domingo, abril 10, 2011

É ELE! É ELE!: José Manuel Fernandes é que é o grande artista do Twitter em Portugal. Só precisa de 140 caracteres para pôr de pé uma comparação com o 3º Reich: outros, menos hábeis, levam pelo menos um parágrafo ou dois. A boçalidade e a falta de sentido da proporção vêm como bónus.
APICHATQUÊ? (1): Apropriadamente, foi no dia 1 de Abril que fui ver "O Tio Bonmee...", de Apichatpong Weerasethakul. A estreia deste filme, de tantas vezes prometida e adiada, quando por fim sucedeu não pôde deixar de se parecer com uma aldrabice adequada à data em questão.


Primeira impressão: um filme imenso, rico, livre e profundo como a vida (ou como deveria ser a vida). Não é, contudo, como cheguei a prever a partir de comentários e críticas que tinha lido, um salto qualitativo ou uma ruptura estética relativamente às obras anteriores de AW. Simplesmente, o mundo do cinema (e muito graças à ousadia do júri de Cannes presidido por Tim Burton) convenceu-se finalmente de que está perante um dos mais importantes e originais criadores contemporâneos. "O Tio Boonmee..." serviu, assim, para atrair atenções que tinham ficado indiferentes a outras obras-primas como "Tropical Malady", "Blissfully Yours" ou o meu favorito pessoal, "Syndromes and a Century".
BROWNIE POINTS: Durante um período excessivamente longo da minha vida, acreditei que a expressão "brownie points" dizia respeito àqueles deliciosos bolinhos quadrangulares de chocolate. Cada ponto, cada brownie: uma unidade monetária gustativa e nutritiva destinada a premiar boas acções e feitos valorosos. E afinal, a etimologia desta expressão é um viveiro de mistérios e conjecturas.

quinta-feira, março 31, 2011

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na inevitável linha verde do metropolitano, um leitor impecavelmente vestido lia "O Processo", de Franz Kafka. Tudo levava a crer que estava a encetar a leitura ali mesmo. Pareceu imperturbável quando se inteirou de que alguém deve ter andado a difamar Josef K., que numa manhã foi preso sem ter cometido qualquer crime.

quarta-feira, março 30, 2011

Si tu es dans un labyrinthe
Pousse-moi du coude
Je suis là dans le coin
Moi que tu ne cherches plus

(Christian Dotremont)

segunda-feira, março 28, 2011

A SÍNDROME DA CHINA: Encontrei finalmente a solução para revitalizar este blog, demasiado intermitente para acompanhar a vibração do mundo contemporâneo. É assim: vou contratar o melhor blogger chinês. Este blog passará a receber pelo menos 400 ou 500 internautas chineses por dia. Vão chover as comissões e os sponsors. Aliás, justifica-se criar um departamento só para o blogger chinês. Sócios, é este o projecto! É este o futuro! Estou concentradíssimo! Para além disto, a única coisa que se me oferece dizer sobre a situação no Sporting é o seguinte: obrigado aos apoiantes do candidato derrotado por, na sua fúria, não terem vandalizado o Lidl, que tem uns iogurtes excelentes e cuja secção de congelados mete respeito.
Essa música é linda....já me suicidei 3 vezes depois de ouvi-la. (Comentário à canção "Minha História", de Chico Buarque, no YouTube.)
IMITATED BY LIFE: Oscar Wilde afirmou que o Tamisa passou a ter nevoeiros mais densos depois dos quadros de Turner, mas nem sempre a vida imita a arte de forma tão obsequiosa. Por exemplo, como eu gostaria que Lisboa se parecesse mais com algumas das cenas de "O Bobo", de José Álvaro Morais, ou "Vai-e-vem" de João César Monteiro.

quarta-feira, março 23, 2011

When will you ever, Peace, wild wooddove, shy wings shut, Your round me roaming end, and under be my boughs? (Gerard Manley Hopkins)
(Cy Twombly)

segunda-feira, março 21, 2011

AQUI CLAMA-SE POR JUSTIÇA: Na "Ler" de Fevereiro, o Rogério escreveu, acerca de Lydia Davis: «Nos melhores momentos, o método recorda Donald Barthelme». (Frase pouco económica, diga-se de passagem: se evocam Barthelme, os momentos em questão são forçosamente os melhores.) Há dias, um amigo e blogger revelou-me, em conversa privada, que devorou (com evidente gosto) livro após livro de Barthelme. E um velho clamor meu faz-se novamente escutar, das profundezas da minha incompreensão: como é possível que um dos mais sublimes escritores americanos do século XX permaneça por traduzir em Portugal? Alguém que me agarre, caso contrário um dia destes fecho-me numas águas-furtadas insalubres e só de lá saio quando tiver traduzido "The Catechist", "Will You Tell Me?", "Kierkegaard Unfair to Schlegel", "Robert Kennedy Saved From Drowning", "King of Jazz", "The Indian Uprising" e mais uns quantos.

quarta-feira, março 16, 2011

CINEMA: Fiquei desapontado com o documentário "Deux de la Vague", de Emmanuel Laurent. Falta-lhe originalidade e não se percebe a quem se dirige: se a quem nada sabe sobre a Nouvelle Vague (mas será que esses irão gastar o preço de um bilhete de cinema para ver um filme sobre o assunto?) se aos iniciados (mas nesse caso teria valido a pena ir mais longe na originalidade, procurar um ponto de vista mais pessoal, não se limitar a repetir uma história tantas vezes contada). A ideia de intercalar imagens de Isild Le Besco (actriz francamente estimável, por sinal) a folhear números antigos dos "Cahiers" ou a passear por Paris não se compreende (esboço de esquema formal? tentativa de descolar do figurino de documentário?). Esperava mais do argumentista Antoine de Baecque. Entre os momentos mais conseguidos:
  • as imagens de um filme de Jean Rouch, caracterizadas por um estilo de montagem precursor de "À Bout de Souffle"
  • Godard, em entrevista, sobre Rossellini: «Admiro-o porque ele tem muitos filhos e muitos cães para alimentar, e no entanto faz filmes ousadíssimos.» (Citado de memória, negrito meu.)

quinta-feira, março 10, 2011

SE ME CONCEDESSEM 2O SEGUNDOS PARA FALAR A SÓS COM O CEO DA MICROSOFT, O QUE EU LHE DIRIA ERA ISTO: Eu sei perfeitamente que tenho ícones não utilizados no meu ambiente de trabalho!
2003 RULES!: Obrigado! Ena, posts de parabéns e agradecimentos! A nostalgia invade-me! Voltámos a 2003! Blair e Bush preparam a invasão do Iraque! Gus Van Sant ganhou a Palma de Ouro! Fari está prestes a sagrar-se melhor marcador da Liga!
À VENDA NAS BOAS CASAS: Já anda por aí o volume 52 dos "Livrinhos de Teatro" dos Artistas Unidos: "A Europeia e outros textos", de David Lescot. Eu fiz a tradução da terceira peça, "O Aperfeiçoamento". Espero vir um dia a assistir a uma encenação desta peça, mas pergunto-me se haverá muitos actores à altura do desafio. Este monólogo exige uma panóplia de qualidades (incluindo de acrobata) que não é comum ver reunidas num mesmo actor. Uma certa dose de insanidade também deve ajudar.

terça-feira, março 01, 2011

ANTES E DEPOIS: Outras das coisas que eram verdade nesse tempo: os votos de feliz aniversário de cada vez que um blog fazia anos (1 ano, 2 anos, 3 anos os mais velhotes). Era piroso, era paroquial mas tinha graça nos vários sentidos da palavra. Dava pouco trabalho; os blogs que eu seguia e que me interessavam cabiam numa página de um cadernito de endereços. Hoje, seria precisa uma página e meia. O 1bsk faz anos hoje. Oito anos. Obrigado a todos os leitores. Isto é para continuar. O ruído destes anos foi o das minhas hierarquias a desmoronarem-se e a reerguerem-se. Muitas coisas passaram ser mais nítidas e mais opacas. E assim é que eu gosto. O olhar de Ingrid Thulin no filme "O Silêncio" continua a presidir a tudo isto.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, uma leitora lia "A Sociedade de Consumo", de Jean Baudrillard.

domingo, fevereiro 27, 2011

REVISIONISTAS DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!: Pelos vistos, os artigos do Professor João César das Neves não são traduzidos para o idioma árabe. Se o são, não têm a divulgação que merecem. Os povos da Líbia, Bahrein e outras nações insistem na revolta, apesar de JCN ter demonstrado, com a maior limpidez argumentativa, que estão a colocar em risco a sua própria liberdade e que se deviam contentar com a opressão actual em vez de dar largas às suas aspirações por mais democracia e mais justiça. Coitados, correm para a perdição. En passant, JCN encontra espaço para o enésimo paralelo com a 1ª República portuguesa, decididamente um termo de comparação assombrosamente prolífico. Nisto, JCN faz émulos. Há dias, Joe Berardo, em declarações cuja ausência de ecos revela a escassa importância atribuída à criatura, veio preconizar um "novo género de ditadura", corolário lógico de uma democracia que está "podre". Com um sentido do timing devastador, eis que JB se entrega, também ele, ao exercício de historiografia: «Alguém tem que vir com um novo sistema de democracia e, se for preciso, mudar o sistema político (...). [Quando] Salazar tomou conta de Portugal não havia alimentação e havia bombas em Lisboa todos os dias nos anos 30». O comendador tem toneladas de razão: dinamite e distúrbios são muito mais perniciosos para a economia e para a paz pública do que prisões políticas, tortura, degredo e censura. Seja qual for a ponta por onde se lhe pegue, a democracia é um empecilho.
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: O aspecto mais curioso de "Jane Eyre" é que se presta com igual ductilidade a ser lido como um manifesto proto-feminista e como o seu oposto. A obsessão de Jane em apoderar-se do próprio destino, ainda que à custa da indigência e da solidão mais absoluta, coexiste ao longo do romance com a sua dedicação total a Rochester, que acaba por tomar o lugar de qualquer ambição pessoal que alguma vez tenha alimentado. O conjunto de circunstâncias que lhe permite, no fim, conciliar a adesão estrita aos seus princípios e a união com um Rochester cego e estropiado, para lá da inverosimilhança e do patético, tem algo de prestidigitatório mas não isento de coerência moral. Confesso que o efeito, quer o pretendido pela autora quer o que resultou da minha leitura (não é garantido que coincidam), quase foi comprometido pela personagem - talvez uma das mais sinistras de toda a literatura inglesa - de St. John Rivers, esse monstro rigorista. O simples facto de Jane ter sequer considerado unir-se a ele em matrimónio e de o acompanhar à Índia está de tal modo desfasado do seu carácter que me pergunto se Charlotte Brontë não terá cedido à tentação de testar a credulidade do leitor - um pequeno jogo que, afinal de contas, nunca fez mal a ninguém.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

MAIS BUSCAS RECENTES QUE VIERAM PARAR AO 1BSK, PARA MAL DOS PECADOS DOS PRINCIPAIS INTERESSADOS:
  • "cinderela de carlos paião em linguagem simbólica" (porque não em morse?)
  • "episódio das aventuras de elion em português" (não olhem para mim, sei tanto como vocês)

E, na categoria "parabéns pelo bom gosto":

  • "operação jean-luc godard diário de notícias"
  • "rui cóias"
  • "retratos de odilon redon"
HÁ UM NOVO GATO EM DOWNING STREET...: ...para erradicar de vez a infestação de roedores no nº 10. «According to Downing Street, the animal has "a high chase-drive and hunting instinct", developed during his time on the streets. A spokesman said he had also shown "a very strong predatory drive" and enjoyed playing with toy mice.»

(Estes ingleses nem para falar de um bichano dispensam a newspeak.)