LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um cavalheiro lia o "Diálogo Sobre a Justiça", de Platão, de pé, no metropolitano (esqueci-me da cor da linha).
Há lá actividade mais nobre, mais bela e mais útil do que a leitura!?
quarta-feira, novembro 21, 2012
quarta-feira, novembro 14, 2012
segunda-feira, novembro 12, 2012
DIFICULDADES E SOFRIMENTOS:
«Na linha da mensagem dos padres sinodais devemos acreditar que as dificuldades e os sofrimentos que acarretam [os tempos difíceis] podem representar oportunidades de evangelização”, sustentou [José Policarpo], frisando que as dificuldades materiais não devem anular as famílias “como lugar de amor, de convivência, de discernimento e de coragem para lutar.»
Lido de uma maneira, isto parece querer dizer: em momentos de fragilidade, aliciar as pessoas para a nossa fé torna-se uma tarefa mais fácil. Há que aproveitar.
Lido de outra maneira, parece querer dizer exactamente o mesmo.
Mas devo ser eu que estou a retirar estas declarações do seu contexto. Ah, o contexto...
«Na linha da mensagem dos padres sinodais devemos acreditar que as dificuldades e os sofrimentos que acarretam [os tempos difíceis] podem representar oportunidades de evangelização”, sustentou [José Policarpo], frisando que as dificuldades materiais não devem anular as famílias “como lugar de amor, de convivência, de discernimento e de coragem para lutar.»
Lido de uma maneira, isto parece querer dizer: em momentos de fragilidade, aliciar as pessoas para a nossa fé torna-se uma tarefa mais fácil. Há que aproveitar.
Lido de outra maneira, parece querer dizer exactamente o mesmo.
Mas devo ser eu que estou a retirar estas declarações do seu contexto. Ah, o contexto...
sábado, novembro 10, 2012
ELEIÇÕES NOS EUA (4): Explorar sites conservadores à procura de pepitas, no meio das reacções de choque e espanto à reeleição de Barack Obama, pode rapidamente transformar-se num vício. Por exemplo:
«(...) how in the world could the total number of votes for Romney not be many, many more than for McCain in 2008? By all accounts, huge numbers of Christians, Conservatives, Republicans and independents who stayed home last election were reported to be all fired up to prevent Obama from another destructive term and chomping at the bit to vote. We are now supposed to believe, at the last minute, they decided to stay home?»
Seguem-se algumas teorias de conspiração, que, em termos de negação da realidade, vão aonde os mais experientes e ousados teóricos da consipiração teriam vergonha de ir.
«(...) how in the world could the total number of votes for Romney not be many, many more than for McCain in 2008? By all accounts, huge numbers of Christians, Conservatives, Republicans and independents who stayed home last election were reported to be all fired up to prevent Obama from another destructive term and chomping at the bit to vote. We are now supposed to believe, at the last minute, they decided to stay home?»
Seguem-se algumas teorias de conspiração, que, em termos de negação da realidade, vão aonde os mais experientes e ousados teóricos da consipiração teriam vergonha de ir.
quarta-feira, novembro 07, 2012
ELEIÇÕES NOS EUA (3): A schadenfreude não costuma figurar entre os meus desportos favoritos, mas hoje fiz questão de visitar o site da Conservapedia para ver o que tinham os conservadores empedernidos a dizer sobre a vitória do estalinista Barack Hussein Obama. Não esperava outra coisa que não fosse um saboroso sarapatel de negação, recriminações dirigidas à comunicação social (obviamente vendida à causa liberal) e desculpas imaginativas, e não fiquei desiludido. Apreciei particularmente o link para um artigo de há 2 dias onde ainda se especulava sobre a possibilidade de Romney ganhar os estados de Nova York e Nova Jersey devido aos efeitos do furacão Sandy. Haverá limites para o delírio? E porque não uma erupção do vulcão Mauna Kea que ditasse a derrota de Obama no Hawaii?
ELEIÇÕES NOS EUA (2):
Talvez involuntariamente, Mitt Romney citou "O Padrinho" no seu discurso de derrota. «I believe in America» são as primeiras palavras ouvidas no filme, proferidas pelo cangalheiro Bonasera que pede justiça a Don Corleone.
FADE FROM BLACK: Int. of Don Corleone's home office -day
BONASERA (seated in front of the Don's desk, facing the camera)
I believe in America. America has made my fortune. And I raised my daughter in the
American fashion. I gave her freedom, but -- I taught her never to dishonor her family.
Talvez involuntariamente, Mitt Romney citou "O Padrinho" no seu discurso de derrota. «I believe in America» são as primeiras palavras ouvidas no filme, proferidas pelo cangalheiro Bonasera que pede justiça a Don Corleone.
FADE FROM BLACK: Int. of Don Corleone's home office -day
BONASERA (seated in front of the Don's desk, facing the camera)
I believe in America. America has made my fortune. And I raised my daughter in the
American fashion. I gave her freedom, but -- I taught her never to dishonor her family.
segunda-feira, novembro 05, 2012
PRETO E BRANCO: Na caixa do DVD está a promessa de um filme a cores, mas o filme "A Vida de Boémia" é a preto e branco. Mais atenção, por favor, senhores da Midas! Claro que eu ficaria muito surpreendido se alguém comprasse ou deixasse de comprar um filme de Kaurismäki por este ser a cores ou a preto-e-branco.
Quanto ao filme, não traz nada de excepcionalmente novo à filmografia de Kaurismäki, mas não é isso coisa que me apoquente. Adoro realizadores que se obstinam em ser fiéis ao seu estilo, contra ventos, marés e acusações de repetição. Nem sequer o facto de adaptar uma obra literária (neste caso "La Vie de Bohème", de Henry Murger) é novidade: recorde-se "Crime and Punishment" (1983) e "Hamlet Goes Business" (1987).
"A Vida de Boémia" é um filme de 1992. O estilo é o mesmo de antes e depois, mas esta obra talvez seja aquela, de entre as que conheço deste realizador, em que mais se nota a vontade de introduzir algum sentimentalismo no conteúdo (por contraste com os emocionalmente mais enxutos "Shadows In Paradise" ou "The Match Factory Girl"), sem abdicar do registo sóbrio. A dissonância funciona esplendidamente, como continuará a funcionar em "Nuvens Passageiras", "O Homem Sem Passado" e os outros.
Matti Pellonpää, aqui no papel de pintor albanês, já faz parte da mobília. No que respeita a André Wilms, quanto mais o vejo no seu ofício, mais gosto dele.
Quanto ao filme, não traz nada de excepcionalmente novo à filmografia de Kaurismäki, mas não é isso coisa que me apoquente. Adoro realizadores que se obstinam em ser fiéis ao seu estilo, contra ventos, marés e acusações de repetição. Nem sequer o facto de adaptar uma obra literária (neste caso "La Vie de Bohème", de Henry Murger) é novidade: recorde-se "Crime and Punishment" (1983) e "Hamlet Goes Business" (1987).
"A Vida de Boémia" é um filme de 1992. O estilo é o mesmo de antes e depois, mas esta obra talvez seja aquela, de entre as que conheço deste realizador, em que mais se nota a vontade de introduzir algum sentimentalismo no conteúdo (por contraste com os emocionalmente mais enxutos "Shadows In Paradise" ou "The Match Factory Girl"), sem abdicar do registo sóbrio. A dissonância funciona esplendidamente, como continuará a funcionar em "Nuvens Passageiras", "O Homem Sem Passado" e os outros.
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| André Wilms e Matti Pellonpää em "A Vida de Boémia" (1992) |
Matti Pellonpää, aqui no papel de pintor albanês, já faz parte da mobília. No que respeita a André Wilms, quanto mais o vejo no seu ofício, mais gosto dele.
quinta-feira, novembro 01, 2012
REAVALIAR: Um dos poucos aspectos positivos da crise é este: o sopro de desinibição que circula pelas mentes arejadas dos fazedores de opinião e forças vivas do país, a licença para dizer aos quatro ventos aquilo que seria indizível, pelo menos público, há apenas alguns anos. Torna-se assim mais fácil de distinguir quem está de que lado de cada barricada.
Tudo o que seja "reavaliar", "refundar" ou "reajustar" está na ordem do dia. Roberto Carneiro, por exemplo, considera que pode ser benéfico reavaliar as funções do Estado na educação. “Em áreas onde há uma actividade de mercado, onde há outros agentes de natureza privada, ou de natureza intermédia, é evidente que o Estado tem de repensar a sua função, como é o caso da educação”.
Há muitas maneiras de atacar a escola pública. Roberto Carneiro embrulha o seu ataque pessoal na evidência e no pragmatismo, mas é de um ataque que se trata, naturalmente carregado de ideologia. E nem se pode dizer que esconda o jogo: “Não quer dizer que a educação não tenha de ter sempre uma grande presença do Estado na área da regulação e financiamento na área da solidariedade”. Ou seja, no sonho extravagante de Roberto Carneiro, o papel do Estado na educação reduzir-se-ia a regular e a ensinar o B-A-BA aos indigentes, e provavelmente a passar cheques chorudos a uma florescente rede de escolas com contrato de associação.
No fundo, estou de acordo com Roberto Carneiro. O Estado deve reavaliar as suas funções na educação. Mas essa reavaliação não pode deixar de ir no sentido de aprofundar o papel da escola pública, principal responsável pelo aumento dos níveis de escolaridade em Portugal nos últimos anos, e um dos factores que fazem com que a expressão "igualdade de oportunidades" não seja completamente vazia de sentido.
Tudo o que seja "reavaliar", "refundar" ou "reajustar" está na ordem do dia. Roberto Carneiro, por exemplo, considera que pode ser benéfico reavaliar as funções do Estado na educação. “Em áreas onde há uma actividade de mercado, onde há outros agentes de natureza privada, ou de natureza intermédia, é evidente que o Estado tem de repensar a sua função, como é o caso da educação”.
Há muitas maneiras de atacar a escola pública. Roberto Carneiro embrulha o seu ataque pessoal na evidência e no pragmatismo, mas é de um ataque que se trata, naturalmente carregado de ideologia. E nem se pode dizer que esconda o jogo: “Não quer dizer que a educação não tenha de ter sempre uma grande presença do Estado na área da regulação e financiamento na área da solidariedade”. Ou seja, no sonho extravagante de Roberto Carneiro, o papel do Estado na educação reduzir-se-ia a regular e a ensinar o B-A-BA aos indigentes, e provavelmente a passar cheques chorudos a uma florescente rede de escolas com contrato de associação.
No fundo, estou de acordo com Roberto Carneiro. O Estado deve reavaliar as suas funções na educação. Mas essa reavaliação não pode deixar de ir no sentido de aprofundar o papel da escola pública, principal responsável pelo aumento dos níveis de escolaridade em Portugal nos últimos anos, e um dos factores que fazem com que a expressão "igualdade de oportunidades" não seja completamente vazia de sentido.
segunda-feira, outubro 29, 2012
DESGRAÇA: João César das Neves é indubitavelmente uma criatura muito interessante, para não lhe chamar um case-study com pernas.
Numa das suas últimas crónicas, ele dá a entender que o Tribunal Constitucional "desgraçou o país" com a sua decisão de declarar inconstitucional o corte dos dois subsídios na Função Pública.
Para edificação das massas ignaras, JCN deveria ter explicado quais das demais instituições do Estado correm o risco de desgraçar o país como consequência do exercício normal e legítimo das respectivas funções.
Por exemplo, será de exigir ao Tribunal de Contas, à Procuradoria Geral ou à Autoridade da Concorrência comedimento ou auto-censura, para evitarem situações gravosas, a Bem da Nação?
Senhor João César das Neves, por favor esclareça-nos. As suas pepitas de sabedoria não cairão em saco roto. Não faltam por aí compradores para sugestões sobre como amordaçar instituições democráticas e órgãos de soberania.
A Constituição é um empecilho; isso já todas as pessoas de bem perceberam. Não nos fiquemos por aí.
Numa das suas últimas crónicas, ele dá a entender que o Tribunal Constitucional "desgraçou o país" com a sua decisão de declarar inconstitucional o corte dos dois subsídios na Função Pública.
Para edificação das massas ignaras, JCN deveria ter explicado quais das demais instituições do Estado correm o risco de desgraçar o país como consequência do exercício normal e legítimo das respectivas funções.
Por exemplo, será de exigir ao Tribunal de Contas, à Procuradoria Geral ou à Autoridade da Concorrência comedimento ou auto-censura, para evitarem situações gravosas, a Bem da Nação?
Senhor João César das Neves, por favor esclareça-nos. As suas pepitas de sabedoria não cairão em saco roto. Não faltam por aí compradores para sugestões sobre como amordaçar instituições democráticas e órgãos de soberania.
A Constituição é um empecilho; isso já todas as pessoas de bem perceberam. Não nos fiquemos por aí.
sexta-feira, outubro 05, 2012
EFEMÉRIDE: Foi e continua a ser atacada e deturpada pela brigada de revisionistas contumazes ou de ocasião, profissionais ou amadores; secundarizada por políticos cegos, tacanhos e ignorantes da História; enxovalhada pela decisão estúpida e ultrajante de retirar ao dia 5 de Outubro o estatuto de feriado (a ver vamos, muita água vai ainda correr por debaixo da ponte nos próximos 365 dias); desprestigiada por incidentes e decisões lamentáveis por parte daqueles que tinham por obrigação honrar esta data (a cerimónia à porta fechada, o episódio pythoniano da bandeira ao contrário)...
Mas a República é muito maior do que tudo isto e resiste a tudo isto.
Viva a República! (A de hoje e a de 1910, muito mais moderna e inovadora do que lhe é reconhecido.)
Mas a República é muito maior do que tudo isto e resiste a tudo isto.
Viva a República! (A de hoje e a de 1910, muito mais moderna e inovadora do que lhe é reconhecido.)
terça-feira, outubro 02, 2012
sábado, setembro 22, 2012
IMPRESSÕES DE PARIS (5): Encerre-se o capítulos dos museus com o museu Bourdelle. Este museu existe no antigo atelier e habitação do escultor Antoine Bourdelle (1861-1929), aluno de Rodin e professor de Giacometti e Vieira da Silva, entre muitos outros.
Este é o tipo de museu que ganha em ser visitado num dia em que o tempo esteja bom. O atelier propriamente dito aproveita muito bem a luz natural. No seu interior estão dispostas esculturas, móveis e vários apetrechos, sem critério aparente. Não é preciso muito mais para nos imaginarmos dentro de um quadro de Magritte ou Delvaux.
Bourdelle nutria uma admiração muito forte por Beethoven, de quem esculpiu numerosos bustos.
Gostei mais das esculturas de pequena e média dimensão do que das obras monumentais que mais contribuíram para a sua fama e para o seu sustento; mas isto reflecte sem dúvida o meu temperamento, e não um juízo estético. Este é um busto de James Frazer, autor de "The Golden Bough", clássico da antropologia dos mitos e das religiões.
Parece tarefa impossível encontrar um museu parisiense que não esteja acompanhado pelo respectivo jardim, e pelo consequente convite a horas de leitura ou ócio. Este está povoado por esculturas susceptíveis de induzir pesadelos aos mais impressionáveis.
Este é o tipo de museu que ganha em ser visitado num dia em que o tempo esteja bom. O atelier propriamente dito aproveita muito bem a luz natural. No seu interior estão dispostas esculturas, móveis e vários apetrechos, sem critério aparente. Não é preciso muito mais para nos imaginarmos dentro de um quadro de Magritte ou Delvaux.
Bourdelle nutria uma admiração muito forte por Beethoven, de quem esculpiu numerosos bustos.
Gostei mais das esculturas de pequena e média dimensão do que das obras monumentais que mais contribuíram para a sua fama e para o seu sustento; mas isto reflecte sem dúvida o meu temperamento, e não um juízo estético. Este é um busto de James Frazer, autor de "The Golden Bough", clássico da antropologia dos mitos e das religiões.
Parece tarefa impossível encontrar um museu parisiense que não esteja acompanhado pelo respectivo jardim, e pelo consequente convite a horas de leitura ou ócio. Este está povoado por esculturas susceptíveis de induzir pesadelos aos mais impressionáveis.
DEIXEM O HOMEM DECIDIR OS SEUS TÍTULOS: Os títulos de trabalho da última longa-metragem de Woody Allen foram "Bop Decameron" e "Nero Fiddles", ambos excelentes. O título que acabou por ficar foi "To Rome With Love", insípido e aparentemente detestado pelo próprio realizador. Quanto ao filme, cumpre o que se esperava dele: ligeiro, mas com alguns momentos cómicos a roçar a excelência e a colecção de interpretações inteligentes (p.ex. Alec Baldwin, Judy Davis, Ellen Page, Roberto Benigni) que nunca falta aos filmes de Woody (cuja simples presença no filme como actor, que não acontecia desde "Scoop" é desde logo factor de recomendação). Dentro do cânone de Woody Allen, prefiro os filmes deliberadamente despretensiosos, como este, àqueles atravessados por uma suspeita, por leve que seja, de tese ou ideia a demonstrar (como "Midnight in Paris", excessivamente baseado na desmontagem do hábito, demasiado humano, de olhar para as épocas passadas como infinitamente mais venturosas e excitantes).
quarta-feira, setembro 19, 2012
IMPRIMAM O MITO: João César das Neves prossegue a sua exploração semanal do território onde se cruzam a infâmia, a beatice e o disparate. De tanto cruzar os limites do razoável, deixou de se fazer notado. De facto, só aos mais dedicados observadores da natureza humana sobra paciência para continuar a acompanhar a sua rota.
Mas há coisas que custa deixar passar. Nesta semana, JCN insiste pela enésima vez num dos seus estribilhos preferidos: a desordem pública, os protestos,a indignação popular, são em última análise responsáveis pelas ditaduras que lhes sucedem; o totalitarismo surge como a única resposta expectável face à anarquia; os excessos da Primeira República conduziram inevitavelmente ao 28 de Maio, Weimar justificou o 3º Reich, a Frente Popular abriu caminho para Vichy, a República Espanhola não deixou outro remédio ao general Franco a não ser tomar o poder e ficar com ele. Bla bla bla, rebeubéu pardais ao ninho.
É desolador alguém afirmar ou insinuar que o protesto, a reivindicação de direitos, acarretam o risco de o Estado soçobrar, e que tais prerrogativas devem por isso ser usadas com comedimento e humilde parcimónia. Nem dá vontade de imaginar em que espécie de idade média viveríamos ainda hoje em dia, se esta maneira de pensar fosse partilhada por todos.
Menos grave, mas preocupante quando saído da pena de um economista, são afirmações como «Nunca tivemos até hoje democracia com controlo das contas públicas: nem na Monarquia, nem na Primeira República, nem desde 1974.» JCN deveria talvez solicitar à direcção do jornal que continua a abrigar a sua prosa que passasse a periodicidade da sua coluna para quinzenal, e usar o tempo livre para estudar a história da Primeira República. Dando a palavra a quem sabe do assunto ("A Política Financeira", de Maria Eugénia Mata, in "História da Primeira República Portuguesa", coordenação de Fernando Rosas e Maria Fernanda Rollo, Tinta-da-China, 2009), a história financeira da Primeira República pode descrever-se muito resumidamente em 3 fases:
Para rematar: «Transferiram-se assim para o novo sistema político [Ditadura Nacional e Estado Novo] os louros da política de saneamento das finanças públicas dos anos finais da Primeira República.» (página 202).
Transformar em realidade o mito de uma Primeira República despesista, descontrolada e financeiramente irresponsável irá requerer, temo-o bem, um pouco mais de empenho da parte de JCN. O wishful thinking não chega.
Mas há coisas que custa deixar passar. Nesta semana, JCN insiste pela enésima vez num dos seus estribilhos preferidos: a desordem pública, os protestos,a indignação popular, são em última análise responsáveis pelas ditaduras que lhes sucedem; o totalitarismo surge como a única resposta expectável face à anarquia; os excessos da Primeira República conduziram inevitavelmente ao 28 de Maio, Weimar justificou o 3º Reich, a Frente Popular abriu caminho para Vichy, a República Espanhola não deixou outro remédio ao general Franco a não ser tomar o poder e ficar com ele. Bla bla bla, rebeubéu pardais ao ninho.
É desolador alguém afirmar ou insinuar que o protesto, a reivindicação de direitos, acarretam o risco de o Estado soçobrar, e que tais prerrogativas devem por isso ser usadas com comedimento e humilde parcimónia. Nem dá vontade de imaginar em que espécie de idade média viveríamos ainda hoje em dia, se esta maneira de pensar fosse partilhada por todos.
Menos grave, mas preocupante quando saído da pena de um economista, são afirmações como «Nunca tivemos até hoje democracia com controlo das contas públicas: nem na Monarquia, nem na Primeira República, nem desde 1974.» JCN deveria talvez solicitar à direcção do jornal que continua a abrigar a sua prosa que passasse a periodicidade da sua coluna para quinzenal, e usar o tempo livre para estudar a história da Primeira República. Dando a palavra a quem sabe do assunto ("A Política Financeira", de Maria Eugénia Mata, in "História da Primeira República Portuguesa", coordenação de Fernando Rosas e Maria Fernanda Rollo, Tinta-da-China, 2009), a história financeira da Primeira República pode descrever-se muito resumidamente em 3 fases:
- Equilíbrio das contas públicas durante o período em que José Relvas exerceu o cargo de ministro das Finanças, no seguimento aliás de uma tendência, que já se verificava no final da Monarquia, de recuperação das consequências da bancarrota de 1892.
- Entrada na 1ª Guerra Mundial, com consequente aumento do défice devido às despesas militares, queda nas receitas fiscais devido ao abrandamento da economia, e (após o final do conflito) falta de pagamento das reparações de guerra por parte da Alemanha. Esta tendência foi comum à maioria das nações beligerantes.
- Após vários anos de descontrolo e hiperinflação, reequilíbrio progressivo das contas públicas durante o governo de Álvaro de Castro (1924).
Para rematar: «Transferiram-se assim para o novo sistema político [Ditadura Nacional e Estado Novo] os louros da política de saneamento das finanças públicas dos anos finais da Primeira República.» (página 202).
Transformar em realidade o mito de uma Primeira República despesista, descontrolada e financeiramente irresponsável irá requerer, temo-o bem, um pouco mais de empenho da parte de JCN. O wishful thinking não chega.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano alfacinha, um leitor lia Cesare Pavese. Pareceu-me ser "A Lua e as Fogueiras". Curiosamente, o leitor trazia um outro livro, não identificado, na mão e em posição de leitura iminente. Um plano B para o caso pouco provável de o Pavese não estar à altura?
segunda-feira, setembro 17, 2012
IMPRESSÕES DE PARIS (4): O Petit Palais merecia ser mais conhecido do que é.
O edifício é imponente sem ser ostentatório, o interior foi concebido de modo a tirar o máximo partido da luz natural, a colecção é variada e integra desde antiguidades a objectos decorativos, pintura e escultura; a qualidade é uniformemente muito boa e a visita faz-se, sem forçar, numa manhã. Ao Petit Palais não ficaria mal um apodo como "o anti-Louvre".
O Petit Palais fica situado entre a margem direita do Sena e os Champs-Elysées, e face (como seria lícito supor) ao Grand Palais. Ambos os edifícios foram construídos com vista à exposição universal de 1900. Como é inevitável em França, não faltaram detractores e defensores que protagonizaram uma disputa efémera mas acesa. Julien Green, por exemplo, detestava-os a ambos, ao grande como ao pequeno. Paul Claudel, pelo seu lado, elogiou o pátio interior do Petit Palais e afirmou que tudo o que se lhe seguiu em arquitectura foi marcado pelo estigma da decadência.
Não seria difícil destacar uma mão cheia de quadros expostos no Petit Palais. Fico-me por dois.
É extremamente raro deparar com uma obra de Courbet que me deixe indiferente. Este auto-retrato tem tudo: originalidade, insolência, e uma aparente simplicidade de meios quase rústica. É um quadro inteiro, sincero e perturbador, ou seja tudo aquilo que se espera de Courbet.
Bonnard é um enigma pessoal. Nunca me ocorre o seu nome quando me forço, por ócio ou estímulo alheio, a fazer a lista dos pintores que verdadeiramente contam para mim. E no entanto, dele posso dizer com convicção aquilo que não posso dizer de muitos: os seus quadros interpelam-me, todos parecem albergar um segredo, grandioso ou corriqueiro; algo na sua imperfeição, num detalhe ou num capricho da sua execução transformam-nos em coisa única.
Como se tudo isto não bastasse, a loja do museu, embora pequena, está muito bem fornecida, e o museu é dotado de um jardim interior onde apetece passar o tempo.
O edifício é imponente sem ser ostentatório, o interior foi concebido de modo a tirar o máximo partido da luz natural, a colecção é variada e integra desde antiguidades a objectos decorativos, pintura e escultura; a qualidade é uniformemente muito boa e a visita faz-se, sem forçar, numa manhã. Ao Petit Palais não ficaria mal um apodo como "o anti-Louvre".
O Petit Palais fica situado entre a margem direita do Sena e os Champs-Elysées, e face (como seria lícito supor) ao Grand Palais. Ambos os edifícios foram construídos com vista à exposição universal de 1900. Como é inevitável em França, não faltaram detractores e defensores que protagonizaram uma disputa efémera mas acesa. Julien Green, por exemplo, detestava-os a ambos, ao grande como ao pequeno. Paul Claudel, pelo seu lado, elogiou o pátio interior do Petit Palais e afirmou que tudo o que se lhe seguiu em arquitectura foi marcado pelo estigma da decadência.
Não seria difícil destacar uma mão cheia de quadros expostos no Petit Palais. Fico-me por dois.
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| Gustave Courbet, "Autoportrait au chien noir" (1842) |
É extremamente raro deparar com uma obra de Courbet que me deixe indiferente. Este auto-retrato tem tudo: originalidade, insolência, e uma aparente simplicidade de meios quase rústica. É um quadro inteiro, sincero e perturbador, ou seja tudo aquilo que se espera de Courbet.
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| Pierre Bonnard, "Conversation à Arcachon" (1926-1930) |
Bonnard é um enigma pessoal. Nunca me ocorre o seu nome quando me forço, por ócio ou estímulo alheio, a fazer a lista dos pintores que verdadeiramente contam para mim. E no entanto, dele posso dizer com convicção aquilo que não posso dizer de muitos: os seus quadros interpelam-me, todos parecem albergar um segredo, grandioso ou corriqueiro; algo na sua imperfeição, num detalhe ou num capricho da sua execução transformam-nos em coisa única.
Como se tudo isto não bastasse, a loja do museu, embora pequena, está muito bem fornecida, e o museu é dotado de um jardim interior onde apetece passar o tempo.
sexta-feira, setembro 14, 2012
IMPRESSÕES DE PARIS(3): Tudo no Museu do Louvre obedece a uma concepção maximalista, adequada aos livros de recordes mas madrasta para o visitante desprevenido. A quantidade de obras-primas é muito grande, mas há que reconhecer que a abundância de obras indiferentes ou medíocres funciona como um ruído de fundo que só com alguma prática se aprende a ignorar. As salas dedicadas à pintura francesa dos séculos XVII e XVIII são o exemplo mais óbvio disso mesmo. Entre paredes que quase soçobram com o peso do academismo e da grandiloquência dos quadros que suportam, o visitante tem de dar mostras de paciência para chegar ao seu nicho preferido, que no meu caso é a secção dos Watteau e em particular os assombrosos "Les Deux Cousines" e "Le Faux-Pas".
Ainda a propósito das estratégias para escapar às filas de espera à entrada do Louvre, uma das mais simples consiste em comprar o bilhete combinado Museu Delacroix/Louvre. Claro está que isto faz mais sentido quando existe pelo menos uma admiração remota pela obra de Delacroix, sobretudo atendendo a que o museu que lhe é dedicado apresenta um interesse muito fraco para o não iniciado. O museu fica instalado numa zona entalada entre o Boulevard Saint-Germain e o Sena, que surpreende pela pacatez. Trata-se da casa que Delacroix ocupou nos últimos anos da sua vida, escolhida pela proximidade relativamente à igreja de Saint-Sulpice, aonde o artista se deslocava regularmente para trabalhar na decoração de uma capela.
Conheço poucos lugares mais tranquilos e incompatíveis com ralações pequenas, médias ou graúdas do que o jardim do Museu Delacroix:
Voltando ao Louvre, algo que impressiona negativamente é a negligência do pessoal nos acessos ao recinto e às galerias. A minha mochila foi objecto do mais sumário dos exames e não passou por uma única máquina de raios X. O que poderá justificar esta falta de cuidado? Estarão a esconder-nos algo? As obras expostas possuirão mesmo o valor incalculável que lhes é atribuído, ou não passarão de imitações, por exigência das seguradoras? Por muito menos do que isto, há por aí teorias da conspiração a medrar com uma pujança invejável.
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| Antoine Watteau, "Les Deux Cousines", c. 1716 |
Ainda a propósito das estratégias para escapar às filas de espera à entrada do Louvre, uma das mais simples consiste em comprar o bilhete combinado Museu Delacroix/Louvre. Claro está que isto faz mais sentido quando existe pelo menos uma admiração remota pela obra de Delacroix, sobretudo atendendo a que o museu que lhe é dedicado apresenta um interesse muito fraco para o não iniciado. O museu fica instalado numa zona entalada entre o Boulevard Saint-Germain e o Sena, que surpreende pela pacatez. Trata-se da casa que Delacroix ocupou nos últimos anos da sua vida, escolhida pela proximidade relativamente à igreja de Saint-Sulpice, aonde o artista se deslocava regularmente para trabalhar na decoração de uma capela.
Conheço poucos lugares mais tranquilos e incompatíveis com ralações pequenas, médias ou graúdas do que o jardim do Museu Delacroix:
Voltando ao Louvre, algo que impressiona negativamente é a negligência do pessoal nos acessos ao recinto e às galerias. A minha mochila foi objecto do mais sumário dos exames e não passou por uma única máquina de raios X. O que poderá justificar esta falta de cuidado? Estarão a esconder-nos algo? As obras expostas possuirão mesmo o valor incalculável que lhes é atribuído, ou não passarão de imitações, por exigência das seguradoras? Por muito menos do que isto, há por aí teorias da conspiração a medrar com uma pujança invejável.
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