domingo, julho 24, 2011
MORANGOS COM AÇÚCAR: Os espectadores fiéis dos "Morangos" sabem que a suspensão de incredulidade é para usar sem parcimónia. Questionar a verosimilhança das peripécias ao sabor das quais navegam os alunos da Dom Sebastião não leva ninguém a lado nenhum. Faz parte do contrato; aceita-se de bom grado, não sem um prazer secreto. Mas isto não significa que não existam limites. Cada um traça os seus, e receio bem que os meus acabem de ser violentados com esta história do "dote" que o pai da Sandra obrigou o Ravi a esportular para poder ficar com ela. A feira de antiguidades que se perfila no horizonte, com o nobre propósito de angariar fundos para este casal desgraçado, funciona na perfeição como cereja no bolo.
quinta-feira, julho 14, 2011
14 DE JULHO: É este o dia do ano em que não preciso de desculpas para ser francófilo (não é que nos restantes dias me preocupe muito com desculpas, mas enfim).
Viva a França! Vivam o queijo camembert e a tarte Tatin, Platini e Zidane, Balzac, Proust, Perec, Valéry e Apollinaire, Juliette Binoche, Isabelle Huppert, Rivette e Rohmer, a torre Eiffel e as praias da Vendeia, Cézanne e Degas, Georges Brassens e France Gall!
Vivam a Liberdade a Igualdade e a Fraternidade, os valores que sempre estiveram associados a este dia e que têm resistido a gerações de cépticos, antagonistas e revisionistas.
Viva a França! Vivam o queijo camembert e a tarte Tatin, Platini e Zidane, Balzac, Proust, Perec, Valéry e Apollinaire, Juliette Binoche, Isabelle Huppert, Rivette e Rohmer, a torre Eiffel e as praias da Vendeia, Cézanne e Degas, Georges Brassens e France Gall!
Vivam a Liberdade a Igualdade e a Fraternidade, os valores que sempre estiveram associados a este dia e que têm resistido a gerações de cépticos, antagonistas e revisionistas.
| Cézanne, "Le Viaduc à l'Estaque". |
quarta-feira, julho 13, 2011
MY MAN JAN!:
I like the classics of Russian literature, above all Dostoyevsky and Tolstoy. I also love South-American literature, especially Borges, and I also wrote an essay about him. Other favourite writers are Kafka and, among Italian writers, Italo Svevo: he didn’t write many books but those few books were really excellent, like Confessions of Zeno.
(Excerto de uma entrevista a Jan Timman, grande-mestre de xadrez de nacionalidade holandesa, várias vezes campeão nacional e candidato ao título de campeão do mundo. Negrito meu.)
I like the classics of Russian literature, above all Dostoyevsky and Tolstoy. I also love South-American literature, especially Borges, and I also wrote an essay about him. Other favourite writers are Kafka and, among Italian writers, Italo Svevo: he didn’t write many books but those few books were really excellent, like Confessions of Zeno.
(Excerto de uma entrevista a Jan Timman, grande-mestre de xadrez de nacionalidade holandesa, várias vezes campeão nacional e candidato ao título de campeão do mundo. Negrito meu.)
segunda-feira, julho 11, 2011
IMPRESSÕES DO QUÉBEC (2) E LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na estação rodoviária central de Montréal, uma leitora lia "Tristes Tropiques", de Claude Lévi-Strauss. Foi ela quem me informou de que a fila onde estava era para Sherbrooke, e não para o aeroporto. Não me perguntem porquê, mas acho reconfortante saber que se lê Claude Lévi-Strauss em Sherbrooke, Québec.
segunda-feira, julho 04, 2011
IMPRESSÕES DO QUÉBEC (1): A divisa da província do Québec é uma das mais belas que conheço: "JE ME SOUVIENS". Nada a acrescentar nem a retirar.
Q&A: O Eremita descobriu uma maneira de anunciar que não gosta de mim que de subtil não tem nada. Mas seja. Vamos, pois, responder a este inquérito.
1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Esse livro existe. "Adrian Mole and the Weapons of Mass Destruction", de Sue Townsend.
2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Quando começo um livro é para ler até ao fim, altura em que paro de o ler. "Tentaste e tentaste" é giro.
3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
O pai do Adrian Mole dizia que, depois de ter lido "Fernão Capelo Gaivota", toda a literatura se tornava redundante.
4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme...
5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
Bem, há as linhas finais do "Daisy Miller", que contêm o eufemismo mais cínico e (bizarramente) mais comovente da história da literatura:
Winterbourne almost immediately left Rome; but the following summer he again met his aunt, Mrs. Costello at Vevey. Mrs. Costello was fond of Vevey. In the interval Winterbourne had often thought of Daisy Miller and her mystifying manners. One day he spoke of her to his aunt--said it was on his conscience that he had done her injustice.
"I am sure I don't know," said Mrs. Costello. "How did your injustice affect her?"
"She sent me a message before her death which I didn't understand at the time; but I have understood it since. She would have appreciated one's esteem."
(...)
Negrito meu.
6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Foi há muito tempo, já não me lembro.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
"The Famished Road" de Ben Okri, "Le Troisième Bonheur" de Henri Troyat, "Rendez-vous au Colorado" de Philippe Labro e mais uns poucos. Ver pergunta 2.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Ah ah, que piadinha.
9. Que livro estás a ler neste momento?
William Hazlitt, "Liber Amoris". Crónica de um descalabro amoroso.
10. Indica dez amigos para o Meme Literário.
Isso é que não, meme que entra neste blog já dele não sai.
E assim se conclui a resposta a este inquérito.
1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Esse livro existe. "Adrian Mole and the Weapons of Mass Destruction", de Sue Townsend.
2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Quando começo um livro é para ler até ao fim, altura em que paro de o ler. "Tentaste e tentaste" é giro.
3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
O pai do Adrian Mole dizia que, depois de ter lido "Fernão Capelo Gaivota", toda a literatura se tornava redundante.
4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme...
5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
Bem, há as linhas finais do "Daisy Miller", que contêm o eufemismo mais cínico e (bizarramente) mais comovente da história da literatura:
Winterbourne almost immediately left Rome; but the following summer he again met his aunt, Mrs. Costello at Vevey. Mrs. Costello was fond of Vevey. In the interval Winterbourne had often thought of Daisy Miller and her mystifying manners. One day he spoke of her to his aunt--said it was on his conscience that he had done her injustice.
"I am sure I don't know," said Mrs. Costello. "How did your injustice affect her?"
"She sent me a message before her death which I didn't understand at the time; but I have understood it since. She would have appreciated one's esteem."
(...)
Negrito meu.
6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Foi há muito tempo, já não me lembro.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
"The Famished Road" de Ben Okri, "Le Troisième Bonheur" de Henri Troyat, "Rendez-vous au Colorado" de Philippe Labro e mais uns poucos. Ver pergunta 2.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Ah ah, que piadinha.
9. Que livro estás a ler neste momento?
William Hazlitt, "Liber Amoris". Crónica de um descalabro amoroso.
10. Indica dez amigos para o Meme Literário.
Isso é que não, meme que entra neste blog já dele não sai.
E assim se conclui a resposta a este inquérito.
«EU NÃO PROCURO, EU ENCONTRO» (PICASSO?): Um leitor chegou recentemente ao 1bsk ao fazer uma pesquisa com as palavras "conferência sanitária de veneza 1897". Um outro (ou talvez o mesmo) chegou até este garrido quiosque em busca de informação sobre "incompatibilidade de feitios nos morangos com açúcar". Sejam todos bem-vindos, sem excepção! Não há más razões para ler este blog. O Lourenço e a Marta andam outra vez de candeias às avessas, mas o verão será longo e ninguém de bom senso duvida que eles acabarão nos braços um do outro.
domingo, junho 19, 2011
ONDE ESTÃO ELES?: Onde estão os ficcionistas portugueses "obedientes à cartilha de Robbe-Grillet"? Onde estão esses que, a julgar por numerosas críticas e ensaios, representam a regra, contra a qual ousam erguer-se uns poucos contadores de hístórias, escorreitos, no-nonsense, cinematográficos, filo-anglo-saxónicos? Por mais que procure nos escaparates, nunca tive o prazer de os encontrar.
Quem me dera que o panorama da ficção portuguesa estivesse repleto de seguidores de Robbe-Grillet, quem me dera que "Pour Un Nouveau Roman" fosse a cartilha de toda uma geração. Quem me dera que o modernismo, o experimentalismo, a meta-ficção tivessem influenciado a narrativa escrita em Portugal em vez de se limitar a beliscadelas ocasionais.
Quem me dera que o panorama da ficção portuguesa estivesse repleto de seguidores de Robbe-Grillet, quem me dera que "Pour Un Nouveau Roman" fosse a cartilha de toda uma geração. Quem me dera que o modernismo, o experimentalismo, a meta-ficção tivessem influenciado a narrativa escrita em Portugal em vez de se limitar a beliscadelas ocasionais.
quinta-feira, junho 16, 2011
UM TEMPO PARA DESCONFIAR: Depois de se ficar a saber que o autor do blog A Gay Girl in Damascus não era homossexual nem rapariga e residia em Edimburgo, que outras revelações nos esperam? Terão algum fundamento os rumores segundo os quais o tão celebrado banco do Jardim de Santo Amaro fica afinal no Campo dos Mártires da Pátria?
PEQUENA PROVOCAÇÃO:
Este post é um mistério para mim. James Joyce morreu há 70 anos, num hospital de Zurique, e não há 25 anos.
Este post é um mistério para mim. James Joyce morreu há 70 anos, num hospital de Zurique, e não há 25 anos.
BLOOMSDAY:
É hoje o dia ideal para caminhar num areal de olhos fechados, comer rim de porco ao pequeno-almoço, comprar um sabonete, comer uma sandes de queijo ao almoço, divagar sobre "Hamlet" na Biblioteca Nacional, discutir com um anti-semita, espiar uma jovem na praia, visitar um bordel, beber cacau à ceia e dizer Sim.
O Bloomsday, data onde se concentra a acção do maior romance do século XX, foi há 107 anos.
É hoje o dia ideal para caminhar num areal de olhos fechados, comer rim de porco ao pequeno-almoço, comprar um sabonete, comer uma sandes de queijo ao almoço, divagar sobre "Hamlet" na Biblioteca Nacional, discutir com um anti-semita, espiar uma jovem na praia, visitar um bordel, beber cacau à ceia e dizer Sim.
O Bloomsday, data onde se concentra a acção do maior romance do século XX, foi há 107 anos.
quarta-feira, junho 15, 2011
GUNNAR FISCHER (1910-2011):
Foi o director de fotografia de muitos dos filmes da primeira fase da carreira de Ingmar Bergman. A parceria foi menos longa do que no caso de Sven Nykvist, mas produziu obras-primas como "Mónica e o Desejo", "Sorrisos de Uma Noite de Verão", "O Sétimo Selo", "Morangos Silvestres" e o meu favorito pessoal, o magnífico e subestimado "O Rosto".
Faleceu no passado dia 11, já centenário. Soube do facto graças ao Da Casa Amarela. Nem seria de esperar que os media tradicionais, petrificados na sua absurda escala de valores, dedicassem à notícia sequer umas migalhas de tempo de antena ou linhas impressas.
Foi o director de fotografia de muitos dos filmes da primeira fase da carreira de Ingmar Bergman. A parceria foi menos longa do que no caso de Sven Nykvist, mas produziu obras-primas como "Mónica e o Desejo", "Sorrisos de Uma Noite de Verão", "O Sétimo Selo", "Morangos Silvestres" e o meu favorito pessoal, o magnífico e subestimado "O Rosto".
ROTEIRO CULTURAL:
O papel da mulher nas artes em destaque na Faculdade de Letras
Até dia 17. Mais pormenores aqui.
O grupo de investigação de Estudos Americanos do CEAUL (Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa) está a organizar o colóquio Women and the Arts: Dialogues in Female Creativity in the U.S. and Beyond, a decorrer na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, entre os dias 15 e 17 de Junho. Pretende-se dinamizar uma reflexão sobre a produção artística no feminino, num contexto multidisciplinar e de cariz internacional.
O papel da mulher nas artes em destaque na Faculdade de Letras
Até dia 17. Mais pormenores aqui.
O grupo de investigação de Estudos Americanos do CEAUL (Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa) está a organizar o colóquio Women and the Arts: Dialogues in Female Creativity in the U.S. and Beyond, a decorrer na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, entre os dias 15 e 17 de Junho. Pretende-se dinamizar uma reflexão sobre a produção artística no feminino, num contexto multidisciplinar e de cariz internacional.
sábado, junho 11, 2011
MUSEU DE ARTE ANTIGA:
Museu Nacional de Arte Antiga, manhã de sexta-feira, feriado nacional. Cerca de 80 % dos (pouco numerosos) clientes são franceses. Será que este museu aparece em destaque nos guias Michelin e Routard?
Não me recordava desta esplêndida e perturbante Salomé de Cranach o Velho:
Museu Nacional de Arte Antiga, manhã de sexta-feira, feriado nacional. Cerca de 80 % dos (pouco numerosos) clientes são franceses. Será que este museu aparece em destaque nos guias Michelin e Routard?
Não me recordava desta esplêndida e perturbante Salomé de Cranach o Velho:
DEPOIS DE KARADZIC E MLADIC, RUI TAVARES:
Rui Tavares, um dos carrascos do povo líbio, não deixa margem para dúvidas.
(O negrito é meu e supérfluo.) O mundo era muito mais enfadonho quando os blogs não existiam e não tínhamos pérolas como esta à distância de um indolente click de rato.
Rui Tavares, um dos carrascos do povo líbio, não deixa margem para dúvidas.
(O negrito é meu e supérfluo.) O mundo era muito mais enfadonho quando os blogs não existiam e não tínhamos pérolas como esta à distância de um indolente click de rato.
terça-feira, junho 07, 2011
COMENTÁRIOS SOBRE AS ELEIÇÕES PARA ARRUMAR COM O ASSUNTO E DEPOIS IR À VIDA (3/3):
Um dos grandes (um dos únicos) prazeres pós-eleitorais consiste em verificar, blog após blog, colunista após colunista, quão multiformes podem ser as variantes do eterno lamento «O povo não sabe o que é melhor para ele», e até onde alguns se deixam ir no vistoso exercício de martelar a realidade à medida dos seus argumentos inamovíveis.
Um dos grandes (um dos únicos) prazeres pós-eleitorais consiste em verificar, blog após blog, colunista após colunista, quão multiformes podem ser as variantes do eterno lamento «O povo não sabe o que é melhor para ele», e até onde alguns se deixam ir no vistoso exercício de martelar a realidade à medida dos seus argumentos inamovíveis.
COMENTÁRIOS SOBRE AS ELEIÇÕES PARA ARRUMAR COM O ASSUNTO E DEPOIS IR À VIDA (2/3):
Votar para nada serve...
Sem dúvida, sobretudo quando não é o nosso partido que ganha.
(Ah, e Bruce Nauman forever.)
Votar para nada serve...
Sem dúvida, sobretudo quando não é o nosso partido que ganha.
(Ah, e Bruce Nauman forever.)
COMENTÁRIOS SOBRE AS ELEIÇÕES PARA ARRUMAR COM O ASSUNTO E DEPOIS IR À VIDA (1/3): Diálogo entre duas senhoras de idade, escutado à saída da assembleia de voto:
- Pois, já se sabe o que vai acontecer. Um vai perder...
- E o outro vai ganhar.
Institutos de sondagens para quê? Painéis de comentadores para quê? Este diálogo, na sua rude singeleza, encapsula de maneira admirável tudo o que interessa saber sobre as eleições de domingo passado. Um perdeu, o outro ganhou.
- Pois, já se sabe o que vai acontecer. Um vai perder...
- E o outro vai ganhar.
Institutos de sondagens para quê? Painéis de comentadores para quê? Este diálogo, na sua rude singeleza, encapsula de maneira admirável tudo o que interessa saber sobre as eleições de domingo passado. Um perdeu, o outro ganhou.
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