segunda-feira, fevereiro 09, 2015

PARA ALÉM DO FOLCLORE

Para quem não se satisfaça com o folclore (ah!, as gravatas e a sua ruidosa ausência), existem obviamente muitas fontes para acompanhar e compreender a situação grega. Não estou a pensar na imprensa tradicional, nem no Facebook, nem (deixem-me rir) no Twitter. Estou a pensar nos bons, velhos e negligenciados blogs. Por exemplo: este, este e este. Não concordo com tudo mas admiro a profundidade em tempos de falta dela.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

HISTÓRIAS DE EMBALAR

Assistir às reacções à vitória do Syriza nas eleições gregas tem sido das coisas que mais me tem divertido nos últimos tempos. A sofreguidão com que certos comentadores e certa imprensa descobrem os argumentos mais inverosímeis para exprimir o seu cepticismo chega a ser comovente. Ele é porque se aliaram à direita nacionalista, ele é porque não há mulheres entre os ministros do novo governo, ele é porque Tsipras não usa gravata e Varoufakis usa a camisa por fora das calças (sinal inequívoco de incompetência financeira, ao contrário de Vítor Gaspar, um exemplo de compostura que... esperem - péssimo exemplo), ele é porque são radicais, ele é porque já moderaram as suas opiniões, ele é porque não querem que o financiamento aos bancos gregos seja suspenso (como se pessoas de esquerda, ainda por cima radical, se interessassem pela sorte dos malandros dos bancos!), ele é porque afinal já não querem o "haircut" e pedem apenas um pagamento da dívida a ritmo mais moderado... Abriu a caça ao disparate. Mais do que qualquer outra coisa, este espernear sugere-me que alguma coisa poderá estar prestes a mudar na Europa - para melhor.

Pedro Passos Coelho faz parte dos valorosos caçadores que gastam as suas munições, um pouco à toa, contra um inimigo que manifestamente não conhecem. No rescaldo imediato das eleições, veio qualificar as ideias políticas do Syriza de "histórias de crianças". Seja. Aliás, os tempos que correm são fartos em contos de embalar que farão certamente as delícias da petizada nas próximas gerações. É fácil visualizar os pais e avós vindouros a contar aos seus filhos e netos a história da austeridade expansionista, a história da redução obsessiva dos custos do trabalho e o conto medonho e aterrorizador das reformas estruturais,

sábado, janeiro 17, 2015

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

No mesmo dia: de pé, num cais da linha amarela do metropolitano, uma leitora lia "O Mito de Sísifo", de Camus; na estação de Telheiras, um leitor lia um livro não identificado de Tolstoi enquanto caminhava. Em Portugal, os leitores em lugares públicos não são muito numerosos mas demonstram invariavelmente um excelente gosto.

segunda-feira, janeiro 12, 2015

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Numa mesa de uma esplanada da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, jazia um exemplar de "O Anticristo", de Nietzsche. Não estava a ser lido, mas tinha uma página marcada de forma ostensiva.

domingo, janeiro 11, 2015

terça-feira, janeiro 06, 2015

NÃO HAVIA DINHEIRO?

No meio da massa asfixiante de propaganda, distorções, lendas e narrativas, meias verdades e histórias da carochinha que ganha espaço todos os dias e que ameaça tornar-se a língua franca de todos os meios de informação, cada vez mais aqueles que mais merecem a minha admiração são aqueles que gastam algumas parcelas do seu tempo e energia para desmontar mitos.

Aquela imagem patusca, levada a sério por muitos, da ausência de dinheiro nos cofres do Estado nos dias mais críticos de 2011 (é impossível não imaginar uma cofre gigantesco, digno do Tio Patinhas, completamente vazio à excepção de umas teias de aranha e um invólucro de rebuçado) é uma imagem tenaz. Só não lhe chamo ingénua porque é peça integrante de uma certa agenda política. Honra àqueles que insistem em colocar os pontos nos is e trazer um pouco de sanidade para o debate:

Dos mitos orçamentais em Portugal: a look back to 2011

Dinheiro da troika não foi "para pagar salários e pensões"



domingo, janeiro 04, 2015

PÉROLAS DA PARIS REVIEW

He [Lawrence Durrell] writes in a room without windows, with notices of his work in foreign languages he cannot understand pinned to the bookcase.

(...)

LAWRENCE DURRELL: I suffer from terrible nausea about my own work, purely physical nausea. (...) When the proofs come back I have to take an aspirin before I can bring myself to read it through. (...) Perhaps when one day I get something I really do like, I won't have to take aspirin.

quinta-feira, janeiro 01, 2015

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

No Alfa Pendular, entre Lisboa e o Porto, um leitor tinha à sua frente "O Medo", de Al Berto. Não o estava a ler, mas assinalar a simples presença desta obra numa carruagem que se deslocava a 200 à hora de Sul para Norte pareceu-me ser uma obrigação moral, assim como um acto compatível com a essência desta rubrica.

FELIZ ANO NOVO

Respeitando o espírito e a letra da mensagem de Ano Novo do Senhor Presidente da República, evitarei fazer promessas irreflectidas. Não prometo, pois, actualizar este blog com menos parcimónia em 2015. Escreverei ao sabor das circunstâncias, mas sempre após profunda reflexão, e na altura certa, e escolhendo as palavras. Desejo a todos os leitores um ano de 2015 repleto de coisas alegres, coisas belas, coisas venturosas.

segunda-feira, dezembro 08, 2014

1 E 8 DE DEZEMBRO

Como poucos o ignoram, celebrou-se no passado dia 1 a Restauração da Independência de Portugal, ocorrida em 1640. Hoje, dia 8, celebra-se um dogma católico definido pelo papa Pio IX em 1854. O dia de hoje foi feriado nacional; o dia 1, por decisão do actual Governo, não o foi. Uma maior aberração seria difícil de engendrar, mesmo por desígnio.

Queria no entanto deixar claro que o pecado original e irremível, neste caso, reside na decretada abolição dos feriados sem qualquer outro argumento que não fosse a banal e infundamentada convicção de que "Portugal tem feriados a mais" e não suportada por quaisquer estudos vindos a público. A discussão sobre se o feriado A deveria ter sido sacrificado em benefício do feriado B é secundária.

Afirmar que a História julgará aqueles que perpetraram este dislate implica atribuir-lhes importância desmesurada. A História raramente se debruça sobre os medíocres, sobre os oportunistas, sobre aqueles que se põem em bicos de pés para acrescentar um ou dois centímetros aos seus horizontes estreitíssimos.

domingo, outubro 26, 2014

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Três jovens leitoras passavam de mão em mão uma edição económica de "Gulliver's Travels", e comentavam o livro enquanto o faziam. Tudo isto se passou no cais da estação de metro do Campo Grande. Por ser verdade, fica aqui escrito.

segunda-feira, outubro 13, 2014

DA SÉRIE "FRASES QUE NUNCA FORAM PRONUNCIADAS EM VOZ ALTA NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE" (INSPIRADO POR CONAN O'BRIEN)

Uau, os resultados do trabalho desta comissão parlamentar de inquérito superaram as minhas expectativas!

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

No metropolitano de Lisboa, uma leitora brandia "O Complexo de Portnoy"; não o estava a ler, mas parecia prestes a lê-lo ou tê-lo lido num passado recente.

Philip Roth não ganhou o Nobel, mas parece bem lançado para conquistar os corações dos passageiros da linha verde!

domingo, outubro 05, 2014

VIVA A REPÚBLICA!!!


LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na linha amarela do metropolitano, um leitor lia o "Kafka" de Deleuze e Guattari. De pé, debaixo da terra e a grande velocidade. Quem lê assim uma vez nunca mais quer outra coisa.

sábado, setembro 06, 2014

SÓ O CINEMA

Tento recordar-me do nome da actriz principal de "The Woman in the Window", de Fritz Lang. Fracasso. Poucos minutos depois, leio uma referência a essa mesma actriz no livro que estou a ler ("Combat Avec l'Ange", de Jean Giraudoux). Uma coincidência pode não chegar para salvar um dia, mas pode dar um empurrãozinho.
Joan Bennett e Edward G. Robinson em "The Woman in the Window", de Fritz Lang (1944)

quinta-feira, agosto 07, 2014

A um momento de fraqueza deve seguir-se um momento de firmeza. Isto tem a ver com dignidade, não com qualquer equilíbrio cósmico.

PÉROLAS DA PARIS REVIEW

PHILIP ROTH: If you ask if I want my fiction to change anything in the culture, the answer is still no. What I want is to possess my readers while they are reading my book - if I can, to possess them in ways that other writers don't. Then let them return, just as they were, to a world where everybody else is working to change, persuade, tempt, and control them.

domingo, agosto 03, 2014

Há sonhos tão divergentes da realidade que parecem implicar a existência de um argumentista, cruel e incisivo mas também dotado de um sentido de humor singular.