segunda-feira, novembro 21, 2011

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Num bar da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, um leitor e uma leitora passavam-se mutuamente um exemplar de "Wuthering Heights", apontavam páginas e frases, riam a bom rir.

Ergueu-se há uns dias um burburinho maçador por causa de uma reportagem que, supostamente, provava a colossal ignorância dos frequentadores do ensino superior nacional. (A talhe de foice: leiam aquilo que o Vasco escreve e não percam mais tempo com o assunto.) Pelo que me toca, preocupo-me mais por a nossa juventude encontrar motivo para galhofa em Emily Brontë do que por não saber quem pintou o tecto da Capela Sistina.
UM BLOG SOBRE ELE...: Cumprem-se hoje 200 anos sobre o dia em que Heinrich von Kleist, escritor, editor, ex-funcionário público e ex-militar, desiludido com a vida a ponto de entrar num pacto suicida, matou a tiro Henriette Vogel antes de atirar fatalmente sobre si mesmo. Foi nas margens do pequeno lago de Wannsee, perto de Berlim; Kleist tinha 34 anos. Escolhi Kleist para dar nome a este blog um pouco por acaso, um pouco por convicção, muito por causa de um feixe de circunstâncias da minha vida que o tempo (mais de 8 anos e meio) trabalhou mas não apagou. Agora, agradeço essa inspiração oblíqua. Kleist tem sido um patrono gentil e sincero. Uma época de paradoxos pede a arte remota de alguém que traduziu os paradoxos e os sobressaltos da razão com uma acuidade nunca igualada. Habitar esta época sem a companhia de Kleist significa privar-se de um ângulo de visão e de um fio de lucidez precioso.


terça-feira, novembro 08, 2011

MORANGOS COM AÇÚCAR: É uma verdade cruel, mas que devemos encarar com frontalidade: as bandas dos "Morangos com Açúcar" estão cada vez piores. Que longe nos parecem agora os tempos gloriosos dos D'ZRT. Até as Just Girls começam já a despertar saudades.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma leitora lia "Les Nourritures Terrestres", de André Gide, no bar do Instituto Franco-Português em Lisboa. Alguns poderão objectar: «Ah e tal, pois é, tipo assim é fácil, isso é fazer batota, no bar do Instituto Franco-Português também eu era capaz de descobrir leitores em qualidade e quantidade». A esses, eu respondo apenas com o meu desprezo.

segunda-feira, outubro 31, 2011

SOMOS TODOS DICKENSIANOS: Depois de assistir a uma reportagem (creio que da SIC) sobre as derivas e convoluções judiciais do caso da herança Feteira, convenci-me de que a dimensão da coisa merecia uma comparação com o monstruoso processo Jarndyce and Jarndyce, descrito no romance "Bleak House" de Dickens.

Se as semelhanças se estenderem ao desenlace, as perspectivas são negras para os legítimos herdeiros. Em Jarndyce and Jarndyce, as custas judiciais acabaram por consumir integralmente o montante da herança.

A grande literatura não cessa de nos ministrar profundas lições de vida.


(PS - Por favor, deixem de mostrar as imagens da Sra. Rosalina a arranjar-se frente ao espelho do elevador.)

terça-feira, outubro 25, 2011

CINEMA: Pascal Mérigeau (de quem li uma biografia de Maurice Pialat, um pouco a puxar para o hagiográfico e sentimental) afirma que "Pater", de Alain Cavalier, é o filme mais singular alguma vez exibido no Festival de Cannes. Eu sou mais comedido. Para não ir mais longe, podemos pensar em "O Tio Boonmee...", de Apichatpong Weerasethakul (Palma de Ouro no ano passado) como um competidor à altura, em termos de originalidade. Em todo o caso, hierarquias de singularidade despertam-me reduzido interesse. Importa não correr o risco de reduzir uma obra tão admirável como "Pater" a um gimmick, e o seu encanto ao fascínio superficial do insólito. O filme de Alain Cavalier, que se esmera há décadas a trocar as voltas aos seus detractores e aos seus admiradores, é um prodigioso exemplo de inteligência narrativa, humor e mise en scène. Mau grado o aparente amadorismo da sua confecção (câmara digital ao ombro, equipa técnica quase inexistente, tom de falso documentário, improvisação ou simulação de improvisação), revela um domínio total sobre a matéria do filme, a sua dinâmica e os seus efeitos.

As três grandes obras-primas que eu tinha visto este ano nas salas ("O Tio Boonmee...", "O Estranho Caso de Angélica" e "Road to Nowhere") tinham-se sucedido muito rapidamente, como se obedecessem a um bizarro alinhamento astral. Começava a desesperar de reencontrar nem que fosse uma amostra de excelência - mas felizmente pode sempre contar-se com Cavalier para nos encher as medidas.

Vão ver. Não se arrependerão.


Alain Cavalier, Vincent Lindon e Bernard Bureau em "Pater". Uma das cenas mais hilariantes: a da fotografia comprometedora do candidato à presidência. «Pauvre France!...»
FERIADOS: A mudança ou eliminação de feriados é como a limpeza das sarjetas ou a redução do número de deputados: um tema recorrente que vem à baila ciclicamente, como se a ele aludir satisfizesse uma necessidade colectiva, obscura e primitiva. Se o governo actual levar avante o propósito de alterar o mapa de feriados, ficarei impressionado - independentemente de concordar ou não.

Se isso acontecer, impor-se-á a escolha entre feriados de cariz histórico e religioso. Entre datas marcantes para a formação do país e datas cuja relevância se confina à minoria católica praticante, sobretudo quando associadas a dogmas obscuros (falo por exemplo da Imaculada Conceição, naturalmente que excluo Páscoa e Natal), parecer-me-ia que a escolha deveria ser óbvia para os responsáveis políticos máximos de um Estado laico. Por desgraça, a República Portuguesa encontra-se voluntariamente condicionada por um acordo (Concordata) com um pseudo-estado carente de legitimidade e de dimensão democrática, por isso tudo é possível.
MALONE MORRE: Rebaptizar o blog é um estratagema batido, usado até à exaustão. Não é por mudar de nome que este blog deixa de ser o melhor blog português. Seria demasiado fácil. Tentem outra coisa.

domingo, outubro 23, 2011

JE PEUX PARLER:


Comprei este livro porque conhecia, da autora, uma notável obra sobre o realizador Jacques Rivette, e porque gostei daquilo que vi ao folhear. Só mais tarde me apercebi de que este "L'Agent de Liaison" começa com a descrição da cena inicial do filme da minha vida, "O Espelho" de Tarkovsky. Trata-se de uma cena em que um adolescente é aparentemente curado de uma gaguez muito profunda por uma hipnotista/curandeira. Para mim, é um dos momentos mais belos e intensos da história do cinema.


Podem visionar o filme aqui.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma leitora lia "Aparição", de Vergílio Ferreira, num banco ao ar livre na Faculdade de Ciências de Lisboa. Estava descalça, o que, apesar de não dar pontos de bónus, merece ser mencionado.

domingo, outubro 16, 2011

FESTA DO CINEMA FRANCÊS: Na noite do Dinamarca-Portugal, fui à Festa do Cinema Francês ver um filme de uma realizadora com ascendência dinamarquesa, ("Un Amour de Jeunesse", Mia Hansen-Løve). O filme era interessante, sem ser uma obra-prima. Já vira recentemente, na Cinemateca, uma outra longa-metragem da realizadora ("Tout Est Pardonné"), de que também gostei moderadamente, embora fosse copiosamente fustigada por Antonio Rodrigues na folha que acompanhava o filme.

Tendo em conta os relatos que ouvi sobre a exibição de Paulo Bento y sus muchachos, não me arrependo da escolha.

Sebastian Urzendowsky e Lola Créton em "Un Amour de Jeunesse"

quinta-feira, outubro 06, 2011

EUROPEAN BOOK COMPANY: Será que já prestei a devida homenagem à livraria "European Book Company", em San Francisco?

Acho que não prestei. Limitei-me, aquando da visita que a ela fiz, a registar uma nota mental para o fazer, que me anda a roer o juízo desde então.

A EBC é uma livraria muito especial. Fica situada num bairro de San Francisco (próximo do infame "Tenderloin") que, de forma gentil, poderia ser descrito como "pouco recomendável". O tipo de lugar onde o instinto e o bom senso mandam vigiar os pertences, estugar o passo e evitar contacto visual. Uma livraria independente especializada em livros franceses, como a EBC, seria um dos estabelecimentos que menos se esperaria encontrar neste sítio. Neste caso, a violação da lei das probabilidade é motivo de regozijo.

A EBC é uma livraria de dimensão média. Pouco deve à arrumação; a primeira impressão é de algum desmazelo. Domina a literatura francesa, incluindo uma selecção muito substancial de livros de bolso usados. Livros noutras línguas, em particular alemão, também se encontram. A representação de géneros é muito generosa, da filosofia à culinária. O atendimento não me pareceu um primor de simpatia, e o facto de os preços não estarem marcados nos livros é claramente um ponto contra. Mas não apetece perder tempo com estas ninharias, perante um diamante do tamanho do Ritz como é a EBC.

Acabei por me limitar a comprar 3 livros:


"Le Chaos et la Nuit", de Henry de Montherlant,




"L'Envers de l'Histoire Contemporaine" (grande título), de Honoré de Balzac (mas não foi esta a edição que comprei),




"Poèmes à Lou suivi de Il y a", de Guillaume Apollinaire.



Se ainda não está convencido, leia algumas reacções de clientes.


quarta-feira, outubro 05, 2011

5 DE OUTUBRO: Há quem se entretenha, talvez por ausência de outras maneiras mais produtivas de ocupar o seu tempo, a discutir a legitimidade histórica da República. Raras vezes faltam, nessas virtuosas argumentações, referências à representatividade parlamentar do Partido Republicano nos anos que precederam a Instauração, ao carácter bondoso de El-Rei D. Carlos, à natureza facínora do regicídio, aos 7 ou 8 séculos de história que fizeram de Portugal aquilo que é (ou aquilo que era circa 1910), aos egrégios avós, e à aleivosia suprema, que perdura até hoje, de a Constituição republicana negar a possibilidade de referendar a natureza do regime.

Nutro um interesse muito ténue por tais debates. A legitimidade da República não depende de acidentes históricos. A monarquia portuguesa e todas as restantes monarquias configuram uma usurpação do poder por uma família, perpetuada por linhas dinásticas mais ou menos tortuosas. Por maior que tenha sido a grandeza de vistas, os feitos, a sapiência dos monarcas, esse lastro histórico perdurou, intacto. A tendência das sociedades tem sido a da restituição do poder às populações e a da perda de confiança em soberanos legitimados pelo sangue, pela tradição ou por qualquer variante patusca da "graça divina". O percurso seguido por esse processo de restituição, o número de avanços e recuos, a quantidade de sangue vertido, são detalhes relevantes para o discurso histórico, é certo. Porém, fazer depender desses detalhes uma eventual discussão sobre a razão de ser da República implica cair numa armadilha; implica a possibilidade de uma República manca, diminuída, condicionada eternamente pela natureza dos eventos que a ela conduziram.

Esquecer a história da República é um erro tão grave como nela esgravatar incessantemente, em busca de legitimidade ou de um eventual "pecado original" que a debilite. Hoje, a República é um facto consumado. É o regime em que vivemos, um contexto de cidadania, um sistema de valores. É o presente e o futuro.

VIVA A REPÚBLICA!

domingo, outubro 02, 2011

O SANEAMENTO LAICO É UMA CENA QUE NÃO ME ASSISTE:

«(...) Desta autoria tripartida nascerá este acto de higiene espiritual numa altura em que os fantasmas de Richard Dawkins ou Christopher Hitchens assomam aos altares da vida pública e onde o simples facto de se dizer Deus abertamente e com maiúscula nos pode pôr no limbo do saneamento laico. Este espectáculo é uma oração. Este espectáculo é um acto militante. Este espectáculo devia ser uma leve brisa.» Miguel Loureiro, direcção.

(Excerto do texto de apresentação do espectáculo "A Vida de Maria", de Rainer Maria Rilke, Teatro São Luiz, 16-22 Dezembro.)

A minha primeira pergunta, ao ler este texto, foi: «Quem escreveu isto?» A segunda pergunta foi: «De que nação ou planeta aterrou ele?»

Valorizo muito o intercâmbio de culturas, pelo que teria o maior prazer em trocar dois dedos de conversa com este emissário de uma civilização distante. Nessa conversa, o director deste espectáculo (espectáculo que, aliás parece supremamente recomendável) poderia testemunhar sobre essas paragens remotas onde os fantasmas de Dawkins e Hitchens pairam, mais ameaçadores do que erínias, e onde "dizer Deus abertamente e com maiúscula" expõe o imprudente ao "limbo do saneamento laico", que eu ignoro o que seja mas que parece ser um destino consideravelmente pior do que a morte.

Pelo meu lado, eu poderia descrever a situação do país onde vivo, não muito diferente, mais cambiante menos cambiante, da que vigora na maior parte dos países limítrofes: uma sociedade onde, durante séculos, o laicismo, a luta pela separação Igreja/Estado e o ateísmo foram quase universalmente pretexto para o ostracismo, a incompreensão e a perseguição; e onde as últimas gerações puderam por fim (mas muito a custo, e não em toda a parte) pôr abertamente em causa os totalitarismos clericais, as conivências entre o poder público e a religião, o dogmatismo.

O meu interlocutor ficaria certamente encantado ao saber que as ruas deste país onde vivo não são patrulhadas por milícias sanguinárias de laicistas e ateístas, prontas a sanear quem se atreva a "dizer Deus", com ou sem maiúscula; e que, muito pelo contrário, são ainda aqueles que se atrevem a fazer sugestões tão sensatas e razoáveis como respeitar a lei no que toca à presença de crucifixos nas escolas públicas, deixar de remunerar os capelães pelo erário público ou fazer reflectir a neutralidade confessional do Estado no protocolo das cerimónias oficiais, que se expõem às acusações de intolerância e de "militância laicista".

Uma vez escalpelizadas estas interessantes clivagens culturais, poderíamos então falar sobre Rilke e Hindemith.
O EXCESSO DE DOUTORES, ESSA CHAGA NACIONAL: Este blog tem vivido num estado de agradável e puríssima letargia, mas isso não é desculpa para deixar de saudar exemplos de prosa bem escrita e certeira. Este post do Rui é um portento, e uma das melhores desmontagens que alguma vez li do velho mito de que Portugal tem licenciados a mais, independentemente de se tratar da versão medinista ou de outro flavor, mais ou menos requentado.

Hesito, porém, em insistir na crítica a Medina Carreira. A partir do momento em que a comunicação social se desunha para garantir o exclusivo das suas inanidades e lhe oferece uma tribuna, em horário nobre e com pouco mais do que uma amostra de contraditório, seria cruel negar-lhe esta satisfação. A tentação de atribuir às suas opiniões uma importância proporcional ao tempo de antena que lhe concedem é demasiado forte.

domingo, setembro 18, 2011

A LITTLE FAITH:

You have to have a little faith in people.

São as últimas palavras do filme "Manhattan", de Woody Allen (1979).

Já não me lembrava.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS (À MANEIRA DE COLE PORTER):

Bees do it
Birds do it
I do it
Publishing nerds in New York do it
They do with covers
And short descriptions of the readers they spot
And that's nice
La la la
Let's do it... 
NAMING: O metropolitano de Lisboa mudou o "naming" (é assim que se diz?) da estação "Baixa-Chiado". Houve quem se revoltasse. Estou certo de que esta mudança será rapidamente assimilada pela população lisboeta, pouco interessada em polémicas estéreis. Diálogos como «Vais até ao Cais do Sodré? Não, desço já aqui na Baixa-Chiado PT Bluestore.» irão em breve tornar-se corriqueiros.

Antecipo com prazer o dia em que uma das minhas entradas sobre leituras em lugares públicos rezará assim:

«Um leitor foi avistado a ler as "Metamorforses" de Ovídio na estação Telheiras Salsichas Nobre.»

segunda-feira, setembro 05, 2011

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Sentada à minha frente no metropolitano, uma leitora trazia a "Antologia de Páginas Íntimas" de Kafka no regaço, mas preferiu ler o jornal "Metro". A nossa vida é feita de escolhas. Zero pontos de bónus.

domingo, setembro 04, 2011

CONTÉM REFERÊNCIA A PRODUTO (MAS UM PRODUTO MUITO BOM): Que ninguém duvide: se o Power Coffee da Delta Q já existisse no tempo de Balzac, romances previstos para a "Comédie Humaine" e nunca concretizados, como "Un pensionnat de demoiselles", "Une actrice en voyage", "Jacques de Metz", "La garde consulaire" ou "La plaine de Wagram" não teriam ficado por escrever.

São 2 "shots" de café, mais extracto de ginseng e de guaraná.

terça-feira, agosto 30, 2011

ROHMER PARA SEMPRE: O seguinte texto da minha autoria esteve na base de um trabalho apresentado na exposição "Histórias do Cinema", organizado pelo clube de cinema 8 e meio, da Escola Secundária Eça de Queirós, Póvoa de Varzim.


Este conto moral é também um conto de fadas. Conduz-nos um fio nítido, através dos penhascos da moral até uma clareira de felicidade onde os dilemas se resolvem aparentemente por si só, onde as inclinações e a ética coincidem. Tanto melhor se esse lugar for luminoso e idílico como as margens do lago de Annecy no princípio do verão.


Jérôme a viver o acontecimento.


Jérôme fala num desejo puro, mas até mesmo os desejos puros são afligidos pela necessidade desgraciosa de um objecto, nem que esse objecto seja a parte mais neutra do corpo humano. O joelho de Claire reduz-se à condição de testemunho, superfície orgânica que sanciona o gesto – mau grado a demora e intensidade do afago, no abrigo solitário batido pela chuva.


Jérôme a contar o acontecimento.


As personagens de Rohmer confundem destino, vontade e acaso – quase sempre por ignorância ou inconsciência, quase nunca por malícia. Acreditam-se senhores da sua sorte, julgam produzir o seu próprio enredo e felicitam-se pelo seu engenho, ainda que o desfecho seja óbvio ou enfadonho. Preocupam-se com o efeito dos seus actos (inócuos) em terceiros. Preocupação vã... Todas as personagens desta história porfiam nas trajectórias que já eram as suas no começo. O gesto puro de Jérôme (a pele da mão contra a pele do joelho) consumiu-se a si próprio, vergado ao peso do significado que o seu autor lhe atribuiu. O antes e o depois do gesto assemelharam-se fielmente.

Este conto moral é também um conto de trevas. Jérôme apodera-se de um discurso alheio (as teorias e devaneios literários da sua cúmplice Aurora) e torna-o seu instrumento, projecção ficcional que ele concretiza ao mesmo tempo que a descreve, cobaia de si mesmo. O seu propósito não é menos condenável por ser inofensivo. Coloca-se na posição de quem se pode dar ao luxo de fazer o gesto que convém ao seu apetite, por ser o único gesto correcto. Côncavo da mão surpreendentemente ajustado ao convexo do joelho. A moral tornada redundante.



«O Joelho de Claire» («Le Genou de Claire»). Argumento e realização: Éric Rohmer. Interpretação: Jean-Claude Brialy, Aurora Cornu, Béatrice Romand, Laurence de Monaghan. França, 1970.


domingo, agosto 28, 2011

BARTHELMISMO: Em plena silly season, um excelente artigo de Rogério Casanova sobre Donald Barthelme. O que é de saudar, sobretudo nestes malfadados tempos em que a percentagem de artigos na imprensa portuguesa que não são sobre Donald Barthelme atinge níveis historicamente altos.
AS MINHAS FÉRIAS EM CAPAS:







quarta-feira, agosto 03, 2011

LONGA MARCHA: Esta é uma verdade que permanece convenientemente oculta: a longa odisseia que foi a criação da Internet, os esforços de Vint Cerf, Tim Berners-Lee e tantos outros, a Arpanet, o desenvolvimento de protocolos como o TCP/IP, a manutenção da vastíssima infraestrutura de servidores, tiveram como fim supremo a possibilidade de todo e qualquer cidadão poder escutar, quando bem entender, a interpretação que Magdalena Kožená faz de "Erbarme dich" (J.S. Bach, "Paixão segundo S. Mateus").

domingo, julho 31, 2011

JOGO DE REIS E DE LITERATOS (2): Na sequência disto: há também um "gabrielconroy" a assombrar as salas de chat sobre xadrez.
VOCÊ SABE QUE ESTÁ NUMA COMPANHIA AÉREA FRANCESA QUANDO...: ...quando é posta à disposição do passageiro a possibilidade de, em pleno voo, descarregar um podcast sobre Walter Benjamin e cinema.

(Autêntico. Na Air France.)
FAMA E PROVEITO: Leitor, se te assalta a tentação de experimentar um gelado na famigeradíssima Santini, mas hesitas devido ao receio de que sejam mais as vozes que as nozes, pois bem, segue o meu conselho: não hesites. Vai lá quanto antes. No passado fim-de-semana, os maravilhosos sabores "dulce de leche" e "framboesa com limão" aplicaram às minhas terminações gustativas um tratamento de VIP que irá perdurar na memória. Na minha vida, haverá um antes e um depois de comer gelado de "dulce de leche" na Santini.

terça-feira, julho 26, 2011

TÍTULO: O melhor título da história do cinema português? "Relação Fiel e Verdadeira" (Margarida Gil).
JOGO DE REIS E DE LITERATOS: Como tenho tempo livre para dar e vender, sucede-me frequentar chats de xadrez. Sou forçado a concluir que o adepto médio de xadrez possui uma cultura artística notável. Já li nesses chats referências ao mito de Édipo e a Ingmar Bergman, e não pude deixar de notar, com um trejeito apreciativo no rosto, nicks como "chichikov" e "ferdinand bardamu".

domingo, julho 24, 2011

MORANGOS COM AÇÚCAR: Os espectadores fiéis dos "Morangos" sabem que a suspensão de incredulidade é para usar sem parcimónia. Questionar a verosimilhança das peripécias ao sabor das quais navegam os alunos da Dom Sebastião não leva ninguém a lado nenhum. Faz parte do contrato; aceita-se de bom grado, não sem um prazer secreto. Mas isto não significa que não existam limites. Cada um traça os seus, e receio bem que os meus acabem de ser violentados com esta história do "dote" que o pai da Sandra obrigou o Ravi a esportular para poder ficar com ela. A feira de antiguidades que se perfila no horizonte, com o nobre propósito de angariar fundos para este casal desgraçado, funciona na perfeição como cereja no bolo.

quinta-feira, julho 14, 2011

14 DE JULHO: É este o dia do ano em que não preciso de desculpas para ser francófilo (não é que nos restantes dias me preocupe muito com desculpas, mas enfim).

Viva a França! Vivam o queijo camembert e a tarte Tatin, Platini e Zidane, Balzac, Proust, Perec, Valéry e Apollinaire, Juliette Binoche, Isabelle Huppert, Rivette e Rohmer, a torre Eiffel e as praias da Vendeia, Cézanne e Degas, Georges Brassens e France Gall!

Vivam a Liberdade a Igualdade e a Fraternidade, os valores que sempre estiveram associados a este dia e que têm resistido a gerações de cépticos, antagonistas e revisionistas.


Cézanne, "Le Viaduc à l'Estaque".

quarta-feira, julho 13, 2011

DO QUE ELES PRECISAM É DE AMOR:



"Moody's Mood for Love", um tema recentemente popularizado por Amy Winehouse, aqui na versão de Georgie Fame. Merece no mínimo rating AAAA++++.
MY MAN JAN!:

I like the classics of Russian literature, above all Dostoyevsky and Tolstoy. I also love South-American literature, especially Borges, and I also wrote an essay about him. Other favourite writers are Kafka and, among Italian writers, Italo Svevo: he didn’t write many books but those few books were really excellent, like Confessions of Zeno.

(Excerto de uma entrevista a Jan Timman, grande-mestre de xadrez de nacionalidade holandesa, várias vezes campeão nacional e candidato ao título de campeão do mundo. Negrito meu.)

segunda-feira, julho 11, 2011

O QUE NÃO NOS É DITO:

"Canos justapostos - o que não nos é dito." (Título de primeira página de uma revista sobre caça.)

Um dia, virá ao de cima toda a verdade sobre os canos justapostos, e não ficará pedra sobre pedra.
IMPRESSÕES DO QUÉBEC (2) E LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na estação rodoviária central de Montréal, uma leitora lia "Tristes Tropiques", de Claude Lévi-Strauss. Foi ela quem me informou de que a fila onde estava era para Sherbrooke, e não para o aeroporto. Não me perguntem porquê, mas acho reconfortante saber que se lê Claude Lévi-Strauss em Sherbrooke, Québec.

segunda-feira, julho 04, 2011

IMPRESSÕES DO QUÉBEC (1): A divisa da província do Québec é uma das mais belas que conheço: "JE ME SOUVIENS". Nada a acrescentar nem a retirar.


Q&A: O Eremita descobriu uma maneira de anunciar que não gosta de mim que de subtil não tem nada. Mas seja. Vamos, pois, responder a este inquérito.



1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

Esse livro existe. "Adrian Mole and the Weapons of Mass Destruction", de Sue Townsend.

2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

Quando começo um livro é para ler até ao fim, altura em que paro de o ler. "Tentaste e tentaste" é giro.

3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?


O pai do Adrian Mole dizia que, depois de ter lido "Fernão Capelo Gaivota", toda a literatura se tornava redundante.

4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme...

5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?

Bem, há as linhas finais do "Daisy Miller", que contêm o eufemismo mais cínico e (bizarramente) mais comovente da história da literatura:

Winterbourne almost immediately left Rome; but the following summer he again met his aunt, Mrs. Costello at Vevey. Mrs. Costello was fond of Vevey. In the interval Winterbourne had often thought of Daisy Miller and her mystifying manners. One day he spoke of her to his aunt--said it was on his conscience that he had done her injustice.

"I am sure I don't know," said Mrs. Costello. "How did your injustice affect her?"


"She sent me a message before her death which I didn't understand at the time; but I have understood it since. She would have appreciated one's esteem."

(...)

Negrito meu.

6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Foi há muito tempo, já não me lembro.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?

"The Famished Road" de Ben Okri, "Le Troisième Bonheur" de Henri Troyat, "Rendez-vous au Colorado" de Philippe Labro e mais uns poucos. Ver pergunta 2.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

Ah ah, que piadinha.

9. Que livro estás a ler neste momento?

William Hazlitt, "Liber Amoris". Crónica de um descalabro amoroso.

10. Indica dez amigos para o Meme Literário.

Isso é que não, meme que entra neste blog já dele não sai.

E assim se conclui a resposta a este inquérito.
«EU NÃO PROCURO, EU ENCONTRO» (PICASSO?): Um leitor chegou recentemente ao 1bsk ao fazer uma pesquisa com as palavras "conferência sanitária de veneza 1897". Um outro (ou talvez o mesmo) chegou até este garrido quiosque em busca de informação sobre "incompatibilidade de feitios nos morangos com açúcar". Sejam todos bem-vindos, sem excepção! Não há más razões para ler este blog. O Lourenço e a Marta andam outra vez de candeias às avessas, mas o verão será longo e ninguém de bom senso duvida que eles acabarão nos braços um do outro.

domingo, junho 19, 2011

ONDE ESTÃO ELES?: Onde estão os ficcionistas portugueses "obedientes à cartilha de Robbe-Grillet"? Onde estão esses que, a julgar por numerosas críticas e ensaios, representam a regra, contra a qual ousam erguer-se uns poucos contadores de hístórias, escorreitos, no-nonsense, cinematográficos, filo-anglo-saxónicos? Por mais que procure nos escaparates, nunca tive o prazer de os encontrar.

Quem me dera que o panorama da ficção portuguesa estivesse repleto de seguidores de Robbe-Grillet, quem me dera que "Pour Un Nouveau Roman" fosse a cartilha de toda uma geração. Quem me dera que o modernismo, o experimentalismo, a meta-ficção tivessem influenciado a narrativa escrita em Portugal em vez de se limitar a beliscadelas ocasionais.

quinta-feira, junho 16, 2011

UM TEMPO PARA DESCONFIAR: Depois de se ficar a saber que o autor do blog A Gay Girl in Damascus não era homossexual nem rapariga e residia em Edimburgo, que outras revelações nos esperam? Terão algum fundamento os rumores segundo os quais o tão celebrado banco do Jardim de Santo Amaro fica afinal no Campo dos Mártires da Pátria?
PEQUENA PROVOCAÇÃO:

Este post é um mistério para mim. James Joyce morreu há 70 anos, num hospital de Zurique, e não há 25 anos.
BLOOMSDAY:

É hoje o dia ideal para caminhar num areal de olhos fechados, comer rim de porco ao pequeno-almoço, comprar um sabonete, comer uma sandes de queijo ao almoço, divagar sobre "Hamlet" na Biblioteca Nacional, discutir com um anti-semita, espiar uma jovem na praia, visitar um bordel, beber cacau à ceia e dizer Sim.

O Bloomsday, data onde se concentra a acção do maior romance do século XX, foi há 107 anos.

quarta-feira, junho 15, 2011

GUNNAR FISCHER (1910-2011):

Foi o director de fotografia de muitos dos filmes da primeira fase da carreira de Ingmar Bergman. A parceria foi menos longa do que no caso de Sven Nykvist, mas produziu obras-primas como "Mónica e o Desejo", "Sorrisos de Uma Noite de Verão", "O Sétimo Selo", "Morangos Silvestres" e o meu favorito pessoal, o magnífico e subestimado "O Rosto".


Faleceu no passado dia 11, já centenário. Soube do facto graças ao Da Casa Amarela. Nem seria de esperar que os media tradicionais, petrificados na sua absurda escala de valores, dedicassem à notícia sequer umas migalhas de tempo de antena ou linhas impressas.
ROTEIRO CULTURAL:

O papel da mulher nas artes em destaque na Faculdade de Letras


Até dia 17. Mais pormenores aqui.

O grupo de investigação de Estudos Americanos do CEAUL (Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa) está a organizar o colóquio Women and the Arts: Dialogues in Female Creativity in the U.S. and Beyond, a decorrer na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, entre os dias 15 e 17 de Junho. Pretende-se dinamizar uma reflexão sobre a produção artística no feminino, num contexto multidisciplinar e de cariz internacional.

sábado, junho 11, 2011

MUSEU DE ARTE ANTIGA:

Museu Nacional de Arte Antiga, manhã de sexta-feira, feriado nacional. Cerca de 80 % dos (pouco numerosos) clientes são franceses. Será que este museu aparece em destaque nos guias Michelin e Routard?

Não me recordava desta esplêndida e perturbante Salomé de Cranach o Velho:

DEPOIS DE KARADZIC E MLADIC, RUI TAVARES:

Rui Tavares, um dos carrascos do povo líbio, não deixa margem para dúvidas.

(O negrito é meu e supérfluo.) O mundo era muito mais enfadonho quando os blogs não existiam e não tínhamos pérolas como esta à distância de um indolente click de rato.

terça-feira, junho 07, 2011

COMENTÁRIOS SOBRE AS ELEIÇÕES PARA ARRUMAR COM O ASSUNTO E DEPOIS IR À VIDA (3/3):

Um dos grandes (um dos únicos) prazeres pós-eleitorais consiste em verificar, blog após blog, colunista após colunista, quão multiformes podem ser as variantes do eterno lamento «O povo não sabe o que é melhor para ele», e até onde alguns se deixam ir no vistoso exercício de martelar a realidade à medida dos seus argumentos inamovíveis.
COMENTÁRIOS SOBRE AS ELEIÇÕES PARA ARRUMAR COM O ASSUNTO E DEPOIS IR À VIDA (2/3):

Votar para nada serve...

Sem dúvida, sobretudo quando não é o nosso partido que ganha.

(Ah, e Bruce Nauman forever.)
COMENTÁRIOS SOBRE AS ELEIÇÕES PARA ARRUMAR COM O ASSUNTO E DEPOIS IR À VIDA (1/3): Diálogo entre duas senhoras de idade, escutado à saída da assembleia de voto:

- Pois, já se sabe o que vai acontecer. Um vai perder...
- E o outro vai ganhar.

Institutos de sondagens para quê? Painéis de comentadores para quê? Este diálogo, na sua rude singeleza, encapsula de maneira admirável tudo o que interessa saber sobre as eleições de domingo passado. Um perdeu, o outro ganhou.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: "Todas as Cosmicómicas", de Italo Calvino, era a leitura de uma leitora avistada num recanto exótico e remoto da galáxia, estranhamente semelhante à linha verde do metropolitano de Lisboa.

domingo, junho 05, 2011

DOMINIQUE STRAUSS-KAHN: O colectivo editorial do 1bsk não tem qualquer opinião sobre a inocência ou culpabilidade de DSK. Ainda assim, vê-se no dever de frisar que o ex-director geral do FMI tem direito, para além da presunção da inocência, a que a grafia do seu apelido seja respeitada. É "STRAUSS-KAHN", e não "STRAUSS-KHAN", como muitas vezes se vê por aí.

A história era a mesma quando Helmut Kohl era o chanceler alemão. Vez sim vez não, os jornais escreviam o seu nome como "Khol". O que justifica esta tendência para agrupar o K e o H a todo o custo?
ENTÃO COMO AGORA: O nicho votivo já foi entregue. Estas linhas foram publicadas em 1823 (portanto muito antes do nascimento de Catherine Millet, Martin Amis ou Philip Roth) na revista "Blackwood's", como reacção à publicação de obras de cariz marcadamente confessional da autoria de Rousseau, De Quincey e Lamb. Este excerto é citado no prefácio a Liber Amoris, de William Hazlitt, obra contemporânea que narra, sob um ténue anonimato, uma aventura amorosa pouco edificante do autor que envolveu Sarah Walker, a filha dos seus senhorios em Londres.

Curiosamente, há personagens chamadas Sarah Walker em duas séries em exibição na RTP ("Chuck" e "Brothers and Sisters"), revelando um certo tropismo hazlittiano por parte dos respectivos argumentistas.

quarta-feira, maio 25, 2011

COISAS QUE O PESSOAL DA BIBLIOTECA PÚBLICA DE NOVA YORK NÃO FAZ POR TELEFONE:

- responder a perguntas sobre concursos ou palavras cruzadas;
- ajuda para trabalhos de casa;
- responder a especulações filosóficas.

(Aqui.)
TODOS OS PELUCHES SÃO ÓPTIMOS PARA ABRAÇAR, CONFORTAR E OUVIR; GOSTAM DE BRINCADEIRAS E TRAVESSURAS. PARA ALÉM DISSO, SÃO SEGUROS E TESTADOS:

Porque não aproveitar o fim-de-semana para ir à IKEA de Loures, que cumpre um ano de existência, e comprar um brócolo de peluche ou um morango de peluche?

O DESCALABRO DA LITERATURA:

This is confessedly the age of confession, - the era of individuality - the triumphant reign of the first person singular. Writers no longer talk in generals. All their observations are bounded in the narrow compass of self. They think only of number one.

Eis um diagnóstico certeiro de uma certa tendência da literatura actual. Será mesmo? Na opinião do leitor, em que ano foram escritas estas linhas? Quem mais se aproximar da resposta correcta ganhará um nicho votivo pessoal no pedestal da estátua do Doutor Sousa Martins, ao Campo dos Mártires da Pátria.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma leitora lia "Os Espaços em Branco", de Agustina Bessa-Luís. A linha verde do metropolitano é um dos mais concorridos espaços de leitura de Lisboa.

quinta-feira, maio 19, 2011

FONGUEUSEMARE: Fongueusemare é o nome da terra onde se desenrola parte da acção do romance "La Porte Étroite", de André Gide. Parece um nome demasiado belo e bizarro para ser verdadeiro, mas Fongueusemare existe mesmo. Pertence ao departamento da Seine-Maritime e tinha 170 habitantes em 1999. O nome teve origem nas palavras "mare fangeuse", ou seja "pantâno lamacento".

Creio sinceramente que se deveria falar mais de Fongueusemare na comunicação social.

sexta-feira, maio 13, 2011

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma leitora trazia o livro "Histórias de Amor", de Robert Walser, enquanto esperava a sua vez na fila da caixa do Pingo Doce. Não se tratou de uma leitura em lugar público porque o livro não estava a ser lido por ninguém, mas as circunstâncias justificam a excepção à regra.
RECESSÃO E OBSESSÃO: Portugal entrou hoje oficialmente em recessão, e eu entrei hoje oficialmente em estado de obsessão, mais concretamente obsessão pela canção "Familiar Feeling" dos Moloko.

segunda-feira, maio 09, 2011

PROGNÓSTICOS ANTES DO FIM DO JOGO DÁ NISTO:

Pundits Predict No More Accurately Than a Coin Toss, Students Find

(via Aspirina B)

Seria interessante realizar um estudo semelhante em Portugal, excluindo obviamente Luís Delgado, um outlier que desequilibraria os resultados para o lado da irrelevância estatística.

Há muito que defendo que os fazedores de opinião deveriam ser pagos por objectivos. Razão tem João César das Neves ao projectar os seus prognósticos para um ponto de fuga situado daqui a duas ou três gerações. Caso não se verifiquem os seus insistentes vaticínios, caso os vindouros não olhem para estes anos que vivemos como um epísódio fugaz de degeneração moral e deboche, será já tarde demais para o confrontar.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma leitora lia "Cantilenas em Geleia", do grande grande grande Boris Vian. Foi na linha verde do metro.
DE UM DIÁLOGO ENTRE DOIS LIVREIROS DA ASSIÍRIO & ALVIM, NA FEIRA DO LIVRO:

- A "Rilkeana" também já foi ao ar.

domingo, maio 08, 2011

À ATENÇÃO DOS CÉPTICOS:


Existe mesmo um livro intitulado "Morri! E agora?"; faltou acrescentar que vem acompanhado por explicações do Espírito Antônio Carlos.

Da mesma autora: "A Reencarnação para totós" e "1001 lugares para visitar depois de morrer".

quarta-feira, maio 04, 2011

FEIRA DO LIVRO: A imperdível obra "Morri! E agora?" continua à venda na Feira do Livro, à espera de compradores dotados de espírito prático.

Quanto ao túnel da Babel, gostei muito à excepção daquele tablet exposto junto ao topo sul, que se punha a apitar de forma estridente por dá cá aquela palha (seria um tablet? sou um troglodita nestas coisas).

terça-feira, maio 03, 2011

HOW MUCH WILL HE COST?: O melhor de todos os posts motivado pelo casamento da cidadã Middleton com o cidadão X foi este: o nascimento do príncipe contado pelo diário de Adrian Mole. Passaram-se os anos, o príncipe perdeu a mãe e casou-se, o próprio Adrian Mole casou-se e separou-se por duas vezes e sobreviveu a um cancro da próstata. O seu génio literário continua por reconhecer.

segunda-feira, maio 02, 2011

SEMPRE O CINEMA: As minhas críticas às arbitrariedades da distribuição cinematográfica em Lisboa são frequentes, mas há alturas em que um improvável cocktail de acaso, contingências e planeamento faz com que algumas obras-primas absolutas se concentrem em poucas semanas consecutivas de estreias. Em menos de um mês: "Road to Nowhere", de Monte Hellman, "O Tio Boonmee...", de Apichatpong Weerasethakul e "O Estranho Caso de Angélica", um dos mais sublimes e intrigantes Oliveiras dos últimos tempos. Perante tal fartura, aplique-se uma moratória às lamúrias.

domingo, maio 01, 2011

AGORA ESCOLHA: O PAPA OU O "BRADY": Panorama audiovisual português, manhã de domingo, 1 de Maio:
  • Na RTP, transmissão directa da cerimónia de beatificação do papa João Paulo II.
  • Na TVI, transmissão directa da cerimónia de beatificação do papa João Paulo II.
  • Na SIC, mais um episódio de "The Dog Whisperer", desta vez protagonizado, entre outros, por um Labrador muito simpático obcecado pela piscina.
Muito obrigado, Sr. Dr. Pinto Balsemão, por promover a diversidade e conceder uma alternativa aos telespectadores, entre os quais me incluo, saturados de multidões em êxtase, pseudo-eventos e subserviência sem contraditório a instituições (Coroa britânica e Igreja católica) que conseguiram, com a cumplicidade dos meios de comunicação, içar-se a um estatuto acima da crítica e do sentido da proporção. 

sábado, abril 30, 2011

AGENDA CULTURAL:

O teatroàparte apresenta "Esta Noite Improvisa-se", de Luigi Pirandello, com encenação de Sandra Faleiro.

Mais informações aqui.

CONTOS DE FADAS 1, REALIDADE 0: As estações de televisão portuguesas fizeram-nos o favor de fornecer um exemplo portentoso e definitivo de provincianismo e bacoquice. A cobertura do dito "casamento do século" nos moldes em que foi feita, roçando a intoxicação mediática, oscilando entre o estarrecimento de groupie, a irrelevância e a vacuidade, não é justificável nem pelos critérios mais liberais de interesse público. Jornalistas responsáveis deveriam ter vergonha em ser cúmplices deste empolamento desmedido que transforma um factóide num acontecimento planetário. O matrimónio da cidadã Middleton e do cidadão X (aparentemente, existem dúvidas sobre o direito do príncipe Guilherme a usar apelido) tem uma importância real nula. Estamos a falar do herdeiro de um cargo de chefia de estado meramente simbólico, e que aliás se alimenta da sua aura simbólica devidamente amplificada pelos idiotas úteis da aldeia mediática global. Estamos a falar de um cavalheiro que nada mais fez para merecer a atenção maciça de que desfruta do que sair do útero certo entre milhões de outros, a mais radical antítese de meritocracia que se possa imaginar. Mas nada disso impede a comunicação social de se desmultiplicar em directos, entrevistas de rua indigentes e spots foleiros, num paroxismo destinado a disfarçar a ausência de fundamento do exercício a que se entregam.

A propósito disto, o meu apoio vai inteiramente para estes senhores:


CONVERSA OUVIDA NUM COMBOIO:

ELE: Paixão de Cristo? Isso não é assim um pouco abichanado?
ELA: Não é nada disso, é paixão no sentido de amor por toda a humanidade.

segunda-feira, abril 25, 2011

FAÇA VOCÊ MESMO A SUA COMPARAÇÃO COM ADOLF, ESSE GRANDE FOLGAZÃO: Prossegue animada a disputa para demonstrar que a famigerada lei de Godwin não passa de uma aproximação tímida: depois de José Manuel Fernandes, também Carlos Vidal (desta vez, bizarramente, sem citar Alain Badiou) provou que a ocorrência de comparações com Hitler ou o Terceiro Reich não requer que a duração de uma discussão tenda para o infinito. Melhor ainda, não necessita sequer do esforço colaborativo de uma discussão: um só escriba, com o estofo apropriado, é quanto basta. Dispensam-se delongas, preâmbulos, gradientes na intensidade da adjectivação: trata-se de perpetrar o que há a perpetrar antes que se esgote o lapso de atenção do leitor médio.

Bem pelo contrário, João César das Neves, que não cultiva o estilo de retórica bulldozer, gosta de inserir um simulacro de cadeia argumentativa antes de se entregar aos seus atentados ao bom senso. Na semana passada, por exemplo, e a propósito do centenário da Lei de Separação da Igreja e do Estado, comparou a alegada perseguição da Igreja Católica durante a 1ª República com a perseguição aos judeus promovida pelos nazis. Fê-lo como aparente corolário de um patusco exercício de história comparada. O fosso entre os termos de comparação, o insulto à inteligência que pressupõe o mero acto de os cotejar, aparecem diluídos pelo estilo, na aparência demasiado cordato para conter derivas tão ofensivas e asininas.

São, no fundo, dois meios para o mesmo fim, duas variedades de vinagre para apanhar a mesma mosca doméstica: a vociferação de faca na liga ou o exercício académico. Comparar o que não é comparável é cada vez mais uma actividade popular e transversal a diversos sectores e orientações. A Reductio ad Hitlerium, em particular, ganha adeptos com uma velocidade proporcional (receio-o bem) ao ritmo a que se degrada a memória daquilo que realmente se passou na Alemanha e no mundo entre 1933 e 1945.

domingo, abril 17, 2011

APICHATQUÊ? (2):

Para já, [Apichatpong Weerasethakul] continua a seguir com grande interesse o trabalho de Tsai Ming-liang e Hou Hsiao-Hsien, por quem tem "muita admiração", e de Jacques Rivette, Terence Davies ou Manoel de Oliveira.
(Do artigo de Hélder Beja, "Ípsilon", 1/4/2011.)

Para além de génio, um gosto impecável. E que mais? Visão de raios X?
AVULSOS DE FIM-DE-SEMANA: Em tempos, o blog "Linha dos Nodos" compilou uma lista de poemas lidos em filmes. Tenho mais uma adição para o rol. No filme turco "Mel" é recitado o poema "Sensation", de Rimbaud, penso que na sua integralidade:

Par les soirs bleus d'été, j'irai dans les sentiers,
Picoté par les blés, fouler l'herbe menue,

Rêveur, j'en sentirai la fraîcheur à mes pieds.
Je laisserai le vent baigner ma tête nue.

Je ne parlerai pas, je ne penserai rien :
Mais l'amour infini me montera dans l'âme,

Et j'irais loin, bien loin, comme un bohémien,
Par la nature, heureux comme avec une femme.

Em contrapartida, continuo na ignorância sobre qual o poema que Tygh Runyan lê em "Road to Nowhere" Alguém me ajuda, em troco de (o caso não é para menos) gratidão eterna?
AVULSOS DE FIM-DE-SEMANA: Será que a letra "A" do nome da marca "Velho Barreiro" (cachaça brasileira ideal para caipirinhas) é um símbolo maçónico? Fonte bem informada garante-me que sim.

domingo, abril 10, 2011

É ELE! É ELE!: José Manuel Fernandes é que é o grande artista do Twitter em Portugal. Só precisa de 140 caracteres para pôr de pé uma comparação com o 3º Reich: outros, menos hábeis, levam pelo menos um parágrafo ou dois. A boçalidade e a falta de sentido da proporção vêm como bónus.
APICHATQUÊ? (1): Apropriadamente, foi no dia 1 de Abril que fui ver "O Tio Bonmee...", de Apichatpong Weerasethakul. A estreia deste filme, de tantas vezes prometida e adiada, quando por fim sucedeu não pôde deixar de se parecer com uma aldrabice adequada à data em questão.


Primeira impressão: um filme imenso, rico, livre e profundo como a vida (ou como deveria ser a vida). Não é, contudo, como cheguei a prever a partir de comentários e críticas que tinha lido, um salto qualitativo ou uma ruptura estética relativamente às obras anteriores de AW. Simplesmente, o mundo do cinema (e muito graças à ousadia do júri de Cannes presidido por Tim Burton) convenceu-se finalmente de que está perante um dos mais importantes e originais criadores contemporâneos. "O Tio Boonmee..." serviu, assim, para atrair atenções que tinham ficado indiferentes a outras obras-primas como "Tropical Malady", "Blissfully Yours" ou o meu favorito pessoal, "Syndromes and a Century".
BROWNIE POINTS: Durante um período excessivamente longo da minha vida, acreditei que a expressão "brownie points" dizia respeito àqueles deliciosos bolinhos quadrangulares de chocolate. Cada ponto, cada brownie: uma unidade monetária gustativa e nutritiva destinada a premiar boas acções e feitos valorosos. E afinal, a etimologia desta expressão é um viveiro de mistérios e conjecturas.

quinta-feira, março 31, 2011

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na inevitável linha verde do metropolitano, um leitor impecavelmente vestido lia "O Processo", de Franz Kafka. Tudo levava a crer que estava a encetar a leitura ali mesmo. Pareceu imperturbável quando se inteirou de que alguém deve ter andado a difamar Josef K., que numa manhã foi preso sem ter cometido qualquer crime.

quarta-feira, março 30, 2011

Si tu es dans un labyrinthe
Pousse-moi du coude
Je suis là dans le coin
Moi que tu ne cherches plus

(Christian Dotremont)

segunda-feira, março 28, 2011

A SÍNDROME DA CHINA: Encontrei finalmente a solução para revitalizar este blog, demasiado intermitente para acompanhar a vibração do mundo contemporâneo. É assim: vou contratar o melhor blogger chinês. Este blog passará a receber pelo menos 400 ou 500 internautas chineses por dia. Vão chover as comissões e os sponsors. Aliás, justifica-se criar um departamento só para o blogger chinês. Sócios, é este o projecto! É este o futuro! Estou concentradíssimo! Para além disto, a única coisa que se me oferece dizer sobre a situação no Sporting é o seguinte: obrigado aos apoiantes do candidato derrotado por, na sua fúria, não terem vandalizado o Lidl, que tem uns iogurtes excelentes e cuja secção de congelados mete respeito.
Essa música é linda....já me suicidei 3 vezes depois de ouvi-la. (Comentário à canção "Minha História", de Chico Buarque, no YouTube.)
IMITATED BY LIFE: Oscar Wilde afirmou que o Tamisa passou a ter nevoeiros mais densos depois dos quadros de Turner, mas nem sempre a vida imita a arte de forma tão obsequiosa. Por exemplo, como eu gostaria que Lisboa se parecesse mais com algumas das cenas de "O Bobo", de José Álvaro Morais, ou "Vai-e-vem" de João César Monteiro.

quarta-feira, março 23, 2011

When will you ever, Peace, wild wooddove, shy wings shut, Your round me roaming end, and under be my boughs? (Gerard Manley Hopkins)
(Cy Twombly)

segunda-feira, março 21, 2011

AQUI CLAMA-SE POR JUSTIÇA: Na "Ler" de Fevereiro, o Rogério escreveu, acerca de Lydia Davis: «Nos melhores momentos, o método recorda Donald Barthelme». (Frase pouco económica, diga-se de passagem: se evocam Barthelme, os momentos em questão são forçosamente os melhores.) Há dias, um amigo e blogger revelou-me, em conversa privada, que devorou (com evidente gosto) livro após livro de Barthelme. E um velho clamor meu faz-se novamente escutar, das profundezas da minha incompreensão: como é possível que um dos mais sublimes escritores americanos do século XX permaneça por traduzir em Portugal? Alguém que me agarre, caso contrário um dia destes fecho-me numas águas-furtadas insalubres e só de lá saio quando tiver traduzido "The Catechist", "Will You Tell Me?", "Kierkegaard Unfair to Schlegel", "Robert Kennedy Saved From Drowning", "King of Jazz", "The Indian Uprising" e mais uns quantos.

quarta-feira, março 16, 2011

CINEMA: Fiquei desapontado com o documentário "Deux de la Vague", de Emmanuel Laurent. Falta-lhe originalidade e não se percebe a quem se dirige: se a quem nada sabe sobre a Nouvelle Vague (mas será que esses irão gastar o preço de um bilhete de cinema para ver um filme sobre o assunto?) se aos iniciados (mas nesse caso teria valido a pena ir mais longe na originalidade, procurar um ponto de vista mais pessoal, não se limitar a repetir uma história tantas vezes contada). A ideia de intercalar imagens de Isild Le Besco (actriz francamente estimável, por sinal) a folhear números antigos dos "Cahiers" ou a passear por Paris não se compreende (esboço de esquema formal? tentativa de descolar do figurino de documentário?). Esperava mais do argumentista Antoine de Baecque. Entre os momentos mais conseguidos:
  • as imagens de um filme de Jean Rouch, caracterizadas por um estilo de montagem precursor de "À Bout de Souffle"
  • Godard, em entrevista, sobre Rossellini: «Admiro-o porque ele tem muitos filhos e muitos cães para alimentar, e no entanto faz filmes ousadíssimos.» (Citado de memória, negrito meu.)

quinta-feira, março 10, 2011

SE ME CONCEDESSEM 2O SEGUNDOS PARA FALAR A SÓS COM O CEO DA MICROSOFT, O QUE EU LHE DIRIA ERA ISTO: Eu sei perfeitamente que tenho ícones não utilizados no meu ambiente de trabalho!
2003 RULES!: Obrigado! Ena, posts de parabéns e agradecimentos! A nostalgia invade-me! Voltámos a 2003! Blair e Bush preparam a invasão do Iraque! Gus Van Sant ganhou a Palma de Ouro! Fari está prestes a sagrar-se melhor marcador da Liga!
À VENDA NAS BOAS CASAS: Já anda por aí o volume 52 dos "Livrinhos de Teatro" dos Artistas Unidos: "A Europeia e outros textos", de David Lescot. Eu fiz a tradução da terceira peça, "O Aperfeiçoamento". Espero vir um dia a assistir a uma encenação desta peça, mas pergunto-me se haverá muitos actores à altura do desafio. Este monólogo exige uma panóplia de qualidades (incluindo de acrobata) que não é comum ver reunidas num mesmo actor. Uma certa dose de insanidade também deve ajudar.

terça-feira, março 01, 2011

ANTES E DEPOIS: Outras das coisas que eram verdade nesse tempo: os votos de feliz aniversário de cada vez que um blog fazia anos (1 ano, 2 anos, 3 anos os mais velhotes). Era piroso, era paroquial mas tinha graça nos vários sentidos da palavra. Dava pouco trabalho; os blogs que eu seguia e que me interessavam cabiam numa página de um cadernito de endereços. Hoje, seria precisa uma página e meia. O 1bsk faz anos hoje. Oito anos. Obrigado a todos os leitores. Isto é para continuar. O ruído destes anos foi o das minhas hierarquias a desmoronarem-se e a reerguerem-se. Muitas coisas passaram ser mais nítidas e mais opacas. E assim é que eu gosto. O olhar de Ingrid Thulin no filme "O Silêncio" continua a presidir a tudo isto.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, uma leitora lia "A Sociedade de Consumo", de Jean Baudrillard.

domingo, fevereiro 27, 2011

REVISIONISTAS DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!: Pelos vistos, os artigos do Professor João César das Neves não são traduzidos para o idioma árabe. Se o são, não têm a divulgação que merecem. Os povos da Líbia, Bahrein e outras nações insistem na revolta, apesar de JCN ter demonstrado, com a maior limpidez argumentativa, que estão a colocar em risco a sua própria liberdade e que se deviam contentar com a opressão actual em vez de dar largas às suas aspirações por mais democracia e mais justiça. Coitados, correm para a perdição. En passant, JCN encontra espaço para o enésimo paralelo com a 1ª República portuguesa, decididamente um termo de comparação assombrosamente prolífico. Nisto, JCN faz émulos. Há dias, Joe Berardo, em declarações cuja ausência de ecos revela a escassa importância atribuída à criatura, veio preconizar um "novo género de ditadura", corolário lógico de uma democracia que está "podre". Com um sentido do timing devastador, eis que JB se entrega, também ele, ao exercício de historiografia: «Alguém tem que vir com um novo sistema de democracia e, se for preciso, mudar o sistema político (...). [Quando] Salazar tomou conta de Portugal não havia alimentação e havia bombas em Lisboa todos os dias nos anos 30». O comendador tem toneladas de razão: dinamite e distúrbios são muito mais perniciosos para a economia e para a paz pública do que prisões políticas, tortura, degredo e censura. Seja qual for a ponta por onde se lhe pegue, a democracia é um empecilho.
PLEC = PROCESSO DE LEITURA EM CURSO: O aspecto mais curioso de "Jane Eyre" é que se presta com igual ductilidade a ser lido como um manifesto proto-feminista e como o seu oposto. A obsessão de Jane em apoderar-se do próprio destino, ainda que à custa da indigência e da solidão mais absoluta, coexiste ao longo do romance com a sua dedicação total a Rochester, que acaba por tomar o lugar de qualquer ambição pessoal que alguma vez tenha alimentado. O conjunto de circunstâncias que lhe permite, no fim, conciliar a adesão estrita aos seus princípios e a união com um Rochester cego e estropiado, para lá da inverosimilhança e do patético, tem algo de prestidigitatório mas não isento de coerência moral. Confesso que o efeito, quer o pretendido pela autora quer o que resultou da minha leitura (não é garantido que coincidam), quase foi comprometido pela personagem - talvez uma das mais sinistras de toda a literatura inglesa - de St. John Rivers, esse monstro rigorista. O simples facto de Jane ter sequer considerado unir-se a ele em matrimónio e de o acompanhar à Índia está de tal modo desfasado do seu carácter que me pergunto se Charlotte Brontë não terá cedido à tentação de testar a credulidade do leitor - um pequeno jogo que, afinal de contas, nunca fez mal a ninguém.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

MAIS BUSCAS RECENTES QUE VIERAM PARAR AO 1BSK, PARA MAL DOS PECADOS DOS PRINCIPAIS INTERESSADOS:
  • "cinderela de carlos paião em linguagem simbólica" (porque não em morse?)
  • "episódio das aventuras de elion em português" (não olhem para mim, sei tanto como vocês)

E, na categoria "parabéns pelo bom gosto":

  • "operação jean-luc godard diário de notícias"
  • "rui cóias"
  • "retratos de odilon redon"
HÁ UM NOVO GATO EM DOWNING STREET...: ...para erradicar de vez a infestação de roedores no nº 10. «According to Downing Street, the animal has "a high chase-drive and hunting instinct", developed during his time on the streets. A spokesman said he had also shown "a very strong predatory drive" and enjoyed playing with toy mice.»

(Estes ingleses nem para falar de um bichano dispensam a newspeak.)

terça-feira, fevereiro 15, 2011

PEDRO TAMEN: Realmente, as relações humanas não são um rio pacífico e sereno. CARLOS VAZ MARQUES: Dizendo de forma prosaica: isto não é fácil. PEDRO TAMEN: Não, isto não é nada fácil. (Revista "Ler", Fevereiro de 2011)
(Willem de Kooning, "...Whose Name Was Writ in Water", 1975)
CUIDADO COM OS AVENTAIS: Na sua última dádiva ao mundo sob forma de coluna de opinião das 2ªs feiras, João César das Neves enumera alguns dos fantasmas que assombram este nosso mundo tão perigoso: turbulência financeira, globalização selvagem, choque petrolífero, desastres ambientais, fundamentalismo religioso e... perseguição maçónica. É necessária uma presciência superior para reconhecer o perigo maçónico que contamina a sociedade. Para quem não a tem, ou pelo menos não nas doses copiosas que JCN evidencia, ficam aqui alguns conselhos dos Monty Python para reconhecer um maçon na via pública.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

ESPERAR SEM DESESPERAR: Tarda a estreia em Portugal de "Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives", de Apichatpong Weerasethakul. Interrogo-me sobre as razões da demora. A minha teoria actual é esta: o distribuidor quer dar tempo às pessoas para se esquecerem de que este filme ganhou a Palma de Ouro, e assim passar por descobridor de um genial e desconhecido realizador tailandês. Enquanto o pau vai e vem, comprei o DVD do magnífico "Syndromes and a Century" em Inglaterra.

sábado, fevereiro 05, 2011

MARIA SCHNEIDER (1952-2011): Todos os obituários que li se referiam a ela como a actriz de "O Último Tango em Paris", mas Maria Schneider teve uma carreira longa e preenchida, que incluiu o protagonismo num filme de Jacques Rivette: "Merry-Go-Round" (por sinal, provavelmente o Rivette de que menos gosto). Só após a sua morte fiquei a saber que Maria Schneider era filha do actor Daniel Gélin (que nunca a reconheceu).
EM BUSCA DA PROMISCUIDADE: Onde está a tal "campanha de propaganda massiva" a favor do "adultério, divórcio, promiscuidade, concubinato, perversão, deboche, etc" (gosto sobretudo do "etc" - o que caberá neste "etc", após tão copiosa enumeração?) de que fala João César das Neves? Confesso que nunca dei por ela. Será por não ter canais premium?