quinta-feira, novembro 29, 2007
XADREZ: Para que um xadrezista português mereça algum destaque na imprensa generalista é necessário que o feito seja pouco menos que colossal. E foi o que aconteceu desta vez, com o desempenho notável de Ruben Pereira, que se sagrou vice-campeão mundial de sub-16 (com os mesmos pontos do vencedor), no recente campeonato disputado em Kemer-Antalya, na Turquia.
Ruben Pereira é sem dúvida a maior esperança de um xadrez português que tarda em renovar-se, mau grado numerosas iniciativas de promoção e incentivo à modalidade, sobretudo ao nível das escolas. É difícil lutar contra a indiferença da comunicação social e contra a incipiente implantação do xadrez na sociedade portuguesa.
Leitores habituais deste espaço estarão naturalmente desejosos por se inteirarem do resultado da goesa Ivana Maria Furtado, e é com indisfarçável gáudio que informo que ela triunfou, isolada, na categoria feminina de sub-8 anos. Em sub-18, a sua compatriota Mary Ann Gomes guindou-se a um honroso 6º lugar.
POST DE RODAPÉ: A propósito do Magdalen College, afiançaram-me um dia que a pronúncia correcta do seu nome é qualquer coisa como "Maudlin", ao passo que o nome da rua Magdalen Street, esse, deve ser pronunciado de forma mais ortodoxa ("Mag-da-len", como se escreve).
Existe um parque de grande beleza, povoado por veados, adjacente ao Magdalen College.
QUIZ SHOW: Sou fã do concurso "University Challenge", uma instituição da televisão inglesa cuja primeira emissão remonta a 1962 (com um interregno de 7 anos pelo meio). Trata-se de um concurso de cultura geral, com a particularidade de ser disputado por equipas compostas por alunos de uma mesma universidade. São duas as características que fazem sobressair este concurso dos demais: a grande exigência das perguntas e o modo directo e pragmático como elas são colocadas, sem lugar para conversas de salão nem para dispensáveis minudências autobiográficas.
Na última sessão a que assisti, uma das perguntas era qualquer coisa como: «Qual o nome do escritor francês experimentalista autor do maior palíndromo conhecido em língua francesa?». Após algumas hesitações, e de alguém ter murmurado "Queneau" em tom dubitativo, o jovem concorrente da Universidade de Birmingham (que, por sinal, foi derrotada ingloriamente pelo Magdalen College de Oxford) pronunciou, quase a medo, a resposta correcta: "Perec".
Foi um momento de televisão muito bonito.
quarta-feira, novembro 28, 2007
segunda-feira, novembro 26, 2007
PASSEANDO POR CAMBRIDGE: Passeando pelas ruas e lojas de Cambridge, o cidadão atento presencia cenas que merecem menção pela sua suculência inaudita.
Por exemplo, num estabelecimento de restauração rápida de Regent Street uma jovem contava a uma amiga o enredo do romance "The Line of Beauty", de Alan Hollinghurst (ou talvez da série da BBC nele baseada). Por entre o ruído denso e tenaz que os convivas produziam, escutavam-se frases como "he was a Tory MP" e "what it was like being gay in the eighties".
Na opulenta livraria Heffers, duas mulheres riam com juvenil franqueza diante de uma antologia do poeta John Betjeman, aberta sem dúvida num qualquer poema de elevado teor cómico.
Nada disto se compara ao homem que, dentro de um caixote do lixo público, cantava "I'm Like a Bird", de Nelly Furtado, acompanhando-se à guitarra. Foi há cinco anos, nesta mesma cidade. Eram outros tempos, mais loucos, mais eufóricos.
terça-feira, novembro 20, 2007
quarta-feira, novembro 14, 2007
POLICHINELO EM EAST ANGLIA: Estou a postar de uma cidade cujo nome começa por "Cam" e acaba em "ridge", e cuja universidade é uma das mais famosas do mundo. Precisam de mais alguma pista? Há corvos no cimo das árvores, cogumelos exuberantes e um restaurante vegetariano onde servem um tajine com batatas doces ao qual nenhum adjectivo mais brando do que "celestial" faz jus.
domingo, novembro 04, 2007
ESCOLA PÚBLICA (2): Por vezes, fico com a ideia de que certos cronistas da imprensa portuguesa se entregam a uma espécie de concurso, que consiste em escrever os mais inacreditáveis contra-sensos sem perder a compostura.
A não ser que, em vez de um concurso, se trate de um exercício espiritual, à maneira dos de Santo Inácio de Loiola, o que constituiria certamente uma atenuante, visto tratar-se de uma tentativa de auto-aperfeiçoamento.
No "DN" de ontem, por exemplo, João Miranda escreve:
«Um sistema público de educação acaba sempre por ficar refém de interesses particulares.»
Preto no branco, e logo a abrir a crónica. Pouco adiante, faz questão de especificar:
«Fica refém dos grupos com poder político (sindicatos dos professores, grupos religiosos, partidos políticos, burocratas) que conseguem colocar os recursos públicos ao serviço dos seus interesses.»
Sucede amiúde que uma crónica que abre com uma asserção aparentemente tão indefensável acabe por revelar uma lógica interna perfeitamente válida. No caso deste artigo, essa lógica é até das mais límpidas, embora não seja levada até às suas últimas consequências. Parece inegável que certos grupos têm o poder e a margem de manobra para co-optar o ensino público, e que nele encontram um caldo de cultura para as suas agendas e interesses. Não é por não reflectir a realidade que a primeira frase desta crónica é absurda e chocante. É por omitir que, num sistema de ensino dominado por instituições privadas, esses mesmos sectores, interesses e grupos já não precisariam sequer de tomar o ensino como refém: seriam livres para vicejar, para criar as suas esferas de influência, para competir pela oportunidade de influenciar mentalidades, para impor as suas mundividências na maior das legalidades e normalidades.
ESCOLA PÚBLICA (1): Pois é, uma das consequências de ler blogs é a segurança de, mais cedo ou mais tarde, encontrarmos alguém que exprimiu com rigor e fluência precisamente aquilo que pensamos sobre um determinado assunto. Assim se desencoraja um cidadão de perder tempo e energia a procurar exprimir-se pelas próprias palavras. Não está certo.
No caso mais recente, o alguém é Vital Moreira, o assunto é o (já irritante mas nem por isso menos crucial) debate escola pública/escola privada, e o aquilo é isto.
Transcrevo parte da última frase, que me parece merecer ênfase:
«(...) um Estado laico deve financiar um ensino público aberto e plural, como forma de inclusão social e de igualdade de oportunidades, e não um ensino segregado de acordo com orientações religiosas ou filosóficas particulares.»
Este aspecto tem vindo a ser deixado pudicamente de lado, mas nunca deixa de estar presente, ainda que de forma latente. Se se consumasse o desmantelamento da escola pública, ou uma sua menorização, que autoridade teria o Estado para impor programas e currícula uniformemente aplicáveis a todos os estabelecimentos de ensino? Que garantia teríamos de que facções comunitárias, religiosas ou ideológicas não passariam a moldar os programas leccionados, de acordo com as suas agendas particulares?
PARMI NOUS: Recente overdose de Godard, entre outros efeitos secundários menos verbalizáveis, permitiu-me constatar que a frase "Les Signes Parmi Nous" (utilizada como título de um capítulo das "Histoire(s) du Cinéma") é pronunciada também nos filmes "Deux ou Trois Choses que Je Sais d'Elle" e "JLG JLG Autoportrait de Décembre".
MAIS UMA QUE MORDE O PÓ: Agradeço aos blogs O Vermelho e o Negro, O Blogue Que Muda de Nome, e Errância terem-me passado o testemunho da original corrente "página 161", ignorando talvez a minha incurável propensão para cercear sem dó todos os memes em cadeia que me passam pelas mãos. É verdade, o 1bsk possui um historial de interromper correntes já crescidote. Somos a Pasionaria das correntes. No pasarán! Para além de as interromper, raramente hesito em subvertê-las. No caso desta, já de si tão arbitrária, não me ocorreu uma subversão com um mínimo de salero, pelo que me limito a cumprir as regras, com a brandura com que se fazem as últimas vontades a um moribundo.
Pego no livro que está mais próximo: é "Northwest Italy", de Dana Facaros e Michael Pauls, da série de guias turísticos Cadogan.
Abro-o na página 161: dito e feito.
Transcrevo a 5ª frase completa: «There's also plenty of less piquant seafood, too (L40-55 000, closed Mon).»
Introduzo uma breve contextualização, que não era pedida mas que me parece oportuna. A frase supra diz respeito ao restaurante "Gambero Rosso" (Piazza Marconi, 16), situado na cidade de Vernazza, na Ligúria. O prato em comparação com o qual a outra comida é menos picante é tegame di acciughe, à base de anchovas.
Por fim, chega a altura de não passar a corrente a outros 5 blogs. Em contrapartida, tenho entre mãos uma infalível oração a S. Judas Tadeu, que enviarei ainda hoje a 90 confrades, acompanhada por sinistras ameaças aos não cumpridores.
quinta-feira, novembro 01, 2007
OBJECÇÃO: Discordo, Ricardo. Um mundo em que a objecção de consciência seja evocada por dá cá aquela palha parece-me pregnante de excitantes potencialidades. Regra geral, a objecção de consciência, nos tempos que correm, é evocada por minorias ou nichos comunitários/religiosos, que brandem as suas sensibilidades beliscadas e princípios feridos para justificar a recusa de cumprir leis ou normas que a sociedade civil lhes impõe. Mas isto não tem de ser assim! Teria o seu quê de estimulante ver membros dessa mesma sociedade civil a recorrer à objecção de consciência, como reacção a situações que lhes parecessem atentatórias da legalidade, em particular concessões abusivas a sectores religiosos.
Por exemplo:
- funcionários da Presidência República em greve de zelo devido à presença de figuras da hierarquia católica no protocolo do Estado;
- professores recusando-se a ensinar em salas de aulas enfeitadas com crucifixo;
- funcionários da RTP negando-se a colaborar em transmissões em directo da procissão das velas e na transmissão da mensagem de Natal do cardeal, aos gritos de "Serviço público sim, catequese não!";
- médicos e funcionários de hospitais públicos recusando-se a entrar em quartos onde estivesse presente, em clara violação do princípio da neutralidade religiosa, um capelão assalariado pelo Estado.
Pessoalmente, eu apoiaria todas estas acções.
E você, caro leitor, já praticou hoje algum acto de objecção de consciência?
DOIS EM UM: "Peindre ou Faire l'Amour" é um filme, realizado pelos irmãos Arnaud e Jean-Marie Larrieu, que recentemente passou pelas salas lisboetas. Por uma vez, a tradução do título em português foi o mais literal e o menos fantasista possível: "Pintar ou Fazer Amor". Talvez como reacção a esta sensaboria, quem inseriu o título no bilhete emitido pelo cinema King achou por bem introduzir uma genial variante pessoal:
Pintar ou fazer amor? A necessidade de escolher entre duas alternativas mutuamente exclusivas será, na verdade, incontornável? Para quê atormentar o espírito com um falso dilema? Não tem sido o cinema, desde 1895 e a entrada do comboio na gare de La Ciotat, uma porta aberta para o sonho e para a ousadia?
sábado, outubro 27, 2007
JÁ FUI AO BRASIL, PRAIA E BISSAU...: A campeã do mundo de xadrez da categoria de menos de 8 anos é indiana, e chama-se Ivana Maria Furtado.
UM TEMPO PARA VER OS QUADROS E UM TEMPO PARA ESPERAR PELA SUA VEZ: «Nesses museus, salvo para aceder a grandes retrospectivas, em regra com entrada autónoma, ninguém espera mais de dez minutos para comprar o bilhete e entrar.» Assim escreve Eduardo Pitta, referindo-se aos museus Met, MoMa, Tate, National Portrait Gallery, Louvre, Orsay, Prado e Thyssen.
Pronuncio-me apenas sobre os três que conheço (omitindo o Prado, que visitei apenas na minha infância): a Tate é de acesso gratuito, o que não pode teixar de ter um efeito benéfico na fluidificação do tráfego de visitantes; o acesso ao Louvre pode acarretar uma experiência frustrante e morosa para quem não esteja a par da existência de entradas alternativas, por exemplo a da estação de metro Palais Royal Musée du Louvre; quando ao Museu de Orsay a fila de espera costuma ser longa e coriácea, o que me leva a conjecturar que o autor das linhas acima o terá visitado em época baixa, ou num dia em que um qualquer evento aglutinador do interesse popular roubou público aos museus de Paris.
quinta-feira, outubro 18, 2007
HUMANUM EST: A Errata da "Carta sobre os cegos para uso daqueles que vêem", de Denis Diderot (Vega, 2007) encerra ousadias pouco comuns neste sub-género. Por exemplo:
página 120: onde se lê "Ena" deve ler-se "Epicurismo na"
Ninguém se atreverá a questionar a utilidade desta Errata: sem a sua orientação, poucos seriam os leitores a ler "Epicurismo na" em vez de "Ena". O contexto e a imaginação fazem milagres, mas convém não exagerar.
Fiquem desde já os leitores deste blog a saber que:
onde lerem "Safa" deverão ler "Sai mais uma garrafa";
onde lerem "Fonix" deverão ler "Foi com a grandiosidade soberba e malsã de uma fénix";
onde lerem "Uau" deverão ler "Um veterinário da Póvoa de Lanhoso sofreu queimaduras de primeiro grau".
Para que conste.
COMO FALAR DE UM AUTOR QUE NUNCA SE LEU: O excessivo peso que se atribui ao Nobel da literatura (como se a Academia fosse dotada de uma presciência sobre-humana que a distinguisse dos demais júris de milhares de prémios literários) mede-se não tanto em minutos de cobertura mediática (a rotineira nota de rodapé em noticiários televisivos e jornais) como na intensidade e verbosidade das reacções que se continuam a fazer ouvir, dias e semanas após a atribuição, à maneira de ecos tornados mais incómodos pela exiguidade da caixa de ressonância.
Neste ano, atingiram-se zénites de idiotice e leviandade para os quais, admita-se, contribuíram muitas das opiniões de peritos que foram convidados a emitir juízo. De Hélder Macedo a Maria Teresa Horta, passando por Saramago e (pasme-se) Lídia Jorge, muito se falou em feminismo e experiência feminista, em sensibilidade social e em consciência cívica, em experiência e em valores. Falou-se de tudo um pouco, excepto de talento e mérito literário, coisa de que Doris Lessing é superiormente dotada, e da grandeza da sua obra multifacetada.
Não teria sido necessário nada disto (mas deu uma ajudinha) para que surgissem os cínicos do costume, com a aljava repleta de argumentos contra a credibilidade do Nobel, conhecida arma de arremesso politicamente correcta esvaziada de conteúdo, titilados pelo sumário thumbs down de Harold Bloom (dá sempre jeito a um magala ter um fazedor de cânones como primeiro sargento).
A culpa de tudo isto, no fundo, é da própria Doris Lessing. Para além de imune ao vedetismo, de escrever ficção científica, e de ter opiniões sobre política e sociedade, não possui um cunho estilístico marcado. É muito mais fácil desvalorizar o talento de um escritor que não se individualiza pelo estilo brilhante e convoluído do que um qualquer acrobata do verbo. Doris Lessing oferece, assim, o flanco àqueles em cujo espírito, por pura ignorância ou estreiteza de vistas, ausência de estilo individual equivale a desleixo formal.
«Ou seja, para catalogar Doris Lessing não é preciso lê-la, basta incluí-la numa pretensa agenda política do Nobel da literatura» (Lido aqui.)
Nunca ninguém leu aqui, neste blog tão verde, comentários sobre a obra e o mérito de Gao Xingjian, Imre Kertész ou Orhan Pamuk.
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