segunda-feira, janeiro 27, 2014

RECUSA O PRECONCEITO! DÁ UM ABRAÇO A UM FINANCEIRO!

Segundo o impagável João César das Neves, no seu momento semanal de comicidade involuntária, um dos "grupos mais desprezados e injustiçados de hoje" é o dos financeiros.

Leram bem: não se trata de qualquer minoria étnica ou religiosa, cultural ou linguística. São os financeiros.

Este homem é um "sketch" dos Monty Python em forma de gente. Cada vez mais me custa a acreditar que ele não seja um embuste gigantesco, um número de comédia refinadíssimo perpetrado por um Andy Kaufman português.

Estimado leitor: da próxima vez que avistar um financeiro na rua, resista à tentação de lhe lançar um olhar de desprezo e de apressar o passo. Fale com ele, dê-lhe um aperto de mão, pague-lhe um café e uma sande.

Nunca deixe de ter presente que o sistema financeiro sustenta os empregos de todos nós, como afiança JCN no remate desta crónica inolvidável.

quarta-feira, janeiro 22, 2014

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Linha verde do metropolitano. Uma leitora lia "O Leopardo", de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. O trajecto entre Telheiras e Campo Grande mal chega para articular em silêncio o nome deste autor.

terça-feira, janeiro 21, 2014

COMO ESTÃO AS COISAS

"Nature morte au violon: homage à Bach", Raoul Dufy (1952)

sábado, janeiro 18, 2014

CO-ADOPÇÃO

O dia de ontem foi um dia muito triste para a democracia portuguesa.

O que me apetece, no rescaldo da aprovação do referendo sobre co-adopção por casais do mesmo sexo, é agarrar pelos colarinhos os promotores desta iniciativa e perguntar-lhes, olhos nos olhos, se acham minimamente digna do mandato que lhes foi dado pelos cidadãos esta ideia de referendar uma lei que já foi aprovada na generalidade, que remete para o foro da consciência, que quando acabar por ser aprovada (e sublinho o "quando") mais não fará do que regularizar judicialmente situações de facto que já existem.

Aproveitaria esta rara ocasião para exprimir a minha repulsa pela proposta de juntar à pergunta sobre esta situação concreta uma outra sobre a questão, mais geral e (admito-o) mais sensível, relativa ao direito de adopção dos casais do mesmo sexo. Eu penso que este direito deveria estar consagrado na lei, mas trata-se de uma questão distinta, ainda que relacionada, e em relação à qual não está em curso qualquer iniciativa legislativa. A amálgama só favorece a confusão e as intenções de quem quer que fique tudo na mesma, sob a capa do mui louvável propósito de estender o debate à sociedade civil.

A disciplina de voto imposta à bancada do PSD, um dos dois maiores partidos portugueses desde há décadas, é simplesmente descoroçoante, por se tratar de uma matéria de consciência e por não existir vínculo a qualquer proposta ou menção constante do programa eleitoral.

O qualificativo de "fracturante" que se costuma associar a esta questão não passa de um estratagema usado por aqueles que discordam da lei e que tentam estender as suas reticências à sociedade, como se esta estivesse dilacerada por um dilema moral, como se a perspectiva de barricadas nas ruas ou cisões familiares violentíssimas por causa da co-adopção fossem realistas. Muito mais "fracturantes" do que esta lei, muito mais susceptíveis de abalarem a sociedade até aos alicerces, são as muitas leis que têm passado pela Assembleia como uma carta pelo correio, sem que algum menino da JSD se tenha entretido a propor referendos. Falo do Código do Trabalho, dos despedimentos na Função Pública, da privatização de empresas tão fortemente implicadas na vida nacional como os CTT e a TAP, e de numerosíssimas outras leis.

Tenho esperança de que o bom senso acabe por prevalecer e que estas manobras se esgotem no seu conteúdo dilatório, ao qual afinal se resumem, na prática.

Entretanto, deixo links para alguns dos textos lúcidos e certeiros que surgiram na esteira deste dia deplorável (única faceta positiva deste caso):

"Uma Espécie de Totalitarismo Democrático" (Pedro Figueiredo)
"Dos Pseudomoralismos Ditatoriais" (Sofia Loureiro dos Santos)
"A Coadoção" (Carlos Esperança)
"Homofobia e Governofobia" (Ricardo Alves)

A ainda: a intervenção de Pedro Delgado Alves na Assembleia da República.



domingo, janeiro 12, 2014

PSICOPATOLOGIA COLECTIVA LUSITANA

Os estudiosos que, no futuro, se debruçarem sobre a psicopatologia da mente colectiva lusitana em inícios do século XXI encontrarão no episódio do "Coreia-gate" um objecto riquíssimo em ensinamentos. Aos espíritos mais incrédulos, custará talvez a admitir que tanta e tão valorosa gente tenha perdido tanto tempo e tantas linhas, em tantos suportes e canais diferentes, a discutir onde estava e o que fazia um ex-primeiro ministro, menino e moço ainda, num certo sábado de Julho, e em que cenário comemorou ele os golos de Eusébio contra a Coreia do Norte, na longínqua Liverpool.

(Ler também: "Sobre a Doença".)

sexta-feira, janeiro 10, 2014

LIBERTAR PORTUGAL E CONQUISTAR O FUTURO

A Juventude Popular defende, em moção a apresentar ao congresso do CDS-PP, o recuo do ensino obrigatório do 12º para o 9º ano.

É no que dá deixar esta rapaziada brincar aos liberais, sem supervisão. Foge-lhes a boca para a verdade.

Claro está que o declínio do analfabetismo e a melhoria do nível de formação da população portuguesa representam um risco para todos aqueles que vivem de engendrar e impingir cretinices. A ignorância, a crendice e a falta de espírito crítico são caldo de cultura muito mais favorável. Não só Portugal tem doutores a mais, como o próprio diploma liceal já está a adquirir uma prevalência incómoda.

Tudo isto são verdades que ninguém discute.

Mas há que usar de alguma discrição. Ideias como esta arriscam-se ainda a causar um certo escândalo em círculos mais progressistas. Com os anos, esta malta há-de aprender a domesticar a sua candura.

Enquanto isso não sucede, reconheça-se que este precipitado de idiotice pura tem o seu encanto.

(Ler também isto.)


terça-feira, janeiro 07, 2014

SÓ O CINEMA

Nenhuma arte como o cinema suscita paixões, sentenças inflamadas e opiniões acaloradas. Não há nada de mal nisso. Um pouco de retórica, hipérbole ou má fé até ajudam a fazer passar a mensagem e dar-lhe mais uns quantos por cento de hipótese de sobreviver no mundo cruel da Web 2.0 (ou será que já vamos na 3.0?). C'est de bonne guerre.

Convém, no entanto, escolher os canais certos.

As folhas da Cinemateca são uma coisa maravilhosa e um dos argumentos mais potentes a favor da frequência regular do reduto cinéfilo da Barata Salgueiro. Guardo aquelas que fui recolhendo, ao longo dos anos, em 3 dossiers de argolas do formato maior. Cada autor tem o seu estilo próprio e inimitável. Quase todos compreendem que a função destas folhas não é servir de veículo aos seus humores pessoais, diatribes e embirrações de estimação. Infelizmente, pelo menos um deles, Antonio Rodrigues, é contumaz nos abusos. Julgando-se talvez um Bazin ou Truffaut em plenos anos 50, não hesita em verter para o papel, com pluma romba mas que parece crer-se acerada, farrapos de mundividência crítica que lhe podem dizer muito mas que fogem à missão principal destas folhas: a de informar, contextualizar e oferecer novos ângulos e leituras ao leitor (o que é muito diferente de impor os seus como únicos legítimos).

Achei piada quando AR assinalou o "o" traçado no nome da realizadora Mia Hansen-Løve como sintoma de falsidade (isto é autêntico). Acho menos piada quando ele se mete com os meus super-heróis. A maneira como desancou em Alain Cavalier e em quase toda a sua filmografia, na folha do filme "Pater" (um dos filmes mais originais e inteligentes dos últimos anos, a meu ver), roça o caso de polícia. Não se trata de delito de opinião, mas sim de delito de ignorância. Quem usa os termos "não forma" e "não cinema" para se referir a Cavalier está a ser desonesto, porque tenta fazer passar um juízo estético por uma demarcação entre o que é o que não é cinema. Dizer que os filmes de Cavalier não têm estrutura (conheço poucos filmes tão escrupulosamente estruturados como os de Cavalier) revela que a aversão (legítima) o deixou completamente cego e desmunido. Dar a entender que os filmes de Cavalier se resumem a filmar objectos e pessoas ao acaso, a "vidinha quotidiana de cada um de nós", deveria equivaler a falta profissional grave. Tentar arregimentar os leitores com frases como «Como este ciclo deve ter demonstrado claramente à maioria dos espectadores que o acompanhou (...)» faz lembrar um profeta que anda pela rua fora a agarrar os potenciais prosélitos pelo colarinho e a berrar-lhes a boa nova aos ouvidos.

Alain Cavalier e Vincent Lindon em "Pater"


Aquilo que, no meio desta catástrofe, ainda me custa mais a admitir é que uma pessoa com olhos na cara e que viu mais do que uma dezena ou duas de filmes na sua vida seja capaz de admitir que um actor do calibre de Vincent Lindon não se apercebeu da ironia subjacente a esta cena, sem dúvida uma das melhores e mais cómicas do filme. (Tem legendas em francês. As minhas desculpas aos não francófonos - não encontrei uma versão legendada noutro idioma. Em poucas palavras: ele queixa-se de uma discussão que teve com o porteiro, faz-se vítima apesar de viver num bairro elegante e abastado.)

 


segunda-feira, janeiro 06, 2014

sexta-feira, janeiro 03, 2014

A MINHA MENSAGEM DE ANO NOVO

Procuro fazer dos meus votos para 2014 algo de muito modesto, e chego a algo de extravagantemente ambicioso. Espero que o novo ano permita que a decência, a clarividência e a beleza ganhem alguns centímetros à estupidez, à intolerância, ao dogmatismo e à mesquinhez. Espero que todos acabem o ano com alguma coisa entre mãos à qual o substantivo "Felicidade" sirva sem demasiado esforço. E espero que continuemos a tropeçar com estrondo em filmes como este:

Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman em "The Master", de Paul Thomas Anderson

quinta-feira, janeiro 02, 2014

UM TÍTULO QUE NÃO ENGANA

Mesmo sem nunca o ter lido, tenho a certeza de que o poema "Toda a gente a beber coca-cola" é o tipo de poema capaz de revolucionar a Literatura e de marcar uma Geração.

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

No comboio Porto-Lisboa, um/a leitor/a lia "A Confraria do Vinho", de John Fante. A indefinição de género justifica-se pelas dificuldades inerentes à observação atenta de leitores sentados num comboio disparado a 200 à hora por esse Portugal fora. Aquilo balança e não é pouco. Este problema é muito sério.

quarta-feira, janeiro 01, 2014

PÉROLAS DA PARIS REVIEW


EZRA POUND: The Irish like contradiction. He [Yeats] tried to learn fencing at forty-five, which was amusing. He would thrash around with the foils like a whale. He sometimes gave the impression of being even a worse idiot than I am.

(The Paris Review Interviews, Vol. 4)

quinta-feira, dezembro 12, 2013

OZU

Yasujiro Ozu nasceu há 110 anos e morreu há 50 anos. Sirva este dia 12 de Dezembro para celebrar duplamente a memória e o talento imenso deste realizador, assim como todas as personagens que ele faz entrar na minha vida.

Chieko Higashiyama, Setsuko Hara e Chishu Ryu em "Tokyo Monogatari", de Yasujiro Ozu (1953)

segunda-feira, dezembro 09, 2013

DO MUNDO EDITORIAL PORTUGUÊS

Os contos "O salvo-conduto" e "Vilar Frio" foram publicados no volume Três histórias transmontanas (1998), que mal chegou a ser distribuído: tenho num armazém dois ou três caixotes deles!

(A.M. Pires Cabral, nota introdutória a "Os Anjos Nus" (2012))

terça-feira, dezembro 03, 2013

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na Cinemateca Portuguesa: um leitor lia "Twelfth Night", de Shakespeare. Leia bons livros, veja bons filmes, desfrute da vida.

domingo, dezembro 01, 2013

PÉROLAS DA PARIS REVIEW


WILLIAM STYRON: I certainly don't [enjoy writing]. I get a fine, warm feeling when I'm doing well, but that pleasure is pretty much negated by the pain of getting started each day. Let's face it, writing is hell.

(The Paris Review Interviews, Vol. 4)

sábado, novembro 30, 2013

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na inevitável linha verde do metropolitano: uma leitora lia "The Sense of an Ending", de Julian Barnes, e um leitor lia "A Origem da Tragédia", de Nietzsche (na edição da Guimarães). A distância que separava um do outro percorria-se em menos tempo do que leva a dizer "Deus está morto".

terça-feira, novembro 12, 2013

Ó CAVALHEIRO, NÃO QUER VIR DAR UM TIRINHO NA CONSTITUIÇÃO?

O exercício de zurzir na Constituição da República está a transformar-se num espectáculo de feira. Tal como numa barraca de tiros, os mais exímios acotovelam-se com os mais canhestros. Entre esta multidão que se chega à frente, com receio de perder a vez, como categorizar o ministro da Defesa, Aguiar-Branco?

 "A verdade é que nós, por via da situação de tender a ter esse Estado social absorvente, tender a ter um Estado que visa absorver a sociedade numa dimensão que, a meu ver é exagerada, faz com que tenhamos uma tentação de um Estado totalitário, que cria as promiscuidades, que cria as clientelas, que cria as dependências e enfraquece a sociedade", sustentou.

Justifica-se a hesitação. Ele não é particularmente certeiro, mas não é mais inábil do que qualquer um dos que o antecedeu ou virá a seguir. A haver um prémio da originalidade, Aguiar-Branco arriscava-se a levá-lo consigo. Agitar o espantalho da transformação do Estado Social num Estado totalitário, fazer dos mecanismos de apoio social (que tantas vezes fazem a diferença entre a miséria e a dignidade) tentáculos ameaçadores, acusar esse mesmo Estado de criar promiscuidades (quando salta à vista que as promiscuidades brotam na zona cinzenta entre Público e Privado, independentemente da dimensão dos respectivos sectores), revela uma ousadia que será difícil de igualar. Aguiar-Branco colocou esta nova actividade recreativa num patamar de sofisticação e fantasia inesperado. Resta saber se aqueles que seguem atrás dele na fila saberão mostrar-se à altura.

domingo, novembro 10, 2013

sexta-feira, novembro 08, 2013

O ESTADO, ESSE INIMIGO DOS POBRES

Há quem faça montanhismo ou corridas clandestinas de carros para obter o seu "fix" periódico de adrenalina. Outros recorrem a estratégias mais subtis. João César das Neves, por exemplo, parece confiar nos seus exercícios semanais de defesa do indefensável para sugar o tutano da existência, para se sentir vivo, audaz e completo.

Na sua última crónica, por exemplo, JCN sustenta que

todos sabem ser [o Estado] há séculos um inimigo dos miseráveis

E não se pense que o âmbito desta afirmação se confina aos tempos idos de Antigos Regimes, totalitários e absolutistas:

Reis, imperadores e governantes nunca se interessaram pelos desgraçados, quando não os perseguiam. O poder não gosta dos pobres e estes confiam mais na ajuda do próximo que nas promessas dos chefes. Há muito que é a Igreja, não o Governo, a tratar dos necessitados. As coisas parecem diferentes na moderna democracria assistencialista, mas um velho princípio económico mostra a ingenuidade dessa ilusão.

Esse "velho princípio" (foi postulado há cerca de meio século) é a lei de Director, atribuída a Aaron Director (figura de relevo da escola de Chicago, acessoriamente cunhado de Milton Friedman) e formulada por George Stigler:

Esse teorema afirma que "as despesas públicas são feitas para o benefício primordial da classe média, e financiadas com impostos suportados em parte considerável pelos pobres e pelos ricos".

JCN raramente hesita em puxar dos seus galões de professor de Economia para impressionar a populaça. Quantos dos seus leitores alguma vez terão ouvido falar desta lei? De entre os 99,99% que nunca ouviram falar dela (entre os quais me incluo), quantos se darão ao trabalho de tentar ir além das sentenças que JCN emite a partir da sua cátedra?

Uma rápida pesquisa na Internet permite descobrir algumas coisas interessantes que ajudam a injectar um pouco de contexto nesta crónica:

  • Trata-se de uma lei empírica, e não de um princípio universalmente aceite que justifique uma condenação tão categórica do papel do Estado junto dos mais desmunidos. Lendo JCN, dir-se-ia estarmos perante a 2ª lei de Newton.
  • Quase todos os "sites" que a citam são claramente conservadores e recorrem a esta lei como um recurso de contra-argumentação dirigido às políticas orçamentais da administração Obama.
  • A lei de Director diz apenas respeito à distribuição dos recursos por via de um orçamento e ao modo como esta é influenciada pelas alianças (no sentido lato do termo) que se formam entre sectores do eleitorado. Não abrange a vertente assistencialista típica de um Estado Social moderno (ver, neste artigo, o parágrafo 2.1), o que, logo à partida, deita por terra a comparação que JCN tenta estabelecer com a suposta generosidade da Igreja.


Mas o que importa isto tudo? A prioridade de JCN nunca foi a coerência com a realidade, mas sim viver perigosamente nas fronteiras selvagens do inverosímil e do mirabolante. Para quem já veio a terreiro defender que a Inquisição não passou de um clube de cavalheiros inofensivos, que a religião é amiga da ciência, que as causas do declínio da natalidade são a promoção da homossexualidade e a educação sexual laxista, isto certamente sabe a pouco. As próximas semanas hão certamente de nos trazer material mais "hardcore".

quinta-feira, novembro 07, 2013

CINEMA E GULOSEIMAS

Na volta do correio. Obrigado à remetente. (Ela sabe.)

quarta-feira, novembro 06, 2013

quarta-feira, outubro 30, 2013

MAIS BANALIDADES

No excelente blog "Orgia Literária", uma resposta arrasadora às infelizes considerações de Inês Pedrosa sobre a alegada menoridade do conto. Duvido apenas que a artigalhada de IP mereça resposta tão elaborada e rica, mas reconheça-se que disparates deste calibre, vindos de alguém com um  mínimo de reputação, são tão raros como certos cometas, pelo que se justifica serem assinalados com uma certa pompa.

Apesar de tudo mantenho consideração por IP: admirei algumas suas acções no passado, as suas crónicas costumam ser muito mais equilibradas e sensatas do que este lamentável exemplo. Prefiro ver nisto um passo em falso, felizmente pouco susceptível de influenciar os gostos literários seja de quem for.

OS PODERES SUPERIORES

Será possível que este quadro funcione como inspirador de sonhos? Acredite, leitor, que assim é.

"The Higher Powers Command: Paint the Upper Right Hand Corner Black!", Sigmar Polke (1969)

quinta-feira, outubro 24, 2013

SÓ O CINEMA

E há ainda este sonho insistente: a minha vida não é mais do que um fotograma do filme "Céline et Julie Vont en Bateau", de Jacques Rivette. Dentro do sonho, a dúvida: antes ou depois de Dominique Labourier e Juliet Berto engolirem o caramelo mágico?




segunda-feira, outubro 21, 2013

HISTÓRIAS DE VIDAS BANAIS

Na sua crónica publicada no semanário "Sol", no passado dia 18, Inês Pedrosa exprime cepticismo a respeito da atribuição do Prémio Nobel à autora Alice Munro. Concede que Munro "não desmerece", mas defende que ela

não é melhor do que Lídia Jorge, Luísa Costa Gomes ou Teolinda Gersão, antes pelo contrário

o que é uma maneira simpática de dizer que é pior do que qualquer uma destas três. Registe-se. E estou à vontade para me manifestar pouco à vontade com esta hierarquização, porque conheço bastante bem a obra das duas primeiras e tenho por elas consideração e estima. Luísa Costa Gomes é até, para mim, uma das autoras mais estimulantes da literatura portuguesa contemporânea, mas daí a afirmar que mereceria mais o Nobel do que Munro vai um valente passo.

Mas a coisa piora. Logo a seguir, IP escreve:

o trabalho do contista não se compara à exigência arquitectónica implícita no trabalho de um bom romancista

e

não venham dizer-nos que escrever muito bem pequenas histórias de vidas banais é a mesma coisa que escrever A Ronda da Noite ou Anna Karenina

Deixa-me pasmado esta apetência pela comparação dos méritos relativos dos géneros literários, à maneira de miúdos que discutem no recreio sobre quem é que tem um papá mais alto e mais rico. Mas vamos dar isso de barato. O que já me custa mais a aceitar sem revolta é a ideia de que um conto é uma história de vida banal, sem comparação com as arquitecturas grandiosas do romance. Será que essa descrição depreciativa se aplica a "The Dead" de Joyce, "Un Cœur Simple" de Flaubert, "For Esmé - With Love and Squalor" de Salinger ou a tantos dos contos de Pirandello, Barthelme ou Chekhov? A concisão, a elipse, a concentração dramática presentes num grande conto exigem menos do autor do que a monumentalidade arquitectónica de um romance que IP tanto preza? Têm a palavra as gerações de leitores e críticos que encontraram nestes e em tantos outros contos algo de supremamente belo e relevante para as suas vidas, a cujas vozes misturo a minha.

domingo, outubro 20, 2013

sábado, outubro 19, 2013

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Uma leitora lia "Fow Whom the Bell Tolls", de Hemingway, na linha verde do metropolitano, em pé e na versão original.

Em que recantos obscuros se escondiam os leitores para exercer a sua actividade sediciosa, quando o metropolitano e a linha verde ainda não existiam?

sábado, outubro 12, 2013

APENAS CINEMA

Sabia há bastante tempo que Jean-Luc Godard tinha sofrido, algures nos anos 70, um acidente muito grave de motorizada, mas ignorava os detalhes. A leitura da sua biografia(*) esclareceu-me.
  • Foi no dia 9 de Junho de 1971.
  • O acidente ocorreu na esquina da Rue de Rennes com a Rue d'Assas, em Paris.
  • Nesse mesmo dia, Godard deveria ter apanhado um voo para Nova York, com o objectivo de assinar o contrato referente à co-produção e distribuição do filme "Tout Va Bien".
  • Quem conduzia a motorizada era a montadora Christine Aya, que saiu incólume.
  • Godard, atropelado por um autocarro após a queda da motorizada, sofreu lesões na bacia, nas costelas, no joelho e na cabeça.
  • O objectivo da deslocação era o de comprar um livro de Brecht.
  • A rodagem de "Tout Va Bien", adiada por vários meses devido à hospitalização de Godard, acabou por ter lugar em Janeiro e Fevereiro de 1972.
Se Godard não tivesse sobrevivido, como se chegou a recear, ficaria para a história como aquele que morreu e deixou a meio uma carreira brilhante porque quis ir comprar um livro de Brecht.

(*) "Godard", Antoine de Baecque, Grasset, 2010.

"Tout Va Bien", de Jean-Luc Godard e Jean-Pierre Gorin (1972).

quinta-feira, outubro 10, 2013

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Uma leitora lia "Therapy", de David Lodge, na linha verde do metropolitano. Desde que li este livro, cuja personagem principal adquire uma obsessão por Kierkegaard, nunca mais esmoreceu a minha vontade de visitar Copenhaga. Fim da nótula pessoal.

sábado, outubro 05, 2013

5 DO 10

As decisões pusilânimes dos governantes têm prazo de validade e importância proporcional à pequenez daqueles que as tomaram. O significado das datas, esse, permanece. Feriado ou não, o 5 de Outubro continua a ser a data em que Portugal deu um passo de gigante no sentido da modernidade e em que deixou de ter como figura máxima o enésimo membro de uma dinastia beijada pela graça divina. Viva a República!

Imagem retirada daqui.

segunda-feira, setembro 23, 2013

E NADA MAIS QUE O CINEMA

Quando, numa das últimas cenas de "Tokyo Monogatari", a câmara de Ozu enquadra esses actores sublimes e grandiosos chamados Chishu Ryu e Setsuko Hara de encontro ao céu cinzento e uniforme, ao horizonte montanhoso e às inevitáveis linhas de alta tensão, custa a acreditar que o cinema tenha alguma vez podido voltar a ser feito de maneira tão intensa, tão dura, tão do tamanho do ser humano.


Felizmente, nunca faltou quem persistisse nessa aposta insensata, por vezes (quase?) com sucesso.

terça-feira, setembro 17, 2013

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Linha verde do metropolitano. Leitora lia "O Retrato de Dorian Gray", de Oscar Wilde. Que a terra me engula se não for verdade.

segunda-feira, setembro 09, 2013

PÉROLAS DA PARIS REVIEW:

MARTIN AMIS: Well, I did one [signing session] with Roald Dahl and quite predictable human divisions were observable. For him, a lot of children, a lot of parents of children. With Julian Barnes, his queue seemed to be peopled by rather comfortable, professional types. My queue is always full of, you know, wild-eyed sleazebags and people who stare at me very intensely, as if I have some particular message for them.

(The Paris Review Interviews, Vol. 3)

quarta-feira, setembro 04, 2013

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

No cais da estação Campo Grande, linha verde, sentido Telheiras, um leitor lia "David Copperfield", na edição da Relógio d'Água.

Dickens rula! Sempre rulou e sempre há-de rular.

segunda-feira, setembro 02, 2013

ESTAMOS ENTENDIDOS

Quando um Primeiro-Ministro se sai com uma destas...

“Já alguém perguntou aos 900 mil desempregados de que lhe [sic] valeu a Constituição até hoje?”


ficamos a saber, de uma vez por todas, que foram abolidos todos os limites para a demagogia, a desfaçatez e a falta de sentido democrático. Obrigado ao Primeiro-Ministro por ajudar a dissipar quaisquer dúvidas que alguns ingénuos ainda pudessem alimentar a este respeito.

 (Ler também: "Para que serve esta merda?".)

 

sábado, agosto 31, 2013

SEAMUS HEANEY 1939-2013

Recordo-me bem da minha reacção emocional quando soube, pela rádio, da atribuição do Prémio Nobel da Literatura ao poeta Seamus Heaney. Os anos passaram, interesso-me cada vez menos pelo Nobel e pelas ondulações mediáticas que o acompanham, mas a admiração por Heaney, sem dúvida um dos grandes do século XX, não fez senão consolidar-se.


Song

A rowan like a lipsticked girl.
Between the by-road and the main road
Alder trees at a wet and dripping distance
Stand off among the rushes.

There are the mud-flowers of dialect
And the immortelles of perfect pitch
And that moment when the bird sings very close
To the music of what happens


(Mais poemas deste autor.)

sexta-feira, agosto 30, 2013

SÓ O CINEMA

Esta notícia sobre dois pseudo-afogados que regressam e ficam surpreendidos com a consternação gerada pelo seu desaparecimento fez-me imediatamente lembrar esta cena comovente do belíssimo filme "À Beira do Mar Azul", de Boris Barnet.

MASHA (preocupada): Quem morreu? Digam-me quem morreu!
O AMIGO (eufórico): Foste tu!



By The Bluest Of Seas (1936) pt. 1 por karimberdi

segunda-feira, agosto 19, 2013

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

No comboio, entre Espinho e o Porto: um leitor lia os "Contos" de Eça de Queiroz. Estava vestido com um pólo dos CTT.

Noutro comboio, entre Coimbra e o Porto: uma leitora lia "El Misterio de la Cripta Embrujada", de Eduardo Mendoza, mas interrompeu a leitura para uma sessão de galhofa com os companheiros de viagem, jovens e espanhóis como ela.

domingo, agosto 04, 2013

FILMES 2012

Passaram-se meses desde que divulguei os lugares 6 a 10 do meu top de 2012. Este atraso colossal, quase digno de uma empreitada pública, deixa-me corado de vergonha. Sem mais demoras, e limitando os comentários ao mínimo, aqui fica a lista dos meus filmes preferidos do ano passado. A lista não segue qualquer ordem particular.

  • "L'Apollonide - Souvenirs de la Maison Close", Bertrand Bonello. Um filme belo, claustrofóbico e doentio. Entretanto também vi o excelente "Le Pornographe", segunda longa-metragem de um realizador que eu não conhecia até aqui.
  • "Gebo et l'Ombre", de Manoel de Oliveira. Assombrosa demonstração de como Oliveira continua a ser dos poucos que consegue combinar um perfeito rigor da mise en scène com a liberdade absoluta concedida aos seus actores/cúmplices. De entre estes, sem querer menorizar o talento dos demais, não resisto a destacar o extraordinário Michael Lonsdale.
  • "Holy Motors", de Leos Carax. O filme mais original do ano e também uma das mais poderosas homenagens ao cinema, ao que ele possui de indomável e complexo, que vi nos últimos anos. Quanto ao actor principal, Denis Lavant, renunciei até hoje a esgravatar no baú dos adjectivos para me referir ao seu desempenho neste filme, e não é agora que o vou fazer. É trabalho escusado.
  • "Tabu", de Miguel Gomes. Tocante e inteligente. O filme certo no tempo certo, um tempo em que o cepticismo relativamente ao cinema português e ao seu próprio direito a existir e a ser apoiado atingiu níveis nunca vistos. O reconhecimento internacional massivo foi, por isso, muito oportuno, para além de merecido.
  • "Era Uma Vez na Anatólia", de Nuri Bilge Ceylan. Serviu para me reconciliar com este realizador, depois do passo em falso que foi "Três Macacos".
E ainda:

Filmes vistos na Cinemateca, festivais, sessões especiais, etc:
  • "La Nuit du Carrefour", Jean Renoir
  • "Providence", Alain Resnais
  • "Les Favoris de la Lune", Otar Iosseliani
  • "Mercado de Futuros", Mercedes Álvarez
  • "Blow Out", Brian De Palma
  • "L'Art d'Aimer", Emmanuel Mouret
  • "Ashes/Mekong Hotel", Apichatpong Weerasethakul
  • "A Summer at Grandpa's", Hou Hsiao-Hsien
  • "El Sur", Victor Erice

Filme mais sobrevalorizado: "Shame", Steve McQueen. Cena mais sobrevalorizada do ano: aquela em que Carey Mulligan canta "New York, New York", em "Shame". O que é que as pessoas viram nesta cena, tão celebrada? Será sempre um mistério para mim.


Michael Lonsdale e Leonor Silveira em "Gebo et l'Ombre", de Manoel de Oliveira (2011).



LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na linha verde do metropolitano, uma leitora com indumentária de veraneante lia "Tess of the D'Urbervilles". Será que Thomas Hardy entra na categoria de literatura de praia? E porque não? Há que pensar fora da caixa, pulverizar fronteiras, insurgir-se contra categorias caducas.

sábado, agosto 03, 2013

SAUDÁVEL DIVERGÊNCIA DE OPINIÕES

I find it the most extraordinary piece of wit & wisdom that America has yet contributed. I am very happy in reading it, as great power makes us happy. It meets the demand I am always making of what seemed the sterile & stingy Nature, as if too much handiwork or too much lymph in the temperament were making our western wits fat & mean.

(Ralph Waldo Emerson, carta dirigida a Walt Whitman a propósito da 1ª edição de "Leaves of Grass")



A mass of stupid filth.

(Excerto de uma crítica à 1ª edição de "Leaves of Grass", no semanário "Criterion")

BERNADETTE LAFONT (1938-2013)

Talvez acabe por ser recordada sobretudo por causa de "Les Mistons" (curta-metragem de Truffaut, um dos filmes fundadores da nouvelle vague) e pelo seu papel no imenso e marcante "La Maman et la Putain", de Jean Eustache. Quanto a mim, associo-a automaticamente a Sarah, personagem discreta mas poderossíssima do lendário filme de Rivette "Out One".


quarta-feira, julho 31, 2013

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Em plena Avenida de Roma, uma leitora lia o "Jornal de Letras", em regime ambulatório. Regra geral, os periódicos não são elegíveis para esta rubrica, mas resolvi abrir uma excepção neste caso por uma pletora de razões.

Na sempre fiel linha verde do metropolitano, um leitor brandia a edição da Guimarães da "Antologia da Páginas Íntimas" de Kafka, deixando no ar a ideia de que a estivera a ler.

Numa ocasião separada, na mesma linha, uma leitora lia "O Cão Amarelo", de Martin Amis.

Indiferentes ao desfile de vaidades e podridões que os rodeia, os leitores em lugares públicos continuam a entregar-se à sua inclinação, que é também uma missão das mais nobres.

quinta-feira, julho 25, 2013

PÉROLAS DA PARIS REVIEW

INTERVIEWER: Are your characters trying to do what matters?

RAYMOND CARVER: I think they are trying. But trying and succeeding are two different matters.

(...)

RAYMOND CARVER: Any writer worth his salt writes as well and as truly as he can and hopes for as large and perceptive a readership as possible. So you write as well as you can and hope for good readers.

(The Paris Review Interviews, Vol. 3)

terça-feira, julho 23, 2013

DESVIANTES E PERVERSOS

Portugal tornou-se um paraíso mundial de comportamentos desviantes e perversos.

Quem o diz é João César das Neves, e como sempre tem toneladas de razão. Só hoje, no caminho entre minha casa e a estação de metro, deparei com dois casos de zoofilia (um deles, por sinal, particularmente escabroso tendo em conta a espécie envolvida), um fetichista de mãos, um outro de pés, um exibicionista, uma ninfomaníaca e ainda um cidadão que se entregava a actos aviltantes com um melão pele-de-sapo.

No verão de 2006 não se via nada disto. Era tudo gente serena e canónica nas suas inclinações. As leis laxistas aprovadas pelos fanáticos que ocupam a Assembleia trouxeram-nos para este lamaçal moral onde todos patinhamos.

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Um leitor lia um livro de Jorge Luis Borges enquanto esperava na fila para o autocarro da empresa "Mafrense". Foi no terminal de camionetas do Campo Grande. Pareceu-me que o livro era "O Relatório de Brodie", mas não consegui tirar a limpo.

Um leitor em lugares públicos é um peão numa batalha sem fim. Todos os minutos contam!

domingo, julho 21, 2013

TURISMO CINÉFILO

Ao folhear o "Guide du Routard" dedicado a Lisboa, deparo com um parágrafo relativo ao cinema português. São citados Manoel de Oliveira, João César Monteiro, Pedro Costa, Teresa Villaverde, Manuela Viegas, Joaquim Sapinho e João Pedro Rodrigues, entre outros. O apego dos franceses pelo cinema manifesta-se das maneiras mais inesperadas.

NÃO RECONCILIADOS

Desconfio sempre dos apelos ao consenso. Por mais repletos de boas intenções que estejam, costumam soar em demasia a tentativas de manter o status quo e de fazer prevalecer uma linha de pensamento ou acção, supostamente merecedora de aprovação consensual, em detrimento de outras. Esse tal pensamento ou essa tal acção, na óptica destes patrióticos e responsáveis apelos à concórdia, seriam por definição partilhados por todas as pessoas de bom senso e só o espírito de facção leva a que alguns façam finca-pé em posições heterodoxas.

A crise política que atravessou as últimas semanas, com epicentro em Belém, São Bento e Largo do Caldas e sucursal nas Ilhas Selvagens, encaixa em pleno neste figurino. (Uso o tempo presente, mas não duvido de que o Senhor Presidente da República se encarregará de pôr cobro à crise com uma comunicação sábia e certeira, hoje mesmo, às 20h30, tempo médio de Greenwich.)

A democracia implica a coexistência de opiniões diversas. Pretender que essa diversidade deve ser anulada em nome de um rumo comum é falacioso e perigoso. Acenar com o carácter excepcional da situação pode ser um eficaz meio de coerção, mas não representa um argumento real. Ainda que com fortes constrangimentos, ainda que sob um programa de assistência, governar Portugal pressupõe ainda fazer política e implica escolhas. E quem se responsabilize por essas escolhas, como é óbvio.

É nestas ocasiões que mais sinto vontade de ver filmes de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub.


sábado, julho 20, 2013

O ENIGMA NÃO EXISTE

Já há quem cite Wittgenstein a propósito da crise política, neste caso o ex-ministro Rui Pereira. Pergunto-me se isto é bom ou mau sinal.

O enigma não existe.
Se se pode de todo fazer uma pergunta, então também se pode respondê-la.

(L. Wittgenstein, "Tratado Lógico-Filosófico", 6.5, tradução de M.S. Lourenço, Fundação Calouste Gulbenkian)

sexta-feira, julho 19, 2013

NO BOM CAMINHO

No melhor dos caminhos, digo eu.

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na linha vermelha do metropolitano, um leitor cedeu ao sono quase imediatamente após ter começado a ler "Uma Viagem à Índia", de Gonçalo M. Tavares.

Na linha verde, uma leitora lia "The Great Gatsby" na versão original.

E se a Salvação Nacional acontecesse por obra e graça dos leitores em lugares públicos?

segunda-feira, julho 15, 2013

SÓ O CINEMA

"Éloge de l'Amour", de Godard. Revejo-o por necessidade, por compulsão. De cada vez, sinto-me como se tivesse aprendido coisas novas sobre o filme e sobre a vida - mas também como se aquilo que desaprendi e deixei de perceber pesasse mais, muito mais, no outro prato da balança. A perplexidade é um exercício duro e demorado. Toda a ajuda é bem-vinda.

Mas este afinal é um filme que nos fala da ambição mais simples de todas - a de ser adulto. A mais simples e a mais desmesurada. Porque um adulto não é coisa alguma - como é dito no filme. Edgar pode ser o único homem que tenta ser adulto (no filme ou na vida?). Isso não faz dele um exemplo a seguir. Implica apenas que está a caminho de se tornar invisível. Nessa altura, o problema ficará resolvido.

Talvez volte a escrever sobre este filme. Ou talvez não. Não importa.




domingo, julho 14, 2013

14 DE JULHO

A Bastilha caiu há 224 anos. O mundo mudou. Levou tempo, mas mudou. E para muito melhor, mau grado todos os avanços e recuos e todos os desvarios da natureza humana que não olham a contextos históricos.

Imagem retirada daqui.

sábado, julho 13, 2013

PÉROLAS DA PARIS REVIEW

JOYCE CAROL OATES: The thought of dictating into a machine doesn't appeal to me at all. Henry James's later works would have been better had he resisted that curious sort of self-indulgence, dictating to a secretary.

(...)

JOYCE CAROL OATES: Generally I've found this to be true: I have forced myself to begin writing when I've been utterly exhausted, when I've felt my soul as thin as a playing card, when nothing has seemed worth enduring for another five minutes... and somehow the activity of writing changes everything.

(The Paris Review Interviews, Vol.3)

quarta-feira, julho 10, 2013

COMO ESTÃO AS COISAS

"The Sun Woman II", Lee Krasner, 1958.

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Leitora na carruagem do metropolitano, de pé, lendo livro (não identificado) de Orhan Pamuk.

Leitora na plataforma da estação do Campo Grande, subsequentemente na carruagem e novamente fora dela, de pé, lendo "Amor de Perdição".

A linha verde: onde os clássicos e os contemporâneos se encontram!

sábado, julho 06, 2013

ESCOMBROS

Os leitores mais ou menos fiéis deste blog sabem que a política nacional é aqui um tema tratado de forma esparsa, se não mesmo bissexta. A semana alucinante que o país acabou de viver, apesar da intensidade das emoções, não foi de molde a encorajar-me à prolixidade. Não é que não haja muito para dizer; certamente que HÁ muito para dizer. Sucede que esse muito que há para dizer já foi sendo dito, com várias gradações de incredulidade e escândalo, por batalhões de comentadores e pelas redes sociais. O que resta são escombros, inqualificáveis e indescritíveis, os escombros da credibilidade de que este governo ainda usufruía. Os mais militantes, ou aqueles que estão obrigados profissionalmente a comentar e analisar, irão ainda discutir longamente qual foi exactamente a proporção de inépcia, spin, choque de egos, putsch canhestro e estratégia nos acontecimentos da última semana. Por mim, o caso está encerrado. A não ser que o senhor Presidente da República sofra uma convulsão de lucidez, vamos ver perpetuar-se um governo que estará permanentemente à mercê dos humores de um ministro de Estado, sem qualquer garantia de estabilidade, resultante de uma espécie de tratado de Tordesilhas cozinhado à pressão e sob chantagem.

Acrescento apenas isto, redundante mas demasiado chocante para passar em claro. Tendo acompanhado a vida pública de Paulo Portas ao longo de mais de 20 anos, acreditava ter formado uma ideia aproximada do que ele era capaz, mas eis que ele se ultrapassa. Chega a ser arrepiante, para além de ofensivo para o pudor, presenciar os extremos de ignomínia e falsidade que uma pessoa atinge para satisfazer a sua ambição de poder. Apetece formular a pergunta fatídica: «Como é que ele consegue dormir»? Mas não me parece que se justifiquem inquietações acerca da qualidade do sono do futuro vice-primeiro-ministro.

PÉROLAS DA PARIS REVIEW

JOHN CHEEVER: The legend that characters run away from their authors - taking up drugs, having sex operations, and becoming president - implies that the writer is a fool with no knowledge or mastery of his craft.

(The Paris Review Interviews, Vol.3)

PÉROLAS DA PARIS REVIEW

INTERVIEWER: Do you have a particular interest in psychology?

HAROLD PINTER: No.

("The Paris Review Interviews", Vol.3)

quarta-feira, julho 03, 2013

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

"O Príncipe", de Machiavelli, lido de pé por um passageiro da linha verde do metropolitano, decerto plenamente ciente de como a sua leitura em lugar público se adequa aos tempos que vivemos.

segunda-feira, julho 01, 2013

DEVE & HAVER

Ora então vejamos.

Num dos pratos da balança:
  • Insistência inflexível na austeridade, para lá de tudo aquilo que o memorando impunha, com efeitos recessivos profundos à medida de multiplicadores barbaramente subestimados.
  • Desvios sucessivos entre as previsões e a realidade, em todos os indicadores: défice, desemprego, PIB, receita fiscal.
  • Dois orçamentos inconstitucionais dois.
  • Rácio dívida pública/PIB sempre a crescer, apesar das doses cavalares de austeridade.
  • Uma economia de rastos.
  • Cinismo e insensibilidade no discurso: pode começar-se o florilégio por "Não fui eleito coisíssima nenhuma" e ir por aí fora, sem receio de que falte o material.
 No outro prato da balança:
  • Uma dicção irrepreensível.
  • Dizem que tinha muitos amigos lá fora e que transpirava credibilidade.
Só a História é capaz de julgar os políticos, mas penso que será pedir demais à musa Clio um balanço do mandato do Prof. Vítor Gaspar que não seja desastroso.

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Leitora a ler "Crime e Castigo". Na linha verde do metropolitano, os clássicos nunca deixaram de estar na moda e nunca deixarão de estar!

FONTES

No Diário de Notícias:

SAÍDA DE GASPAR PROVOCA AUMENTO NAS TAXAS DE JURO DE PORTUGAL

com link para o Dinheiro Vivo, onde afinal de contas se lê

JUROS DA DÍVIDA MANTÊM-SE ESTÁVEIS APESAR DA SAÍDA DE GASPAR

Ou de como vale sempre a pena ir consultar as fontes.


sexta-feira, junho 14, 2013

O ESTADO DO MUNDO

"A Luta de Jacob com o Anjo", Maurice Denis, 1893.

MIL OLHOS

É continuar a tentar. O sucesso exige perseverança, esforço e alguma sorte.

Temos mil olhos, como o Dr. Mabuse. Mas há coisas que nos escapam, de vez em quando. Demasiados leitores e demasiados lugares públicos.

quarta-feira, junho 05, 2013

Eh eh, quem me dera que o meu mundo fosse assim tão perfeito.

DA CONCISÃO

Dois jovens de vinte anos passam o seu tempo nos cafés parisienses à volta de raparigas. Uma das tentativas de engate dá para o torto.

Este é sem dúvida um dos melhores resumos de filme que li em toda a minha vida, e olhem que não li poucos. É da autoria de Antonio Rodrigues e diz respeito ao filme "Du Côté de Robinson", de Jean Eustache. (Folhas da Cinemateca, Cinemateca Portuguesa, 2008.)

O facto de se aplicar igualmente a pelo menos 50 % dos filmes da primeira fase da Nouvelle Vague não lhe retira mérito.


sábado, junho 01, 2013

TELHADOS DE PELÍCULA ADERENTE DE MARCA BRANCA

A blogosfera favorece a preguiça. Após ter lido a crónica que Vasco Graça Moura perpetrou há alguns dias, na qual se insurgia contra a proliferação do insulto, cheguei a sentir vontade de meter mãos à tarefa de prospecção dos escritos pretéritos deste cavalheiro e recolher alguns exemplos em que ele próprio deixou fugir (e com que ardor!) o pé para a chinela do impropério. Tratando-se de um caso de contumácia que dura há anos, não faltaria a matéria prima. Demoveu-me a certeza de que alguém, algures, haveria de se dedicar a essa missão, sem dúvida com maior brio e exaustividade. Está feito. E estou certo de que o fundo da arca ficou ainda por raspar.

Vasco Graça Moura é uma figura que me deixa perplexo. Respeito o erudito, o tradutor de Dante e Shakespeare. Admiro a persistência com que tem combatido esse delírio disforme conhecido nalguns meios como "Acordo Ortográfico" e identifico-me com esse combate. Desprezo a criatura que, periodicamente, se entrega aos mais requintados e virulentos exercícios de vitupério dirigidos contra todos aqueles que não partilham das suas mundividências políticas e sociais, muito em particular todos aqueles que votaram PS ou que não consideram José Sócrates o português mais ignóbil desde Miguel Vasconcelos.

Vir agora esta mesmíssima pessoa mostrar surpresa por uma suposta "proliferação do insulto" seria chocante se não fosse, bem vistas as coisas, perfeitamente coerente com o seu défice de sintonia em relação à realidade que o rodeia.

Nem sequer se aplica a expressão "telhados de vidro". O vidro é um material nobre, versátil e mal servido pela sua reputação de fragilidade. Isto são telhados de hóstia, de película aderente de marca branca ou de papel higiénico de folha simples.

quinta-feira, maio 30, 2013

A LIBERDADE DE DELIBERAÇÃO DEMOCRÁTICA ESTÁ EM PERIGO!

O ministro Poiares Maduro veio a terreiro dizer que o Tribunal Constitucional limita em excesso a liberdade de deliberação democrática. A afirmação parece tão esdrúxula que me dei ao trabalho de ler o artigo várias vezes, em busca de uma justificação. Em vão. Talvez esteja nos conteúdos para assinantes.

É interessante, mas também assustador, constatar a ligeireza com que certas figuras designam a Constituição da República e o TC como bodes expiatórios, quando estes são ou se mostram contrários aos seus intentos e afã legislativo.

É reconfortante, por outro lado, saber que o Dr. Poiares Maduro defende, apesar das tendências castradoras do TC, que as suas decisões devem ser respeitadas.

terça-feira, maio 28, 2013

PAUL KLEE, GOETHE, SINDBAD E BARBA-AZUL, PORCOS-ESPINHOS, DIVÓRCIOS

Duas notas relativas à minha primeira visita do ano à Feira do Livro.

1) Há uma efígie em tamanho natural do papa Francisco colocada estrategicamente para pregar um susto aos incautos.

2) Está disponível no stand da Antígona a primeira (salvo erro imperdoável da minha parte) tradução da obra de Donald Barthelme publicada em Portugal.



Deixemo-nos de rodriguinhos: este é o acontecimento que marca o fim da idade das cavernas no meio editorial português e que escancara as portas da modernidade.

Acabou-se a vergonha que eu sentia quando tinha de admitir que um dos autores mais fascinantes e inovadores do século XX estava por traduzir, no meu país, ao passo que milhares de palavras de pura escória literária viam a luz por cada hora que passava.

Parabéns à Antígona e ao tradutor Paulo Faria por terem enfrentado este desafio.

Posso garantir que esta colectânea é, em conformidade com aquilo que é alegado pela editora, uma das melhores introduções à obra de Don B. Muitos destes contos estão entre os melhores do autor.

Não há que ter ilusões: por mais competente que tenha sido o trabalho de tradução (e acredito que o tenha sido), nada substitui o original. Mas não me parece completamente descabido adquirir a edição em português, como forma de agradecer à Antígona por ter quebrado este enguiço editorial que manchava o Portugal cultural como uma nódoa escura e viscosa.

segunda-feira, maio 27, 2013

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

No cais da estação de metro Campo Grande, sentado, sentido Cais do Sodré, leitor entretido com um livro de Samuel Beckett que me pareceu ser a edição da Relógio d'Água de "Molloy" (95 % de certeza), e já se sabe como este livro tem matéria para entreter em abundância.

sábado, maio 25, 2013

(...) a work of art can't be done for the purpose of pleasing a certain group of readers.

(Georges Simenon, "The Paris Review Interviews", vol. 3)

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Leitor na linha amarela do metro com livro "Uma Vida Imaginária", de David Malouf, entre as mãos. Estava quase no final. Se foi até ao fim da linha (Rato), talvez tenha tido tempo para acabar.

segunda-feira, maio 20, 2013

Merengue, lemon curd, framboesas, mel, hortelã, tomilho. A vida é como certas sobremesas do Jamie Oliver: demasiadas coisas.

sábado, maio 04, 2013

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na linha amarela do metropolitano, uma leitora lia "Wuthering Heights", de Emily Brontë, de pé, em versão original.

Oh, Heathcliff!

sexta-feira, abril 26, 2013

quinta-feira, abril 25, 2013

INICIAL, INTEIRO, LIMPO

Ano após ano, fascina-me ir descobrindo as novas estratégias que certos sectores põem em prática para relativizar, apoucar, ignorar ou contestar o significado deste dia. E porém o significado e a memória perduram, tão mais fortes e nítidos do que tudo o resto.


segunda-feira, abril 22, 2013

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na Cinemateca, uma leitora lia os "Diários" de Al Berto. Nada como um bom livro imediatamente antes de um filme. Ou depois.

sexta-feira, abril 19, 2013

terça-feira, abril 16, 2013

CONTUMÁCIA

Com um intervalo de vários anos, comprei um postal do mesmo quadro de Degas na Courtauld Gallery, Londres. É este:


"Mulher à Janela", 1872.

Não sei se esta constância de gostos deve ser para mim motivo de embaraço ou de regozijo.

Há uma história, associada a este quadro, que pode ter contribuído para este impulso repetido. O quadro foi pintado durante o cerco prussiano a Paris, que trouxe consigo a fome e as privações de toda a espécie. A mulher que posou foi remunerada com um pedaço de carne crua que ela, esfomeada, devorou imediatamente.

«Figure and setting seem, like something found by chance, an unposed vignette, which the artist perhaps saw in passing, out of the corner of his eye, and which he must have registered later in the studio, using quick touches of oil paint on paper. But this is inaccurate. The picture was preconceived, and a model obtained. And Degas deliberately set out to experiment with "essence", which involves draining paint of its oil and thinning it instead with turpentine. So the informality, as always in Degas's paintings, is calculated.» (Frances Spalding)



quinta-feira, abril 11, 2013

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na plataforma do metro da estação Campo Grande (linha verde, sentido Cais do Sodré), um leitor lia um livro de Mo Yan. Sim, era esse mesmo, o mais-que-mítico "Peito Grande, Ancas Largas". O que terá despertado o interesse deste leitor? O prestígio do prémio Nobel? O título, tão subtilmente sugestivo? Nunca o saberemos. Em todo o caso, a linha verde continua a dar cartas.

segunda-feira, abril 08, 2013

CONSTITUIÇÃO

Nestes tempos (que tempos!) em que se insultam órgãos de soberania com a mesma ligeireza com que se esborracha um mosquito, certas imagens valem mais do que mil palavras, um milhão de comentários, um bilião de narrativas:



Sim, a Constituição da República. A maior força de bloqueio que existe, segundo alguns (numerosos, barulhentos); o mais nefasto dos empecilhos.

DIAS DO LEITOR

Nasceu há poucos dias, mas torna-se desde já abundantemente óbvio que se irá transformar em ponto de paragem obrigatório.

sexta-feira, abril 05, 2013

LONDRES

O favorito Magnus Carlsen ganhou o torneio dos candidatos de Londres e o direito a desafiar o campeão do mundo, Viswanathan Anand, mas as vias do seu triunfo foram tortuosas. Em igualdade pontual com Vladimir Kramnik à entrada da última ronda, Carlsen beneficiava de um melhor coeficiente de desempate, bastando-lhe por isso fazer tão bem como o seu adversário directo. O desfecho foi impróprio para cardíacos: Carlsen, que defrontava Peter Svidler com brancas, perdeu o controlo do jogo e acabou derrotado. Felizmente para ele, Kramnik, jogando de negras contra Vassily Ivanchuk, hesitou demasiado entre jogar para a vitória ou para o empate e acabou com uma posição desesperada, acabando por desistir.


Carlsen (esquerda) perdeu o jogo mas ganhou o torneio. Fotografia retirada daqui.

O embate Anand-Carlsen será uma coisa digna de se ver. Mal posso esperar.

Por coincidência, estive em Londres durante a recta final do torneio. Não fui assistir a este pedaço de história do xadrez por duas razões fundamentais. A primeira esteve relacionada com o preço dos bilhetes de ingresso (a rondar as 30 libras, pelo que me constou). A segunda razão, muito mais importante, foi a existência de coisas bem mais produtivas e interessantes para fazer, como por exemplo esta:

Rembrandt, "Titus, the Artist's son", c. 1657. Visto na Wallace Collection.

segunda-feira, abril 01, 2013

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Um vigilante de uma das salas da colecção Wallace (Londres), tranquilamente instalado na sua cadeira, lia a peça "Timon of Athens". Estava a começar o 3º acto. Por um lado, é obviamente de louvar. Por outro lado, impõe-se a dúvida: em caso de pulsão vandalizadora por parte de um qualquer visitante, será que o tempo de reacção de alguém que está imerso numa tragédia shakespeareana será suficiente para salvar a integridade da obra de arte?

quarta-feira, março 27, 2013

O ESTADO DAS COISAS

Édouard Vuillard, Sous la Lampe ou Deux Femmes Sous la Lampe (1892)

XADREZ

Está a disputar-se em Londres, até dia 1, o torneio dos candidatos ao título de campeão do mundo de xadrez. O vencedor ganha o direito de disputar o título com o indiano Viswanathan Anand, actual campeão. A quatro rondas do fim, Magnus Carlsen (Noruega), nº 1 da classificação mundial e grande favorito, lidera com meio ponto de avanço sobre Levon Aronian (Arménia) e um ponto sobre Vladimir Kramnik (Rússia). Estes três são os únicos que ainda podem aspirar à vitória. O meu ídolo de sempre, o ucraniano Vassily Ivanchuk sofreu hoje mais uma derrota e está em último lugar.

terça-feira, março 19, 2013

EXTRATERRESTRE

(Ainda a propósito disto.) Nos tempos que correm, defender os valores da laicidade de forma clara e descomplexada parece coisa de extraterrestre. Felizmente, ainda se vão vendo alguns homenzinhos verdes a circular por aí, em particular na Assembleia. Tanto melhor.

Na caixa de comentários da notícia, há quem chame a Pedro Delgado Alves "filhote de Afonso Costa". A mim, soa a elogio, mas duvido que fosse essa a intenção do seu autor.

Pedro Delgado Alves já se tinha distinguido, o ano passado, pela reacção contrária à eliminação do feriado do 5 de Outubro.

MAIS NOTAS SOLTAS SOBRE O PAPA

  • Cada vez fico mais convencido de que ser papa é um dos cargos menos exigentes que existe. Poucos dias depois da sua eleição, já todo o mundo sabe que o papa Francisco é humilde, simpático, espontâneo e amigo dos pobres. Para tal, bastou-lhe sorrir várias vezes, pagar a conta da residência onde pernoitou, interagir com um punhado de pessoas na praça de São Pedro e permitir-se alguns ditos mais ou menos espirituosos. Ah, e não esqueçamos declarações de tremenda complexidade conceptual, como por exemplo «Não tenham medo da bondade e da ternura» ou «É preciso uma Igreja pobre para os pobres».
  • Para quem, imperdoavelmente, se esqueça por momentos das extraordinárias qualidades humanas do papa, a comunicação social aí está para, em modo intoxicação, chamar o incauto à razão.
  • O noticiário de hoje das 20h na TVI abriu com quase 20 minutos sobre a missa de inauguração do papa. A gravíssima crise em Chipre, com implicações óbvias e preocupantes para toda a Europa, passou para segundo lugar. Parabéns à equipa editorial. Sem a vossa clarividência, seríamos capazes de pensar que o futuro da zona Euro é mais importante do que a cor dos sapatos de Jorge Bergoglio.
  • Continua a deixar-me perplexo a tendência do Presidente da República Portuguesa para falar em nome dos cidadãos do seu país. Ninguém lhe passou mandato para interpretar os estados de alma dos portugueses, mas não é por isso que o Professor Cavaco Silva se coíbe de afirmar, para quem o queira ouvir, que o piedoso povo lusitano está desejoso de ver o bispo de Roma a calcorrear as ruas e estradas de Portugal, numa visita pastoral lá para 2017. Falando por mim, dispenso esse encargo adicional para o erário público e o caos que sempre acompanha as visitas papais.
  • É chocante ver o mais alto magistrado da nação afirmar que a eleição do novo papa deve ser motivo de esperança para os portugueses, em particular para os desempregados. Sobretudo por vir da boca de quem, durante as campanhas eleitorais, se gabava de ser capaz de promover o crescimento económico graças ao seu infalível magistério de influência. Isso, aparentemente foi chão que deu uvas. Resta agora esperar pelo auxílio divino pela mão de um argentino vestido de branco.

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Ontem: leitora, "A Quinta Essência", Agustina Bessa-Luís. Hoje: leitor, "A Náusea", Jean-Paul Sartre. Dois leitores, dois livros, dois autores com hífen no nome. A linha verde a bombar, como sempre.

domingo, março 17, 2013

FILMES 2012

O Natal é quando um homem quiser. A divulgação da lista dos melhores filmes do ano também.

Em 2012, não fui tantas vezes ao cinema quanto teria gostado, muito por culpa da teimosia dos dias que se recusam a ter mais de 24 horas. (É um problema que vem de longe.) Por exemplo, perdi o celebradíssimo "Amour", de Michael Haneke, um cineasta que se torna irritante e pomposo com demasiada frequência mas que é sem dúvidas capaz de fazer bons filmes ("Caché", "Code Inconnu").

Do que vi, retirei a impressão de que foi um ano sem grandes obras-primas, mas com um punhado de filmes muito bons e originais.

Vou deixar o meu "top 5" para outro dia, por me parecer que existe um fosso entre esses 5 e os demais que justifica tratamento à parte.

Hoje vou limitar-me a revelar as posições 6 a 10, sem nenhuma ordem em particular.
  • "Cosmopolis", de David Cronenberg. Gostei bastante, mas senti que não descolou do estilo e do registo de Don DeLillo. Como sou apreciador desse estilo e desse registo, a minha apreciação positiva foi consequência natural.
  • "Moonrise Kingdom", de Wes Anderson. Por vezes a roçar o genial, frequentemente tocante, sofre com os sub-enredos envolvendo as personagens adultas (apesar de actores que eu adoro, como Frances McDormand e Bill Murray) e com a parte final algo apalhaçada.
  • "Elena", de Andrey Zvyagintsev. Menos conseguido do que "O Regresso", ainda assim um filme sóbrio e inteligente.
  • "Le Havre", de Aki Kaurismäki. Aprecio o estilo e a coerência de AK em elevadíssimo grau. Este não é dos meus filmes preferidos dele, mas seria preciso um autêntico suicídio artístico, ou um ano excepcionalmente rico em obras de génio, para que um filme de Kaurismäki não entrasse no "top 10".
  • "Bonsái", de Cristián Jiménez. Um pouco em jeito de prémio simpatia, mas contém ideias e momentos interessantes em número suficiente para dispensar os favores ou a condescendência. E que bom seria que surgissem nas salas portuguesas mais filmes de cinematografias remotas (Chile, neste caso).
Diego Noguera em "Bonsái", de Cristián Jiménez (2011)

FALHAR A PONTARIA

Apanhei hoje uns minutos da emissão da RTP2 "Hora de Fecho". Os jornalistas Miguel Pinheiro e Ana Sá Lopes discutiam (como não podia deixar de ser numa altura em que um diminuto bairro romano, independente graças às circunvoluções da História e a diversas conjunções de interesses, se converteu no centro de gravidade do mundo mediático) o novo papa.

Miguel Pinheiro mostrou-se escandalizado pelo facto de o voto de saudação à eleição da papa, recentemente proposto na Assembleia da República, ter sido aprovado com abstenção dos partidos mais à esquerda e de 6 deputados do PS, ao passo que o voto de pesar pelo falecimento de Hugo Chávez recolheu unanimidade. A sua expressão reflectia, toda ela, indignação moral e compunção pela pavorosa inversão de valores que o caso configura.

Tenho a inteligência e o discernimento de Ana Sá Lopes em boa conta. Foi por isso uma desilusão vê-la falhar por completo a pontaria quando tentou contra-argumentar invocando as acusações de cumplicidade com a ditadura argentina, que têm vindo a lume, como possível e válido motivo dessa unanimidade falhada na aclamação ao novo bispo de Roma.

O tempo dirá se as acusações têm ou não validade. Estamos ainda demasiado próximos do acontecimento para que a separação do trigo e do joio tenha sido feita; por enquanto, impera o ruído mediático.

Já a oportunidade de o órgão máximo da democracia de um estado laico se pronunciar sobre a eleição de um líder religioso, essa sim, é extremamente contestável e não depende nem da personalidade nem de eventuais aleivosias e erros de percurso do indivíduo em questão.

Não posso adivinhar o que esteve por detrás das abstenções. Espero que tenham sido o sentido de Estado, o apego pela laicidade e a consciência republicana. Uma coisa, entretanto, é certa: este voto não deveria sequer ter sido proposto. O PS prestou um mau serviço ao país e à dignidade da Assembleia.


sábado, março 16, 2013

OBSERVAÇÕES SOLTAS SOBRE O NOVO PAPA

  • Nunca pensei que iria assistir à renúncia voluntária de um papa.
  • Quando João Paulo II se manteve em funções durante anos, mesmo depois de ser atingido por uma doença incapacitante, a sua coragem, espírito de sacrifício e dedicação foram quase unanimemente saudados. Quando Bento XVI renunciou ao cargo, alegando falta de vigor físico, a sua decisão foi classificada quase unanimemente como "moderna" e "corajosa". Pela mesmíssima ordem de ideias, JPII poderia ser considerado antiquado e casmurro e BXVI acusado de falta de dedicação e de capacidade de sofrimento.
  • A massiva atenção mediática que é concedida ao conclave roça o absurdo. Os directos da Praça de São Pedro, os planos intermináveis da chaminé e da varanda, fascinam pela sua gratuitidade.
  • "Papa Francisco" soa estranho. O cardeal Bergoglio deveria ter escolhido um nome de papa como Urbano ou Clemente, com o numeral adequado. Impõe outro respeito.
  • Um dado interessante que parece ter escapado à avidez descontrolada da comunicação social: este foi o primeiro papa a escolher um nome inédito desde o obscuro papa Lando (século X). (A excepção foi João Paulo I, mas neste caso a escolha do cardeal Luciani foi uma homenagem explícita aos seus antecessores, João XXIII e Paulo VI.)
  • Muitas vezes os papas são atacados com excessiva leviandade e agressividade; sou o primeiro a admiti-lo.O reverso desta medalha é a extraordinária benevolência com que largos sectores da imprensa os protegem e exaltam, com maior ou menos clareza consoante se trate de um pontífice mais (JPII) ou menos (BXVI) mediático. Repare-se: poucos dias depois da sua eleição, o papa Francisco já é unanimemente considerado simples, espontâneo, humano e humilde, com base em acções ou palavras pouco mais que anedóticas (pagou a conta da residencial, cozinha as próprias refeições, diz umas piadas de vez em quando, sorri muito). Não é difícil cair nas boas graças de uma comunicação social disposta a deixar-se embevecer.

quinta-feira, março 14, 2013

RECORDANDO ROSSELLINI

Pouco ou nada a dizer sobre o novo papa. Mas a escolha do nome fez-me recordar este filme tão belo de Rossellini.

"Francesco, Giullare di Dio", de Roberto Rossellini (1950)


Como seria maravilhoso que todas as religiões fossem vividas desta maneira simples, genuína e isenta de dogmas e de ódios. Poupar-se-ia tanto sofrimento.