SEM TIRAR NEM PÔR:
«Há meses que se debate o corte de feriados nacionais partindo do princípio, estabelecido pelo Governo, de que estes existem em dois tipos - aqueles de que o Executivo pode dispor, e a que chama "civis", e os outros, "religiosos", propriedade da Igreja Católica. Apesar de se imaginar a reação geral se para acabar com o 5 de Outubro o Governo negociasse com associações republicanas e laicas, esta visão Tordesilhas dos feriados não tem merecido contestação. (...)»
(Fernanda Câncio)
«Passos e outros ministros ostentam na lapela um pino com a bandeira da República. Suponho que sabem que aquela bandeira foi adoptada após o 5 de Outubro de 1910, data que, decidiram, deixará de ser feriado nacional. Talvez ignorem que foi pela primeira vez desfraldada no 1 de Dezembro de 1910, feriado também suprimido. (...)»
(Ricardo Alves)
sexta-feira, fevereiro 03, 2012
quinta-feira, fevereiro 02, 2012
DO PATNA AO COSTA CONCORDIA: Não alinho em julgamentos na praça pública; não sei se o capitão Schettino (descrito como "o homem mais odiado de Itália", o que mais parece o título de uma futura biografia ou adaptação ao cinema) é ou não culpado de abandono do navio que estava sob sua responsabilidade máxima. O que sei, o que a grande literatura ensina, é que os falhanços morais mais atrozes podem ser seguidos, muito mais tarde, por actos de heroísmo supremo e absurdo, como um eco invertido da cobardia primordial.
Nunca subestimem os extremos a que pode levar o desejo de redenção, nem a generosidade com que o destino concede as ocasiões para isso.
Basta recordar o Lord Jim de Conrad.
(E tomara aos media internacionais a lucidez e a lentidão do narrador Marlow.)
Nunca subestimem os extremos a que pode levar o desejo de redenção, nem a generosidade com que o destino concede as ocasiões para isso.
Basta recordar o Lord Jim de Conrad.
(E tomara aos media internacionais a lucidez e a lentidão do narrador Marlow.)
terça-feira, janeiro 31, 2012
THINKING OUTSIDE THE BOX: Dizem-nos para sairmos da nossa zona de conforto, pedem-nos ideias brilhantes para melhorar Portugal. Pois bem, o que eu proponho é muito simples: não só manter o 5 de Outubro como feriado, mas adicionar à lista de feriados o 31 de Janeiro, data da revolta republicana na cidade do Porto.
Chama-se a isto pensamento lateral, chama-se a isto agir em contra-ciclo. Não sei se merece uma petição online.
PS - Ainda não chegou o momento de dizer tudo aquilo que penso sobre a tragicomédia da eliminação de feriados, mas isso não tardará.
Chama-se a isto pensamento lateral, chama-se a isto agir em contra-ciclo. Não sei se merece uma petição online.
PS - Ainda não chegou o momento de dizer tudo aquilo que penso sobre a tragicomédia da eliminação de feriados, mas isso não tardará.
NUVENS PASSAGEIRAS: Independentemente dos seus contornos legais, o caso do encerramento do site Megaupload só veio alimentar as minhas dúvidas sobre as virtudes do armazenamento de dados em nuvem, pelo menos quando aplicado aos particulares. Neste momento, muitos utilizadores vêem-se impossibilitados de aceder a ficheiros perfeitamente legais que julgavam estar em segurança. Ceder aos cantos imateriais da etérea nuvem, trocar segurança por mobilidade e acessibilidade, tem riscos associados, e sempre os terá (digo eu, na minha ignorância de leigo). Ainda está por inventar um substituto à altura para o bom e velho disco externo USB. Cabe no bolso, resiste aos choques e vai connosco para onde quisermos.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS:
- Na linha verde do metropolitano de Lisboa, uma leitora lia o "Diário de um Pároco de Aldeia", de Bernanos, na edição antiguinha da Verbo (livros RTP).
- Mesmíssima cidade, mesmíssimo meio de transporte, mesmíssima linha: um leitor lia "Húmus", de Raul Brandão.
quarta-feira, janeiro 25, 2012
terça-feira, janeiro 17, 2012
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um dia em cheio! Na linha verde do metropolitano, uma leitora lia "Os Anões", de Harold Pinter. Junto à Escola Básica 2+3 Prof. Delfim Santos, ao Alto dos Moinhos, um leitor lia "Na Minha Morte", de William Faulkner, e fazia-o enquanto, lesto, caminhava.
Se a leitura ambulatória de Faulkner em plena via pública não merece 50 pontos de bónus, pergunto-me: o que é que merece 50 pontos de bónus?
Estas observações ofuscam sem apelo nem agravo a de há uns dias atrás ("Midnight's Children", de Salman Rushdie, na linha verde.)
Se a leitura ambulatória de Faulkner em plena via pública não merece 50 pontos de bónus, pergunto-me: o que é que merece 50 pontos de bónus?
Estas observações ofuscam sem apelo nem agravo a de há uns dias atrás ("Midnight's Children", de Salman Rushdie, na linha verde.)
sábado, janeiro 14, 2012
quarta-feira, janeiro 11, 2012
sábado, janeiro 07, 2012
DA FIDELIDADE AOS CEREAIS: Ninguém segura Henrique Raposo, que agora parece apostado em reinventar a literatura universal. De "À Espera no Centeio", de Salinger, faz "À Espera do Centeio", deixando-nos ansiosos pelo momento em que nos revelará as suas opiniões sobre "Aguardando a Cevada", "Nostalgia pela Aveia", "Uma Devastadora Saudade do Milho-Painço" e outras obra-primas de quilate comparável.
terça-feira, janeiro 03, 2012
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS - ERRATA: Um leitor atento, para quem vão os meus agradecimentos, assinalou que Thomas More escreveu "Utopia" em latim. Assim, esta leitura não foi em versão original, mas sim na tradução inglesa. Mais uma má notícia para juntar às que jorram sem cessar sobre este país desgraçado.
OS VOTOS DO COLECTIVO (com um C bem presente, bem firme e bem hirto - abaixo o acordo ortográfico!!!): Este blog deseja a todos os seus leitores, amigos, afilhados, relações distantes, advogados, credores, admiradores, caluniadores, et caetera, um ano de 2012 mesmo muito bom. (Inserir aqui mensagem de esperança e confiança na tendência secular de o povo português se ultrapassar em momentos de crise.)
domingo, dezembro 18, 2011
O TRIGO DO JOIO: Numa recente venda de livros em segunda mão no Institut Franco-Portugais, após alguns pacientes minutos dedicados a esgravatar entre camadas de romances populares, manuais de línguas antigos e obscuros opúsculos de ciências sociais, lá consegui desencantar dois livros que me fizeram abrir os cordões à bolsa: "L'Église Verte", de Hervé Bazin, e o 2º volume de "Nouvelles en Trois Lignes", de Félix Fénéon, a dois euros cada. O rapaz que me atendeu examinou os livros e, sorridente, proferiu a sentença: «Vous avez trouvé les bons bouquins». (Ou será "trouvés"? As concordâncias da língua francesa são o inferno.)
sexta-feira, dezembro 16, 2011
REGRA DE OURO: Inscrever um limite para o défice na constituição? Que ideia de génio. É já a seguir. E porque não um limite para a inflação, para as importações, para o consumo de lápis de mina preta na administração pública e para o preço do papo-seco?
E onde estão todos aqueles, outrora tão ruidosos, que defendiam uma constituição minimalista composta por meia-dúzia de artigos e um punhado de emendas, à boa maneira americana? Que é feito do seu vigor argumentativo, do seu viço e do seu ímpeto?
E onde estão todos aqueles, outrora tão ruidosos, que defendiam uma constituição minimalista composta por meia-dúzia de artigos e um punhado de emendas, à boa maneira americana? Que é feito do seu vigor argumentativo, do seu viço e do seu ímpeto?
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: O dia de ontem foi um bom dia. Na estação de metropolitano do Campo Grande, uma leitora lia "A Harpa de Ervas", de Truman Capote. Na carruagem, a caminho de Telheiras, um leitor lia "Utopia", de Thomas More, em versão original.
Leitores em lugares públicos, o mundo pertence-vos!
Leitores em lugares públicos, o mundo pertence-vos!
domingo, dezembro 04, 2011
FERIADOS: Estou à espera que o meu índice de indignação pessoal baixe para níveis compatíveis com a produção de uma prosa livre de grosserias, antes de escrever o que penso sobre o projecto de eliminação dos feriados. Enquanto isso, limito-me a transcrever opiniões alheias que subscrevo:
A 1 de Dezembro de 1640 o Secretário de Estado, Miguel de Vasconcelos, representante da coroa espanhola em Portugal, era defenestrado pelos revoltosos. Com esta revolta, começava a mais longa época da nossa História (a 4ª dinastia), e Portugal voltava a ser um Estado totalmente independente. O rumo do país voltou a ser decidido em Lisboa, em detrimento de Madrid.
A 8 de Dezembro de 1854, Giovanni Maria Mastai-Ferrett decreta em Roma, que de acordo com a sua interpretação dos evangelhos canónicos (escritos 17 ou 18 séculos antes) tem a certeza, que a concepção de Maria foi feita sem pecado original.
Em 2012, o Estado Português e os Portugueses celebrarão o segundo acontecimento. O primeiro não.
(Miguel Carvalho)
(Na realidade, a Imaculada Conceição já era celebrada em Portugal, e noutros países, muito antes de o papa Pio IX a ter elevado ao estatuto de dogma, mas isso não belisca o argumento central.)
A 1 de Dezembro de 1640 o Secretário de Estado, Miguel de Vasconcelos, representante da coroa espanhola em Portugal, era defenestrado pelos revoltosos. Com esta revolta, começava a mais longa época da nossa História (a 4ª dinastia), e Portugal voltava a ser um Estado totalmente independente. O rumo do país voltou a ser decidido em Lisboa, em detrimento de Madrid.
A 8 de Dezembro de 1854, Giovanni Maria Mastai-Ferrett decreta em Roma, que de acordo com a sua interpretação dos evangelhos canónicos (escritos 17 ou 18 séculos antes) tem a certeza, que a concepção de Maria foi feita sem pecado original.
Em 2012, o Estado Português e os Portugueses celebrarão o segundo acontecimento. O primeiro não.
(Miguel Carvalho)
(Na realidade, a Imaculada Conceição já era celebrada em Portugal, e noutros países, muito antes de o papa Pio IX a ter elevado ao estatuto de dogma, mas isso não belisca o argumento central.)
ESTA NOITE VATICINA-SE: O presidente da República afirma-se seguro de que, dentro de 20 anos, o euro continuará a existir e a ser uma moeda credível.
Regra geral, evito arriscar prognósticos a tão longo prazo. Mas há excepções. Por exemplo, não duvido de que, a 4 de Dezembro de 2031, haverá ainda alguém a defender a reabertura do inquérito ao acidente de Camarate.
Regra geral, evito arriscar prognósticos a tão longo prazo. Mas há excepções. Por exemplo, não duvido de que, a 4 de Dezembro de 2031, haverá ainda alguém a defender a reabertura do inquérito ao acidente de Camarate.
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