domingo, outubro 02, 2011

O SANEAMENTO LAICO É UMA CENA QUE NÃO ME ASSISTE:

«(...) Desta autoria tripartida nascerá este acto de higiene espiritual numa altura em que os fantasmas de Richard Dawkins ou Christopher Hitchens assomam aos altares da vida pública e onde o simples facto de se dizer Deus abertamente e com maiúscula nos pode pôr no limbo do saneamento laico. Este espectáculo é uma oração. Este espectáculo é um acto militante. Este espectáculo devia ser uma leve brisa.» Miguel Loureiro, direcção.

(Excerto do texto de apresentação do espectáculo "A Vida de Maria", de Rainer Maria Rilke, Teatro São Luiz, 16-22 Dezembro.)

A minha primeira pergunta, ao ler este texto, foi: «Quem escreveu isto?» A segunda pergunta foi: «De que nação ou planeta aterrou ele?»

Valorizo muito o intercâmbio de culturas, pelo que teria o maior prazer em trocar dois dedos de conversa com este emissário de uma civilização distante. Nessa conversa, o director deste espectáculo (espectáculo que, aliás parece supremamente recomendável) poderia testemunhar sobre essas paragens remotas onde os fantasmas de Dawkins e Hitchens pairam, mais ameaçadores do que erínias, e onde "dizer Deus abertamente e com maiúscula" expõe o imprudente ao "limbo do saneamento laico", que eu ignoro o que seja mas que parece ser um destino consideravelmente pior do que a morte.

Pelo meu lado, eu poderia descrever a situação do país onde vivo, não muito diferente, mais cambiante menos cambiante, da que vigora na maior parte dos países limítrofes: uma sociedade onde, durante séculos, o laicismo, a luta pela separação Igreja/Estado e o ateísmo foram quase universalmente pretexto para o ostracismo, a incompreensão e a perseguição; e onde as últimas gerações puderam por fim (mas muito a custo, e não em toda a parte) pôr abertamente em causa os totalitarismos clericais, as conivências entre o poder público e a religião, o dogmatismo.

O meu interlocutor ficaria certamente encantado ao saber que as ruas deste país onde vivo não são patrulhadas por milícias sanguinárias de laicistas e ateístas, prontas a sanear quem se atreva a "dizer Deus", com ou sem maiúscula; e que, muito pelo contrário, são ainda aqueles que se atrevem a fazer sugestões tão sensatas e razoáveis como respeitar a lei no que toca à presença de crucifixos nas escolas públicas, deixar de remunerar os capelães pelo erário público ou fazer reflectir a neutralidade confessional do Estado no protocolo das cerimónias oficiais, que se expõem às acusações de intolerância e de "militância laicista".

Uma vez escalpelizadas estas interessantes clivagens culturais, poderíamos então falar sobre Rilke e Hindemith.
O EXCESSO DE DOUTORES, ESSA CHAGA NACIONAL: Este blog tem vivido num estado de agradável e puríssima letargia, mas isso não é desculpa para deixar de saudar exemplos de prosa bem escrita e certeira. Este post do Rui é um portento, e uma das melhores desmontagens que alguma vez li do velho mito de que Portugal tem licenciados a mais, independentemente de se tratar da versão medinista ou de outro flavor, mais ou menos requentado.

Hesito, porém, em insistir na crítica a Medina Carreira. A partir do momento em que a comunicação social se desunha para garantir o exclusivo das suas inanidades e lhe oferece uma tribuna, em horário nobre e com pouco mais do que uma amostra de contraditório, seria cruel negar-lhe esta satisfação. A tentação de atribuir às suas opiniões uma importância proporcional ao tempo de antena que lhe concedem é demasiado forte.

domingo, setembro 18, 2011

A LITTLE FAITH:

You have to have a little faith in people.

São as últimas palavras do filme "Manhattan", de Woody Allen (1979).

Já não me lembrava.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS (À MANEIRA DE COLE PORTER):

Bees do it
Birds do it
I do it
Publishing nerds in New York do it
They do with covers
And short descriptions of the readers they spot
And that's nice
La la la
Let's do it... 
NAMING: O metropolitano de Lisboa mudou o "naming" (é assim que se diz?) da estação "Baixa-Chiado". Houve quem se revoltasse. Estou certo de que esta mudança será rapidamente assimilada pela população lisboeta, pouco interessada em polémicas estéreis. Diálogos como «Vais até ao Cais do Sodré? Não, desço já aqui na Baixa-Chiado PT Bluestore.» irão em breve tornar-se corriqueiros.

Antecipo com prazer o dia em que uma das minhas entradas sobre leituras em lugares públicos rezará assim:

«Um leitor foi avistado a ler as "Metamorforses" de Ovídio na estação Telheiras Salsichas Nobre.»

segunda-feira, setembro 05, 2011

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Sentada à minha frente no metropolitano, uma leitora trazia a "Antologia de Páginas Íntimas" de Kafka no regaço, mas preferiu ler o jornal "Metro". A nossa vida é feita de escolhas. Zero pontos de bónus.

domingo, setembro 04, 2011

CONTÉM REFERÊNCIA A PRODUTO (MAS UM PRODUTO MUITO BOM): Que ninguém duvide: se o Power Coffee da Delta Q já existisse no tempo de Balzac, romances previstos para a "Comédie Humaine" e nunca concretizados, como "Un pensionnat de demoiselles", "Une actrice en voyage", "Jacques de Metz", "La garde consulaire" ou "La plaine de Wagram" não teriam ficado por escrever.

São 2 "shots" de café, mais extracto de ginseng e de guaraná.

terça-feira, agosto 30, 2011

ROHMER PARA SEMPRE: O seguinte texto da minha autoria esteve na base de um trabalho apresentado na exposição "Histórias do Cinema", organizado pelo clube de cinema 8 e meio, da Escola Secundária Eça de Queirós, Póvoa de Varzim.


Este conto moral é também um conto de fadas. Conduz-nos um fio nítido, através dos penhascos da moral até uma clareira de felicidade onde os dilemas se resolvem aparentemente por si só, onde as inclinações e a ética coincidem. Tanto melhor se esse lugar for luminoso e idílico como as margens do lago de Annecy no princípio do verão.


Jérôme a viver o acontecimento.


Jérôme fala num desejo puro, mas até mesmo os desejos puros são afligidos pela necessidade desgraciosa de um objecto, nem que esse objecto seja a parte mais neutra do corpo humano. O joelho de Claire reduz-se à condição de testemunho, superfície orgânica que sanciona o gesto – mau grado a demora e intensidade do afago, no abrigo solitário batido pela chuva.


Jérôme a contar o acontecimento.


As personagens de Rohmer confundem destino, vontade e acaso – quase sempre por ignorância ou inconsciência, quase nunca por malícia. Acreditam-se senhores da sua sorte, julgam produzir o seu próprio enredo e felicitam-se pelo seu engenho, ainda que o desfecho seja óbvio ou enfadonho. Preocupam-se com o efeito dos seus actos (inócuos) em terceiros. Preocupação vã... Todas as personagens desta história porfiam nas trajectórias que já eram as suas no começo. O gesto puro de Jérôme (a pele da mão contra a pele do joelho) consumiu-se a si próprio, vergado ao peso do significado que o seu autor lhe atribuiu. O antes e o depois do gesto assemelharam-se fielmente.

Este conto moral é também um conto de trevas. Jérôme apodera-se de um discurso alheio (as teorias e devaneios literários da sua cúmplice Aurora) e torna-o seu instrumento, projecção ficcional que ele concretiza ao mesmo tempo que a descreve, cobaia de si mesmo. O seu propósito não é menos condenável por ser inofensivo. Coloca-se na posição de quem se pode dar ao luxo de fazer o gesto que convém ao seu apetite, por ser o único gesto correcto. Côncavo da mão surpreendentemente ajustado ao convexo do joelho. A moral tornada redundante.



«O Joelho de Claire» («Le Genou de Claire»). Argumento e realização: Éric Rohmer. Interpretação: Jean-Claude Brialy, Aurora Cornu, Béatrice Romand, Laurence de Monaghan. França, 1970.


domingo, agosto 28, 2011

BARTHELMISMO: Em plena silly season, um excelente artigo de Rogério Casanova sobre Donald Barthelme. O que é de saudar, sobretudo nestes malfadados tempos em que a percentagem de artigos na imprensa portuguesa que não são sobre Donald Barthelme atinge níveis historicamente altos.
AS MINHAS FÉRIAS EM CAPAS:







quarta-feira, agosto 03, 2011

LONGA MARCHA: Esta é uma verdade que permanece convenientemente oculta: a longa odisseia que foi a criação da Internet, os esforços de Vint Cerf, Tim Berners-Lee e tantos outros, a Arpanet, o desenvolvimento de protocolos como o TCP/IP, a manutenção da vastíssima infraestrutura de servidores, tiveram como fim supremo a possibilidade de todo e qualquer cidadão poder escutar, quando bem entender, a interpretação que Magdalena Kožená faz de "Erbarme dich" (J.S. Bach, "Paixão segundo S. Mateus").

domingo, julho 31, 2011

JOGO DE REIS E DE LITERATOS (2): Na sequência disto: há também um "gabrielconroy" a assombrar as salas de chat sobre xadrez.
VOCÊ SABE QUE ESTÁ NUMA COMPANHIA AÉREA FRANCESA QUANDO...: ...quando é posta à disposição do passageiro a possibilidade de, em pleno voo, descarregar um podcast sobre Walter Benjamin e cinema.

(Autêntico. Na Air France.)
FAMA E PROVEITO: Leitor, se te assalta a tentação de experimentar um gelado na famigeradíssima Santini, mas hesitas devido ao receio de que sejam mais as vozes que as nozes, pois bem, segue o meu conselho: não hesites. Vai lá quanto antes. No passado fim-de-semana, os maravilhosos sabores "dulce de leche" e "framboesa com limão" aplicaram às minhas terminações gustativas um tratamento de VIP que irá perdurar na memória. Na minha vida, haverá um antes e um depois de comer gelado de "dulce de leche" na Santini.

terça-feira, julho 26, 2011

TÍTULO: O melhor título da história do cinema português? "Relação Fiel e Verdadeira" (Margarida Gil).
JOGO DE REIS E DE LITERATOS: Como tenho tempo livre para dar e vender, sucede-me frequentar chats de xadrez. Sou forçado a concluir que o adepto médio de xadrez possui uma cultura artística notável. Já li nesses chats referências ao mito de Édipo e a Ingmar Bergman, e não pude deixar de notar, com um trejeito apreciativo no rosto, nicks como "chichikov" e "ferdinand bardamu".

domingo, julho 24, 2011

MORANGOS COM AÇÚCAR: Os espectadores fiéis dos "Morangos" sabem que a suspensão de incredulidade é para usar sem parcimónia. Questionar a verosimilhança das peripécias ao sabor das quais navegam os alunos da Dom Sebastião não leva ninguém a lado nenhum. Faz parte do contrato; aceita-se de bom grado, não sem um prazer secreto. Mas isto não significa que não existam limites. Cada um traça os seus, e receio bem que os meus acabem de ser violentados com esta história do "dote" que o pai da Sandra obrigou o Ravi a esportular para poder ficar com ela. A feira de antiguidades que se perfila no horizonte, com o nobre propósito de angariar fundos para este casal desgraçado, funciona na perfeição como cereja no bolo.

quinta-feira, julho 14, 2011

14 DE JULHO: É este o dia do ano em que não preciso de desculpas para ser francófilo (não é que nos restantes dias me preocupe muito com desculpas, mas enfim).

Viva a França! Vivam o queijo camembert e a tarte Tatin, Platini e Zidane, Balzac, Proust, Perec, Valéry e Apollinaire, Juliette Binoche, Isabelle Huppert, Rivette e Rohmer, a torre Eiffel e as praias da Vendeia, Cézanne e Degas, Georges Brassens e France Gall!

Vivam a Liberdade a Igualdade e a Fraternidade, os valores que sempre estiveram associados a este dia e que têm resistido a gerações de cépticos, antagonistas e revisionistas.


Cézanne, "Le Viaduc à l'Estaque".

quarta-feira, julho 13, 2011

DO QUE ELES PRECISAM É DE AMOR:



"Moody's Mood for Love", um tema recentemente popularizado por Amy Winehouse, aqui na versão de Georgie Fame. Merece no mínimo rating AAAA++++.