CINEMA: Pascal Mérigeau (de quem li uma biografia de Maurice Pialat, um pouco a puxar para o hagiográfico e sentimental) afirma que "Pater", de Alain Cavalier, é
o filme mais singular alguma vez exibido no Festival de Cannes. Eu sou mais comedido. Para não ir mais longe, podemos pensar em "O Tio Boonmee...", de Apichatpong Weerasethakul (Palma de Ouro no ano passado) como um competidor à altura, em termos de originalidade. Em todo o caso, hierarquias de singularidade despertam-me reduzido interesse. Importa não correr o risco de reduzir uma obra tão admirável como "Pater" a um
gimmick, e o seu encanto ao fascínio superficial do insólito. O filme de Alain Cavalier, que se esmera há décadas a trocar as voltas aos seus detractores e aos seus admiradores, é um prodigioso exemplo de inteligência narrativa, humor e
mise en scène. Mau grado o aparente amadorismo da sua confecção (câmara digital ao ombro, equipa técnica quase inexistente, tom de falso documentário, improvisação ou simulação de improvisação), revela um domínio total sobre a matéria do filme, a sua dinâmica e os seus efeitos.
As três grandes obras-primas que eu tinha visto este ano nas salas ("O Tio Boonmee...", "O Estranho Caso de Angélica" e "Road to Nowhere") tinham-se sucedido muito rapidamente, como se obedecessem a um bizarro alinhamento astral. Começava a desesperar de reencontrar nem que fosse uma amostra de excelência - mas felizmente pode sempre contar-se com Cavalier para nos encher as medidas.
Vão ver. Não se arrependerão.
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| Alain Cavalier, Vincent Lindon e Bernard Bureau em "Pater". Uma das cenas mais hilariantes: a da fotografia comprometedora do candidato à presidência. «Pauvre France!...» |