domingo, fevereiro 16, 2014

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na linha vermelha do metropolitano, uma leitora lia contos de Machado de Assis.

Neste mundo conturbado, ler Machado de Assis é ainda uma das acções mais sensatas a que nos podemos entregar.

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

ESTATISMO E TOLERÂNCIA

Os sinais exteriores de desalinhamento com a realidade podem ser espalhafatosos ou quase invisíveis de tão discretos. No caso de João Carlos Espada, esses sinais disfarçam-se de bom senso e de serena consciência civilizacional.

«Não é difícil encontrar inúmeros exemplos recentes desta atitude estatista. Nos últimos meses, assistimos a um regresso do estilo revolucionário do PREC a propósito do famoso “corte brutal” das bolsas da FCT. Mas não ouvimos qualquer proposta para diminuir a dependência das instituições de investigação relativamente a verbas governamentais. Também as universidades protestam contra a redução da sua parte do Orçamento do Estado. Mas também não ouvimos qualquer proposta para aumentar as receitas próprias, designadamente através do aumento das propinas — as actualmente cobradas são puramente simbólicas — e da criação de um vasto sistema de bolsas de estudo para quem precisasse.»

A ausência de propostas "para diminuir a dependência das instituições de investigação relativamente a verbas governamentais" só existiu na mundividência muito particular de JCE: não têm faltado essas propostas, e aliás muitas delas têm sido postas em prática ao longo dos anos, de tal modo que o aumento da percentagem das receitas próprias no financiamento das instituições de investigação e de ensino superior portuguesas é uma realidade continuada. Porém, o mais sugestivo aqui é a conclusão imediata de JCE: esta suposta falta de propostas revela "atitude estatista" e configura uma "ameaça à tolerância". Não parece passar pela cabeça de JCE que, se escasseiam as vozes apologistas de um (ainda) maior desinvestimento público na ciência e na investigação, talvez isso se deva a um consenso generalizado no sentido de esse desinvestimento ser uma coisa má e nefasta, sobretudo para um país fragilizado economicamente, no qual a aposta na inovação e no conhecimento deveria ser parte da solução.

(Vou passar em claro o qualificativo de "simbólico" aplicado às propinas cobradas actualmente pelas universidades portuguesas. Aqui já não se trata de alienação: estamos com os pés bem plantados no terreno da provocação e da injúria dirigida a todos os estudantes e encarregados de educação que sofrem privações para pagar essas propinas "simbólicas", ou que desistem dos cursos devido a incapacidade financeira. Ah, e esse "vasto sistema de bolsas de estudo" para a malta mais pobretanas que insiste em estudar já existe; mas não chega e deveria funcionar melhor.)

A frase final é elucidativa sobre o estado de coisas que, na óptica de JCE, seria um paraíso na terra, do qual apenas a "falta de tolerância" e a "atitude estatista" dos cidadãos nos separa, e que para mim se assemelha a uma distopia tenebrosa.

«Muitas iniciativas diferentes, frequentemente rivais, podem florescer e coabitar sem guerra civil — isso é possível porque basicamente cada uma depende dos seus próprios apoiantes, não da imposição coerciva sobre os impostos e a opinião dos outros.»

Ou seja: iniciativas, causas, apoios, dependeriam da capacidade dos seus proponentes em fazer um "marketing" compatível com a angariação de fundos suficientes. O Estado, enquanto emanação representativa da vontade de um povo, perderia o poder efectivo de promover a igualdade e a justiça social por via do orçamento. A sociedade estaria entregue às movimentações espontâneas, à popularidade das causas, à arbitrariedade. Não, obrigado. Assinado: um estatista intolerante. 

sábado, fevereiro 08, 2014

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na linha amarela do metropolitano, um leitor lia Camilo José Cela, em versão original. Apesar dos meus melhores esforços, não consegui identificar a obra. Eis dada a machadada definitiva na teoria de que Cela foi um prémio Nobel imerecido.

Na linha vermelha, um outro leitor lia "Pão com Fiambre", de Bukowski, na edição da Ulisseia. Livros com nome de comida são uma das coisas que tornam suportável e interessante a condição de estar vivo.

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na sempiterna linha verde do metropolitano, um leitor lia a "Crónica da Vida Lisboeta", de Joaquim Paço d'Arcos. Pareceu-me tratar-se do volume I da edição da Guimarães ("Ana Paula"/"Ansiedade"), mas não fiquei com a certeza absoluta.

Ver alguém a ler Joaquim Paço d'Arcos no metro é mais ou menos como ver alguém a ler Sá de Miranda num A380 a quarenta mil pés de altitude. É um choque entre dois mundos.

domingo, fevereiro 02, 2014

PHILIP SEYMOUR HOFFMAN (1967-2014)

Ver partir tão cedo um talento deste calibre causa dor e traz um sentimento de desperdício. Desapareceu um dos maiores actores da sua geração. As recordações mais imediatas e mais fortes que tenho do trabalho dele são dos filmes "The Master", "Capote", "Happiness" e sobretudo "Synechdoque, New York". Neste último, um dos filmes mais ousados e complexos dos últimos anos, assim como nos restantes, o desempenho de Philip Seymour Hoffman oscilava invariavelmente entre o excelente e o genial.

Philip Seymour Hoffman em "Synechdoque, New York", de Charlie Kaufman

segunda-feira, janeiro 27, 2014

RECUSA O PRECONCEITO! DÁ UM ABRAÇO A UM FINANCEIRO!

Segundo o impagável João César das Neves, no seu momento semanal de comicidade involuntária, um dos "grupos mais desprezados e injustiçados de hoje" é o dos financeiros.

Leram bem: não se trata de qualquer minoria étnica ou religiosa, cultural ou linguística. São os financeiros.

Este homem é um "sketch" dos Monty Python em forma de gente. Cada vez mais me custa a acreditar que ele não seja um embuste gigantesco, um número de comédia refinadíssimo perpetrado por um Andy Kaufman português.

Estimado leitor: da próxima vez que avistar um financeiro na rua, resista à tentação de lhe lançar um olhar de desprezo e de apressar o passo. Fale com ele, dê-lhe um aperto de mão, pague-lhe um café e uma sande.

Nunca deixe de ter presente que o sistema financeiro sustenta os empregos de todos nós, como afiança JCN no remate desta crónica inolvidável.

quarta-feira, janeiro 22, 2014

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Linha verde do metropolitano. Uma leitora lia "O Leopardo", de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. O trajecto entre Telheiras e Campo Grande mal chega para articular em silêncio o nome deste autor.

terça-feira, janeiro 21, 2014

sábado, janeiro 18, 2014

CO-ADOPÇÃO

O dia de ontem foi um dia muito triste para a democracia portuguesa.

O que me apetece, no rescaldo da aprovação do referendo sobre co-adopção por casais do mesmo sexo, é agarrar pelos colarinhos os promotores desta iniciativa e perguntar-lhes, olhos nos olhos, se acham minimamente digna do mandato que lhes foi dado pelos cidadãos esta ideia de referendar uma lei que já foi aprovada na generalidade, que remete para o foro da consciência, que quando acabar por ser aprovada (e sublinho o "quando") mais não fará do que regularizar judicialmente situações de facto que já existem.

Aproveitaria esta rara ocasião para exprimir a minha repulsa pela proposta de juntar à pergunta sobre esta situação concreta uma outra sobre a questão, mais geral e (admito-o) mais sensível, relativa ao direito de adopção dos casais do mesmo sexo. Eu penso que este direito deveria estar consagrado na lei, mas trata-se de uma questão distinta, ainda que relacionada, e em relação à qual não está em curso qualquer iniciativa legislativa. A amálgama só favorece a confusão e as intenções de quem quer que fique tudo na mesma, sob a capa do mui louvável propósito de estender o debate à sociedade civil.

A disciplina de voto imposta à bancada do PSD, um dos dois maiores partidos portugueses desde há décadas, é simplesmente descoroçoante, por se tratar de uma matéria de consciência e por não existir vínculo a qualquer proposta ou menção constante do programa eleitoral.

O qualificativo de "fracturante" que se costuma associar a esta questão não passa de um estratagema usado por aqueles que discordam da lei e que tentam estender as suas reticências à sociedade, como se esta estivesse dilacerada por um dilema moral, como se a perspectiva de barricadas nas ruas ou cisões familiares violentíssimas por causa da co-adopção fossem realistas. Muito mais "fracturantes" do que esta lei, muito mais susceptíveis de abalarem a sociedade até aos alicerces, são as muitas leis que têm passado pela Assembleia como uma carta pelo correio, sem que algum menino da JSD se tenha entretido a propor referendos. Falo do Código do Trabalho, dos despedimentos na Função Pública, da privatização de empresas tão fortemente implicadas na vida nacional como os CTT e a TAP, e de numerosíssimas outras leis.

Tenho esperança de que o bom senso acabe por prevalecer e que estas manobras se esgotem no seu conteúdo dilatório, ao qual afinal se resumem, na prática.

Entretanto, deixo links para alguns dos textos lúcidos e certeiros que surgiram na esteira deste dia deplorável (única faceta positiva deste caso):

"Uma Espécie de Totalitarismo Democrático" (Pedro Figueiredo)
"Dos Pseudomoralismos Ditatoriais" (Sofia Loureiro dos Santos)
"A Coadoção" (Carlos Esperança)
"Homofobia e Governofobia" (Ricardo Alves)

A ainda: a intervenção de Pedro Delgado Alves na Assembleia da República.



domingo, janeiro 12, 2014

PSICOPATOLOGIA COLECTIVA LUSITANA

Os estudiosos que, no futuro, se debruçarem sobre a psicopatologia da mente colectiva lusitana em inícios do século XXI encontrarão no episódio do "Coreia-gate" um objecto riquíssimo em ensinamentos. Aos espíritos mais incrédulos, custará talvez a admitir que tanta e tão valorosa gente tenha perdido tanto tempo e tantas linhas, em tantos suportes e canais diferentes, a discutir onde estava e o que fazia um ex-primeiro ministro, menino e moço ainda, num certo sábado de Julho, e em que cenário comemorou ele os golos de Eusébio contra a Coreia do Norte, na longínqua Liverpool.

(Ler também: "Sobre a Doença".)

sexta-feira, janeiro 10, 2014

LIBERTAR PORTUGAL E CONQUISTAR O FUTURO

A Juventude Popular defende, em moção a apresentar ao congresso do CDS-PP, o recuo do ensino obrigatório do 12º para o 9º ano.

É no que dá deixar esta rapaziada brincar aos liberais, sem supervisão. Foge-lhes a boca para a verdade.

Claro está que o declínio do analfabetismo e a melhoria do nível de formação da população portuguesa representam um risco para todos aqueles que vivem de engendrar e impingir cretinices. A ignorância, a crendice e a falta de espírito crítico são caldo de cultura muito mais favorável. Não só Portugal tem doutores a mais, como o próprio diploma liceal já está a adquirir uma prevalência incómoda.

Tudo isto são verdades que ninguém discute.

Mas há que usar de alguma discrição. Ideias como esta arriscam-se ainda a causar um certo escândalo em círculos mais progressistas. Com os anos, esta malta há-de aprender a domesticar a sua candura.

Enquanto isso não sucede, reconheça-se que este precipitado de idiotice pura tem o seu encanto.

(Ler também isto.)


terça-feira, janeiro 07, 2014

SÓ O CINEMA

Nenhuma arte como o cinema suscita paixões, sentenças inflamadas e opiniões acaloradas. Não há nada de mal nisso. Um pouco de retórica, hipérbole ou má fé até ajudam a fazer passar a mensagem e dar-lhe mais uns quantos por cento de hipótese de sobreviver no mundo cruel da Web 2.0 (ou será que já vamos na 3.0?). C'est de bonne guerre.

Convém, no entanto, escolher os canais certos.

As folhas da Cinemateca são uma coisa maravilhosa e um dos argumentos mais potentes a favor da frequência regular do reduto cinéfilo da Barata Salgueiro. Guardo aquelas que fui recolhendo, ao longo dos anos, em 3 dossiers de argolas do formato maior. Cada autor tem o seu estilo próprio e inimitável. Quase todos compreendem que a função destas folhas não é servir de veículo aos seus humores pessoais, diatribes e embirrações de estimação. Infelizmente, pelo menos um deles, Antonio Rodrigues, é contumaz nos abusos. Julgando-se talvez um Bazin ou Truffaut em plenos anos 50, não hesita em verter para o papel, com pluma romba mas que parece crer-se acerada, farrapos de mundividência crítica que lhe podem dizer muito mas que fogem à missão principal destas folhas: a de informar, contextualizar e oferecer novos ângulos e leituras ao leitor (o que é muito diferente de impor os seus como únicos legítimos).

Achei piada quando AR assinalou o "o" traçado no nome da realizadora Mia Hansen-Løve como sintoma de falsidade (isto é autêntico). Acho menos piada quando ele se mete com os meus super-heróis. A maneira como desancou em Alain Cavalier e em quase toda a sua filmografia, na folha do filme "Pater" (um dos filmes mais originais e inteligentes dos últimos anos, a meu ver), roça o caso de polícia. Não se trata de delito de opinião, mas sim de delito de ignorância. Quem usa os termos "não forma" e "não cinema" para se referir a Cavalier está a ser desonesto, porque tenta fazer passar um juízo estético por uma demarcação entre o que é o que não é cinema. Dizer que os filmes de Cavalier não têm estrutura (conheço poucos filmes tão escrupulosamente estruturados como os de Cavalier) revela que a aversão (legítima) o deixou completamente cego e desmunido. Dar a entender que os filmes de Cavalier se resumem a filmar objectos e pessoas ao acaso, a "vidinha quotidiana de cada um de nós", deveria equivaler a falta profissional grave. Tentar arregimentar os leitores com frases como «Como este ciclo deve ter demonstrado claramente à maioria dos espectadores que o acompanhou (...)» faz lembrar um profeta que anda pela rua fora a agarrar os potenciais prosélitos pelo colarinho e a berrar-lhes a boa nova aos ouvidos.

Alain Cavalier e Vincent Lindon em "Pater"


Aquilo que, no meio desta catástrofe, ainda me custa mais a admitir é que uma pessoa com olhos na cara e que viu mais do que uma dezena ou duas de filmes na sua vida seja capaz de admitir que um actor do calibre de Vincent Lindon não se apercebeu da ironia subjacente a esta cena, sem dúvida uma das melhores e mais cómicas do filme. (Tem legendas em francês. As minhas desculpas aos não francófonos - não encontrei uma versão legendada noutro idioma. Em poucas palavras: ele queixa-se de uma discussão que teve com o porteiro, faz-se vítima apesar de viver num bairro elegante e abastado.)

 


segunda-feira, janeiro 06, 2014

sexta-feira, janeiro 03, 2014

A MINHA MENSAGEM DE ANO NOVO

Procuro fazer dos meus votos para 2014 algo de muito modesto, e chego a algo de extravagantemente ambicioso. Espero que o novo ano permita que a decência, a clarividência e a beleza ganhem alguns centímetros à estupidez, à intolerância, ao dogmatismo e à mesquinhez. Espero que todos acabem o ano com alguma coisa entre mãos à qual o substantivo "Felicidade" sirva sem demasiado esforço. E espero que continuemos a tropeçar com estrondo em filmes como este:

Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman em "The Master", de Paul Thomas Anderson

quinta-feira, janeiro 02, 2014

UM TÍTULO QUE NÃO ENGANA

Mesmo sem nunca o ter lido, tenho a certeza de que o poema "Toda a gente a beber coca-cola" é o tipo de poema capaz de revolucionar a Literatura e de marcar uma Geração.

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

No comboio Porto-Lisboa, um/a leitor/a lia "A Confraria do Vinho", de John Fante. A indefinição de género justifica-se pelas dificuldades inerentes à observação atenta de leitores sentados num comboio disparado a 200 à hora por esse Portugal fora. Aquilo balança e não é pouco. Este problema é muito sério.

quarta-feira, janeiro 01, 2014

PÉROLAS DA PARIS REVIEW


EZRA POUND: The Irish like contradiction. He [Yeats] tried to learn fencing at forty-five, which was amusing. He would thrash around with the foils like a whale. He sometimes gave the impression of being even a worse idiot than I am.

(The Paris Review Interviews, Vol. 4)

quinta-feira, dezembro 12, 2013

OZU

Yasujiro Ozu nasceu há 110 anos e morreu há 50 anos. Sirva este dia 12 de Dezembro para celebrar duplamente a memória e o talento imenso deste realizador, assim como todas as personagens que ele faz entrar na minha vida.

Chieko Higashiyama, Setsuko Hara e Chishu Ryu em "Tokyo Monogatari", de Yasujiro Ozu (1953)

segunda-feira, dezembro 09, 2013

DO MUNDO EDITORIAL PORTUGUÊS

Os contos "O salvo-conduto" e "Vilar Frio" foram publicados no volume Três histórias transmontanas (1998), que mal chegou a ser distribuído: tenho num armazém dois ou três caixotes deles!

(A.M. Pires Cabral, nota introdutória a "Os Anjos Nus" (2012))