segunda-feira, março 21, 2011
AQUI CLAMA-SE POR JUSTIÇA: Na "Ler" de Fevereiro, o Rogério escreveu, acerca de Lydia Davis: «Nos melhores momentos, o método recorda Donald Barthelme». (Frase pouco económica, diga-se de passagem: se evocam Barthelme, os momentos em questão são forçosamente os melhores.) Há dias, um amigo e blogger revelou-me, em conversa privada, que devorou (com evidente gosto) livro após livro de Barthelme. E um velho clamor meu faz-se novamente escutar, das profundezas da minha incompreensão: como é possível que um dos mais sublimes escritores americanos do século XX permaneça por traduzir em Portugal?
Alguém que me agarre, caso contrário um dia destes fecho-me numas águas-furtadas insalubres e só de lá saio quando tiver traduzido "The Catechist", "Will You Tell Me?", "Kierkegaard Unfair to Schlegel", "Robert Kennedy Saved From Drowning", "King of Jazz", "The Indian Uprising" e mais uns quantos.
quarta-feira, março 16, 2011
CINEMA: Fiquei desapontado com o documentário "Deux de la Vague", de Emmanuel Laurent. Falta-lhe originalidade e não se percebe a quem se dirige: se a quem nada sabe sobre a Nouvelle Vague (mas será que esses irão gastar o preço de um bilhete de cinema para ver um filme sobre o assunto?) se aos iniciados (mas nesse caso teria valido a pena ir mais longe na originalidade, procurar um ponto de vista mais pessoal, não se limitar a repetir uma história tantas vezes contada). A ideia de intercalar imagens de Isild Le Besco (actriz francamente estimável, por sinal) a folhear números antigos dos "Cahiers" ou a passear por Paris não se compreende (esboço de esquema formal? tentativa de descolar do figurino de documentário?). Esperava mais do argumentista Antoine de Baecque.
Entre os momentos mais conseguidos:
- as imagens de um filme de Jean Rouch, caracterizadas por um estilo de montagem precursor de "À Bout de Souffle"
- Godard, em entrevista, sobre Rossellini: «Admiro-o porque ele tem muitos filhos e muitos cães para alimentar, e no entanto faz filmes ousadíssimos.» (Citado de memória, negrito meu.)
quinta-feira, março 10, 2011
2003 RULES!: Obrigado! Ena, posts de parabéns e agradecimentos! A nostalgia invade-me! Voltámos a 2003! Blair e Bush preparam a invasão do Iraque! Gus Van Sant ganhou a Palma de Ouro! Fari está prestes a sagrar-se melhor marcador da Liga!
À VENDA NAS BOAS CASAS: Já anda por aí o volume 52 dos "Livrinhos de Teatro" dos Artistas Unidos: "A Europeia e outros textos", de David Lescot. Eu fiz a tradução da terceira peça, "O Aperfeiçoamento". Espero vir um dia a assistir a uma encenação desta peça, mas pergunto-me se haverá muitos actores à altura do desafio. Este monólogo exige uma panóplia de qualidades (incluindo de acrobata) que não é comum ver reunidas num mesmo actor. Uma certa dose de insanidade também deve ajudar.
terça-feira, março 01, 2011
ANTES E DEPOIS: Outras das coisas que eram verdade nesse tempo: os votos de feliz aniversário de cada vez que um blog fazia anos (1 ano, 2 anos, 3 anos os mais velhotes). Era piroso, era paroquial mas tinha graça nos vários sentidos da palavra. Dava pouco trabalho; os blogs que eu seguia e que me interessavam cabiam numa página de um cadernito de endereços. Hoje, seria precisa uma página e meia.
O 1bsk faz anos hoje. Oito anos. Obrigado a todos os leitores. Isto é para continuar.
O ruído destes anos foi o das minhas hierarquias a desmoronarem-se e a reerguerem-se. Muitas coisas passaram ser mais nítidas e mais opacas. E assim é que eu gosto. O olhar de Ingrid Thulin no filme "O Silêncio" continua a presidir a tudo isto.
segunda-feira, fevereiro 28, 2011
domingo, fevereiro 27, 2011
REVISIONISTAS DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!: Pelos vistos, os artigos do Professor João César das Neves não são traduzidos para o idioma árabe. Se o são, não têm a divulgação que merecem. Os povos da Líbia, Bahrein e outras nações insistem na revolta, apesar de JCN ter demonstrado, com a maior limpidez argumentativa, que estão a colocar em risco a sua própria liberdade e que se deviam contentar com a opressão actual em vez de dar largas às suas aspirações por mais democracia e mais justiça. Coitados, correm para a perdição.
En passant, JCN encontra espaço para o enésimo paralelo com a 1ª República portuguesa, decididamente um termo de comparação assombrosamente prolífico. Nisto, JCN faz émulos. Há dias, Joe Berardo, em declarações cuja ausência de ecos revela a escassa importância atribuída à criatura, veio preconizar um "novo género de ditadura", corolário lógico de uma democracia que está "podre". Com um sentido do timing devastador, eis que JB se entrega, também ele, ao exercício de historiografia: «Alguém tem que vir com um novo sistema de democracia e, se for preciso, mudar o sistema político (...). [Quando] Salazar tomou conta de Portugal não havia alimentação e havia bombas em Lisboa todos os dias nos anos 30». O comendador tem toneladas de razão: dinamite e distúrbios são muito mais perniciosos para a economia e para a paz pública do que prisões políticas, tortura, degredo e censura. Seja qual for a ponta por onde se lhe pegue, a democracia é um empecilho.
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO:
O aspecto mais curioso de "Jane Eyre" é que se presta com igual ductilidade a ser lido como um manifesto proto-feminista e como o seu oposto. A obsessão de Jane em apoderar-se do próprio destino, ainda que à custa da indigência e da solidão mais absoluta, coexiste ao longo do romance com a sua dedicação total a Rochester, que acaba por tomar o lugar de qualquer ambição pessoal que alguma vez tenha alimentado. O conjunto de circunstâncias que lhe permite, no fim, conciliar a adesão estrita aos seus princípios e a união com um Rochester cego e estropiado, para lá da inverosimilhança e do patético, tem algo de prestidigitatório mas não isento de coerência moral. Confesso que o efeito, quer o pretendido pela autora quer o que resultou da minha leitura (não é garantido que coincidam), quase foi comprometido pela personagem - talvez uma das mais sinistras de toda a literatura inglesa - de St. John Rivers, esse monstro rigorista. O simples facto de Jane ter sequer considerado unir-se a ele em matrimónio e de o acompanhar à Índia está de tal modo desfasado do seu carácter que me pergunto se Charlotte Brontë não terá cedido à tentação de testar a credulidade do leitor - um pequeno jogo que, afinal de contas, nunca fez mal a ninguém.
O aspecto mais curioso de "Jane Eyre" é que se presta com igual ductilidade a ser lido como um manifesto proto-feminista e como o seu oposto. A obsessão de Jane em apoderar-se do próprio destino, ainda que à custa da indigência e da solidão mais absoluta, coexiste ao longo do romance com a sua dedicação total a Rochester, que acaba por tomar o lugar de qualquer ambição pessoal que alguma vez tenha alimentado. O conjunto de circunstâncias que lhe permite, no fim, conciliar a adesão estrita aos seus princípios e a união com um Rochester cego e estropiado, para lá da inverosimilhança e do patético, tem algo de prestidigitatório mas não isento de coerência moral. Confesso que o efeito, quer o pretendido pela autora quer o que resultou da minha leitura (não é garantido que coincidam), quase foi comprometido pela personagem - talvez uma das mais sinistras de toda a literatura inglesa - de St. John Rivers, esse monstro rigorista. O simples facto de Jane ter sequer considerado unir-se a ele em matrimónio e de o acompanhar à Índia está de tal modo desfasado do seu carácter que me pergunto se Charlotte Brontë não terá cedido à tentação de testar a credulidade do leitor - um pequeno jogo que, afinal de contas, nunca fez mal a ninguém.
quarta-feira, fevereiro 16, 2011
MAIS BUSCAS RECENTES QUE VIERAM PARAR AO 1BSK, PARA MAL DOS PECADOS DOS PRINCIPAIS INTERESSADOS:
- "cinderela de carlos paião em linguagem simbólica" (porque não em morse?)
- "episódio das aventuras de elion em português" (não olhem para mim, sei tanto como vocês)
E, na categoria "parabéns pelo bom gosto":
- "operação jean-luc godard diário de notícias"
- "rui cóias"
- "retratos de odilon redon"
HÁ UM NOVO GATO EM DOWNING STREET...:
...para erradicar de vez a infestação de roedores no nº 10.
«According to Downing Street, the animal has "a high chase-drive and hunting instinct", developed during his time on the streets.
A spokesman said he had also shown "a very strong predatory drive" and enjoyed playing with toy mice.»
(Estes ingleses nem para falar de um bichano dispensam a newspeak.)
terça-feira, fevereiro 15, 2011
CUIDADO COM OS AVENTAIS: Na sua última dádiva ao mundo sob forma de coluna de opinião das 2ªs feiras, João César das Neves enumera alguns dos fantasmas que assombram este nosso mundo tão perigoso: turbulência financeira, globalização selvagem, choque petrolífero, desastres ambientais, fundamentalismo religioso e... perseguição maçónica.
É necessária uma presciência superior para reconhecer o perigo maçónico que contamina a sociedade. Para quem não a tem, ou pelo menos não nas doses copiosas que JCN evidencia, ficam aqui alguns conselhos dos Monty Python para reconhecer um maçon na via pública.
sexta-feira, fevereiro 11, 2011
ESPERAR SEM DESESPERAR: Tarda a estreia em Portugal de "Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives", de Apichatpong Weerasethakul. Interrogo-me sobre as razões da demora. A minha teoria actual é esta: o distribuidor quer dar tempo às pessoas para se esquecerem de que este filme ganhou a Palma de Ouro, e assim passar por descobridor de um genial e desconhecido realizador tailandês.
Enquanto o pau vai e vem, comprei o DVD do magnífico "Syndromes and a Century" em Inglaterra.
sábado, fevereiro 05, 2011
MARIA SCHNEIDER (1952-2011): Todos os obituários que li se referiam a ela como a actriz de "O Último Tango em Paris", mas Maria Schneider teve uma carreira longa e preenchida, que incluiu o protagonismo num filme de Jacques Rivette: "Merry-Go-Round" (por sinal, provavelmente o Rivette de que menos gosto).
Só após a sua morte fiquei a saber que Maria Schneider era filha do actor Daniel Gélin (que nunca a reconheceu).
Só após a sua morte fiquei a saber que Maria Schneider era filha do actor Daniel Gélin (que nunca a reconheceu).
EM BUSCA DA PROMISCUIDADE: Onde está a tal "campanha de propaganda massiva" a favor do "adultério, divórcio, promiscuidade, concubinato, perversão, deboche, etc" (gosto sobretudo do "etc" - o que caberá neste "etc", após tão copiosa enumeração?) de que fala João César das Neves? Confesso que nunca dei por ela. Será por não ter canais premium?
THANK YOU FOR THE DAYS: Entro num café de Cambridge (Benet Street). Enquanto saboreio uma sanduíche, a rádio toca, em sucessão, as minhas três canções preferidas dos Kinks:
- "Lola"
- "Autumn Almanac"
- "Days"
Regra geral, incluo a música nos estabelecimentos de restauração entre as 10 maiores pragas da civilização ocidental. Mas desta vez soube bem.
segunda-feira, janeiro 17, 2011
UMA LUZ NO NEVOEIRO: Está resolvido o mistério do ensaio de Manuel António Pina sobre Winnie-the-Pooh.
Continua por resolver o mistério da relação entre "American Beauty" e Kant.
quinta-feira, janeiro 13, 2011
REGRESSO AO PASSADO: Lembram-se dos primeiros tempos da blogosfera portuguesa? Ah, as saudades! Os bloggers activos eram tão poucos que se conheciam quase todos pelo nome e apelido (ou por um "nick" bem esgalhado), os insultos choviam (desse ponto de vista, pouco mudou), trocavam-se parabéns nos aniversários, não havia "tag clouds" nem aquelas irritantes e inúteis sugestões no fim dos posts ("Poderá também gostar de..."). Um dos entretenimentos mais populares dessa altura consistia em recensear as palavras-chave mais bizarras cuja busca tinha levado um internauta a um dado blog. Nunca participei nessa actividade lúdica porque não sabia como se fazia, e tinha vergonha de perguntar. Agora, o próprio Blogger permite fazê-lo, com uma facilidade descoroçoante. Por isso, com anos de atraso, aqui ficam as minhas homenagens aos leitores do 1bsk que aqui chegaram graças às seguintes buscas:
- "bombons garoto" (Parabéns pelo bom gosto.)
- "american beauty saco de plástico kant" (Finalmente alguém percebeu que o filme de Sam Mendes é uma longa paráfrase da "Fundação Metafísica dos Costumes".)
- "autor da letra da canção a 13 de maio" (António Botto, creio.)
- "ensaio winnie the pooh manuel antonio pina" (Deve ter ficado desiludido/a, mas despertou a minha curiosidade.)
- "laurence sterne diário para eliza" (Vide "bombons garoto".)
THINK: Mas que taluda cretinice. As obras literárias (fiquemo-nos por essas) que devem quase tudo ao pensamento, à premeditação, à "self-conciousness" são em número suficiente para, se transformadas em adobes, construir um T5 com boas áreas e generoso pé-direito, capaz de alojar a família de Ray Bradbury, os amigos de Ray Bradbury e o próprio Ray Bradbury, deambulando de sala em sala à espera da inspiração e do fluxo de criatividade livre do espartilho medonho da reflexão.
Abdicar da faculdade de reflectir sobre as coisas é o atalho mais directo para produzir, em vez de literatura, uma papa gelatinosa que nem se aguenta numa estante, à falta de coluna vertebral.
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