terça-feira, fevereiro 07, 2012

DESTE ACORDO SOU A FAVOR: Há lá coisa mais bela do que uma mulher ou um homem a ler? Talvez haja, mas não muitas. Com uma pequena história a acompanhar, as fotografias ganham ainda mais força. Quantas vezes lamentei ficar sem saber nada sobre alguém que descobri a ler em público: o que o/a levou a escolher aquele livro, se está a gostar, etc.

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

POLAR OU SIBERIANA?: Afinal esta massa de ar frio é polar ou siberiana? Terei razão ao supor que estes qualificativos se transformaram numa espécie de superlativo para uso de jornalista, sem qualquer conteúdo geográfico?
IRRELEVÂNCIA: Alberto Gonçalves qualifica de "assalto" o novo plano de financiamento do cinema apresentado pela Secretaria de Estado da Cultura. Faz-lhe, aparentemente, muita confusão que o Estado subtraia 50 milhões de euros anuais à frágil economia de empresas e particulares e que os entregue de mão beijada aos profissionais do cinema, esses parasitas. Não há nada aqui que surpreenda quem conhece a personagem; não contem com Alberto Gonçalves para brincar com a sua coerência, consolidada ao longo de incontáveis crónicas hebdomadárias no "Diário de Notícias", onde aliás está em valorosa companhia.

Onde AG descarrila um tudo-nada (atrevo-me a dizê-lo) é quando acusa de irrelevância os criadores de cinema português, aparentemente apenas com base em critérios de bilheteira (seria uma maldade imperdoável pedir a AG um argumento de natureza estética). AG é um homem de lucidez comprovada, que nada há demasiado tempo nas águas aprazíveis da sua própria irrelevância para que um juizo tão distorcido lhe seja relevado. Mais para benefício do eventual leitor desprevenido do que do principal interessado, que certamente deu pela argolada em menos tempo do que leva a escrever isto num teclado, vamos então à clarificação que se impõe:

  • Realizador português: Manoel de Oliveira, João César Monteiro, João Botelho, João Canijo, Pedro Costa, Teresa Villaverde, Margarida Gil, Miguel Gomes, João Nicolau, ETC ETC - Trabalho sério, assistido por uma equipa de profissionais,  frequentemente em condições precárias, para produzir algo de belo e complexo - Obras-primas como "Francisca", "Vale Abraão", "A Comédia de Deus", "Noite Escura", "Aquele Querido Mês de Agosto", ETC, ETC - Reconhecimento nacional e internacional - Obra feita. >>>>>>> RELEVANTE
  • Alberto Gonçalves - Artigos de opinião semanais num diário que já conheceu melhores dias - Vagamente conhecido pela ironia romba, pelas comparações apressadas, pela frouxidão dos raciocínios, pela insuportável indulgência com que brande as suas armas contra os dogmas do Portugal bem pensante (os existentes também, mas sobretudo os inexistentes, que têm outro éclat) - Nenhuma obra, nenhuma credibilidade a não ser a que lhe concedem os seus pares (que, sem serem legião, fazem algum barulho). >>>>>>> IRRELEVANTE

Dispenso-me de fazer um desenho.


quinta-feira, fevereiro 02, 2012

DO PATNA AO COSTA CONCORDIA: Não alinho em julgamentos na praça pública; não sei se o capitão Schettino (descrito como "o homem mais odiado de Itália", o que mais parece o título de uma futura biografia ou adaptação ao cinema) é ou não culpado de abandono do navio que estava sob sua responsabilidade máxima. O que sei, o que a grande literatura ensina, é que os falhanços morais mais atrozes podem ser seguidos, muito mais tarde, por actos de heroísmo supremo e absurdo, como um eco invertido da cobardia primordial.

Nunca subestimem os extremos a que pode levar o desejo de redenção, nem a generosidade com que o destino concede as ocasiões para isso.

Basta recordar o Lord Jim de Conrad.

(E tomara aos media internacionais a lucidez e a lentidão do narrador Marlow.)




terça-feira, janeiro 31, 2012

THINKING OUTSIDE THE BOX: Dizem-nos para sairmos da nossa zona de conforto, pedem-nos ideias brilhantes para melhorar Portugal. Pois bem, o que eu proponho é muito simples: não só manter o 5 de Outubro como feriado, mas adicionar à lista de feriados o 31 de Janeiro, data da revolta republicana na cidade do Porto.

Chama-se a isto pensamento lateral, chama-se a isto agir em contra-ciclo. Não sei se merece uma petição online.

PS - Ainda não chegou o momento de dizer tudo aquilo que penso sobre a tragicomédia da eliminação de feriados, mas isso não tardará.
NUVENS PASSAGEIRAS: Independentemente dos seus contornos legais, o caso do encerramento do site Megaupload só veio alimentar as minhas dúvidas sobre as virtudes do armazenamento de dados em nuvem, pelo menos quando aplicado aos particulares. Neste momento, muitos utilizadores vêem-se impossibilitados de aceder a ficheiros perfeitamente legais que julgavam estar em segurança. Ceder aos cantos imateriais da etérea nuvem, trocar segurança por mobilidade e acessibilidade, tem riscos associados, e sempre os terá (digo eu, na minha ignorância de leigo). Ainda está por inventar um substituto à altura para o bom e velho disco externo USB. Cabe no bolso, resiste aos choques e vai connosco para onde quisermos.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS:
  1. Na linha verde do metropolitano de Lisboa, uma leitora lia o "Diário de um Pároco de Aldeia", de Bernanos, na edição antiguinha da Verbo (livros RTP).
  2. Mesmíssima cidade, mesmíssimo meio de transporte, mesmíssima linha: um leitor lia "Húmus", de Raul Brandão.
Os preços dos transportes sobem a galope, mas dir-se-ia que os leitores dos transportes públicos aumentam o seu frenesim bibliófilo em sintonia com esse galopar!

quarta-feira, janeiro 25, 2012

TANTAS PÁGINAS: Este é um blog sobre livros & demais coisas úteis. Recomendado, obviamente.

terça-feira, janeiro 17, 2012

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um dia em cheio! Na linha verde do metropolitano, uma leitora lia "Os Anões", de Harold Pinter. Junto à Escola Básica 2+3 Prof. Delfim Santos, ao Alto dos Moinhos, um leitor lia "Na Minha Morte", de William Faulkner, e fazia-o enquanto, lesto, caminhava.

Se a leitura ambulatória de Faulkner em plena via pública não merece 50 pontos de bónus, pergunto-me: o que é que merece 50 pontos de bónus?

Estas observações ofuscam sem apelo nem agravo a de há uns dias atrás ("Midnight's Children", de Salman Rushdie, na linha verde.)

sábado, janeiro 14, 2012

THE UNBELIEVABLE TRUTH (*): Esta é uma das mais desconcertantes ilusões de óptica que já vi. Qual dos quadrados é mais escuro, A ou B? Por incrível que pareça, ambos têm a mesma intensidade. O olho humano é, deveras, um sistema de uma subtileza assombrosa.


Ver explicações aqui e aqui.

(*Pequena homenagem a Hal Hartley.)

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma leitora lia "O Crime de Lord Arthur Savile", de Oscar Wilde, no metropolitano. Eu nunca li.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

PARENTAL GUIDANCE: O DVD com os filmes "7th Heaven" e "Street Angel", de Frank Borzage, contém "moderate violence and references to prostitution". Encarregados de educação deste país, protejam os vossos rebentos dos malefícios do cinema mudo!


sábado, janeiro 07, 2012

DA FIDELIDADE AOS CEREAIS: Ninguém segura Henrique Raposo, que agora parece apostado em reinventar a literatura universal. De "À Espera no Centeio", de Salinger, faz "À Espera do Centeio", deixando-nos ansiosos pelo momento em que nos revelará as suas opiniões sobre "Aguardando a Cevada", "Nostalgia pela Aveia", "Uma Devastadora Saudade do Milho-Painço" e outras obra-primas de quilate comparável.

terça-feira, janeiro 03, 2012

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS - ERRATA: Um leitor atento, para quem vão os meus agradecimentos, assinalou que Thomas More escreveu "Utopia" em latim. Assim, esta leitura não foi em versão original, mas sim na tradução inglesa. Mais uma má notícia para juntar às que jorram sem cessar sobre este país desgraçado.
OS VOTOS DO COLECTIVO (com um C bem presente, bem firme e bem hirto - abaixo o acordo ortográfico!!!): Este blog deseja a todos os seus leitores, amigos, afilhados, relações distantes, advogados, credores, admiradores, caluniadores, et caetera, um ano de 2012 mesmo muito bom. (Inserir aqui mensagem de esperança e confiança na tendência secular de o povo português se ultrapassar em momentos de crise.)

domingo, dezembro 18, 2011

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na plataforma da estação de metro do Campo Grande, uma leitora peripatética lia "A Peste", de Camus. Parecia estar no início da leitura. Os cidadãos de Orão ainda têm muitas provações pela frente.
O TRIGO DO JOIO: Numa recente venda de livros em segunda mão no Institut Franco-Portugais, após alguns pacientes minutos dedicados a esgravatar entre camadas de romances populares, manuais de línguas antigos e obscuros opúsculos de ciências sociais, lá consegui desencantar dois livros que me fizeram abrir os cordões à bolsa: "L'Église Verte", de Hervé Bazin, e o 2º volume de "Nouvelles en Trois Lignes", de Félix Fénéon, a dois euros cada. O rapaz que me atendeu examinou os livros e, sorridente, proferiu a sentença: «Vous avez trouvé les bons bouquins». (Ou será "trouvés"? As concordâncias da língua francesa são o inferno.)

sexta-feira, dezembro 16, 2011

REGRA DE OURO: Inscrever um limite para o défice na constituição? Que ideia de génio. É já a seguir. E porque não um limite para a inflação, para as importações, para o consumo de lápis de mina preta na administração pública e para o preço do papo-seco?

E onde estão todos aqueles, outrora tão ruidosos, que defendiam uma constituição minimalista composta por meia-dúzia de artigos e um punhado de emendas, à boa maneira americana? Que é feito do seu vigor argumentativo, do seu viço e do seu ímpeto?
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: O dia de ontem foi um bom dia. Na estação de metropolitano do Campo Grande, uma leitora lia "A Harpa de Ervas", de Truman Capote. Na carruagem, a caminho de Telheiras, um leitor lia "Utopia", de Thomas More, em versão original.

Leitores em lugares públicos, o mundo pertence-vos!