terça-feira, outubro 20, 2015

NÓTULAS POLÍTICAS EM TEMPOS BASTANTE INTERESSANTES

Uma epidemia de clarividência radical grassa pelo país e poucos são os actores polítcos e fazedores de opinião que lhe são imunes. De repente, todos sabem com absoluta certeza quais as intenções de cada eleitor quando ele ou ela depositou o seu voto, no passado dia 4. O impudor com que tiram as suas ilacções enviesadas a partir dessa certeza é um sintoma muito comum desta epidemia.

terça-feira, outubro 13, 2015

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na plateia do São Jorge, em plena Festa do Cinema Francês, um leitor lia "O Cónego", de A.M. Pires Cabral.

O prazer da leitura antes do cinema é um dos prazeres mais subestimados. Pena é que nem sempre a iluminação da sala colabore.

sábado, outubro 10, 2015

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na linha verde do metropolitano, uma leitora lia "Auto-de-Fé", de Elias Canetti.

Os leitores e as leituras da linha verde não cessam de nos surpreender, e a nossa fasquia nem é das mais modestas.

quarta-feira, outubro 07, 2015

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Num voo Londres-Lisboa, um leitor lia as "Vinte Mil Léguas Submarinas", de Verne. (Se viajasse de barco, será que leria as "Cinco Semanas em Balão"?)

Numa fila para a caixa de pagamento do Lidl, um outro leitor lia a biografia de Álvaro Cunhal.

Tempos estranhos, leituras originais, locais públicos invulgares!

terça-feira, outubro 06, 2015

CHANTAL AKERMAN (1950-2015)

Poucos realizadores conseguiram equilibrar com sucesso a proximidade com o grande público e a ousadia formal. Até ao fim, Chantal Akerman foi uma criadora fascinante e inesperada. Estou desolado com a notícia do seu desaparecimento.

Stanislas Merhar e Sylvie Testud em "La Captive" (2000)

segunda-feira, outubro 05, 2015

VIVA SÃO PLÁCIDO, QUERO DIZER, VIVA A REPÚBLICA!!!

O meu calendário de secretária diz que hoje é dia de São Plácido e omite qualquer referência à República. O 5 de Outubro deixou de ser feriado graças ao capricho de um governo sem espinha dorsal, e sem outra justificação do que o ridículo "temos demasiados feriados". Nos dois últimos anos, o facto de esta data calhar a um fim-de-semana ajudou a mitigar a impressão de ignomínia. Hoje, tudo se conjugou: a primeira vez que eu (e muitos outros milhares de compatriotas) trabalhei num 5 de Outubro; o dia seguinte às eleições em que os responsáveis pelo acto se saíram muito melhor do que ousavam esperar há alguns meses; a ausência das comemorações por parte de um presidente da República que parece incapaz de concluir o seu mandato com um mínimo de verticalidade e de respeito pela história do país. E o tempo: chuva intensa e vento, como se os elementos fossem os únicos capazes ainda de se revoltarem.

Viva o vento.

Viva a chuva.

VIVA A REPÚBLICA!

(Muito me espantará que este dia não seja feriado em 2016. Sem desprimor para São Plácido, discípulo de São Bento e patrono da cidade de Messina.)


terça-feira, setembro 29, 2015

domingo, setembro 27, 2015

NARRATIVAS

As eleições legislativas do próximo dia 4 serão, ou melhor estão a ser, uma batalha de narrativas. Levará a melhor quem contar a narrativa mais escorreita, mais amiga do senso comum e mais fácil de assimilar. Dir-me-ão que sempre foi assim; de acordo, mas parece-me que, desta vez, esta evidência salta aos olhos de forma mais nítida do que nunca.

quinta-feira, setembro 17, 2015

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na linha verde do metropolitano, uma leitora lia "The Scarlet Letter", de Hawthorne, em versão original.

"The Scarlet Letter" é um romance cuja personagem principal, Hester Prynne, é acusada de adultério e obrigada a usar um "A" escarlate na roupa. A acção passa-se em Boston, em meados do século XVII. Ou, nas palavras de alguns cronistas da extrema-direita religiosa: "os bons velhos tempos".

RESPOSTAS

As minhas respostas a um inquérito do "Correio do Porto".

terça-feira, setembro 15, 2015

Como se o mundo precisasse de mais um livro de contos!!! Tss tss.

(Lançamento na Feira do Livro do Porto. No próximo sábado. Às 7 da tarde.)


domingo, setembro 13, 2015

"Are you listening?" (...)
"Of course."
"What did I just say."
"That I have to trust my instincts more."
"I said I wanted you to come to dinner."
"Oh."

(Saul Bellow, "Herzog")

terça-feira, setembro 08, 2015

A ÉTICA É UMA CENA QUE NÃO ASSISTE AO MERCADO LIVRE

Ainda estou para perceber onde é que o DN vai desencantar alguns dos seus cronistas. Dir-se-ia uma experiência destinada a testar a incredulidade dos leitores. Miguel Angel Belloso é mais um cromo para esta bem catita colecção. Nesta crónica, debruça-se sobre aquele que parece ser o seu único tema: a excelência libertadora do mercado livre e os malefícios do socialismo. (José António Saraiva, no "Sol", bate-o na diversidade temática: tanto discorre sobre tesouras como sobre cera e como reconhecer um homossexual no elevador.) O trecho mais inacreditável é este:

«O sistema de livre mercado é amoral. Na minha opinião, é o modelo de organização económica e social mais conforme com a natureza humana, cujo instinto de sobrevivência e de progresso é genuíno e é também o modelo mais eficiente do ponto de vista dos resultados que obtém em prol do bem comum. Não pode nem deve ser julgado do ponto de vista da ética.»

Portanto, Belloso revoluciona a Filosofia ao identificar uma entidade que não pode nem deve ser escrutinada pela ética. É d'homem. Aguarda-se ansiosamente a revelação de outros domínios nos quais os juízos de valor não são admissíveis. Belloso tem o dever de esclarecer as massas.

(«Acho eu» acrescenta Belloso, numa concessão generosa à possível, mas pouco concebível, existência de opiniões diferentes das suas.)

segunda-feira, setembro 07, 2015

«En el problema del peronismo, por ejemplo, Borges es enemigo del peronismo, pero por motivos distintos a los míos. Borges y su madre (que era una mujer de gran talento) eran enemigos del peronismo porque les parecía una forma del comunismo. Yo era enemigo del peronismo porque nunca me gustaron los gobiernos absolutistas y tiránicos. En cambio aplaudí la justicia social... y Borges no aplaude esa clase de cosas.»
 (Ernesto Sábato, entrevista a Joaquín Soler Serrano, in "Escritores a Fondo", Planeta, 1986)

sexta-feira, setembro 04, 2015

Besides, one lover is always more moved than the other.

(Saul Bellow, "Herzog")

quinta-feira, setembro 03, 2015

A NORA INEXISTENTE

Na entrevista dada a Joaquín Soler Serrano (in "Escritores a Fondo", Planeta, 1986), o escritor argentino Manuel Mujica Láinez recorda uma sessão de fotografia que teria protagonizado ao lado da mulher do filho de Hitchcock ("una mujer espléndida"), em Nova York, aquando da estreia da ópera baseada no seu romance "Bomarzo". O único e nada pequeno problema que a história levanta é este: Hitchcock não teve filhos, apenas uma filha.

Acto contínuo, pus-me a duvidar da veracidade dos restantes factos relatados na entrevista.

segunda-feira, agosto 31, 2015

A FIDELIDADE DOS OBJECTOS

«-Ah, sí; yo creo en los objetos

- ¿Más que en los seres humanos?

- Inclusive más que en los seres humanos. Creo que son más fieles. Los seres humanos pueden traicionarte, pero a los objetos los traicionamos nosotros.»

 (Manuel Mujica Láinez, entrevista a Joaquín Soler Serrano, in "Escritores a Fondo", Planeta, 1986)


quarta-feira, agosto 12, 2015

PORTANTO ERA ISTO

"Touro e criança", Pierre Bonnard, 1945

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

No Alfa Pendular, entre Lisboa e Porto:
  • um leitor lia "Mil Novecentos e Oitenta e Quatro", de George Orwell;
  • um leitor tinha à sua frente, pousado na mesa, o best-seller de Thomas Piketty "O Capital no Século XXI" (não consegui identificar a língua da edição);
  • uma imensa maioria de passageiros olhava para o ar, para as unhas ou para a paisagem a 200 km/h, sem livros entre mãos ou na vizinhança próxima.

segunda-feira, agosto 03, 2015

DESTINOS IRRECUPERÁVEIS

É que eu pertenço à classe de pessoas que não põem as letras entre os ofícios nobres, mas que as colocam a par dos destinos irrecuperáveis (...).

(Agustina Bessa-Luís, "Embaixada a Calígula".)

sábado, julho 25, 2015

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na linha amarela do metropolitano, um leitor lia um livro (não identificado) de José Gomes Ferreira. Refiro-me ao autor falecido em 1985 e colaborador da Presença e Seara Nova (como o comprovava a fotografia da contracapa que consegui avistar), e não ao omnipresente comentador de Economia da SIC.

Seja qual for o contexto, circunstâncias e ângulo de análise, a leitura de um livro de JGF no metro é algo que urge enaltecer.

sábado, julho 18, 2015

DO ODIOSO

Os episódios e intoxicações que se foram sucedendo na chamada "crise da dívida grega" foram pródigos em razões para ficarmos desmotivados, consternados e dubitativos quanto ao futuro do projecto europeu e à boa fé daqueles de cujas decisões este depende. Talvez nenhumas me tenham deixado tão indignado como aquelas que configuraram atitudes de revanchismo e escárnio, mais ou menos disfarçadas. Quando essas atitudes partem de cronistas inimputáveis ou de comentadores galhofeiros, a coisa tolera-se. O caso torna-se mais grave quando se trata de altos responsáveis, como é o caso do ministro das Finanças da Eslováquia:


terça-feira, julho 14, 2015

14 DE JULHO

Mais do que um símbolo, mais do que um virar de página, mais do que o princípio de tudo, mais do que História a fazer-se com estrondo e furor: tudo isso ao mesmo tempo.

Imagem retirada daqui.

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Um leitor lia um livro de Ödön von Horváth na linha verde do metropolitano. Pareceu-me tratar-se de "Casimiro e Carolina/Histórias do Bosque de Viena" (edição Cotovia).

Indiferentes a greves e concessões, os utentes do metropolitano continuam a ler e a fazer jus à reputação da linha verde.

domingo, julho 12, 2015

UM GOVERNO DE SENHORES

«Ya lo dije en un poema de un libro mío reciente: [la democracia] es un abuso de la estadística, y nada más.

(...)

No creo en la posibilidad de una democracia argentina.

(...)

Postergar las próximas elecciones unos trescientos o cuatrocientos años... La única solución es tener un gobierno fuerte y justo, un gobierno que gobierne, y un gobierno de señores y no de hampones.»

(Jorge Luis Borges, entrevista a Joaquín Soler Serrano, in "Escritores a Fondo", Planeta, 1986)

Sei que não devia, mas é mais forte do que eu: quando leio ou escuto uma opinião, emitida por alguém que admiro e com a qual discordo visceralmente, o efeito é parecido ao de uma ofensa pessoal.

(NOTA 1: "hampón": Se aplica a la persona que vive de forma marginal cometiendo acciones delictivas de manera habitual.)

(NOTA 2: A entrevista teve lugar em 1978 ou 1979, quando a junta de Jorge Videla estava no poder.)

terça-feira, julho 07, 2015

MARIA BARROSO (1925-2015)

A minha única recordação pessoal de Maria Barroso esteve ligada ao teatro. Em 2007, participei numa encenação amadora de "A Casa de Bernarda Alba", de García Lorca. Maria Barroso, que representara esta mesma peça décadas atrás, aceitou amavelmente o convite para vir assistir. No final, deixou-se ficar para dialogar com os membros do grupo. A sua espontaneidade, simpatia e generosidade cativaram-me, apesar da brevidade do momento.

De resto, acho notável que tenha protagonizado uma vida pública ao mesmo tempo tão longa, tão exposta e tão pobre em passos em falso, episódios lamentáveis ou tiradas infelizes. (Mas decerto que os profissionais da maledicência estão a fazer o que podem para corrigir a situação.)

Maria Amélia Aranda e Maria Barroso em "Benilde ou a Virgem Mãe", de Manoel de Oliveira (1974)

sábado, junho 27, 2015

COMO VAI O MUNDO

"Course de chevaux libres à Rome",  Théodore Géricault, c. 1817

segunda-feira, junho 22, 2015

MÊS MIRACULOSO

Folheio a "Cahiers du Cinéma" de Outubro de 2012. Contém críticas aos filmes "In Another Country", de Hong Sang-Soo, "O Gebo e a Sombra", de Manoel de Oliveira, "Damsels in Distress", de Whit Stillman, "Like Someone in Love", de Abbas Kiarostami e "Vous n'Avez Encore Rien Vu", de Alain Resnais. Mesmo para os padrões franceses/parisientes, chama-se a isto um mês de arromba.

Sabine Azéma e Pierre Arditi em "Vous n'Avez Encore Rien Vu", de Alain Resnais.

domingo, junho 14, 2015

Lo que yo creo que soy (o aspiro a ser) es un hombre honesto, que intenta pasar por este valle de lágrimas procurando hacer la puñeta a la menor cantidad de gente posible.

(Camilo José Cela em entrevista a Joaquín Soler Serrano, in "Escritores a Fondo", Planeta, 1986)

segunda-feira, junho 01, 2015

GREYISH EYES

Now when I recall her face it seems to me that there was something about the tension of the muscles over the fine bones of the skin which was like an instrument tautly strung. The greyish eyes had a sometimes limpid, sometimes wandering, sometimes laughing, concentration or distractedness.

(Descrição de Virginia Woolf em "World Within World", autobiografia de Stephen Spender.)

sábado, maio 30, 2015

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Dois leitores, dois livros, um só dia, uma só linha do metro (a amarela, que nunca foi nossa intenção menosprezar): "Duas Horas de Leitura", de Camilo Castelo Branco, e "A Utopia", de Thomas More (Tomás Morus na edição da Guimarães).

Já agora, a verdadeira Utopia seria a linha verde voltar a ter pelo menos 4 carruagens, acabando-se assim com os espectáculos degradantes de empilhamento humano e corridas esbaforidas quando se acede ao cais pelo lado errado. Mas é melhor não irmos por aí.

sábado, maio 16, 2015

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Méfiez-vous du jeune homme ou de la demoiselle qui devant vous sur le siège du métro s'absorbent sans pudeur dans la lecture d'un roman : cet obscène abandon aux plaisirs du livre les relègue déjà aux marges du corps social et de l'ordre établi. Ils risquent bien de vouloir un jour configurer le monde à leur fantaisie.

(William Marx, "Manies et lubies des érudits", Magazine Littéraire, Octobre 2012)

quinta-feira, maio 07, 2015

segunda-feira, maio 04, 2015

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na linha amarela, um leitor que parecia demasiado jovem para se preocupar com os arcanos morais de Raskolnikov lia "Crime e Castigo".

No cinema São Jorge, antes da projecção, um leitor lia "The Old Curiosity Shop", de Dickens. A leitura antes do cinema é um prazer demasiadas vezes negligenciado.

domingo, maio 03, 2015

SNOOKER

Este campeonato do mundo de snooker foi um rosário inédito de decepções e frustrações. Em todos os seis encontros dos quartos de final e meias-finais, o jogador que eu apoiava perdeu. Nunca uma final me deixou tão frio: Shaun Murphy, com quem antipatizo, defronta Stuart Bingham, um jogador ligeiramente menos excitante do que um cubo de cimento e que ainda por cima teve o desplante de eliminar o meu ídolo maior, o genial Ronnie O'Sullivan. Esperemos por tempos melhores.

sábado, maio 02, 2015

Ó LOVES K

O realizador Vicente Alves do Ó declarou ao "Metro" (29/4/2015) que os seus autores preferidos são Chekhov, Sophia e KLEIST. Fica a merecidíssima chapelada pelo excelente gosto. E até me arrependo de não ter visto o seu "Florbela".

domingo, abril 05, 2015

HOMENAGEAR

Qual a melhor maneira de homenagear Oliveira? Obviamente, vendo ou revendo os seus filmes, mas também (para aqueles a quem isso compete) tornando-os tão acessíveis quanto possível. Seria esplêndido que filmes tão poderosos como "O Passado e o Presente", "Amor de Perdição" ou "Francisca" fossem mostrados regularmente em salas, em vez de muito de vez em quando e quase sempre no mesmo sítio (Cinemateca).


quinta-feira, abril 02, 2015

DA GRANDEZA

Manoel de Oliveira. 1908-2015.

Foto retirada daqui: http://cinespoon.net

quarta-feira, abril 01, 2015

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na plataforma da estação do Campo Grande, uma leitora tinha na mão um exemplar de "O Processo", de Kafka. É certo que não o estava a ler, mas estes são tempos sombrios em que urge cumprir o ditado "tudo o que vem à rede à peixe".

terça-feira, março 17, 2015

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

No cais da estação Campo Grande, lado da linha amarela, sentido Rato: uma leitora lia "Austerlitz", de W.G. Sebald, de pé. Um bálsamo para a alma num dia lúgubre e chuvoso.

segunda-feira, março 09, 2015

FILMES DE 2014: DVDs

O que seria de nós sem os DVDs? (Pausa longa e intensa destinada a especulação silenciosa sobre o assunto.)

Os melhores DVDs que vi em 2014 foram (sem nenhuma ordem particular):

"Number Seventeen", Alfred Hitchcock. (Menosprezado pelo próprio Hitchcock e por Truffaut, mas delicioso e delirante, talvez o zénite da anti-verosimilhança.)



"The Story of Film", Mark Cousins. (Apesar de omissões imperdoáveis, como Rohmer e Moretti.)
"Dressed to Kill", Brian DePalma
"Kohayagawa-ke no aki"("End of Summer"/"Dernier Caprice"), Yasujiro Ozu.
"Exit Through the Gift Shop", Banksy.
"Savages", James Ivory. (Tremendamente datado, mas datou de forma interessante.)
"Love Is Colder than Death", Rainer Werner Fassbinder.
"The Conversation", Francis Ford Coppola. (Nunca viram? Vejam.)
"Tokyo Boshoku"("Tokyo Twilight"), Yasujiro Ozu.

quarta-feira, março 04, 2015

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

(Na desordem, nos últimos dias:)
  • Um livro de José Cardoso Pires (pareceu-me a "Balada da Praia dos Cães")
  • "A Festa da Insignificância", de Milan Kundera
  • "Lolita", de Nabokov
  • "Of Human Bondage", de W. Somerset Maugham
Tudo na linha verde do metropolitano, a minha zona de conforto.

domingo, março 01, 2015

DOZE ANOS DE IDADE

O umblogsobrekleist cumpre hoje 12 anos de actividade. Tem sobre o whisky a vantagem inestimável de não precisar de estagiar em cascos de madeira, para além de não pagar IVA, não afectar as capacidades cognitivas, não atacar o fígado e não interferir com medicação.

O segredo da longevidade deste blog é de uma simplicidade desconcertante e resume-se a isto: não temos objectivo, nem razão de ser, nem fundamento axiomático, nem seja o que for cujo esgotamento nos pudesse levar a equacionar pôr fim a esta engraçada aventura. Até mesmo o propósito inicialmente auto-assumido (discorrer sobre a vida e obra de Heinrich von Kleist, 1777-1811), foi varrido do caminho com toda a limpeza ao fim de poucas semanas.

E agora, um fotograma de "Céline et Julie Vont en Bateau", de Jacques Rivette (cujo aniversário calha também no dia de hoje), desde o primeiro dia nosso padroeiro oficioso e oficial.


domingo, fevereiro 22, 2015

FILMES DE 2014

Top 5 dos filmes vistos em sala em 2014. (Porquê 5? Nenhum motivo.) Omissões não significam necessariamente que não gostei, podem querer dizer que não vi (por exemplo, falhei "Cavalo Dinheiro").

A ordem é arbitrária.

"Her", Spike Jonze. (It grew on me. Muito mais ousado e poderoso do que pode parecer à primeira vista.)

"História da Minha Morte", Albert Serra. (Convoluído, misterioso e orgânico, tal como eu gosto.)

"Only Lovers Left Alive", Jim Jarmusch. (Um valor seguro.)

"La Jalousie", Philippe Garrel. (Outro valor seguro, tão incapaz de fazer um filme mau ou medíocre como Jarmusch.)



"Aimer, Boire et Chanter", Alain Resnais. (Entraria nesta lista de qualquer maneira, como obra de despedida de um dos maiores de sempre. Tratar-se de um filme sublime também vem a calhar.)



E AINDA: "Jeune & Jolie" (François Ozon), "A Vida Invisível" (Vítor Gonçalves), "João Bénard da Costa - outros amarão as coisas que eu amei" (Manuel Mozos), "20,000 Days on Earth" (Iain Forsyth e Jane Pollard), "Saint Laurent" (Bertrand Bonello), "Mr Turner" (Mike Leigh).

sábado, fevereiro 14, 2015

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Sentado a uma mesa, no Centro Comercial Colombo, um leitor lia "Os Demónios" de Dostoievski. Fica no ar a dúvida sobre se esta é a leitura ideal para o Dia de São Valentim.

terça-feira, fevereiro 10, 2015

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

PARA ALÉM DO FOLCLORE

Para quem não se satisfaça com o folclore (ah!, as gravatas e a sua ruidosa ausência), existem obviamente muitas fontes para acompanhar e compreender a situação grega. Não estou a pensar na imprensa tradicional, nem no Facebook, nem (deixem-me rir) no Twitter. Estou a pensar nos bons, velhos e negligenciados blogs. Por exemplo: este, este e este. Não concordo com tudo mas admiro a profundidade em tempos de falta dela.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

HISTÓRIAS DE EMBALAR

Assistir às reacções à vitória do Syriza nas eleições gregas tem sido das coisas que mais me tem divertido nos últimos tempos. A sofreguidão com que certos comentadores e certa imprensa descobrem os argumentos mais inverosímeis para exprimir o seu cepticismo chega a ser comovente. Ele é porque se aliaram à direita nacionalista, ele é porque não há mulheres entre os ministros do novo governo, ele é porque Tsipras não usa gravata e Varoufakis usa a camisa por fora das calças (sinal inequívoco de incompetência financeira, ao contrário de Vítor Gaspar, um exemplo de compostura que... esperem - péssimo exemplo), ele é porque são radicais, ele é porque já moderaram as suas opiniões, ele é porque não querem que o financiamento aos bancos gregos seja suspenso (como se pessoas de esquerda, ainda por cima radical, se interessassem pela sorte dos malandros dos bancos!), ele é porque afinal já não querem o "haircut" e pedem apenas um pagamento da dívida a ritmo mais moderado... Abriu a caça ao disparate. Mais do que qualquer outra coisa, este espernear sugere-me que alguma coisa poderá estar prestes a mudar na Europa - para melhor.

Pedro Passos Coelho faz parte dos valorosos caçadores que gastam as suas munições, um pouco à toa, contra um inimigo que manifestamente não conhecem. No rescaldo imediato das eleições, veio qualificar as ideias políticas do Syriza de "histórias de crianças". Seja. Aliás, os tempos que correm são fartos em contos de embalar que farão certamente as delícias da petizada nas próximas gerações. É fácil visualizar os pais e avós vindouros a contar aos seus filhos e netos a história da austeridade expansionista, a história da redução obsessiva dos custos do trabalho e o conto medonho e aterrorizador das reformas estruturais,

sábado, janeiro 17, 2015

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

No mesmo dia: de pé, num cais da linha amarela do metropolitano, uma leitora lia "O Mito de Sísifo", de Camus; na estação de Telheiras, um leitor lia um livro não identificado de Tolstoi enquanto caminhava. Em Portugal, os leitores em lugares públicos não são muito numerosos mas demonstram invariavelmente um excelente gosto.

segunda-feira, janeiro 12, 2015

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Numa mesa de uma esplanada da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, jazia um exemplar de "O Anticristo", de Nietzsche. Não estava a ser lido, mas tinha uma página marcada de forma ostensiva.

domingo, janeiro 11, 2015

terça-feira, janeiro 06, 2015

NÃO HAVIA DINHEIRO?

No meio da massa asfixiante de propaganda, distorções, lendas e narrativas, meias verdades e histórias da carochinha que ganha espaço todos os dias e que ameaça tornar-se a língua franca de todos os meios de informação, cada vez mais aqueles que mais merecem a minha admiração são aqueles que gastam algumas parcelas do seu tempo e energia para desmontar mitos.

Aquela imagem patusca, levada a sério por muitos, da ausência de dinheiro nos cofres do Estado nos dias mais críticos de 2011 (é impossível não imaginar uma cofre gigantesco, digno do Tio Patinhas, completamente vazio à excepção de umas teias de aranha e um invólucro de rebuçado) é uma imagem tenaz. Só não lhe chamo ingénua porque é peça integrante de uma certa agenda política. Honra àqueles que insistem em colocar os pontos nos is e trazer um pouco de sanidade para o debate:

Dos mitos orçamentais em Portugal: a look back to 2011

Dinheiro da troika não foi "para pagar salários e pensões"



domingo, janeiro 04, 2015

PÉROLAS DA PARIS REVIEW

He [Lawrence Durrell] writes in a room without windows, with notices of his work in foreign languages he cannot understand pinned to the bookcase.

(...)

LAWRENCE DURRELL: I suffer from terrible nausea about my own work, purely physical nausea. (...) When the proofs come back I have to take an aspirin before I can bring myself to read it through. (...) Perhaps when one day I get something I really do like, I won't have to take aspirin.

quinta-feira, janeiro 01, 2015

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

No Alfa Pendular, entre Lisboa e o Porto, um leitor tinha à sua frente "O Medo", de Al Berto. Não o estava a ler, mas assinalar a simples presença desta obra numa carruagem que se deslocava a 200 à hora de Sul para Norte pareceu-me ser uma obrigação moral, assim como um acto compatível com a essência desta rubrica.

FELIZ ANO NOVO

Respeitando o espírito e a letra da mensagem de Ano Novo do Senhor Presidente da República, evitarei fazer promessas irreflectidas. Não prometo, pois, actualizar este blog com menos parcimónia em 2015. Escreverei ao sabor das circunstâncias, mas sempre após profunda reflexão, e na altura certa, e escolhendo as palavras. Desejo a todos os leitores um ano de 2015 repleto de coisas alegres, coisas belas, coisas venturosas.

segunda-feira, dezembro 08, 2014

1 E 8 DE DEZEMBRO

Como poucos o ignoram, celebrou-se no passado dia 1 a Restauração da Independência de Portugal, ocorrida em 1640. Hoje, dia 8, celebra-se um dogma católico definido pelo papa Pio IX em 1854. O dia de hoje foi feriado nacional; o dia 1, por decisão do actual Governo, não o foi. Uma maior aberração seria difícil de engendrar, mesmo por desígnio.

Queria no entanto deixar claro que o pecado original e irremível, neste caso, reside na decretada abolição dos feriados sem qualquer outro argumento que não fosse a banal e infundamentada convicção de que "Portugal tem feriados a mais" e não suportada por quaisquer estudos vindos a público. A discussão sobre se o feriado A deveria ter sido sacrificado em benefício do feriado B é secundária.

Afirmar que a História julgará aqueles que perpetraram este dislate implica atribuir-lhes importância desmesurada. A História raramente se debruça sobre os medíocres, sobre os oportunistas, sobre aqueles que se põem em bicos de pés para acrescentar um ou dois centímetros aos seus horizontes estreitíssimos.

domingo, outubro 26, 2014

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Três jovens leitoras passavam de mão em mão uma edição económica de "Gulliver's Travels", e comentavam o livro enquanto o faziam. Tudo isto se passou no cais da estação de metro do Campo Grande. Por ser verdade, fica aqui escrito.

segunda-feira, outubro 13, 2014

DA SÉRIE "FRASES QUE NUNCA FORAM PRONUNCIADAS EM VOZ ALTA NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE" (INSPIRADO POR CONAN O'BRIEN)

Uau, os resultados do trabalho desta comissão parlamentar de inquérito superaram as minhas expectativas!

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

No metropolitano de Lisboa, uma leitora brandia "O Complexo de Portnoy"; não o estava a ler, mas parecia prestes a lê-lo ou tê-lo lido num passado recente.

Philip Roth não ganhou o Nobel, mas parece bem lançado para conquistar os corações dos passageiros da linha verde!

domingo, outubro 05, 2014

VIVA A REPÚBLICA!!!


LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na linha amarela do metropolitano, um leitor lia o "Kafka" de Deleuze e Guattari. De pé, debaixo da terra e a grande velocidade. Quem lê assim uma vez nunca mais quer outra coisa.

sábado, setembro 06, 2014

SÓ O CINEMA

Tento recordar-me do nome da actriz principal de "The Woman in the Window", de Fritz Lang. Fracasso. Poucos minutos depois, leio uma referência a essa mesma actriz no livro que estou a ler ("Combat Avec l'Ange", de Jean Giraudoux). Uma coincidência pode não chegar para salvar um dia, mas pode dar um empurrãozinho.
Joan Bennett e Edward G. Robinson em "The Woman in the Window", de Fritz Lang (1944)

quinta-feira, agosto 07, 2014

A um momento de fraqueza deve seguir-se um momento de firmeza. Isto tem a ver com dignidade, não com qualquer equilíbrio cósmico.

PÉROLAS DA PARIS REVIEW

PHILIP ROTH: If you ask if I want my fiction to change anything in the culture, the answer is still no. What I want is to possess my readers while they are reading my book - if I can, to possess them in ways that other writers don't. Then let them return, just as they were, to a world where everybody else is working to change, persuade, tempt, and control them.

domingo, agosto 03, 2014

Há sonhos tão divergentes da realidade que parecem implicar a existência de um argumentista, cruel e incisivo mas também dotado de um sentido de humor singular.

terça-feira, julho 22, 2014

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na linha amarela do metropolitano, uma leitora lia "Orgulho e Preconceito", de Jane Austen. Ia no capítulo 47, pelo que já se deve ter apercebido de que Mr Darcy é afinal um ser humano decentíssimo e que Mr Wickham é um desprezível estouvado.

terça-feira, julho 15, 2014

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Um leitor lia "Dormir au Soleil", tradução francesa de "Dormir al Sol", de Adolfo Bioy Casares. Foi numa esplanada perto da estação do Rossio.

Voltando a terrenos de caça mais costumeiros: na linha verde do metropolitano, um leitor lia "Ecce Homo", de Nietzsche.

Curiosamente, um autor argentino e outro alemão, a poucos dias da final do Mundial. Quem me convencer de que se trata de mera coincidência poderá gabar-se de ser um mestre na subtil arte da argumentação.

segunda-feira, julho 14, 2014

14 JUILLET

Há exactamente dois séculos e um quarto, o mundo (re)começou.


segunda-feira, julho 07, 2014

RESPOSTA

«A felicidade não tem nada a ver com isso» é uma excelente resposta que se adequa a muitas perguntas e muitas ocasiões.

domingo, julho 06, 2014

O ESTADO DO MUNDO

Da série "Prélude au hors champ", Olivier Christinat

FORAM-SE EMBORA

O que fazer quando o melhor blog português se auto-aniquila? Três sugestões:

  • Rasgar as vestes.
  • Agradecer à C. e ao Rui por tantos momentos tão fortes, tão belos, tão alheios ao conformismo intelectual e à banalidade que alastram algures, como uma epidemia.
  • Saudar o novo blog do Rui.

terça-feira, junho 17, 2014

O QUE IMPORTA REALMENTE NA VIDA?

Pouca coisa. Amor, sabedoria, compaixão, livros, música. E também os morangos da Estíria.

© LJH Schießstattgasse

terça-feira, maio 13, 2014

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na linha verde do metropolitano, uma leitora lia "O Amante do Vulcão", de Susan Sontag.

Na linha amarela, uma leitora diferente lia uma biografia de Marcel Proust.

O que faz falta é espreitar as leituras da malta nos lugares públicos e depois contar tudo no blog.

terça-feira, maio 06, 2014

PORTANTO É ASSIM

Portanto, estamos assim: um presidente da República que recorre ao Facebook para ajustar contas e para troçar daqueles que, do seu ponto de vista, não partilham da sua suprema clarividência devidamente vertida em letra de imprensa nos seus famigerados prefácios.

Às vezes, penso que o próximo Presidente terá pela frente uma tarefa hercúlea de recuperação da credibilidade desta instituição e do cargo de magistrado supremo da nação.

Outras vezes, concluo que a tarefa do próximo Presidente será invulgarmente simples. Quem vier na esteira de Cavaco Silva surgirá inevitavelmente, por comparação, como um grande estadista pleno de sentido de responsabilidade e de sensatez, faça aquilo que fizer.

sábado, abril 26, 2014

COMO ESTÁ O MUNDO

"Haeres", Geneviève Asse (1977)

(a minha Avó faria hoje 100 anos se fosse viva; penso nela vezes sem conta, sempre com tantas, tantas saudades)

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na linha verde do metropolitano, um leitor lia a antologia "Um Homem Célebre", de Machado de Assis.

No cais da estação Campo Grande, e subsequentemente na mesma linha verde (sentido Telheiras), uma leitora lia "Manhã Submersa", de Vergílio Ferreira.

Da minha língua vê-se a 2ª Circular, o Hospital de Santa Maria e o Estádio Alvalade XXI.

quinta-feira, abril 17, 2014

segunda-feira, março 31, 2014

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na linha vermelha do metropolitano, em dias diferentes, um leitor lia "Os Irmãos Karamazovs", de Dostoyevsky, e uma leitora lia "O Monte dos Vendavais", de Emily Brontë. E faziam bem. Sem os clássicos não se chega a lado algum. Ou, se se chegar, chega-se de forma trôpega, enviezada e laboriosa.

domingo, março 23, 2014

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

A vida de um observador de leituras em lugares públicos tem dias vazios, dias menos bons, dias satisfatórios e, muito esparsamente, dias mágicos que compensam toda a apagada e vil tristeza dos demais. O dia de hoje foi um desses dias.

Na linha vermelha do metropolitano, um leitor lia um livro do poeta suíço Philippe Jaccottet, da colecção de poesia da Gallimard. Pareceu-me ser este:


O leitor, ao fim de alguns versos, alheou-se da leitura e bocejou. Mau sinal? Prefiro acreditar que se tratou de uma simples pausa, tempo concedido a um poema para revelar todo o seu poder.

sábado, março 22, 2014

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na linha verde do metropolitano, a hora bem matutina, uma leitora lia "A Náusea", de Jean-Paul Sartre.

O existencialismo é deveras um humanismo, e em nenhum outro lugar essa verdade brilha com tanto esplendor como numa carruagem do Metropolitano de Lisboa povoada de passageiros a caminho dos seus destinos.

terça-feira, março 11, 2014

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na mesma carruagem, na linha verde do metropolitano, a um punhado de metros um do outro, um leitor lia Pepetela ("Jaime Bunda") e uma leitora lia "A Origem da Tragédia", de Nietzsche.

Ó, linha verde do metropolitano, que albergas no teu confortável bojo leitores e leituras tão diversas, dia após dia!

quinta-feira, março 06, 2014

domingo, março 02, 2014

ALAIN RESNAIS (1922-2014)

Desde que me familiarizei com a sua obra, nunca duvidei de que Alain Resnais era um dos maiores, mais criativos e mais inteligentes cineastas do século XX. A sua longevidade e a sua actividade contínua na recta final da cadeira fizeram dele também um dos realizadores mais surpreendentes do início do século XXI. Da sua obra tão longa e densa, destaco os meus favoritos: "Hiroshima Mon Amour" (tão poderoso hoje como há cinquenta anos), "L'Année Dernière à Marienbad", "Providence", "Mélo", "Smoking/No Smoking" e "Les Herbes Folles".

Palpita-me que Resnais nunca terá perdido um minuto da sua vida a ruminar algumas das críticas absurdas e recorrentes que lhe foram sendo dirigidas: a crítica de que a sua obra valia o que valiam os argumentistas e escritores com quem colaborou (foram muitos e excelentes, mas Resnais esteve longe de ser um ilustrador, nunca os seus filmes deixaram de acrescentar algo aos textos, de os reinventar, de sobre eles construir algo de novo); a crítica de que os seus filmes dependiam em demasia dos talentos dos actores (mas como negar que Sabine Azéma, Pierre Arditi, André Dussollier, Delphine Seyrig e tutti quanti tiveram com ele alguns dos seus melhores papéis, e que isso se deveu em grande medida à sagacidade e sensibilidade do realizador?).

Fica - como lhe compete - a obra. Filmes imensos, mas sobretudo filmes que nunca hesitam em desafiar a inteligência do espectador.

Obrigado por tudo, obrigado por tanta coisa duradoura.

André Dussollier, Sabine Azéma e Pierre Arditi em "Mélo" (1986)


 NOTA: Recomendo a leitura deste notável obituário de Jacques Mandelbaum.

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Linha verde do metropolitano. Uma leitora lia "As Velas Ardem Até ao Fim", do consagrado romancista húngaro Sándor Márai.

E hoje mais não digo, porque é dia de luto (ver post seguinte).

sábado, março 01, 2014

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na estação de metropolitano de Telheiras, um leitor lia "O Fio do Horizonte", de Antonio Tabucchi, enquanto caminhava na direcção dos canais de saída.

As actividades de leitura e ambulatória são de duvidosa compatibilidade mútua, embora isso dependa fortemente de numerosos factores e condicionalismos. Uma monografia de minha autoria sobre este tema espera apenas, para vir a lume, a altura certa.

quinta-feira, fevereiro 27, 2014

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Um leitor lia contos de Eça de Queiroz, de pé, no cais da estação de metropolitano do Campo Grande (linha amarela, sentido Rato).

Ignoro se lia por prazer, por obrigação escolar ou por outro motivo. Pouco importa. Todos os pretextos e razões são bons para ler Eça de Queiroz, sem qualquer excepção.

domingo, fevereiro 23, 2014

PÉROLAS DA PARIS REVIEW

INTERVIEWER: How about the Beats? Someone like Jack Kerouac, for instance, who died a few years ago?

P.G. WODEHOUSE: Jack Kerouac died! Did he?

INTERVIEWER: Yes.

P.G. WODEHOUSE: Oh... Gosh, they do die off, don't they?


(...)


P.G. WODEHOUSE: No. He [Somerset Maugham] was all right to me. We got along on just sort of "how do you do" terms. I remember walking back from a cricket match at Lords in London, and Maugham came along on the other side. He looked at me and I looked at him, and we were thinking the same thing - Oh my God, shall we have to stop and talk? Fortunately, we didn't.

(The Paris Review Interviews, Vol. 4)

sábado, fevereiro 22, 2014

A FLORA DA ÁFRICA DO SUL, INIMIGA DO ERÁRIO PÚBLICO

Vivemos tempos muito interessantes, tempos em que, do cidadão comum aos mais altos magistrados, se hesita cada vez menos em proclamar alto e bom som aquilo que vai na alma. As fasquias do pudor, da decência e da razoabilidade andam numa roda-viva.

A senhora deputada do PSD Maria José Castelo Branco acha que o estudo das espécies vegetais na África do Sul não é um tema "premente", deixando subentendido que financiar um pobre bolseiro que se dedique a essa actividade de lunáticos é contrário ao Bem da Nação.

Há uns anos, a candidata à vice-presidência dos EUA Sarah Palin apresentou o financiamento estatal para investigação sobre "fruit fly" como o zénite do desperdício de dinheiros públicos. (Ao que parece, referia-se à "mosca-da-azeitona", e não à arqui-conhecida Drosophila, mas isto não torna menos indesculpável a sua falta de cultura científica e populismo.)

Maria José Castelo Branco terá ainda muito que penar até alcançar este nível de ignorância, mas revela-se claramente uma adversária capaz de dar luta.

Felizmente, recebeu resposta à altura (vale a pena ver o vídeo até ao fim).

Ler também: "o PSEM"

domingo, fevereiro 16, 2014

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na linha vermelha do metropolitano, uma leitora lia contos de Machado de Assis.

Neste mundo conturbado, ler Machado de Assis é ainda uma das acções mais sensatas a que nos podemos entregar.

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

ESTATISMO E TOLERÂNCIA

Os sinais exteriores de desalinhamento com a realidade podem ser espalhafatosos ou quase invisíveis de tão discretos. No caso de João Carlos Espada, esses sinais disfarçam-se de bom senso e de serena consciência civilizacional.

«Não é difícil encontrar inúmeros exemplos recentes desta atitude estatista. Nos últimos meses, assistimos a um regresso do estilo revolucionário do PREC a propósito do famoso “corte brutal” das bolsas da FCT. Mas não ouvimos qualquer proposta para diminuir a dependência das instituições de investigação relativamente a verbas governamentais. Também as universidades protestam contra a redução da sua parte do Orçamento do Estado. Mas também não ouvimos qualquer proposta para aumentar as receitas próprias, designadamente através do aumento das propinas — as actualmente cobradas são puramente simbólicas — e da criação de um vasto sistema de bolsas de estudo para quem precisasse.»

A ausência de propostas "para diminuir a dependência das instituições de investigação relativamente a verbas governamentais" só existiu na mundividência muito particular de JCE: não têm faltado essas propostas, e aliás muitas delas têm sido postas em prática ao longo dos anos, de tal modo que o aumento da percentagem das receitas próprias no financiamento das instituições de investigação e de ensino superior portuguesas é uma realidade continuada. Porém, o mais sugestivo aqui é a conclusão imediata de JCE: esta suposta falta de propostas revela "atitude estatista" e configura uma "ameaça à tolerância". Não parece passar pela cabeça de JCE que, se escasseiam as vozes apologistas de um (ainda) maior desinvestimento público na ciência e na investigação, talvez isso se deva a um consenso generalizado no sentido de esse desinvestimento ser uma coisa má e nefasta, sobretudo para um país fragilizado economicamente, no qual a aposta na inovação e no conhecimento deveria ser parte da solução.

(Vou passar em claro o qualificativo de "simbólico" aplicado às propinas cobradas actualmente pelas universidades portuguesas. Aqui já não se trata de alienação: estamos com os pés bem plantados no terreno da provocação e da injúria dirigida a todos os estudantes e encarregados de educação que sofrem privações para pagar essas propinas "simbólicas", ou que desistem dos cursos devido a incapacidade financeira. Ah, e esse "vasto sistema de bolsas de estudo" para a malta mais pobretanas que insiste em estudar já existe; mas não chega e deveria funcionar melhor.)

A frase final é elucidativa sobre o estado de coisas que, na óptica de JCE, seria um paraíso na terra, do qual apenas a "falta de tolerância" e a "atitude estatista" dos cidadãos nos separa, e que para mim se assemelha a uma distopia tenebrosa.

«Muitas iniciativas diferentes, frequentemente rivais, podem florescer e coabitar sem guerra civil — isso é possível porque basicamente cada uma depende dos seus próprios apoiantes, não da imposição coerciva sobre os impostos e a opinião dos outros.»

Ou seja: iniciativas, causas, apoios, dependeriam da capacidade dos seus proponentes em fazer um "marketing" compatível com a angariação de fundos suficientes. O Estado, enquanto emanação representativa da vontade de um povo, perderia o poder efectivo de promover a igualdade e a justiça social por via do orçamento. A sociedade estaria entregue às movimentações espontâneas, à popularidade das causas, à arbitrariedade. Não, obrigado. Assinado: um estatista intolerante. 

sábado, fevereiro 08, 2014

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na linha amarela do metropolitano, um leitor lia Camilo José Cela, em versão original. Apesar dos meus melhores esforços, não consegui identificar a obra. Eis dada a machadada definitiva na teoria de que Cela foi um prémio Nobel imerecido.

Na linha vermelha, um outro leitor lia "Pão com Fiambre", de Bukowski, na edição da Ulisseia. Livros com nome de comida são uma das coisas que tornam suportável e interessante a condição de estar vivo.

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na sempiterna linha verde do metropolitano, um leitor lia a "Crónica da Vida Lisboeta", de Joaquim Paço d'Arcos. Pareceu-me tratar-se do volume I da edição da Guimarães ("Ana Paula"/"Ansiedade"), mas não fiquei com a certeza absoluta.

Ver alguém a ler Joaquim Paço d'Arcos no metro é mais ou menos como ver alguém a ler Sá de Miranda num A380 a quarenta mil pés de altitude. É um choque entre dois mundos.

domingo, fevereiro 02, 2014

PHILIP SEYMOUR HOFFMAN (1967-2014)

Ver partir tão cedo um talento deste calibre causa dor e traz um sentimento de desperdício. Desapareceu um dos maiores actores da sua geração. As recordações mais imediatas e mais fortes que tenho do trabalho dele são dos filmes "The Master", "Capote", "Happiness" e sobretudo "Synechdoque, New York". Neste último, um dos filmes mais ousados e complexos dos últimos anos, assim como nos restantes, o desempenho de Philip Seymour Hoffman oscilava invariavelmente entre o excelente e o genial.

Philip Seymour Hoffman em "Synechdoque, New York", de Charlie Kaufman