Mas há coisas que custa deixar passar. Nesta semana, JCN insiste pela enésima vez num dos seus estribilhos preferidos: a desordem pública, os protestos,a indignação popular, são em última análise responsáveis pelas ditaduras que lhes sucedem; o totalitarismo surge como a única resposta expectável face à anarquia; os excessos da Primeira República conduziram inevitavelmente ao 28 de Maio, Weimar justificou o 3º Reich, a Frente Popular abriu caminho para Vichy, a República Espanhola não deixou outro remédio ao general Franco a não ser tomar o poder e ficar com ele. Bla bla bla, rebeubéu pardais ao ninho.
É desolador alguém afirmar ou insinuar que o protesto, a reivindicação de direitos, acarretam o risco de o Estado soçobrar, e que tais prerrogativas devem por isso ser usadas com comedimento e humilde parcimónia. Nem dá vontade de imaginar em que espécie de idade média viveríamos ainda hoje em dia, se esta maneira de pensar fosse partilhada por todos.
Menos grave, mas preocupante quando saído da pena de um economista, são afirmações como «Nunca tivemos até hoje democracia com controlo das contas públicas: nem na Monarquia, nem na Primeira República, nem desde 1974.» JCN deveria talvez solicitar à direcção do jornal que continua a abrigar a sua prosa que passasse a periodicidade da sua coluna para quinzenal, e usar o tempo livre para estudar a história da Primeira República. Dando a palavra a quem sabe do assunto ("A Política Financeira", de Maria Eugénia Mata, in "História da Primeira República Portuguesa", coordenação de Fernando Rosas e Maria Fernanda Rollo, Tinta-da-China, 2009), a história financeira da Primeira República pode descrever-se muito resumidamente em 3 fases:
- Equilíbrio das contas públicas durante o período em que José Relvas exerceu o cargo de ministro das Finanças, no seguimento aliás de uma tendência, que já se verificava no final da Monarquia, de recuperação das consequências da bancarrota de 1892.
- Entrada na 1ª Guerra Mundial, com consequente aumento do défice devido às despesas militares, queda nas receitas fiscais devido ao abrandamento da economia, e (após o final do conflito) falta de pagamento das reparações de guerra por parte da Alemanha. Esta tendência foi comum à maioria das nações beligerantes.
- Após vários anos de descontrolo e hiperinflação, reequilíbrio progressivo das contas públicas durante o governo de Álvaro de Castro (1924).
Para rematar: «Transferiram-se assim para o novo sistema político [Ditadura Nacional e Estado Novo] os louros da política de saneamento das finanças públicas dos anos finais da Primeira República.» (página 202).
Transformar em realidade o mito de uma Primeira República despesista, descontrolada e financeiramente irresponsável irá requerer, temo-o bem, um pouco mais de empenho da parte de JCN. O wishful thinking não chega.







