PEPA, RELATÓRIO DO FMI, MESMO COMBATE: A mala Chanel da Pepa e o relatório do FMI: dois temas que deram origem a discussões caudalosas, mas que teriam ficado muito melhor no seu nicho, a acumular pó. O primeiro demonstra, com nitidez arrepiante, a facilidade com se geram vórtices de irrelevância e futilidade com poder para açambarcar as redes sociais. O segundo serviu um propósito muito concreto: lançar a Discussão sobre a "refundação" (aspas vigorosas aqui) do Estado Social, menos para sugerir soluções viáveis ou realistas do que para impor a própria Discussão como uma evidência e nela envolver todos os que recusam a possibilidade da Discussão. Tratou-se de uma arma de arremesso, ponderada e estudada criteriosamente para engendrar uma "no-win situation": recusar falar do relatório implica fuga à Discussão, logo ignomínia; falar do relatório significa, mais do que aceitar a possibilidade da Discussão, ceder aos termos em que a Discussão foi lançada e aceitá-los como razoáveis.
De que falar, sem ser da mala Chanel da Pepa nem do relatório do FMI? Existem muitas possibilidades. Neste momento, o tema mais merecedor de discursos parece-me que terá de estar relacionado com a silhueta de Kim Novak recortada contra a baía de San Francisco, poucos segundos antes de se lançar à água.
segunda-feira, janeiro 14, 2013
terça-feira, janeiro 01, 2013
quarta-feira, dezembro 19, 2012
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um leitor lia "A Boneca de Kokoschka", de Afonso Cruz. Não é grande proeza adivinhar o local: pois claro, a linha verde do metropolitano.
Por coincidência, acabei há poucos dias de ler este mesmo livro. Em Afonso Cruz, gosto muito do apetite pela metaficção e da maneira como cultiva uma variante muito pessoal de hipertextualidade. Tanto um como a outra distinguem-no entre os seus pares. Um dos aspectos menos conseguidos do seu estilo, por outro lado, é uma tendência para abusar de uma certa ingenuidade deliberada, que acaba por ser fatigante e por ter efeitos semelhantes ao desleixo.
Por coincidência, acabei há poucos dias de ler este mesmo livro. Em Afonso Cruz, gosto muito do apetite pela metaficção e da maneira como cultiva uma variante muito pessoal de hipertextualidade. Tanto um como a outra distinguem-no entre os seus pares. Um dos aspectos menos conseguidos do seu estilo, por outro lado, é uma tendência para abusar de uma certa ingenuidade deliberada, que acaba por ser fatigante e por ter efeitos semelhantes ao desleixo.
terça-feira, dezembro 18, 2012
GRÃO A GRÃO: Ah quem me dera receber uma modesta quantia (vinte mil reis, na moeda antiga, chegariam para me contentar) por cada vez que a falácia de o ateísmo ser uma religião é vertida por escrito ou perpetrada oralmente. Desta vez foi Anselmo Borges, embora em modo citação (mas parecendo concordar com o autor original). Escusavam já agora de, de cada vez que o dislate é repetido, fazerem-no como se descobrissem uma verdade profunda e fulgurante.
segunda-feira, dezembro 17, 2012
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: O dia de anteontem foi um grande dia:
- Na linha verde do metropolitano, uma leitora lia um livro que aparentava ser sobre as filmagens de "Faces", uma das obras-primas de John Cassavetes. Parecia ser um livro em n-ésima mão, acabado de comprar.
- A poucos metros de distância, uma outra leitora lia "La Civilisation, ma Mère!..." de Driss Chraïbi. Chraïbi era um autor marroquino de quem li o muito bom "Le Passé Simple".
terça-feira, dezembro 11, 2012
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, um leitor lia "Nenhum Caminho Será Longo", de José Tolentino Mendonça, e lia com atenção evidente, não era uma leitura distraída, até pensei que se ia esquecer de sair na estação de Telheiras, mas tinha de sair, não é?, é a estação terminal, pede-se o favor de saírem do comboio.
sábado, dezembro 08, 2012
AFINAL ONDE ESTÃO AS PESSOAS?: Sérgio Monteiro, Secretário de Estado dos Transportes, pode ser arrumado na categoria dos "grandes pândegos" até indicação em contrário. Confrontado com uma quebra significativa de passageiros nos transportes de Lisboa e Porto, não hesita em atribuí-la ao aumento da fraude. O facto de, no último ano, a qualidade de serviço ter decrescido de forma grotesca, de os preços terem registado aumentos entre o brutal e o meramente avultado, de os descontos sociais terem sido cortados a eito (falo sobretudo do metropolitano de Lisboa, que conheço melhor, mas a tendência parece-me ser comum a outros meios de transporte, pelo que ouço e leio), de o aumento pavoroso do desemprego diminuir infelizmente as necessidades de transporte de muitos portugueses, não parece ocorrer-lhe como causa possível para o fenómeno. A culpa é dos borlistas, ponto final. O remédio consiste em apertar a fiscalização e agilizar a cobrança de multas, ponto final parágrafo. O raciocínio do Dr. Sérgio Monteiro brilha pela simplicidade: «(...) os transportes estão cheios e existe menos um quarto de automóveis a
circular. Não tendo desaparecido as pessoas, nem tendo havido um aumento
de automóveis, significa que continuam a andar de transportes». As estatísticas revelam uma queda no número de passageiros, mas o Secretário de Estado, dotado talvez de uma presciência sobrenatural que vem com a titularidade da pasta como um brinde num pacote de cereais, sabe que os transportes "estão cheios". Calculo que baseie esta asserção numa observação das composições da linha verde do metropolitano de Lisboa, que, desde a supressão da quarta carruagem, fervilham, com efeito, de gente amontoada.
Tudo vai bem. As estatísticas valem o que valem, ou seja muito pouco do ponto de vista de quem se sabe detentor de verdades absolutas, imunes aos números e ao bom senso.
Tudo vai bem. As estatísticas valem o que valem, ou seja muito pouco do ponto de vista de quem se sabe detentor de verdades absolutas, imunes aos números e ao bom senso.
domingo, dezembro 02, 2012
IMPRESSÕES DE PARIS (6): A Ménagerie do Jardin des Plantes é um jardim zoológico pequeno mas bem povoado de espécies relativente pouco comuns. Por exemplo, a vicunha:
Gosto muito da expressão de indiferença soberana que é comum a todos os camelídeos que conheço.
Pode argumentar-se que as tartarugas não têm nada de insólito, mas não me recordo de alguma vez ter estado ao pé de uma com este tamanho:
Falta a tradicional régua ou objecto familiar para transmitir a escala espacial, mas posso garantir que o bicho era muito grande.
Infelizmente, desperdicei de forma miserável a oportunidade de fotografar os dois animais que mais me fascinaram. Um deles foi o pudu:
O nome "pudu" refere-se a duas espécies diferentes de veados, consideradas as mais pequenas do mundo, nativas da América da Sul. O seu comprimento não excede os 85 cm. São consideradas espécies vulneráveis, ou seja, à beira de estar em risco de extinção.
O gato de Pallas (Otocolobus manul) é um gato selvagem nativo da Ásia Central. Esta espécie é considerada "quase ameaçada" pela União Internacional para a Conservação da Natureza, ou seja, a um passo de virem a ser abrangidos pela categoria "vulnerável".
Selvagem ou não, parece uma criaturazinha adorável que despertará certamente em muitos amantes do gato doméstico um desejo de o trazer para casa, contra todas as regras do bom senso. Mas só posso falar por mim.
A reprodução em cativeiro do gato de Pallas é extremamente difícil. Aqui, o relato de uma história de sucesso no jardim zoológico de Cincinnati.
Para acabar, um burro particularmente sociável e adepto da interacção com os visitantes:
Gosto muito da expressão de indiferença soberana que é comum a todos os camelídeos que conheço.
Pode argumentar-se que as tartarugas não têm nada de insólito, mas não me recordo de alguma vez ter estado ao pé de uma com este tamanho:
Falta a tradicional régua ou objecto familiar para transmitir a escala espacial, mas posso garantir que o bicho era muito grande.
Infelizmente, desperdicei de forma miserável a oportunidade de fotografar os dois animais que mais me fascinaram. Um deles foi o pudu:
| Jaime E. Jimenez, commons.wikimedia.org |
O gato de Pallas (Otocolobus manul) é um gato selvagem nativo da Ásia Central. Esta espécie é considerada "quase ameaçada" pela União Internacional para a Conservação da Natureza, ou seja, a um passo de virem a ser abrangidos pela categoria "vulnerável".
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| Jar0d, commons.wikimedia.org |
Selvagem ou não, parece uma criaturazinha adorável que despertará certamente em muitos amantes do gato doméstico um desejo de o trazer para casa, contra todas as regras do bom senso. Mas só posso falar por mim.
A reprodução em cativeiro do gato de Pallas é extremamente difícil. Aqui, o relato de uma história de sucesso no jardim zoológico de Cincinnati.
Para acabar, um burro particularmente sociável e adepto da interacção com os visitantes:
quarta-feira, novembro 21, 2012
quarta-feira, novembro 14, 2012
segunda-feira, novembro 12, 2012
DIFICULDADES E SOFRIMENTOS:
«Na linha da mensagem dos padres sinodais devemos acreditar que as dificuldades e os sofrimentos que acarretam [os tempos difíceis] podem representar oportunidades de evangelização”, sustentou [José Policarpo], frisando que as dificuldades materiais não devem anular as famílias “como lugar de amor, de convivência, de discernimento e de coragem para lutar.»
Lido de uma maneira, isto parece querer dizer: em momentos de fragilidade, aliciar as pessoas para a nossa fé torna-se uma tarefa mais fácil. Há que aproveitar.
Lido de outra maneira, parece querer dizer exactamente o mesmo.
Mas devo ser eu que estou a retirar estas declarações do seu contexto. Ah, o contexto...
«Na linha da mensagem dos padres sinodais devemos acreditar que as dificuldades e os sofrimentos que acarretam [os tempos difíceis] podem representar oportunidades de evangelização”, sustentou [José Policarpo], frisando que as dificuldades materiais não devem anular as famílias “como lugar de amor, de convivência, de discernimento e de coragem para lutar.»
Lido de uma maneira, isto parece querer dizer: em momentos de fragilidade, aliciar as pessoas para a nossa fé torna-se uma tarefa mais fácil. Há que aproveitar.
Lido de outra maneira, parece querer dizer exactamente o mesmo.
Mas devo ser eu que estou a retirar estas declarações do seu contexto. Ah, o contexto...
sábado, novembro 10, 2012
ELEIÇÕES NOS EUA (4): Explorar sites conservadores à procura de pepitas, no meio das reacções de choque e espanto à reeleição de Barack Obama, pode rapidamente transformar-se num vício. Por exemplo:
«(...) how in the world could the total number of votes for Romney not be many, many more than for McCain in 2008? By all accounts, huge numbers of Christians, Conservatives, Republicans and independents who stayed home last election were reported to be all fired up to prevent Obama from another destructive term and chomping at the bit to vote. We are now supposed to believe, at the last minute, they decided to stay home?»
Seguem-se algumas teorias de conspiração, que, em termos de negação da realidade, vão aonde os mais experientes e ousados teóricos da consipiração teriam vergonha de ir.
«(...) how in the world could the total number of votes for Romney not be many, many more than for McCain in 2008? By all accounts, huge numbers of Christians, Conservatives, Republicans and independents who stayed home last election were reported to be all fired up to prevent Obama from another destructive term and chomping at the bit to vote. We are now supposed to believe, at the last minute, they decided to stay home?»
Seguem-se algumas teorias de conspiração, que, em termos de negação da realidade, vão aonde os mais experientes e ousados teóricos da consipiração teriam vergonha de ir.
quarta-feira, novembro 07, 2012
ELEIÇÕES NOS EUA (3): A schadenfreude não costuma figurar entre os meus desportos favoritos, mas hoje fiz questão de visitar o site da Conservapedia para ver o que tinham os conservadores empedernidos a dizer sobre a vitória do estalinista Barack Hussein Obama. Não esperava outra coisa que não fosse um saboroso sarapatel de negação, recriminações dirigidas à comunicação social (obviamente vendida à causa liberal) e desculpas imaginativas, e não fiquei desiludido. Apreciei particularmente o link para um artigo de há 2 dias onde ainda se especulava sobre a possibilidade de Romney ganhar os estados de Nova York e Nova Jersey devido aos efeitos do furacão Sandy. Haverá limites para o delírio? E porque não uma erupção do vulcão Mauna Kea que ditasse a derrota de Obama no Hawaii?
ELEIÇÕES NOS EUA (2):
Talvez involuntariamente, Mitt Romney citou "O Padrinho" no seu discurso de derrota. «I believe in America» são as primeiras palavras ouvidas no filme, proferidas pelo cangalheiro Bonasera que pede justiça a Don Corleone.
FADE FROM BLACK: Int. of Don Corleone's home office -day
BONASERA (seated in front of the Don's desk, facing the camera)
I believe in America. America has made my fortune. And I raised my daughter in the
American fashion. I gave her freedom, but -- I taught her never to dishonor her family.
Talvez involuntariamente, Mitt Romney citou "O Padrinho" no seu discurso de derrota. «I believe in America» são as primeiras palavras ouvidas no filme, proferidas pelo cangalheiro Bonasera que pede justiça a Don Corleone.
FADE FROM BLACK: Int. of Don Corleone's home office -day
BONASERA (seated in front of the Don's desk, facing the camera)
I believe in America. America has made my fortune. And I raised my daughter in the
American fashion. I gave her freedom, but -- I taught her never to dishonor her family.
segunda-feira, novembro 05, 2012
PRETO E BRANCO: Na caixa do DVD está a promessa de um filme a cores, mas o filme "A Vida de Boémia" é a preto e branco. Mais atenção, por favor, senhores da Midas! Claro que eu ficaria muito surpreendido se alguém comprasse ou deixasse de comprar um filme de Kaurismäki por este ser a cores ou a preto-e-branco.
Quanto ao filme, não traz nada de excepcionalmente novo à filmografia de Kaurismäki, mas não é isso coisa que me apoquente. Adoro realizadores que se obstinam em ser fiéis ao seu estilo, contra ventos, marés e acusações de repetição. Nem sequer o facto de adaptar uma obra literária (neste caso "La Vie de Bohème", de Henry Murger) é novidade: recorde-se "Crime and Punishment" (1983) e "Hamlet Goes Business" (1987).
"A Vida de Boémia" é um filme de 1992. O estilo é o mesmo de antes e depois, mas esta obra talvez seja aquela, de entre as que conheço deste realizador, em que mais se nota a vontade de introduzir algum sentimentalismo no conteúdo (por contraste com os emocionalmente mais enxutos "Shadows In Paradise" ou "The Match Factory Girl"), sem abdicar do registo sóbrio. A dissonância funciona esplendidamente, como continuará a funcionar em "Nuvens Passageiras", "O Homem Sem Passado" e os outros.
Matti Pellonpää, aqui no papel de pintor albanês, já faz parte da mobília. No que respeita a André Wilms, quanto mais o vejo no seu ofício, mais gosto dele.
Quanto ao filme, não traz nada de excepcionalmente novo à filmografia de Kaurismäki, mas não é isso coisa que me apoquente. Adoro realizadores que se obstinam em ser fiéis ao seu estilo, contra ventos, marés e acusações de repetição. Nem sequer o facto de adaptar uma obra literária (neste caso "La Vie de Bohème", de Henry Murger) é novidade: recorde-se "Crime and Punishment" (1983) e "Hamlet Goes Business" (1987).
"A Vida de Boémia" é um filme de 1992. O estilo é o mesmo de antes e depois, mas esta obra talvez seja aquela, de entre as que conheço deste realizador, em que mais se nota a vontade de introduzir algum sentimentalismo no conteúdo (por contraste com os emocionalmente mais enxutos "Shadows In Paradise" ou "The Match Factory Girl"), sem abdicar do registo sóbrio. A dissonância funciona esplendidamente, como continuará a funcionar em "Nuvens Passageiras", "O Homem Sem Passado" e os outros.
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| André Wilms e Matti Pellonpää em "A Vida de Boémia" (1992) |
Matti Pellonpää, aqui no papel de pintor albanês, já faz parte da mobília. No que respeita a André Wilms, quanto mais o vejo no seu ofício, mais gosto dele.
quinta-feira, novembro 01, 2012
REAVALIAR: Um dos poucos aspectos positivos da crise é este: o sopro de desinibição que circula pelas mentes arejadas dos fazedores de opinião e forças vivas do país, a licença para dizer aos quatro ventos aquilo que seria indizível, pelo menos público, há apenas alguns anos. Torna-se assim mais fácil de distinguir quem está de que lado de cada barricada.
Tudo o que seja "reavaliar", "refundar" ou "reajustar" está na ordem do dia. Roberto Carneiro, por exemplo, considera que pode ser benéfico reavaliar as funções do Estado na educação. “Em áreas onde há uma actividade de mercado, onde há outros agentes de natureza privada, ou de natureza intermédia, é evidente que o Estado tem de repensar a sua função, como é o caso da educação”.
Há muitas maneiras de atacar a escola pública. Roberto Carneiro embrulha o seu ataque pessoal na evidência e no pragmatismo, mas é de um ataque que se trata, naturalmente carregado de ideologia. E nem se pode dizer que esconda o jogo: “Não quer dizer que a educação não tenha de ter sempre uma grande presença do Estado na área da regulação e financiamento na área da solidariedade”. Ou seja, no sonho extravagante de Roberto Carneiro, o papel do Estado na educação reduzir-se-ia a regular e a ensinar o B-A-BA aos indigentes, e provavelmente a passar cheques chorudos a uma florescente rede de escolas com contrato de associação.
No fundo, estou de acordo com Roberto Carneiro. O Estado deve reavaliar as suas funções na educação. Mas essa reavaliação não pode deixar de ir no sentido de aprofundar o papel da escola pública, principal responsável pelo aumento dos níveis de escolaridade em Portugal nos últimos anos, e um dos factores que fazem com que a expressão "igualdade de oportunidades" não seja completamente vazia de sentido.
Tudo o que seja "reavaliar", "refundar" ou "reajustar" está na ordem do dia. Roberto Carneiro, por exemplo, considera que pode ser benéfico reavaliar as funções do Estado na educação. “Em áreas onde há uma actividade de mercado, onde há outros agentes de natureza privada, ou de natureza intermédia, é evidente que o Estado tem de repensar a sua função, como é o caso da educação”.
Há muitas maneiras de atacar a escola pública. Roberto Carneiro embrulha o seu ataque pessoal na evidência e no pragmatismo, mas é de um ataque que se trata, naturalmente carregado de ideologia. E nem se pode dizer que esconda o jogo: “Não quer dizer que a educação não tenha de ter sempre uma grande presença do Estado na área da regulação e financiamento na área da solidariedade”. Ou seja, no sonho extravagante de Roberto Carneiro, o papel do Estado na educação reduzir-se-ia a regular e a ensinar o B-A-BA aos indigentes, e provavelmente a passar cheques chorudos a uma florescente rede de escolas com contrato de associação.
No fundo, estou de acordo com Roberto Carneiro. O Estado deve reavaliar as suas funções na educação. Mas essa reavaliação não pode deixar de ir no sentido de aprofundar o papel da escola pública, principal responsável pelo aumento dos níveis de escolaridade em Portugal nos últimos anos, e um dos factores que fazem com que a expressão "igualdade de oportunidades" não seja completamente vazia de sentido.
segunda-feira, outubro 29, 2012
DESGRAÇA: João César das Neves é indubitavelmente uma criatura muito interessante, para não lhe chamar um case-study com pernas.
Numa das suas últimas crónicas, ele dá a entender que o Tribunal Constitucional "desgraçou o país" com a sua decisão de declarar inconstitucional o corte dos dois subsídios na Função Pública.
Para edificação das massas ignaras, JCN deveria ter explicado quais das demais instituições do Estado correm o risco de desgraçar o país como consequência do exercício normal e legítimo das respectivas funções.
Por exemplo, será de exigir ao Tribunal de Contas, à Procuradoria Geral ou à Autoridade da Concorrência comedimento ou auto-censura, para evitarem situações gravosas, a Bem da Nação?
Senhor João César das Neves, por favor esclareça-nos. As suas pepitas de sabedoria não cairão em saco roto. Não faltam por aí compradores para sugestões sobre como amordaçar instituições democráticas e órgãos de soberania.
A Constituição é um empecilho; isso já todas as pessoas de bem perceberam. Não nos fiquemos por aí.
Numa das suas últimas crónicas, ele dá a entender que o Tribunal Constitucional "desgraçou o país" com a sua decisão de declarar inconstitucional o corte dos dois subsídios na Função Pública.
Para edificação das massas ignaras, JCN deveria ter explicado quais das demais instituições do Estado correm o risco de desgraçar o país como consequência do exercício normal e legítimo das respectivas funções.
Por exemplo, será de exigir ao Tribunal de Contas, à Procuradoria Geral ou à Autoridade da Concorrência comedimento ou auto-censura, para evitarem situações gravosas, a Bem da Nação?
Senhor João César das Neves, por favor esclareça-nos. As suas pepitas de sabedoria não cairão em saco roto. Não faltam por aí compradores para sugestões sobre como amordaçar instituições democráticas e órgãos de soberania.
A Constituição é um empecilho; isso já todas as pessoas de bem perceberam. Não nos fiquemos por aí.
sexta-feira, outubro 05, 2012
EFEMÉRIDE: Foi e continua a ser atacada e deturpada pela brigada de revisionistas contumazes ou de ocasião, profissionais ou amadores; secundarizada por políticos cegos, tacanhos e ignorantes da História; enxovalhada pela decisão estúpida e ultrajante de retirar ao dia 5 de Outubro o estatuto de feriado (a ver vamos, muita água vai ainda correr por debaixo da ponte nos próximos 365 dias); desprestigiada por incidentes e decisões lamentáveis por parte daqueles que tinham por obrigação honrar esta data (a cerimónia à porta fechada, o episódio pythoniano da bandeira ao contrário)...
Mas a República é muito maior do que tudo isto e resiste a tudo isto.
Viva a República! (A de hoje e a de 1910, muito mais moderna e inovadora do que lhe é reconhecido.)
Mas a República é muito maior do que tudo isto e resiste a tudo isto.
Viva a República! (A de hoje e a de 1910, muito mais moderna e inovadora do que lhe é reconhecido.)
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