sexta-feira, março 08, 2013

CINÉFILO: OFÍCIO DE PACIÊNCIA

Pergunto-me se alguma vez compreenderei a incapacidade crónica dos distribuidores portugueses para respeitar as datas previstas para as estreias. Com o tempo, quase nos habituamos a encarar as datas anunciadas como meras estimativas, que só por um enorme golpe de sorte coincidirão com a data da estreia. Mas não devia ser assim. Em França, por exemplo, o espectador é respeitado. A data de estreia costuma fazer parte do próprio trailer, como um compromisso gravado na pedra. E é cumprida. Parece simples. Mas os distribuidores portugueses, na sua imensa sapiência ou inépcia, parecem gostar de complicar aquilo que é simples.

Por exemplo: há meses que se aguarda pela estreia de "In Another Country", de Hong Sang-soo, e de "Vous N'Avez Encore Rien Vu", de Alain Resnais. Pelo andar da carruagem, esses felizes eventos parecem remetidos para as calendas gregas. No caso do primeiro, já foram avançadas pelo menos duas datas diferentes. Parece haver razões para desesperar.

O circuito comercial português de exibição já está razoavelmente moribundo. Parece haver quem, caridosamente, insiste em infligir o golpe de misericórdia.

"In Another Country", de Hong Sang-soo (2012)

terça-feira, março 05, 2013

Ana Moreira em "Tabu", de Miguel Gomes (2012)


No filme, todos perdem: os amantes, a Europa, a África.(No blog "Anotações de um Cinéfilo".)

TUDO A TODOS

A secretária de Estado dos Assuntos Parlamentares e da Igualdade, Drª Teresa Morais, afirmou recentemente que

O tempo em que o Estado se via como o grande empregador, que podia dar tudo a todos, está ultrapassado.

Que tempo e que lugar foram esses em que o Estado podia dar tudo a todos? Tenho muita pena de não ter vivido esses anos venturosos, em que certamente o leite e o mel escorriam pelas valetas das ruas.

Há pessoas que logram a suprema habilidade de juntar a utopia e a ucronia numa só frase. Temos governantes de grande estirpe.

Mais a sério: distorcer o passado para mais facilmente impor uma agenda presente é um truque demasiado óbvio.

sábado, março 02, 2013

EDUARDO NERY (1938*-2013)


Sem título, 1966


Passo duas vezes por dia ao lado dos azulejos que ele criou para a estação de metro do Campo Grande. Mas prefiro as suas obras mais abstractas.

(*) Esta é a data de nascimento que consta da Infopédia e do catálogo da colecção do CAM. Nas notícias que saíram hoje, é indicada a data de 1936.

DESTINOS CRUZADOS

Faltou explicar outra afinidade entre Jacques Rivette e o blog: a data de nascimento. O primeiro post foi publicado no dia 1 de Março de 2003, 75º aniversário natalício do realizador. Não foi um acto deliberado. Por vezes, o acaso faz as coisas com graça e acerto muito maiores do que qualquer plano ou desígnio.

sexta-feira, março 01, 2013

DEZ

Foi há exactamente 10 anos que este blog apareceu.

Não faltaram, ao longo destes anos, os acidentes de percurso, os hiatos e as crises. Mas a continuidade nunca foi quebrada.

Saber da existência deste fio condutor que permanece preso, na extremidade mais distante, àquilo que eu era há uma dezena de anos dá-me um sentimento de satisfação a que não é alheia a estranheza.

Não atribuo importância excessiva a uma efeméride, mas decidi que, agora que o blog tem tantos anos de vida como os dedos das duas mãos, estava na altura de lhe dar uma indumentária nova.

A imagem é um fotograma do filme "Céline et Julie Vont en Bateau" (1974), de Jacques Rivette. A mulher vestida de enfermeira é Dominique Labourier, a outra é Bulle Ogier. Rivette é uma das pessoas mais importantes da minha vida. Não preciso de mais justificações para esta homenagem.

A cor do fundo é o mesmo verde de sempre.

A lista de blogs ainda é provisória. Nada de melindres, por favor.

De resto, este blog continuará a ser um blog que começa onde os outros blogs acabam, ou que acaba onde os outros começam, já não me lembro ao certo.

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na estação de metro do Saldanha, do lado da linha vermelha, uma leitora lia "Atonement", de Ian McEwan. Ler é maçada? Felizmente há quem discorde.
REFUNDAÇÃO: Será que o Estado carece de uma refundação? Este debate apaixona as massas. Do que não restam dúvidas é de que o blog, esse sim, precisa de ser refundado. Para já, aqui está o novo template. Seguir-se-á uma mudança de paradigma.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

EM BREVE: Este blog é tão vetusto que se prepara para cumprir 10 anos. Como a Santa Sé não possui o monopólio das mudanças, o dia 1 de Março, para além desta grandiosa efeméride, servirá para inaugurar um novo template. Mas não será só a aparência que irá mudar. Vai tratar-se, acima de tudo, de uma mudança de paradigma.
FRASE DO DIA: A frase do dia, do inevitável João César das Neves, é esta:

«Quanto ao resto dos católicos, eles estão menos preocupados em saber quem querem que o novo Papa seja do que em saber o que o novo Papa vai querer que eles sejam.»

É o papa quem decide o que quer que os seus fiéis "sejam"? Uau. Não surpreende que Ratzinger tenha desistido. Demasiado poder sobre demasiadas mentes alheias. Deve acabar por cansar.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano: leitora lia "Contos Éroticos", de Moravia. Mesma linha, dia diferente, leitora diferente: Oscar Wilde, "De Profundis".

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

PUREZA E BELEZA: Uma grande crítica de Luís Miguel Oliveira a "Psycho", agora de regresso às salas portuguesas. Quem diz "pureza do gesto" está quase a dizer "beleza do gesto", o que remete para o recente e fascinante "Holy Motors" de Carax.


Também gostei da referência a "Frenzy" como "o último dos seus grandes, grandes filmes". Subscrevo.

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, uma leitora lia, de pé, "Os Livros Que Devoraram o Meu Pai", de Afonso Cruz. É assim mesmo!

domingo, fevereiro 10, 2013

Paris is the city, isn't it, and I am a lover of cities. It can be experienced much more pleasantly and conveniently than any other city I know. (...)each arrondissement is like a separate province, with its own capital and customs and even costumes.

(John Ashbery, entrevista na "Paris Review", volume 4.)

Não tenho absolutamente nada a acrescentar ao que o senhor Ashbery diz.

sábado, fevereiro 09, 2013

AGUENTA AGUENTA (3): Eu bem queria. Eu bem queria remeter o infeliz episódio Ulrich para o seu bem merecido nicho no armário das minhas preocupações passadas. Mas não consigo. Há qualquer coisa nesta sucessão de declarações emitidas por este homem estúpido, insensível e arrogante que me compelem a orbitar em seu redor, sem me conseguir libertar do seu abraço gravítico.

A bem da brevidade, e para não arrastar o leitor para esta armadilha kepleriana, apenas duas coisas:

1) As declarações de Ulrich são tão reveladoras da sua pequenez humana como da situação que vivemos. Há 5 ou 10 anos, ninguém se atreveria a ir tão longe, fora das caixas de comentários de pasquins online. Hoje, de tanto se pôr em causa aquilo que não se julgava capaz de ser posto em causa, certas criaturas sentem o odor do sangue e atrevem-se finalmente a expulsar verbalmente aquilo que lhes bailava na alma.

2) Verifica-se mais uma vez que aqueles que reclamam com calor não aceitar lições de sensibilidade (ou de moralidade, ou de civismo, ou de ética) são precisamente aqueles que mais carentes estão dessa pedagogia.

Às três é de vez. Prometo agora concentrar-me no balanço do ano cinematográfico, em Barbey d'Aurevilly, nos poemas de Denise Levertov e na doçaria tradicional portuguesa.

terça-feira, fevereiro 05, 2013

LEITURAS: Barbey d'Aurevilly (1808-1889) pode ser descrito como um dandy reaccionário. A literatura francesa é provavelmente mais fértil do que qualquer outra em paradoxos ambulantes deste género. Um dos aspectos que mais aprecio neste autor é o descaramento tranquilo com que vai colocando as suas opiniões políticas na boca dos seus narradores. Por exemplo, em "Le dessous de cartes d'une partie de whist" (quarto conto de "Les Diaboliques"):

«Elle faisait naturellement, simplement, tout ce que faisaient les autres femmes dans sa société, et ni plus ni moins. Elle voulait prouver que l'égalité, cette chimère des vilains, n'existe vraiment qu'entre les nobles. Là seulement sont les pairs, car la distinction de la naissance, les quatre générations de noblesse nécessaires pour être gentilhomme, sont un niveau.»

Discordo a 200%, mas quase dá vontade de concordar com uma enormidade vertida com tanto espírito.
FORMA DE VIDA: Uma nova revista. Há um conto inédito meu. E há, sobretudo, muito e muito bom para ler.

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

AGUENTA AGUENTA (2): Não é costume meu praticar o exercício de adivinhar intenções e estados de espírito alheios. Neste caso, porém, arrisco um palpite: Fernando Ulrich deve ter achado que colocar a hipótese de se vir a transformar num sem abrigo era um rasgo de humildade que o reconciliaria, em definitivo, com a ingrata opinião pública portuguesa. A evidência de que, bem pelo contrário, é um acto de arrogância descomunal talvez comece lentamente a ganhar terreno no seu entendimento.

sábado, fevereiro 02, 2013

AGUENTA AGUENTA: Sim, talvez a única questão a que faz sentido procurar resposta, neste caso lamentável, é aquela colocada por Pedro Lains: onde aprendeu Fernando Ulrich a dizer coisas assim? Partidários da "nature" e da "nurture" podem encontrar aqui uma ocasião dourada para dar novo ímpeto a este debate, que tende a eternizar-se. A idiotice, a falta de sensibilidade social e a boçalidade são traços inatos ou surgem à custa de interacções mais ou menos felizes com a sociedade?

quarta-feira, janeiro 30, 2013

PROJECTO COLECTIVO: No "Prós e Contras" de domingo passado, a expressão "projecto colectivo para Portugal" circulava alacremente de boca em boca. Parecia reunir total consenso a ideia de que o tal "projecto colectivo para Portugal" é a solução para todos os desmandos e dissabores dos portugueses. Eu não sei o que é um "projecto colectivo para Portugal". Faço uma pequena e muito difusa ideia do que são os milhões de projectos individuais e o esforço quotidiano dos portugueses para conquistar o seu quinhão de felicidade, mas ignoro esse conceito de "projecto colectivo". Soa totalitário e arrogantemente "top-down". E como seria implementado? Um "crowdsourcing" do Minho ao Algarve, alimentado a entusiasmo e afã patriótico?

(Se continuar a usar aspas a torto e direito, qualquer dia oferecem-me o lugar do Vasco Pulido Valente na última página do Público!)