FAÇA VOCÊ MESMO A SUA COMPARAÇÃO COM ADOLF, ESSE GRANDE FOLGAZÃO: Prossegue animada a disputa para demonstrar que a famigerada
lei de Godwin não passa de uma aproximação tímida: depois de
José Manuel Fernandes, também
Carlos Vidal (desta vez, bizarramente, sem citar Alain Badiou) provou que a ocorrência de comparações com Hitler ou o Terceiro Reich não requer que a duração de uma discussão tenda para o infinito. Melhor ainda, não necessita sequer do esforço colaborativo de uma discussão: um só escriba, com o estofo apropriado, é quanto basta. Dispensam-se delongas, preâmbulos, gradientes na intensidade da adjectivação: trata-se de perpetrar o que há a perpetrar antes que se esgote o lapso de atenção do leitor médio.
Bem pelo contrário, João César das Neves, que não cultiva o estilo de retórica
bulldozer, gosta de inserir um simulacro de cadeia argumentativa antes de se entregar aos seus atentados ao bom senso. Na semana passada, por exemplo, e a propósito do centenário da Lei de Separação da Igreja e do Estado,
comparou a alegada perseguição da Igreja Católica durante a 1ª República com a perseguição aos judeus promovida pelos nazis. Fê-lo como aparente corolário de um patusco exercício de história comparada. O fosso entre os termos de comparação, o insulto à inteligência que pressupõe o mero acto de os cotejar, aparecem diluídos pelo estilo, na aparência demasiado cordato para conter derivas tão ofensivas e asininas.
São, no fundo, dois meios para o mesmo fim, duas variedades de vinagre para apanhar a mesma mosca doméstica: a vociferação de faca na liga ou o exercício académico. Comparar o que não é comparável é cada vez mais uma actividade popular e transversal a diversos sectores e orientações. A
Reductio ad Hitlerium, em particular, ganha adeptos com uma velocidade proporcional (receio-o bem) ao ritmo a que se degrada a memória daquilo que realmente se passou na Alemanha e no mundo entre 1933 e 1945.