quinta-feira, março 10, 2011
À VENDA NAS BOAS CASAS: Já anda por aí o volume 52 dos "Livrinhos de Teatro" dos Artistas Unidos: "A Europeia e outros textos", de David Lescot. Eu fiz a tradução da terceira peça, "O Aperfeiçoamento". Espero vir um dia a assistir a uma encenação desta peça, mas pergunto-me se haverá muitos actores à altura do desafio. Este monólogo exige uma panóplia de qualidades (incluindo de acrobata) que não é comum ver reunidas num mesmo actor. Uma certa dose de insanidade também deve ajudar.
terça-feira, março 01, 2011
ANTES E DEPOIS: Outras das coisas que eram verdade nesse tempo: os votos de feliz aniversário de cada vez que um blog fazia anos (1 ano, 2 anos, 3 anos os mais velhotes). Era piroso, era paroquial mas tinha graça nos vários sentidos da palavra. Dava pouco trabalho; os blogs que eu seguia e que me interessavam cabiam numa página de um cadernito de endereços. Hoje, seria precisa uma página e meia.
O 1bsk faz anos hoje. Oito anos. Obrigado a todos os leitores. Isto é para continuar.
O ruído destes anos foi o das minhas hierarquias a desmoronarem-se e a reerguerem-se. Muitas coisas passaram ser mais nítidas e mais opacas. E assim é que eu gosto. O olhar de Ingrid Thulin no filme "O Silêncio" continua a presidir a tudo isto.
segunda-feira, fevereiro 28, 2011
domingo, fevereiro 27, 2011
REVISIONISTAS DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!: Pelos vistos, os artigos do Professor João César das Neves não são traduzidos para o idioma árabe. Se o são, não têm a divulgação que merecem. Os povos da Líbia, Bahrein e outras nações insistem na revolta, apesar de JCN ter demonstrado, com a maior limpidez argumentativa, que estão a colocar em risco a sua própria liberdade e que se deviam contentar com a opressão actual em vez de dar largas às suas aspirações por mais democracia e mais justiça. Coitados, correm para a perdição.
En passant, JCN encontra espaço para o enésimo paralelo com a 1ª República portuguesa, decididamente um termo de comparação assombrosamente prolífico. Nisto, JCN faz émulos. Há dias, Joe Berardo, em declarações cuja ausência de ecos revela a escassa importância atribuída à criatura, veio preconizar um "novo género de ditadura", corolário lógico de uma democracia que está "podre". Com um sentido do timing devastador, eis que JB se entrega, também ele, ao exercício de historiografia: «Alguém tem que vir com um novo sistema de democracia e, se for preciso, mudar o sistema político (...). [Quando] Salazar tomou conta de Portugal não havia alimentação e havia bombas em Lisboa todos os dias nos anos 30». O comendador tem toneladas de razão: dinamite e distúrbios são muito mais perniciosos para a economia e para a paz pública do que prisões políticas, tortura, degredo e censura. Seja qual for a ponta por onde se lhe pegue, a democracia é um empecilho.
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:
O aspecto mais curioso de "Jane Eyre" é que se presta com igual ductilidade a ser lido como um manifesto proto-feminista e como o seu oposto. A obsessão de Jane em apoderar-se do próprio destino, ainda que à custa da indigência e da solidão mais absoluta, coexiste ao longo do romance com a sua dedicação total a Rochester, que acaba por tomar o lugar de qualquer ambição pessoal que alguma vez tenha alimentado. O conjunto de circunstâncias que lhe permite, no fim, conciliar a adesão estrita aos seus princípios e a união com um Rochester cego e estropiado, para lá da inverosimilhança e do patético, tem algo de prestidigitatório mas não isento de coerência moral. Confesso que o efeito, quer o pretendido pela autora quer o que resultou da minha leitura (não é garantido que coincidam), quase foi comprometido pela personagem - talvez uma das mais sinistras de toda a literatura inglesa - de St. John Rivers, esse monstro rigorista. O simples facto de Jane ter sequer considerado unir-se a ele em matrimónio e de o acompanhar à Índia está de tal modo desfasado do seu carácter que me pergunto se Charlotte Brontë não terá cedido à tentação de testar a credulidade do leitor - um pequeno jogo que, afinal de contas, nunca fez mal a ninguém.
O aspecto mais curioso de "Jane Eyre" é que se presta com igual ductilidade a ser lido como um manifesto proto-feminista e como o seu oposto. A obsessão de Jane em apoderar-se do próprio destino, ainda que à custa da indigência e da solidão mais absoluta, coexiste ao longo do romance com a sua dedicação total a Rochester, que acaba por tomar o lugar de qualquer ambição pessoal que alguma vez tenha alimentado. O conjunto de circunstâncias que lhe permite, no fim, conciliar a adesão estrita aos seus princípios e a união com um Rochester cego e estropiado, para lá da inverosimilhança e do patético, tem algo de prestidigitatório mas não isento de coerência moral. Confesso que o efeito, quer o pretendido pela autora quer o que resultou da minha leitura (não é garantido que coincidam), quase foi comprometido pela personagem - talvez uma das mais sinistras de toda a literatura inglesa - de St. John Rivers, esse monstro rigorista. O simples facto de Jane ter sequer considerado unir-se a ele em matrimónio e de o acompanhar à Índia está de tal modo desfasado do seu carácter que me pergunto se Charlotte Brontë não terá cedido à tentação de testar a credulidade do leitor - um pequeno jogo que, afinal de contas, nunca fez mal a ninguém.
quarta-feira, fevereiro 16, 2011
MAIS BUSCAS RECENTES QUE VIERAM PARAR AO 1BSK, PARA MAL DOS PECADOS DOS PRINCIPAIS INTERESSADOS:
- "cinderela de carlos paião em linguagem simbólica" (porque não em morse?)
- "episódio das aventuras de elion em português" (não olhem para mim, sei tanto como vocês)
E, na categoria "parabéns pelo bom gosto":
- "operação jean-luc godard diário de notícias"
- "rui cóias"
- "retratos de odilon redon"
HÁ UM NOVO GATO EM DOWNING STREET...:
...para erradicar de vez a infestação de roedores no nº 10.
«According to Downing Street, the animal has "a high chase-drive and hunting instinct", developed during his time on the streets.
A spokesman said he had also shown "a very strong predatory drive" and enjoyed playing with toy mice.»
(Estes ingleses nem para falar de um bichano dispensam a newspeak.)
terça-feira, fevereiro 15, 2011
CUIDADO COM OS AVENTAIS: Na sua última dádiva ao mundo sob forma de coluna de opinião das 2ªs feiras, João César das Neves enumera alguns dos fantasmas que assombram este nosso mundo tão perigoso: turbulência financeira, globalização selvagem, choque petrolífero, desastres ambientais, fundamentalismo religioso e... perseguição maçónica.
É necessária uma presciência superior para reconhecer o perigo maçónico que contamina a sociedade. Para quem não a tem, ou pelo menos não nas doses copiosas que JCN evidencia, ficam aqui alguns conselhos dos Monty Python para reconhecer um maçon na via pública.
sexta-feira, fevereiro 11, 2011
ESPERAR SEM DESESPERAR: Tarda a estreia em Portugal de "Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives", de Apichatpong Weerasethakul. Interrogo-me sobre as razões da demora. A minha teoria actual é esta: o distribuidor quer dar tempo às pessoas para se esquecerem de que este filme ganhou a Palma de Ouro, e assim passar por descobridor de um genial e desconhecido realizador tailandês.
Enquanto o pau vai e vem, comprei o DVD do magnífico "Syndromes and a Century" em Inglaterra.
sábado, fevereiro 05, 2011
MARIA SCHNEIDER (1952-2011): Todos os obituários que li se referiam a ela como a actriz de "O Último Tango em Paris", mas Maria Schneider teve uma carreira longa e preenchida, que incluiu o protagonismo num filme de Jacques Rivette: "Merry-Go-Round" (por sinal, provavelmente o Rivette de que menos gosto).
Só após a sua morte fiquei a saber que Maria Schneider era filha do actor Daniel Gélin (que nunca a reconheceu).
Só após a sua morte fiquei a saber que Maria Schneider era filha do actor Daniel Gélin (que nunca a reconheceu).
EM BUSCA DA PROMISCUIDADE: Onde está a tal "campanha de propaganda massiva" a favor do "adultério, divórcio, promiscuidade, concubinato, perversão, deboche, etc" (gosto sobretudo do "etc" - o que caberá neste "etc", após tão copiosa enumeração?) de que fala João César das Neves? Confesso que nunca dei por ela. Será por não ter canais premium?
THANK YOU FOR THE DAYS: Entro num café de Cambridge (Benet Street). Enquanto saboreio uma sanduíche, a rádio toca, em sucessão, as minhas três canções preferidas dos Kinks:
- "Lola"
- "Autumn Almanac"
- "Days"
Regra geral, incluo a música nos estabelecimentos de restauração entre as 10 maiores pragas da civilização ocidental. Mas desta vez soube bem.
segunda-feira, janeiro 17, 2011
UMA LUZ NO NEVOEIRO: Está resolvido o mistério do ensaio de Manuel António Pina sobre Winnie-the-Pooh.
Continua por resolver o mistério da relação entre "American Beauty" e Kant.
quinta-feira, janeiro 13, 2011
REGRESSO AO PASSADO: Lembram-se dos primeiros tempos da blogosfera portuguesa? Ah, as saudades! Os bloggers activos eram tão poucos que se conheciam quase todos pelo nome e apelido (ou por um "nick" bem esgalhado), os insultos choviam (desse ponto de vista, pouco mudou), trocavam-se parabéns nos aniversários, não havia "tag clouds" nem aquelas irritantes e inúteis sugestões no fim dos posts ("Poderá também gostar de..."). Um dos entretenimentos mais populares dessa altura consistia em recensear as palavras-chave mais bizarras cuja busca tinha levado um internauta a um dado blog. Nunca participei nessa actividade lúdica porque não sabia como se fazia, e tinha vergonha de perguntar. Agora, o próprio Blogger permite fazê-lo, com uma facilidade descoroçoante. Por isso, com anos de atraso, aqui ficam as minhas homenagens aos leitores do 1bsk que aqui chegaram graças às seguintes buscas:
- "bombons garoto" (Parabéns pelo bom gosto.)
- "american beauty saco de plástico kant" (Finalmente alguém percebeu que o filme de Sam Mendes é uma longa paráfrase da "Fundação Metafísica dos Costumes".)
- "autor da letra da canção a 13 de maio" (António Botto, creio.)
- "ensaio winnie the pooh manuel antonio pina" (Deve ter ficado desiludido/a, mas despertou a minha curiosidade.)
- "laurence sterne diário para eliza" (Vide "bombons garoto".)
THINK: Mas que taluda cretinice. As obras literárias (fiquemo-nos por essas) que devem quase tudo ao pensamento, à premeditação, à "self-conciousness" são em número suficiente para, se transformadas em adobes, construir um T5 com boas áreas e generoso pé-direito, capaz de alojar a família de Ray Bradbury, os amigos de Ray Bradbury e o próprio Ray Bradbury, deambulando de sala em sala à espera da inspiração e do fluxo de criatividade livre do espartilho medonho da reflexão.
Abdicar da faculdade de reflectir sobre as coisas é o atalho mais directo para produzir, em vez de literatura, uma papa gelatinosa que nem se aguenta numa estante, à falta de coluna vertebral.
quarta-feira, janeiro 12, 2011
GUIRAUDIE FOREVER:
"Le Roi de l'Évasion", de Alain Guiraudie, teve uma passagem relativamente discreta numa sala de Lisboa, no final do ano passado. Muito do que se escreveu sobre este filme, em Portugal e extra-muros, deu destaque ao facto de Guiraudie oferecer uma perspectiva sobre a homossexualidade, (provinciana, protagonizada por homens idosos ou de meia-idade) distante do paradigma dominante (urbano, jovem, chic). Contudo, para mim, a importância e beleza deste filme vão muito além desta constatação sociológica. "Le Roi de l'Évasion" é um filme de uma liberdade formal exaltante, que se desenrola ao sabor das pulsões, da consciência, das pressões sociais e do desejo, numa interacção complexa que é no fundo aquela de que padece qualquer ser humano. É, como é habitual em Guiraudie, uma obra pontuada por diálogos luminosos, de uma comicidade que nunca oculta observações agudíssimas sobre as contradições do amor.
"Du Soleil pour les Gueux", realizado por Guiraudie 2001, passará na Cinemateca no dia 26 (escolha de Miguel Gomes). Apetecia-me dizer que todas as desculpas para não ir ver este filme são, por definição, pífias, mas infelizmente sucede que eu próprio deverei estar impossibilitado de me deslocar à Barata Salgueiro neste dia. Fica o apelo, com toda a ênfase e poder de persuasão que tenho para dar: vão ver.
Claro que há sempre este prémio de consolação:
("Tout Droit jusqu'au Matin", uma pequenina obra-prima.)
"Le Roi de l'Évasion", de Alain Guiraudie, teve uma passagem relativamente discreta numa sala de Lisboa, no final do ano passado. Muito do que se escreveu sobre este filme, em Portugal e extra-muros, deu destaque ao facto de Guiraudie oferecer uma perspectiva sobre a homossexualidade, (provinciana, protagonizada por homens idosos ou de meia-idade) distante do paradigma dominante (urbano, jovem, chic). Contudo, para mim, a importância e beleza deste filme vão muito além desta constatação sociológica. "Le Roi de l'Évasion" é um filme de uma liberdade formal exaltante, que se desenrola ao sabor das pulsões, da consciência, das pressões sociais e do desejo, numa interacção complexa que é no fundo aquela de que padece qualquer ser humano. É, como é habitual em Guiraudie, uma obra pontuada por diálogos luminosos, de uma comicidade que nunca oculta observações agudíssimas sobre as contradições do amor.
"Du Soleil pour les Gueux", realizado por Guiraudie 2001, passará na Cinemateca no dia 26 (escolha de Miguel Gomes). Apetecia-me dizer que todas as desculpas para não ir ver este filme são, por definição, pífias, mas infelizmente sucede que eu próprio deverei estar impossibilitado de me deslocar à Barata Salgueiro neste dia. Fica o apelo, com toda a ênfase e poder de persuasão que tenho para dar: vão ver.
Claro que há sempre este prémio de consolação:
("Tout Droit jusqu'au Matin", uma pequenina obra-prima.)
segunda-feira, janeiro 10, 2011
OS TRÊS JOSÉS: José Manuel Fernandes, Joseph Ratzinger e José Policarpo partilham mais do que o nome próprio: o autor dos seus discursos, artigos homilias e outras intervenções não pode deixar de ser a mesma pessoa, a acreditar na frequência insistente com que as mesmas teclas são batidas. Esse esforçadíssimo "negro", nos últimos tempos, acumula os exemplos destinados a provar que os cristãos se mantêm firmes no topo do pódio do martírio a nível global, e que nenhuma outra comunidade religiosa é mais ferozmente perseguida. Nesse exercício de puxar dos galões, contudo, o excesso de zelo é péssimo conselheiro. Meter no mesmo saco atentados, massacres e medidas de separação entre Igreja e Estado é um tour-de-force retórico tão ousado que quase se poderia confundir com má-fé. O laicismo ou a laicidade (distinção que este prolífico autor nunca deixa de fazer) não matam. Aplicar leis emanadas de corpos legislativos, eleitos por vontade popular, não equivale a uma perseguição.
Faz parte da natureza das religiões hostilizarem-se e combaterem-se mutuamente em nome da posse da Verdade suprema que reivindicam para si. Atestam-no os milhões que, em nome da religião, morreram ao longo dos séculos e continuam a morrer ainda hoje. Nunca me esquecerei das palavras que li no prefácio a uma edição da Bíblia que uma vez folheei: "Este é o livro da Verdade" (cito de memória, mas a essência era esta). Eis algo que os adocicados discursos ecumenistas nunca poderão disfarçar: as religiões separam os Homens porque se reclamam as únicas detentoras da Verdade revelada, imutável e incontestável.
Não são a lei, a laicidade ou o ateísmo que matam, mutilam e escorraçam. Os 3 Josés e os seus satélites (Helena Matos, o bispo de Leiria-Fátima...) precisam, com urgência, de alinhar o seu discurso por um diapasão comum, mais devedor do justo sentido das proporções do que dos delírios centrífugos de um escrevinhador de discursos em roda livre.
quarta-feira, janeiro 05, 2011
MORANGOS COM AÇÚCAR: A personagem Mariana, superiormente interpretada pela actriz Lia Carvalho, não tem vida emocional própria. A sua função exclusiva parece ser a de receptora dos desabafos alheios ("an emotional soup-kitchen", na expressão de John Osborne citada por Doris Lessing a propósito dela própria). O ridículo e fugaz episódio da tentativa de reaproximação aos pais não fez mais do que confirmar isto mesmo. Talvez tenha sido por isso que os argumentistas decidiram, ainda na temporada anterior, casá-la com o cabeça oca do Leo. Não existe sombra de química entre os dois, mas assim se arrumou a questão do par romântico da Mariana, que passou a estar disponível a tempo inteiro para a sua função de confessionário ambulante.
LISTA DE FILMES DO ANO, O FILME QUE FALTAVA: Está encerrada a votação para a eleição do filme que ocupará o 10º lugar da minha lista de melhores do ano. A contagem dos votos forneceu o seguinte resultado. Vencedor: Defensor de Moura. Em segundo lugar, e 1º na categoria de filmes, ficou "La Danse", de Frederick Wiseman, com escassíssimos 2 votos de vantagem sobre "Todos os Outros". A realizadora deste filme, Maren Ade, já veio a público atribuir as responsabilidades pela derrota às empresas de sondagens.
Obrigado a todos os que participaram.
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