terça-feira, janeiro 03, 2012
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS - ERRATA: Um leitor atento, para quem vão os meus agradecimentos, assinalou que Thomas More escreveu "Utopia" em latim. Assim, esta leitura não foi em versão original, mas sim na tradução inglesa. Mais uma má notícia para juntar às que jorram sem cessar sobre este país desgraçado.
OS VOTOS DO COLECTIVO (com um C bem presente, bem firme e bem hirto - abaixo o acordo ortográfico!!!): Este blog deseja a todos os seus leitores, amigos, afilhados, relações distantes, advogados, credores, admiradores, caluniadores, et caetera, um ano de 2012 mesmo muito bom. (Inserir aqui mensagem de esperança e confiança na tendência secular de o povo português se ultrapassar em momentos de crise.)
domingo, dezembro 18, 2011
O TRIGO DO JOIO: Numa recente venda de livros em segunda mão no Institut Franco-Portugais, após alguns pacientes minutos dedicados a esgravatar entre camadas de romances populares, manuais de línguas antigos e obscuros opúsculos de ciências sociais, lá consegui desencantar dois livros que me fizeram abrir os cordões à bolsa: "L'Église Verte", de Hervé Bazin, e o 2º volume de "Nouvelles en Trois Lignes", de Félix Fénéon, a dois euros cada. O rapaz que me atendeu examinou os livros e, sorridente, proferiu a sentença: «Vous avez trouvé les bons bouquins». (Ou será "trouvés"? As concordâncias da língua francesa são o inferno.)
sexta-feira, dezembro 16, 2011
REGRA DE OURO: Inscrever um limite para o défice na constituição? Que ideia de génio. É já a seguir. E porque não um limite para a inflação, para as importações, para o consumo de lápis de mina preta na administração pública e para o preço do papo-seco?
E onde estão todos aqueles, outrora tão ruidosos, que defendiam uma constituição minimalista composta por meia-dúzia de artigos e um punhado de emendas, à boa maneira americana? Que é feito do seu vigor argumentativo, do seu viço e do seu ímpeto?
E onde estão todos aqueles, outrora tão ruidosos, que defendiam uma constituição minimalista composta por meia-dúzia de artigos e um punhado de emendas, à boa maneira americana? Que é feito do seu vigor argumentativo, do seu viço e do seu ímpeto?
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: O dia de ontem foi um bom dia. Na estação de metropolitano do Campo Grande, uma leitora lia "A Harpa de Ervas", de Truman Capote. Na carruagem, a caminho de Telheiras, um leitor lia "Utopia", de Thomas More, em versão original.
Leitores em lugares públicos, o mundo pertence-vos!
Leitores em lugares públicos, o mundo pertence-vos!
domingo, dezembro 04, 2011
FERIADOS: Estou à espera que o meu índice de indignação pessoal baixe para níveis compatíveis com a produção de uma prosa livre de grosserias, antes de escrever o que penso sobre o projecto de eliminação dos feriados. Enquanto isso, limito-me a transcrever opiniões alheias que subscrevo:
A 1 de Dezembro de 1640 o Secretário de Estado, Miguel de Vasconcelos, representante da coroa espanhola em Portugal, era defenestrado pelos revoltosos. Com esta revolta, começava a mais longa época da nossa História (a 4ª dinastia), e Portugal voltava a ser um Estado totalmente independente. O rumo do país voltou a ser decidido em Lisboa, em detrimento de Madrid.
A 8 de Dezembro de 1854, Giovanni Maria Mastai-Ferrett decreta em Roma, que de acordo com a sua interpretação dos evangelhos canónicos (escritos 17 ou 18 séculos antes) tem a certeza, que a concepção de Maria foi feita sem pecado original.
Em 2012, o Estado Português e os Portugueses celebrarão o segundo acontecimento. O primeiro não.
(Miguel Carvalho)
(Na realidade, a Imaculada Conceição já era celebrada em Portugal, e noutros países, muito antes de o papa Pio IX a ter elevado ao estatuto de dogma, mas isso não belisca o argumento central.)
A 1 de Dezembro de 1640 o Secretário de Estado, Miguel de Vasconcelos, representante da coroa espanhola em Portugal, era defenestrado pelos revoltosos. Com esta revolta, começava a mais longa época da nossa História (a 4ª dinastia), e Portugal voltava a ser um Estado totalmente independente. O rumo do país voltou a ser decidido em Lisboa, em detrimento de Madrid.
A 8 de Dezembro de 1854, Giovanni Maria Mastai-Ferrett decreta em Roma, que de acordo com a sua interpretação dos evangelhos canónicos (escritos 17 ou 18 séculos antes) tem a certeza, que a concepção de Maria foi feita sem pecado original.
Em 2012, o Estado Português e os Portugueses celebrarão o segundo acontecimento. O primeiro não.
(Miguel Carvalho)
(Na realidade, a Imaculada Conceição já era celebrada em Portugal, e noutros países, muito antes de o papa Pio IX a ter elevado ao estatuto de dogma, mas isso não belisca o argumento central.)
ESTA NOITE VATICINA-SE: O presidente da República afirma-se seguro de que, dentro de 20 anos, o euro continuará a existir e a ser uma moeda credível.
Regra geral, evito arriscar prognósticos a tão longo prazo. Mas há excepções. Por exemplo, não duvido de que, a 4 de Dezembro de 2031, haverá ainda alguém a defender a reabertura do inquérito ao acidente de Camarate.
Regra geral, evito arriscar prognósticos a tão longo prazo. Mas há excepções. Por exemplo, não duvido de que, a 4 de Dezembro de 2031, haverá ainda alguém a defender a reabertura do inquérito ao acidente de Camarate.
segunda-feira, novembro 21, 2011
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Num bar da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, um leitor e uma leitora passavam-se mutuamente um exemplar de "Wuthering Heights", apontavam páginas e frases, riam a bom rir.
Ergueu-se há uns dias um burburinho maçador por causa de uma reportagem que, supostamente, provava a colossal ignorância dos frequentadores do ensino superior nacional. (A talhe de foice: leiam aquilo que o Vasco escreve e não percam mais tempo com o assunto.) Pelo que me toca, preocupo-me mais por a nossa juventude encontrar motivo para galhofa em Emily Brontë do que por não saber quem pintou o tecto da Capela Sistina.
Ergueu-se há uns dias um burburinho maçador por causa de uma reportagem que, supostamente, provava a colossal ignorância dos frequentadores do ensino superior nacional. (A talhe de foice: leiam aquilo que o Vasco escreve e não percam mais tempo com o assunto.) Pelo que me toca, preocupo-me mais por a nossa juventude encontrar motivo para galhofa em Emily Brontë do que por não saber quem pintou o tecto da Capela Sistina.
UM BLOG SOBRE ELE...: Cumprem-se hoje 200 anos sobre o dia em que Heinrich von Kleist, escritor, editor, ex-funcionário público e ex-militar, desiludido com a vida a ponto de entrar num pacto suicida, matou a tiro Henriette Vogel antes de atirar fatalmente sobre si mesmo. Foi nas margens do pequeno lago de Wannsee, perto de Berlim; Kleist tinha 34 anos. Escolhi Kleist para dar nome a este blog um pouco por acaso, um pouco por convicção, muito por causa de um feixe de circunstâncias da minha vida que o tempo (mais de 8 anos e meio) trabalhou mas não apagou. Agora, agradeço essa inspiração oblíqua. Kleist tem sido um patrono gentil e sincero. Uma época de paradoxos pede a arte remota de alguém que traduziu os paradoxos e os sobressaltos da razão com uma acuidade nunca igualada. Habitar esta época sem a companhia de Kleist significa privar-se de um ângulo de visão e de um fio de lucidez precioso.
terça-feira, novembro 08, 2011
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma leitora lia "Les Nourritures Terrestres", de André Gide, no bar do Instituto Franco-Português em Lisboa. Alguns poderão objectar: «Ah e tal, pois é, tipo assim é fácil, isso é fazer batota, no bar do Instituto Franco-Português também eu era capaz de descobrir leitores em qualidade e quantidade». A esses, eu respondo apenas com o meu desprezo.
segunda-feira, outubro 31, 2011
SOMOS TODOS DICKENSIANOS: Depois de assistir a uma reportagem (creio que da SIC) sobre as derivas e convoluções judiciais do caso da herança Feteira, convenci-me de que a dimensão da coisa merecia uma comparação com o monstruoso processo Jarndyce and Jarndyce, descrito no romance "Bleak House" de Dickens.
Se as semelhanças se estenderem ao desenlace, as perspectivas são negras para os legítimos herdeiros. Em Jarndyce and Jarndyce, as custas judiciais acabaram por consumir integralmente o montante da herança.
A grande literatura não cessa de nos ministrar profundas lições de vida.
(PS - Por favor, deixem de mostrar as imagens da Sra. Rosalina a arranjar-se frente ao espelho do elevador.)
Se as semelhanças se estenderem ao desenlace, as perspectivas são negras para os legítimos herdeiros. Em Jarndyce and Jarndyce, as custas judiciais acabaram por consumir integralmente o montante da herança.
A grande literatura não cessa de nos ministrar profundas lições de vida.
(PS - Por favor, deixem de mostrar as imagens da Sra. Rosalina a arranjar-se frente ao espelho do elevador.)
terça-feira, outubro 25, 2011
CINEMA: Pascal Mérigeau (de quem li uma biografia de Maurice Pialat, um pouco a puxar para o hagiográfico e sentimental) afirma que "Pater", de Alain Cavalier, é o filme mais singular alguma vez exibido no Festival de Cannes. Eu sou mais comedido. Para não ir mais longe, podemos pensar em "O Tio Boonmee...", de Apichatpong Weerasethakul (Palma de Ouro no ano passado) como um competidor à altura, em termos de originalidade. Em todo o caso, hierarquias de singularidade despertam-me reduzido interesse. Importa não correr o risco de reduzir uma obra tão admirável como "Pater" a um gimmick, e o seu encanto ao fascínio superficial do insólito. O filme de Alain Cavalier, que se esmera há décadas a trocar as voltas aos seus detractores e aos seus admiradores, é um prodigioso exemplo de inteligência narrativa, humor e mise en scène. Mau grado o aparente amadorismo da sua confecção (câmara digital ao ombro, equipa técnica quase inexistente, tom de falso documentário, improvisação ou simulação de improvisação), revela um domínio total sobre a matéria do filme, a sua dinâmica e os seus efeitos.
As três grandes obras-primas que eu tinha visto este ano nas salas ("O Tio Boonmee...", "O Estranho Caso de Angélica" e "Road to Nowhere") tinham-se sucedido muito rapidamente, como se obedecessem a um bizarro alinhamento astral. Começava a desesperar de reencontrar nem que fosse uma amostra de excelência - mas felizmente pode sempre contar-se com Cavalier para nos encher as medidas.
Vão ver. Não se arrependerão.
As três grandes obras-primas que eu tinha visto este ano nas salas ("O Tio Boonmee...", "O Estranho Caso de Angélica" e "Road to Nowhere") tinham-se sucedido muito rapidamente, como se obedecessem a um bizarro alinhamento astral. Começava a desesperar de reencontrar nem que fosse uma amostra de excelência - mas felizmente pode sempre contar-se com Cavalier para nos encher as medidas.
Vão ver. Não se arrependerão.
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| Alain Cavalier, Vincent Lindon e Bernard Bureau em "Pater". Uma das cenas mais hilariantes: a da fotografia comprometedora do candidato à presidência. «Pauvre France!...» |
FERIADOS: A mudança ou eliminação de feriados é como a limpeza das sarjetas ou a redução do número de deputados: um tema recorrente que vem à baila ciclicamente, como se a ele aludir satisfizesse uma necessidade colectiva, obscura e primitiva. Se o governo actual levar avante o propósito de alterar o mapa de feriados, ficarei impressionado - independentemente de concordar ou não.
Se isso acontecer, impor-se-á a escolha entre feriados de cariz histórico e religioso. Entre datas marcantes para a formação do país e datas cuja relevância se confina à minoria católica praticante, sobretudo quando associadas a dogmas obscuros (falo por exemplo da Imaculada Conceição, naturalmente que excluo Páscoa e Natal), parecer-me-ia que a escolha deveria ser óbvia para os responsáveis políticos máximos de um Estado laico. Por desgraça, a República Portuguesa encontra-se voluntariamente condicionada por um acordo (Concordata) com um pseudo-estado carente de legitimidade e de dimensão democrática, por isso tudo é possível.
Se isso acontecer, impor-se-á a escolha entre feriados de cariz histórico e religioso. Entre datas marcantes para a formação do país e datas cuja relevância se confina à minoria católica praticante, sobretudo quando associadas a dogmas obscuros (falo por exemplo da Imaculada Conceição, naturalmente que excluo Páscoa e Natal), parecer-me-ia que a escolha deveria ser óbvia para os responsáveis políticos máximos de um Estado laico. Por desgraça, a República Portuguesa encontra-se voluntariamente condicionada por um acordo (Concordata) com um pseudo-estado carente de legitimidade e de dimensão democrática, por isso tudo é possível.
MALONE MORRE: Rebaptizar o blog é um estratagema batido, usado até à exaustão. Não é por mudar de nome que este blog deixa de ser o melhor blog português. Seria demasiado fácil. Tentem outra coisa.
domingo, outubro 23, 2011
JE PEUX PARLER:
Comprei este livro porque conhecia, da autora, uma notável obra sobre o realizador Jacques Rivette, e porque gostei daquilo que vi ao folhear. Só mais tarde me apercebi de que este "L'Agent de Liaison" começa com a descrição da cena inicial do filme da minha vida, "O Espelho" de Tarkovsky. Trata-se de uma cena em que um adolescente é aparentemente curado de uma gaguez muito profunda por uma hipnotista/curandeira. Para mim, é um dos momentos mais belos e intensos da história do cinema.
Podem visionar o filme aqui.
domingo, outubro 16, 2011
FESTA DO CINEMA FRANCÊS: Na noite do Dinamarca-Portugal, fui à Festa do Cinema Francês ver um filme de uma realizadora com ascendência dinamarquesa, ("Un Amour de Jeunesse", Mia Hansen-Løve). O filme era interessante, sem ser uma obra-prima. Já vira recentemente, na Cinemateca, uma outra longa-metragem da realizadora ("Tout Est Pardonné"), de que também gostei moderadamente, embora fosse copiosamente fustigada por Antonio Rodrigues na folha que acompanhava o filme.
Tendo em conta os relatos que ouvi sobre a exibição de Paulo Bento y sus muchachos, não me arrependo da escolha.
Tendo em conta os relatos que ouvi sobre a exibição de Paulo Bento y sus muchachos, não me arrependo da escolha.
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| Sebastian Urzendowsky e Lola Créton em "Un Amour de Jeunesse" |
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