o apelo, com toda a ênfase e poder de persuasão que tenho para dar: vão ver.
Claro que há sempre este prémio de consolação:
("Tout Droit jusqu'au Matin", uma pequenina obra-prima.)
segunda-feira, janeiro 10, 2011
quarta-feira, janeiro 05, 2011
domingo, janeiro 02, 2011
- D.H. Lawrence? Filho de um mineiro. (Logo, proletário.)
- T.S. Eliot? Descrevia a decadência da burguesia, não era?
- Yeats? Irlandês, logo membro de um povo oprimido.
- Virginia Woolf? Mulher.
- Orwell? «At that time [meados dos anos 40] he was being insulted by the Party, because he had told the truth about Spain. The trouble was some of us admired him. How did we get around this? I forget.»
quinta-feira, dezembro 30, 2010
quarta-feira, dezembro 29, 2010
- "The Man Who Couldn't Afford to Orgy", John Cale
- "Kit de Prestidigitação", B Fachada
- "Superafim", Cansei de Ser Sexy
- "Stratford-On-Guy", Liz Phair
- "My Legendary Girlfriend", Pulp
quarta-feira, dezembro 08, 2010
domingo, dezembro 05, 2010
quinta-feira, novembro 25, 2010
terça-feira, novembro 23, 2010
quinta-feira, novembro 11, 2010
terça-feira, novembro 02, 2010
segunda-feira, novembro 01, 2010
Aquela que se pode designar como a personagem principal de "Le Mauvais Lieu", de Julien Green (1977), é Louise, uma órfã pré-adolescente que vive com a tia. Rapidamente se torna claro que Louise funciona como receptáculo e ecrã para os desejos, pulsões e frustrações dos que a rodeiam. Ao longo da totalidade do romance, assiste-se ao aniquilamento de Louise como personagem e à sua ascensão ao patamar de símbolo da inocência em risco de ser conspurcada, e neste processo o autor demonstra uma perversidade, no plano simbólico e subtextual, de que nem as mais vis de entre as suas personagens, confinadas ao texto e à existência burguesa, seriam capazes. Como estratagema literário - e é talvez isto que mais custa perdoar - é previsível, denunciado e ineficaz.
Um grande, grande livro. Uma busca de felicidade na Londres do pós-WW2, guiada por um imperativo ético em registo semicómico: muito do que sucede à narradora, em termos pessoais e profissionais, decorre da sua obstinação em chamar "pisseur de copie" a um mau escritor protegido por uma autora influente e famosa.
O excelente prefácio de Ali Smith elucida a subtileza e o profundo alcance moral deste romance, o décimo oitavo de Muriel Spark, publicado em 1988. "A Far Cry From Kensington" narra uma odisseia da autonomia do espírito e da coragem. A felicidade não surge como um prémio, tão pouco como um caprichoso efeito colateral: antes, como uma radiosa faceta da ordem natural das coisas.
O registo, falsamente menor e ligeiro, serve admiravelmente o enredo e a intenção da autora. A ostentação e o excesso de gravidade tê-lo-iam arruinado.
Poucas vezes, nos últimos tempos, simpatizei tanto com uma personagem como com a Mrs. Hawkins que engendra esta história, no meio das suas noites de insónia.
quarta-feira, outubro 27, 2010
quarta-feira, outubro 20, 2010
terça-feira, outubro 05, 2010
Provavelmente teria deixado passar este livro, não fossem os ecos que ele teve na blogosfera mais atenta. Falo, em particular, das recensões do João Paulo Sousa e do José Mário Silva, decisivas para aguçar a minha curiosidade relativamente ao romance de Dag Solstad. Uma das coisas que achei mais bem conseguidas neste livro foi a escolha do factor responsável pela crise que abala a vida da personagem principal, um professor norueguês do ensino secundário. Em plena aula, ele julga descobrir uma perspectiva nova sobre uma peça de Ibsen, capaz de iluminar a obra e de revelar significados até aí ocultos; algo, enfim, a meio caminho entre o grandioso e o banal. Uma crise pode nascer de um abalo ou de uma acumulação de anos de nulidade; atribuí-la a um evento que mal sobressai de um fundo de mediocridade, a um pequeno novelo de heterodoxia invisível para os demais, revela coragem e clarividência notáveis.
Por coincidência, vi pela segunda vez "Coitado do Jorge", de Jorge Silva Melo, enquanto estava a ler "Pudor e Dignidade". No filme, a crise vivida pela personagem de Jerzy Radziwilowicz parece fruto de geração espontânea, isenta de motivo ou de foco. É um processo com vida própria que parece ocupar os interstícios, cada vez maiores, entre os vários planos da realidade, e que suga energia das fricções, dos movimentos dos corpos, dos sons desencontrados. Tudo isto é admiravelmente concretizado pela realização e pelos actores, pelos planos que funcionam como organismos dotados de dinâmica, propósito, contradições.
A origem da crise, da ruptura, do conflito é um dos aspectos onde mais limpidamente se revelam a ousadia e a inteligência narrativa do autor. Pena é que, na grande maioria dos casos, a solução adoptada redunde em cedências a psicologia de fascículo.
quinta-feira, setembro 30, 2010
sexta-feira, setembro 10, 2010
- Na esplanada do Palácio de Cristal, no Porto, uma senhora lia "Cartas a Sandra", de Vergílio Ferreira.
- No Alfa Pendular, sentido Porto-Lisboa, um cavalheiro lia "Once There Was a War" (reportagens de guerra de John Steinbeck), e uma senhora a seu lado lia "Wuthering Heights".
sexta-feira, julho 30, 2010
- Casou-se.
- Está grávida.
- Ainda assim, diz o que pensa.
- A mulher passou-se!
The "liquid Christmas pudding" character (raisins and burnt fruit) found in traditional imperial stouts shows very well in this spicy example. It is also very rich, despite being less strong than some counterparts. (Michael Jackson, "Great Beer Guide")
Advertência aos paladares aventureiros: esta cerveja está disponível no restaurante junto aos cinemas Monumental Saldanha.
(Como diria Homer Simpson: «Hmm, raisins and burnt fruit».)
sábado, julho 24, 2010
- Com a devida vénia ao Eduardo: senhora avistada na linha verde do metropolitano, concentrada na leitura de "Cidade Proibida".
- Na cafetaria do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, cavalheiro observado a folhear "Na Cova dos Leões", marco do anticlericalismo português da autoria de Tomás da Fonseca.
terça-feira, julho 20, 2010
(Ver também este excelente post do Jorge.)
ANÉIS ATIRADOS À ÁGUA: Obrigado aos numerosos leitores que responderam a este apelo. Dos milhares de mensagens recebidas, selecciono aleatoriamente três:
- No romance "Mau Tempo no Canal", Margarida arremessa ao mar o seu anel decorado com uma serpente, depois de se casar com André Barreto.
- Em "O Silmarillion" de Tolkien, o anel originalmente criado por Sauron, e que confere o poder da invisibilidade ao seu portador, solta-se do dedo do rei Isildur e cai a um rio. Subitamente visível, Isildur é morto pelos Orcs.
- No filme "Match Point", a personagem de Jonathan Rhys Meyers arremessa ao Tamisa o anel da mulher que assassinou. O anel ressalta num parapeito e cai fora de água, o que acabará por livrar a personagem de uma provável condenação.
quarta-feira, julho 14, 2010
Outros desabafos avulsos sobre a Cinemateca:
- Para quando um segundo secador de mãos na casa-de-banho dos homens?
- Mais poltronas!
- O que será de nós quando a vetusta impressora de agulhas que imprime os bilhetes entregar a alma ao criador?
( AVISO IMPORTANTE: "Orouët" rima com "pirouette".)
quinta-feira, julho 08, 2010
segunda-feira, julho 05, 2010
"La Tempestad", de Juan Manuel de Prada. Prémio Planeta de 1997. Logo nas primeiras páginas deste romance, um anel é lançado à água. Por coincidência (uma das duas tetas de que se nutre o PLEC, sendo a outra a premeditação), o livro que foi lido antes deste acabava literalmente com um anel arremessado à água. No caso do último opus da saga Ripley, tratava-se do anel de Murchison, um americano demasiado curioso que Ripley fora obrigado a suprimir, anos antes. O seu cadáver fora lançado a um dos afluentes do Sena, e repousara debaixo de água até que um outro americano, não menos curioso, o descobriu e trouxe novamente à superfície. O anel, uma das últimas provas que poderia ajudar a incriminar Ripley, é por este devolvido às profundezas, com um sangue-frio totalmente digno da personagem. Quanto ao livro de Prada, a água é a de um canal veneziano, e o anel foi retirado do dedo de um falsificador e ladrão de arte que acaba de ser alvejado, e que irá morrer nos braços do narrador, um obscuro investigador universitário espanhol obcecado com um famoso quadro de Giorgione.
Haverá por aí mais romances nos quais anéis são atirados à água? Leitores, caso vos ocorra algum sabeis para onde escrever.
terça-feira, junho 29, 2010
Não há mais livros da série Tom Ripley para ler. Este foi o último. Isso deixa-me triste. Era bom que houvesse mais. Queria que houvesse tantos livros de Tom Ripley como de Pepe Carvalho, ou da colecção "Uma Aventura". Mas a realidade que temos é esta, e nenhuma outra.
segunda-feira, junho 28, 2010
terça-feira, junho 15, 2010
quarta-feira, maio 26, 2010
segunda-feira, maio 17, 2010
quinta-feira, maio 13, 2010
terça-feira, maio 11, 2010
quinta-feira, maio 06, 2010
«Partindo do imaginário de Jacques Prévert para a construção de um espectáculo que visita as diversas linguagens do autor, desde a poesia ironicamente pedagógica aos textos dramáticos plenos de uma fantasia amarga, o teatroàparte fabrica um diálogo entre as palavras e a música, os sons e os silêncios. Um trabalho que pretende ser uma aproximação aos anseios de Jacques Prévert, colocando em palco as figuras maiores e menores que sussurram na sua obra. Um espectáculo com música mas sem ser musical, onde se cantará Prévert e a sua canção.»
No Auditório da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Telheiras
13 Maio 22h 14 Maio 22h 15 Maio 22h 20 Maio 22h 21 Maio 22h 22 Maio 22h 27 Maio 22h 28 Maio 22h 29 Maio 16h e 22h
sábado, maio 01, 2010
terça-feira, abril 27, 2010
sexta-feira, abril 23, 2010
quinta-feira, abril 22, 2010
"Adolphe", de Benjamin Constant. Tão distante das maquinações de Laclos como da espontaneidade sentimental de Stendhal, "Adolphe" pode ser descrito como um case-study sobre a ética da relação amorosa, narrado por uma das partes interessadas, sucessivamente criatura amante, amada, e calculista a seu pesar. Vamos ver no que isto dá! Faltou-me a sorte para encontrar uma imagem igual à da capa da minha edição, e a paciência para a digitalizar. Não faz mal. Outras prioridades me reclamam, e a marcha do PLEC não se compadece com obstáculos comezinhos.
segunda-feira, abril 19, 2010
Assim como a melhor maneira de homenagear um realizador de cinema é revendo os seus filmes, o melhor tributo que se pode prestar a esta figura máxima do xadrez do século XX é a revisitação das suas partidas.
(Obituário no Chessbase.)
segunda-feira, abril 12, 2010
- as bolotas a cair
- a cena em que Willem Dafoe pede a Charlotte Gainsbourg que imagine a chegada à cabana
- a ária da ópera "Rinaldo" Lascia ch'io pianga, para lá do sublime.
sexta-feira, abril 02, 2010
O "Daily Mail" descreveu-o como "a page-turner of a masterpiece", o "Guardian" qualificou-o de "stunningly accomplished". Perante isto, como hesitar em confiá-lo às mãos de um dos numerosos comités que protagoniza o glorioso Processo de Leitura Em Curso?
Joseph O'Connor é o irmão de Sinéad O'Connor, que outrora ganhou modesta fama como imitadora da portuguesa Inês Santos.









