segunda-feira, maio 20, 2013

Merengue, lemon curd, framboesas, mel, hortelã, tomilho. A vida é como certas sobremesas do Jamie Oliver: demasiadas coisas.

sábado, maio 04, 2013

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na linha amarela do metropolitano, uma leitora lia "Wuthering Heights", de Emily Brontë, de pé, em versão original.

Oh, Heathcliff!

sexta-feira, abril 26, 2013

quinta-feira, abril 25, 2013

INICIAL, INTEIRO, LIMPO

Ano após ano, fascina-me ir descobrindo as novas estratégias que certos sectores põem em prática para relativizar, apoucar, ignorar ou contestar o significado deste dia. E porém o significado e a memória perduram, tão mais fortes e nítidos do que tudo o resto.


segunda-feira, abril 22, 2013

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na Cinemateca, uma leitora lia os "Diários" de Al Berto. Nada como um bom livro imediatamente antes de um filme. Ou depois.

sexta-feira, abril 19, 2013

terça-feira, abril 16, 2013

CONTUMÁCIA

Com um intervalo de vários anos, comprei um postal do mesmo quadro de Degas na Courtauld Gallery, Londres. É este:


"Mulher à Janela", 1872.

Não sei se esta constância de gostos deve ser para mim motivo de embaraço ou de regozijo.

Há uma história, associada a este quadro, que pode ter contribuído para este impulso repetido. O quadro foi pintado durante o cerco prussiano a Paris, que trouxe consigo a fome e as privações de toda a espécie. A mulher que posou foi remunerada com um pedaço de carne crua que ela, esfomeada, devorou imediatamente.

«Figure and setting seem, like something found by chance, an unposed vignette, which the artist perhaps saw in passing, out of the corner of his eye, and which he must have registered later in the studio, using quick touches of oil paint on paper. But this is inaccurate. The picture was preconceived, and a model obtained. And Degas deliberately set out to experiment with "essence", which involves draining paint of its oil and thinning it instead with turpentine. So the informality, as always in Degas's paintings, is calculated.» (Frances Spalding)



quinta-feira, abril 11, 2013

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na plataforma do metro da estação Campo Grande (linha verde, sentido Cais do Sodré), um leitor lia um livro de Mo Yan. Sim, era esse mesmo, o mais-que-mítico "Peito Grande, Ancas Largas". O que terá despertado o interesse deste leitor? O prestígio do prémio Nobel? O título, tão subtilmente sugestivo? Nunca o saberemos. Em todo o caso, a linha verde continua a dar cartas.

segunda-feira, abril 08, 2013

CONSTITUIÇÃO

Nestes tempos (que tempos!) em que se insultam órgãos de soberania com a mesma ligeireza com que se esborracha um mosquito, certas imagens valem mais do que mil palavras, um milhão de comentários, um bilião de narrativas:



Sim, a Constituição da República. A maior força de bloqueio que existe, segundo alguns (numerosos, barulhentos); o mais nefasto dos empecilhos.

DIAS DO LEITOR

Nasceu há poucos dias, mas torna-se desde já abundantemente óbvio que se irá transformar em ponto de paragem obrigatório.

sexta-feira, abril 05, 2013

LONDRES

O favorito Magnus Carlsen ganhou o torneio dos candidatos de Londres e o direito a desafiar o campeão do mundo, Viswanathan Anand, mas as vias do seu triunfo foram tortuosas. Em igualdade pontual com Vladimir Kramnik à entrada da última ronda, Carlsen beneficiava de um melhor coeficiente de desempate, bastando-lhe por isso fazer tão bem como o seu adversário directo. O desfecho foi impróprio para cardíacos: Carlsen, que defrontava Peter Svidler com brancas, perdeu o controlo do jogo e acabou derrotado. Felizmente para ele, Kramnik, jogando de negras contra Vassily Ivanchuk, hesitou demasiado entre jogar para a vitória ou para o empate e acabou com uma posição desesperada, acabando por desistir.


Carlsen (esquerda) perdeu o jogo mas ganhou o torneio. Fotografia retirada daqui.

O embate Anand-Carlsen será uma coisa digna de se ver. Mal posso esperar.

Por coincidência, estive em Londres durante a recta final do torneio. Não fui assistir a este pedaço de história do xadrez por duas razões fundamentais. A primeira esteve relacionada com o preço dos bilhetes de ingresso (a rondar as 30 libras, pelo que me constou). A segunda razão, muito mais importante, foi a existência de coisas bem mais produtivas e interessantes para fazer, como por exemplo esta:

Rembrandt, "Titus, the Artist's son", c. 1657. Visto na Wallace Collection.

segunda-feira, abril 01, 2013

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Um vigilante de uma das salas da colecção Wallace (Londres), tranquilamente instalado na sua cadeira, lia a peça "Timon of Athens". Estava a começar o 3º acto. Por um lado, é obviamente de louvar. Por outro lado, impõe-se a dúvida: em caso de pulsão vandalizadora por parte de um qualquer visitante, será que o tempo de reacção de alguém que está imerso numa tragédia shakespeareana será suficiente para salvar a integridade da obra de arte?

quarta-feira, março 27, 2013

O ESTADO DAS COISAS

Édouard Vuillard, Sous la Lampe ou Deux Femmes Sous la Lampe (1892)

XADREZ

Está a disputar-se em Londres, até dia 1, o torneio dos candidatos ao título de campeão do mundo de xadrez. O vencedor ganha o direito de disputar o título com o indiano Viswanathan Anand, actual campeão. A quatro rondas do fim, Magnus Carlsen (Noruega), nº 1 da classificação mundial e grande favorito, lidera com meio ponto de avanço sobre Levon Aronian (Arménia) e um ponto sobre Vladimir Kramnik (Rússia). Estes três são os únicos que ainda podem aspirar à vitória. O meu ídolo de sempre, o ucraniano Vassily Ivanchuk sofreu hoje mais uma derrota e está em último lugar.

terça-feira, março 19, 2013

EXTRATERRESTRE

(Ainda a propósito disto.) Nos tempos que correm, defender os valores da laicidade de forma clara e descomplexada parece coisa de extraterrestre. Felizmente, ainda se vão vendo alguns homenzinhos verdes a circular por aí, em particular na Assembleia. Tanto melhor.

Na caixa de comentários da notícia, há quem chame a Pedro Delgado Alves "filhote de Afonso Costa". A mim, soa a elogio, mas duvido que fosse essa a intenção do seu autor.

Pedro Delgado Alves já se tinha distinguido, o ano passado, pela reacção contrária à eliminação do feriado do 5 de Outubro.

MAIS NOTAS SOLTAS SOBRE O PAPA

  • Cada vez fico mais convencido de que ser papa é um dos cargos menos exigentes que existe. Poucos dias depois da sua eleição, já todo o mundo sabe que o papa Francisco é humilde, simpático, espontâneo e amigo dos pobres. Para tal, bastou-lhe sorrir várias vezes, pagar a conta da residência onde pernoitou, interagir com um punhado de pessoas na praça de São Pedro e permitir-se alguns ditos mais ou menos espirituosos. Ah, e não esqueçamos declarações de tremenda complexidade conceptual, como por exemplo «Não tenham medo da bondade e da ternura» ou «É preciso uma Igreja pobre para os pobres».
  • Para quem, imperdoavelmente, se esqueça por momentos das extraordinárias qualidades humanas do papa, a comunicação social aí está para, em modo intoxicação, chamar o incauto à razão.
  • O noticiário de hoje das 20h na TVI abriu com quase 20 minutos sobre a missa de inauguração do papa. A gravíssima crise em Chipre, com implicações óbvias e preocupantes para toda a Europa, passou para segundo lugar. Parabéns à equipa editorial. Sem a vossa clarividência, seríamos capazes de pensar que o futuro da zona Euro é mais importante do que a cor dos sapatos de Jorge Bergoglio.
  • Continua a deixar-me perplexo a tendência do Presidente da República Portuguesa para falar em nome dos cidadãos do seu país. Ninguém lhe passou mandato para interpretar os estados de alma dos portugueses, mas não é por isso que o Professor Cavaco Silva se coíbe de afirmar, para quem o queira ouvir, que o piedoso povo lusitano está desejoso de ver o bispo de Roma a calcorrear as ruas e estradas de Portugal, numa visita pastoral lá para 2017. Falando por mim, dispenso esse encargo adicional para o erário público e o caos que sempre acompanha as visitas papais.
  • É chocante ver o mais alto magistrado da nação afirmar que a eleição do novo papa deve ser motivo de esperança para os portugueses, em particular para os desempregados. Sobretudo por vir da boca de quem, durante as campanhas eleitorais, se gabava de ser capaz de promover o crescimento económico graças ao seu infalível magistério de influência. Isso, aparentemente foi chão que deu uvas. Resta agora esperar pelo auxílio divino pela mão de um argentino vestido de branco.

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Ontem: leitora, "A Quinta Essência", Agustina Bessa-Luís. Hoje: leitor, "A Náusea", Jean-Paul Sartre. Dois leitores, dois livros, dois autores com hífen no nome. A linha verde a bombar, como sempre.

domingo, março 17, 2013

FILMES 2012

O Natal é quando um homem quiser. A divulgação da lista dos melhores filmes do ano também.

Em 2012, não fui tantas vezes ao cinema quanto teria gostado, muito por culpa da teimosia dos dias que se recusam a ter mais de 24 horas. (É um problema que vem de longe.) Por exemplo, perdi o celebradíssimo "Amour", de Michael Haneke, um cineasta que se torna irritante e pomposo com demasiada frequência mas que é sem dúvidas capaz de fazer bons filmes ("Caché", "Code Inconnu").

Do que vi, retirei a impressão de que foi um ano sem grandes obras-primas, mas com um punhado de filmes muito bons e originais.

Vou deixar o meu "top 5" para outro dia, por me parecer que existe um fosso entre esses 5 e os demais que justifica tratamento à parte.

Hoje vou limitar-me a revelar as posições 6 a 10, sem nenhuma ordem em particular.
  • "Cosmopolis", de David Cronenberg. Gostei bastante, mas senti que não descolou do estilo e do registo de Don DeLillo. Como sou apreciador desse estilo e desse registo, a minha apreciação positiva foi consequência natural.
  • "Moonrise Kingdom", de Wes Anderson. Por vezes a roçar o genial, frequentemente tocante, sofre com os sub-enredos envolvendo as personagens adultas (apesar de actores que eu adoro, como Frances McDormand e Bill Murray) e com a parte final algo apalhaçada.
  • "Elena", de Andrey Zvyagintsev. Menos conseguido do que "O Regresso", ainda assim um filme sóbrio e inteligente.
  • "Le Havre", de Aki Kaurismäki. Aprecio o estilo e a coerência de AK em elevadíssimo grau. Este não é dos meus filmes preferidos dele, mas seria preciso um autêntico suicídio artístico, ou um ano excepcionalmente rico em obras de génio, para que um filme de Kaurismäki não entrasse no "top 10".
  • "Bonsái", de Cristián Jiménez. Um pouco em jeito de prémio simpatia, mas contém ideias e momentos interessantes em número suficiente para dispensar os favores ou a condescendência. E que bom seria que surgissem nas salas portuguesas mais filmes de cinematografias remotas (Chile, neste caso).
Diego Noguera em "Bonsái", de Cristián Jiménez (2011)

FALHAR A PONTARIA

Apanhei hoje uns minutos da emissão da RTP2 "Hora de Fecho". Os jornalistas Miguel Pinheiro e Ana Sá Lopes discutiam (como não podia deixar de ser numa altura em que um diminuto bairro romano, independente graças às circunvoluções da História e a diversas conjunções de interesses, se converteu no centro de gravidade do mundo mediático) o novo papa.

Miguel Pinheiro mostrou-se escandalizado pelo facto de o voto de saudação à eleição da papa, recentemente proposto na Assembleia da República, ter sido aprovado com abstenção dos partidos mais à esquerda e de 6 deputados do PS, ao passo que o voto de pesar pelo falecimento de Hugo Chávez recolheu unanimidade. A sua expressão reflectia, toda ela, indignação moral e compunção pela pavorosa inversão de valores que o caso configura.

Tenho a inteligência e o discernimento de Ana Sá Lopes em boa conta. Foi por isso uma desilusão vê-la falhar por completo a pontaria quando tentou contra-argumentar invocando as acusações de cumplicidade com a ditadura argentina, que têm vindo a lume, como possível e válido motivo dessa unanimidade falhada na aclamação ao novo bispo de Roma.

O tempo dirá se as acusações têm ou não validade. Estamos ainda demasiado próximos do acontecimento para que a separação do trigo e do joio tenha sido feita; por enquanto, impera o ruído mediático.

Já a oportunidade de o órgão máximo da democracia de um estado laico se pronunciar sobre a eleição de um líder religioso, essa sim, é extremamente contestável e não depende nem da personalidade nem de eventuais aleivosias e erros de percurso do indivíduo em questão.

Não posso adivinhar o que esteve por detrás das abstenções. Espero que tenham sido o sentido de Estado, o apego pela laicidade e a consciência republicana. Uma coisa, entretanto, é certa: este voto não deveria sequer ter sido proposto. O PS prestou um mau serviço ao país e à dignidade da Assembleia.


sábado, março 16, 2013

OBSERVAÇÕES SOLTAS SOBRE O NOVO PAPA

  • Nunca pensei que iria assistir à renúncia voluntária de um papa.
  • Quando João Paulo II se manteve em funções durante anos, mesmo depois de ser atingido por uma doença incapacitante, a sua coragem, espírito de sacrifício e dedicação foram quase unanimemente saudados. Quando Bento XVI renunciou ao cargo, alegando falta de vigor físico, a sua decisão foi classificada quase unanimemente como "moderna" e "corajosa". Pela mesmíssima ordem de ideias, JPII poderia ser considerado antiquado e casmurro e BXVI acusado de falta de dedicação e de capacidade de sofrimento.
  • A massiva atenção mediática que é concedida ao conclave roça o absurdo. Os directos da Praça de São Pedro, os planos intermináveis da chaminé e da varanda, fascinam pela sua gratuitidade.
  • "Papa Francisco" soa estranho. O cardeal Bergoglio deveria ter escolhido um nome de papa como Urbano ou Clemente, com o numeral adequado. Impõe outro respeito.
  • Um dado interessante que parece ter escapado à avidez descontrolada da comunicação social: este foi o primeiro papa a escolher um nome inédito desde o obscuro papa Lando (século X). (A excepção foi João Paulo I, mas neste caso a escolha do cardeal Luciani foi uma homenagem explícita aos seus antecessores, João XXIII e Paulo VI.)
  • Muitas vezes os papas são atacados com excessiva leviandade e agressividade; sou o primeiro a admiti-lo.O reverso desta medalha é a extraordinária benevolência com que largos sectores da imprensa os protegem e exaltam, com maior ou menos clareza consoante se trate de um pontífice mais (JPII) ou menos (BXVI) mediático. Repare-se: poucos dias depois da sua eleição, o papa Francisco já é unanimemente considerado simples, espontâneo, humano e humilde, com base em acções ou palavras pouco mais que anedóticas (pagou a conta da residencial, cozinha as próprias refeições, diz umas piadas de vez em quando, sorri muito). Não é difícil cair nas boas graças de uma comunicação social disposta a deixar-se embevecer.