Nenhuma arte como o cinema suscita paixões, sentenças inflamadas e opiniões acaloradas. Não há nada de mal nisso. Um pouco de retórica, hipérbole ou má fé até ajudam a fazer passar a mensagem e dar-lhe mais uns quantos por cento de hipótese de sobreviver no mundo cruel da Web 2.0 (ou será que já vamos na 3.0?).
C'est de bonne guerre.
Convém, no entanto, escolher os canais certos.
As folhas da Cinemateca são uma coisa maravilhosa e um dos argumentos mais potentes a favor da frequência regular do reduto cinéfilo da Barata Salgueiro. Guardo aquelas que fui recolhendo, ao longo dos anos, em 3 dossiers de argolas do formato maior. Cada autor tem o seu estilo próprio e inimitável. Quase todos compreendem que a função destas folhas não é servir de veículo aos seus humores pessoais, diatribes e embirrações de estimação. Infelizmente, pelo menos um deles, Antonio Rodrigues, é contumaz nos abusos. Julgando-se talvez um Bazin ou Truffaut em plenos anos 50, não hesita em verter para o papel, com pluma romba mas que parece crer-se acerada, farrapos de mundividência crítica que lhe podem dizer muito mas que fogem à missão principal destas folhas: a de informar, contextualizar e oferecer novos ângulos e leituras ao leitor (o que é muito diferente de impor os seus como únicos legítimos).
Achei piada quando AR assinalou o "o" traçado no nome da realizadora Mia Hansen-L
øve como sintoma de falsidade (isto é autêntico). Acho menos piada quando ele se mete com os meus super-heróis. A maneira como desancou em Alain Cavalier e em quase toda a sua filmografia, na folha do filme "Pater" (um dos filmes mais originais e inteligentes dos últimos anos, a meu ver), roça o caso de polícia. Não se trata de delito de opinião, mas sim de delito de ignorância. Quem usa os termos "não forma" e "não cinema" para se referir a Cavalier está a ser desonesto, porque tenta fazer passar um juízo estético por uma demarcação entre o que é o que não é cinema. Dizer que os filmes de Cavalier não têm estrutura (conheço poucos filmes tão escrupulosamente estruturados como os de Cavalier) revela que a aversão (legítima) o deixou completamente cego e desmunido. Dar a entender que os filmes de Cavalier se resumem a filmar objectos e pessoas ao acaso, a "vidinha quotidiana de cada um de nós", deveria equivaler a falta profissional grave. Tentar arregimentar os leitores com frases como «Como este ciclo deve ter demonstrado claramente à maioria dos espectadores que o acompanhou (...)» faz lembrar um profeta que anda pela rua fora a agarrar os potenciais prosélitos pelo colarinho e a berrar-lhes a boa nova aos ouvidos.
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| Alain Cavalier e Vincent Lindon em "Pater" |
Aquilo que, no meio desta catástrofe, ainda me custa mais a admitir é que uma pessoa com olhos na cara e que viu mais do que uma dezena ou duas de filmes na sua vida seja capaz de admitir que um actor do calibre de Vincent Lindon não se apercebeu da ironia subjacente a esta cena, sem dúvida uma das melhores e mais cómicas do filme. (Tem legendas em francês. As minhas desculpas aos não francófonos - não encontrei uma versão legendada noutro idioma. Em poucas palavras: ele queixa-se de uma discussão que teve com o porteiro, faz-se vítima apesar de viver num bairro elegante e abastado.)